domingo, 5 de fevereiro de 2012

II Ultra Trilhos dos Abutres

No passado sábado, dia 28 de Janeiro, teve lugar a 2ª edição dos Trilhos dos Abutres, este ano em formato Ultra.

Este evento desportivo era aguardado com muita expectativa, tendo as inscrições esgotado 2 meses antes da sua realização. Eu fui um dos afortunados que ainda arranjei um lugar para os 45 kms e consegui também inscrever toda a família na caminhada de 13 km.

Na véspera, 6ª feira, após o trabalho e ter ido buscar os miúdos à escola, lá saímos os 4 de Lisboa a caminho de mais uma aventura na Natureza. Tinhamos combinado jantar com o José Carlos Santos e a Vânia, mulher do Zé, e ainda com o casal João e Luísa Ralha e toda a restante comitiva Run 4 Fun, nomeadamente, o  Jorge Esteves, o Paulo Jorge Rodrigues e o Teodoro Trindade. O Nuno Dias de Almeida juntar-se-ia a nós no dia seguinte.

Tivemos alguma dificuldade em chegar a Miranda do Corvo, tendo-nos perdido algures perto de Condeixa. Felizmente lá nos voltámos a orientar e ainda chegámos a tempo de nos reunir a um animado grupo no Restaurante “A Parreirinha”, onde reinava uma inusitada agitação, mercê da clientela pouco habitual, composta maioritariamente por participantes na corrida. Este restaurante foi uma excelente indicação do nosso companheiro Vitorino Coragem, um lídimo representante da Associação Abutrica e decano das provas de trilhos. Deliciámo-nos com uma excelente Chanfana, que foi do agrado de toda a família.

Depois dirigimo-nos para o mui agradável Hotel Meliá Palacio da Lousã, onde iriamos pernoitar nas duas noites seguintes.


Percurso

Após uma noite bem dormida, acordei sábado de manhã cedinho e equipei-me com o arsenal habitual, adaptado para o frio agreste que se anunciava: calções de licra, camisola interior térmica, t-shirt laranja com o logotipo do Run 4 Fun, corta-vento, meias de compressão, luvas, buff para a cabeça, mochila de hidratação, e dentro desta última, o material obrigatório, manta térmica e apito, e ainda o telemóvel, para o caso de alguma eventualidade. Coloquei ainda na mochila o meu combustível de eleição: cinco geís da power bar.

Tomei um farto pequeno-almoço no panorâmico restaurante do Hotel, na agradável companhia dos companheiros Run 4 Fun e depois fui de boleia com o João e a Luísa, pois a Lena e os miúdos iriam mais tarde, uma vez que o autocarro para o ponto de partida da caminhada apenas partiria às 9h45. A temperatura indicada pelo mostrador do automóvel rondava os 3ºC.

Chegámos a tempo de nos colocarmos na fila para o ponto de controle inicial, onde seria verificado o material obrigatório. Depois aguardámos no recinto, confraternizando alegremente, enquanto não era dado o tiro de partida. Foi mais uma entusiasmante oportunidade de rencontrar “velhos” companheiros destas andanças. Digo “velhos” porque embora ainda só ande nisto há dois anos (o meu primeiro trail foi a Ultra da Geira em 2010) sinto que já formei fortes laços de estreita amizade com pessoas interessantes deste intenso meio, que de resto se presta bem a isso. Para além da partilha deste interesse comum, talvez a partilha de momentos de grande esforço e intensidade emocional e a entreajuda física e anímica que emergem nestas provas,  expliquem o estabelecimento fácil de laços entre os participantes.


Alegre grupo Run 4 Fun

Este mecanismo, que forja fortes amizades,  recorda-me uma célebre passagem do discurso do dia de São Crispin da peça Henrique V, de W. Shakespeare:

"This day is call’d the feast of Crispian.
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when this day is nam’d,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say ‘To-morrow is Saint Crispian.’
Then will he strip his sleeve and show his scars,
And say ‘These wounds I had on Crispian’s day.’
Old men forget; yet all shall be forgot,
But he’ll remember, with advantages,
What feats he did that day. Then shall our names,
Familiar in his mouth as household words-
Harry the King, Bedford and Exeter,
Warwick and Talbot, Salisbury and Gloucester-
Be in their flowing cups freshly rememb’red.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remembered-
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition;
And gentlemen in England now-a-bed
Shall think themselves accurs’d they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day."

- From St. Crispin's Day Speech of Shakespeare's Henry V


Para melhor me situar no espaço e no tempo, vou ocasionalmente socorrer-me da útil informação dos excelente relatos do João Ralha, Nuno Dias de Almeida e Luís Ricardo.



Altimetria e Ritmo

Assim que o “tiro” de partida foi dado os atletas que estavam na fila da frente partiram tão rápido que mais parecia se prepararem para correr 10 kms em lugar de 45. Eu próprio completei este primeiro km em 4’13’’. Deve ter sido da excitação do início e da vontade de não ficarmos bloqueados na fila nalgum single-track que estivesse aí ao virar da esquina. Démos uma volta a Miranda do Corvo, passámos pelo parque biológico e depois seguimos em direção à Serra. Ao fim de 10 minutos a correr já me sentia cheio de calor e tive que remover o corta-vento e colocá-lo na mochila. Já devia saber, pois em corrida alguma necessitei de mais do que uma camisola interior, para além da t-shirt.

Levada
Durante os primeiros 16 kms fui sendo sucessivamente ultrapassado por mais de duas dezenas de atletas. Sentia-me lento e pesado e interrogava-me acerca do que teria comido aquela gente ao pequeno-almoço para acordarem tão cheios de energia.

Logo no início tivémos que enfiar os pés dentro da água de um ribeiro e logo de seguida na lama que encontrámos em abundancia nesta parte inicial do percurso, devido aos profusos cursos de água que corriam dentro de uma floresta cerrada. Foi um baptismo que deixava antever o que iriamos encontrar mais para a frente. Felizmente esse previsão saiu gorada e a maior parte da humidade concentrou-se nestes kms iniciais, senão julgo que teríamos tido grandes dificuldades nas partes mais técnicas que se concentraram na segunda metade do percurso.

Os primeiros 11 kms não apresentaram dificuldades de maior, mas a partir desse ponto teve início uma subida muito acentuada, até ao km 16 e depois novamente entre o km18 (2º abastecimento) e o km 20, onde, cumpridos 2h30 de prova, atingi finalmente o ponto mais alto do Concelho, com 940 metros de altitude, perto das eólicas. 

