domingo, 27 de maio de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preparação - 3º Mesociclo

"O caminho faz-se caminhando"

Nas 4 semanas que decorreram entre 23/04 e 20/05, completei mais um mesociclo de preparação para o Ehunmilak.

Incluíndo as duas provas em que participei, os 58 km do Oh Meu Deus e os 105 km do UTSM, corri 338 kms com 9461 m D+. Desta vez completei menos 50 kms que no ciclo anterior (mas introduzi mais 800 m D+), pois a preparação e recuperação das provas em que me tinha inscrito obrigaram a reduzir a carga.

A participação em provas é importante como preparação para o objetivo principal, mas, por outro lado, obriga a um aliviar do treino na semana anterior, com o intuíto de chegar em boa forma à prova, e na semana posterior o corpo e a mente naturalmente exigem um período de recuperação.

Já iniciei um novo mesociclo, o penúltimo antes da prova. Esta semana foi preenchida por treino muito leve, pois ainda me sinto bastante massacrado depois dos 105 kms do UTSM e de todas as outras provas em que tenho participado desde o início do ano (UTA em Janeiro, Maratona de Sevilha em Fevereiro, AXtrail e Trail de Penafirme em Março, UTS em Abril, OMD e UTSM em Maio) . Só no fim de semana é que consegui voltar a introduzir algum volume (22 km no sábado + 21 km no domingo).

Até ao Ehunmilak, por enquanto não estou inscrito em mais nenhuma prova, pois tenciono concentrar-me nos treinos, que prometem ser duros!

to be continued...


quinta-feira, 24 de maio de 2012

I Ultra Trail da Serra de São Mamede



“O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.”
- José Saramago, Levantado do Chão


Foto de Paula Fonseca

Paisagem foi o que não faltou no passado sábado. Paisagem bela, bruta, selvagem e domesticada, de cortar a respiração. Paisagem anterior ao homem e com a marca que ele depois lhe deixou, sentado sobre as serras e os montes e deslizando ao longo dos rios e dos vales.

Mas estou-me a adiantar à história. Esta teve início quando em boa hora me inscrevi no 2º Ultra Trail de 100K da minha ainda recente encarnação desportiva, a instâncias de um bom amigo, o Luís Ricardo, natural do municipio de Portalegre. Desta feita para participar no I Ultra Trail da Serra de São Mamede, prova que nasceu da empreendedora iniciativa do Atletismo Clube de Portalegre.






Altimetria da Prova

Percurso da Prova


Conheci o Luís Ricardo no 2º Trail das Terras de Sicó, em 2011, e logo me cativou pela sua alegre expontaneidade, verbo escorreito e trato afável. Desde então cruzámo-nos em mais algumas provas,que nos permitiram alimentar uma amizade forjada na cumplicidade de um forte interesse partilhado e na sua natural simpatia. Como Alentajano hospitaleiro que é, convidou a minha família a partilhar o espaço da sua durante um fim de semana da Pascoa, e assim passámos um par de dias inolvidáveis, a usufruir de tudo o que de melhor o Alto Alentejo tem para oferecer. Pelo meio aproveitámos para fazer um excelente treino pela zona de onde o Luís é natural, e onde vai edificando o seu Refúgio.


Luís Ricardo - Foto de José Sousa
  
Na passada 6ª feira voltámos ao lar da acolhedora família Ricardo, agora para nos prepararmos para a aventura desportiva que se iria desenrolar. Tomado o jantar, dirigimo-nos para o Estádio, onde se encontrava o secretariado em que se levantavam os dorsais e onde iria ter início a prova, às 4 horas da madrugada. Já em casa, só tivémos tempo de preparar o material obrigatório (frontal, pilhas, reservatório com 1 litro de água, 1000Kcal sob a forma de géis e barras, apito e telemóvel) e enfiá-lo dentro da mochila de hidratação. Pouco depois das 22h já estava deitado e a dormir (não sou de ansiedades e há que dormir, que diabo!).

