segunda-feira, 20 de maio de 2019

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E09








“Desejo-vos sonhos sem fim e a vontade furiosa de realizar alguns.
Desejo-vos que amem o que é preciso amar e que esqueçam o que é preciso esquecer.
Desejo-vos paixões, desejo-vos silêncios.
Desejo-vos cantos de aves ao despertar e risos de crianças.
Desejo-vos que respeitem as diferenças dos outros,
porque o mérito e o valor de cada um estão muitas vezes por descobrir.
Desejo-vos que resistam à estagnação, à indiferença e às virtudes negativas da nossa época.
Desejo-vos enfim que nunca renunciem à procura, à aventura, à vida, ao amor,
pois a vida é uma aventura magnífica e ninguém razoável deve renunciar a ela
sem travar uma rude batalha.
Desejo-vos sobretudo que sejam vocês próprios, orgulhosos de o ser e felizes,
pois a felicidade é o nosso verdadeiro destino."
- Jacques Brel, 1º Janeiro 1968



7º Mesociclo

(17ª, 18ª, 19ª e 20ª semanas de 2019 - 22/04 a 19/05



Mais um bom Mesociclo, se bem que menos intenso do que eu gostaria. Foi conseguido em apenas 12 treinos, porque não tive disponibilidade para mais. Digno de registo foi o teste dos 80K do EGT, cumprido conforme o plano. Felizmente, porque era a prova que servia para aquilatar da minha capacidade para cumprir os muito exigentes 170K de Ronda. Se repetisse o fiasco de 2017, a minha condição mental para Andorra sairia bastante afetada.


Mesociclos semanais:



total mensal:



Peso:



Os 80K do EGT tiveram um efeito muito notório na minha massa corporal:





A minha medida de treino, desde que comecei a treinar regularmente, em 2008:

km-effort = distância (km) + 10 x desnível (km)





Comparação homóloga dos Mesociclos (mesociclo = 4 semanas de treino).

A linha azul clarinha é a do corrente ano de 2019. Coloco todos os mesociclos desde o ano em que fiz a minha primeira prova de 100 milhas (2012)




Um mês bom, são 400 km-effort




Mais do que a distância, o que conta mesmo é a altimetria:











sexta-feira, 17 de maio de 2019

EGT - Estrela Grande Trail 2019








“Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.”
- José Saramago, Levantado do Chão
















E a magia voltou a acontecer.

Ao fim de dois anos de travessia no deserto, levei um dorsal de Trail do início até ao fim de uma prova.







Acordar… o barulho distante do despertador… o lento retorno à vida…

Ainda é noite. Abro os olhos para a escuridão. Estou deitado no sofá, meio destapado por um cobertor exíguo…

Ergo-me devagarinho. É necessário envergar a couraça de Cavaleiro Templário desta fé que move as montanhas debaixo dos meus pés: calções de licra; camisola térmica de manga curta, justa ao corpo para evitar assaduras; perneiras; manguitos; luvas sem dedos; meias; ténis kalenji, os que me caiem melhor; mochila Salomon, uma das peças de equipamento mais importantes, pois vai carregar com todo o material essencial para completar com sucesso uma travessia destas; bastões.

Estou equipado. Tomo tranquilamente um pequeno-almoço frugal, mas energético: iogurte grego; aletria; café.

Estou pronto.

Saio para o breu do exterior.

Desço cerca de um quilómetro até ao local da meta. Cheguei cedo. Alguns, poucos atletas, concentram-se junto ao pórtico. Vão chegando mais. A adrenalina do entusiasmo é palpável, cheira-se no ar fresco da madrugada. Retesam os músculos como nervosos cavalos puro-sangue antes do tiro da partida.

Sinto-me calmo. Fiz o possível para chegar até aqui. Agora estou entregue à dança entre o desgaste, a sorte, a estratégia e a boa gestão das emoções.

A minha maior preocupação são os 8 kg em excesso que carrego comigo. Tenho já uma vasta experiência de provas longas e com muito desnível, mas muito pouca experiência em carregar este excesso de barriga. Vou percorrer esse terreno desconhecido, e é aí que a estratégia e gestão emocional irão pesar mais.