Depois, até aos 24 kms, foi sempre a descer, com um troço particularmente difícil num corta-fogo inclinadíssimo que atrapalhou, e muito, bastantes atletas. Foi nesta descida que comecei a recuperar rapidamente os lugares que tinha perdido na primeira metade da corrida. Ultrapassei dezenas de companheiros. Aguentei um ritmo elevado e voei veloz até ao 28º km, onde se encontrava o 3º abastecimento. Após esta fase da corrida raramente me cruzei com alguém.

Ao km 34 entrei na bonita Aldeia de Xisto de Gondramaz mal sabendo da surpresa que nos aguardava logo de seguida: um troço de cerca de 200 metros em que tivémos que descer agarrados a cabos de aço para não nos despenharmos pela escarpa abaixo.  Os quilómetros seguintes não foram significativamente mais fáceis, feitos em single-track junto ao rio, num percurso belíssimo mas perigoso, em que era necessária uma atenção constante onde colocávamos os pés.  Passámos por várias cascatas e atravessamos o rio diversas vezes, sobre escorregadios troncos de madeira. Ia com o coração apertado ao pensar que os meus filhos tinham passado por aquele percurso algum tempo antes, integrados na caminhada dos 13 kms. Por cada bombeiro que passava fazia insistentemente a mesma pergunta: “não ocorreu nenhum acidente com nenhuma criança, pois não?!”


Cascata


Subida final
Por fim cheguei ao abastecimento do km 39, onde parei para beber uma coca-cola e ingerir um cubo de marmelada. Até aqui ainda não tinha parado nos abastecimentos, socorrendo-me da minha provisão de água e geis energéticos. No entanto, cumpridas 5h14 de prova, essas provisões já se revelavam manifestamente insuficientes, pelo que foi necessário um pequeno reforço.

Daqui arranquei para a parte final da corrida, cerca de 4 kms entre pinhais e dois já na vila. Gastei as últimas forças que ainda tinha, e deparei-me ainda com uma curta mas dolorosa subida final em que fui atacado por caimbras pela primeira vez. Duzentos metros depois estava a meta, dentro do pavilhão desportivo. Cruzei-a depois de 5h49 de esforço,alegria, sofrimento, exultação, espanto e muitos mais sentimentos contraditórios que se vivem com intensidade nestes eventos repletos de momentos ímpares. Tinha percorrido 45 kms com 2100 m de desnível positivo e chegado em 27º lugar da geral, 11º do meu escalão (M40M).

Bebi umas minis fresquinhas para repor os electrolitos :-) e fui confraternizando com quem chegava. O Zé Carlos Santos já lá estava, tendo conquistado galhardamente o 1º lugar do seu escalão, em 5h39. Foi um enorme regresso às provas, e às vitórias, muito bem merecido dado os treinos rigorosos que cumpriu e que eu tive a honra de acompanhar numa pequena parte.


Zé Carlos, no esforço final

O vencedor da edição deste ano foi o Armando Teixeira, numas incríveis 4h21! Enfim, esses tempos não são para todos...

Pouco depois chegaram os membros Run 4 Fun da minha família, juntamente com a Vânia, mulher do Zé Carlos, felizmente sãos e salvos, e até bastante satisfeitos apesar das cerca de 4h30 de passeio.

Infelimente não pude esperar que os restantes companheiros do Run 4 Fun cumprissem a sua chegada à meta, em triunfo merecido para cada um deles, pois os miúdos já começavam a ficar impacientes. Deixo aqui os meus parabéns ao Nuno pela sua mui auspiciosa estreia nestas lides, ao Paulo Jorge por mais uma excelente prestação, ele que se iniciou nestas andanças há apenas 9 meses (até custa a crer!), ao Jorge e ao Teodoro por mais um desafio completado, eles que já são experientes Ultra-trailers, e ao João e à Luísa pela sua primeira Ultra, completada com sucesso, e logo que Ultra!!!

Cabe aqui uma palavra de apreço para a organização, que esteve impecável.  Nunca tinha visto uma marcação de prova tão cerrada: existiam fitas laranja quase de 10 em 10 metros! Os abastecimentos eram abundantes, via-se o corta vento laranja da Associação Abutrica por todo o lado e existiam bombeiros em todos os pontos essenciais. O almoço/jantar estava bem organizado e toda a gente foi de uma simpatia extrema.

É certo que existiram alguns troços um pouco perigosos, mas a mim isso preocupou-me mais no caso dos participantes na caminhada do que nos das provas competitivas. Estes últimos usualmente já sabem ao que vêm e devem abster-se de dar o passo mais largo do que a perna onde a tecnicidade recomenda prudencia. O único senão que tenho a apontar é o facto de a caminhada ainda estar a decorrer quando atletas das provas competitivas já estavam a terminar, o que obrigava a alguma ginástica para não nos atropelarmos mutuamente.

Enfim, em jeito de resumo, gostei muito da prova e penso voltar para o ano. Os Abutres estão sem dúvida de Parabéns com P grande!

Quanto a nós, família Bárrios Ferreira, ainda aproveitámos o domingo para ir almoçar ao célebre restaurante “O Burgo”, onde retemperámos as forças com um excelente cozido, copiosamente regado com um encorpado jarro de tinto da região.

Depois tivémos que voltar para Lisboa, onde nos aguardavam os afazeres mundanos da vida.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

4ª S. Silvestre de Lisboa



Em Dezembro de 2010 dei início a este blog e o meu 2º post relatava a minha 1ª participação numa S. Silvestre, neste caso na de Lisboa, que ia na sua 3ª edição.
Na altura o meu objectivo passava por baixar dos 40 minutos numa corrida de 10 km.
Hoje, 20 crónicas passadas sobre esse início de contribuição para a blogoesfera, relato aqui a minha experiência em mais uma S. Silvestre de Lisboa, desta feita na edição de 2011.
Este ano a corrida teve lugar no sábado, último dia do ano, com início às 16 horas. Achei óptimo a corrida ter lugar ainda durante o dia (em 2010 fora à noite), pois assim envolvi a família toda, Helena, Rui e Rita, os quais participaram na Mini de 5 km, tornando o evento muito mais agradável. Apanhámos o metro e lá nos dirigimos para a Praça dos Restauradores, a qual se encontrava bastante animada quando chegámos.  Encontrámos logo o alegre grupo dos Run 4 Fun, que se dintinguiam claramente, mercê da fluorescente t-shirt laranja.




Um minuto e trinta e sete segundos antes da elite masculina, partiram as atletas da elite feminina, com a Ana Dulce Félix a encabeçar um grupo de resolutas atletas. Depois partiram os restantes atletas. Eu aranquei juntamente com o meu amigo Gonçalo Cardoso e lá fui aproveitando o ritmo vigoroso que ele impunha.


