terça-feira, 24 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - Epílogo


As armas e os barões assinalados


“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;”

        - Lusíadas, Canto I.


Só vários dias mais tarde é que viria a saber que o resultado oficial da minha prova tinha sido 39:42:47, e que tinha ficado classificado em 55º lugar num total de 112 finalistas. Dos 187 atletas que alinharam à partida, 75 tiveram que desistir por variadas circunstâncias. A minha sentida homenagem para todos esses valorosos atletas que empreenderam “em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”

Terminada a prova fui tomar o banho retemperador no polidesportivo de Beasain, seguido de uma nova refeição de massa e queijo derretido (é este o sinal concludente de que devo ser mesmo masoquista) que ficou quase toda no prato.

Por fim, uma excelente massagem, providenciada por uma menina que percebia do assunto. A alternativa era um basco com ar de lutador de sumo. Felizmente consegui enganar o espanhol que se sentou ao meu lado, dizendo-lhe que já estava livre, numa ocasião em que ele estava distraído na conversa. Desta feita, quando se levantou e se apercebeu do erro, já era tarde... lutador de sumo com ele, menina para mim...

Depois voltámos para Alsasua, onde cerca das 12 horas eu imergi num sono profundo mas agitado, onde sonhei que estava a ser perseguido até aos confins do mundo, por um Gigante feito de uma amálgama de lama, rocha e silvas (e tinha a cara do lutador de sumo).

Às 20 horas levantei-me, apertado pela fome que se fazia sentir (perdi 4 kg com esta brincadeira), jantei e deitei-me novamente, só acordando no dia seguinte às 8 horas da manhã.

Aí tiveram início as dores pos-parto de que fui atingido. Abrasões pelo corpo todo, músculos doridos, joelhos destroçados, etc, etc. Se fosse aqui arrolar a lista de maleitas, mais pareceria a história clínica de um velho de 90 anos, com um historial de 80 anos de trabalho na agricultura.

Seja como for, lá arranjei, novamente encorajado pelo Luís, forças para ir fazer turismo cultural para Bilbao / Bilbo, mais precisamente visitando o Guggenheim, como seu singular edificio e a sua excelente colecção de arte moderna.

Turismo cultural

Nos dias seguintes fui sabendo dos resultados dos restantes atletas da comitiva portuguesa (a minha mãe, adepta incondicional número um, fez-me um relato telefónico detalhado do que se passara) e tomei conhecimento do vibrante acompanhamento que foi feito à nossa prova por parte da comunidade Lusa adepta do trail.

Fiquei muito satisfeito por todos os que terminaram, e senti-me solidário com os que por alguma circunstância fortuita não puderam terminar. À posteriori, li com atenção as suas histórias e segui os seus comentários.


Para sumarizar a prova e as férias envolventes, em apenas tres palavras: valeu a pena!


III Ehunmilak 2012 - 3ª parte

Aizkorri de dia - Foto de José Morgado

Etxegarate (130 km , 663 m): este é o 2º grande abastecimento, onde tem início a 3ª parte da corrida. Desta vez não hesito e peço uma refeição quente com massa e queijo derretido. É a minha primeira refeição quente das últimas 27 horas!!! Já a mereço, repito enfaticamente para o meu estômago rebelde. Então afinal quem é que manda aqui, ora essa! E o estômago lá anui, rendido aos meus argumentos.

Não me esqueço de atestar a mochila de hidratação. Entrementes o Luís foi à tenda da cruz vermelha tratar dos pés e quando regressa está muito mais satisfeito com o tratamento que lhe deram. Desta vez, para além de lhe hidratarem a sola, colocaram-lhe uma ligadura que o protejerá mais eficazmente (na medida do possível) daqui por diante.

É a minha vez de ir à Cruz Vermelha pois também me surgiram algumas bolhas nos pés (todo este tempo imersos em água e barro, não lhes deve ter feito muito bem). Hidratam-me os pés com uma mistura de vaselina e creme hidratante que me fez maravilhas e mandam-me embora.

Fora da tenda está frio como numa câmara frigorifica! Volto para a tenda princípal e, recorrendo ao 2º saco, troco completamente de roupa. Estou muito mais agasalhado do que na 1º noite. Resultante daquele assustador episódio, o medo da hipotermia atíngiu as raias da irracionalidade.

Vários atletas abandonam a prova neste abastecimento. Aqui se toma a decisão de ficar ou prosseguir e enfrentar a noite e os seus fantasmas. Vem-me à mente o célebre solilóquio de Hamlet, princípe da Dinamarca (W. Shakespeare):

"To be, or not to be: that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?"


Às 22h estamos prontos para partir. É novamente de noite. Embora exista a possibilidade de ficar a dormir um pouco neste abastecimento, em camas de campanha, tal não nos ocorreu. Esta horita de repouso parece-nos suficiente para enfrentar a noite com outro alento. E a verdade é que me sinto revigorado.

Arrancamos devagar pois os músculos necessitam reabituar-se ao esforço. Não mais conseguiremos correr, excepto no nosso último quilómetro. Estes primeiros 130 km demoliram toda a minha resistência física e o que me move agora é apenas a mente, que vai ordenando às pernas que coloquem um passo à frente do outro, cada vez mais rápido, mas sem nunca abandonarem ambos os pés o solo.


Aratz - Aizkorri


Encaminhamo-nos em direcção ao Aizkorri (1520 m). Faltam “apenas” 38 kms para o término da aventura. No entanto estes 38 km irão ser percorridos durante a nossa 2ª noite de vigília, já com 130 km imensamente acidentados nas pernas.