Ser conservador no avanço pelo terreno. Ir devagar, a roçar os tempos de corte, mas nunca demasiado próximo para que não seja surpreendido por algum imprevisto. Gerir tanto o entusiasmo como o medo.



Parece que foi uma eternidade de meses antes: a dor da separação. O desabar de uma vida a dois. A angústia da solidão. As dúvidas acerca da capacidade para criar um novo lar. O trabalho diário para reconstruir um caminho.



São seis horas, soa a ordem de partida. Começamos imediatamente a subir. Sinto-me pesado. Carrego o lastro do meu passado, almejo as alturas de um novo futuro: sim, porque o futuro muda constantemente, escorre-nos entre os dedos mais célere do que o passado. Pretérito, presente e futuro coexistem simultaneamente, vivemos nas interceções de linhas que atravessam o espaço-tempo.

Uso todo o meu corpo para ascender: bastonadas fortes no chão, apoiado sempre em dois pontos.



Terei sido vergado pela montanha, nos idos do verão de 2015, em Chamonix? Aos 135 km ter-se-á quebrado algo frágil dentro de mim?



Sobe Luís, sobe… tens 1h45 para chegar aos 8,5Km…

Ao meu redor outros se animam. Não cesso de me maravilhar com a irmandade que se sente entre todos estes guerreiros da falange do inútil. Corremos em direção ao nada, que é onde iremos todos acabar no final. Todos temos a derrota como certa, e todos temos por certo que a única forma de redimir essa derradeira derrota, transformando-a numa esplendorosa vitória, é percorrendo o caminho de fronte erguida, coração cheio e um sorriso louco nos lábios.

Chego ao abastecimento. É o primeiro Oásis. Estou bem dentro do tempo. Todos estamos imersos neste tempo que nos sublima e transforma.

Bebo, como, respiro. De cada vez que os pulmões se enchem sinto o fremir da pele, a excitação da cavalgada.

Próxima etapa.



Dezoito anos: o nascimento da coisa mais bela do mundo. Saiu forçado do ventre de sua mãe, como se adivinhasse que o mundo era um local violento e sentisse necessidade de provar logo ali que nunca cederia sem uma rija luta. E o meu coração rasgou-se de alto abaixo, inundado pelo sentimento mais puro e cintilante que existe.



Passo pela Barragem do Rossim, um dos locais mais idílicos à face deste nosso maravilhoso planeta. Subo para o planalto da Serra. Vou ter que o percorrer até perto da Garganta de Loriga, onde nos enviam numa desfilada cega para o desconhecido da descida até ao Covão d’Ametade. Essa descida é feita sobre grandes calhaus onde não se consegue correr. Progride-se devagar e com dificuldade.



A noite anterior, um misto de animação, convívio e troca de experiências, com a família RUN 4 FUN. Todos temos pelo menos duas famílias, a da carne e a da escolha, que escolhemos e que nos escolhe. E que boa escolha esta foi. Amizades forjadas pelas dificuldades ultrapassadas em conjunto permanecem para a vida, mesmo se a pessoas perderem o contacto, a ligação mantem-se.



O abastecimento do Covão, num belíssimo parque natural. 28 Km. O meu corpo já renasceu várias vezes. As dores que tive já desapareceram e já outras as substituíram. Estou sensivelmente a um terço da aventura. A experiência segreda-me ao ouvido que apenas tenho que abraçar cada pontada, cada músculo maçado, cada ínfima sensação, reciclando-as continuamente, para que o corpo se renove e renasça em cada etapa.



2016, os 105 Km do Ultra Trail Atlas Toubkal, em Marrocos. A chegada ao abastecimento do quilómetro 60, completamente desgastado e questionando-me como poderia continuar… A enorme batata cozida que me salvou a vida. Comer, comer bem e beber sempre. Mesmo um Jedi precisa ter acesso direto à fonte da força…



A brutal subida novamente para a Garganta de Loriga… 700 mD+ bem duros e desgastantes, feitos em apenas 4 km.

