segunda-feira, 8 de agosto de 2011

25º Swissalpine Davos K78



Dado que a minha mais recente aventura desportiva teve lugar nos Alpes Suíços, mais precisamente na região de Davos-Klosters, local onde Thomas Mann situou um dos seus romances mais famosos, gostaria de começar esta crónica parafraseando as linhas de abertura do romance:
“Em pleno verão, um jovem simples partiu de Lisboa, sua cidade natal, para Davos-Platz, no cantão de Graubunden. Ia de visita por uma semana.”
No entanto, como infelizmente já não sou assim tão jovem nem tenho o talento de Thomas Mann, as próximas linha não terão, nem de perto, a qualidade literária da obra-prima que é “A Montanha Mágica.” Seja como for, vou-me colar à obra com a vã esperança que um pouco da sua pátina dourada dê algum lustro à minha prosa.
Numa leitura mais prosaica, o romance descreve o internamento de um jovem recém-licenciado num sanatório para tratamento de uma tuberculose, ou seja a antítese de uma prova desportiva de fundo. A um nível mais profundo trata da inserção do indivíduo no seu tempo e na tensão entre este e as forças sociais vigentes. “Ao ser humano não cabe apenas viver a sua vida individual. Consciente ou inconscientemente, ele toma também parte na vida da sua época e da sua contemporaneidade.” E que ânsia mais premente nesta nossa época órfã dos grandes heróis, senão a de ultrapassar os limites do individuo, consubstanciada na corrida de fundo e em particular no Ultra Trail (corridas superiores a 42,2 km, em Montanha, longe do alcatrão)?
Foi com esse espírito que fiz as malas no domingo anterior à prova e me preparei para um pequeno estágio de 4 dias para me aclimatar à altitude (Davos fica a 1540 m e gaba-se de ser a cidade mais alta da Europa). Viajei com os quatro elementos da família, uma enorme e constante fonte de apoio e de momentos mágicos vividos em conjunto. Eles também iam participar no K10 (10,5 km) e também tinham uma grande expectativa relativamente a estas férias desportivas.
Tal como Hans Castorp, o protagonista do Romance, foi de comboio que chegámos a Davos-Dorf: “Ao longe, no meio da paisagem, surgiu um lago de águas pardacentas, as margens debruadas a pinheiros negros de pontas esguias, que se iam diluindo até deixar perceber a rocha árida e nebulosa da montanha em redor.”

Davos
Pouparei os poucos leitores que tiveram a paciência de me seguir até aqui a uma descrição mais meticulosa e direi apenas que depois de uma semana fantástica, num cenário idílico, em que nos fartámos de caminhar e subimos de teleférico ao alto dos altos montes que rodeiam Davos, e ainda participámos em alguns dos muitos eventos levados a cabo pela irrepreensível organização, chegou por fim o grande dia.

No sábado, dia 30, acordei às 5h30 cheio de adrenalina. Preparei a mochila de hidratação, que hesitei levar até ao último momento, dado que os abastecimentos prometiam ser frequentes e abundantes. O que me decidiu no fim foi a baixa temperatura que se previa para o planalto que teríamos que percorrer. Assim, coloquei na mochila o corta-vento, uma camisola térmica, luvas, 7 geís que não dispenso pois são calorias de fácil e rápida ingestão, e um litro de água. Calcei as meias de compressão, os ténis Salomon, e vesti com o maior orgulho a camisola laranjinha do Run 4 Fun. Tomei ainda a precaução essencial de besuntar o rosto e pescoço com o protector solar.

Quando saí de casa estariam cerca de 8 graus e o céu apresentava-se nublado. Cheguei ao Estádio pouco antes das 7h. Foi com alegria que encontrei na linha de partida o Ricardo Diez, que, juntamente com o Gonçalo Cardoso, iria ser um companheiro inestimável na parte inicial da corrida. Procurei o Gonçalo com o olhar mas não o encontrei. Às 7h em ponto é dado o sinal de partida (que os Suíços não brincam com a pontualidade). Arrancamos no meio da algazarra geral. As ruas estão já, a esta hora tão matinal, repletas de gente que nos anima e incentiva com gritos, buzinas, chocalhos, badalos. Enfim, uma enorme participação popular que adiciona imenso colorido e entusiasmo à prova. Ao fim de meia-dúzia de quilómetros é com alegria que vemos o Gonçalo juntar-se a nós.
Avançamos em amena cavaqueira, mas em bom ritmo. Comentamos entre nós que os atletas devem estar equivocados, que com este ritmo logo no início (cerca de 5 min/km) de uma prova de 79 km, iríamos rebentar todos lá mais para a frente. No entanto como o percurso puxava, mantivemos a velocidade. Ao fim de 12 km abandonamos o alcatrão e entramos na primeira subida do primeiro trilho e é aí que a melhor forma do Ricardo leva a melhor, ele arranca e já não mais o vemos. As corridas são assim mesmo, cada um deve seguir ao ritmo que lhe permita um melhor usufruto da prova. Seguimos, o Gonçalo e eu, por uns trilhos estreitos mas rápidos, imersos numa mole humana.