Para além disso vamos ter que passar no alto exposto do Aizkorri. O Luís já conhece parte do percurso dado que aqui esteve a 20 de Maio para correr na Maratona de Montanha Zegama-Aizkorri, que tem parte do traçado em comum. Essa é uma das maratonas de montanha mais duras e emblemáticas e o Luís fê-la em condições particularmente agrestes, pois choveu o tempo todo e chegou a nevar no topo.

À medida que nos dirigimos para o abastecimento de San Adrian, o Luís vai-me revelando que o traçado que iremos encontrar é muito perigoso e que neste sim, a organização deveria obrigar os atletas a percorrê-lo acompanhados. Mais tarde eu teria a oportunidade de comprovar as suas sábias palavras.

A ascenção até aos 1000 metros de San Adrian (139 km) vai-se fazendo paulatinamente. Durante algum tempo seguimos com um grupo de bascos atrás de nós. Não percebemos patavina da algaraviada que lhes sai da boca. Chegamos ao abastecimento após 30h39 de prova.

A seguir ao abastecimento andamos algumas centenas de metros até que chegamos à cova de San Adrian. Passamos por um tunel escavado na rocha e deparamos com uma subida atroz, onde em cerca de 2 km é necessário ultrapassar 500 metros de desnível positivo!!! E isto sobre um piso de pedras duras e instáveis (ou sou eu que já vou instável...). Deve ser por isso que, muito apropriadamente, lhe chamam "O Calvário".


Subida - foto da organização


O Luís trepa mais rápido que eu e vai-me incentivando. A minha reserva de energia é que já não é muita e tenho que me concentrar o mais que a força humana permite para assentar os pés nos locais adequados. Auxiliado pelo incentivo do Luís, lá vou progredindo em direcção ao topo desta subida demolidora.

Ainda temos que chegar ao alto do Aizkorri (1520 m, km 141). Passamos por pendentes em que não convém olhar para baixo, tal o precipício que se abre ao nosso lado. Por fim lá alcançamos o refúgio onde se encontra o controle. Os voluntários fazem-nos uma festa. Peço um pouco de água que me é imediatamente dada.


Refúgio à luz do dia - foto da organização


Andamos ainda mais 3 km pelo cume da montanha até Arbelar (km 144). Depois disto ainda temos que chegar ao Andraitz (1443 m, km 146), sempre expostos ao vento cortante que me deixa gelado (a temperatura real é de 7ºC mas, com o vento, a sensação térmica é de 2ºC!).

Agora temos que descer. A descida é outro martírio. O meu frontal dá sinal que a bateria está a ficar fraca e muda automaticamente para um modo de poupança. Passo a descortinar muito pior o caminho. Vou seguindo o Luís, que vai escolhendo as melhores pedras para pisar, dentro do trilho.

Não tenho alucinações mas quase. As pedras e o solo parecem por vezes vibrar como se revoltas por uma miríade de vermes pululantes. O sono começa verdadeiramente a afectar-me. Luto para me manter concentrado. A certa altura menciono ao Luís que já não vejo grande coisa e ele empresta-me o seu frontal de reserva que tem num bolso à mão. Isso melhora bastante o meu moral. Não me sentia sequer com forças para procurar na mochila as pilhas de reserva e colocá-las no frontal.

Já passam das 4 horas da madrugada quando, ao fim de um calvário interminável, em que descemos 1200 m D- sobre um trilho impiedoso, lá atingimos o abastecimento de Oazurtza (148 km, 845 m, 34h26). É um enorme alívio. Quase desfaleço sobre uma cadeira. Mal tenho forças para trocar palavras com os voluntários da organização. O Cabo das Tormentas está dobrado e não fomos devorados pelo enorme Adamastor de pedra.

Enfim me alimento e partimos novamente, para não nos habituarmos demasiado ao repouso anestesiante. Já me sinto um pouco melhor, mas a partir daqui a progressão irá ser toda feita à base de pura força de vontade.

Faltam duas etapas de 10 km cada. Vamos fazer uma de cada vez. Dois objectivos sequênciais.

Arrastamo-nos a caminho de Mutiloa. Temos ainda que descer cerca de 700 m D-. Não temos qualquer noção da velocidade a que os estamos a fazer. Imaginamos que já vamos a meio do primeiro troço. Trocamos palavras optimistas de incitamento. Cada aldeia que avistamos julgamos ser essa o término da etapa.

O dia clareia e ouvem-se os passaros a chilrear. Passamos por Zerain sem o sabermos e buscamos desesperadamente sinais claros do abastecimento. Enorme desilusão! Ainda não é aqui...

Andamos mais uns quilómetros, até que por fim, em Mutiloa (158 km, 600 m, 37h16) damos finalmente com o abstecimento K15. Que imensa alegria! Já só falta a última etapa! Está feito!

Abastecemos e partimos assim que o relógio marca as 7h30. Resolvemos que teremos que chegar ao fim antes de se completarem as 40 horas de prova. É esse o nosso objectivo!!! Temos duas horas e meia para o conseguir. Parece mais que suficiente, mas se tivermos atenção verificamos que os anteriores 10 km foram percorridos em duas horas e quarenta e cinco minutos!

Forçamos uma marcha rápida. Não corremos pois o que mais tememos é, já tão perto, morrer na praia. Seja como for, progredimos a bom ritmo. A altimetria é favorável: “apenas” temos que enfrentar mais 325 m D+ e 350 m D-. O que é isso para quem já percorreu a via sacra que nós cumprimos! Falta apenas uma estação!


