domingo, 15 de maio de 2011

5º Ultra Trail da Serra da Freita 2010 - Recordações

Agora que se aproxima a data do Ultra Trail Serra da Freita 2011, a ter lugar no dia 03/07/2011, e em que estarei presente na linha de partida e não duvido que também na linha de chegada, achei por bem recordar aqui o post que coloquei no Blog do Run 4 Fun após completar a prova em 2010.

 

«Confesso que após percorrer 70km com 4200m de desnível positivo, me sobram poucas palavras para exprimir o que experienciei durante as 14h47m que demorei a percorrer um caminho lindíssimo que atravessou trilhos, rios, vales e picos montanhosos com horizonte a perder de vista. Mais marcante ainda que a viagem física foi a viagem interior que se operou durante este espaço-tempo e me transportou a recantos interiores menos conhecidos. Talvez o Dean Karnazes tenha razão e uma pessoa saia mesmo modificada por uma experiência destas. Espero que me perdoem o lirismo desta prosa, mas acho que por ora tenho uma boa justificação. Já dizia o poeta que o sonho comanda a vida, e digo eu que quando se concretiza um é tempo de pensar no próximo.»

sábado, 14 de maio de 2011

14º 101 Km de Ronda


No dia 7/05/2011 corri os míticos 101 km de Ronda, no sul de Espanha.

Bem, como relatar uma aventura destas que é vivida de forma muito pessoal por quem a experiencia?

Comecemos pela parte técnica:
A preparação física, desde que iniciei a prática da corrida e a participação regular em provas, no Outono de 2008, até à ultra de 101 km, foi a que está patente no seguinte gráfico, agregado em períodos de 4 semanas:

O resto é mental, como espero transpareça do seguinte relato.


Vou dividir o relato em 4 troços: o primeiro com aproximadamente 40 km e cada um dos seguintes com cerca de 20 km. Vou chamar-lhes os meus períodos das dores. Dores em: joelho; quadríceps; gémeos; bolhas nos pés.

Não é nada habitual em mim sofrer de angústias antes de uma corrida. Costumo ter uma atitude bastante confiante. Mas desta vez havia algo de diferente. Confesso que pela primeira vez abordei uma prova com bastantes receios.

Três semanas antes da corrida fiz um longão de 65 km, seguido 3 dias depois por outro de 46 km. Os últimos 10 km desse último longão foram extremamente penosos, com uma dor excruciante no joelho esquerdo que não me largou até ao fim. Nos dias seguintes custou-me bastante treinar e comecei a recear que a inflamação nos tendões não fosse passar. Como a nível psicológico me custava ainda mais não treinar, continuei a insistir nos treinos regulares de 12 a 22 km. Contudo, no treino de grupo do domingo anterior à ida para Ronda ainda senti dores fortes no joelho. Decidi então deixar de treinar e iniciar uma "dieta" de anti-inflamatórios 3x ao dia.