Ricardo a caminho de Davos
Até Filisur, ao km 31, o percurso é essencialmente a descer (dos 1500 para os 1000 m) e em consequência fazemos esta parte a uma velocidade muito rápida, tendo chegado aos 31 km em 2h37m, em 258º lugar, e tendo feito uma média de 5:09 min/km. Baseado nas indicações da organização, tinha calculado as horas em que deveria passar em cada posto a fim de fazer um tempo final de prova de cerca de 10h. Em Filisur constato que tenho 30 minutos de avanço sobre o plano. Dizem os entendidos que esta normalmente não é boa estratégia, pois o ácido láctico acumula-se nos músculos numa fase precoce da corrida e mais tarde vem-se a pagar essa audácia. Foi com alguma apreensão que constatei que tínhamos ainda 48 longos quilómetros pela frente para comprovar essa hipótese nefasta. E que 48 quilómetros nos esperavam! O papelucho com o perfil altimétrico que eu levava comigo não enganava: aqui é que começava a subida.
Até ali mal tinha parado nos abastecimentos e ia bebericando da água da mochila, no entanto a partir deste ponto passei a parar em todos os abastecimentos para comer e beber e sobretudo servia-me como desculpa para repousar um pouco. Sempre que pude bebi uma sopa “boullion” morna e salgadinha, que me soube muito bem. Comi nogado, banana, bolinhos e um gel de 10 em 10 kms. Bebi chá isotónico, água e coca-cola. Nos 9 kms seguintes o tempo esteve quente e soalheiro e necessitei beber cada vez mais.

O Gonçalo e eu à passagem por Filisur

Em Filisur começa a subida para Bergun. Passámos por uns trilhos com uma subida acentuada em que pela primeira vez fomos obrigados a caminhar, correndo apenas ocasionalmente (este padrão repetiu-se de Bergun para diante). Quando chegámos aos 1476 m iniciámos então a descida até Bergun. Foi aqui que tive a minha primeira caimbrã, no preciso momento em que arranquei bruscamente para iniciar a descida. Apesar da dor e da rigidez na perna, procurei manter-me calmo, respirei fundo várias vezes e disse para mim mesmo: “vou andar que isto há-de passar”. Dei várias passadas cautelosas e a dor mantinha-se mas a rigidez pareceu aliviar, portanto recuperei a confiança em que não seria ainda aqui que daria a aventura por terminada.
Consegui por fim descer até Bergun, ao km 40, com 3h55m de prova e em 240º lugar, tendo mantido um ritmo de 9:04 min/km nos últimos 9 kms. Milagrosamente, e apesar dos percalços, tinha conseguido subir lugares na tabela classificativa, sobretudo graças ao ânimo constante do Gonçalo, que veio o tempo todo a puxar por mim! Aliás, é à excelente companhia deste bom amigo que devo uma primeira metade de corrida muito gratificante.
Bergun é uma povoação muito bonita, situada num vale pitoresco ladeado de montanhas cobertas de abetos.

Bergun

De Bergun (40,2 km e 1365 m) até Valzana (48,7 km e 1952 m) o caminho é feito meio a correr meio a andar e eu chego lá já bastante mais moído e menos fresco do que nos kms iniciais. A seguir a Valzana começa o verdadeiro desafio. É aqui que tem inicio a parte do caminho em altitude e o percurso verdadeiramente técnico. Por volta dos 2000 m os pinheiros começam a rarear e apenas se vislumbra vegetação rasteira. Entramos num single-track que sobe 340 m em apenas 1,4 km! Como melhor trepador que é, o Gonçalo adianta-se e não torno a vê-lo. Lá sigo ao ritmo possível, com cada passada a revelar-se a um esforço extenuante. Sou ultrapassado por vários atletas.
De Tschuvel (50,1 km e 2290 m) até Keshhutte (52,9 km e 2632 m) a subida já é um pouco menos acentuada. De tal forma que até permite de vez em quando alguns passos em ritmo de corrida numa euforia efémera. Keshhutte é a passagem para o planalto. Está assinalada por uma hospedaria rústica em madeira onde nos fornecem o abastecimento e uns sacos de plástico à laia de corta-vento, pois começa neste momento a cair uma chuva miudinha. Estou no km 52,9 e tenho agora 6h14m de prova. Os últimos 13 km foram feitos em 2h20m a um ritmo de 10:08 min/km. Estou neste momento no 266º lugar. Caí apenas 8 lugares na classificação desde Filisur. Ou seja, apesar de tudo parece-me que a estratégia (ou falta dela) da maioria dos corredores tem sido bastante semelhante à minha.