Os primeiros 5 kms foram relativamente planos e simples de fazer. O problema foi quando começou a subida da Av. da Liberdade. Aí o meu ritmo baixou acentuadamente. Quando comecei a subir a Fontes Pereira de Melo ainda tive a oportunidade de vislumbrar a Dulce Félix a descer,  já ladeada pelo Tiago Costa e pelo Hermano Ferreira, que haveriam de cruzar a meta de mãos dadas, embora este último fosse dado como vencedor.


Chegado ao Saldanha, foi altura de ir buscar forças onde elas ainda existissem, para acelerar na descida e fazer os últimos 2 kms o mais rápido possível. E lá cheguei à meta em 38’52’’, menos um exacto minuto do que no ano anterior. Suspeito que para baixar um minuto na próxima edição, vai ser necessário muito mais treino...




Alguns segundos depois chegou o meu filho Rui, tendo acabado de completar os 5 kms, logo seguido pelos restantes membros da família.



E assim passámos mais uma divertida e saudável tarde, nesta nossa bela cidade de Lisboa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Treino após Natal em Lisboa

  

42 km, quase por acaso. Uma bonita volta a Lisboa, num dia esplendoroso, para queimar os excessos da quadra e sobretudo simplesmente pelo prazer de correr.

Nesta actividade de eleição, o que verdadeiramente me dá prazer, mais ainda do que participar em provas e competir, é a liberdade de me perder nos meus pensamentos, fundir a mente, o corpo e o universo, enquanto as pernas vão seguindo no seu ritmo, o coração vai bombeando o sangue nas artérias e os pulmões se vão insuflando com o mundo ao seu redor. É seguir sem rumo certo, na direção onde os olhos pousam. E depois voltar, à descoberta, por novos caminhos. 

Para mim estar vivo é isto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

26ª Maratona de Lisboa

Crónica de uma conquista anunciada.

Há já um ano que tinha como objectivo baixar das 3 horas na mítica distância da Maratona.

Tinha-o tentado no Porto em Novembro de 2010 e novamente em Lisboa em Dezembro do mesmo ano. 

No Porto fiquei-me pelas 3:09, com parciais de 1:33 + 1:36. Em Lisboa quedei-me pelas 3:13, com parciais de 1:31 + 1:42. Nesta última, ao início ainda tentei seguir a bandeirinha das 3 horas, mas cedo abandonei esse propósito. Ainda assim, consegui fazer a primeira metade em 1:31, o que ainda permitia manter a esperança no sucesso. No entanto, a dureza da prova, conjugada com as condições meteorológicas adversas e a falta de preparação para um tão ambicioso objectivo, levaram a que eu quebrasse na longa subida da Almirante Reis. Paciência, o desafio teria que ficar para o esperançoso ano de 2011.

Entretanto comecei a preparar-me para os 101 km de Ronda, para os 70 km da Freita e para os 78 km do Swissalpine, e não voltei a pensar na Maratona. Esse “bichinho” não tornou a atormentar-me até concluir os trilhos do K42, na Serra da Lousã, a 8 de Outubro deste ano.

Uma prova de Trail tem características completamente diferentes de uma Maratona de estrada. No Ultra-Trail trata-se, sobretudo, de resistir ao desgaste acumulado, em mais de uma dezena de horas passadas a correr em pisos com variados graus de tecnicidade e com desníveis acentuados. Numa Maratona o que conta é conseguir manter um regime elevado, em percursos relativamente lineares, durante algumas horas. Ambos os tipos de provas representam grandes desafios, sobretudo quando empreendidas no limiar da capacidade individual, independentemente da performance de cada um.

Quando entro numa prova, realizo-a sempre no limiar da minha capacidade, para que quando termine não me sobrem dúvidas se poderia ter feito melhor. Muito portuguesmente, “ou vai ou racha!” É uma opção pessoal, nem melhor nem pior do que qualquer outra, mas é a minha.

Assim que terminei o K42, teve início a minha preparação para as Maratonas do Porto e de Lisboa. No entanto, como não consigo resistir a estes “chamamentos da natureza”, inscrevi-me nos 42 km do Grande Trail Serra D’Arga, que teriam lugar no dia 23/10, duas semanas antes da data da Maratona do Porto. Todavia, a prova acabou por ter apenas 20 km devido às condições meteorológicas, que obrigaram a organização a encurtá-la. Apesar do desapontamento, essa mudança até foi vantajosa para mim, pois permitiu-me retomar a preparação para a Maratona mais repousado.

Já descrevi, noutro post, a minha experiência no Porto em 2011, mas deixo aqui o resumo do que aconteceu. Parti confiante que seria dessa que iria cumprir o meu objectivo. Realizei a quase totalidade da prova à frente do balão das 3 horas. No entanto a partir dos 30 kms comecei a acusar o desgaste, dei o meu melhor, mas fui por fim ultrapassado pelo balão, a apenas 2 kms da meta. Tinha tido o objectivo tão próximo e no entanto vi-o escapar-se-me por entre os dedos. Atravessei a linha de chegada em 3:00’53’’, 53 míseros segundos demasiado tarde…

Não me deixei esmorecer e, nas 4 semanas que me restavam para Lisboa, intensifiquei a minha preparação. Incluí pela primeira vez séries no meu “plano de treinos.” Na verdade, esse “plano” consiste, basicamente, em fazer um longo, durante o fim-de-semana, natação uma vez por semana e correr rápido nos outros dias (agora reforçado com as séries). Também não tomo suplementos alimentares mas procuro fazer antes refeições equilibradas (peixinho, sopa de legumes, leite e frutos secos fazem milagres).

Volume de treino; 3 Maratonas de Lisboa assinaladas

Gosto de usar as provas, em ambiente de competição, para treinar de uns eventos para outros. Motivam-me para me superar. Assim, corri pela primeira vez a Meia Maratona de Nazaré e ainda fiz o VI G. P. da Arrábida.

Na véspera do grande dia, deitei-me cedo. De madrugada, acordei despertíssimo, sem necessitar de relógio, cerca das 5 horas. A adrenalina já corria nas veias. Tomei um pequeno-almoço de fruta e torradas com mel e preparei o material habitual para estas lides: 6 géis de 41g, o Garmin, as meias de compressão, os ténis adidas levezinhos, o chapéu para evitar o sal nos olhos e, com imenso orgulho, a novíssima camisola dos Run 4 Fun.

Saí de casa e corri 2 km até à estação do Oriente. Serviria como aquecimento. Aí apanhei o metropolitano, onde encontrei o César Moreira, entusiasmado com a perspectiva de completar a sua primeira Maratona. Chegados ao Estádio 1º de Maio, encontrámos logo a malta da camisola laranja, bem visíveis e animados.


