quinta-feira, 17 de novembro de 2011

37ª Meia Maratona Internacional da Nazaré



No domingo passado, dia 13 de Novembro, juntei-me a esta grande festa do atletismo popular que é a Meia Maratona Internacional da Nazaré, a qual já vai na 37ª edição, tendo tido início no distante ano de 1975. 

É a mais antiga das Meias Maratonas que se realizam no nosso país e sem dúvida uma das mais pitorescas, pelo local onde se realiza, pelo percurso, pelo apoio do público e pelo grupo de participantes fiéis e empenhados (um bom conjunto de atletas de pelotão, como revelam os resultados).




Acordei bem cedo, às 7 horas, pois tinha combinado com o Miguel Dias e o Nuno Almeida irmos juntos de carro para a Nazaré. Depois de uma viagem sem incidentes, chegámos ao Hotel Quico, onde estavam hospedados o Nuno Marques, a Cristina Caldeira, o Jorge Duarte Pinheiro e filhos, e o Francisco Sanches Osório. O Nuno teve a gentileza e o trabalho de organizar toda a logística, incluindo distribuição de dorsais e fornecimento de banhos após a prova, que muito jeito nos deu. 

Dirigimo-nos para o centro da vila, onde nos encontrámos com o José Magalhães, o Serafim Desidério e o Vítor Lopes. E assim a armada Run 4 Fun ficou completa.

Estávamos em amena cavaqueira quando passa por nós a madrinha da prova, a grande atleta e grande pessoa, Rosa Mota. Disponibilizou-se logo para tirar várias fotografias connosco, simpática como sempre.



  
 
Depois do aquecimento, dirigi-me para a partida onde encontrei o Carlos Silva, dos Pumas do Guincho. Conseguimo-nos colocar perto da linha de partida e aguardámos pelo tiro que seria dado pela Rosinha.

E pum! Arrancámos o melhor que pudemos. A partida é relativamente fácil e desafogada, só é pena que não exista controle de chip na partida. O Carlos rapidamente descolou e só voltei a vê-lo no retorno.

Corri o melhor que pude, ainda me sentindo algo combalido da Maratona do Porto, que se tinha realizado uma semana antes. Como íamos a subir ligeiramente, contra o vento, e me sentia cansado, resolvi não arriscar. Nos primeiros 5 quilómetros demos a volta à vila e depois seguimos em direcção a Famalicão. Passei a marca dos 10 kms em 41’15’’ e metade da prova em cerca de 43’23’’.

Em Famalicão, aos 12,5 kms demos a volta ao bidão, para retornarmos pelo mesmo caminho, desta vez com o vento pelas costas e em ligeira descida. Antes da volta ainda tive a oportunidade de me cruzar com o Carlos, correndo muito solto e com um ar muito fresco. Vi logo que ele iria fazer um grande tempo.

No retorno, acelerei em direcção à Nazaré, decidido a arriscar, apesar das dores nas pernas e do receio de sofrer alguma lesão. Quando passámos novamente por cima da ponte, começou a cair uma forte chuvada, que felizmente abrandou ainda antes de chegarmos à meta.

Os últimos 4 kms são feitos a menos de 4’00’’/km e finalmente cruzo a meta, em 1h26’10’’, esgotado mas feliz, pois julgo não me ter portado mal. Assim que cruzo a meta, começa a cair uma tal carga de água que mais parecia que S. Pedro tinha aberto as comportas celestiais.





Constato que consegui fazer um "negative split", com uma segunda metade um pouco mais rápida do que a primeira.

Troco o chip pelo prato comemorativo e fico a aguardar pelos restantes companheiros do Run 4 Fun. Revejo o Carlos Silva, que tinha feito um tempo canhão de 1h23’10’’ e encaminho-me com os companheiros para o Hotel, e para o merecido banho.

Depois fomos almoçar numa marisqueira e voltámos para casa, após mais este dia bem passado, a fazer desporto e conviver com os amigos.



sábado, 12 de novembro de 2011

8ª Maratona do Porto

Desde sempre que gosto de correr. É uma paixão antiga, vivida com maior ou menor intensidade ao longo dos anos, em ocasiões esquecida, noutras reacendida, consoante os caminhos da vida e os desejos do coração.

A minha recordação mais antiga do acto de correr reporta-se aos meus 10 anos quando frequentava o 6º ano e nas aulas de educação física o “stor” nos fazia dar voltas à pista. Depois voltei a correr no 12º ano, quando fiz um programa de intercâmbio nos EUA e me inscrevi na equipa de atletismo onde corria a milha e as duas milhas. Foi nesse longínquo ano de 1985 que corri a minha primeira prova de 10 km, da qual já não recordo o percurso ou o resultado, mas lembro-me vivamente do prazer de competir e da agonia extrema do esforço físico.

Depois disso ainda corri ocasionalmente apenas pelo prazer de correr, mas nunca mais competi em provas de pista ou de estrada. Isto até um ano depois de me nascer o primeiro filho, quando, incentivado por amigos, resolvi inscrever-me numa meia maratona. 
Nessa altura essa distância parecia-me imensa e não sabia como haveria de a completar. No entanto como na altura fazia natação todos os dias no Estádio Universitário, já tinha uma preparação física razoável, bastou-me treinar algumas semanas para cumprir o objectivo dos 21,1 km até à meta, em 2h00’, isto em Março de 2002. 
Depois disso ainda participei mais algumas vezes nas duas meias maratonas das pontes, e apenas nestas provas, com resultados que oscilavam entre as 1h44’ e as 2h22’ consoante a maior ou menor preparação efectuada especificamente para essas provas.

Em 2009, em resultado da carga de trabalho e stress do MBA que estava a concluir em part-time, acumulando com uma actividade profissional exigente, tinha atingido um peso para mim impensável de 90 kg e um nível de sedentarismo muito pouco saudável. Entrementes, o meu irmão, Jorge Ferreira, já tinha completado a sua primeira Maratona e incitado pelo seu exemplo, em Agosto, tomei a firme decisão de que teria que correr uma Maratona até ao fim do ano.

Preparei-me e em Novembro, juntei-me a um grupo de corredores fantásticos, os Run 4 Fun, de que já devem ter ouvido falar :-), e que muito me têm ajudado a superar-me. 
Em Dezembro lá corri a 24ª Maratona de Lisboa, apadrinhado e auxiliado pelo João Ralha, excelente companheiro, que me rebocou durante boa parte da prova. E consegui chegar ao fim, em 4h10, apesar de ter levado em cheio com o “muro” aos 30 e picos kms.

