terça-feira, 24 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - 2ª parte

Início da descida para Azpeitia (é assim de dia, mas de noite e com chuva...)

De Gorla (29 km) até Madarixa passamos pelo Elosua (686 m) e pelo Azkarate (665 m). Os quilómetros vão-se cumprindo e alcanço Madarixa, aos 43 km com 6h52 de prova. Um quarto do caminho está feito (em termos de distância mas não de desnível, que é o que conta verdadeiramente). Se fosse para mim humanamente possível manter esse ritmo, acabaria a prova em apenas 28 horas!

Em Madarixa reencontro o Luís e daí partimos para o abastecimento seguinte, em Azpeitia. Os primeiros 6 km não têm história de relevo, mas a partir daí tem início a famigerada descida para Azpeitia: um puro calvário de 4 kms em que descemos mais de 800 metros, do Xoxote (912 m) para Azpeitia (80 m), maioritariamente em equilibrio preclitante sobre uma calçada tipo medieval, com lajes de pedra, molhadíssimas e escorregadias como o diabo! Este troço deve ter sido desenhado pelo próprio Torquemada da Santa Inquisição! Apesar de o fazer a andar, com uma lentidão digna de um paquiderme trôpego, ainda me estatelo umas cinco vezes, felizmente sem consequências. E só não caio mais porque os bastões oferecem um amparo providêncial.

O que deveras me surpreende é que ainda existem uns Bascos mais afoitos que me vão passando, lentos mas seguros. Sinto-me como um camião TIR numa descida perigosa. Só não ponho mais travões porque não os tenho.

Consigo divisar ao longe, distante lá embaixo no vale, a vila iluminada, qual Oasis num deserto de pedra, mas é uma eternidade até que finalmente alcanço o troço de alcatrão que me levará até ao abastecimento K5 no km 53.

Às 3 horas da madrugada, após 9 horas de prova, lá chego ao Oasis de Azpeitia. Por esta altura já só me ocorre que não faltam muito mais de 3 horas para terminar a primeira noite. O Luís já cá não está. Leva-me 10 minutos de avanço.

Como com calma, embora a capacidade de ingerir pedaços de banana, melão, chouriço, caldos knorr e outras fonte de energia, sais e electrólitos, já não seja a mesma do início da prova. Aliás, o meu estomago ressente-se como se tivesse levado uma boa tareia e reclama comigo pela forma como o vou tratando: “Se me dás mais um copo de caldo knorr ou uma rodela de chouriço mando-te ao gregório, pá!”

Lá arranco, meio nauseado, não sei se devido às constantes subidas e descidas a picos e vales, se da comida, se da falta de sono.

Subimos 1022 metros até Zelatun que fica mesmo antes do Ernio (1078 m). O nevoeiro dificulta muito o divisar das fitas refectoras, uma vez que difunde a luz do frontal numa espécie de halo baço que não permite ver muito longe. Por diversas vezes tenho que varrer o curto horizonte para que o canto dos olhos capte a luz reflectida nas fitas. Há quem retire o frontal da cabeça e o use nas mãos, assegurando que esse é o melhor método.

Cruzamo-nos com rebanhos de ovelhas que pastam no fresco escuro da madrugada. As suas dezenas de olhos adquirem uma qualidade fantasmagórica, reflectidos que são pela luz do nosso frontal. Assemelham-se a um bando de anjos brancos que teriam descido do céu para repousar na erva.

Passamos por um troço muito perigoso, em que temos literalmente que rastejar por cima de uns afloramentos rochosos.

Às 6h02 lá chego a Zelatun (12h02 de prova), no km 66. Agora há que passar pelo Ernio e descer 1150 metros até Tolosa, onde me espera a primeira estação de muda de roupa e de refeição quente.

O dia começa finalmente a clarear, o que é um grande alívio. Até aqui ainda não senti qualquer indício de sono, mas a luz natural facilita imenso a progressão. Desligo o frontal e vou descendo por um trilho lamacento e muito escorregadio de tão molhado que está. Nota-se que os atletas que já passaram experimentaram todas as alternativas possíveis: por cima da lama, por cima das ervas, por vezes por cima de pedras. A mim parecem-me todas igualmente viscosas e traiçoeiras.