Subida para Keshhutte

Entro no planalto, que começa logo com uma descida num single-track bastante estreito, com muitas pedras e lama. É difícil ultrapassar, mas cedo lugar, sem qualquer hesitação, sempre que alguém se aproxima. Descemos 230 m e voltamos a subir. Vejo-me livre do saco de plástico pois deixou de chover e estou a ficar suado. Passamos ao lado de um lago numa zona muito bonita já perto do Sertigpass. Na subida para o Sertigpass começa a chover copiosamente e vejo-me forçado a vestir o meu corta-vento. Após apenas alguns minutos tenho as mãos enregeladas e tenho dificuldade em calçar as luvas. A subida é bastante acentuada mas felizmente curta. Passo por alguns atletas que arquejam consideravelmente.  
Chego enfim, às 7h21m de prova, a Sertigpass, o ponto mais alto do percurso, a 2739 m, 58,3 km do caminho, imerso no meio da névoa. Nunca antes tinha corrido até um ponto tão alto. Felizmente não sinto nenhum dos males de montanha que por vezes afectam os atletas. Sinto-me antes eufórico, exultante de júbilo por ter aqui chegado.

Em Keshhutte
A partir daqui é sempre a descer até Davos. A descida é perigosa e escorregadia devido à chuva. Passamos ao lado de neve. Ao fim de 3 km deixamos um single-track muito técnico e de inclinação acentuada e entramos num caminho de terra batida muito mais transitável. No meio termo descemos 540 m e já estamos a 2200 m no km 61. Depois é descer o mais depressa possível. Desde que os quadricepes aguentem, o fim já se vislumbra no horizonte! Até chegar às primeiras povoações (Sertig Dorfli, 65,4 km e 1861 m) ainda consigo progredir rapidamente (8h05m de prova). Depois foi já com maior dificuldade que os quilómetros já eram muitos. Entretanto despi o corta-vento pois a temperatura voltou a subir com a descida.
Após mais alguns quilómetros atribulados, às 9h36m de prova chego finalmente ao estádio em Davos. Foi com uma enorme alegria que cortei a meta de mão dada com o meu filho Rui, que ostentava orgulhosamente a medalha do K10 (10,5 km) ao peito. Cheguei completamente exausto mas feliz, em 261º lugar entre 1011 finalistas. O meu Garmin marcava 80,26 km e 3534 m de desnível positivo. O vencedor, um Sueco, conseguiu chegar numas incríveis 6h11m.

Chegada à meta

Reencontrei a minha linda família e eles descreveram-me a sua aventura no K10. Foi também para eles um belo momento de superação pessoal o cruzar da linha de chegada no estádio, algumas horas antes. A minha filha Rita adorou em particular todo o incentivo que recebeu do público. Sentiu-se uma heroína. Com 1h22m o Rui foi 7º no seu escalão e a Rita com 1h37m foi 13ª. A Helena acompanhou a Rita até quase à meta, quando esta última aproveitou uma distracção da mãe para arrancar num sprint furioso e assim terminar à sua frente.

Rui
Rita
Helena

Um elemento que destacaria em particular desta magnífica experiencia é a vasta participação em termos etários e de género nas várias corridas do programa (K10, K21, K30, C42, K42 e K78). Viram-se atletas de variadas idades, com 7 atletas com mais de 70 anos a terminar o K78 (o primeiro dos quais em 11h14m)! A única prova que teve um limite mínimo de idade foi o K78. O único reparo à organização foi a reduzida utilização do Inglês, dado que o Alemão foi a língua predominante. Mas enfim, num país com 4 línguas oficiais, talvez seja pedir demasiado. De resto a organização esteve impecável.

Termino como comecei, com uma citação, algo pretensiosa no contexto em que a coloco (espero que me perdoem), de “A Montanha Mágica”:
“Para que um individuo se disponha a realizar uma tarefa de peso, para lá dos limites do absolutamente necessário, sem que a sua época forneça uma resposta satisfatória à questão da finalidade, é fundamental viver em solidão e independência morais – o que comporta algo de heróico e raramente sucede – ou ser dotado de uma vitalidade extremamente robusta.” No meu caso a vontade de realizar estas pequenas proezas pessoais não advém de uma constituição particularmente robusta ou de uma “solidão e independência morais” mas encontra antes forças no apoio da família e no grupo de companheiros Run 4 Fun e de outros amigos que vou fazendo no meio dos Trilhos. E isso, juntamente com as montanhas, basta-me.