domingo, 18 de novembro de 2012

Fim de época - Início do defeso



Após 10 meses de atividade deportiva intensa, é chegada a hora de baixar o ritmo e preparar o novo ano que se avizinha.

A 18 de Janeiro já saberei se a minha pre-inscrição no UTMB terá sido aceite e poderei preparar-me com esse grande objetivo em mente ou para uma alternativa igualmente gratificante.

Entretanto, para registo, aqui fica a tabelinha com todas as provas concluídas em 2012:


Provas 2012
   

Gosto muito de participar em provas de Trail, mas embora a alma se alimente destes eventos enriquecedores, infelizmente o corpo não aguenta tudo o que esta lhe impõe. Em 2013 tenciono fazer uma gestão diferente do calendário e completar menos provas a fim de dar mais tempo ao corpo para descansar, e assim poder usufruir melhor das provas em que me inscrever.  


sábado, 17 de novembro de 2012

5º AXTrail series 2012 - UTAX

AXTrail series 2012 - Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

#03 SERIE - UTAX

 

Percurso
Altimetria


Nesta segunda década do século XXI, no mundo ocidental é cada vez mais notório que nos deixámos anestesiar pela nossa auto-indulgência complacente. Vivemos protegidos em bolhas de conforto. Procuramos afastar de nós tudo o que é doloroso e incómodo. Tudo nos é apresentado esterilizado e formatado. Tentamos aderir a padrões de beleza e juventude desenquadrados. Deslocamos-nos a velocidades vertiginosas dentro de carapaças de metal e plastico. Não temos tempo para parar e contemplar. Usamos e deitamos fora.

Já não conseguimos sentir o apoio reconfortante do solo nos nosso pés. Já não enterramos as mãos na terra. Não sujamos as unhas. Não molhamos a cabeça. Os nossos cadáveres já não chegam ao caixão gastos pelos elementos mas sim corroidos pela abastança.

 E em lugar de nos sentirmos preenchidos, sentimo-nos cada vez mais vazios.

Outrora, numa época mais brutal, as orgulhosas legiões de Roma percorriam as vias da PAX Romana. Marchavam dias seguidos para acudir a focos de conflito. Os legionários eram curtidos pelos elementos e forjavam a sua têmpera na refrega da batalha. Era enquanto equilibravam perigosamente a vida sobre o fio da navalha e as entranhas se lhes tornavam palpáveis e contraídas de terror que a vida se tornava verdadeiramente real de tão perto se escapar.

Hoje, felizmente, não queremos retornar à incerteza e brutalidade daqueles tempos. Mas temos saudades de nos sentirmos vivos. Por isso, cada vez mais aderimos a meios para fugir à carapaça, nem que seja apenas temporariamente.

Talvez apenas na loucura se encontre a sanidade.

A minha loucura pessoal passa cada vez mais pelo Trail Running. Assim, no passado fim de semana, juntamente com a minha família, rumei uma vez mais à Vila da Lousã, onde me esperava mais uma edição de uma prova do circuito AXtrail (a ter lugar no sábado dia 10 de Novembro).

Chegámos na 6ª feira já perto das 21h e instalámo-nos na Pousada da Juventude, num quarto com dois beliches, ideal para nós os 4. A Pousada revelou-se uma escolha excelente dado que foi o centro nevrálgico de operações da Organização da prova.

No secretariado, apresentei o material obrigatório para a segurança dos atletas, habitual nestas provas longas, levantei o dorsal e os sacos com as t-shirts (muito giras por sinal) e encaminhei-me para assistir ao briefing.

A edição deste ano seria a mais longa de todas as provas do AXtrail que eu já tinha empreendido até à data, prometendo 82 km de distância e 5000 m de D+ (desnível positivo), que se afiguravam muito duros, dada a experiência que eu já tinha com outras provas do circuito, sempre muito técnicas e desafiantes para a resistência dos atletas. Lembrava-me em especial dos 45 km do K42 realizado no ano anterior, com os seus 3200 m de D+ e a sua dureza bela.

Na madrugada seguinte acordei às 4h45 e preparei-me para enfrentar a dura prova. Às 5h30 já estava perto da linha de partida, confraternizando com os companheiros e amigos que tenho tido a felicidade de conhecer ao longo destes 3 anos de trilhos trilhados em conjunto.



Partida

A previsão meteorológica não se anunciava nada favorável, mas eu resolvi partir vestido apenas com a térmica de mangas compridas e a t-shirt do meu clube, o Run 4 Fun. O impermeável ia dentro da mochila para quando fosse necessário.



Lá vou eu de farol aceso!


Arrancámos às 6 horas, ainda de noite e alumiados pelo frontal. Assim que abandonámos o alcatrão, e seguimos em direção ao Castelo de Arouce, ermidas e praia fluvial, começámos logo a enfileirar por single-tracks que subiam, subiam, subiam pela serra acima.