Foto da organização


Após vários quilometros e um enorme desgaste (os músculos rangem por todo o lado; sinto-me prestes a dissolver-me numa pasta amorfa e difusa), gritamos o nosso “Terra à vista!” É a Índia do nosso contentamento. É Beasain que se avista por fim. Ainda encontramos um grupo de voluntários que nos controla e a quem perguntamos quantos quilómetros faltam para a meta. A resposta a partir daqui irá ser sempre a mesma, a quem quer que perguntemos: 4 kms. Deve ser um número mágico, proveniente do fundo do inconsciente colectivo do povo basco: 4km! 4km! 4km!

São os 4 km mais duros de toda a minha vida! Temos ainda que ultrapassar um quilómetro de gravilha dura como os cornos de um bode. Sinto as bolhas a expandirem-se nos pés. Deixo de ter sensibilidade nos dedos do pé esquerdo. O pé direito está dormente. Contra ventos e marés, avançamos irredutivelmente.

Beasain está do nosso lado esquerdo. Passamos debaixo de um tunel e eis-nos na estrada principal. Agora é sempre a direito. Vamos entrar na artéria princípal da vila. Já passa das 9h30. É a altura de começar a correr. Corremos com o que nos resta do coração. Ao longe avistamos a nossa família. Alcançamo-los. Seguramos as mãos dos nossos filhos e unidos a eles dirigimo-nos para a meta.

A emoção tomou posse de mim. Embargou-se-me a garganta e fui preenchido por uma tremenda sensação de felicidade e realização.


Meta!

Cruzamos a meta em apoteose, rodeados pelas nossas famílias, a quem eu dedico este especial triunfo. A eles, ao meu treinador, Eduardo Santos, que me orientou sabiamente ao longo de todos estes meses de preparação sistematica e exaustiva para esta prova, e a todos os familiares e amigos que me acompanharam, incentivaram, vibraram e comigo viveram, durante as 39 horas e 42 minutos em que corri, andei e gatinhei por vales e montes Bascos. A vossa ajuda foi preciosa! São vocês que fazem com que tudo isto tenha um sabor muito especial. Bem hajam!

Uma dedicação especial para o meu companheiro de luta, o Luís Freitas, cujo inestimável auxílio e companheirismo foram essenciais para que eu terminasse bem esta epopeia. É bem certo que uma aventura destas forja laços de amizade muito fortes.


Luís Freitas e Luís Ferreira


resta o epílogo...

III Ehunmilak 2012 - 2ª parte

Início da descida para Azpeitia (é assim de dia, mas de noite e com chuva...)

De Gorla (29 km) até Madarixa passamos pelo Elosua (686 m) e pelo Azkarate (665 m). Os quilómetros vão-se cumprindo e alcanço Madarixa, aos 43 km com 6h52 de prova. Um quarto do caminho está feito (em termos de distância mas não de desnível, que é o que conta verdadeiramente). Se fosse para mim humanamente possível manter esse ritmo, acabaria a prova em apenas 28 horas!

Em Madarixa reencontro o Luís e daí partimos para o abastecimento seguinte, em Azpeitia. Os primeiros 6 km não têm história de relevo, mas a partir daí tem início a famigerada descida para Azpeitia: um puro calvário de 4 kms em que descemos mais de 800 metros, do Xoxote (912 m) para Azpeitia (80 m), maioritariamente em equilibrio preclitante sobre uma calçada tipo medieval, com lajes de pedra, molhadíssimas e escorregadias como o diabo! Este troço deve ter sido desenhado pelo próprio Torquemada da Santa Inquisição! Apesar de o fazer a andar, com uma lentidão digna de um paquiderme trôpego, ainda me estatelo umas cinco vezes, felizmente sem consequências. E só não caio mais porque os bastões oferecem um amparo providêncial.

O que deveras me surpreende é que ainda existem uns Bascos mais afoitos que me vão passando, lentos mas seguros. Sinto-me como um camião TIR numa descida perigosa. Só não ponho mais travões porque não os tenho.

Consigo divisar ao longe, distante lá embaixo no vale, a vila iluminada, qual Oasis num deserto de pedra, mas é uma eternidade até que finalmente alcanço o troço de alcatrão que me levará até ao abastecimento K5 no km 53.

Às 3 horas da madrugada, após 9 horas de prova, lá chego ao Oasis de Azpeitia. Por esta altura já só me ocorre que não faltam muito mais de 3 horas para terminar a primeira noite. O Luís já cá não está. Leva-me 10 minutos de avanço.

Como com calma, embora a capacidade de ingerir pedaços de banana, melão, chouriço, caldos knorr e outras fonte de energia, sais e electrólitos, já não seja a mesma do início da prova. Aliás, o meu estomago ressente-se como se tivesse levado uma boa tareia e reclama comigo pela forma como o vou tratando: “Se me dás mais um copo de caldo knorr ou uma rodela de chouriço mando-te ao gregório, pá!”

Lá arranco, meio nauseado, não sei se devido às constantes subidas e descidas a picos e vales, se da comida, se da falta de sono.

Subimos 1022 metros até Zelatun que fica mesmo antes do Ernio (1078 m). O nevoeiro dificulta muito o divisar das fitas refectoras, uma vez que difunde a luz do frontal numa espécie de halo baço que não permite ver muito longe. Por diversas vezes tenho que varrer o curto horizonte para que o canto dos olhos capte a luz reflectida nas fitas. Há quem retire o frontal da cabeça e o use nas mãos, assegurando que esse é o melhor método.

Cruzamo-nos com rebanhos de ovelhas que pastam no fresco escuro da madrugada. As suas dezenas de olhos adquirem uma qualidade fantasmagórica, reflectidos que são pela luz do nosso frontal. Assemelham-se a um bando de anjos brancos que teriam descido do céu para repousar na erva.