A chegada ao abastecimento onde sou envolvido pelo carinho, atenção e incentivo do Rui e da Sandra, com a sua alegria e enorme generosidade. Dão ao próximo, que neste caso sou eu o feliz contemplado, o que têm de mais precioso: o seu tempo.




Cheguei às 12h20, a cerca de 40 minutos do tempo de corte. Tenho que estugar o passo. É muito arriscado.

Parto para a descida, o quilómetro vertical para Loriga. É dos percursos mais bonitos da Serra e preenche-nos de espanto pela enorme beleza e brutalidade da Natureza.

Descer pode ser tão ou mais duro do que subir, mas com o apoio dos bastões e da paisagem, vou progredindo com alacridade. 

Está imenso calor. Vou enfiando a cabeça dentro de água sempre que posso.

Loriga divisa-se lá ao fundo, como uma miragem. Após um tempo interminável chego ao estradão. Agora é um percurso rápido, a trote largo, até ao abastecimento.

Chego, sento-me. 40 km. Como sofregamente uma sopa morna. Encho-me de aletria, tomate, sal, pão com mel, enfim, tudo aquilo a que posso deitar mão. O que me vale é que tenho o estomago forte.



Grand Raid des Pyrenées, 2013. Na subida para o Pic du Midi, o flask cheio de coca-cola e a acidez no estômago que aí se instalou. Não mais. A alimentação é o mais importante. Não ceder às tentações. Ingerir apenas aquilo que é favorável.



Ganhar coragem. Sair. Agora são 11 km até ao Alvoco, sob o sol severo. É um percurso sem história. Faz-se bem. Às 15h55 estou no abastecimento. Não tenho fome, apenas uma imensa sede. Obrigo-me a ingerir algumas calorias. A subida para a Torre vai pesar. É necessário um bom aporte de energia.

Vários amigos trocam de roupa no abastecimento. Resolvo não mudar nada. O que trouxe é o que levo. Por precaução encho os dois flasks e o depósito da mochila. Levo dois litros de água comigo.



Dois anos antes: o mesmo calor, semelhante dureza, uma alma quebrada. Toda a diferença. Pela primeira vez, desde a Ultra inicial, em maio de 2010, lanço o tapete ao chão. Sinto-me destroçado. Cada bocadinho de mim lentamente arrancado pedaço a pedaço pela inclemência da Serra. Durante os próximos dois anos irei provar o sabor amargo da dúvida: serei novamente capaz, ou estarei acabado?

Uma parte significativa da minha identidade forjou-se e consolidou-se neste desporto. Ainda só tenho 9 anos disto, mas é como se fosse uma vida inteira.

Terei que percorrer o caminho das pedras. Dois anos a recuperar. Dois anos a sonhar. Dois anos de espera.



Saio do Alvoco com uma hora de avanço em relação ao tempo de corte. Não posso deixar margem para imponderáveis. A subida é simultaneamente magnífica e atroz. Se estivesse a subir para o próprio Olimpo não sentiria um maior espanto e respeito. A encosta está completamente exposta ao sol inclemente e este pesa-me sobre os ombros. Por cada meia hora de progressão exasperante de tão lenta, a uma velocidade paquidérmica, paro um minuto para recuperar as forças e observar a esplêndida paisagem. O cosmos é mesmo um local magnífico, único e precioso.

Animo-me com o pensamento de que já progredi mais do que dois anos antes. E tenho uma certeza férrea de que se chegar ao topo dentro do tempo, serei capaz de chegar ao fim da aventura. Transbordo a mente de fantasia. Cada passo é uma luta contra um dragão. Cada batimento de coração gera um novo universo.

Inexoravelmente vou subindo. Projeto o sorriso dos meus filhos na tela da minha mente. Ouço o barulho ritmado e calmante das ondas do mar distante. O ritmo carrega-me para cima.