RUN 4 FUN

Deixei o saco com a muda de roupa junto da organização e encaminhei-me para o local da partida. Posicionei-me cedo na linha de partida, pois sabia que, se queria cumprir o meu objectivo, todos os segundos contavam. Baseado na minha experiência do ano anterior, sabia que Lisboa seria uma prova mais dura que o Porto. Eu teria que ser mais forte do que 4 semanas antes. Na partida juntaram-se-me o Olivier Delmotte (na sua estreia), do Clube Vodafone, o Orlando Ferreira (já experiente maratonista) e o Carlos Silva, dos Pumas do Guincho, que vinha de fazer um tempo excelente na Meia Maratona da Nazaré.

Dado o tiro de partida, arranquei com força, pois gosto de me libertar do grupo compacto para evitar atropelos. Assim, fiz logo os 2 primeiros kms abaixo dos 4’00’’/km e deixei para trás a bandeirinha das 3 horas. Ao 4º km reduzi o ritmo, pois não convinha começar a acumular acido láctico tão cedo na prova.

Ainda me mantive à frente da bandeira até entrar no Campo Grande, onde fui apanhado pelo pelotão de cerca de 15 atletas que se moviam em uníssono com a “lebre” das 3 horas. Deste ponto até à Praça do Comercio fui por vezes adiantado em relação a este grupo e noutras vezes no seu seio. Esta primeira metade da Maratona engana um pouco e tem algumas variações de altimetria que ocasionam variações de ritmo. Eu tenho tendência a aproveitar as descidas para acelerar, uma vez que o meu ritmo cardíaco não se ressente.

Grupo da Bandeira das 3 horas

Os minutos e os quilómetros foram passando até que finalmente chegámos a Santos e, guiados pela bandeira, qual Gil Eanes a dobrar o Cabo Bojador, atravessámos a marca da Meia Maratona, com um registo de 1:28, ou seja com 2 minutos de folga. Tive a primeira oportunidade, de muitas, de rever os rostos alegres e encorajadores dos companheiros Run 4 Fun. Relembro o João Ralha, sorridente quando me viu passar. Pouco depois teria início a prova da Meia Maratona, em que duas dezenas de laranjinhas tomaram parte.

Avançámos a bom ritmo até cerca do quilómetro 28, já perto de Álges, onde invertemos o sentido e voltámos na direcção da Praça do Comercio. Até aqui continuava a sentir-me bem, mas confesso que se não fosse o grupo da bandeira teria provavelmente fraquejado. O andamento rápido, que a “lebre” continuava a imprimir, permitiu-me permanecer na rota correcta.

Percurso da Maratona

A partir daqui cruzei-me várias vezes com companheiros Run 4 Fun e de cada vez que isso acontecia recebia palavras de encorajamento, o que me fazia acelerar um pouco o passo. Em prova alguma ouvi tantas vezes gritado o meu nome. Com 15 participantes na Maratona, 20 na Meia Maratona e 20 nas Estafetas, e ainda um numeroso grupo de entusiásticos apoiantes, a cor laranja estendia-se ao longo de toda a Avenida da Índia e 24 de Julho. Deste ponto em diante, foi cerrar os dentes e manter, sempre manter, o ritmo, para segurar a folga necessária, a fim de ter tempo de subir a Almirante Reis, o meu Everest.

Cruzei-me com o António Cruz, que aparecia em toda a parte para tirar fotografias aos esforçados atletas.

Chegámos novamente à Praça do Comércio, percorremos a Rua da Prata e iniciamos a tão temida subida da Almirante Reis. Esperavam-nos 6 duros quilómetros a subir. Cerrei ainda mais os dentes e fui buscar à minha reserva mental as forças necessárias para manter um ritmo abaixo das 4’30’’/km, deixando para trás o grupo da bandeira.

O objectivo começou a materializar-se. Já sentia a meta a aproximar-se. Mais algumas centenas de metros e entrei no estádio. Percorri os duzentos metros finais num sprint louco para tentar ficar ainda dentro do minuto 57. E, finalmente, lá consegui cortar a meta em 2:57’58’’.

Meta!

As longas horas de treino, a difícil restrição alimentar e a mentalização positiva tinham-se concretizado no resultado pretendido: a barreira das 3 horas tinha finalmente caído! Sentia-me exultante de alegria!



Fui buscar o saco com a muda de roupa, recebi uma massagem relaxante e juntei-me ao animado grupo Run 4 Fun que se ia agrupando nas bancadas do estádio. Celebrávamos com enorme entusiasmo a chegada de cada atleta. Permanecemos inamovíveis até à chegada do último Run 4 Fun.

Por fim, terminada a festa, regressei para minha casa, para a minha família, que sempre me apoiou ao longo dos anos e a quem tudo devo.


“Uma vez que nos espera uma longa vida, mais vale viver esse tempo cheio de vitalidade, com objectivos bem claros em mente e perseguindo com firmeza as nossas metas, do que atravessar os anos que nos esperam no meio do nevoeiro. Nessa perspectiva, julgo que correr constitui uma verdadeira ajuda. A essência da corrida consiste em nos obrigar a dar tudo por tudo, dentro dos nossos limites. E isso funciona como uma matáfora da própria vida (…)”

Haruki Murakami, "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo."


sábado, 3 de dezembro de 2011

VI Grande Prémio da Arrábida

Domingo, dia 27 de Novembro, teve lugar o VI G. P. da Arrábida, organizado pela Associação de Atletismo Lebres do Sado. A corrida tem início no Jardim de Vanicelos em Setúbal, sobe até Palmela e volta a descer para o local de Partida.
O dia estava esplêndido, se bem que ainda um pouco fresco às 10:00, hora de início da prova. Encontrei uma numerosa comitiva do meu clube, o Run 4 Fun, que se preparava alegremente para participar em mais uma celebração popular de são convívio desportivo.


 Esta prova tem uma particularidade sui generis, que consiste nos dois primeiros quilómetros serem feitos em pelotão, encabeçado por duas lebres que trotam num ritmo suave de cerca de 6’/km. Após essa fase inicial controlada, é dada liberdade aos atletas para darem corda aos sapatos, o que muitos fazem denodadamente, libertando explosivamente toda a energia até aí a custo contida.


Eu tentei, com alguma dificuldade, acompanhar alguns amigos da Proaventuras, em particular o Gonçalo Cardoso. Após os primeiros 5 kms razoavelmente planos, a prova tem dois kms a subir para o castelo de Palmela. Esse troço é aquele que faz mais mossa nos atletas. Como me sentia forte, consegui fazê-los abaixo dos 5’/km e aproveitei para ultrapassar alguns corredores, incentivado pelo Bruno Bastos Silva, pelo António Cruz e pelo Renato Velez que nos esperavam montados nas suas BTTs.