Depois de um troço diabólico, feito a caminhar, sobre uma estreita levada que caía a pique para a esquerda sob os nossos olhares temerosos, passámos pelo primeiro abastecimento, dos 7.5 km, na Aldeia de Xisto do Candal, onde resolvi não parar. Segui, sempre debaixo de chuva, em direção ao abastecimento dos 20 km em Aigra Nova. Aproveitei este abastecimento para retemperar forças e para ajustar um dos bastões, que se mostrava renitente.


Aldeia de Xisto


Desde o início que senti que não estava nos meus melhores dias e portanto resolvi fazer o caminho todo em gestão do esforço. Para além disso, as condições meteorológicas aumentaram muito o grau de dificuldade da prova, que já de si era muito exigente. A longa subida até ao alto do Trevim desgasta o mais afoito. Uma vez chegado ao alto, a quase 1200 m de altitude, o maior adversário revelou-se ser o vento. E que adversário!  Cheguei lá completamente encharcado e, apesar de levar o impermeável, o vento cortante que se fazia sentir fez-me recear seriamente sofrer uma hipotermia.

Já completei provas mais duras, mas nem mesmo no Ehunmilak tinha enfrentado um troço onde me tivesse sentido tão enregelado. Talvez tenha sido impreparação minha, pois o meu impermeável não se revelou à altura das condições térmicas que tive de enfrentar. Sou um indivíduo magro e portanto naturalmente pouco defendido do frio. Foi neste troço que mais receei ter de abandonar a prova, caso estas condições térmicas se prolongassem. Felizmente, quando comecei a descer a serra as condições melhoraram, fiquei mais protegido do vento e consegui aquecer um pouco. Junto com o frio, dissipou-se também o medo e pude continuar com outro ânimo.


João Colaço e Alexandre Cunha


No entanto, poucos quilómetros volvidos fui acometido por outro receio. O medo de ter que desistir por as pernas não aguentarem. Passei o abastecimento do Coentral e até ao Talansnal, no km 45 (47 no meu Garmin), fui sempre acompanhado desse espectro.




Foi com enorme alegria que finalmente revi o Talasnal, belíssima e preservada Aldeia de Xisto onde já tinha pernoitado noutra ocasião. Não aproveitei o saco de muda para trocar de roupa pois pareceu-me que poucos km volvidos estaria novamente encharcado, dado que não havia maneira da chuva cessar. Aproveitei sim, e de que maneira!, a morna canja que foi colocada à minha disposição. Que bem me soube ingerir algo quente e salgado!


Talasnal


Assim que alcancei o Talasnal compreendi que, se já chegara até ali, dificilmente não completaria a prova.

Saí do Talasnal e comecei a descer. Fui-me cruzando com atletas da prova dos 30 km. A certa altura passei pelo companheiro Jorge Esteves, que ia a passo com outro companheiro, pois tinha tido uma queda que lhe tinha deixado algumas dores. Apesar disso seguia animado e com um sorriso nos lábios.




Passei por uma descida completamente enlameada e já muito pisada. Via-se que os atletas já tinham tentado descer por todos os carreiros possíveis. Logo no primeiro troço fiz um pouco de sku involuntário. Não me conseguia aguentar em cima das sapatilhas. Decidi que o melhor era deslizar por ali abaixo sentado, sempre que possível. Pouco depois cheguei à estrada.

Daí parti para mais subidas e descidas. A certa altura cheguei ao 5º abastecimento, aos 52 km, onde se separavam os trilhos da Ultra e do Trail. Perguntei quanto faltava até ao próximo abastecimento e responderam-me que a partir dali os abastecimentos eram de 10 em 10 km. Segui em direção a Miranda do Corvo. Percorri uns estradões intermináveis, cheios de poças de água.  Recordo-me de passar pelo km 60 e olhar para o Garmin verificando que tinham passado 10 horas exactas desde que tinha iniciado esta odisseia.

O abastecimento de Senhora da Piedade de Tábuas é que nunca mais chegava! Desci, desci, desci e finalmente lá estava ele! Segundo o meu Garmin, estava já no km 67! Os quilómetros deviam-se ter transformados em milhas marítimas, devido à humidade! Entrei no abrigo e logo de seguida tive a felicidade de ver chegar o meu grande amigo Luís Ricardo, companheiro de Portalegre. Decidimos correr juntos até ao fim.

Até ao abastecimento de Espinho, percorremos um troço junto à ribeira, muito técnico e perigoso dado ser feito com a luz escassa do frontal. O Luís Ricardo foi um apoio inestimável para que este desafio fosse concluído da melhor forma. Conseguimos correr até ao fim, onde era possível fazê-lo, no restante andávamos, e o Ricardo foi-me incentivando e aguardando por mim quando eu ficava para trás. Tenho tido a sorte, de ser apoiado nestes desafios por pessoas de grande valor humano, a quem fico muito grato, pela amizade e companheirismo. O meu muito obrigado para o Luís Ricardo!