Ao fim de quase 3 horas de contínuo e lento martelar no chão, completo os 6 km com 1200 mD+ desta etapa, e chego finalmente à Torre e ao enorme alívio do abastecimento. Se isto não é um Oásis no deserto, então não sei o que é. Todas as dúvidas se dissipam. Aqui renasço para uma nova vida. Aqui bebo de uma nova fonte. Agora estou certo de terminar. Dobrei o meu Cabo das Tormentas. Não há Adamastor que me pare. Que local tão apropriado para a renovação da minha alma: o ponto mais alto de Portugal.

Sou prestimosamente atendido pelo meu amigo Paulo Jorge. Como a sopinha da praxe. Parto com a alma renovada. Agora é descer. Troto e corro. Avanço rapidamente. Sinto-me como se tivesse agora começado a prova. Está muito mais fresco. O sol está prestes a desaparecer no horizonte.

Após 8 quilómetros chego ao abastecimento na Casa do Vale Glaciar. 67 Km. Os voluntários oferecem-me parte do seu almoço, que aceito com agrado e sem cerimónias: atum com tomate. Sabe-me que nem ginjas.

Coloco o frontal, pois o anoitecer cai rapidamente. Subimos em fila para os Poios Brancos. A subida é curta e chegamos rapidamente ao alto. Agora o terreno torna-se fácil, percorremos um estradão em trote veloz. Após cerca de 5 km chegamos ao abastecimento mais divertido onde alguma vez parei. Os voluntários têm minis a arrefecer num pequeno tanque de pedra. Já devem ir bastante adiantados nessa outra ultra da cerveja, pois o estado de hilaridade geral é evidente. Oferecem-me uma mini, que prontamente aceito. Não como nada. Basta-me esta cerveja para acalmar o meu estômago massacrado.

Saio para a noite e para a última etapa de 12 km. O tempo está dominado. Vou ter que descer até ao Poço do Inferno, mais uma apta metáfora para as curvas recentes da minha vida. E depois subir novamente uns curtos 350 mD+ para finalmente descer para o derradeiro destino.

A descida e subida inicial é feita sobre o abismo negro. A orientação não é possível. Subo e desço e volto a subir e descer. Não tenho qualquer noção de quando isto terminará. Mas sei que irá terminar bem. Na verdade, não será um términus, mas sim um novo inicio, estou certo disso.

E finalmente diviso as luzes de Manteigas ao fundo do estradão. Desço rapidamente, entro na cidade. Deparo-me com o João, que me acompanha e indica o caminho para a meta. Como fiquei feliz ver o seu rosto e logo de seguida os rostos dos meus outros companheiros!

Ana, António, Isabel, João, Luís, Marina, Nuno, Rui, Rute, Sandra. São um poema, um hino à amizade e solidariedade humanas.

Sinto-me revigorado, capaz de mover montanhas! Enquadrado por esta moldura humana, corro para a meta, que finalmente atravesso ao fim dois anos, dezoito horas e dezanove minutos.

A emoção é grande, mas vivo-a internamente, com placidez. Foi sobretudo isso que esta aventura reforçou em mim: uma reconfortante paz interior.














Uma coisa em que acredito profundamente: na vida é necessário ter muitíssima determinação para atingirmos os nossos objetivos. É fundamental acreditar, de forma sustentada, que iremos conseguir, mesmo se tenhamos muitos momentos de dúvida. E é essencial ter objetivos para que a vida valha a pena.

E temos que percorrer a vida com entusiasmo. A fantasia (imaginação) é muito, muito, muito importante. Não são as coisas em si, mas aquilo que colocamos nelas, que é fundamental. Na verdade, é tudo produto da nossa imaginação. Mesmo a forma como percecionamos a "realidade", como a vivemos, como lidamos com ela. Acredito que temos muito mais liberdade do que aquela que julgamos ter. Dentro da nossa cabeça temos a possibilidade de criar mundos.

E temos a possibilidade de conduzir as nossas emoções em lugar de nos deixarmos dominar por elas. Necessita muita aprendizagem, mas é possível.