segunda-feira, 8 de agosto de 2011

25º Swissalpine Davos K78



Dado que a minha mais recente aventura desportiva teve lugar nos Alpes Suíços, mais precisamente na região de Davos-Klosters, local onde Thomas Mann situou um dos seus romances mais famosos, gostaria de começar esta crónica parafraseando as linhas de abertura do romance:
“Em pleno verão, um jovem simples partiu de Lisboa, sua cidade natal, para Davos-Platz, no cantão de Graubunden. Ia de visita por uma semana.”
No entanto, como infelizmente já não sou assim tão jovem nem tenho o talento de Thomas Mann, as próximas linha não terão, nem de perto, a qualidade literária da obra-prima que é “A Montanha Mágica.” Seja como for, vou-me colar à obra com a vã esperança que um pouco da sua pátina dourada dê algum lustro à minha prosa.
Numa leitura mais prosaica, o romance descreve o internamento de um jovem recém-licenciado num sanatório para tratamento de uma tuberculose, ou seja a antítese de uma prova desportiva de fundo. A um nível mais profundo trata da inserção do indivíduo no seu tempo e na tensão entre este e as forças sociais vigentes. “Ao ser humano não cabe apenas viver a sua vida individual. Consciente ou inconscientemente, ele toma também parte na vida da sua época e da sua contemporaneidade.” E que ânsia mais premente nesta nossa época órfã dos grandes heróis, senão a de ultrapassar os limites do individuo, consubstanciada na corrida de fundo e em particular no Ultra Trail (corridas superiores a 42,2 km, em Montanha, longe do alcatrão)?
Foi com esse espírito que fiz as malas no domingo anterior à prova e me preparei para um pequeno estágio de 4 dias para me aclimatar à altitude (Davos fica a 1540 m e gaba-se de ser a cidade mais alta da Europa). Viajei com os quatro elementos da família, uma enorme e constante fonte de apoio e de momentos mágicos vividos em conjunto. Eles também iam participar no K10 (10,5 km) e também tinham uma grande expectativa relativamente a estas férias desportivas.
Tal como Hans Castorp, o protagonista do Romance, foi de comboio que chegámos a Davos-Dorf: “Ao longe, no meio da paisagem, surgiu um lago de águas pardacentas, as margens debruadas a pinheiros negros de pontas esguias, que se iam diluindo até deixar perceber a rocha árida e nebulosa da montanha em redor.”

Davos
Pouparei os poucos leitores que tiveram a paciência de me seguir até aqui a uma descrição mais meticulosa e direi apenas que depois de uma semana fantástica, num cenário idílico, em que nos fartámos de caminhar e subimos de teleférico ao alto dos altos montes que rodeiam Davos, e ainda participámos em alguns dos muitos eventos levados a cabo pela irrepreensível organização, chegou por fim o grande dia.

No sábado, dia 30, acordei às 5h30 cheio de adrenalina. Preparei a mochila de hidratação, que hesitei levar até ao último momento, dado que os abastecimentos prometiam ser frequentes e abundantes. O que me decidiu no fim foi a baixa temperatura que se previa para o planalto que teríamos que percorrer. Assim, coloquei na mochila o corta-vento, uma camisola térmica, luvas, 7 geís que não dispenso pois são calorias de fácil e rápida ingestão, e um litro de água. Calcei as meias de compressão, os ténis Salomon, e vesti com o maior orgulho a camisola laranjinha do Run 4 Fun. Tomei ainda a precaução essencial de besuntar o rosto e pescoço com o protector solar.

Quando saí de casa estariam cerca de 8 graus e o céu apresentava-se nublado. Cheguei ao Estádio pouco antes das 7h. Foi com alegria que encontrei na linha de partida o Ricardo Diez, que, juntamente com o Gonçalo Cardoso, iria ser um companheiro inestimável na parte inicial da corrida. Procurei o Gonçalo com o olhar mas não o encontrei. Às 7h em ponto é dado o sinal de partida (que os Suíços não brincam com a pontualidade). Arrancamos no meio da algazarra geral. As ruas estão já, a esta hora tão matinal, repletas de gente que nos anima e incentiva com gritos, buzinas, chocalhos, badalos. Enfim, uma enorme participação popular que adiciona imenso colorido e entusiasmo à prova. Ao fim de meia-dúzia de quilómetros é com alegria que vemos o Gonçalo juntar-se a nós.
Avançamos em amena cavaqueira, mas em bom ritmo. Comentamos entre nós que os atletas devem estar equivocados, que com este ritmo logo no início (cerca de 5 min/km) de uma prova de 79 km, iríamos rebentar todos lá mais para a frente. No entanto como o percurso puxava, mantivemos a velocidade. Ao fim de 12 km abandonamos o alcatrão e entramos na primeira subida do primeiro trilho e é aí que a melhor forma do Ricardo leva a melhor, ele arranca e já não mais o vemos. As corridas são assim mesmo, cada um deve seguir ao ritmo que lhe permita um melhor usufruto da prova. Seguimos, o Gonçalo e eu, por uns trilhos estreitos mas rápidos, imersos numa mole humana.