Passamos por um troço muito perigoso, em que temos literalmente que rastejar por cima de uns afloramentos rochosos.

Às 6h02 lá chego a Zelatun (12h02 de prova), no km 66. Agora há que passar pelo Ernio e descer 1150 metros até Tolosa, onde me espera a primeira estação de muda de roupa e de refeição quente.

O dia começa finalmente a clarear, o que é um grande alívio. Até aqui ainda não senti qualquer indício de sono, mas a luz natural facilita imenso a progressão. Desligo o frontal e vou descendo por um trilho lamacento e muito escorregadio de tão molhado que está. Nota-se que os atletas que já passaram experimentaram todas as alternativas possíveis: por cima da lama, por cima das ervas, por vezes por cima de pedras. A mim parecem-me todas igualmente viscosas e traiçoeiras.

Duas horas depois, quando por fim entro em Tolosa (77 km e 80 m), vejo gorada a expectativa de poder descansar logo alí e ainda sou obrigado a fazer 2 ou 3 km pela vila até finalmente chegar ao pavilhão desportivo onde se encontra o abastecimento. Estas pequenas desilusões não matam mas moem.

Entro no pavilhão às 8h27 da manhã (14h27 de prova) e dou de caras com o Luís, que já tinha mudado de roupa e estava a acabar de comer o seu prato de massa com queijo.

Já tenho mais quilómetros e mais desnível positivo que na Ultra da Serra da Freita! Até aqui tenho vindo em bom ritmo.

Recolho o saco com a muda de roupa, mas acabo apenas por trocar as meias de compressão. Despeço-me do Luís, que está de saída e verifico o que é que o meu estomago ainda me autoriza a ingerir. Este proibe-me terminantemente qualquer tipo de refeição quente e em consequência fico-me por uma sandes de queijo, uns pedaços de melão, melancia e laranja. É tudo o que consigo deglutir. Bem sei que é pouco mas tenho a certeza de vomitar caso seja mais ousado.

Tolosa representa, grosso modo, a 1ª parte da prova. Daquí até Amezketa, a 19 km, espera-nos um percurso relativamente simples, que se faz bem ao início do dia.

Arranco em direção a esta nova etapa. A chuva faz menção de começar a deixar de se fazer sentir.

Passo por mais uma família que montou uma banquinha à porta de casa, com variados bolinhos e bebidas para os atletas. Não se deixam dissuadir pela chuva ou pelo frio. São uma fonte constante de ânimo para quem passa.

Percorro os próximos 10 km até ao abastecimento de Jazkue Gaina completamente só. São 10 km extremamente solitários. Apesar de continuar a ver claramente as fitas, começo a questionar-me insistentemente se não me terei enganado. São partidas manhosas que nos prega uma mente cansada. Não há dúvida: as fitas estão lá! No entanto, será que usaram as mesmas fitas noutra prova? Estarei a seguir o caminho correcto?


Floresta - foto da organização

Vou olhando para o Garmin: já fiz mais de 11 km desde Tolosa! Onde está o raio do abastecimento?! Felizmente lá esbarro com o minúsculo abastecimento numa curva do caminho.

São 10h49 (16h49 de prova). Verifico na folha onde são apontados os dorsais que o Luís passou 14 minutos antes. É mais um sinal reconfortador de que me encontro no caminho correcto, como se outro fosse necessário para além de ali estar aquela miragem de abastecimento singular. Devo ter receio que se evapore a qualquer momento.

O caminho até Amezketa é cumprido sem eventos dignos de nota. A 200 metros do abastecimento desfalece-me a bateria do Garmin. Até para esse querido companheiro de jornada foi demasiado o esforço. Aguentou-se durante 18 horas seguidas e marcou fielmente (?) 99 km, com 5200 m D+.


Amezketa - foto da organização

Mudo para um cronómetro de pulso e completo os 200 metros até ao abastecimento, supostamente a 96 km da origem da prova e 201 m de altitude. Cronometram-me a entrada no K9 com 18h10. Reencontro o Luís, que já está de saída, juntamente com um grupo de outros atletas.

Descanso um pouco, ou melhor, sento-me desamparadamente numa cadeira, com um copo de água na mão. Daí a pouco levanto-me e volto a encher a mochila de hidratação, pois suspeito que vou necessitar de todo o litro e meio de água para ultrapassar os próximos obstaculos.

Quando faço menção de sair, uma das voluntárias diz-me qualquer coisa que eu não percebo. Saio em direcção Larraitz ( km 99), na base do Txindoki, onde já tinha estado com a família na 5ª feira anterior.
  

Txindoki


Já sabia que, dadas as condições meteorológicas adversas, não nos seria permitido subir ao alto do Txindoki, e tinha ouvido dizer qualquer coisa acerca de ser necessário fazer parte do percurso acompanhado, em grupo. Pelo caminho começo a perguntar-me se não teria sido necessário sair já acompanhado do ponto anterior, em Amezketa.

Avanço animado pela secreta esperança de reencontrar a minha família em Larraitz. E lá estão eles! O reencontro é efusivo. A sua presença dá-me um outro ânimo.


Larraitz

Encontram-se ali também alguns membros da organização, uma vez que este era o 2º ponto de abastecimento para a corrida mais curta de 88 km. A partir daqui o traçado do percurso é idêntico para ambas as provas.

Questiono a organização acerca da necessidade de subir acompanhado, e comprovo que deveria tê-lo feito a partir de Amezketa. No entanto o elemento da organização é impecável, e após vários telefonemas confirma-me que vem aí um grupo de 3 atletas a caminho e mais não há do que aguardá-los serenamente. Aguardo uns 15 minutos e aproveito para beber uma meia de leite oferecida pelo jovial e prestável moço.