Acordámos cerca das 2h, tomámos o pequeno-almoço indispensável e fomos para o estádio. Tivémos a desdita de comprovar que já estava a chover e que a temperatura estava fresca (estariam uns 10 graus). Encarámos esse facto como um pequeno contratempo e o nosso ânimo não arrefeceu. Na verdade até ficámos mais descansados pois provavelmente não iríamos correr o risco de sobreaquecer com as inclementes elevadas temperaturas alentejanas.

No estádio - Foto de Vitorina Mourato

No estádio encontrámos os cerca de 200 participantes que iriam alinhar à partida e revimos com alegria muitos dos companheiros destas aventuras. Entre eles o companheiro Carlos Santos (Caló) do Run 4 Fun e o Eduardo Santos, de O Mundo da Corrida e meu treinador. A emoção era palpável, sentia-se a tensão na humidade do ar, cheirava a adrenalina antes do tiro de partida. Parafraseando uma personagem de um filme famoso: “I love the smell of adrenaline in the morning...”


Grupo da Frente - Foto de João Faustino

 Às 4h em ponto arrancámos para aquilo que adivinhávamos iria ser uma saga de proporções épicas. A noite estava escura (“e tempestuosa” :-)). Progredimos com o frontal aceso, num grupo que incluia o Luís Ricardo, o Cláudio Quelhas, o Guilherme Hora e moi meme. Avançávamos rápido para tentar evitar os habituais engarrafamentos quando atingissemos o troço mais técnico no single-track junto ao ribeiro. Aos 10 km passámos pelo primeiro PAC (posto de abastecimento e controle) nos Viveiros e aos 17 kms passámos pelo PAC2, em Alegrete, freguesia muito pitoreca, com um pequeno Castelo bem conservado. Estavamos com 1h33 de prova. Encontráva-me em 21º Lugar, mercê do forte ritmo imposto neste início de prova (5’30’’/km).

A caminho das Antenas

Aqui teve início a longa e progressiva ascenção para o PAC3 nas Antenas. Ao fim de 2 horas de prova resolvemos desligar o frontal pois o dia já começava a clarear e, de qualquer forma, no meio de todo aquele nevoeiro a luz do dito espalhava-se muito difusa , tornando o ar opaco. Por enquanto ainda fazíamos as subidas todas a correr, no entanto quando chegámos à última subida, perdemos todas as veleidades de o fazer pela sua brutal inclinação. Com esforço, lá conseguimos chegar ao PAC3, aos 30 kms, no ponto mais alto do percurso (cerca de 1000m), com 3h15 de prova e ainda em 21º lugar.

Eu sabia bem que, para as minhas capacidades, este ritmo era demasiado violento para uma prova 100 km, mas com o entusiasmo do início e a alegre companhia (o Luís contava estórias e episódios picarescos que muito nos divertiam) os kms foram passando rapidamente. 

Foi neste ponto que perdi o Luís. Segui atrás do Cláudio e começámos a descer para a Barragem da Apartadura, onde chegámos uma hora depois (aos 39,5 kms).

Barragem da Apartadura - Foto de Macedo

Daqui seguimos para a o PAC5 em Porto Espada onde chegámos, juntamente com o Vasco Marques, com 5h21 e 48 kms nas pernas. Mantinha-me em 20º lugar. O tempo continuava húmido e fresco, com chuva ocasional, mas nunca necessitei de recorrer ao corta-vento que trazia na mochila para qualquer eventualidade.


Bruma - Foto de João Faustino

A esta altura já sentia as pernas bem pesadas e interrogava-me como iria estar quando chegasse a Marvão, o ponto fulcral da nossa aventura. O tempo foi limpando à medida que nos aproximávamos de Marvão e pudemos apreciar o magnífico cenário, luxuriantemente arborizado, que se desenrolava diante de nossos olhos. Castanheiros, carvalhos, vinhas e olivais espalhavam-se pela paisagem.

Às 10h da manhã atravessámos o Rio Sever e pouco depois do km 55 encontrámos o Jorge Serrazina e o João Faustino. Duas semanas antes o Jorge tinha sido 9º nos 108 kms do OMD e na semana anterior o João tinha sido 2º nos 101 kms de Ronda. Atletas incansáveis estes, para quem provas de 100 kms são apenas aquecimentos para as grandes aventuras de 330 kms na montanha.