Nos 2 anos que decorreram desde então, já completei 9 maratonas, 7 de estrada e 2 de montanha, e preparo-me agora para completar a 10ª em Dezembro, na 26ª edição da Maratona de Lisboa. Os resultados foram (quase) sempre melhorando desde Dezembro de 2009, na seguinte progressão (em estrada): Lisboa 2009 – 4h10’; Sevilha 2010 – 3h35’; Berlim 2010 – 3h25’, Algarve 2010 – 3h19’; Porto 2010 – 3h09’; Lisboa 2010 – 3h13’ e da mais recente, a do Porto 2011, falarei em seguida.
Percurso da Maratona

Este ano, nesta distância tinha nos meus planos apenas o AXtrail K42 e as maratonas do Porto e Lisboa. O objectivo traçado era baixar das 3 horas, algo que, com o devido treino, considerava ao meu alcance. Contudo como tanto faço provas de estrada como de trail, não me foi possível fazer um treino específico para esta corrida. Assim, parti para o Porto com a noção clara que teria que arriscar. 

No dia da prova acordei bem cedo, às 5 horas, e tomei um pequeno-almoço abundante às 6 horas. Às 8 horas estava na rua a aquecer e a dirigir-me para o local da partida, junto ao Palácio de Cristal. O tempo estava fresco e ensolarado, óptimo para correr. 
Lá reencontrei os bravos companheiros da camisola laranja, o António Cruz, o José Carlos Melo, o Luís Correia, o Miguel San-Payo e o Orlando Ferreira, e depois, ao longo da prova tive a felicidade de me cruzar ainda o Carlos Brazão, o Jorge Esteves e o Teodoro Trindade.

Eu e o António ainda fizemos mais um curto aquecimento e dirigimo-nos de imediato para a partida, a fim de ficarmos bem posicionados e não sermos submergidos na habitual atrapalhação das partidas (mas há que reconhecer que a partida da Maratona do Porto é uma das mais ordeiras das provas que conheço). 
Deu-se o tiro de partida e eu arranquei rápido para tentar ultrapassar a malta mais lenta e assim entrar no meu “ritmo de cruzeiro” o mais cedo possível. Tivemos um 1º km a subir, onde o meu coração atingiu os 152 bpm e depois começámos uma descida de vários quilómetros pela Avenida da Boavista, em direcção ao Castelo do Queijo e depois a Foz. 

Antes do tiro de partida, tinha trocado impressões com o António e concluímos que tínhamos estratégias muito semelhantes para abordar esta corrida. 
Como ele já soberbamente descreveu no seu post (os post do António são sempre uma fonte única de útil informação científica e inspiradora experiência pessoal), pretendíamos começar com uma intensidade cardíaca menor e subir de intensidade ao longo da prova. E uma vez que o perfil altimétrico da prova começa a descer e acaba a subir, resolvemos também fazer a 1ª metade mais rápida do que a 2ª, o que não é contraditório com aquilo que afirmámos acerca da intensidade cardíaca. Para mim esta estratégia fazia sentido pois, baseado na experiência do ano anterior, parecia-me que precisaria de atingir a marca dos 21,1 km em menos de 1h28’30’’ se queria ter tempo para completar os últimos kms, a subir (mesmo que ligeiramente) e provavelmente contra o vento do norte. 
Enfim, queria ter uma folga razoável, pois bem sei que a Maratona começa a doer a sério a partir do 2º terço.

Os primeiros 10 kms foram completados muito rapidamente, com ritmos entre os 4’00’’/km e os 4’13’’/km. Passei a marca dos 10 km em cerca de 41’15’’, dentro do plano. Desde cedo me adiantei do balão das 3h, a fim de cumprir o meu plano, mas agora corria isolado e começava a sentir a falta de companhia e de alguma protecção contra o vento ligeiro que se fazia sentir. 
Acelerei um pouco para tentar apanhar os atletas que corriam algumas dezenas de metros à minha frente. Corríamos agora junto ao rio, num passeio lindíssimo que enchia a alma de júbilo. Os populares incentivavam-nos alegremente, com regionalismos típicos do norte. Fui-me hidratando e ingerindo os meus géis, regularmente de 7 em 7 kms, a fim de não exaurir as reservas de hidratos de carbono, estratégia imprescindível para não esbarrar com o famoso “muro”.

Em breve atravessei o túnel, onde o meu Garmin se baralhou um pouco, e cheguei à ponte de D. Luís. Depois, em Gaia, colei-me a dois atletas que progrediam a bom ritmo, até chegar ao pórtico da meia-maratona na Afurada. Passei este marco em 1h28’54’’ ainda razoavelmente dentro do plano. 
No sentido oposto passei por todos os atletas do Run 4 Fun, com o António sempre à frente do balão das 3h15’. Voltei a passar a ponte D. Luís e foi pouco depois, cerca do quilómetro 28, que o meu verdadeiro sofrimento teve início. As pernas já começavam a dar sinais claros do esforço acumulado, e a ameaçar com a assustadora perspectiva de debilitantes cãibras. Fui forçando o ritmo, concentrando-me nos quilómetros que faltavam: “já só falta um terço da prova… 10 kms… 9 kms…”  
Tive várias variações de ritmo, resultado de uma luta constante entre os dois hemisférios do cérebro, um que me mandava abrandar e outro que me ordenava para acelerar.  
No regresso da viragem dos 28 km passei pelo António que ainda ia à frente do balão das 3h15’. Pensei, “o António vai em grande ritmo” e mal sabia eu que esse ritmo elevado já só era mantido à custa de uma enorme capacidade de sofrimento.
Ritmo Cardíaco em várias provas (Max 175)

Passei a marca dos 30 km em 2h06’57’’, ainda com uma margem de 25 segundos para atingir o meu objectivo. Aguentei-me num ritmo de cerca de 4’17’’/km (o necessário para conseguir menos de 3 horas dada a margem de que dispunha) até aos 36 kms, procurando apanhar boleia com alguns atletas que me iam ultrapassando. 
Quando chegámos à Foz estava estoirado e ainda me faltavam os tão temidos 6 quilómetros finais. Apercebi-me que iria ser muito complicado manter os 4’17’’/km até ao fim.  Colei-me a dois atletas dos Falcões Selvagens e esforcei-me por me manter a seu lado. No entanto também eles sentiam o desgaste da prova. Baixei para 4’23’’/km, depois para 4’27’’/km e ainda para 4’29’’/km. Os últimos 2 kms foram feitos em enorme esforço em 4’33’’/km e lá consegui chegar à meta, ao fim de 3h00’53’’.


