terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

11 Lições que a Corrida me ensinou em outras tantas Provas



A Corrida tem sido para mim uma fonte constante de aprendizagem, tanto ao nível desportivo como ao nível pessoal. Como o escritor Haruki Murakami tão bem descreve na sua auto-biografia desportiva, "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo", a corrida é uma excelente metáfora da própria vida.

 Julgo poder afirmar (e peço que desculpem o meu pretensiosimo) que se podem ilustrar algumas importante lições de vida, tanto das minhas próprias experiências como das que observo nos meus companheiros de métier. Vou aqui descrever algumas dessas lições, identificadas em provas relevantes.


1.    O fundamental é o prazer de participar.

19ª Meia Maratona de Lisboa, 2009: num período extremamente ocupado da minha vida, resolvi participar na Meia Maratona de Lisboa. Infelizmente, tudo o que consegui fazer, à laia de preparação, foram 2 treinos de 10 km a 3 semanas da prova. Há meses que não corria regularmente, mas as saudades de participar numa prova eram muitas. Assim, lá alinhei na linha de partida, no dia 22 de Março, pronto para sentir a exaltação que a corrida sempre me proporciona. Fisicamente custou-me bastante fazer todo o percurso, e terminei os 21,1 kms com o meu pior registo de sempre, 2h22m, 5026º classificado num total de 5504 atletas que terminaram. Ainda assim, posso afirmar, inequivocamente, que a alegria de participar compensou bastamente tudo o resto.

2.    Se não conseguires correr, anda.

25ª Maratona de Lisboa, 2009: naquela que foi a minha estreia na mítica distância, atingi o famoso “muro” cerca do 30º km. Estava a sentir-me razoavelmente bem, a correr a um ritmo bem abaixo dos 6’/km e, de repente, numa questão de algumas dezenas de metros, tudo o que conseguia fazer eram uns muito penosos 8’/km. Tive que me arrastar arduamente até à linha da meta, onde terminei com um registo de 4h10m. Nesses últimos 10 kms andei mais do que corri, mas cheguei ao fim e cumpri o objectivo, que era tão somente terminar a minha primeira maratona.

3.    Acompanhado é mais fácil e mais divertido.

III Ultra Trail da Geira, 2010: tratou-se da minha primeira experiência em trail, e logo na distância de 50 km. Pouco depois do 8º km, juntei-me a um companheiro que corria ao mesmo ritmo que eu e, a partir daí, seguimos o restante caminho apoiando-nos mutuamente, trocando histórias de vida, e puxando um pelo outro. Sem a sua ajuda eu teria tido muita dificuldade em conseguir correr os últimos 10 km. No fim cruzámos a meta juntos, para selar a amizade que se foi cimentando pelo caminho.
Foi este também o primeiro trail em que fui acompanhado pela minha família, que participou na caminhada (a primeira de muitas) e me proporcionou mais um fim-de-semana divertido e inesquecível. Devo dizer que o seu apoio constante, tanto nos treinos como nas provas, tem sido fundamental para o meu desenvolvimento pessoal, enquanto desportista e enquanto pessoa.

4.    Não deixes que um revês te esmoreça.

I Ultra Trail de Sesimbra, 2011: cerca de 9 kms depois do início desta prova de 50 kms, ia bem posicionado dentro dos 20 primeiros lugares, seguindo absorto num grupo de 6 atletas. Neste ponto enganámo-nos no percurso e percorremos cerca de 1 km até nos apercebermos do erro. Quando retomámos o percurso original eu tinha caído para 97º lugar da geral, ou seja, para a cauda da corrida.  Depois tive que recuperar, paulatinamente e com alguma dificuldade, deste atraso. O que é certo é que, por ter acreditado e, quem sabe, talvez espicaçado por este revês, consegui terminar a corrida em 21º lugar, após 6h32m de muita dureza, mas também de muita beleza natural.

5.    Acredita sempre.

5º Ultra Trail da Freita, 2010: O tempo limite para acabar esta prova de 70 kms tinha sido fixado em 15 horas pela organização. Já só restaria cerca de uma hora quando ainda me faltava cumprir um dos troço mais exigentes (o famoso PR7), composto por uma descida muito técnica seguido por uma subida tão abrupta que me via forçado a parar a cada dezena de metros para recuperar o fôlego. Neste ponto confesso que tive algumas dúvidas em que conseguisse terminar dentro do tempo permitido. Contudo, forcei-me a continuar a subir o mais depressa que me era humanamente possível (mais adequado seria dizer, “arrastei-me o menos devagar possível”).
Depois de um esboço de “sprint” nos kms finais, no meio dos pinheiros, lá cheguei em 14h47m, quase in extremis, completamente esgotado.