Subida para Marvão

 Contornámos a serra e iniciámos a tortuosa subida para o Castelo, que se divisava alcandorado no alto do maciço rochoso. Quando já julgávamos estar perto das muralhas e de um brave mas merecido repouso, eis que somos obrigados a inflectir para a direita e iniciar uma descida que me levou a questionar-me se não teria falhado alguma marcação, não fosse esta já a saída de Marvão. Mas não, o caminho era mesmo aquele. Desventurados de nós que tivémos então que iniciar uma nova subida, muito mais inclinada, a exigir tracção integral e muito fôlego.

Subida para Marvão - Foto de João Faustino

 Ao fim de um tempo interminável, entrei na porta do Castelo, onde nos esperava o João Carlos Correia do ACP (este homem, para além de incansável tem o dom da ubiquidade pois estava em todo o lado numa preocupação constante que tudo estivesse bem com os atletas). 

Às 11h05 (7h05 de prova) cheguei ao tão almejado PAC6, onde me reestabeleci com uma sopa quente, bananas, muitos gomos de laranja, coca-cola, etc. Os abastecimentos foram sempre excelentes, mas foi sobretudo a partir deste ponto que eu comecei a comer como um alarve, dado o dispêndio energético que já tinha sido feito para completar estes 60 kms iniciais. Curiosamente neste momento estava com um tempo e quilometragem idênticos aos que tinha feito no Oh Meu Deus, duas semanas antes (onde participei na prova de distância intermédia).

Vila Medieval de Marvão - Foto de autor não identificado

Neste ponto tinha ganho alguns lugares e estava agora em 14º. Dispensei a troca de roupa e saí das muralhas em direcção a Carreiras. A descida até Portagem foi bastante penosa pois foi feita por um estradão de empedrado irregular que, a cada impacto, me dava a sensação de  facas a espetarem-se nos meus pobres e muito massacrados pezinhos.

Calçada Medieval - Foto de João Faustino

Quando cheguei cá abaixo e passei a ponte sobre o Rio Sever deparei-me com dois companheiros perdidos, o Francisco Costa e o Rúben Pedro. Ao que parece as marcações tinham sido removidas por alguém. Andámos pela povoação desnorteados. Pedimos indicações à GNR, mas ninguém nos sabia orientar, até que passou um ciclista (da organização?) que nos voltou a colocar no rumo certo.

Os dois companheiros distanciaram-se pois eu já não conseguia manter um ritmo muito vivo. Penei até Carreiras, onde se encontrava o PAC7, aos 70 kms. Continuava em 15º mas tinha já 8h15 de prova e perguntava-me quando daria um estoiro monumental. Felizmente a minha mulher e filhos, juntamente com a mulher e filha do Luís Ricardo, encontravam-se neste posto para me receber e animar. O meu filho fez-me uma exuberante “guarda de honra” até ao abastecimento, que muito me animou. Confessei à minha mulher que já estava todo partido mas ela replicou que os que tinham passado antes não iam melhor.

Helena e Rita

Engoli um cubo demarmelada, hidratei-me e decidi que não era necessário reabastecer de água a mochila. Parti em direcção a Castelo de Vide. Subi uma calçada medieval com cerca de 3 kms. Na realidade o PAC8 não estava situado em Castelo de Vide mas sim no alto da Senhora da Penha, portanto quando comecei a ver Castelo de Vide do outro lado da encosta onde me encontrava, imaginei desconsoladamente que ainda teria que descer e subir para lá chegar. Mas não, aos 77 kms, com 9h20 de caminho, cheguei ao PAC8 onde reencontrei a minha família.

Alimentei-me e fui informado que o próximo PAC se encontrava a 14 kms. Na realidade este penúltimo troço teve cerca de 16 kms, o que, psicológicamente, foi algo difícil de gerir, pela distância inesperada, pois os abastecimentos são sentidos como uma espécie de oásis onde nos abrigamos da inclemência do caminho. Nesta altura da corrida estava tão massacrado que já ansiava pelas subidas, pois eram ocasiões em que me podia dar ao luxo de caminhar em lugar de correr, dado estar certo que neste ponto do campeonato todos os outros atletas faríam o mesmo. Nesta altura fui ultrapassado pelo Guilherme Hora, que estava a fazer uma corrida muito inteligente, detrás para a frente (nestas provas longas a estratégia é essencial para gerir inteligentemente o esforço).