Assim que parei apercebi-me que não conseguiria correr nem mais 10 metros. Estava exausto, mas feliz apesar de não ter cumprido o objectivo. É como escreveu o António: só se falha quando não tentamos um objectivo suficientemente ambicioso.
Maratona do Porto 2011
 

Depois fui tratar de beber uma cervejinha e esperar pelos companheiros. Lá vi o António chegar às 3h15’ bastante combalido, mas com um excelente resultado que só o pode alegrar. Não pude esperar pelos restantes companheiros, pois tinha que fazer o checkout do Hotel, mas pelos seus relatos pude mais tarde verificar que todos tiraram grande proveito desta excelente 8ª Maratona do Porto.

Recentemente li um livro fascinante, “O filósofo e o lobo”, onde, à luz do que aprendeu com a convivência com um lobo, o autor, Mark Rowlands, se questiona, entre outras coisas, acerca da natureza da felicidade. 
Segundo ele, o homo sapiens não vive de forma absoluta o momento presente, mas antes imerso num contínuo que nos mergulha no passado e nos projecta no futuro. O lobo é mais um ser do presente, o qual vive de forma completa e inteira. 
Essa imersão no tempo leva-nos muitas vezes a esquecer o valor do processo e focamo-nos apenas no objectivo, que está sempre diferido. No próprio instante em que o cumprimos, esgota-se. 
O lobo vive o processo. E os processos mais vitais são os mais viscerais, aqueles que envolvem a maior dose de êxtase, ligada inextrincavelmente com extremos de agonia e desconforto. Por exemplo, quando corremos e damos o nosso máximo, durante várias horas de esforço ininterrupto e esgotante, o que é que sentimos? Sobretudo desconforto, mas também uma enorme exaltação. E sentimos isso tudo em simultâneo. São duas faces da mesma moeda que não são separáveis, experienciadas em uníssono. O que é que fica depois de acabarmos? O principal não é com certeza a marca atingida, mas antes a memória indelével e física do processo de correr.


Adidas Adizero Pro 4


Esta semana já recomecei os treinos a pensar já na Maratona de Lisboa. A do Porto corri com os meus velhinhos e gastos Adidas Adizero Adios, que me puxaram sobremaneira pelos gémeos (são levezinhos e relativamente planos). Entretanto recebi pelo correio o meu novo modelo, os Adidas Adizero Pro 4, que são ainda mais leves e ainda mais planos. Mal posso esperar para os experimentar!

domingo, 30 de outubro de 2011

1º Grande Trail Serra D'Arga

LA Sportiva Marathon Running 42km 5000m D Ac

No sábado dia 22 de Outubro, duas semanas após ter completado o K42 na Serra da Lousã, dirigi-me para Caminha, a fim de tomar parte dum fim-de-semana composto pelas Jornadas Técnicas do Trail no sábado à tarde e pela Maratona LA Sportiva, no domingo de manhã, eventos organizados pelo Carlos Sá, um dos nossos melhores trailistas da actualidade (8º na Marathon des Sables e 5º no UTMB).


Com o Carlos Sá e o Paulo Jorge Rodrigues

A fim de partilharmos companhia e despesas, fui para cima junto com o Renato Velez, o Gonçalo Cardoso e o Paulo Santos, que se revelaram uma excelente companhia, divertidos e animados durante todo o caminho. 
Chegámos mesmo no início das jornadas, e assim tivemos a oportunidade de ouvir o relato do Jorge Serrazina acerca da sua epopeica participação nos 333 kms do Tor des Geants, seguida da inspiradora crónica do Carlos Sá versando a sua participação na Marathon des Sables em 2011. Depois tivemos ainda a oportunidade de ouvir uma excelente apresentação do Paulo Pires, treinador do Carlos, que nos ensinou uma série de conceitos do treino de atletismo, seguida de uma apresentação igualmente interessante, sobre medicina desportiva, pela Drª Maria Cunha. 
Por fim fomos servido com a muito aguardada pièce de résistance, sob a forma de um dinâmico diálogo que o João Garcia, emérito Alpinista e conquistador dos 10 picos mais altos do mundo, manteve com a assistência, demonstrando uma superior inteligência e grande perícia no contacto com o público.
Durante as jornadas tive o enorme prazer de reencontrar muitos dos companheiros habituais destas andanças.

Após as jornadas fomos jantar um esparguete à bolonhesa, como manda a praxe. No restaurante, ao vermos passar suculentas e abundantes refeições de peixe e carne, ainda fumegantes e cheirosas, enquanto olhávamos acabrunhados para o desenxabido esparguete que nos tinha caído no prato, sentimo-nos algo... como dizer... tótós! 
A malta do norte lá no restaurante devia estar toda a pensar: "olha só para estes morcões, nem para comer servem..." 
Para dormir tivemos a boa sorte de beneficiar da excelente hospitalidade do Paulo Ramos, que nos arranjou espaço na sua casa.

No dia seguinte acordámos bem cedo para estarmos presentes em Dem antes das 7h30 a fim de fazermos o controle inicial. Foi-se juntando gente no recinto da partida, todos agasalhados com corta-ventos ou impermeáveis, que a meteorologia não se anunciava nada favorável.

Paulo Jorge Rodrigues, Gonçalo Cardoso e Luís Ferreira, na zona de partida


À oitava badalada da torre da Igreja é dada a partida e lá arrancamos nós para mais uma aventura pelos trilhos da montanha, desta feita na Serra D'Arga. Logo à saída de Dem apanhámos a primeira parede, de cerca de 3 km, muito inclinada e exigente. Eu sigo o Gonçalo, numa fila interminável de atletas que sobem a passo, serpenteando pela serra acima. A subida foi árdua e feita debaixo de uma chuva miudinha e vento que se começava a anunciar as rajadas de 120 kms que a previsão da véspera tinha prometido.
Chegados ao topo, corremos um pouco em terreno aberto e iniciámos a primeira descida pelos estradões romanos, a abrir por ali abaixo. Mantivemos um ritmo intenso, o Gonçalo e eu, enquanto ultrapassávamos alguns atletas. Passámos alguns abastecimentos, bem providos, e a cerca de um quarto da prova passámos pelo Mosteiro S. João de Arga, situado num local belíssimo. Por esta altura já o Gonçalo me tinha deixado para trás. Depois embrenhámo-nos pela floresta e lá fomos seguindo as fitas sinalizadoras. O tempo ia oscilando, entre frio, chuva intensa e vento forte em lugares mais abertos, ou maior calor e menos chuva noutros locais. Tão depressa vestia o corta-vento como de seguida o despia.
Após o rio (com pedras escorregadias e perigosas, mas apenas numa curta extensão), subimos e apanhámos um troço de estrada antes de S. Lourenço, onde se encontrava a meta da Meia Maratona. Foi aí que me cruzei com alguns atletas que vinham em sentido inverso, o que me deixou bastante baralhado, até que por fim percebi que a Maratona tinha sido interrompida no Km 20 devido às adversas condições meteorológicas. Ainda fiz um último quilómetro em sprint  e cheguei assim a uma meta inesperada. Apesar da desilusão por não poder completar a prova principal, reconheço que foi uma decisão acertada por parte da organização, pois continuar naquelas condições de má visibilidade e piso escorregadio poderia vir a tornar-se bastante perigoso.
Para gastar as energias que tínhamos em reserva para os 22 km finais, resolvemos voltar a Dem pela estrada, o que levou cerca de 11 kms até que por fim chegámos ao pavilhão do almoço, completamente encharcados e a tiritar de frio. Aí beneficiámos de um revigorante almoço que nos aqueceu o corpo e o espírito.
Não pudemos ficar para a cerimónia de entrega de prémios e por isso voltámos logo para Leiria, Lisboa e Setúbal. A viagem de volta foi igualmente divertida e parámos em Esposende para repor calorias comendo uns pasteis bem apetitosos. 
Em jeito de conclusão, gostaria de afirmar que gostei muito da experiência e que o Carlos Sá está de parabéns por ter montado uma organização impecável. Para o ano conto voltar para desta vez completar a prova de 42 Km.