Ricardo a caminho de Davos
Até Filisur, ao km 31, o percurso é essencialmente a descer (dos 1500 para os 1000 m) e em consequência fazemos esta parte a uma velocidade muito rápida, tendo chegado aos 31 km em 2h37m, em 258º lugar, e tendo feito uma média de 5:09 min/km. Baseado nas indicações da organização, tinha calculado as horas em que deveria passar em cada posto a fim de fazer um tempo final de prova de cerca de 10h. Em Filisur constato que tenho 30 minutos de avanço sobre o plano. Dizem os entendidos que esta normalmente não é boa estratégia, pois o ácido láctico acumula-se nos músculos numa fase precoce da corrida e mais tarde vem-se a pagar essa audácia. Foi com alguma apreensão que constatei que tínhamos ainda 48 longos quilómetros pela frente para comprovar essa hipótese nefasta. E que 48 quilómetros nos esperavam! O papelucho com o perfil altimétrico que eu levava comigo não enganava: aqui é que começava a subida.
Até ali mal tinha parado nos abastecimentos e ia bebericando da água da mochila, no entanto a partir deste ponto passei a parar em todos os abastecimentos para comer e beber e sobretudo servia-me como desculpa para repousar um pouco. Sempre que pude bebi uma sopa “boullion” morna e salgadinha, que me soube muito bem. Comi nogado, banana, bolinhos e um gel de 10 em 10 kms. Bebi chá isotónico, água e coca-cola. Nos 9 kms seguintes o tempo esteve quente e soalheiro e necessitei beber cada vez mais.

O Gonçalo e eu à passagem por Filisur

Em Filisur começa a subida para Bergun. Passámos por uns trilhos com uma subida acentuada em que pela primeira vez fomos obrigados a caminhar, correndo apenas ocasionalmente (este padrão repetiu-se de Bergun para diante). Quando chegámos aos 1476 m iniciámos então a descida até Bergun. Foi aqui que tive a minha primeira caimbrã, no preciso momento em que arranquei bruscamente para iniciar a descida. Apesar da dor e da rigidez na perna, procurei manter-me calmo, respirei fundo várias vezes e disse para mim mesmo: “vou andar que isto há-de passar”. Dei várias passadas cautelosas e a dor mantinha-se mas a rigidez pareceu aliviar, portanto recuperei a confiança em que não seria ainda aqui que daria a aventura por terminada.
Consegui por fim descer até Bergun, ao km 40, com 3h55m de prova e em 240º lugar, tendo mantido um ritmo de 9:04 min/km nos últimos 9 kms. Milagrosamente, e apesar dos percalços, tinha conseguido subir lugares na tabela classificativa, sobretudo graças ao ânimo constante do Gonçalo, que veio o tempo todo a puxar por mim! Aliás, é à excelente companhia deste bom amigo que devo uma primeira metade de corrida muito gratificante.
Bergun é uma povoação muito bonita, situada num vale pitoresco ladeado de montanhas cobertas de abetos.

Bergun

De Bergun (40,2 km e 1365 m) até Valzana (48,7 km e 1952 m) o caminho é feito meio a correr meio a andar e eu chego lá já bastante mais moído e menos fresco do que nos kms iniciais. A seguir a Valzana começa o verdadeiro desafio. É aqui que tem inicio a parte do caminho em altitude e o percurso verdadeiramente técnico. Por volta dos 2000 m os pinheiros começam a rarear e apenas se vislumbra vegetação rasteira. Entramos num single-track que sobe 340 m em apenas 1,4 km! Como melhor trepador que é, o Gonçalo adianta-se e não torno a vê-lo. Lá sigo ao ritmo possível, com cada passada a revelar-se a um esforço extenuante. Sou ultrapassado por vários atletas.
De Tschuvel (50,1 km e 2290 m) até Keshhutte (52,9 km e 2632 m) a subida já é um pouco menos acentuada. De tal forma que até permite de vez em quando alguns passos em ritmo de corrida numa euforia efémera. Keshhutte é a passagem para o planalto. Está assinalada por uma hospedaria rústica em madeira onde nos fornecem o abastecimento e uns sacos de plástico à laia de corta-vento, pois começa neste momento a cair uma chuva miudinha. Estou no km 52,9 e tenho agora 6h14m de prova. Os últimos 13 km foram feitos em 2h20m a um ritmo de 10:08 min/km. Estou neste momento no 266º lugar. Caí apenas 8 lugares na classificação desde Filisur. Ou seja, apesar de tudo parece-me que a estratégia (ou falta dela) da maioria dos corredores tem sido bastante semelhante à minha.

Subida para Keshhutte

Entro no planalto, que começa logo com uma descida num single-track bastante estreito, com muitas pedras e lama. É difícil ultrapassar, mas cedo lugar, sem qualquer hesitação, sempre que alguém se aproxima. Descemos 230 m e voltamos a subir. Vejo-me livre do saco de plástico pois deixou de chover e estou a ficar suado. Passamos ao lado de um lago numa zona muito bonita já perto do Sertigpass. Na subida para o Sertigpass começa a chover copiosamente e vejo-me forçado a vestir o meu corta-vento. Após apenas alguns minutos tenho as mãos enregeladas e tenho dificuldade em calçar as luvas. A subida é bastante acentuada mas felizmente curta. Passo por alguns atletas que arquejam consideravelmente.  
Chego enfim, às 7h21m de prova, a Sertigpass, o ponto mais alto do percurso, a 2739 m, 58,3 km do caminho, imerso no meio da névoa. Nunca antes tinha corrido até um ponto tão alto. Felizmente não sinto nenhum dos males de montanha que por vezes afectam os atletas. Sinto-me antes eufórico, exultante de júbilo por ter aqui chegado.

Em Keshhutte
A partir daqui é sempre a descer até Davos. A descida é perigosa e escorregadia devido à chuva. Passamos ao lado de neve. Ao fim de 3 km deixamos um single-track muito técnico e de inclinação acentuada e entramos num caminho de terra batida muito mais transitável. No meio termo descemos 540 m e já estamos a 2200 m no km 61. Depois é descer o mais depressa possível. Desde que os quadricepes aguentem, o fim já se vislumbra no horizonte! Até chegar às primeiras povoações (Sertig Dorfli, 65,4 km e 1861 m) ainda consigo progredir rapidamente (8h05m de prova). Depois foi já com maior dificuldade que os quilómetros já eram muitos. Entretanto despi o corta-vento pois a temperatura voltou a subir com a descida.
Após mais alguns quilómetros atribulados, às 9h36m de prova chego finalmente ao estádio em Davos. Foi com uma enorme alegria que cortei a meta de mão dada com o meu filho Rui, que ostentava orgulhosamente a medalha do K10 (10,5 km) ao peito. Cheguei completamente exausto mas feliz, em 261º lugar entre 1011 finalistas. O meu Garmin marcava 80,26 km e 3534 m de desnível positivo. O vencedor, um Sueco, conseguiu chegar numas incríveis 6h11m.