PAC9 - Foto de Daniel Casado

Ao 93º km lá cheguei finalmente ao PAC9 no Convento da Provença, com 11h27 de prova. Os atletas que lá estavam pareciam completamente demolidos, átomo por átomo. O camarada que seguia em 6º lugar tinha acabado por desistir neste ponto. Eu tinha agora 13 companheiros à minha frente. Mais uma vez a minha família se encontrava lá, indefectível à minha espera. Retrospectivamente, estou certo que a sua presença neste três últimos PACs foi essencial para que eu não esmorecesse.

Família - Foto de Daniel Casado

Daqui para a frente os restantes 12 kms foram integralmente geridos com o coração porque as pernas gritavam permanentemente por misericórdia, que tivesse dó e parasse. Os ultimos 5 kms foram já feitos com Portalegre à vista, o que constituiu uma espécie de tormento de Tântalo, ver ali a meta tão perto e ainda não lhe conseguir chegar...

Estádio - Foto de João Faustino

Por fim, entrei no estádio, ao som da música dos Queen: “We are the champions my friend... ”

Uma última volta final à pista e eis que cruzo a meta, fisicamente completamente destroçado mas com uma enorme satisfação anímica. As longas hora de treino, e o cumprimento dos planos que o Eduardo Santos me vai elaborando regularmente, têm dado frutos.

Fui 11º da classificação geral e 4º do meu escalão M40, com 105 kms percorridos e 3400m D+ (desnível positivo) em 13h03.


 Há quem diga que a dor é temporária mas a glória é para sempre. Respondo eu que qualquer um que corra durante 13 horas seguidas confirmará que esse “temporário” assemelha-se muito a uma infinita eternidade.


Família no Pódio - Foto de Helena Bárrios
 
O vencedor da prova foi o Luís Mota, com o extraordinário tempo de 10h39!

Cumprimentei o Guilherme Hora e o Cláudio Quelhas, que já tinham chegado, e esperei pela minha família que chegou pouco depois. Fui para a massagem relaxante, tomei um banho que me soube maravilhas e alimentei-me.

Depois do Luís chegar (muitos parabéns para ele, que completou galhardamente a sua primeira ultra de 100K!) ainda fomos jantar o excelente repasto que a organização nos tinha preparado. Souberam-me especialmente bem as 3 imperiais geladas que ingeri. Depois voltámos para casa do Luís e para o descanso dos guerreiros.

O Alentejo tem fama de ser plano mas a região de Portalegre não o é seguramente! Esta foi uma prova bem difícil, pelas subidas e descidas acentuadas e pela dureza do piso. Mas é assim mesmo que se querem as provas de trail e esta merece indubitavelmente os 3 pontos que lhe foram atribuídos. Para além disso, a beleza da paisagem é inexcedível e a organização esteve impecável. A longa e meticulosa preparação, empreendida pelo Atletismo Clube de Portalegre, concretizou-se num evento sem falhas. São de destacar a quantidade e qualidade da informação que foi sendo colocada na site da organização ao longo dos meses que antecederam a prova, os vários treinos prévios que cobriram todo o percurso, a abundância dos abastecimentos e a simpatia dos voluntários nos PACs, etc, etc.

No domingo ainda aproveitámos a hospitalidade da família Ricardo para efectuarmos um belíssimo passeio a Marvão, Portagem e Castelo de Vide, com roteiro gastronómico pelo meio.


Peço que me desculpem a extensão enfadonha desta crónica mas como diz  Saramago:

“Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.”
- José Saramago, Levantado do Chão

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Oh Meu Deus Trail Run (50 km)


«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo.»

Assim tem início uma das mais conhecidas obras primas da literatura, Cem anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez. Tal como Aureliano Buendía gravou na sua memória uma imagem indelével da essência mágica da vida, daqui por muitos anos, perante a iminência do esquecimento final, também eu me hei-de recordar desses dias distantes em que calcorreei serras e montes, atravessei ribeiros e vales, transido pelo puro prazer de encher o coração de sangue e os pulmões de ar.

