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domingo, 28 de julho de 2019

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - 1ª noite.

 






No princípio criou Deus o céu e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

Gênesis 1:1-5










O abastecimento de Coll de la Botella é amplo e arejado. Alimento-me bem, antes de sair novamente para o escuro da noite. É perto da meia-noite.

Durante alguns kms vou ter um percurso razoavelmente plano em que é possível trotar folgadamente.






Passo por uma alemã que se encontra inclinada à beira da estrada, a esvaziar os conteúdos do estômago. Pergunto-lhe se está tudo bem. Responde-me que sim, mas com uma voz hesitante e incerta. Espero um pouco, mas parece-me que ela vai ficar bem.

De seguida passo por outro atleta em idênticas circunstâncias.

Ter-se-á passado algo no abastecimento anterior, ou é o início da noite e dos seus terrores?










 Recordo-me vivamente de ter passado por esta Collada Montaner em 2017, juntamente com o Carlos André.

É apenas um posto de controle, sem qualquer abastecimento. É a base da próxima subida de 400 mD+ até Bony de la Pica.







Coragem!

É nesta subida que se começa a agudizar um problema que eu já vinha a sentir desde o início, mas de forma moderada e suportável.

Não me vou alongar acerca deste problema em particular, dada a sua natureza embaraçosa, mas direi apenas que raramente tinha sofrido no passado deste mal e que é um problema agudizado pelo esforço em subida. E é muito doloroso. Tanto que uma pessoa se esquece completamente das suas outras dores.


“Pois a natureza humana é feita de tal forma que os sofrimentos e as dores que acontecem ao mesmo tempo não se somam inteiramente na nossa sensibilidade, mas escondem-se, os menores atrás dos maiores, segundo uma lei prospetiva definida.”
- Primo Levi, Se Isto é um Homem



A subida até Bony de la Pica foi um tormento inenarrável. Para mais eu não queria dar-me ao luxo de tomar outro anti-inflamatório enquanto não fosse estritamente essencial.


Chego à Cresta de l'Enclás. De dia teria umas vistas magníficas. De noite apenas se lobriga o vazio.





















Após um enorme esforço para ignorar a dor, lá chego ao controle de Bony de la Pica (não há abastecimento), no cume do monte. São agora 01h25 da madrugada e estou em prova há 18h25 horas. Os últimos 6 km foram feitos em duas horas. Estou na posição 166.

Agora a dor irá aliviar na descida.



A próxima etapa é das mais críticas na Ronda. Vamos descer continuamente 1500 mD-. Um autêntico parte-pernas com seções muito técnicas e inclinadas e vias ferradas.




















A meio da descida há uma inflexão à esquerda e obrigam-nos a subir mais 50 metros para ultrapassar um cume. Do lado de lá encontra-se a descida final para La Margineda.

Uso de toda a minha bagagem de vernáculo para insultar o Maquiavel que inventou esta subidinha.





Bem, de certa forma esta subidinha introduz uma pausa na descida, o que até não é má ideia.

No Trail Ultra Endurance, os músculos que dão de si primeiro, normalmente são os quadríceps, devido ao movimento de contração excentrico que fazemos ao travar na descida.






Os troços que devem ser melhor geridos numa prova são precisamente aqueles que são feitos a descer com forte inclinação.


Após uma descida interminavel, lá cheguei a La Margineda e à primeira base de vida, no km 75.






O abastecimento é num pavilhão desportivo.

Sou recebido à entrada pelo Armando Teixeira! Este homem está em todo o lado a dar alento aos atletas. Diz-me que ainda vou folgado relativamente ao tempo de corte.

São agora 03h37 da madrugada. Estou em prova há 20h37. Cobri 75 km. A minha média continua a ser 3,7 km/h. Os 2k das descida com 1.500 mD- foram cobertos em duas horas, nada mau. À entrada estou na 163ª posição.

O tempo de corte nesta base de vida são as 9h da manhã. Logo estou mesmo folgado. No entanto sei que não conseguirei descansar aqui, devido à adrenalina. Em 2017 fiquei deitado a olhar para o teto durante 1h40 e não consegui descansar nada. Seja como for, a necessidade de sono ainda não se começa a fazer sentir.