Chegada à meta

Reencontrei a minha linda família e eles descreveram-me a sua aventura no K10. Foi também para eles um belo momento de superação pessoal o cruzar da linha de chegada no estádio, algumas horas antes. A minha filha Rita adorou em particular todo o incentivo que recebeu do público. Sentiu-se uma heroína. Com 1h22m o Rui foi 7º no seu escalão e a Rita com 1h37m foi 13ª. A Helena acompanhou a Rita até quase à meta, quando esta última aproveitou uma distracção da mãe para arrancar num sprint furioso e assim terminar à sua frente.

Rui
Rita
Helena

Um elemento que destacaria em particular desta magnífica experiencia é a vasta participação em termos etários e de género nas várias corridas do programa (K10, K21, K30, C42, K42 e K78). Viram-se atletas de variadas idades, com 7 atletas com mais de 70 anos a terminar o K78 (o primeiro dos quais em 11h14m)! A única prova que teve um limite mínimo de idade foi o K78. O único reparo à organização foi a reduzida utilização do Inglês, dado que o Alemão foi a língua predominante. Mas enfim, num país com 4 línguas oficiais, talvez seja pedir demasiado. De resto a organização esteve impecável.

Termino como comecei, com uma citação, algo pretensiosa no contexto em que a coloco (espero que me perdoem), de “A Montanha Mágica”:
“Para que um individuo se disponha a realizar uma tarefa de peso, para lá dos limites do absolutamente necessário, sem que a sua época forneça uma resposta satisfatória à questão da finalidade, é fundamental viver em solidão e independência morais – o que comporta algo de heróico e raramente sucede – ou ser dotado de uma vitalidade extremamente robusta.” No meu caso a vontade de realizar estas pequenas proezas pessoais não advém de uma constituição particularmente robusta ou de uma “solidão e independência morais” mas encontra antes forças no apoio da família e no grupo de companheiros Run 4 Fun e de outros amigos que vou fazendo no meio dos Trilhos. E isso, juntamente com as montanhas, basta-me.

 

domingo, 10 de julho de 2011

6º Ultra Trail da Serra da Freita 2011



Após a minha estreia em 2010, fiquei agarrado a esta prova única, dura e belíssima, que testa os limites físicos e mentais do ser humano. Claro que não podia faltar à edição deste ano, que foi a sexta, segunda neste formato de 70 km.
A Serra da Freita é uma região de beleza ímpar e participar neste local numa prova de Ultra Trail é um privilégio raro. Aqui está-se submerso nos elementos e vive-se a luta da carne frágil contra a rocha dura.




Para além da luta individual contra os elementos, para mim esta edição teve a sua principal tónica no elemento humano. 
Se o meio da corrida de estrada não se pode considerar propriamente muito vasto, então o meio do Trail é mesmo bastante reduzido e ao fim de algumas provas já se começa a conhecer razoavelmente bem os seus regulares participantes.


Já se sabe que a luta contra adversidades partilhadas forja amizades fortes, e embora a corrida seja uma actividade individual, o certo é que correr a par durante muitos quilómetros e em condições particularmente difíceis, cria uma espécie de consciência partilhada que permite resistir melhor às dificuldades.

Gostaria portanto de resumir o fundamental desta crónica a nomear as pessoas que estiveram comigo na Freita:
Os companheiros do Run 4 Fun, que tanto ânimo me têm dado ao longo deste percurso desportivo, o João Ralha, o Jorge Esteves, o José Carlos Melo, a Luísa Ralha, o Paulo Jorge Rodrigues, o Teodoro Trindade e ainda todos os outros que não estiveram presentes nesta corrida. Os companheiros da Ultra, o Arlindo Deus, o Eduardo Ferreira, o Gonçalo Cardoso, o Luís Freitas, o Paulo Jorge Rodrigues, o Pedro Prates e todos os outros com quem me encontro em treinos ou em diversas provas por este país fora.

Mais uma vez, vale a pena! 
 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

III Ultra Trail Geira / Via Nova Romana - Recordações

Resolvi recordar aqui o primeiro Trail em que participei, em 23 de Maio de 2010:

«E lá completei o meu primeiro Ultra Trail (na verdade foi simultaneamente o meu primeiro Trail e a minha primeira Ultra). Que posso dizer eu? Numa frase: foi um desafio planeado com uma enorme expectativa, que conseguiu ser excedida.
Tendo pernoitado em Caldelas, uma agradável estância termal no coração do Minho, acordei no domingo com a adrenalina a bombear a 300 à hora. Tomei um pequeno-almoço frugal às 6h15 no Hotel e depois dirigi-me a pé para o local da partida dos autocarros que nos levariam a Baños de Rio Caldo, Lóbios, em Espanha.
Depois das "Formalidades Romanas" executadas por elementos da organização vestidos a preceito (não fosse esta a corrida da Via Nova Romana), foi dado o sinal de partida, às 9h05. Um subgrupo substancial dos 130 participantes que alinharam à partida arrancou tão depressa que eu pensei que a coisa ainda ia acabar mal. Depois de um primeiro km a 4'58'' pareceu-me que esse não era o ritmo adequado para correr os 51km que tinha pela frente. Assim adequei o meu ritmo à subida que se estendia perante mim (7km a subir dos 378m até aos 762m na fronteira). Depois fui gerindo o esforço o melhor que pude.
O calor foi muito; a paisagem foi de cortar a respiração (as subidas também...); a "tecnicidade" do percurso foi alta para quem nunca tinha feito nada do género, como eu - ou seja, muitas pedras, calhaus e cursos de água para saltar por cima - senti-me como se tivesse passado metade do tempo a subir e descer escadarias de pedra; mas a camaradagem entre companheiros de prova foi para mim a tónica mais relevante desta empreitada.
Pouco depois do 8º km juntei-me a um companheiro que corria ao mesmo ritmo que eu e a partir daí seguimos o restante caminho a apoiarmo-nos mutuamente. Sem o apoio do Luís Freitas teria tido muita dificuldade em me aguentar a correr os últimos 10 km. Aqui vai um grande bem hajas para ele! No fim acabámos ambos em simultâneo, em 5h40m, para selar a amizade que se foi cimentando pelo caminho.
De resto a organização foi boa, com muitos e abundantes abastecimentos de liquidos e sólidos, o que foi essencial para que não sucumbisse à desidratação.
Confesso que cheguei ao fim completamente esgotado. Já não tinha nem pernas nem pulmões para mais. Correr em trilhos é muito mais cansativo do que correr em estrada. Tudo somado foi uma experiência inesquecível, a repetir sem dúvida. O sentido de aventura é inexcedível.
Deixo algumas fotos representativas, com o Luís Freitas (nº31) e com o César.»

domingo, 19 de junho de 2011

1º Ultra-Trail de Sesimbra






No domingo dia 12 acordei bem cedinho (5h!!!) para ter tempo de ingerir um pequeno-almoço substancial e me equipar convenientemente para mais uma aventura Ultra. Ou seja, t-shirt Run 4 Fun, mochila de hidratação com 2l de água, 4 géis, meias de compressão, as sapatilhas de trail e o lenço para proteger a cabeça do sol inclemente.

Desta vez tratou-se de correr os 50 km do 1º Ultra Trail de Sesimbra, organizado pela Associação Desportiva O Mundo da Corrida, da qual tenho a felicidade de conhecer alguns elementos com os quais partilhei a aventura dos 101 km de Ronda.

Chegado a Sesimbra, levantei o dorsal 98 e depois tive o prazer de confraternizar um pouco com alguns companheiros habituais destas aventuras. Tive a boa surpresa de reencontrar o Renato Velez que tal como eu também se preparava para completar os 50 km.

O local de partida e chegada situava-se junto ao Hotel Sesimbra Spa, do lado nascente da vila.

Depois das recomendações do Eduardo Santos, foi dado o sinal de partida e lá fomos nós, cerca de 120 atletas, pela marginal fora, até ao porto de abrigo, onde começámos a subida para a pedreira. 

Arranquei rápido e na pedreira ia no grupo dos 20 primeiros.

As fitas vermelhas e brancas e as marcações azuis no chão não deixavam enganar. Fui correndo atrás de um grupo de cerca de 6 atletas que iam a um bom ritmo pelo estradão. A certa altura, pouco depois do 9º km, eles viram para a esquerda para dentro de um terreno lavrado e eu sigo atrás reconfortado pela contínua presença das marcações. Corremos cerca de 1 km até que numa descida nos deparamos com uma seta azul no chão que indica “Meta.” Paramos surpreendidos. Não pode ser! Ainda faltam imensos quilómetros. Algo está errado. Decidimos voltar para trás. Subimos novamente e voltamos para o ponto de partida onde reentramos no estradão. Ao fim de alguns metros confirmamos que era mesmo para seguir em frente. 

Fiquei sem compreender o que tinha ocorrido. Em retrospectiva julgo que teremos entrado pelo desvio para o Mini-Trail mas não tenho a certeza. Seja como for, perdemos cerca de 13 minutos o que não é significativo numa prova desta dimensão.

Quando passamos no 1º abastecimento, ao 11º km, vou em 97º lugar, ou seja, na cauda da corrida. A partir daqui é sempre a ultrapassar atletas, o que, diga-se o que se disser, é sempre bom para o moral.

Os abastecimentos têm água, bananas e laranjas em abundância. Nos primeiros evito parar pois vou recorrendo à água da mochila e aos géis que levo. No entanto a partir de certa altura o calor começa verdadeiramente a apertar e começo a beber que nem um camelo e a comer que nem um urso cada vez que tenho a oportunidade.

Após 21 km chegamos ao 2º abastecimento e ao início da praia. Vou agora em 56º lugar, ou seja, recuperei 41 lugares nos últimos 10 km. Inicio a descida para a praia onde terei cerca de 4 km de areia amarelinha e grossa para palmilhar. São poucos kms mas desgastam cumó caraças, sobretudo agora que o sol inclemente começa a fazer os seus estragos. Chegados à praia das bicas subimos pelo acesso íngreme e entramos nos primeiros single-tracks do percurso.

Este percurso ainda é relativamente simples e consigo chegar ao km 31º, no Farol do Cabo Espichel, em 42º lugar e a sentir-me ainda com reservas de energia.

No entanto a partir daqui é que começa o tratamento de mula, com subidas e descidas bem agrestes, no meio de mato alto e calhaus cortantes. Os pés vão ficando maçados e as bolhas começam a aparecer. Os músculos já não respondem como no início. O calor continua a fazer sentir o seu efeito. A paisagem é belíssima, mas já tenho alguma dificuldade em aperceber-me do azul do mar.

