sábado, 27 de outubro de 2018

Recomeçar




"Não é que, atenção, a minha vontade se opusesse a seguir as vias para as quais o meu pai me encaminhava. Seguia-as todas. Mas, avançar por elas, não avançava. Detinha-me a cada passo;
punha-me, primeiro à distância e depois cada vez mais perto, a girar em volta de cada pedrinha que encontrava, e admirava-me assaz de os outros serem capazes de me passar à frente sem fazer caso daquela pedrinha, que para mim, entretanto, tinha assumido as proporções de uma montanha insuperável, ou, melhor, de um mundo em que poderia facilmente ter fixado residência.

Assim ficara, parado nos primeiros passos de tantas vias, com o espírito cheio de mundos, ou de pedrinhas, que é a mesma coisa. Mas não me parecia, de todo, que aqueles que me tinham passado à frente e percorrido toda a via, ao fim e ao cabo, soubessem mais sobre ela do que eu. Tinham-me passado à frente, não se põe isso em dúvida, e todos braveando como cavalinhos; mas depois, ao fundo da via, haviam encontrado um carro, o seu carro; tinham-se deixado atrelar a ele com muita paciência, e agora tiravam-no. Eu não, não tirava carro nenhum; e por isso não tinha bridas nem antolhos; via, sem dúvida, mais do que eles; mas no que toca a andar, não sabia para onde.

 — Luigi Pirandello, "Um, ninguém e cem mil"



Fico sempre surpreendido quando me dizem que tenho sorte em ter facilidade em perder peso, ou que sou um predestinado com talento para a corrida. Isso é um equívoco. Eu não tenho facilidade para nada. Como todas as outras pessoas, tenho que trabalhar arduamente para atingir os meus objetivos. Trabalhar muito e prolongadamente. 

Há coisas que fazemos nas nossas curtas vidas como se não tivéssemos alternativa. Empreendimentos que nos absorvem de tal forma que fazem parecer que não somos nós que os conduzimos, mas eles que nos guiam. A isso chamamos vocação. Sorte tem a pessoa que encontra uma vocação. Não é um caminho simples. Talvez mais fácil seja viver depreendido. Não ter inquietações nem paixões. Mas duvido que a natureza humana seja permeável a um estado de nirvana absoluto.

A minha natureza sempre teve um cariz marcadamente inquieto. A minha mente divaga facilmente.
Hoje em dia talvez se pudesse afirmar que fui uma criança com deficit de atenção e que isso se prolongou pela adolescência e pela vida adulta. Embora essa característica possa ser entendida como uma significativa desvantagem, tem, no entanto, um reverso. Acredito que tal como a seleção natural atua sobre as mutações genéticas, ou seja sobre o erro, também a imaginação labora sobre erros de interpretação. A originalidade consiste em ligar de novas formas conceitos díspares, ou transportar uma ideia para um contexto diferente. Quando sigo um fio de raciocínio, tenho dificuldade em concentrar-me nos passos individuais de forma sistemática e sustentada. Então procuro adivinhar o que me escapou e prever o que vem a seguir. Desta forma, por vezes o erro conduz à originalidade. Pode ser uma originalidade simplesmente absurda ou, pelo contrário, frutuosa.

Talvez a imaginação seja precisamente aquilo que nos distingue dos computadores. Um algoritmo clássico não pode errar. Se encontrar um caso que não foi previsto lança uma exceção e para. Talvez os novos algoritmos de Machine Learning funcionem de forma diferente e tenham espaço para o erro e eventualmente se consigam algoritmos tão imaginativos que cheguem a imaginar que existem, a imaginar que é dor a dor que deveras sentem, como diria o poeta. Ou talvez não.

Porque diabo me alongo nesta divagação? Talvez porque penso que a paixão pressuponha a capacidade de imaginar. A capacidade de atribuir qualidades fantásticas a atos perfeitamente banais, como correr. Carregamos toda esta bagagem emocional em que enredamos os nossos atos ligando-os a miríades de outros atos, sentimentos, pensamentos, pessoas, ideias. Quanto mais fortes e ricas essas ligações mais intensas as sentimos.

Quando se esgota uma paixão, sentimos uma necessidade irreprimível de reconfigurar essas ligações. Durante algum tempo vagueamos perdidos e perdemos a vontade de fazer coisas que antes nos eram pressurosas. Aos poucos vamo-nos reerguendo. Religamos aquilo que nos dá prazer, aquilo que nos faz avançar. Reconfiguramos as nossas paixões. Reescrevemos o nosso passado por forma a criar uma nova narrativa que nos permita fazer sentido do que foi e perspetivar o que será.

Recomeçar a treinar depois de um período de ausência é um enorme desafio. Atingir a forma é um percurso difícil e espinhoso. Voltar a percorrer o mesmo caminho apresenta dificuldades ainda maiores. Sobretudo a nível mental. Quando se progride para um objetivo pela primeira vez, sente-se a progressão como natural e cada nova conquista é uma agradável surpresa. Quando se volta a trilhar o caminho já percorrido, é necessária uma maior tenacidade. Em lugar de nos compararmos com as conquistas recentes, temos tendência a compararmo-nos com as conquistas mais antigas e isso é desmotivador. É fundamental empreender um esforço positivo para perspetivar o futuro a uma luz favorável. Acreditar que voltaremos a conseguir atingir as mesmas metas, e quiçá superá-las. Adicionalmente, a nossa atitude perante o tempo é determinante. Se encararmos o tempo como um inimigo a recear, viveremos tolhidos pelo desânimo e falta de fé. Se pelo contrário abraçarmos a passagem do tempo como um decorrer natural, abrimos espaço a novos e radiosos futuros. 