Recolho o saco que entreguei na partida. Decido não tomar banho. Não vale a pena uma vez que não vou descansar. Se me tivesse decidido a descansar, poderia ser que o banho ajudasse a induzir o sono, mas assim não adianta pois já de seguida irá existir uma subida que me irá fazer suar as estopinhas.

No entanto troco várias peças de roupa: a t-shirt térmica, o buff, as luvas, os manguitos e as meias. Mantenho os calções e as perneiras.

Hidrato bem os pés com vaselina, pois já me começam a doer significativamente.

Tomo novo comprimido de anti-inflamatório, pois julgo que não vou conseguir aguentar as dores que me têm acompanhado, em mais uma subida. Sei que o comprimido demora entre duas a três horas a fazer efeito, portanto ainda irei penar no inicio (seja como for a dor nunca desaparece completamente, mas fica muito mais gerível).

Para pequeno-almoço não me apetece a sopa do costume. Felizmente já tinha previsto isso e tinha previamente enfiado uma embalagem de cerelac no saco. Soube-me mesmo bem. Quando estava a juntar água ao cerelac, um fulano perguntou-me inquisitivamente, o que era aquele pó amarelado. Respondi-lhe que eram cereais. Pareceu-me ficar um pouco desiludido...


Às 04:14 saio para a rua. Estive apenas 37 minutos na base de vida. Neste momento tenho duas horas de avanço em relação ao ano passado. Agora passei para a 122ª posição. Ainda é de noite, mas está um calor abafado. Troco novamente a t-shirt termica por uma t-shirt técnica mais fresca, com o logo dos RUN 4 FUN.

Atravesso a ponte romana, para o lado de lá do rio.





Agora irá iniciar-se uma subida muitíssimo inclinada, com 600 mD+ contínuos em 4 km, a caminho de Costa Seda, se bem que em terreno pouco técnico.

Recordo-me que em 2017, eu e o André saímos para esta subida já muito desgastados. Ele devido a uma queda feia que tinha dado e lhe tinha deixado um lenho na perna. Eu devido à falta de treino e excesso de peso. Aliás, nesse ano a minha corrida na pratica terminou em La Margineda. O último troço até Coma Bella foi uma tentativa desesperada de tentar chegar ao fim. Essa tentativa foi completamente arrasada para subida demolidora.


A meio da subida começa a amanhecer. As manhãs são sempre bem vindas. Expulsam os fantasmas da noite, e permitem ver melhor o terreno que se pisa, alem de possibilitar apreciar a paisagem e distrair a mente. No entanto com o dia vem também o calor. Há um equilíbrio entre os factores positivos e negativos de correr de dia ou de noite. É o yin e o yang da corrida de Trail Ultra Endurance.



















Às 08h04 chego por fim ao abastecimento de Coma Bella.

Demorei 03h50 a fazer os últimos 13 km, ou seja a uma velocidade média de 3,2 km/h. O custo da subida fez-se sentir.

De acordo com o track de 2017, já tenho 8.900 mD+ feitos em apenas 87 km, ou seja cerca de 2/3 do desnível para metade da distância.

Estou em prova há 25h04. Se continuasse ao mesmo ritmo, acabaria em 50 horas. Portanto a minha experiência diz-me que vou demorar pelo menos mais 5 horas do que essa estimativa linear.

Este ponto é o meu cabo da boa esperança. Se o dobrar, terei ultrapassado uma barreira psicológica e estarei em boas condições para conseguir chegar à Índia.

Em 2017, uma das cosias que me fez parar foi saber que apenas existia um abastecimento intermédio ate ao refúgio de Claror nos 105 Km. E que até ao km 105 não havia hipótese de abandonar a prova (pelo menos eu assim pensava; este ano verifiquei que esse era um falso fantasma: é possível abandonar a prova na zona da Naturlandia).





A partir daqui entro no desconhecido...



sábado, 27 de julho de 2019

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - 1º dia.