A ida para Ronda foi feita no autocarro de “O Mundo da Corrida”, onde tive a felicidade de ficar a conhecer uma série de atletas e respectivos acompanhantes, muitos deles já veteranos destas andanças. A viagem foi uma prova em si, tendo durado 10 horas, apenas suportável dada a excelente companhia em que foi feita, com pessoas interessantes e divertidas. Do nosso grupo Run 4 Fun, foi minha companhia no autocarro o Pedro Prates.
Chegados a Ronda convertemos as inscrições de equipa em inscrições individuais (pois faltava-nos um elemento para termos os 5 necessários) e acomodámo-nos o melhor que pudemos no polidesportivo.
 Na manhã seguinte, após o toque de corneta da alvorada e do pequeno-almoço revigorante, dirigimo-nos para o local da partida onde nos encontrámos com o Marco Gouveia e o Luís Boleto.
Às 11h00 é dado o sinal de partida e saímos no meio de uma multidão. Ao fim dos primeiros quilómetros separo-me dos meus colegas. O Prates segue com a equipa “Expresso Lusitano”. O Marco e o Boleto seguem juntos.
Saímos de Ronda e descemos para campo aberto, um grupo compacto de atletas a correr em estradão. Começo-me a adiantar o melhor que consigo, tentando libertar-me desta mole humana.
Os primeiros 34 km são muito rápidos, com poucas subidas. Avanço a um bom ritmo, cerca de 5:35/km. Os abastecimentos são regulares (aproximadamente de 5 em 5 km) e abundantes (devo ter ingerido "quilos" de bananas e várias laranjas ao longo de toda a prova). Apesar disso não me arrependo de vir acompanhado da minha costumeira mochila de hidratação a qual me dá uma sensação muito reconfortante de apoio em caso de necessidade, provida que está de litro e meio de água e alguns géis que trago para o que der e vier.
Continuo a avançar e a deixar atletas para trás. O joelho vai dando sinal de se poder vir a agravar a inflamação e eu espicaçado por esse receio atemorizador avanço cada vez mais depressa, como se fugindo de um enxame de abelhas enraivecidas. O pensamento que me atravessa a mente é que é mais fácil aguentar menos horas de sofrimento mesmo que com maior esforço físico do que uma eternidade de dor.
Felizmente a dor vai-se mantendo -  matreira - a um nível controlado, mas pronta a morder a qualquer momento.
Ao km 35 chego a Arriate, pequena povoação onde tem início a primeira verdadeira subida. São 4km com 9% de inclinação. Como ainda me sinto fisicamente bastante fresco, resolvo fazê-la em parte a andar, em parte a correr.
Besteira da grossa! Consigo chegar ao km 40 ainda antes de ter completado 4 horas de prova, mas assim que chego lá acima, desço 100 m e começo a andar em terreno plano é que me consciencializo que os quadricepes estão já muito maltratados, o que nesta fase prematura da prova é muito preocupante. No entanto lá sigo, tentando ignorar esta nova dor, a qual tem a vantagem não despicienda de me fazer esquecer o joelho. 

Mantenho um ritmo de 6:20/km durante os 19 km seguintes até chegar à povoação de Setenil ao km 59. Esta povoação é muito interessante, com casas embutidas na rocha. Passamos pela estrada junto a umas explanadas onde a comitiva portuguesa nos espera para nos oferecer o encorajamento muito desejado. São agora 17h da tarde e estou em prova há já 6h. Com o novo alento transmitido pelos aplausos nem me apercebo do abastecimento e sigo encosta acima. A partir daqui resolvo não repetir o erro anterior e subo uma ladeira interminável de quase 10 km em passo de marcha rápida, abrindo excepções para correr apenas quando o terreno é praticamente plano. Vou a um ritmo de 8:00/km. Aqui começo a ser atacado por esticões nos gémeos. Chego a recear que me dê alguma cãibra paralisante que me impeça de prosseguir. Amaldiçoo-me por não ter trazido sal para repor os electrólitos perdidos pela diurese e sudação. Sei que mais adiante, no abastecimento do Quartel da Legião, vai estar à minha espera uma sopa quentinha e muito salgada, mas até lá ainda faltam uns valentes quilómetros onde tudo pode acontecer.
 Chegado finalmente ao alto da serra, a 900 m de altitude, tenho a alegria de desfrutar de uma vista desimpedida para Ronda ao fundo e o Quartel no seu sopé.  
Mas o alívio é de curta duração. Assim que começo a descer apercebo-me que as pernas já estão muito massacradas e a progressão em descida até ao Quartel não vai ser particularmente rápida. Ainda assim consigo manter um ritmo de cerca de 6:30/km, o que me faz finalmente chegar ao Quartel da Legião, no km 77, às 19h20, após 8h20 de prova. Isso ultrapassa as minhas melhores previsões, o que me permite conceder-me um breve repouso de cerca de 10 minutos para retemperar forças e ingerir a sopa quente, o iogurte e mais uma banana. Neste ponto tinha à minha espera um saco com uma muda de roupa, que se revelou dispensável e por isso pedi para ser enviado directamente para a meta, nos camiões da Legião.