A minha aventura mais recente teve lugar na nossa Montanha Mágica, a Serra da Estrela, onde participei empenhadamente no Oh Meu Deus Trail Run, na distância de 50 kms. Esta prova está na sua 2ª edição, e este ano foi composta por 3 etapas, de uma série que teve início a 14 de Janeiro em Proença a Nova, continuou a 10 de Março em Vila do Rei e acabou a 5 de Maio em Manteigas. Nesta última, tiveram lugar 3 provas distíntas, uma, mais curta, de 20 kms, outra de distância intermédia com 50 kms e a prova rainha com 104 kms.

Altimetria

Com reserva para 4 (a família inteira, como já é habitual) marcada no Hotel Vale do Zêzere (que excedeu as minhas expectativas), partimos de Lisboa às 19h20 de 6ª feira dia 4. Ainda chegámos a tempo do briefing no Auditório Municipal, às 22h20. Encontrei logo algumas das caras conhecidas, o Sousa, o Serrazina, a Célia, entre outros. Dados os precalços com que decorreu a prova do ano passado (incluindo atletas que se perderam e esperaram horas para serem localizados), este ano a organização mostrava-se muito cautelosa, avisando constantemente para o perigo de determinada subida, ou troço mais complicados, alertando para o frio e vento previstos.

Hotel Vale do Zêzere
Às 23h instalámo-nos confortavelmente no hotel, jantámos as sandes e a fruta que tinhamos levado connosco e deitámo-nos logo que possível. Arrumei o equipamento que usaria no dia seguinte, para evitar acordar os miúdos quando me levantasse de madrugada. Tive sérias dúvidas acerca do que levar, pois o tempo anunciava-se frio e com chuva, mas, por outro lado, sempre que corro aqueço o suficiente para não sentir o frio.

Ainda não eram 5h30 e eu já estava acordado, pronto para correr. Vesti a roupa, desci para tomar um pequeno-almoço rápido e frugal e dirigi-me para o local de partida. Lá, reencontrei o Manuel Azevedo, o Gustavo Santos e vários outros companheiros destas aventuras. A partida das duas corridas seria dada em simultâneo, o que na minha opinião foi muito positivo, pois assim os 74 participantes dos 104 kms seriam acompanhados pelos 44 dos 50 kms e todos estaríamos menos sós ao longo do percurso.

Partida

Às 7h em ponto foi dado o tiro de partida e arrancámos pela vila acima, bem protegidos pelos impermeáveis. Ao fim de 3 kms removi o impermeável, apesar da chuva miudinha que caia esporadicamente. Saídos da povoação, entramos num misto de estradões e single-tracks com alguma tecnicidade, a caminho da Pousada de S. Lourenço. Ainda atravessámos o Mondego por duas vezes antes de chegar à Pousada.


Quanto a mim, a prova dividiu-se em 3 troços. Teve um 1º troço com uma subida à Pousada e regresso até ao campo de futebol de Manteigas, onde estava o 1º abastecimento  (apenas liquidos), aos 18,5 kms. Depois um 2º troço que subiu até à Torre, onde estava o 2º abastecimento (líquidos e sólidos) aos 36 kms e 1991 m de altitude. E por fim o 3º troço, que nos levou de volta até Manteigas, aos 730 m de altitude.


1º troço

Fui o 5º atleta a passar pelo 1º abastecimento e nessa altura constatei, com alguma surpresa, que provavelmente me encontrava em 1º lugar na prova dos 50 kms (nos postos não havia identificação de atletas por provas). Isso deu-me animo e arranquei rápido para iniciar o 2º troço. Este começou com um estradão, que subia pela encosta norte do Zêzere. Nesta altura corria isolado. Aos 20kms não vi uma fita que assinalava uma descida. O Rui Seixo, que vinha um pouco atrás de mim, também não viu. Penso que deveriam ter marcado melhor essa descida, mas isto poderá ser uma opinião parcial, feita em causa própria. Seja como for, julgo que as marcações, feitas com fita cor da laranja fluorescente, eram bem visíveis e frequentes, mas pecavam por não obedecer a um código claro, como é habitual em provas de trail (por exemplo, quando há saídas de estradões deveria existir uma fita ao comprido no chão do estradão, para indicar que essa direção termina ali).