Assim que o grupo chega, eu junto-me a eles: dois madrilenos e um basco. Começamos a subida para esta nova cordilheira montanhosa. Espera-nos uma falda do Txindoki e, mais acima, o alto do Ganbo (1400 m).

A escalada é muitíssimo abrupta! Em apenas uns 7 ou 8 km subimos cerca de 1400 metros (D+). Eu e o Raúl (#105) vamos progredindo com maior facilidade, mas depois temos que esperar pelo Vicente Jesús (#114) e pelo Oriol (#62, o basco do grupo). Ao passarmos ao lado do Txindoki apercebemos-nos do trilho de cerca de 1 km, quase vertical e parcialmente imerso em nevoeiro, a que fomos poupados. Tenho sentimentos contraditórios relativemente a esse troço: sinto-me desiludido por me não ser permitido conquistá-lo, mas por outro lado bem se nota o que aquilo deve custar a subir! Na edição do 1º ano, com condições meteorológicas semelhantes, também não permitiram que se subisse até este alto pedregoso e escorregadio.

Passamos pelo ponto de controle do Txindoki às 14h24 (20h24 de prova), onde somos recebidos efusivamente pelos voluntário que ali se encontram. Sou forçado a vestir novamente o corta-vento impermeável pois está novamente humido e chuvoso e o vento faz-se sentir cortante.

O alto da serra ainda está apenas parcialmente nublado, portanto a partir desse ponto, nas cercanias do Ganbo (km 108), a vista de que se disfruta é do outro mundo. O ponto de observação é privilegiado. A serra e arredores são lindíssimos, correndo o risco de usar um adjectivo muito estafado, paradisíacos mesmo (no sentido de um Valhalla feito de pedra e com cavalos e prados verdejantes...)



Foto de José Morgado


Aqui em cima passamos por trilhos mais fáceis de percorrer e encontramos sobretudo relva e alguma lama. Ambos os madrilenos descem com um vigor surpreendente. Vejo-me em dificuldades para os acompanhar. Após uma prolongada descida entramos por fim num trilho de terra batida mais horizontal. Os espanhois correm como loucos e eu sigo-os conforme posso. Bem sei que estou a massacrar as pernas mais do que o devido, mas a expectativa de atíngir o posto de abastecimento de Lizarrausti é superior ao bom senso e lá prossigo naquele ritmo infernal. Quase à chegada ao K11 alcanço o Luís Freitas, que vinha mais lento mercê de uns pés muito massacrados.

Entramos juntos no abastecimento, ao km 116 (610 m), com 22h58 de prova cumpridas (ou compridas...). Nunca anteriormente tinha percorrido tamanha distância, ou acumulado tal desnível, nem sequer estado em prova durante tanto tempo. O meu Cabo Bojador está ultrapassado. Já me encontro em mare-incognito (ou terra-incognita).

Reencontramos novamente as nossas famílias! Que alegria indescritível!!! Afianço-lhes que me sinto bem. Recebo palavras e gestos de encorajamento.

Não sinto fome, logo quase não como. Tampouco reabasteço a mochila de hidratação.

Os pés do Luís estão a ser observados pelos elementos da Cruz Vermelha pois ele queixa-se de ter muitas dores ao assentar os pés. De facto, os pés dele têm um aspecto bastante recozido.Vão-lhe prepara uma ligadura, ou algo do género.

Não me passa pela cabeça que ele vá desistir, e portanto despeço-me até ao próximo abastecimento, onde estou certo nos reencontraremos.

Logo à saída do abastecimento deparo-me com uma subida bem pronunciada que vou subindo a passo e com dificuldade. Bem sei que, de acordo com o perfil altimétrico, os próximos 14 km devem ser algo acidentados, dado que vamos subir 950 m (D+) e descer 1200 m (D-). Iremos no entanto permanecer a uma altitude não inferior a 600 metros até ultrapassarmos a última cadeia montanhosa, percorrendo os parques naturais de Aralar (que teve início no Txindoki) e Aizkorri.


Floresta - foto da organização

Cedo me apercebo que a frescura de que me vangloriara no abastecimento tinha sido uma pura ilusão! O Txindoki e o Gambo tinham deixado marcas, tanto nos quadricípetes como nos restantes músculos das pernas. Para além disso atínge-me que foi um erro estúpido não ter comido no abastecimento pois de súbito sinto um frio glacial que me penetra até aos ossos. “Estou a entrar em hipotermia”, gela-me o pensamento! Isso provavelmente deve-se à falta de calorias conjugada com a falta de sono e o cansaço.

Rapidamente visto toda a roupa de que disponho, incluindo luvas e gorro, e como uma banana, que felizmente tinha guardado num bolso, para qualquer eventualidade. Ingiro ainda dois geis energéticos. A obrigatoriedade de carregar alimentos começa a fazer-me todo o sentido.

Passados uns minutos já me sinto melhor, mas ainda só consigo progredir andando numa marcha rápida. Sinto uma forte sede, que vou colmatando pela ingestão da reserva de água que me resta. Outro erro crasso! Deveria ter resposto a reserva da mochila. Burro! Recrimino-me.

Os próximos 7 km são passados com vários atletas a ultrapassarem-me. Sei quantos kms vou fazendo pois neste troço (e apenas neste) a organização colocou tabuletas a cada km, com essa indicação, para ambas as corridas.