  
Chegado a Palmela, pude finalmente colocar o “turbo” a funcionar e arranquei à desfilada pelo encosta abaixo. Os próximos 6 kms foram todos feitos abaixo dos 4’/km, e ainda tive força para um sprint final em cima da linha da meta. Só não parei para beber o cálice de moscatel da praxe, que é servido aos 8600 m. Ficará para a próxima.

 
A prova foi muito participada, com 545 atletas a cruzarem a linha de chegada.
Depois da corrida fomos almoçar um excelente choco frito, especialidade regional de Setúbal. E assim se passou mais um esplêndido dia, nos arrabaldes da linda cidade de Setúbal.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

37ª Meia Maratona Internacional da Nazaré



No domingo passado, dia 13 de Novembro, juntei-me a esta grande festa do atletismo popular que é a Meia Maratona Internacional da Nazaré, a qual já vai na 37ª edição, tendo tido início no distante ano de 1975. 

É a mais antiga das Meias Maratonas que se realizam no nosso país e sem dúvida uma das mais pitorescas, pelo local onde se realiza, pelo percurso, pelo apoio do público e pelo grupo de participantes fiéis e empenhados (um bom conjunto de atletas de pelotão, como revelam os resultados).




Acordei bem cedo, às 7 horas, pois tinha combinado com o Miguel Dias e o Nuno Almeida irmos juntos de carro para a Nazaré. Depois de uma viagem sem incidentes, chegámos ao Hotel Quico, onde estavam hospedados o Nuno Marques, a Cristina Caldeira, o Jorge Duarte Pinheiro e filhos, e o Francisco Sanches Osório. O Nuno teve a gentileza e o trabalho de organizar toda a logística, incluindo distribuição de dorsais e fornecimento de banhos após a prova, que muito jeito nos deu. 

Dirigimo-nos para o centro da vila, onde nos encontrámos com o José Magalhães, o Serafim Desidério e o Vítor Lopes. E assim a armada Run 4 Fun ficou completa.

Estávamos em amena cavaqueira quando passa por nós a madrinha da prova, a grande atleta e grande pessoa, Rosa Mota. Disponibilizou-se logo para tirar várias fotografias connosco, simpática como sempre.



  
 
Depois do aquecimento, dirigi-me para a partida onde encontrei o Carlos Silva, dos Pumas do Guincho. Conseguimo-nos colocar perto da linha de partida e aguardámos pelo tiro que seria dado pela Rosinha.

E pum! Arrancámos o melhor que pudemos. A partida é relativamente fácil e desafogada, só é pena que não exista controle de chip na partida. O Carlos rapidamente descolou e só voltei a vê-lo no retorno.

Corri o melhor que pude, ainda me sentindo algo combalido da Maratona do Porto, que se tinha realizado uma semana antes. Como íamos a subir ligeiramente, contra o vento, e me sentia cansado, resolvi não arriscar. Nos primeiros 5 quilómetros demos a volta à vila e depois seguimos em direcção a Famalicão. Passei a marca dos 10 kms em 41’15’’ e metade da prova em cerca de 43’23’’.

Em Famalicão, aos 12,5 kms demos a volta ao bidão, para retornarmos pelo mesmo caminho, desta vez com o vento pelas costas e em ligeira descida. Antes da volta ainda tive a oportunidade de me cruzar com o Carlos, correndo muito solto e com um ar muito fresco. Vi logo que ele iria fazer um grande tempo.

No retorno, acelerei em direcção à Nazaré, decidido a arriscar, apesar das dores nas pernas e do receio de sofrer alguma lesão. Quando passámos novamente por cima da ponte, começou a cair uma forte chuvada, que felizmente abrandou ainda antes de chegarmos à meta.

Os últimos 4 kms são feitos a menos de 4’00’’/km e finalmente cruzo a meta, em 1h26’10’’, esgotado mas feliz, pois julgo não me ter portado mal. Assim que cruzo a meta, começa a cair uma tal carga de água que mais parecia que S. Pedro tinha aberto as comportas celestiais.





Constato que consegui fazer um "negative split", com uma segunda metade um pouco mais rápida do que a primeira.

Troco o chip pelo prato comemorativo e fico a aguardar pelos restantes companheiros do Run 4 Fun. Revejo o Carlos Silva, que tinha feito um tempo canhão de 1h23’10’’ e encaminho-me com os companheiros para o Hotel, e para o merecido banho.

Depois fomos almoçar numa marisqueira e voltámos para casa, após mais este dia bem passado, a fazer desporto e conviver com os amigos.



sábado, 12 de novembro de 2011

8ª Maratona do Porto

Desde sempre que gosto de correr. É uma paixão antiga, vivida com maior ou menor intensidade ao longo dos anos, em ocasiões esquecida, noutras reacendida, consoante os caminhos da vida e os desejos do coração.

A minha recordação mais antiga do acto de correr reporta-se aos meus 10 anos quando frequentava o 6º ano e nas aulas de educação física o “stor” nos fazia dar voltas à pista. Depois voltei a correr no 12º ano, quando fiz um programa de intercâmbio nos EUA e me inscrevi na equipa de atletismo onde corria a milha e as duas milhas. Foi nesse longínquo ano de 1985 que corri a minha primeira prova de 10 km, da qual já não recordo o percurso ou o resultado, mas lembro-me vivamente do prazer de competir e da agonia extrema do esforço físico.

Depois disso ainda corri ocasionalmente apenas pelo prazer de correr, mas nunca mais competi em provas de pista ou de estrada. Isto até um ano depois de me nascer o primeiro filho, quando, incentivado por amigos, resolvi inscrever-me numa meia maratona. 
Nessa altura essa distância parecia-me imensa e não sabia como haveria de a completar. No entanto como na altura fazia natação todos os dias no Estádio Universitário, já tinha uma preparação física razoável, bastou-me treinar algumas semanas para cumprir o objectivo dos 21,1 km até à meta, em 2h00’, isto em Março de 2002. 
Depois disso ainda participei mais algumas vezes nas duas meias maratonas das pontes, e apenas nestas provas, com resultados que oscilavam entre as 1h44’ e as 2h22’ consoante a maior ou menor preparação efectuada especificamente para essas provas.

Em 2009, em resultado da carga de trabalho e stress do MBA que estava a concluir em part-time, acumulando com uma actividade profissional exigente, tinha atingido um peso para mim impensável de 90 kg e um nível de sedentarismo muito pouco saudável. Entrementes, o meu irmão, Jorge Ferreira, já tinha completado a sua primeira Maratona e incitado pelo seu exemplo, em Agosto, tomei a firme decisão de que teria que correr uma Maratona até ao fim do ano.

