terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Marcha de Aníbal sobre os Alpes



Rota de Aníbal


Do ponto onde se encontrava, no sopé dos Alpes, Aníbal Barca, filho de Amílcar “o raio”, prescrutou atentamente as montanhas que se agigantavam no horizonte, com os seus imponentes cumes nevados e as suas vertentes escarpadas, e tentou imaginar um exército inteiro, composto por 40 mil soldados, cavaleiros, bestas de carga, carroças e equipamento e ainda 27 elefantes de combate, atravessando sinuosamente por trilhos pedregosos, perigosamente empoleirado sobre vertentes escorregadias.

 
Col de Montegenèvre


O ar fresco do início do Outono, nesse remoto ano de 218 a.C.,  já fazia anunciar o vento gélido do inverno que se aproximava a passos largos. Aníbal não podia hesitar. Nessa mesma noite tinha-se revolvido incessantemente no catre, atormentado pelo mesmo sonho recorrente, onde perseguia de olhos vendados uma águia imponente que se lhe escapava sempre no último minuto, até que fora acordado pelo bramir inquieto dos elefantes.

As forças com que se teria de defrontar não se limitavam ao terreno inóspito e às agruras do clima. Teria ainda que contar com os ferozes Gauleses Alóbroges, habituados às peculiaridades daquele território.

Não tardou até embater contra esses adversários temíveis. O palco da principal contenda foi um profundo desfiladeiro, para onde o exército tinha sido conduzido pelos indispensáveis guias locais, que traiçoeiramente preparavam uma emboscada.

Uma combinação de estratégia e de uso judicioso dos elefantes, permitiu ao exército Cartaginês desenvencilhar-se desta perigosa situaçao, apesar das pesadas baixas sofridas. O facto é que a visão dos paquidermes, inauditos naquelas paragens, aterrorizou de tal forma as tribos locais que o exército de Aníbal não voltou a ser incomodado ao longo do restante da sua travessia pelos Alpes.

Empurrado pelo frio crescente à medida que a altitude aumentava, e pela impossibilidade do regresso pelo mesmo caminho, o exército foi avançando, até que no nono dia após a entrada nos Alpes, Aníbal atíngiu o cume da passagem, a cerca de 3 mil metros de altitude. Diz-nos o históriador romano, Tito Lívio, que aí permaneceram acampados durante dois dias, aguardando pelos que vinham mais atrás e procurando repousar do enorme esforço dispendido. Tratando-se de um exército de africanos e iberos, não se encontravam preparados para estas condições, e muitos pereceram com as agruras da neve e do frio.

Por fim, Aníbal ordenou o reinício da marcha, e reuniu o seu exército num local com uma vista priviligiada sobre o Vale do Pó e as verdejantes planícies que se espraiavam até onde a vista podia alcançar. Aqui prometeu-lhes uma descida fácil e uma campanha rápida, até à conquista final de Roma.


Col de Clapier

  
No entanto, as penas dos Cartagineses ainda mal tinham começado. A descida revelou-se muito mais íngreme que a subida, e muitos homens e bestas de carga perderam a vida ao escorregarem pelas encostas geladas.

A certo ponto depararam-se com um deslizamento de terras que lhes impedia a passagem. O exército viu-se imobilizado numa encosta particularmente ventosa, sem mantimentos suficientes para sobreviver por muitos mais dias. A situação tornou-se particularmente desesperada e Aníbal deu ordens para se escavar um caminho alternativo. Foi necessário cortar as próprias rochas, recorrendo a fogueiras e às provisões de vinagre para criar fissuras que eram depois trabalhadas com ferramentas até toda a rocha se partir.

Após 4 terríveis dias nesta encosta mortífera, os Cartaginesese conseguiram finalmente atingir o vale ensolarado, onde puderam por fim alimentar os animais meio mortos de fome, e eles próprios repousar e restabelecer as forças, depauperadas por 15 dias de marcha forçada, após percorrer mais de 200 km sob condições de uma dificuldade extrema.

Quando Aníbal inspecionou as suas tropas, verificou consternado que, do exército inícial apenas restavam 26 mil efectivos e metade da cavalaria. Quanto aos elefantes, ainda estavam vivos mas não iriam durar muito mais.

Não obstante, foi com este exército, endurecido e solidificado pela incrível travessia, uma das maiores proezas militares de sempre, que Aníbal se preparou para abalar profundamente o poderio romano, no seu próprio território, durante os 16 anos que se seguiriam.


Aníbal Barca



A História sempre me deslumbrou, e o tema da marcha militar conjuga a paixão pelo Trail Running, ou corrida pedestre na natureza, com o fascinio pela busca dos limites da resistência humana. Dado o meu projecto de completar os 168 km do Ultra Trail do Monte Branco, nos Alpes Franceses, Italianos e Suiços, pareceu-me natural começar o ano de 2013 escrevendo este pequeno texto acerca da famosa travessia de Aníbal e do seu exército.




As minhas fontes secundárias foram a incontornável Wikipédia e a excelente e cativante obra de Robert O’Connell, “The Ghosts of Cannae”.

Recorri ainda a Tito Lívio, e a sua “História de Roma”, como fonte primária. Infelizmente não tive acesso ao clássico de Políbio, “História do Mundo”.



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