Seja como for, consigo chegar ao 37º km em 32º lugar, o que indica que muitos atletas ainda vão em maiores dificuldades do que eu. Daqui para a frente é sempre a gerir o prejuízo. Por vezes tenho que parar por instantes para dar folga às pernas, mas vou inexoravelmente percorrendo o caminho. É nesta altura das corridas que normalmente entro em modo “Zombie” em que os pés andam sozinhos e eu mal tenho a noção para onde me dirijo.

Ao km 41 volto a passar no local assinalado com a indicação da direcção da Meta, mas desta vez com um nível de frescura (ou falta dela) completamente diferente. Ao km 47 do meu Garmin passo novamente na pedreira, no retorno para o Castelo. Os quilómetros até ao Castelo são bastante penosos mas vão-se fazendo. Quando finalmente chego lá ao alto, no Castelo, já levo 6:14 de prova e vou em 21º lugar.

A partir daqui é sempre a descer! Ganho fôlego e lá vou eu para percorrer os últimos 3 km o mais depressa que conseguir. Chego ao porto de abrigo e percorro a marginal até à meta, onde termino no 21º lugar, após 6 horas e 32 minutos de muita dureza mas também de muita beleza natural. O meu Garmin marca 54,3 km. O objectivo principal, que como sempre é terminar, foi cumprido.

Reencontro a minha mulher, que fez a caminhada, e vou confraternizando com os atletas presentes e com aqueles que vão chegando. O amigo Eduardo Ferreira está mortinho para se atirar para dentro de água e eu próprio faria o mesmo se não tivesse os miúdos à espera.

O Luís Mota teve mais uma excelente prestação (honra o nome que tem :)), vencendo em 4 horas e 38 minutos.

Ouve uma ou outra falha, mas em geral julgo que a organização esteve muito bem. É sem dúvida um trail a manter e eu estarei cá para o ano para o fazer novamente.

A esta distância, os pormenores retidos pela minha memória já não serão muito fiáveis, portanto espero que desculpem alguma incorrecção no meu relato. Para um relato mais rico e melhor ilustrado do que o meu, basta ir à página do Paulo Pires.

O percurso marcado pelo meu Garmin pode ser encontrado aqui: Garmin.


domingo, 15 de maio de 2011

5º Ultra Trail da Serra da Freita 2010 - Recordações

Agora que se aproxima a data do Ultra Trail Serra da Freita 2011, a ter lugar no dia 03/07/2011, e em que estarei presente na linha de partida e não duvido que também na linha de chegada, achei por bem recordar aqui o post que coloquei no Blog do Run 4 Fun após completar a prova em 2010.

 

«Confesso que após percorrer 70km com 4200m de desnível positivo, me sobram poucas palavras para exprimir o que experienciei durante as 14h47m que demorei a percorrer um caminho lindíssimo que atravessou trilhos, rios, vales e picos montanhosos com horizonte a perder de vista. Mais marcante ainda que a viagem física foi a viagem interior que se operou durante este espaço-tempo e me transportou a recantos interiores menos conhecidos. Talvez o Dean Karnazes tenha razão e uma pessoa saia mesmo modificada por uma experiência destas. Espero que me perdoem o lirismo desta prosa, mas acho que por ora tenho uma boa justificação. Já dizia o poeta que o sonho comanda a vida, e digo eu que quando se concretiza um é tempo de pensar no próximo.»

sábado, 14 de maio de 2011

14º 101 Km de Ronda


No dia 7/05/2011 corri os míticos 101 km de Ronda, no sul de Espanha.

Bem, como relatar uma aventura destas que é vivida de forma muito pessoal por quem a experiencia?

Comecemos pela parte técnica:
A preparação física, desde que iniciei a prática da corrida e a participação regular em provas, no Outono de 2008, até à ultra de 101 km, foi a que está patente no seguinte gráfico, agregado em períodos de 4 semanas:

O resto é mental, como espero transpareça do seguinte relato.


Vou dividir o relato em 4 troços: o primeiro com aproximadamente 40 km e cada um dos seguintes com cerca de 20 km. Vou chamar-lhes os meus períodos das dores. Dores em: joelho; quadríceps; gémeos; bolhas nos pés.

Não é nada habitual em mim sofrer de angústias antes de uma corrida. Costumo ter uma atitude bastante confiante. Mas desta vez havia algo de diferente. Confesso que pela primeira vez abordei uma prova com bastantes receios.

Três semanas antes da corrida fiz um longão de 65 km, seguido 3 dias depois por outro de 46 km. Os últimos 10 km desse último longão foram extremamente penosos, com uma dor excruciante no joelho esquerdo que não me largou até ao fim. Nos dias seguintes custou-me bastante treinar e comecei a recear que a inflamação nos tendões não fosse passar. Como a nível psicológico me custava ainda mais não treinar, continuei a insistir nos treinos regulares de 12 a 22 km. Contudo, no treino de grupo do domingo anterior à ida para Ronda ainda senti dores fortes no joelho. Decidi então deixar de treinar e iniciar uma "dieta" de anti-inflamatórios 3x ao dia.