Duas horas depois, quando por fim entro em Tolosa (77 km e 80 m), vejo gorada a expectativa de poder descansar logo alí e ainda sou obrigado a fazer 2 ou 3 km pela vila até finalmente chegar ao pavilhão desportivo onde se encontra o abastecimento. Estas pequenas desilusões não matam mas moem.

Entro no pavilhão às 8h27 da manhã (14h27 de prova) e dou de caras com o Luís, que já tinha mudado de roupa e estava a acabar de comer o seu prato de massa com queijo.

Já tenho mais quilómetros e mais desnível positivo que na Ultra da Serra da Freita! Até aqui tenho vindo em bom ritmo.

Recolho o saco com a muda de roupa, mas acabo apenas por trocar as meias de compressão. Despeço-me do Luís, que está de saída e verifico o que é que o meu estomago ainda me autoriza a ingerir. Este proibe-me terminantemente qualquer tipo de refeição quente e em consequência fico-me por uma sandes de queijo, uns pedaços de melão, melancia e laranja. É tudo o que consigo deglutir. Bem sei que é pouco mas tenho a certeza de vomitar caso seja mais ousado.

Tolosa representa, grosso modo, a 1ª parte da prova. Daquí até Amezketa, a 19 km, espera-nos um percurso relativamente simples, que se faz bem ao início do dia.

Arranco em direção a esta nova etapa. A chuva faz menção de começar a deixar de se fazer sentir.

Passo por mais uma família que montou uma banquinha à porta de casa, com variados bolinhos e bebidas para os atletas. Não se deixam dissuadir pela chuva ou pelo frio. São uma fonte constante de ânimo para quem passa.

Percorro os próximos 10 km até ao abastecimento de Jazkue Gaina completamente só. São 10 km extremamente solitários. Apesar de continuar a ver claramente as fitas, começo a questionar-me insistentemente se não me terei enganado. São partidas manhosas que nos prega uma mente cansada. Não há dúvida: as fitas estão lá! No entanto, será que usaram as mesmas fitas noutra prova? Estarei a seguir o caminho correcto?


Floresta - foto da organização

Vou olhando para o Garmin: já fiz mais de 11 km desde Tolosa! Onde está o raio do abastecimento?! Felizmente lá esbarro com o minúsculo abastecimento numa curva do caminho.

São 10h49 (16h49 de prova). Verifico na folha onde são apontados os dorsais que o Luís passou 14 minutos antes. É mais um sinal reconfortador de que me encontro no caminho correcto, como se outro fosse necessário para além de ali estar aquela miragem de abastecimento singular. Devo ter receio que se evapore a qualquer momento.

O caminho até Amezketa é cumprido sem eventos dignos de nota. A 200 metros do abastecimento desfalece-me a bateria do Garmin. Até para esse querido companheiro de jornada foi demasiado o esforço. Aguentou-se durante 18 horas seguidas e marcou fielmente (?) 99 km, com 5200 m D+.


Amezketa - foto da organização

Mudo para um cronómetro de pulso e completo os 200 metros até ao abastecimento, supostamente a 96 km da origem da prova e 201 m de altitude. Cronometram-me a entrada no K9 com 18h10. Reencontro o Luís, que já está de saída, juntamente com um grupo de outros atletas.

Descanso um pouco, ou melhor, sento-me desamparadamente numa cadeira, com um copo de água na mão. Daí a pouco levanto-me e volto a encher a mochila de hidratação, pois suspeito que vou necessitar de todo o litro e meio de água para ultrapassar os próximos obstaculos.

Quando faço menção de sair, uma das voluntárias diz-me qualquer coisa que eu não percebo. Saio em direcção Larraitz ( km 99), na base do Txindoki, onde já tinha estado com a família na 5ª feira anterior.
  

Txindoki


Já sabia que, dadas as condições meteorológicas adversas, não nos seria permitido subir ao alto do Txindoki, e tinha ouvido dizer qualquer coisa acerca de ser necessário fazer parte do percurso acompanhado, em grupo. Pelo caminho começo a perguntar-me se não teria sido necessário sair já acompanhado do ponto anterior, em Amezketa.