No 7º km felizmente sou alcançado pelo Luís, que vinha com um aspecto revigorado. Para além da alegria de o ver recomposto, é uma felicidade sentir-me acompanhado pela sua calorosa presença. Decidimos avançar em tandem. Graças ao seu incentivo, volto a conseguir correr, excepto nos troços, que são muitos, em que a profusão de lama nos obriga a caminhar.

São rios de lama que nos dificultam o progresso. Esta lama já foi pisada por todos os 300 atletas da prova curta e está absolutamente revolta, sugando-nos as pernas, qual pantano de areia movediça. Na maior parte do caminho não encontramos alternativa para a lama. Há que progredir com cuidado, recorrendo aos bastões a fim de evitar alguma infeliz escorregadela, com o potencial para nos causar uma debilitante rotura nalgum músculo ou ligamento.

Às 20h51 (26h51 de prova) lá chegamos finalmente ao abastecimento de Etxegarate (663 m) cumpridos 130 km de uma enorme dureza e grande desafio à condição física e anímica da pessoa humana.

Decidimos fazer o resto do percurso em conjunto, auxiliando-nos mutuamente, pois o terror que se avizinha promete não ser mais fácil daquilo que ultrapassámos até agora, maioritariamente a solo.


to be continued...

III Ehunmilak 2012 - 1ª parte

Recinto da partida

O 5º e último mesociclo de preparação para o Ehunmilak teve início a 18 de Junho e terminou com a realização da prova (vide preâmbulo).

Neste último período, por indicação do meu treinador, Eduardo Santos, baixei drasticamente o volume de treino, por forma a chegar descansado a Beasain, no País Basco. Confesso que não foi fácil abrandar. Nunca o é, antes de uma prova importante. Para além disso, desde a Ultra de São Mamede (105 km) que não competia em nenhuma prova, o que me deixa sempre um pouco agitado. Tenho necessidade de descarregar a adrenalina.  Por outro lado, e contraditoriamente, já me sentia algo fatigado pelo inusitado volume de treino.

Questionava-me: será que treinei de mais, será que treinei de menos? Deveria ter feito algo de forma diferente? Nestas circunstâncias só há uma coisa a fazer: ter confiança no treinador. Até aqui nunca me tinha dado mal.

Aliás, a questão inicial passa logo pelo objectivo a estabelecer: será demasiado ambicioso, será pouco? É a eterna dúvida do ser humano e do atleta em particular: “Ser ou não ser?”

Enfim, parti para Espanha com a confiança de quem tinha planeado um objectivo ambicioso mas atingível por um corpo endurecido e uma alma preparada. Sempre tinham sido 5 meses de treino duro e sistemático, caramba!

Parti com toda a família, apoiantes indefectíveis, companhia permanente e bálsamo revigorante, nestas empreitadas “maiores que a vida.”

Família

Chegámos a Alsasua (Altsasu em Basco), na Navarra, a 26 km de Beasain, centro logístico da prova, na 4ª feira dia 11 de Junho.

Tinhamos alugado um agradável apartamento, geminado com outro onde se acomodaria a família do companheiro de aventura, Luís Freitas, que chegaria no dia seguinte.

Seria esta a nossa base operacional durante as 6 noites que iríamos permanecer pelo nordeste espanhol.

Na 5ª feira, para descomprimir, aproveitámos para fazer turismo por Donostia / S. Sebastian, que é uma cidade lindíssima, junto ao mar. Ainda molhámos os pés na surpreendentemente quente água da belissima praia, localizada na baia.

San Sebastian / Donostia


À tarde fomos visitar Larraitz, na base do monte Txindoki (1346 m). Este monte para além de ex-libris da prova, iria ser um dos maiores obstáculos a ultrapassar.

Txindoki

Os miúdos divertiram-se imenso num parque aventura, onde fizeram slide, entre outras actividades.

Os miúdos com o Txindoki em fundo


Às 18h30 encontrámo-nos em Beasain com a família Freitas e levantámos os dorsais. Para os levantar, foi necessário apresentar o material obrigatório para a prova. Este consistia em:

•    BI
•    Mochila (levei a Salomon XT Skin Pro)
•    Reservatório de água com capacidade para 1 litro (a mochila tem um reservatorio de 1,5 l)
•    Reserva de comida (não indicavam a quantidade de calorias, mas eu levei 10 géis de 40 g cada, o que totaliza cerca de 1000 Kcal)
•    Corta-vento impermeável (este item foi sempre o meu maior receio, dada a minha inexperiência com provas noturnas – de noite nunca tinha corrido mais do que 2 horas)
•    Calças abaixo do joelho
•    2 frontais com pilhas de reserva
•    Cobertor de sobrevivência
•    Chapéu
•    Apíto
•    Ligadura adesiva (esta deu-me trabalho a encontrar nas farmácias)
•    Telemóvel

Levei ainda:
•    Camisola térmica de mangas compridas
•    Luvas
•    Gorro
•    Bastões (fundamentais para este tipo de prova)

Após a verificação, a organização prendeu-nos o chip no pulso, forneceu-nos o dorsal (número 19)  e um livrinho muito jeitoso com todas as 16 etapas entre abastecimentos e respectiva altimetria e diversas senhas para vários fins.

Ao voltarmos para o carro, cruzamo-nos alegremente com vários dos elementos do grande contingente português.

Na 6ª feira dormi até às 10 horas (locais), tentando acumular o maior número de horas de sono possíveis. Acordei bem disposto e ansioso porque a prova tivesse início. Tanto eu como o Luís resolvemos não comparecer na Pasta-Party a fim de descansarmos o máximo possível até à hora de partida. Pela minha parte, comi uma pratada de esparguete tão bem fornida que até senti as artérias a entupirem com tamanha quantidade de hidratos de carbono.