Preparei-me e em Novembro, juntei-me a um grupo de corredores fantásticos, os Run 4 Fun, de que já devem ter ouvido falar :-), e que muito me têm ajudado a superar-me. 
Em Dezembro lá corri a 24ª Maratona de Lisboa, apadrinhado e auxiliado pelo João Ralha, excelente companheiro, que me rebocou durante boa parte da prova. E consegui chegar ao fim, em 4h10, apesar de ter levado em cheio com o “muro” aos 30 e picos kms.

Nos 2 anos que decorreram desde então, já completei 9 maratonas, 7 de estrada e 2 de montanha, e preparo-me agora para completar a 10ª em Dezembro, na 26ª edição da Maratona de Lisboa. Os resultados foram (quase) sempre melhorando desde Dezembro de 2009, na seguinte progressão (em estrada): Lisboa 2009 – 4h10’; Sevilha 2010 – 3h35’; Berlim 2010 – 3h25’, Algarve 2010 – 3h19’; Porto 2010 – 3h09’; Lisboa 2010 – 3h13’ e da mais recente, a do Porto 2011, falarei em seguida.
Percurso da Maratona

Este ano, nesta distância tinha nos meus planos apenas o AXtrail K42 e as maratonas do Porto e Lisboa. O objectivo traçado era baixar das 3 horas, algo que, com o devido treino, considerava ao meu alcance. Contudo como tanto faço provas de estrada como de trail, não me foi possível fazer um treino específico para esta corrida. Assim, parti para o Porto com a noção clara que teria que arriscar. 

No dia da prova acordei bem cedo, às 5 horas, e tomei um pequeno-almoço abundante às 6 horas. Às 8 horas estava na rua a aquecer e a dirigir-me para o local da partida, junto ao Palácio de Cristal. O tempo estava fresco e ensolarado, óptimo para correr. 
Lá reencontrei os bravos companheiros da camisola laranja, o António Cruz, o José Carlos Melo, o Luís Correia, o Miguel San-Payo e o Orlando Ferreira, e depois, ao longo da prova tive a felicidade de me cruzar ainda o Carlos Brazão, o Jorge Esteves e o Teodoro Trindade.

Eu e o António ainda fizemos mais um curto aquecimento e dirigimo-nos de imediato para a partida, a fim de ficarmos bem posicionados e não sermos submergidos na habitual atrapalhação das partidas (mas há que reconhecer que a partida da Maratona do Porto é uma das mais ordeiras das provas que conheço). 
Deu-se o tiro de partida e eu arranquei rápido para tentar ultrapassar a malta mais lenta e assim entrar no meu “ritmo de cruzeiro” o mais cedo possível. Tivemos um 1º km a subir, onde o meu coração atingiu os 152 bpm e depois começámos uma descida de vários quilómetros pela Avenida da Boavista, em direcção ao Castelo do Queijo e depois a Foz. 

Antes do tiro de partida, tinha trocado impressões com o António e concluímos que tínhamos estratégias muito semelhantes para abordar esta corrida. 
Como ele já soberbamente descreveu no seu post (os post do António são sempre uma fonte única de útil informação científica e inspiradora experiência pessoal), pretendíamos começar com uma intensidade cardíaca menor e subir de intensidade ao longo da prova. E uma vez que o perfil altimétrico da prova começa a descer e acaba a subir, resolvemos também fazer a 1ª metade mais rápida do que a 2ª, o que não é contraditório com aquilo que afirmámos acerca da intensidade cardíaca. Para mim esta estratégia fazia sentido pois, baseado na experiência do ano anterior, parecia-me que precisaria de atingir a marca dos 21,1 km em menos de 1h28’30’’ se queria ter tempo para completar os últimos kms, a subir (mesmo que ligeiramente) e provavelmente contra o vento do norte. 
Enfim, queria ter uma folga razoável, pois bem sei que a Maratona começa a doer a sério a partir do 2º terço.

Os primeiros 10 kms foram completados muito rapidamente, com ritmos entre os 4’00’’/km e os 4’13’’/km. Passei a marca dos 10 km em cerca de 41’15’’, dentro do plano. Desde cedo me adiantei do balão das 3h, a fim de cumprir o meu plano, mas agora corria isolado e começava a sentir a falta de companhia e de alguma protecção contra o vento ligeiro que se fazia sentir. 
Acelerei um pouco para tentar apanhar os atletas que corriam algumas dezenas de metros à minha frente. Corríamos agora junto ao rio, num passeio lindíssimo que enchia a alma de júbilo. Os populares incentivavam-nos alegremente, com regionalismos típicos do norte. Fui-me hidratando e ingerindo os meus géis, regularmente de 7 em 7 kms, a fim de não exaurir as reservas de hidratos de carbono, estratégia imprescindível para não esbarrar com o famoso “muro”.

Em breve atravessei o túnel, onde o meu Garmin se baralhou um pouco, e cheguei à ponte de D. Luís. Depois, em Gaia, colei-me a dois atletas que progrediam a bom ritmo, até chegar ao pórtico da meia-maratona na Afurada. Passei este marco em 1h28’54’’ ainda razoavelmente dentro do plano. 
No sentido oposto passei por todos os atletas do Run 4 Fun, com o António sempre à frente do balão das 3h15’. Voltei a passar a ponte D. Luís e foi pouco depois, cerca do quilómetro 28, que o meu verdadeiro sofrimento teve início. As pernas já começavam a dar sinais claros do esforço acumulado, e a ameaçar com a assustadora perspectiva de debilitantes cãibras. Fui forçando o ritmo, concentrando-me nos quilómetros que faltavam: “já só falta um terço da prova… 10 kms… 9 kms…”  
Tive várias variações de ritmo, resultado de uma luta constante entre os dois hemisférios do cérebro, um que me mandava abrandar e outro que me ordenava para acelerar.  
No regresso da viragem dos 28 km passei pelo António que ainda ia à frente do balão das 3h15’. Pensei, “o António vai em grande ritmo” e mal sabia eu que esse ritmo elevado já só era mantido à custa de uma enorme capacidade de sofrimento.
Ritmo Cardíaco em várias provas (Max 175)

Passei a marca dos 30 km em 2h06’57’’, ainda com uma margem de 25 segundos para atingir o meu objectivo. Aguentei-me num ritmo de cerca de 4’17’’/km (o necessário para conseguir menos de 3 horas dada a margem de que dispunha) até aos 36 kms, procurando apanhar boleia com alguns atletas que me iam ultrapassando. 
Quando chegámos à Foz estava estoirado e ainda me faltavam os tão temidos 6 quilómetros finais. Apercebi-me que iria ser muito complicado manter os 4’17’’/km até ao fim.  Colei-me a dois atletas dos Falcões Selvagens e esforcei-me por me manter a seu lado. No entanto também eles sentiam o desgaste da prova. Baixei para 4’23’’/km, depois para 4’27’’/km e ainda para 4’29’’/km. Os últimos 2 kms foram feitos em enorme esforço em 4’33’’/km e lá consegui chegar à meta, ao fim de 3h00’53’’.