Na meta dos 20 km, em S. Lourenço, com a Manuela Machado

9º Challenge Openwater ANE

No domingo dia 18 de Setembro realizou-se na barragem de Castelo de Bode, junto à Aldeia do Mato, a 9ª edição do Challenge ANE. 
Trata-se de uma competição incluída no XX Circuito Vale do Tejo de Águas Abertas e organizada pela Associação de Nadadores dos Estoris, da qual já fui sócio nos longínquos idos de 2002/2003. Daí também a minha preferência por esta prova em particular, por conhecer o profissionalismo da organização.
O programa era composto por provas de 10 km, 5 km, 1.5 km para Federados e uma prova de 1.5 km de divulgação. Foi nesta última que me inscrevi, na expectativa de passar um domingo diferente do habitual e matar saudades da natação em águas abertas.
Domingo levantei-me bem cedinho e lá me dirigi, juntamente com a família, para a Aldeia do Mato, a 140 km de casa. O dia estava ensolarado, se bem que muito ventoso.
Feito o check-in na organização e tendo recebido o numero 171 marcado a caneta nos ombros, mãos e costas (aqui não há dorsal e é proibida a utilização de fato isotérmico), dirigi-me para a zona do briefing. Pouco depois tinha início a prova de 1.5 km para federados e 5 minutos depois teria início a prova de divulgação. A água estava a uma temperatura agradável de cerca de 24ºC, boa para nadar. O vento causava alguma ondulação mas pouco significativa.
Foi dada a partida e lá começámos, 76 participantes, tentando dirigirmo-nos para a bóia amarela que, com dificuldade, vislumbrávamos lá ao longe. Uma das dificuldades técnicas da natação de águas abertas é precisamente a orientação, uma vez que temos os olhos ao nível da água e torna-se difícil avaliar se estamos a fazer um percurso em linha recta ou se, pelo contrário, percorremos distâncias maiores do que seria necessário. Muitas vezes seguimos apenas os que vão à nossa frente sem a certeza que eles mesmos estejam no caminho certo (os barcos de apoio fornecem pontos de referência adicionais, sobretudo para os primeiros). O percurso dos 1.5 km estava balizado com 3 bóias amarelas que delimitavam um trajecto triangular.
Os primeiros 100 a 200 metros são algo caóticos com nadadores a atropelarem-se enquanto tentam progredir na água. A partir daí, fui a controlar o meu andamento, pois sabia que a minha fraca preparação para uma prova destas (nado apenas uma ou duas vezes por semana, com treinos de 2000 m), para além da minha deficiente técnica de natação, não me permitiria forçar muito ou corria o risco de rebentar a meio.
Esta economia de esforço permitiu-me chegar bem ao fim e cruzar a meta ao mesmo ritmo do início, em 25’10’’, no 48º lugar, 3º do escalão (só éramos 6). O vencedor cortou a meta em 17’04’’.
Gostei muito de fazer esta prova, em que a organização correspondeu plenamente às minhas expectativas, e no próximo ano tenciono participar em mais.
Nas provas dos 5 km e dos 10 km estiveram presentes os campeões do costume, tendo a prova de 10 km (distância olímpica) sido ganha pelo Arseniy Lavrentyev (que foi 22º nos Jogos Olímpicos de Pequim) em 1h47:56.
Depois da prova almoçamos num bonito restaurante com vista para a barragem, o “Sabor da Pedra” em Alverangel. Apreciámos um bacalhau assado e umas belas espetadas de carne maronesa, que estavam uma delícia. Por fim foi hora de voltar para casa, depois de um dia bem passado.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

4º AXTrail series 2011 - K42

Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

 
#04 Serie - K42 Portugal (08/10/2011)

No sábado dia 8 de Outubro realizou-se mais uma jornada da 4ª edição do AXtrail series. Trata-se de um circuito de trail running, composto por 4 etapas, que se desenrolam nos cenários idílicos das Aldeias do Xisto, na Beira Litoral. Já tinha participado na 1ª série, que teve lugar em Ferraria de S. João, e como gostei da experiência resolvi participar também na 4ª etapa, na Serra da Lousã, na mítica distância de 42 km.

Uma das mais valias do trail running é que nos proporciona o usufruto de uma experiência integrada na dupla vertente desportiva e turística. Assim, reservei com antecedência uma estadia de fim-de-semana, para toda a família, numa casa de xisto da bem preservada aldeia do Talasnal, a apenas alguns quilómetros da Lousã.

Como chegámos na 6ª feira à noite, após uma viagem de 235 km, já não tivemos a oportunidade de assistir ao briefing. Portanto, no sábado de manhã acordámos cedo e dirigimo-nos para o ponto de partida da prova. Após o controle dos dorsais e das últimas indicações dadas pela organização, partimos animados pela alegria pura de correr e pela antecipação das paisagens que nos esperavam.

Parte do grupo arrancou com tanto vigor que mais parecia que se preparavam para correr uma prova de 10 km em lugar de um K42. Raciocinei que isso provavelmente se devia ao facto de as partidas do K42 e do K21 se terem dado em simultâneo e portanto não me deixei intimidar e decidi fazer antes a corrida ao meu ritmo. 

Durante boa parte da prova beneficiei da agradável companhia do Luís Ricardo e do Emanuel Oliveira, o que muito me ajudou nas etapas iniciais. Até ao 1º abastecimento em Candal o percurso foi relativamente simples, sem grandes penas. A partir daí é que teve início a grande escalada, que nos levou até ao ponto mais alto da serra, a 1204 m de altitude. Nesta subida começou-se a sentir o acentuado desnível anunciado pela organização, que totalizaria 3500 m positivos. Fui seguindo o Emanuel o melhor que podia e conseguia. 