Desde comecei a correr de forma sistemática (sempre corri, desde a minha adolescência, mas de forma irregular, não-sistematizada e sem quaisquer objetivos que não o próprio prazer de correr), em julho de 2009, fui progredindo sustentadamente e com muito planeamento e esforço. Desde a minha primeira Maratona em dezembro de 2009, em que demorei mais de 4 horas, até exatamente dois anos depois conseguir finalmente baixar da marca das 3 horas, completei 40 provas de estrada, em distâncias desde os 10 km aos 42 km. Como se vê na tabela seguinte, a minha progressão foi lenta, gradual e sustentada.





Não foi por acaso. Não acordei um dia, alinhei na meta de fiz um tempo sub-3 horas assim saído da testa de Zeus. Primeiro tive que percorrer muitos quilómetros. Fazer treino de séries, de rampas, intervalado, fartlek, longos, enfim, a receita habitual. E isso é que verdadeiramente custa, como tudo o resto na vida. Para ter sucesso é necessário esforço sistemático, persistente, que não desanima perante os revezes (sejam lesões, desarranjos intestinais ou gripes em dia de prova) e sobretudo conseguir manter sempre a chama da paixão acesa, mesmo que por vezes a luzinha se afigure muito frágil ao vento inclemente. Aí entra a imaginação. Aquela imaginação de criança, em que combatemos denodadamente dragões ou cavaleiros imaginários. Há que revestir o ato de correr com uma roupagem que intrinsecamente não tem, mas que o torna mágico e apetecível. Se necessário fazer tocar a música dos "Chariots of Fire" na mente e imaginarmo-nos na pele do Roger Bannister a bater os 4 minutos na milha.


Não está tudo na cabeça, mas está lá o que verdadeiramente faz a diferença, para o bem ou para o mal, a escolha é nossa.



P.S. como tudo na vida, o receio não é não conseguir chegar lá, o receio é não querer o suficiente...


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Porque corro?







“I know I am talking nonsense, but I’d rather go rambling on, and partly expressing something I find it difficult to express, than to keep on transmitting faultless platitudes.”
Thomas Mann, The Magic Mountain


Continuam a questionar-me quais as razões que me levam a correr distâncias que ultrapassam a razoabilidade. A minha resposta poderá soar algo lírica e megalómana, mas se não fosse lírica e megalómana, penso que não encontraria razões suficientemente fortes para o fazer.
 
Adianto já que corro devido ao que o ato de correr me faz sentir, a um nível visceral, bioquímico, hormonal, bioelétrico. A nossa reação ao exterior é mediada pela forma como sentimos internamente esse exterior, e correr faz-me sentir vivo.  


Porque corro?

Está tudo na imaginação. Nada disto é real. Fazer 170 km na montanha não acrescenta nada ao meu destino. Não altera a ordem das coisas. Não gero novos universos, não salvo a humanidade, não alcanço a imortalidade. Continuo imerso na Condição Humana. O Cosmos continua a ser um local improvável, sem justificação nem apelo. As partículas e os campos de força continuam a saltar do vácuo e interagir porque sim. As espécies digladiam-se porque está na sua natureza. Este planeta caminha para o oblívio. A minha, a nossa, existência não é mais do que um efémero piscar de olhos num espaço-tempo vazio.

Não há redenção, não há salvação.

No entanto uma aventura destas dá-me alento para pelo menos mais um ano. Para conseguir ultrapassar as dificuldades comezinhas do dia-a-dia. As pequenas irritações, o tédio dos gestos repetitivos. O inexorável caminho em direção à decadência torna-se mais suave. Os momentos mais ricos, coloridos e vívidos.

Enquanto cá estiver vou travando a luta inglória e os meus átomos, quando se dispersarem ao vento, eles ao menos hão-de saber que vivi. Terão a minha marca, depois de já terem tido a de Gilgamesh, Homero, Alexandre, Aníbal Barca, Júlio César, Erik o Vermelho, Rolando, Zheng He, Ibn Battuta, Magalhães, Vasco da Gama, Livingstone, Neil Armstrong.

Serei um pequeno risco à escala de Plank na fábrica do espaço-tempo.



A transcendência

A felicidade não tem valor evolutivo. O que procuramos é a transcendência. E o que procuramos transcender é a nossa finitude, a nossa fragilidade, o nosso medo profundo. Vivemos aterrados. Perdidos num universo que não compreendemos, no qual não encontramos lugar nem propósito para as nossas curtas existências. É o terror do vazio que nos empurra para a frente. Não avançamos à procura da felicidade. Fugimos do vácuo.
Enquanto primatas que somos, não experienciamos de forma absoluta o momento presente, mas vivemos antes imersos num contínuo que nos mergulha no passado e nos projeta no futuro. O lobo é muito mais um ser do presente, o qual vive de forma completa e inteira. Essa imersão no tempo leva-nos muitas vezes a esquecer o valor do processo e focamo-nos apenas no objetivo, que está sempre diferido. No próprio instante em que o cumprimos, esgota-se. 
O lobo vive o processo. E os processos mais vitais são os mais viscerais, aqueles que envolvem a maior dose de êxtase, ligada inextricavelmente com extremos de agonia e desconforto. Por exemplo, quando corremos e damos o nosso máximo, durante um período prolongado de esforço ininterrupto e esgotante, o que é que sentimos? Sobretudo desconforto, mas também uma enorme exaltação. E sentimos isso tudo em simultâneo. São duas faces da mesma moeda que não são separáveis, experienciadas em uníssono. O que é que fica depois de acabarmos? O principal não é com certeza a marca atingida, mas antes a memória indelével e física do processo de correr. A corrida permite-nos, mesmo que seja apenas por breves instantes, escapar à condição humana.