Assim que parei apercebi-me que não conseguiria correr nem mais 10 metros. Estava exausto, mas feliz apesar de não ter cumprido o objectivo. É como escreveu o António: só se falha quando não tentamos um objectivo suficientemente ambicioso.
Maratona do Porto 2011
 

Depois fui tratar de beber uma cervejinha e esperar pelos companheiros. Lá vi o António chegar às 3h15’ bastante combalido, mas com um excelente resultado que só o pode alegrar. Não pude esperar pelos restantes companheiros, pois tinha que fazer o checkout do Hotel, mas pelos seus relatos pude mais tarde verificar que todos tiraram grande proveito desta excelente 8ª Maratona do Porto.

Recentemente li um livro fascinante, “O filósofo e o lobo”, onde, à luz do que aprendeu com a convivência com um lobo, o autor, Mark Rowlands, se questiona, entre outras coisas, acerca da natureza da felicidade. 
Segundo ele, o homo sapiens não vive de forma absoluta o momento presente, mas antes imerso num contínuo que nos mergulha no passado e nos projecta no futuro. O lobo é mais um ser do presente, o qual vive de forma completa e inteira. 
Essa imersão no tempo leva-nos muitas vezes a esquecer o valor do processo e focamo-nos apenas no objectivo, que está sempre diferido. No próprio instante em que o cumprimos, esgota-se. 
O lobo vive o processo. E os processos mais vitais são os mais viscerais, aqueles que envolvem a maior dose de êxtase, ligada inextrincavelmente com extremos de agonia e desconforto. Por exemplo, quando corremos e damos o nosso máximo, durante várias horas de esforço ininterrupto e esgotante, o que é que sentimos? Sobretudo desconforto, mas também uma enorme exaltação. E sentimos isso tudo em simultâneo. São duas faces da mesma moeda que não são separáveis, experienciadas em uníssono. O que é que fica depois de acabarmos? O principal não é com certeza a marca atingida, mas antes a memória indelével e física do processo de correr.


Adidas Adizero Pro 4


Esta semana já recomecei os treinos a pensar já na Maratona de Lisboa. A do Porto corri com os meus velhinhos e gastos Adidas Adizero Adios, que me puxaram sobremaneira pelos gémeos (são levezinhos e relativamente planos). Entretanto recebi pelo correio o meu novo modelo, os Adidas Adizero Pro 4, que são ainda mais leves e ainda mais planos. Mal posso esperar para os experimentar!

domingo, 30 de outubro de 2011

1º Grande Trail Serra D'Arga

LA Sportiva Marathon Running 42km 5000m D Ac

No sábado dia 22 de Outubro, duas semanas após ter completado o K42 na Serra da Lousã, dirigi-me para Caminha, a fim de tomar parte dum fim-de-semana composto pelas Jornadas Técnicas do Trail no sábado à tarde e pela Maratona LA Sportiva, no domingo de manhã, eventos organizados pelo Carlos Sá, um dos nossos melhores trailistas da actualidade (8º na Marathon des Sables e 5º no UTMB).


Com o Carlos Sá e o Paulo Jorge Rodrigues

A fim de partilharmos companhia e despesas, fui para cima junto com o Renato Velez, o Gonçalo Cardoso e o Paulo Santos, que se revelaram uma excelente companhia, divertidos e animados durante todo o caminho. 
Chegámos mesmo no início das jornadas, e assim tivemos a oportunidade de ouvir o relato do Jorge Serrazina acerca da sua epopeica participação nos 333 kms do Tor des Geants, seguida da inspiradora crónica do Carlos Sá versando a sua participação na Marathon des Sables em 2011. Depois tivemos ainda a oportunidade de ouvir uma excelente apresentação do Paulo Pires, treinador do Carlos, que nos ensinou uma série de conceitos do treino de atletismo, seguida de uma apresentação igualmente interessante, sobre medicina desportiva, pela Drª Maria Cunha. 
Por fim fomos servido com a muito aguardada pièce de résistance, sob a forma de um dinâmico diálogo que o João Garcia, emérito Alpinista e conquistador dos 10 picos mais altos do mundo, manteve com a assistência, demonstrando uma superior inteligência e grande perícia no contacto com o público.
Durante as jornadas tive o enorme prazer de reencontrar muitos dos companheiros habituais destas andanças.

Após as jornadas fomos jantar um esparguete à bolonhesa, como manda a praxe. No restaurante, ao vermos passar suculentas e abundantes refeições de peixe e carne, ainda fumegantes e cheirosas, enquanto olhávamos acabrunhados para o desenxabido esparguete que nos tinha caído no prato, sentimo-nos algo... como dizer... tótós! 
A malta do norte lá no restaurante devia estar toda a pensar: "olha só para estes morcões, nem para comer servem..." 
Para dormir tivemos a boa sorte de beneficiar da excelente hospitalidade do Paulo Ramos, que nos arranjou espaço na sua casa.

No dia seguinte acordámos bem cedo para estarmos presentes em Dem antes das 7h30 a fim de fazermos o controle inicial. Foi-se juntando gente no recinto da partida, todos agasalhados com corta-ventos ou impermeáveis, que a meteorologia não se anunciava nada favorável.