Chegados ao topo, tivemos que iniciar a primeira descida. Se as subidas eram arrasadoras, as descidas não o eram menos, por nos levarem por trilhos extremamente técnicos e difíceis. O calor fora de época que se fez sentir contribuiu também para aumentar o grau de dificuldade de uma prova já de si exigente. Felizmente, os abastecimentos estavam bem providos e fartei-me de beber coca-cola para suprir as reservas de hidratos de carbono e cafeína. O percurso estava bem assinalado e a organização foi impecável.

No fim, a minha estratégia de me poupar durante a primeira metade da prova revelou-se acertada pois fiz a segunda metade ainda munido com reservas de energia e fui paulatinamente ultrapassando vários companheiros de trail, o que me permitiu acabar muito acima das minhas melhores expectativas, num inesperado 14º lugar da geral e 3º do meu escalão (Veteranos 1). Ao fim de 6h26m cruzei a meta, sendo recebido calorosamente pelo Grão-Mestre Moutinho. O vencedor, em 4h35m, foi o espanhol Tòfol Castañer, da Salomon Team e campeão do mundo de Skyrunning.

Pela primeira vez tive a grande alegria de subir a um pódio, logo na companhia de dois atletas muito melhores do que eu, o Pedro Marques e o Francisco Gaio. A maior satisfação retira-se da participação nestes eventos na natureza, na companhia de pessoas que estimamos e admiramos, mas não seria honesto negar que a subida ao pódio, mesmo no lugar mais baixo, tem um gostinho especial.

A família também se divertiu na caminhada que os levou da Lousã até ao Talasnal. Na meta, lá estavam à minha espera, uma fonte constante de ânimo e alegria. Uma vantagem deste trail ter tido lugar num sábado é que depois ainda nos sobrou o resto do dia e o dia seguinte para explorarmos as redondezas, o que aproveitámos para conhecer a serra, com muito gosto e prazer.
 
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

25º Swissalpine Davos K78



Dado que a minha mais recente aventura desportiva teve lugar nos Alpes Suíços, mais precisamente na região de Davos-Klosters, local onde Thomas Mann situou um dos seus romances mais famosos, gostaria de começar esta crónica parafraseando as linhas de abertura do romance:
“Em pleno verão, um jovem simples partiu de Lisboa, sua cidade natal, para Davos-Platz, no cantão de Graubunden. Ia de visita por uma semana.”
No entanto, como infelizmente já não sou assim tão jovem nem tenho o talento de Thomas Mann, as próximas linha não terão, nem de perto, a qualidade literária da obra-prima que é “A Montanha Mágica.” Seja como for, vou-me colar à obra com a vã esperança que um pouco da sua pátina dourada dê algum lustro à minha prosa.
Numa leitura mais prosaica, o romance descreve o internamento de um jovem recém-licenciado num sanatório para tratamento de uma tuberculose, ou seja a antítese de uma prova desportiva de fundo. A um nível mais profundo trata da inserção do indivíduo no seu tempo e na tensão entre este e as forças sociais vigentes. “Ao ser humano não cabe apenas viver a sua vida individual. Consciente ou inconscientemente, ele toma também parte na vida da sua época e da sua contemporaneidade.” E que ânsia mais premente nesta nossa época órfã dos grandes heróis, senão a de ultrapassar os limites do individuo, consubstanciada na corrida de fundo e em particular no Ultra Trail (corridas superiores a 42,2 km, em Montanha, longe do alcatrão)?
Foi com esse espírito que fiz as malas no domingo anterior à prova e me preparei para um pequeno estágio de 4 dias para me aclimatar à altitude (Davos fica a 1540 m e gaba-se de ser a cidade mais alta da Europa). Viajei com os quatro elementos da família, uma enorme e constante fonte de apoio e de momentos mágicos vividos em conjunto. Eles também iam participar no K10 (10,5 km) e também tinham uma grande expectativa relativamente a estas férias desportivas.
Tal como Hans Castorp, o protagonista do Romance, foi de comboio que chegámos a Davos-Dorf: “Ao longe, no meio da paisagem, surgiu um lago de águas pardacentas, as margens debruadas a pinheiros negros de pontas esguias, que se iam diluindo até deixar perceber a rocha árida e nebulosa da montanha em redor.”

Davos
Pouparei os poucos leitores que tiveram a paciência de me seguir até aqui a uma descrição mais meticulosa e direi apenas que depois de uma semana fantástica, num cenário idílico, em que nos fartámos de caminhar e subimos de teleférico ao alto dos altos montes que rodeiam Davos, e ainda participámos em alguns dos muitos eventos levados a cabo pela irrepreensível organização, chegou por fim o grande dia.

No sábado, dia 30, acordei às 5h30 cheio de adrenalina. Preparei a mochila de hidratação, que hesitei levar até ao último momento, dado que os abastecimentos prometiam ser frequentes e abundantes. O que me decidiu no fim foi a baixa temperatura que se previa para o planalto que teríamos que percorrer. Assim, coloquei na mochila o corta-vento, uma camisola térmica, luvas, 7 geís que não dispenso pois são calorias de fácil e rápida ingestão, e um litro de água. Calcei as meias de compressão, os ténis Salomon, e vesti com o maior orgulho a camisola laranjinha do Run 4 Fun. Tomei ainda a precaução essencial de besuntar o rosto e pescoço com o protector solar.

Quando saí de casa estariam cerca de 8 graus e o céu apresentava-se nublado. Cheguei ao Estádio pouco antes das 7h. Foi com alegria que encontrei na linha de partida o Ricardo Diez, que, juntamente com o Gonçalo Cardoso, iria ser um companheiro inestimável na parte inicial da corrida. Procurei o Gonçalo com o olhar mas não o encontrei. Às 7h em ponto é dado o sinal de partida (que os Suíços não brincam com a pontualidade). Arrancamos no meio da algazarra geral. As ruas estão já, a esta hora tão matinal, repletas de gente que nos anima e incentiva com gritos, buzinas, chocalhos, badalos. Enfim, uma enorme participação popular que adiciona imenso colorido e entusiasmo à prova. Ao fim de meia-dúzia de quilómetros é com alegria que vemos o Gonçalo juntar-se a nós.
Avançamos em amena cavaqueira, mas em bom ritmo. Comentamos entre nós que os atletas devem estar equivocados, que com este ritmo logo no início (cerca de 5 min/km) de uma prova de 79 km, iríamos rebentar todos lá mais para a frente. No entanto como o percurso puxava, mantivemos a velocidade. Ao fim de 12 km abandonamos o alcatrão e entramos na primeira subida do primeiro trilho e é aí que a melhor forma do Ricardo leva a melhor, ele arranca e já não mais o vemos. As corridas são assim mesmo, cada um deve seguir ao ritmo que lhe permita um melhor usufruto da prova. Seguimos, o Gonçalo e eu, por uns trilhos estreitos mas rápidos, imersos numa mole humana.