Descrição:


Giant route around the whole Principality of Andorra, including a visit to its highest point, Comapedrosa at an altitude of 2.942 meters, touching on the border. In the light of the full moon on the longest days.
  • 170 k ( 106 mi.) 13.500 meters (8 mi.) of elevation gain and 13.500 meters (8 mi.) of elevation loss.
  • Departure from Ordino town centre on Friday on the morning and finish in Ordino town centre
  • 16 peaks or passes upon 2.400 meters
  • Average altitude: 2.085 meters
  • The most spectacular feature: panoramic views, alternate zones of minerals, high mountain meadows, forests, glacial lakes...
  • The most technical section: some completely safe rocky ridge sections
  • Sticks allowed
  • 13 refreshment points

Time limits:
  • Friday at 5 pm (10-hours race): Coma d'Arcalís (31K)
  • Saturday at 9 am (26-hours race): Margineda (73K)
  • Sunday at 2 am (43-hours race): Refugi de l'Illa (116K)
  • Sunday at 8 am (49-hours race): Pas de la Casa (130K)
  • Sunday at 12 am (53-hours race): Vall d'Incles (142K)
  • Sunday at 7.30 pm (60,5-hours race): Sorteny (158K)







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Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

- Carlos Drummond de Andrade 







Esta prova é dedicada à minha Mãe e ao meu Pai, que me geraram, cuidaram de mim e muito contribuíram para que eu fosse hoje a pessoa que sou.







De todas as provas de 100 milhas que já fiz, esta foi a que geri de forma mais inteligente de todas.

Estou longe da forma que tinha em 2015 quando fiz o UTMB, e também já não tenho 47 anos, como tinha na altura, mas estou mais esperto. Assim planeei uma enorme caminhada, e mantive-me agarrado ao plano. Não é fácil caminhar. Nunca mais se chega aos abastecimentos, são muitas horas no terreno, é muito difícil psicologicamente.  Mas há que saber progredir no terreno. Sobretudo há-que saber onde descansar, o que comer e beber, que eletrólitos e outros suplementos tomar, como gerir a dor, etc.



No entanto, o que me carregou do início até ao fim, foi o Amor.

O amor dos meus filhos, o amor da minha família, o amor dos meus inúmeros amigos, os que viajaram comigo fisicamente e os que o fizeram em espírito.

Foi também o meu amor. O meu amor pela montanha. O meu amor pela corrida. O meu amor pela natureza. O meu imenso amor pela liberdade.



Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. A Caridade é sofredora é benigna; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo Sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.

1 Coríntios 13




A preparação e o prólogo encontram-se nos seguintes links:

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E11

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - Prólogo










Às 5 horas da madrugada de dia 19 de Julho de 2019 tocou o meu despertador. Tal como o Bill Murray, em Groundhog day, parece que entrei num ciclo contínuo, em que revivo a mesma experiência dia após dia, enquanto não me conseguir transcender.

 Levanto-me e equipo-me.


O equipamento necessário está descrito neste post:

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E11



Tomo um pequeno-almoço frugal mas enérgico.

A Carla levanta-se para me acompanhar até partida. O António irá lá ter.

Saímos para o fresco da rua. Cerca de quilómetro e meio de um passeio calmo até à Praça Central de Ordino.

É bom estar acompanhado.

Sinto-me muito calmo. Não sou homem de grandes nervosismos antes destas aventuras. O que acontecer no campo, no campo se resolverá.

Sou controlado na entrada para o curral da Ronda dels Cims. Verificam apenas se tenho a manta de sobrevivência.

Encontro o resto da comitiva Tuga. Têm bom ar. O Arede, o Flávio, o Miguel Soares, o Sommer, O Diogo, o Telmo, o David. Bravos guerreiros da falange do inútil.

Somos uma espécie de liga de cavaleiros extraordinários, neste caso globettroters cujo conceito de férias é pagar para ficar exposto horas a fio na Montanha em lugar de ficar calmamente a beber maragaritas num qualquer resort Mexicano.

O Rui e a Sandra vêm também acompanhar a partida. É bom sentir tanto carinho por tanta gente querida.

Há aqueles que viajaram comigo: António, Carla, Elsa, Gonçalo, Jorge, Rui, Sandra; e os muitos outros que estão também presentes.









Às 7 horas dispara o tiro da partida, e saímos do redil frementes de emoção.









Corremos alguns quilómetros antes de sairmos da estrada para o primeiro single-track da prova. Somos 408 participantes, ainda estamos todos muito próximos, o caminho afunila logo temos que abrandar. "Ótimo", penso eu com os meus botões. Tenho uma desculpa para descansar. Agora encontramo-nos no meio das árvores num trilho suave e macio.