A ida para Ronda foi feita no autocarro de “O Mundo da Corrida”, onde tive a felicidade de ficar a conhecer uma série de atletas e respectivos acompanhantes, muitos deles já veteranos destas andanças. A viagem foi uma prova em si, tendo durado 10 horas, apenas suportável dada a excelente companhia em que foi feita, com pessoas interessantes e divertidas. Do nosso grupo Run 4 Fun, foi minha companhia no autocarro o Pedro Prates.
Chegados a Ronda convertemos as inscrições de equipa em inscrições individuais (pois faltava-nos um elemento para termos os 5 necessários) e acomodámo-nos o melhor que pudemos no polidesportivo.
 Na manhã seguinte, após o toque de corneta da alvorada e do pequeno-almoço revigorante, dirigimo-nos para o local da partida onde nos encontrámos com o Marco Gouveia e o Luís Boleto.
Às 11h00 é dado o sinal de partida e saímos no meio de uma multidão. Ao fim dos primeiros quilómetros separo-me dos meus colegas. O Prates segue com a equipa “Expresso Lusitano”. O Marco e o Boleto seguem juntos.
Saímos de Ronda e descemos para campo aberto, um grupo compacto de atletas a correr em estradão. Começo-me a adiantar o melhor que consigo, tentando libertar-me desta mole humana.
Os primeiros 34 km são muito rápidos, com poucas subidas. Avanço a um bom ritmo, cerca de 5:35/km. Os abastecimentos são regulares (aproximadamente de 5 em 5 km) e abundantes (devo ter ingerido "quilos" de bananas e várias laranjas ao longo de toda a prova). Apesar disso não me arrependo de vir acompanhado da minha costumeira mochila de hidratação a qual me dá uma sensação muito reconfortante de apoio em caso de necessidade, provida que está de litro e meio de água e alguns géis que trago para o que der e vier.
Continuo a avançar e a deixar atletas para trás. O joelho vai dando sinal de se poder vir a agravar a inflamação e eu espicaçado por esse receio atemorizador avanço cada vez mais depressa, como se fugindo de um enxame de abelhas enraivecidas. O pensamento que me atravessa a mente é que é mais fácil aguentar menos horas de sofrimento mesmo que com maior esforço físico do que uma eternidade de dor.
Felizmente a dor vai-se mantendo -  matreira - a um nível controlado, mas pronta a morder a qualquer momento.
Ao km 35 chego a Arriate, pequena povoação onde tem início a primeira verdadeira subida. São 4km com 9% de inclinação. Como ainda me sinto fisicamente bastante fresco, resolvo fazê-la em parte a andar, em parte a correr.
Besteira da grossa! Consigo chegar ao km 40 ainda antes de ter completado 4 horas de prova, mas assim que chego lá acima, desço 100 m e começo a andar em terreno plano é que me consciencializo que os quadricepes estão já muito maltratados, o que nesta fase prematura da prova é muito preocupante. No entanto lá sigo, tentando ignorar esta nova dor, a qual tem a vantagem não despicienda de me fazer esquecer o joelho. 

Mantenho um ritmo de 6:20/km durante os 19 km seguintes até chegar à povoação de Setenil ao km 59. Esta povoação é muito interessante, com casas embutidas na rocha. Passamos pela estrada junto a umas explanadas onde a comitiva portuguesa nos espera para nos oferecer o encorajamento muito desejado. São agora 17h da tarde e estou em prova há já 6h. Com o novo alento transmitido pelos aplausos nem me apercebo do abastecimento e sigo encosta acima. A partir daqui resolvo não repetir o erro anterior e subo uma ladeira interminável de quase 10 km em passo de marcha rápida, abrindo excepções para correr apenas quando o terreno é praticamente plano. Vou a um ritmo de 8:00/km. Aqui começo a ser atacado por esticões nos gémeos. Chego a recear que me dê alguma cãibra paralisante que me impeça de prosseguir. Amaldiçoo-me por não ter trazido sal para repor os electrólitos perdidos pela diurese e sudação. Sei que mais adiante, no abastecimento do Quartel da Legião, vai estar à minha espera uma sopa quentinha e muito salgada, mas até lá ainda faltam uns valentes quilómetros onde tudo pode acontecer.
 Chegado finalmente ao alto da serra, a 900 m de altitude, tenho a alegria de desfrutar de uma vista desimpedida para Ronda ao fundo e o Quartel no seu sopé.  
Mas o alívio é de curta duração. Assim que começo a descer apercebo-me que as pernas já estão muito massacradas e a progressão em descida até ao Quartel não vai ser particularmente rápida. Ainda assim consigo manter um ritmo de cerca de 6:30/km, o que me faz finalmente chegar ao Quartel da Legião, no km 77, às 19h20, após 8h20 de prova. Isso ultrapassa as minhas melhores previsões, o que me permite conceder-me um breve repouso de cerca de 10 minutos para retemperar forças e ingerir a sopa quente, o iogurte e mais uma banana. Neste ponto tinha à minha espera um saco com uma muda de roupa, que se revelou dispensável e por isso pedi para ser enviado directamente para a meta, nos camiões da Legião.

Arranquei do quartel com a perspectiva de ainda ter duas horas diurnas para percorrer os 24 km finais. Pouco depois essa perspectiva optimista começou a revelar-se uma miragem pois dei início à famosa subida do “Purgatório”, com alguns quilómetros que chegam a ter 13% de inclinação. Aqui as bolhas que se tinham avolumado em ambos os pés sobrepuseram-se às restantes dores e pude finalmente esquecer-me que tinha pernas. Chegado à Ermita, no alto, restava descer até ao rio, no km 89, e percorrer junto a ele o único single-track técnico de todo o percurso. Felizmente fi-lo todo ainda durante o dia, o que me permitiu fazer este percurso a uma velocidade razoável sem necessitar de recorrer ao frontal. Só ao km 95, quando se iniciou enfim a última subida para Ronda é que deixei de ter visibilidade e me socorri do frontal. Os últimos 18 km, desde a Ermita até à meta, foram percorridos em 7:30/km, tendo eu sido ultrapassado por vários atletas, mas por mais que eu tentasse as pernas já não respondiam com maior celeridade. A subida final é feita a andar e com vista para a famosa ponte de Ronda. Chegado lá acima resta o quilómetro final e busco em mim as forças restantes para conseguir correr ou até talvez tentar um último sprint final antes de cortar a meta. Chego à meta com os vivas da alegre comitiva portuguesa, e também dos espanhóis, sempre muito carinhosos e expansivos.