Arranquei do quartel com a perspectiva de ainda ter duas horas diurnas para percorrer os 24 km finais. Pouco depois essa perspectiva optimista começou a revelar-se uma miragem pois dei início à famosa subida do “Purgatório”, com alguns quilómetros que chegam a ter 13% de inclinação. Aqui as bolhas que se tinham avolumado em ambos os pés sobrepuseram-se às restantes dores e pude finalmente esquecer-me que tinha pernas. Chegado à Ermita, no alto, restava descer até ao rio, no km 89, e percorrer junto a ele o único single-track técnico de todo o percurso. Felizmente fi-lo todo ainda durante o dia, o que me permitiu fazer este percurso a uma velocidade razoável sem necessitar de recorrer ao frontal. Só ao km 95, quando se iniciou enfim a última subida para Ronda é que deixei de ter visibilidade e me socorri do frontal. Os últimos 18 km, desde a Ermita até à meta, foram percorridos em 7:30/km, tendo eu sido ultrapassado por vários atletas, mas por mais que eu tentasse as pernas já não respondiam com maior celeridade. A subida final é feita a andar e com vista para a famosa ponte de Ronda. Chegado lá acima resta o quilómetro final e busco em mim as forças restantes para conseguir correr ou até talvez tentar um último sprint final antes de cortar a meta. Chego à meta com os vivas da alegre comitiva portuguesa, e também dos espanhóis, sempre muito carinhosos e expansivos.

Completei os 101,3 km em 11h40m, no lugar 101 da geral (em 1999 finalistas) e 69 do escalão de Veteranos A. Vou jantar com o sentimento da missão cumprida e bem acima das minhas expectativas. Valeu a pena cá vir e foi mais uma experiência digna de contar aos filhos e aos futuros netos.

No dia seguinte de manhã reúno-me com os restantes companheiros da aventura Run 4 Fun e fico extremamente satisfeito por verificar que a prova também correu a seu contento. Com muita determinação, cada um conseguiu os seus objectivos, e apesar do Boleto não ter terminado, a verdade é que quase duplicou a sua anterior distância máxima, completando 77 kms, o que já é um enorme feito.

Uma última palavra para gabar a organização, que na minha humilde opinião esteve impecável. Só isso, juntamente com as amizades criadas, já fez valer a pena cá vir.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

4º AXTrail series 2011

AXTrail series 2011 - Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

 

#01 SERIE - Foz de Alge / Ferraria de São João (10-04-2011)

 

 

 