A prova ainda mal começou e já me sinto ofegante. O que vale é que já tenho muita experiência e sei que ainda estou só a aquecer. Mais para a frente sentir-me-ei melhor.

Junto-me ao Diogo e ao Flávio. O Diogo a descer é um verdadeiro míssil, e eu caio no erro de tentar acompanhar. É o pior erro que se pode fazer: tentar fazer a prova de outra pessoa. O que devemos fazer é mantermo-nos dentro dos nossos parâmetros, correr ao ritmo que nos for confortável, abrandar quando necessário e acelerar quando possível.

Resultado: logo ao km 6 de prova dou uma queda feia numa descida. Não me apercebo logo, mas dei uma bela pancada com o joelho esquerdo.






A dor e o desconforto começam a instalar-se. Era só o que me faltava! Tento desviar a minha atenção do joelho.

É impossível evitar as contrariedades em prova. Algo irá suceder mais cedo ou mais tarde. O segredo está em manter o otimismo e acreditar que será possível prosseguir. Prosseguir sempre.


Naturalmente sou uma pessoa calma e com sangue-frio, e os 18 anos que já tenho de trabalho numa empresa de telecomunicações em funções técnicas operacionais dão-me um traquejo adicional de experiência em funcionar debaixo de fogo. Nas minhas funções tenho que manter os sistemas a funcionar 24 horas por dia, e como dou suporte a grandes clientes empresariais que incluem hospitais, corporações de bombeiros, ministérios, serviços camarários, grandes empresas, estou muito habituado a ter que resolver problemas bicudos em tempo real, sob enorme pressão.

Na verdade, funciono melhor debaixo de pressão. Mas de uma pressão aguda, não aquela pressão surda e contínua do dia-a-dia que nos corrói a saúde se deixarmos. Estou no meu melhor quando tenho que tirar um coelho da cartola para salvar uma situação.


Como diz o Yuval Harari no "Sapiens", acho que a vida de um caçador-recoletor era mais interessante do que a nossa. Era mais perigosa e tinha mais dor, doença, trauma, etc, mas a isso estamos nós adaptados por milénios de evolução. Aquilo a que não estamos adaptados é à rotina de um trabalho de escritório. É uma fraca aproximação, eu sei, mas por mais dor que tenha numa corrida de 170 km, sinto-me muitíssimo mais feliz, e essa felicidade perdura durante algum tempo.


Mas discorro. Voltemos à história:

Mesmo assim progrido bem, empurrado pela mole humana que sobe a montanha. Ao fim de algum tempo chego ao Coll d'Arenes (col significa passagem). Deixámos as árvores para trás e a paisagem é despida e pedregosa.








Inflectimos à esquerda, dirigimo-nos para a Collada de Ferreroles, passamos para o lado de lá da montanha e começamos a descer em direção ao primeiro abastecimento de Sorteny, passando pelo Llac de l'Estanyó.








Ao fim de 4 horas lá chego a Sorteny. Completei os primeiros 21 km e subi os primeiros 1.550 mD+. Ainda estou bem, apesar das dores no joelho. A média de velocidade foi de 5,3 km/h o que não é nada mau e não se irá repetir até ao fim.







O abastecimento é fraquinho, não tem sopa. Ingiro o que posso e saio para a próxima etapa. Estou neste momento na posição 258 entre 408 participantes.










O próximo troço de 10 km até Coma Arcális leva-me 3h30, logo a uma velocidade significativamente mais reduzida. O calor começa a pesar. Chego bem dentro da barreira horária das 10 horas de prova, 20 minutos mais rápido do que em 2017. À chegada sou recebido pelo João Rosa. É uma alegria encontrar malta amiga. Reforça-me o animo. À entrada do abastecimento encontro o Armando Teixeira. O animo aumenta ainda mais. Ele está ali a dar apoio ao David Quelhas, que está a fazer uma prova magnífica.