No dia anterior a temperatura tinha estado muito alta, mas nós sabíamos que a previsão para esta noite seria de chuva e baixa drástica de temperatura, logo ataviamos a mochila com o material necessário para enfrentar estas condições (no meu caso, corta vento, camisola térmica de mangas compridas, gorro e luvas).

Às 16 horas metemo-nos nos automóveis e saímos em direção a Beasain, com ânimo nos corações e agitação nos pés.

Prespassa pela minha cabeça a lista de material obrigatório e de súbito apercebo-me: esqueci-me dos bastões! Tenho que voltar para trás para os ir buscar. Nem me passa pela cabeça prescindir deles.

Ultrapassado este pequeno contratempo, voltamos à estrada. Chegamos a Beasain, estacionamos e vamos entregar os 3 sacos com as mudas de roupa: um para o km 77 em Tolosa, outro para o km 130 em Etxegarate e o último para a chegada a Beasain.

Vamos encontrando a totalidade da comitiva portuguesa, e tiramos fotos de conjunto, para a posteridade.

Contingente Luso

São 12 destemidos homens e uma valorosa mulher, estes que tiveram a coragem de alinhar na partida e se preparam para enfrentar um dos maiores desafios da sua vida desportiva:

#9 José Morgado
#13 Vitorino Coragem
#19 Luis Ferreira
#32 Luis Freitas
#39 Paulo Costa
#68 José Sá
#84 Daniel Junior
#193 Nuno Silva
#194 Teresa Afonso
#202 Luís Mota
#316 José Simões
#317 Cirilo Santos
#318 Carlos Couto

Pouco depois das 17 horas entramos no recinto fechado em frente à sede da Autarquia. Passamos o chip pelo mecanismo de registo e apontam o nosso número numa folha de papel (usaram sempre estes dois métodos para prevenir falhas no sistema).

Conversamos entre nós. O Paulo Costa confidencia-me que tem uma lesão na perna desde o MIUT (feito recentemente), mas que está esperançoso que esta não o impeça de prosseguir.  É um sinal de grande coragem, enfrentar uma prova desta natureza nessas condições!

Para surpresa minha, o Luís Mota também vai participar. Este homem é imparável! Semana após semana atínge belissimos resultados em duras provas.

O Vitorino Coragem está igual a si mesmo: comunicativo e entusiasmado com a participação na prova. Tem razões para estar: efectuou um preparação muito intensa para estar aqui a 200%.

O Luís Freitas está irrequieto, mas isso nele é normal antes das provas e passa-lhe logo assim que começa a correr. Recentemente sofreu uma lesão que lhe prejudicou muito a preparação para esta prova. No entanto estou certo que lhe irá correr de feição, pois, mercê da nossa participação conjunta em várias provas, já lhe conheço o espírito combativo e dúvido que se deixe esmorecer.


Antes da partida - Foto de José Morgado

Os minutos escorrem lentos. O ar está quente e abafado, pressagiando tempestade. A ansiedade e a adrenalina são palpáveis no ar. Cheira a testosterona ... e a medo.

5... 4... 3... 2... 1... é dada a partida!!!

187 atletas correm entusiasmados pelas ruas de Beasain, emoldurados por uma mui entusiástica mole humana. Parece uma largada de touros. Uns partem lentos, outros muito céleres.

Partida

À saída da Vila encontramos a primeira subida onde somos saudados por um burro que zurra, ataviado com o lenço das festas de San Firmin de Pamplona. Há logo quem questione divertido: “e o burro sou eu?” O proverbial sentido de humor português faz-se sentir nas mais longínquas paragens...

Vou decidido a andar em todas as subidas, no que sou acompanhado pelo Luís Freitas e pelo Paulo Costa. Nas descidas aproveitarei para tomar balanço e acelerar. Mas mesmo isso apenas durou os quilómetros iniciais, após os quais resolvo adoptar uma postura mais defensiva, aproveitando para descer correndo mas com maior precaução. Não convém rebentar já com os músculos quadricípites que muita falta me irão fazer durante a prova.


Luís Freitas comigo na sua peugada

A primeira subida é uma originalidade introduzida no percurso deste ano. Nenhuma das duas primeiras edições tinha passado por um ponto alto de Beasain. A organização decidiu alterar esse estado de coisas fazendo-nos passar pelo Usurbe (707 m) na Serra de Murumendi. Essa primeira subida deu logo para aferir parte daquilo que nos esperava: subidas com inclinações ferocíssimas, seguidas de descidas abruptas como precipícios! Nos primeiros 5 km subimos logo cerca 800 metros! Passou-me pela mente que em Portugal já tinha participado em Trails de 30 km com pouco mais desnível positivo do que isto!


Beasain com o Txindoki em fundo - Foto de José Morgado


Até este ponto ainda não chovia, e ao fim de 10 km chegámos ao 1º abastecimento (K1 – supostamente apenas líquidos), em Mandubia (548 m de altitide), tendo feito 1050 m D+ (desnível positivo) e 600 m D- (desnível negativo) em 1h20. Depois arrancámos para a etapa seguinte, que nos levaria até Zumarraga, passando pelo monte Izazpi (967 m) no km 15.

A descida para Zumarraga é agressiva e há que ter cuidado, sobretudo porque já começou a chuviscar e o terreno irá progressivamente ficando mais escorregadio. Sigo atrás do Luís Freitas e após uns 600 m de D- lá chegamos à vila, 2h54 de prova decorridas, e aproximamo-nos do pavilhão onde se encontra o abastecimento K2. Somos aplaudidos e incentivados pela grande quantidade de publico que se encontra nas ruas, o que, aliás, foi uma constante de toda a prova. Pudera em Portugal ocorrer o mesmo!  Tenho a grande alegria de passar pela minha família (e a do Freitas) que nos veio animar.