Este engano resultou em 2 kms a mais, e várias paragens e indecisões, até reencontrarmos o caminho, na descida para o rio. Aí reencontrámos vários dos atletas que já tinhamos ultrapassado anteriormente e forçámo-nos a estugar o passo a fim de os ultrapassar novamente. Aqui permito-me um parentesis para sublinhar o alento de que usufrui na companhia do Rui Seixo, que conheci durante a prova, e que foi para mim uma ajuda preciosa. Competimos em provas distíntas, ele nos 104 kms e eu nos 50 kms, mas até Manteigas fizémos a maior parte do percurso juntos (grande atleta, ele, que acabaria por terminar em 6º lugar a prova dos 104 kms).

Zêzere

Atravessámos o rio sobre uma ponte de pedra (ou cimento) e subimos paralelos ao Zêzere, ao longo do vale, com os pés quase permanentemente enfiados dentro de água. Este rio nasce a cerca de 1900 m de altitude, junto ao Cântaro Magro, onde define um vale glaciar.

Vale do Zêzere

Nave de Santo António

Quando chegámos ao início do vale (lindíssimo), subimos até à Nave de S. António por um single-track duríssimo, onde eu só conseguia pensar que no País Basco irei ter que penar com 2 dias inteiros de subidas com um grau de dificuldade comparável...

Percurso

Chegados à rotunda, cá em cima na estrada, perto do Centro de Limpeza de Neve, entramos no alcatrão em direção à Torre. Pouco depois inflectimos à esquerda e entrámos noutro single-track diabólico, o Caminho do Major, com muito calhau e alguma neve escorregadia. Aqui já comecei a sentir os efeitos do ar mais rarefeito e progredi com bastante dificuldade. Este foi, aliás, o bocado que me custou mais a percorrer. Ao fim de um tempo que me pareceu uma eternidade, finalmente saímos do estradão e voltámos ao alcatrão.

A caminho da Torre

Alcançámos o abastecimento da Torre, no meio do frio (estariam uns zero graus), do nevoeiro e da neve, e dei comigo a sentir-me mais esfomeado do que um urso depois da hibernação invernal. Era o 7º atleta a passar por este controlo, mas não fazia ideia de quantos desses companheiros estariam a fazer a prova dos 50 kms.

Aproveitei para reestabelecer as forças, com uma canja de galinha quentinha, chocolates, amendoins, marmelada, coca-cola, etc. Nem sei como é que o meu estomago não se virou do avesso com esta misturada. O que é certo é que a pausa e os alimentos me deram um novo alento e, juntamente com o Rui, consegui descer, pela estrada, novamente até à rotunda, a um ritmo de 4’30’’/km.

Da rotunda direcionaram-nos para os Poios Brancos, no cume da Serra, por um trajecto virgem, de progressão difícil, aos saltinhos por cima de inúmeros calhaus, até que tiveram início os estradões.

De regresso para Manteigas

Após um percurso que pareceu interminável (estávamos à espera de fazer 51 kms até à meta mas os nossos Garmins marcaram 60 kms e picos) lá iniciámos a descida para Manteigas. Ao subir pelo meio da vila, via o fim a aproximar-se. Alguns minutos depois, foi com uma grande surpresa (e alegria) que descobri ter sido o primeiro da prova dos 50kms a cruzar a meta.

Fui 1º Classificado da Geral (na prova de distância intermédia, que estava prevista ter 51km mas acabou por ter 58km para a generalidade dos atletas). O meu Garmin marcou 60,3 km com 2575m D+ em 7:00:02. O tempo oficial foi de 07:01:07.

 
A verdade é que os grandes tubarões estiveram na prova de 104kms :-) Apesar de tudo, foi para mim uma prova bem dura e um 1º lugar sempre é um 1º lugar :-)


O único cheirinho que tinha tido anteriormente de um pódio, tinha sido no K42 do Axtrail, em Outubro de 2011, onde fiquei em 3º lugar do escalão Vet I.