Este abastecimento é uma enorme confusão de gente a comer, encher flasks e bexiga de hidratação, usar a casa de banho. Mas a comida é excelente. Ingiro duas sopas de seguida, reforçadas com massa, lentilhas, atum e milho. É uma espécie de massa consistente que passará a ser a minha receita em todos os abastecimentos subsequentes. Como também melão, que está ótimo, melancia, laranja, amêndoas, presunto.

É fundamental alimentarmo-nos bem. O corpo é uma fornalha que necessita queimar nutrientes para produzir energia, e se para de assimilar esses nutrientes, então eventualmente acabará por não conseguir mais progredir no terreno.

Entre abastecimentos aproveito para repor sais, vitaminas, magnésio e ferro. Nos abastecimentos socorro-me em abundância de tudo o que existir disponível. Levo ainda alguns geis para as estiradas mais longas entre abastecimentos.






A saída de Coma Arcalísé suave. Tomo o meu primeiro anti-inflamatório pois estou farto da dor no joelho. Não é lá muito seguro tomar anti-inflamatórios em prova, pois podem comprometer a função renal, mas desde que me vá hidratando abundantemente e vá controlando a cor da urina, julgo que não há problema. E o que não falta é água nestas montanhas.


As subidas agora passam a ser diferentes. Vamos encontrar pedra, e mais pedra e mais pedra e mais pedra... e inclinações verdadeiramente brutais, como não conseguimos encontrar em lado algum em Portugal continental.

















Mas continuo com força nas pernas. Vou subindo a bom ritmo. Ao km 41 passamos em Clot del Cavall. Em 3h30 faço os 13 km até Pla Estany. Velocidade: 3,7 km/h.






Pla Estany é o abastecimento antes da gargântua subida até ao pico mais alto de Andorra, e ponto mais alto da prova, o Pic Comapedrosa. Consiste numa cabana de pedra no sopé da subida, num cenário verdadeiramente mágico. De três lados apenas se vê paredes de rocha, imponentes e ameaçadoras.










Chego à Pla de l'Estany às 18:00. Irei conseguir chegar ao pico ainda de dia. Alimento-me e saio de novo.

Agora vou ter que subir 900 mD+ em 2,5 km.




A subida é dura, muito dura. Mas ainda estou fresco. Consigo fazê-la em 01h44. A vista lá em cima é deslumbrante. Vê-se os picos todos ao redor.









O meu vídeo, com homem da gaita de foles e tudo!








 Agora vou ter que descer até ao refúgio de Comapedrosa. É uma descida muito inclinada. Há que fazê-la com calma e cuidado.











Faço os 3 km até ao refúgio de Comapedrosa numa hora. São 20h44 quando entro no refúgio. Estou agora em 197º lugar. 50K estão feitos. Ainda é de dia. Estou a correr há quase 14 horas. Não me demoro muito no abastecimento. Saio para a rua ainda de mangas curtas, sem necessidade de vestir mais roupa.




Chego à Portela de Sanfons quando finalmente anoitece. Visto o impermeável e coloco o frontal.






Agora corro por cima de uma crista, a Collada de Sanfons.




É de noite quando chego a Port de Cabús no km 57.






De Port Cabus até Col de la Botella são cerca de 3 km a descer seguidos de 1 a subir. A descida é simples mas parece nunca mais terminar. Cruzo-me com vacas que se encontram deitadas a descansar. O reflexo do frontal devolve-me uma miríade de fantasmagóricos pares de olhos brilhantes. É surreal.

O último km a subir parece que nunca mais acaba. Estou desejoso de chegar ao abastecimento.











Chego a Coll de la Botella às 23h26. Os últimos 10 km levaram-me 2h42 a fazer, a uma velocidade média de 3,8 km/h. Estou neste momento na posição 189 e completei 60 km de prova em 16h26m. Sensívelmente a um terço do total, mas com mais de um terço do desnível positivo. A minha velocidade média até aqui foi de 3,7 km/h. Se mantivesse a mesma velocidade faria os restantes 110 km em 30h, o que daria cerca de 46h26m no total. Claro que a expetativa é começar a perder força, e o ritmo começar a baixar. Mas estou confiante. No entanto, existe sempre aquele Adamastor em Coma Bella, que não consegui vencer em 2017. É a minha barreira psicológica.





Agora irei entrar pelo noite dentro e pelos seus terrores...



Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - 1ª noite