Completei os 101,3 km em 11h40m, no lugar 101 da geral (em 1999 finalistas) e 69 do escalão de Veteranos A. Vou jantar com o sentimento da missão cumprida e bem acima das minhas expectativas. Valeu a pena cá vir e foi mais uma experiência digna de contar aos filhos e aos futuros netos.

No dia seguinte de manhã reúno-me com os restantes companheiros da aventura Run 4 Fun e fico extremamente satisfeito por verificar que a prova também correu a seu contento. Com muita determinação, cada um conseguiu os seus objectivos, e apesar do Boleto não ter terminado, a verdade é que quase duplicou a sua anterior distância máxima, completando 77 kms, o que já é um enorme feito.

Uma última palavra para gabar a organização, que na minha humilde opinião esteve impecável. Só isso, juntamente com as amizades criadas, já fez valer a pena cá vir.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

4º AXTrail series 2011

AXTrail series 2011 - Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

 

#01 SERIE - Foz de Alge / Ferraria de São João (10-04-2011)

 

 

 

O que se pode dizer acerca da primeira série do AXTrail? Numa frase lapidar: fiquei adepto!
O fim-de-semana iniciou-se com uma estadia muito agradável na Casa de Xisto “Zé Sapateiro,” cujos proprietários revelaram ser extremamente atenciosos. Eu, o Zé Carlos Santos, o Emanuel Oliveira e o Paulo Jorge Rodrigues trouxemos a família, tendo as três primeiras famílias pernoitado neste turismo rural enquanto que o Paulo e a mulher dormiram em Figueiró dos Vinhos.
 Após um pequeno passeio pedestre pela vila, fomos jantar no restaurante “Varanda do Casal”, na Aldeia do Casal de S. Simão, onde nos deliciámos com um repasto feito à base das especialidades locais (em especial um enchido denominado Maranhos) e um bom vinho regional (deveria ser considerado doping :-). No restaurante encontrámos o José Moutinho, Grão-Mestre da Confraria Trotamontes e co-organizador da prova, que nos enriqueceu e divertiu com as muitas histórias e conhecimentos do trail de que é pródigo. Terminado o agradabilíssimo convívio voltámos aos nossos aposentos para uma boa noite de repouso.
O dia seguinte iniciou-se com um pequeno-almoço substancial seguido da deslocação por autocarro para a Foz do Alge onde a prova tem início. Os vários autocarros foram trazendo os diferentes grupos e fomos aproveitando o compasso de espera para confraternizar e ficar a conhecer melhor os companheiros de aventura. Eu tive a feliz oportunidade de rever um companheiro do Trail de Sicó, o Luís Ricardo, de Portalegre, que se viria a revelar um companheiro valoroso na presente prova. Outra das diferenças muito significativas do trail relativamente à estrada é que o companheirismo e os laços que se criam são mais densos e ricos. Para mim, nado e criado em Lisboa, é particularmente interessante conviver com malta proveniente de todo o país.
Tal como o site da prova indica, trata-se de “uma prova de 31 km de uma paisagem soberba e uns trilhos fantásticos, na companhia da Ribeira de Alge e com passagem pelas Aldeias do Xisto do Casal S. Simão e Ferraria S. João.” Ou seja, para além de se realizar num trajecto de inigualável beleza, percorrendo “paisagem de conto de fadas,” Aldeias de Xisto, fragas e montes, ainda se usufrui da companhia de um grupo de “loucos que correm” literalmente embrenhados numa mesma aventura.
Tínhamos sido avisados que os primeiros 20 km iriam ser muito mais duros do que o perfil altimétrico indicava, uma vez que o terreno era bastante “virgem” obrigando a “saltinhos” constantes, sem grande visibilidade para o terreno à nossa frente. Esse aviso veio a revelar-se profético, e a certa altura eu sentia-me como se estivesse a correr nas selvas do Vietname, entrevendo fugazmente uns atletas à minha frente e ocasionalmente ouvindo vozes fantasmagóricas atrás de mim. Quando cheguei finalmente ao quilometro 20 e saí da “selva” é que finalmente me apercebi do estado lastimável em que as minhas pernas se encontravam, faltando ainda cerca de 11 km para terminar (ao olhar para o meu Garmin, verifiquei espantado que marcava já mais de 700 m de desnível positivo)! Foi nestes últimos quilómetros que o apoio moral do Luís Ricardo se revelou fundamental para que eu prosseguisse até ao fim destes duríssimos quilómetros finais. Prosseguimos juntos, subindo a passo os 450 m até à cumeada da Serra do Espinhal e depois descemos abruptamente até Ferraria de S. João onde cortámos a meta em simultâneo, junto ao centro de BTT. Depois almoçámos o churrasco preparado pela organização.
Malgrado o pequeno e irrelevante atraso inicial, a organização esteve impecável em todos os aspectos.
Gostaria de realçar também as provas magníficas dos meus companheiros.
Relativamente à prova do Emanuel não há muito a dizer: fez a sua habitual corrida a um ritmo certinho, inteligente e muito eficaz, tendo alcançado um excelente 30º lugar da geral.
O Zé Carlos demonstrou mais uma vez a fibra de que é feito, ao prosseguir inabalavelmente, mesmo sob fortes dores, após uma entorse mal-afortunada que contraiu mal tinha percorrido 12 quilómetros. Encontrei-o cerca do quilómetro 14 e já vinha em grande sofrimento. Perguntei-lhe se não queria que permanecesse com ele, mas negou-se terminantemente a abandonar a prova ou a atrasar quem quer que fosse. Aliás, tal não seria possível suceder pois volto a encontrá-lo novamente ao quilómetro 20, para surpresa minha, pois embora não duvide das enormes qualidades atléticas do Zé, correr com a bem visível “batata” que ele já carregava no tornozelo já me parecia algo sobre-humano. A subir continuava imparável, sendo as descidas o que mais lhe custava. E nem esta derradeira oportunidade de parar e dar o devido descanso ao tornozelo muito massacrado ele aproveitou. Subiu imparável até à cumeada da Serra do Espinhal e só terminou na meta num mui-honroso 52º lugar em 132 finalistas e 5º no seu escalão com 4:17:56. Este homem é mesmo feito de aço!
O Paulo Jorge esteve também em grande, e só o facto de ter completado um trail com este nível de dificuldade, tendo-se iniciado na corrida há tão pouco tempo, é um sinal inequívoco da persistência e força de vontade do Paulo. Mas deixo-vos com as suas próprias palavras e julgo que ele perdoará a inconfidência:
“Para mim a prova teve 2 partes, até perto do km 20 correu-me muito bem, depois, perdi-me e fiz mais 4,5 km mas o pior foi que os últimos 9 tive cãibras fortíssimas como nunca tinha tido, o que me obrigou a fazer esses últimos kms a andar e a parar a cada cãibra, ainda não percebi muito bem o porquê pois não me sentia nada cansado e estava a correr-me mesmo muito bem.
(…) Foi um excelente fim-de-semana, começando no agradável jantar e prolongando-se com a prova e nós ainda ficamos para segunda-feira onde aproveitamos para conhecer um pouco mais da zona. Pena o acidente do Zé Carlos para ensombrar o fim de semana…eu nem queria acreditar quando ele me disse que ainda fez os 19km naquele estado e que ainda foi ter contigo e com o Helder!...”
Para terminar esta saga, faço coro com o Paulo Jorge: “Sem duvida um fim-de-semana a repetir!”