Zumarraga - Entrada no pavilhão


Entramos no pavilhão onde aproveito para repousar um pouco e ingerir alimento sólido. 
Os abastecimentos são muito bem providos: consistem em fruta fresca à discrição - melão, melancia, laranja, banana - tomate com sal, frutos secos, bolos secos de vários tipos, sopa, chouriça, pão, fiambre, queijo, coca-cola, sumos, café.

O Luís não deseja prolongar as suas paragens nos abastecimentos, a fim de não arrefecer os musculos, e portanto arranca célere. Ao fim de uns minutos lá o sigo, mas já o perdi de vista. Chegado cá fora, dada a chuva miudinha e o arrefecimento significativo, decido vestir a minha camisola térmica de mangas compridas. Sinto-me bem melhor, mas assim que alcanço a primeira subida íngreme, volto a aquecer.

Este é um problema constante: vestir, despir, consoante a variação do ritmo, do esforço, da temperatura e do vento. Tanto suo em bica, como arrefeço repentinamente. É uma gestão difícil de conseguir.


Subida - foto da organização

 Subo por um caminho muito inclinado no meio de uma floresta mais densa. Uma subida de cerca de 4 km levou-me até ao alto do Irimo (901 m). Sou ultrapassado por um casal jovem que sobe rápido que nem cabras montesas! Onde é que estes Bascos vão buscar toda esta energia?! Quando começo a descer sinto a necessidade de ligar o frontal pois a noite está a cair e já não vejo praticamente nada. Não há luar (é quase lua nova) e o céu está encoberto.


Noite - foto da organização


Apesar do meu Petzl Myo RXP de 140 lumens alumiar o caminho como se fora os faróis de um automóvel, ao início sinto dificuldade em localizar as fitas reflectoras na descida muito inclinada em que vou progredindo. Tenho receio de descer por ali abaixo ao engano e depois ter necessidade de subir tudo novamente para voltar ao trilho correcto. No entanto, apesar da falta de experiência, lá me vou orientando, conforme posso. Verdade seja dita, o percurso está muito bem marcado e não tenho reparos a colocar nesse aspecto. As diculdades surgem sobretudo devido à chuva e ao nevoeiro que se fará sentir nos pontos mais altos.

Às 22h34 (4h34 de prova), noite cerrada, lá chego ao abastecimento de Gorla (668 m), percorridos os primeiros 29 km e tendo começado a minha adaptação à corrida noturna.

Mal sabia eu o que ainda me esperava pela frente...


to be continued...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preâmbulo



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
-    Álvaro de Campos



Perfil Altimétrico

Percurso


O Ehunmilak (vide o meu post anterior) é uma prova pedestre de montanha, com 168 km de comprimento e 22000 metros de desnível acumulado (11 mil a subir + 11 mil a descer), que passa pelos picos montanhosos mais significativos da província de Guipúzcoa, na comunidade autónoma do País Basco. A sua personalidade própria deve-se principalmente aos seguintes factores: a enorme beleza da envolvente paisagística; a feroz inclinação ascendente e descendente dos seus trilhos, que incluem troços de vários quilómetros ultrapassando os 25%; a dureza do seu piso, capaz de desfazer a sola do pé mais rijo; a inconstância caprichosa  da sua meteorologia, que potencia o grau de dificuldade ao gerar autênticos rios de lama e perigosas pedras escorregadias.

Ou seja, um autêntico Adamastor, esperando para nos devorar caso tenhamos a ousadia de tentar a sua travessia.

«Converte-se-me a carne em terra dura;
Em penedos os ossos se fizeram;»
- Os Lusíadas, Canto V.


Psicose:
«O termo psicose é definido como a incapacidade de distinguir entre a experiência subjectiva e a realidade externa, ou seja, existe uma perda de contacto com a realidade.»

O enorme, gargântuo, demolidor desafio que foi para mim o Ehunmilak pode ser definido como a anti-psicose.

Processa-se em 3 estágios em que se vão removendo as camadas externas da psique até restar apenas o eu nu e primevo, imerso numa realidade pre-uterina, uno com o Universo ("no princípio era o Verbo").

Primeiro a Montanha destroi o corpo, fibra por fibra, até não sobrar mais nada para além da mente para nos levar adiante. Seguidamente destroi a própria mente, através do cansaço e da privação do sono, que impedem a concentração e nos dificultam os passos. Por fim sobra apenas a vontade pura para nos levar até ao fim.


Cinco dias volvidos sobre o término da prova, ainda passo horas meditando sobre o que sucedeu na Montanha. Tenho recordações muito mais vivas daquilo que se passou no segundo dia do que ocorreu no primeiro (a falta de sono prejudica a formação de memórias). Ainda tenho dores e abrasões em vários pontos do corpo e ainda tenho dificuldade em sentir o dedo grande do pé esquerdo. Ainda sinto a astenia e o sono profundo que me conquistaram nos dias posteriores à prova.

Contudo, sinto também a calma reconfortante proporcionada por aquele contacto prolongado com a vontade no seu estado mais puro.


Nota:
Da mesma forma que eu ainda me encontro no processo de reconstrução pós-Ehunmilak, esta vai ser uma crónica em (re)construção. Reservo-me, humildemente, o direito de corrigir alguma construção gramatical mal engendrada ou limar alguma expressão menos conseguida, ou até mesmo introduzir algum parágrafo que me faça sentido, à medida que for publicando.