Fiquei para a massagem revigorante, para o almoço retemperador, para o são e alegre convívio e, “last but not least”, para o pódio. O Rui seguiu para completar os 50 kms que ainda lhe restavam fazer na prova rainha (que acabou por ter cerca de 108 kms).

Enquanto esperava, pude ver chegar vários atletas dos 104 kms, alguns deles muito desagradados com o facto de se verem obrigados a completar mais kms do que o esperado. Compreendo bem o seu ponto de vista, pois se para mim os kms a mais foram feitos durante o dia, com condições atmosféricas e de visibilidade razoáveis, para eles esses kms iriram ser feitos durante a noite, em condições muito piores. Pior ainda foi para aqueles que foram desclassificados no ponto de controle da Torre, por ultrapassarem o tempo limite estipulado para esse ponto, apesar de terem sido obrigados a fazer mais kms do que era suposto.


À posteriori, de acordo com o site da organização, «a semana que antecedeu a prova foi de muita chuva, frio e neve. Adivinhava-se uma dia de prova difícil para todos. No próprio dia de prova, após a partida, a organização ainda estava limitada nos acessos ao ponto mais alto. Ainda tinha de alterar o percurso. Assim o fez com um acréscimo de quilómetros.»

«O dia 5 de Maio e a terceira etapa de 2012 ficam marcados um tempo que teve de tudo: Sol e temperaturas quentes, chuva e vento, neve, nevoeiro e temperaturas negativas. Para ajudar os mais lentos, a lua cheia( uma das mais brilhantes dos últimos anos, apareceu para iluminar os trilhos mais sinuosos.»

Enfim, a prova é muito bonita, eu gostei muito de a fazer, e penso voltar para fazer a prova maior (a próxima edição promete ter 140 kms), mas a organização necessita claramente melhorar alguns pontos. No entanto, ao que parece, este ano já esteve bem melhor do que no ano passado e não me consta que tivesse ocorrido nenhum drama na edição deste ano.

Organizar um prova desta envergadura, num local extremamente imprevísivel (e perigoso) como a Serra da Estrela, deve ser um empreendimento muito complexo e deve exigir uma atenção minuciosa a muitos detalhes. Acho salutar que exista uma equipa que se abalance a enfrentar esse desafio.

Quanto ao tempo, e apesar de todos os avisos da organização, não sofri com frio, apesar de pouco agasalhado. Durante o dia julgo que tivemos sorte pois, apesar do tempo fresco, apenas chuviscou ocasionalmente e o vento foi brando. Não sei ao certo quais foram as condições meteorológicas durante a noite, mas terão sido certamente bem mais duras, e debaixo da escuridão.

Tudo o que sei é que a prova rainha foi ganha pelo Pedro Marques, de O Mundo da Corrida, com um fantástico tempo de 11h59. O conjunto das 3 séries da prova longa foi ganho pelo Luís Mota, do ADR Águas Belas.

Depois de partilhar a minha alegria com a minha mulher e filhos, companheiros indefectiveís das minhas aventuras, saímos para visitar o vale, que é lindíssimo (é um vale em forma de U, típico dos glaciares, com inúmeras cascatas, jorrando água, e casinhas de granito, montadas como legos).  Subimos até à Torre, onde os miúdos se deliciaram com a neve, e, apesar de não estarem suficientemente agasalhados, não queriam arredar pé.





À noite jantámos, no restaurante do Hotel, uma explêndida Chanfana à moda da Serra e uma dose de Feijocas. No dia seguinte, ainda tivémos a oportunidade de visitar o belíssimo Vale do Rossim, com a sua barragem e parque de campismo, e ainda a aldeia mais alta de Portugal, o Sabugueiro (1050 m), onde comprámos um apetitoso queijo da Serra (que, nos últimos dias, tem estado a dar cabo da minha dieta equilibrada).

Acabo esta crónica como comecei:

«Ao ser destapado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:
— É o maior diamante do mundo.
— Não — corrigiu o cigano. — É gelo.»

Diamante ou gelo, a magia está ao alcance da mão (ou do pé)...