Avanço animado pela secreta esperança de reencontrar a minha família em Larraitz. E lá estão eles! O reencontro é efusivo. A sua presença dá-me um outro ânimo.


Larraitz

Encontram-se ali também alguns membros da organização, uma vez que este era o 2º ponto de abastecimento para a corrida mais curta de 88 km. A partir daqui o traçado do percurso é idêntico para ambas as provas.

Questiono a organização acerca da necessidade de subir acompanhado, e comprovo que deveria tê-lo feito a partir de Amezketa. No entanto o elemento da organização é impecável, e após vários telefonemas confirma-me que vem aí um grupo de 3 atletas a caminho e mais não há do que aguardá-los serenamente. Aguardo uns 15 minutos e aproveito para beber uma meia de leite oferecida pelo jovial e prestável moço.

Assim que o grupo chega, eu junto-me a eles: dois madrilenos e um basco. Começamos a subida para esta nova cordilheira montanhosa. Espera-nos uma falda do Txindoki e, mais acima, o alto do Ganbo (1400 m).

A escalada é muitíssimo abrupta! Em apenas uns 7 ou 8 km subimos cerca de 1400 metros (D+). Eu e o Raúl (#105) vamos progredindo com maior facilidade, mas depois temos que esperar pelo Vicente Jesús (#114) e pelo Oriol (#62, o basco do grupo). Ao passarmos ao lado do Txindoki apercebemos-nos do trilho de cerca de 1 km, quase vertical e parcialmente imerso em nevoeiro, a que fomos poupados. Tenho sentimentos contraditórios relativemente a esse troço: sinto-me desiludido por me não ser permitido conquistá-lo, mas por outro lado bem se nota o que aquilo deve custar a subir! Na edição do 1º ano, com condições meteorológicas semelhantes, também não permitiram que se subisse até este alto pedregoso e escorregadio.

Passamos pelo ponto de controle do Txindoki às 14h24 (20h24 de prova), onde somos recebidos efusivamente pelos voluntário que ali se encontram. Sou forçado a vestir novamente o corta-vento impermeável pois está novamente humido e chuvoso e o vento faz-se sentir cortante.

O alto da serra ainda está apenas parcialmente nublado, portanto a partir desse ponto, nas cercanias do Ganbo (km 108), a vista de que se disfruta é do outro mundo. O ponto de observação é privilegiado. A serra e arredores são lindíssimos, correndo o risco de usar um adjectivo muito estafado, paradisíacos mesmo (no sentido de um Valhalla feito de pedra e com cavalos e prados verdejantes...)



Foto de José Morgado


Aqui em cima passamos por trilhos mais fáceis de percorrer e encontramos sobretudo relva e alguma lama. Ambos os madrilenos descem com um vigor surpreendente. Vejo-me em dificuldades para os acompanhar. Após uma prolongada descida entramos por fim num trilho de terra batida mais horizontal. Os espanhois correm como loucos e eu sigo-os conforme posso. Bem sei que estou a massacrar as pernas mais do que o devido, mas a expectativa de atíngir o posto de abastecimento de Lizarrausti é superior ao bom senso e lá prossigo naquele ritmo infernal. Quase à chegada ao K11 alcanço o Luís Freitas, que vinha mais lento mercê de uns pés muito massacrados.

Entramos juntos no abastecimento, ao km 116 (610 m), com 22h58 de prova cumpridas (ou compridas...). Nunca anteriormente tinha percorrido tamanha distância, ou acumulado tal desnível, nem sequer estado em prova durante tanto tempo. O meu Cabo Bojador está ultrapassado. Já me encontro em mare-incognito (ou terra-incognita).

Reencontramos novamente as nossas famílias! Que alegria indescritível!!! Afianço-lhes que me sinto bem. Recebo palavras e gestos de encorajamento.

Não sinto fome, logo quase não como. Tampouco reabasteço a mochila de hidratação.

Os pés do Luís estão a ser observados pelos elementos da Cruz Vermelha pois ele queixa-se de ter muitas dores ao assentar os pés. De facto, os pés dele têm um aspecto bastante recozido.Vão-lhe prepara uma ligadura, ou algo do género.