6.    O mais difícil não é a prova mas sim a preparação.

14º 101 km de Ronda, 2011: 4 meses seguidos com um volume de treino de cerca de 370 km / mês; treino cruzado (corrida, natação e ginásio, fundamentalmente); treinos de madrugada, ao meio-dia, à noite, quando os afazeres do trabalho e da família o permitiam; dificuldades na recuperação de uns treinos para os outros; dores musculares, tendinites, dores nas articulações, bolhas nos pés, etc.
Enfim, custaram mais os 1500 km de preparação do que os 101 km de prova. No entanto, esses kms de preparação foram essenciais para conseguir atingir os meus objectivos.

7.    “A dor é temporária, a glória é para sempre”.

14º 101 km de Ronda, 2011: 3 semanas antes de Ronda sofri uma lesão muito desconfortável no joelho esquerdo, durante um treino de 46 km.  As dores eram de facto agudas e intensas.  Apesar disso, consegui continuar a treinar, embora de forma mais moderada, e não desisti da ida a Ronda, mantendo a esperança de que a dor se atenuasse e não me afligisse demasiado durante a prova. Essa expectativa veio a confirmar-se, pois embora tenha experienciado vários tipos de dores durante os 101 km, felizmente nenhuma foi suficientemente incapacitante para me tolher o passo e consegui completar a prova, ao fim de 11h40m.

8.    Para melhorares, analisa os teus erros.

8ª Maratona do Porto e 26ª Maratona de Lisboa, 2011: Tinha grandes expectativas em baixar a barreira das 3 horas na Maratona do Porto, visto ser aquela onde eu tinha o melhor registo (3h09m em 2010) e aquela com um percurso mais favorável. No entanto, as minhas expectativas sairam goradas, pois falhei o objectivo por apenas 54 segundos (3h00m54s). Dei o meu melhor e mesmo assim não foi suficiente.
Acicatado por este desaire, concentrei-me na Maratona de Lisboa e treinei afincadamente nas 4 semanas que mediavam estes dois eventos. Analisei as minhas fraquezas e, no pouco tempo disponível, tentei colmatar as falhas encontradas. Introduzi pela primeira vez treino de séries e fiz treino em rampa para me preparar para a subida da Almirante Reis. E em Lisboa cumpri o meu objectivo: ganhei 3 minutos relativamente ao Porto, 2011, e terminei em 2h57m.

9.    Conhece-te a ti mesmo (doseia o teu esforço).

II Trilhos dos Abutres, 2012: parti devagar e fui ultrapassado por dezenas de atletas nos primeiros 16 kms. Não me deixei intimidar e continuei a fazer a minha própria corrida. O meu corpo dizia-me que não era boa ideia acelerar tão cedo. No 20º Km, cumpridas 2h30 de prova, atíngi finalmente o ponto mais alto do percurso. Depois comecei a descer e a ultrapassar atletas. Tanto nas descidas como nas subidas ultrapassei dezenas de corredores. Cheguei finalmente à meta ao fim de 5h49m, em 27º lugar da classificação geral.

10.    Perder uma batalha não é perder a guerra.

Até agora ainda não desisti em nenhuma das 75 provas que já completei. Mas espero que quando isso inevitavelmente acontecer (por ocorrer alguma lesão, por se me esgotarem completamente as forças, ou por outro evento ou factor inesperados) eu esteja pronto a aceitar esse facto com naturalidade. É uma das lições que ainda me falta aprender nas corridas (na vida julgo já a ter aprendido).

11.    Não dês demasiada importância às dificuldades que a vida te coloca.

As 75 provas, e os 10 mil quilómetros que já percorri em treinos nos últimos 3 anos, junto com outros companheiros ou sozinho com os meus pensamentos, ajudaram-me a relativizar os problemas que a vida me coloca. Sou uma pessoa mais calma, mais saudável e melhor com  a vida do que se não me dedicasse a esta actividade tão enriquecedora.

5 comentários:

  1. Luís, fantástica partilha! Continua nessa senda, porque és uma grande inspiração!!!

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  2. Fantástico Luís!

    Conseguiste formalizar algo em que pensamos enquanto corremos. Revejo-me também nestas sábias palavras. Para quando um livro?

    Fica o desafio!

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  3. São verdadeiras lições de vida. Muito bom!

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  4. Grandes Lições, Mestre Luís!
    Obrigado pela partilha.

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  5. Luís, uma vez mais em grande forma, desta vez na prosa. Uma vez mais a mesma pergunta muito séria: quando é que passas tudo isto a livro?

    Estarei na 1ª fila para o autógrafo do autor!

    Grande abraço e boa sorte para Sevilha.

    ZCS

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