O que se pode dizer acerca da primeira série do AXTrail? Numa frase lapidar: fiquei adepto!
O fim-de-semana iniciou-se com uma estadia muito agradável na Casa de Xisto “Zé Sapateiro,” cujos proprietários revelaram ser extremamente atenciosos. Eu, o Zé Carlos Santos, o Emanuel Oliveira e o Paulo Jorge Rodrigues trouxemos a família, tendo as três primeiras famílias pernoitado neste turismo rural enquanto que o Paulo e a mulher dormiram em Figueiró dos Vinhos.
 Após um pequeno passeio pedestre pela vila, fomos jantar no restaurante “Varanda do Casal”, na Aldeia do Casal de S. Simão, onde nos deliciámos com um repasto feito à base das especialidades locais (em especial um enchido denominado Maranhos) e um bom vinho regional (deveria ser considerado doping :-). No restaurante encontrámos o José Moutinho, Grão-Mestre da Confraria Trotamontes e co-organizador da prova, que nos enriqueceu e divertiu com as muitas histórias e conhecimentos do trail de que é pródigo. Terminado o agradabilíssimo convívio voltámos aos nossos aposentos para uma boa noite de repouso.
O dia seguinte iniciou-se com um pequeno-almoço substancial seguido da deslocação por autocarro para a Foz do Alge onde a prova tem início. Os vários autocarros foram trazendo os diferentes grupos e fomos aproveitando o compasso de espera para confraternizar e ficar a conhecer melhor os companheiros de aventura. Eu tive a feliz oportunidade de rever um companheiro do Trail de Sicó, o Luís Ricardo, de Portalegre, que se viria a revelar um companheiro valoroso na presente prova. Outra das diferenças muito significativas do trail relativamente à estrada é que o companheirismo e os laços que se criam são mais densos e ricos. Para mim, nado e criado em Lisboa, é particularmente interessante conviver com malta proveniente de todo o país.
Tal como o site da prova indica, trata-se de “uma prova de 31 km de uma paisagem soberba e uns trilhos fantásticos, na companhia da Ribeira de Alge e com passagem pelas Aldeias do Xisto do Casal S. Simão e Ferraria S. João.” Ou seja, para além de se realizar num trajecto de inigualável beleza, percorrendo “paisagem de conto de fadas,” Aldeias de Xisto, fragas e montes, ainda se usufrui da companhia de um grupo de “loucos que correm” literalmente embrenhados numa mesma aventura.
Tínhamos sido avisados que os primeiros 20 km iriam ser muito mais duros do que o perfil altimétrico indicava, uma vez que o terreno era bastante “virgem” obrigando a “saltinhos” constantes, sem grande visibilidade para o terreno à nossa frente. Esse aviso veio a revelar-se profético, e a certa altura eu sentia-me como se estivesse a correr nas selvas do Vietname, entrevendo fugazmente uns atletas à minha frente e ocasionalmente ouvindo vozes fantasmagóricas atrás de mim. Quando cheguei finalmente ao quilometro 20 e saí da “selva” é que finalmente me apercebi do estado lastimável em que as minhas pernas se encontravam, faltando ainda cerca de 11 km para terminar (ao olhar para o meu Garmin, verifiquei espantado que marcava já mais de 700 m de desnível positivo)! Foi nestes últimos quilómetros que o apoio moral do Luís Ricardo se revelou fundamental para que eu prosseguisse até ao fim destes duríssimos quilómetros finais. Prosseguimos juntos, subindo a passo os 450 m até à cumeada da Serra do Espinhal e depois descemos abruptamente até Ferraria de S. João onde cortámos a meta em simultâneo, junto ao centro de BTT. Depois almoçámos o churrasco preparado pela organização.
Malgrado o pequeno e irrelevante atraso inicial, a organização esteve impecável em todos os aspectos.
Gostaria de realçar também as provas magníficas dos meus companheiros.
Relativamente à prova do Emanuel não há muito a dizer: fez a sua habitual corrida a um ritmo certinho, inteligente e muito eficaz, tendo alcançado um excelente 30º lugar da geral.
O Zé Carlos demonstrou mais uma vez a fibra de que é feito, ao prosseguir inabalavelmente, mesmo sob fortes dores, após uma entorse mal-afortunada que contraiu mal tinha percorrido 12 quilómetros. Encontrei-o cerca do quilómetro 14 e já vinha em grande sofrimento. Perguntei-lhe se não queria que permanecesse com ele, mas negou-se terminantemente a abandonar a prova ou a atrasar quem quer que fosse. Aliás, tal não seria possível suceder pois volto a encontrá-lo novamente ao quilómetro 20, para surpresa minha, pois embora não duvide das enormes qualidades atléticas do Zé, correr com a bem visível “batata” que ele já carregava no tornozelo já me parecia algo sobre-humano. A subir continuava imparável, sendo as descidas o que mais lhe custava. E nem esta derradeira oportunidade de parar e dar o devido descanso ao tornozelo muito massacrado ele aproveitou. Subiu imparável até à cumeada da Serra do Espinhal e só terminou na meta num mui-honroso 52º lugar em 132 finalistas e 5º no seu escalão com 4:17:56. Este homem é mesmo feito de aço!
O Paulo Jorge esteve também em grande, e só o facto de ter completado um trail com este nível de dificuldade, tendo-se iniciado na corrida há tão pouco tempo, é um sinal inequívoco da persistência e força de vontade do Paulo. Mas deixo-vos com as suas próprias palavras e julgo que ele perdoará a inconfidência:
“Para mim a prova teve 2 partes, até perto do km 20 correu-me muito bem, depois, perdi-me e fiz mais 4,5 km mas o pior foi que os últimos 9 tive cãibras fortíssimas como nunca tinha tido, o que me obrigou a fazer esses últimos kms a andar e a parar a cada cãibra, ainda não percebi muito bem o porquê pois não me sentia nada cansado e estava a correr-me mesmo muito bem.
(…) Foi um excelente fim-de-semana, começando no agradável jantar e prolongando-se com a prova e nós ainda ficamos para segunda-feira onde aproveitamos para conhecer um pouco mais da zona. Pena o acidente do Zé Carlos para ensombrar o fim de semana…eu nem queria acreditar quando ele me disse que ainda fez os 19km naquele estado e que ainda foi ter contigo e com o Helder!...”
Para terminar esta saga, faço coro com o Paulo Jorge: “Sem duvida um fim-de-semana a repetir!”