Ricardo a caminho de Davos
Até Filisur, ao km 31, o percurso é essencialmente a descer (dos 1500 para os 1000 m) e em consequência fazemos esta parte a uma velocidade muito rápida, tendo chegado aos 31 km em 2h37m, em 258º lugar, e tendo feito uma média de 5:09 min/km. Baseado nas indicações da organização, tinha calculado as horas em que deveria passar em cada posto a fim de fazer um tempo final de prova de cerca de 10h. Em Filisur constato que tenho 30 minutos de avanço sobre o plano. Dizem os entendidos que esta normalmente não é boa estratégia, pois o ácido láctico acumula-se nos músculos numa fase precoce da corrida e mais tarde vem-se a pagar essa audácia. Foi com alguma apreensão que constatei que tínhamos ainda 48 longos quilómetros pela frente para comprovar essa hipótese nefasta. E que 48 quilómetros nos esperavam! O papelucho com o perfil altimétrico que eu levava comigo não enganava: aqui é que começava a subida.
Até ali mal tinha parado nos abastecimentos e ia bebericando da água da mochila, no entanto a partir deste ponto passei a parar em todos os abastecimentos para comer e beber e sobretudo servia-me como desculpa para repousar um pouco. Sempre que pude bebi uma sopa “boullion” morna e salgadinha, que me soube muito bem. Comi nogado, banana, bolinhos e um gel de 10 em 10 kms. Bebi chá isotónico, água e coca-cola. Nos 9 kms seguintes o tempo esteve quente e soalheiro e necessitei beber cada vez mais.

O Gonçalo e eu à passagem por Filisur

Em Filisur começa a subida para Bergun. Passámos por uns trilhos com uma subida acentuada em que pela primeira vez fomos obrigados a caminhar, correndo apenas ocasionalmente (este padrão repetiu-se de Bergun para diante). Quando chegámos aos 1476 m iniciámos então a descida até Bergun. Foi aqui que tive a minha primeira caimbrã, no preciso momento em que arranquei bruscamente para iniciar a descida. Apesar da dor e da rigidez na perna, procurei manter-me calmo, respirei fundo várias vezes e disse para mim mesmo: “vou andar que isto há-de passar”. Dei várias passadas cautelosas e a dor mantinha-se mas a rigidez pareceu aliviar, portanto recuperei a confiança em que não seria ainda aqui que daria a aventura por terminada.
Consegui por fim descer até Bergun, ao km 40, com 3h55m de prova e em 240º lugar, tendo mantido um ritmo de 9:04 min/km nos últimos 9 kms. Milagrosamente, e apesar dos percalços, tinha conseguido subir lugares na tabela classificativa, sobretudo graças ao ânimo constante do Gonçalo, que veio o tempo todo a puxar por mim! Aliás, é à excelente companhia deste bom amigo que devo uma primeira metade de corrida muito gratificante.
Bergun é uma povoação muito bonita, situada num vale pitoresco ladeado de montanhas cobertas de abetos.

Bergun

De Bergun (40,2 km e 1365 m) até Valzana (48,7 km e 1952 m) o caminho é feito meio a correr meio a andar e eu chego lá já bastante mais moído e menos fresco do que nos kms iniciais. A seguir a Valzana começa o verdadeiro desafio. É aqui que tem inicio a parte do caminho em altitude e o percurso verdadeiramente técnico. Por volta dos 2000 m os pinheiros começam a rarear e apenas se vislumbra vegetação rasteira. Entramos num single-track que sobe 340 m em apenas 1,4 km! Como melhor trepador que é, o Gonçalo adianta-se e não torno a vê-lo. Lá sigo ao ritmo possível, com cada passada a revelar-se a um esforço extenuante. Sou ultrapassado por vários atletas.
De Tschuvel (50,1 km e 2290 m) até Keshhutte (52,9 km e 2632 m) a subida já é um pouco menos acentuada. De tal forma que até permite de vez em quando alguns passos em ritmo de corrida numa euforia efémera. Keshhutte é a passagem para o planalto. Está assinalada por uma hospedaria rústica em madeira onde nos fornecem o abastecimento e uns sacos de plástico à laia de corta-vento, pois começa neste momento a cair uma chuva miudinha. Estou no km 52,9 e tenho agora 6h14m de prova. Os últimos 13 km foram feitos em 2h20m a um ritmo de 10:08 min/km. Estou neste momento no 266º lugar. Caí apenas 8 lugares na classificação desde Filisur. Ou seja, apesar de tudo parece-me que a estratégia (ou falta dela) da maioria dos corredores tem sido bastante semelhante à minha.

Subida para Keshhutte

Entro no planalto, que começa logo com uma descida num single-track bastante estreito, com muitas pedras e lama. É difícil ultrapassar, mas cedo lugar, sem qualquer hesitação, sempre que alguém se aproxima. Descemos 230 m e voltamos a subir. Vejo-me livre do saco de plástico pois deixou de chover e estou a ficar suado. Passamos ao lado de um lago numa zona muito bonita já perto do Sertigpass. Na subida para o Sertigpass começa a chover copiosamente e vejo-me forçado a vestir o meu corta-vento. Após apenas alguns minutos tenho as mãos enregeladas e tenho dificuldade em calçar as luvas. A subida é bastante acentuada mas felizmente curta. Passo por alguns atletas que arquejam consideravelmente.  
Chego enfim, às 7h21m de prova, a Sertigpass, o ponto mais alto do percurso, a 2739 m, 58,3 km do caminho, imerso no meio da névoa. Nunca antes tinha corrido até um ponto tão alto. Felizmente não sinto nenhum dos males de montanha que por vezes afectam os atletas. Sinto-me antes eufórico, exultante de júbilo por ter aqui chegado.

Em Keshhutte
A partir daqui é sempre a descer até Davos. A descida é perigosa e escorregadia devido à chuva. Passamos ao lado de neve. Ao fim de 3 km deixamos um single-track muito técnico e de inclinação acentuada e entramos num caminho de terra batida muito mais transitável. No meio termo descemos 540 m e já estamos a 2200 m no km 61. Depois é descer o mais depressa possível. Desde que os quadricepes aguentem, o fim já se vislumbra no horizonte! Até chegar às primeiras povoações (Sertig Dorfli, 65,4 km e 1861 m) ainda consigo progredir rapidamente (8h05m de prova). Depois foi já com maior dificuldade que os quilómetros já eram muitos. Entretanto despi o corta-vento pois a temperatura voltou a subir com a descida.
Após mais alguns quilómetros atribulados, às 9h36m de prova chego finalmente ao estádio em Davos. Foi com uma enorme alegria que cortei a meta de mão dada com o meu filho Rui, que ostentava orgulhosamente a medalha do K10 (10,5 km) ao peito. Cheguei completamente exausto mas feliz, em 261º lugar entre 1011 finalistas. O meu Garmin marcava 80,26 km e 3534 m de desnível positivo. O vencedor, um Sueco, conseguiu chegar numas incríveis 6h11m.