Não me passa pela cabeça que ele vá desistir, e portanto despeço-me até ao próximo abastecimento, onde estou certo nos reencontraremos.

Logo à saída do abastecimento deparo-me com uma subida bem pronunciada que vou subindo a passo e com dificuldade. Bem sei que, de acordo com o perfil altimétrico, os próximos 14 km devem ser algo acidentados, dado que vamos subir 950 m (D+) e descer 1200 m (D-). Iremos no entanto permanecer a uma altitude não inferior a 600 metros até ultrapassarmos a última cadeia montanhosa, percorrendo os parques naturais de Aralar (que teve início no Txindoki) e Aizkorri.


Floresta - foto da organização

Cedo me apercebo que a frescura de que me vangloriara no abastecimento tinha sido uma pura ilusão! O Txindoki e o Gambo tinham deixado marcas, tanto nos quadricípetes como nos restantes músculos das pernas. Para além disso atínge-me que foi um erro estúpido não ter comido no abastecimento pois de súbito sinto um frio glacial que me penetra até aos ossos. “Estou a entrar em hipotermia”, gela-me o pensamento! Isso provavelmente deve-se à falta de calorias conjugada com a falta de sono e o cansaço.

Rapidamente visto toda a roupa de que disponho, incluindo luvas e gorro, e como uma banana, que felizmente tinha guardado num bolso, para qualquer eventualidade. Ingiro ainda dois geis energéticos. A obrigatoriedade de carregar alimentos começa a fazer-me todo o sentido.

Passados uns minutos já me sinto melhor, mas ainda só consigo progredir andando numa marcha rápida. Sinto uma forte sede, que vou colmatando pela ingestão da reserva de água que me resta. Outro erro crasso! Deveria ter resposto a reserva da mochila. Burro! Recrimino-me.

Os próximos 7 km são passados com vários atletas a ultrapassarem-me. Sei quantos kms vou fazendo pois neste troço (e apenas neste) a organização colocou tabuletas a cada km, com essa indicação, para ambas as corridas.

No 7º km felizmente sou alcançado pelo Luís, que vinha com um aspecto revigorado. Para além da alegria de o ver recomposto, é uma felicidade sentir-me acompanhado pela sua calorosa presença. Decidimos avançar em tandem. Graças ao seu incentivo, volto a conseguir correr, excepto nos troços, que são muitos, em que a profusão de lama nos obriga a caminhar.

São rios de lama que nos dificultam o progresso. Esta lama já foi pisada por todos os 300 atletas da prova curta e está absolutamente revolta, sugando-nos as pernas, qual pantano de areia movediça. Na maior parte do caminho não encontramos alternativa para a lama. Há que progredir com cuidado, recorrendo aos bastões a fim de evitar alguma infeliz escorregadela, com o potencial para nos causar uma debilitante rotura nalgum músculo ou ligamento.

Às 20h51 (26h51 de prova) lá chegamos finalmente ao abastecimento de Etxegarate (663 m) cumpridos 130 km de uma enorme dureza e grande desafio à condição física e anímica da pessoa humana.

Decidimos fazer o resto do percurso em conjunto, auxiliando-nos mutuamente, pois o terror que se avizinha promete não ser mais fácil daquilo que ultrapassámos até agora, maioritariamente a solo.


to be continued...

3 comentários:

  1. Luís que relato impressionante! e que recordações me traz...

    Estou ansioso pelo próximo episódio :-)

    Quem sabe para o ano não fazemos uma aventura juntos se as pernas me deixarem!

    Ab

    ZC

    ResponderEliminar
  2. Grande Luís,
    já me estou com dores nos gémeos, só de ler a tua descrição. Deve ter sido fantástico. A melhor sensação do mundo é quando nos ultrapassamos.

    ResponderEliminar
  3. Bolas que dureza. Mesmo com uma preparação de alto nível vejo que a máxima "instrução dura, combate fácil" não se verificou. Só não fico mais ansioso pelo próximo capítulo porque já sei que no final o herói vence o vilão :)

    ResponderEliminar