Aos 77 km chegámos ao abastecimento de Espinho, no Ti Patamar, onde fomos recebidos pelo mui popular Vitorino Coragem, que já tinha terminado a sua prova de Trail, e estava ali a apreciar uma bagaceira enquanto convivia com quem passava.

Arrancámos novamente para o caminho e apenas o incentivo constante do Ricardo me mantinha a correr, quanto todas as fibras do meu corpo me ordenavam que parasse, por piedade!

Mais 8 km de provação e foi, por fim, após 14h58 de prova, com uma grande felicidade que cortei a linha da meta, fui acolhido pelo José Moutinho e pelo Fernando Pinto, e revi a minha família e amigos.


Luís Ricardo e Luís Ferreira

Família


Comprovou-se mais uma vez que beleza e dureza estão incritas no código genético das provas do AXtrail. Gosto muito destas provas, pois realizam-se em cenários idílicos, de rara beleza, oferecem percursos técnicos e desafiantes, e têm uma mística muito particular. A envolvente das Aldeias do Xisto proporciona um espaço mágico de encantamento. A companhia e fraternidade dos companheiros dos Trilhos facilitam momentos de amizade e partilha inesquecíveis. As caminhadas para as famílias dos atletas também são muito bem conseguidas pois oferecem uma experiência envolvente e informativa. Esta foi das provas que fiz que tinha o percurso melhor marcado, nunca me enganei nem sequer tive dúvidas em ponto algum, isto apesar da chuva, do nevoeiro e do cair da noite. Por tudo isso, as minhas felicitações e agradecimentos para a organização.

Após a prova fui tomar um banho quente e ingerir uma refeição retemperadora, regada com um copo de tinto, que me soube divinalmente.

No dia seguinte ainda pude assitir à entrega dos prémios. O José Carlos Santos lá subiu ao ponto mais alto do pódio, na categoria de veteranos II, da prova de Trail, o que já se vai tornando um hábito, e o grande Armando Teixeira foi o justo vencedor da prova de 85 km. Em femininos foi a Susana Simões quem ganhou o Ultra Trail.


Pódio dos Vet II do Trail

Pódio da Geral do UTAX

Organização


Depois fomos almoçar ao famoso restaurante “O Burgo”, na companhia da família Ricardo e da família Santos, onde nos deleitámos com uns saborosissímos pratos de veado e de javali, bem regados com um tinto encorpado.

Por fim, foi hora de dizer adeus e regressar novamente para a lufa-lufa da vida citadina, com ânimo redobrado.





Este foi o oitavo Ultra Trail que completei neste ano de 2012. Agora tenciono descansar até ao fim do ano, abrandando no ritmo e volume dos treinos, para iniciar fresco a nova época.




domingo, 4 de novembro de 2012

3º Mesociclo 2012/2013





Nas 4 semanas que decorreram entre 08/10 e 04/11, completei o meu terceiro mesociclo da presente época desportiva, cujo grande objetivo é correr o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), em Agosto de 2013.

Ao todo, corri 330 km com 5600 m D+.

Volume de treino desde o início de 2010


Este macrociclo teve em vista os 82 km do Ultra Trail das Aldeias do Xisto, que terá lugar a 10 de Novembro na Lousã, uma prova que promete revelar-se muito dura, dado o seu grande desnível positivo (5000 m) e o terreno muito técnico que teremos que percorrer, em condições meteorológicas imprevisíveis.

Infelizmente, não consegui completar o volume de treino a que me propus, pois por vezes não é fácil cumprir um plano de treinos rigoroso, dada a vida agitada que hoje em dia todos temos. Quantas vezes não fazemos tudo "a correr" e até a própria corrida é feita "a correr", para despachar mais uns tantos quilómetros num qualquer intervalo entre dois afazeres que nos absorvem o tempo.

Isso leva-me a questionar-me o que é o tempo e para que serve? É talvez a pergunta mais fundamental que o ser humano pode colocar a si próprio pois a resposta que encontrar poderá ser determinante para as suas escolhas de vida. Uma coisa é certa: todos recebemos como dádiva uma certa quantidade de tempo, imprevisivel mas necessariamente limitada. Logo é bom que o usemos com algum critério.

Eu tenho escolhido passar mais tempo na natureza, na companhia da minha família. Esta minha paixão pelo Trail Running tem-me proporcionado muito boas amizades e momentos de grande partilha, em locais de grande beleza natural.

Ainda recentemente participei no Trail Running Camp da Serra da Lousã, onde tive o prazer de ouvir e dialogar com alguns renomeados especialistas na modalidade e de conviver com excelentes atletas e seres humanos de grande valor.

Possa o meu tempo continuar a ser preenchido desta forma saudável e muito recompensadora!