Chegada à meta

Reencontrei a minha linda família e eles descreveram-me a sua aventura no K10. Foi também para eles um belo momento de superação pessoal o cruzar da linha de chegada no estádio, algumas horas antes. A minha filha Rita adorou em particular todo o incentivo que recebeu do público. Sentiu-se uma heroína. Com 1h22m o Rui foi 7º no seu escalão e a Rita com 1h37m foi 13ª. A Helena acompanhou a Rita até quase à meta, quando esta última aproveitou uma distracção da mãe para arrancar num sprint furioso e assim terminar à sua frente.

Rui
Rita
Helena

Um elemento que destacaria em particular desta magnífica experiencia é a vasta participação em termos etários e de género nas várias corridas do programa (K10, K21, K30, C42, K42 e K78). Viram-se atletas de variadas idades, com 7 atletas com mais de 70 anos a terminar o K78 (o primeiro dos quais em 11h14m)! A única prova que teve um limite mínimo de idade foi o K78. O único reparo à organização foi a reduzida utilização do Inglês, dado que o Alemão foi a língua predominante. Mas enfim, num país com 4 línguas oficiais, talvez seja pedir demasiado. De resto a organização esteve impecável.

Termino como comecei, com uma citação, algo pretensiosa no contexto em que a coloco (espero que me perdoem), de “A Montanha Mágica”:
“Para que um individuo se disponha a realizar uma tarefa de peso, para lá dos limites do absolutamente necessário, sem que a sua época forneça uma resposta satisfatória à questão da finalidade, é fundamental viver em solidão e independência morais – o que comporta algo de heróico e raramente sucede – ou ser dotado de uma vitalidade extremamente robusta.” No meu caso a vontade de realizar estas pequenas proezas pessoais não advém de uma constituição particularmente robusta ou de uma “solidão e independência morais” mas encontra antes forças no apoio da família e no grupo de companheiros Run 4 Fun e de outros amigos que vou fazendo no meio dos Trilhos. E isso, juntamente com as montanhas, basta-me.

 

domingo, 10 de julho de 2011

6º Ultra Trail da Serra da Freita 2011



Após a minha estreia em 2010, fiquei agarrado a esta prova única, dura e belíssima, que testa os limites físicos e mentais do ser humano. Claro que não podia faltar à edição deste ano, que foi a sexta, segunda neste formato de 70 km.
A Serra da Freita é uma região de beleza ímpar e participar neste local numa prova de Ultra Trail é um privilégio raro. Aqui está-se submerso nos elementos e vive-se a luta da carne frágil contra a rocha dura.




Para além da luta individual contra os elementos, para mim esta edição teve a sua principal tónica no elemento humano. 
Se o meio da corrida de estrada não se pode considerar propriamente muito vasto, então o meio do Trail é mesmo bastante reduzido e ao fim de algumas provas já se começa a conhecer razoavelmente bem os seus regulares participantes.


Já se sabe que a luta contra adversidades partilhadas forja amizades fortes, e embora a corrida seja uma actividade individual, o certo é que correr a par durante muitos quilómetros e em condições particularmente difíceis, cria uma espécie de consciência partilhada que permite resistir melhor às dificuldades.

Gostaria portanto de resumir o fundamental desta crónica a nomear as pessoas que estiveram comigo na Freita:
Os companheiros do Run 4 Fun, que tanto ânimo me têm dado ao longo deste percurso desportivo, o João Ralha, o Jorge Esteves, o José Carlos Melo, a Luísa Ralha, o Paulo Jorge Rodrigues, o Teodoro Trindade e ainda todos os outros que não estiveram presentes nesta corrida. Os companheiros da Ultra, o Arlindo Deus, o Eduardo Ferreira, o Gonçalo Cardoso, o Luís Freitas, o Paulo Jorge Rodrigues, o Pedro Prates e todos os outros com quem me encontro em treinos ou em diversas provas por este país fora.

Mais uma vez, vale a pena! 
 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

III Ultra Trail Geira / Via Nova Romana - Recordações

Resolvi recordar aqui o primeiro Trail em que participei, em 23 de Maio de 2010:

«E lá completei o meu primeiro Ultra Trail (na verdade foi simultaneamente o meu primeiro Trail e a minha primeira Ultra). Que posso dizer eu? Numa frase: foi um desafio planeado com uma enorme expectativa, que conseguiu ser excedida.
Tendo pernoitado em Caldelas, uma agradável estância termal no coração do Minho, acordei no domingo com a adrenalina a bombear a 300 à hora. Tomei um pequeno-almoço frugal às 6h15 no Hotel e depois dirigi-me a pé para o local da partida dos autocarros que nos levariam a Baños de Rio Caldo, Lóbios, em Espanha.
Depois das "Formalidades Romanas" executadas por elementos da organização vestidos a preceito (não fosse esta a corrida da Via Nova Romana), foi dado o sinal de partida, às 9h05. Um subgrupo substancial dos 130 participantes que alinharam à partida arrancou tão depressa que eu pensei que a coisa ainda ia acabar mal. Depois de um primeiro km a 4'58'' pareceu-me que esse não era o ritmo adequado para correr os 51km que tinha pela frente. Assim adequei o meu ritmo à subida que se estendia perante mim (7km a subir dos 378m até aos 762m na fronteira). Depois fui gerindo o esforço o melhor que pude.
O calor foi muito; a paisagem foi de cortar a respiração (as subidas também...); a "tecnicidade" do percurso foi alta para quem nunca tinha feito nada do género, como eu - ou seja, muitas pedras, calhaus e cursos de água para saltar por cima - senti-me como se tivesse passado metade do tempo a subir e descer escadarias de pedra; mas a camaradagem entre companheiros de prova foi para mim a tónica mais relevante desta empreitada.
Pouco depois do 8º km juntei-me a um companheiro que corria ao mesmo ritmo que eu e a partir daí seguimos o restante caminho a apoiarmo-nos mutuamente. Sem o apoio do Luís Freitas teria tido muita dificuldade em me aguentar a correr os últimos 10 km. Aqui vai um grande bem hajas para ele! No fim acabámos ambos em simultâneo, em 5h40m, para selar a amizade que se foi cimentando pelo caminho.
De resto a organização foi boa, com muitos e abundantes abastecimentos de liquidos e sólidos, o que foi essencial para que não sucumbisse à desidratação.
Confesso que cheguei ao fim completamente esgotado. Já não tinha nem pernas nem pulmões para mais. Correr em trilhos é muito mais cansativo do que correr em estrada. Tudo somado foi uma experiência inesquecível, a repetir sem dúvida. O sentido de aventura é inexcedível.
Deixo algumas fotos representativas, com o Luís Freitas (nº31) e com o César.»

domingo, 19 de junho de 2011

1º Ultra-Trail de Sesimbra






No domingo dia 12 acordei bem cedinho (5h!!!) para ter tempo de ingerir um pequeno-almoço substancial e me equipar convenientemente para mais uma aventura Ultra. Ou seja, t-shirt Run 4 Fun, mochila de hidratação com 2l de água, 4 géis, meias de compressão, as sapatilhas de trail e o lenço para proteger a cabeça do sol inclemente.