sábado, 22 de janeiro de 2011

Correr na alvorada tem outro encanto


Acordar quando tudo é calma e sossego
Tomar um pequeno-almoço frugal
Calçar as sapatilhas e vestir o corta-vento
Sair de casa para o fresco da manhã
Seguir pelo caminho deserto
em direcção ao horizonte infinito
Um pé adiante do outro pé
A Terra é vazia, o rio é tranquilo






O céu enfeita-se com as cores da madrugada
 






O Sol nasce

É tempo de voltar

domingo, 9 de janeiro de 2011

Treino para Ronda

Esta manhã levantei-me da cama bem cedo, electrizado pela antecipação de mais um treino longo no cenário idílico da serra de Sintra. Após tomar um pequeno-almoço frugal e conferir o equipamento que tenciono levar para Ronda (com que tenho treinado ultimamente), saí disparado pela porta a caminho do ponto de encontro previamente combinado: a Fonte Mourisca, na vila de Sintra.
Às 8 horas lá me encontrei com o João Fialho, o Marco Gouveia e o Miguel San-Payo. Este grupo de 4 bravos arrancou dali decidido a ir ao Cabo da Roca e voltar, passando pelo alto da Peninha.
Incautos, mal sabíamos nós que o João tinha uma maldade preparada: ainda antes de arrancarmos para a Serra convenceu-nos a ir fazer uma “subidinha” para aquecer, coisa pouca, nada de cuidados. Tendo caído no logro, lá tivemos que fazer a subida de S. Eufémia, muito a custo, com os bofes de fora e rogando pragas de fazer corar as pedras da calçada, que aquilo é coisa para homens de barba rija…
Passado o tirocínio, lá encetámos o percurso habitual, rumo ao nosso destino no “fim da Europa”. Os quilómetros foram rolando plácidos em amena cavaqueira e o tempo foi passando nesta agradável companhia. Vinte km depois chegámos ao Cabo, onde aproveitámos um momento turístico para tirar a foto da praxe.
A volta foi mais dura; aqueles 5 ou 6 km a subir em bom ritmo desgastam qualquer um e para ajudar à festa o João estava verdadeiramente endemoninhado, tendo puxado por nós até à exaustão. Para quem jura a pés juntos que ainda não está preparado para se aventurar numa Maratona, o homem anda cheio de força.
Quando chegámos aos 4 caminhos separamo-nos em 2 grupos: eu e o Marco seguimos alguns km pela estrada de Colares a fim de acrescentarmos mais alguma distância ao nosso treino e o João e o Miguel seguiram para a vila, para completarem um treino de cerca de 38 km.
Por fim lá voltámos também nós para a Vila, mais mortos de que vivos, para acabarmos um treino que para o Marco teve os habituais 42,2 km e para mim foi até aos 45 km. Fizemos isto em menos de 5 horas (mais uns 20 minutos para as pausas), com um desnível acumulado de 1290 metros, o que augura uma boa prestação em Ronda caso mantenhamos os treinos a este nível.
No próximo treino teremos que começar mais cedo, de preferência ainda de noite, para termos a oportunidade de praticar a corrida com o frontal. Mal posso esperar…


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um treino alternativo para Maratona

A revista Runner's World de Janeiro apresenta um treino interessante, adaptado da metodologia usada pelos irmãos Hanson na preparação de atletas de elite (clique no título deste post). Esta metodologia dispensa os treinos longos, substituindo-os por uma combinação de treino de velocidade, ritmo e uma versão mais curta do longo. 
O conceito principal pode-se resumir, grosso modo, na seguinte afirmação: um treino de cerca de 25 km a um ritmo cerca de 30 s inferior ao da maratona é equivalente aos últimos 25 km de uma maratona, caso o treino realizado durante a semana anterior tenha sido suficientemente intenso. Ou seja, após um semana recheada com um treino intervalado a um ritmo de 10K (3 x 1,6 km por exemplo) e  outro treino de 16 km a ritmo de maratona, ambos "ensanduichados" entre  treinos de "recuperação" de 10 a 16 km.