Desta vez tratou-se de correr os 50 km do 1º Ultra Trail de Sesimbra, organizado pela Associação Desportiva O Mundo da Corrida, da qual tenho a felicidade de conhecer alguns elementos com os quais partilhei a aventura dos 101 km de Ronda.

Chegado a Sesimbra, levantei o dorsal 98 e depois tive o prazer de confraternizar um pouco com alguns companheiros habituais destas aventuras. Tive a boa surpresa de reencontrar o Renato Velez que tal como eu também se preparava para completar os 50 km.

O local de partida e chegada situava-se junto ao Hotel Sesimbra Spa, do lado nascente da vila.

Depois das recomendações do Eduardo Santos, foi dado o sinal de partida e lá fomos nós, cerca de 120 atletas, pela marginal fora, até ao porto de abrigo, onde começámos a subida para a pedreira. 

Arranquei rápido e na pedreira ia no grupo dos 20 primeiros.

As fitas vermelhas e brancas e as marcações azuis no chão não deixavam enganar. Fui correndo atrás de um grupo de cerca de 6 atletas que iam a um bom ritmo pelo estradão. A certa altura, pouco depois do 9º km, eles viram para a esquerda para dentro de um terreno lavrado e eu sigo atrás reconfortado pela contínua presença das marcações. Corremos cerca de 1 km até que numa descida nos deparamos com uma seta azul no chão que indica “Meta.” Paramos surpreendidos. Não pode ser! Ainda faltam imensos quilómetros. Algo está errado. Decidimos voltar para trás. Subimos novamente e voltamos para o ponto de partida onde reentramos no estradão. Ao fim de alguns metros confirmamos que era mesmo para seguir em frente. 

Fiquei sem compreender o que tinha ocorrido. Em retrospectiva julgo que teremos entrado pelo desvio para o Mini-Trail mas não tenho a certeza. Seja como for, perdemos cerca de 13 minutos o que não é significativo numa prova desta dimensão.

Quando passamos no 1º abastecimento, ao 11º km, vou em 97º lugar, ou seja, na cauda da corrida. A partir daqui é sempre a ultrapassar atletas, o que, diga-se o que se disser, é sempre bom para o moral.

Os abastecimentos têm água, bananas e laranjas em abundância. Nos primeiros evito parar pois vou recorrendo à água da mochila e aos géis que levo. No entanto a partir de certa altura o calor começa verdadeiramente a apertar e começo a beber que nem um camelo e a comer que nem um urso cada vez que tenho a oportunidade.

Após 21 km chegamos ao 2º abastecimento e ao início da praia. Vou agora em 56º lugar, ou seja, recuperei 41 lugares nos últimos 10 km. Inicio a descida para a praia onde terei cerca de 4 km de areia amarelinha e grossa para palmilhar. São poucos kms mas desgastam cumó caraças, sobretudo agora que o sol inclemente começa a fazer os seus estragos. Chegados à praia das bicas subimos pelo acesso íngreme e entramos nos primeiros single-tracks do percurso.

Este percurso ainda é relativamente simples e consigo chegar ao km 31º, no Farol do Cabo Espichel, em 42º lugar e a sentir-me ainda com reservas de energia.

No entanto a partir daqui é que começa o tratamento de mula, com subidas e descidas bem agrestes, no meio de mato alto e calhaus cortantes. Os pés vão ficando maçados e as bolhas começam a aparecer. Os músculos já não respondem como no início. O calor continua a fazer sentir o seu efeito. A paisagem é belíssima, mas já tenho alguma dificuldade em aperceber-me do azul do mar.

Seja como for, consigo chegar ao 37º km em 32º lugar, o que indica que muitos atletas ainda vão em maiores dificuldades do que eu. Daqui para a frente é sempre a gerir o prejuízo. Por vezes tenho que parar por instantes para dar folga às pernas, mas vou inexoravelmente percorrendo o caminho. É nesta altura das corridas que normalmente entro em modo “Zombie” em que os pés andam sozinhos e eu mal tenho a noção para onde me dirijo.

Ao km 41 volto a passar no local assinalado com a indicação da direcção da Meta, mas desta vez com um nível de frescura (ou falta dela) completamente diferente. Ao km 47 do meu Garmin passo novamente na pedreira, no retorno para o Castelo. Os quilómetros até ao Castelo são bastante penosos mas vão-se fazendo. Quando finalmente chego lá ao alto, no Castelo, já levo 6:14 de prova e vou em 21º lugar.

A partir daqui é sempre a descer! Ganho fôlego e lá vou eu para percorrer os últimos 3 km o mais depressa que conseguir. Chego ao porto de abrigo e percorro a marginal até à meta, onde termino no 21º lugar, após 6 horas e 32 minutos de muita dureza mas também de muita beleza natural. O meu Garmin marca 54,3 km. O objectivo principal, que como sempre é terminar, foi cumprido.

Reencontro a minha mulher, que fez a caminhada, e vou confraternizando com os atletas presentes e com aqueles que vão chegando. O amigo Eduardo Ferreira está mortinho para se atirar para dentro de água e eu próprio faria o mesmo se não tivesse os miúdos à espera.

O Luís Mota teve mais uma excelente prestação (honra o nome que tem :)), vencendo em 4 horas e 38 minutos.

Ouve uma ou outra falha, mas em geral julgo que a organização esteve muito bem. É sem dúvida um trail a manter e eu estarei cá para o ano para o fazer novamente.

A esta distância, os pormenores retidos pela minha memória já não serão muito fiáveis, portanto espero que desculpem alguma incorrecção no meu relato. Para um relato mais rico e melhor ilustrado do que o meu, basta ir à página do Paulo Pires.

O percurso marcado pelo meu Garmin pode ser encontrado aqui: Garmin.