Paulo Jorge Rodrigues, Gonçalo Cardoso e Luís Ferreira, na zona de partida


À oitava badalada da torre da Igreja é dada a partida e lá arrancamos nós para mais uma aventura pelos trilhos da montanha, desta feita na Serra D'Arga. Logo à saída de Dem apanhámos a primeira parede, de cerca de 3 km, muito inclinada e exigente. Eu sigo o Gonçalo, numa fila interminável de atletas que sobem a passo, serpenteando pela serra acima. A subida foi árdua e feita debaixo de uma chuva miudinha e vento que se começava a anunciar as rajadas de 120 kms que a previsão da véspera tinha prometido.
Chegados ao topo, corremos um pouco em terreno aberto e iniciámos a primeira descida pelos estradões romanos, a abrir por ali abaixo. Mantivemos um ritmo intenso, o Gonçalo e eu, enquanto ultrapassávamos alguns atletas. Passámos alguns abastecimentos, bem providos, e a cerca de um quarto da prova passámos pelo Mosteiro S. João de Arga, situado num local belíssimo. Por esta altura já o Gonçalo me tinha deixado para trás. Depois embrenhámo-nos pela floresta e lá fomos seguindo as fitas sinalizadoras. O tempo ia oscilando, entre frio, chuva intensa e vento forte em lugares mais abertos, ou maior calor e menos chuva noutros locais. Tão depressa vestia o corta-vento como de seguida o despia.
Após o rio (com pedras escorregadias e perigosas, mas apenas numa curta extensão), subimos e apanhámos um troço de estrada antes de S. Lourenço, onde se encontrava a meta da Meia Maratona. Foi aí que me cruzei com alguns atletas que vinham em sentido inverso, o que me deixou bastante baralhado, até que por fim percebi que a Maratona tinha sido interrompida no Km 20 devido às adversas condições meteorológicas. Ainda fiz um último quilómetro em sprint  e cheguei assim a uma meta inesperada. Apesar da desilusão por não poder completar a prova principal, reconheço que foi uma decisão acertada por parte da organização, pois continuar naquelas condições de má visibilidade e piso escorregadio poderia vir a tornar-se bastante perigoso.
Para gastar as energias que tínhamos em reserva para os 22 km finais, resolvemos voltar a Dem pela estrada, o que levou cerca de 11 kms até que por fim chegámos ao pavilhão do almoço, completamente encharcados e a tiritar de frio. Aí beneficiámos de um revigorante almoço que nos aqueceu o corpo e o espírito.
Não pudemos ficar para a cerimónia de entrega de prémios e por isso voltámos logo para Leiria, Lisboa e Setúbal. A viagem de volta foi igualmente divertida e parámos em Esposende para repor calorias comendo uns pasteis bem apetitosos. 
Em jeito de conclusão, gostaria de afirmar que gostei muito da experiência e que o Carlos Sá está de parabéns por ter montado uma organização impecável. Para o ano conto voltar para desta vez completar a prova de 42 Km.


Na meta dos 20 km, em S. Lourenço, com a Manuela Machado

9º Challenge Openwater ANE

No domingo dia 18 de Setembro realizou-se na barragem de Castelo de Bode, junto à Aldeia do Mato, a 9ª edição do Challenge ANE. 
Trata-se de uma competição incluída no XX Circuito Vale do Tejo de Águas Abertas e organizada pela Associação de Nadadores dos Estoris, da qual já fui sócio nos longínquos idos de 2002/2003. Daí também a minha preferência por esta prova em particular, por conhecer o profissionalismo da organização.
O programa era composto por provas de 10 km, 5 km, 1.5 km para Federados e uma prova de 1.5 km de divulgação. Foi nesta última que me inscrevi, na expectativa de passar um domingo diferente do habitual e matar saudades da natação em águas abertas.
Domingo levantei-me bem cedinho e lá me dirigi, juntamente com a família, para a Aldeia do Mato, a 140 km de casa. O dia estava ensolarado, se bem que muito ventoso.
Feito o check-in na organização e tendo recebido o numero 171 marcado a caneta nos ombros, mãos e costas (aqui não há dorsal e é proibida a utilização de fato isotérmico), dirigi-me para a zona do briefing. Pouco depois tinha início a prova de 1.5 km para federados e 5 minutos depois teria início a prova de divulgação. A água estava a uma temperatura agradável de cerca de 24ºC, boa para nadar. O vento causava alguma ondulação mas pouco significativa.
Foi dada a partida e lá começámos, 76 participantes, tentando dirigirmo-nos para a bóia amarela que, com dificuldade, vislumbrávamos lá ao longe. Uma das dificuldades técnicas da natação de águas abertas é precisamente a orientação, uma vez que temos os olhos ao nível da água e torna-se difícil avaliar se estamos a fazer um percurso em linha recta ou se, pelo contrário, percorremos distâncias maiores do que seria necessário. Muitas vezes seguimos apenas os que vão à nossa frente sem a certeza que eles mesmos estejam no caminho certo (os barcos de apoio fornecem pontos de referência adicionais, sobretudo para os primeiros). O percurso dos 1.5 km estava balizado com 3 bóias amarelas que delimitavam um trajecto triangular.
Os primeiros 100 a 200 metros são algo caóticos com nadadores a atropelarem-se enquanto tentam progredir na água. A partir daí, fui a controlar o meu andamento, pois sabia que a minha fraca preparação para uma prova destas (nado apenas uma ou duas vezes por semana, com treinos de 2000 m), para além da minha deficiente técnica de natação, não me permitiria forçar muito ou corria o risco de rebentar a meio.
Esta economia de esforço permitiu-me chegar bem ao fim e cruzar a meta ao mesmo ritmo do início, em 25’10’’, no 48º lugar, 3º do escalão (só éramos 6). O vencedor cortou a meta em 17’04’’.
Gostei muito de fazer esta prova, em que a organização correspondeu plenamente às minhas expectativas, e no próximo ano tenciono participar em mais.
Nas provas dos 5 km e dos 10 km estiveram presentes os campeões do costume, tendo a prova de 10 km (distância olímpica) sido ganha pelo Arseniy Lavrentyev (que foi 22º nos Jogos Olímpicos de Pequim) em 1h47:56.
Depois da prova almoçamos num bonito restaurante com vista para a barragem, o “Sabor da Pedra” em Alverangel. Apreciámos um bacalhau assado e umas belas espetadas de carne maronesa, que estavam uma delícia. Por fim foi hora de voltar para casa, depois de um dia bem passado.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

4º AXTrail series 2011 - K42

Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

 
#04 Serie - K42 Portugal (08/10/2011)

No sábado dia 8 de Outubro realizou-se mais uma jornada da 4ª edição do AXtrail series. Trata-se de um circuito de trail running, composto por 4 etapas, que se desenrolam nos cenários idílicos das Aldeias do Xisto, na Beira Litoral. Já tinha participado na 1ª série, que teve lugar em Ferraria de S. João, e como gostei da experiência resolvi participar também na 4ª etapa, na Serra da Lousã, na mítica distância de 42 km.

Uma das mais valias do trail running é que nos proporciona o usufruto de uma experiência integrada na dupla vertente desportiva e turística. Assim, reservei com antecedência uma estadia de fim-de-semana, para toda a família, numa casa de xisto da bem preservada aldeia do Talasnal, a apenas alguns quilómetros da Lousã.

Como chegámos na 6ª feira à noite, após uma viagem de 235 km, já não tivemos a oportunidade de assistir ao briefing. Portanto, no sábado de manhã acordámos cedo e dirigimo-nos para o ponto de partida da prova. Após o controle dos dorsais e das últimas indicações dadas pela organização, partimos animados pela alegria pura de correr e pela antecipação das paisagens que nos esperavam.

Parte do grupo arrancou com tanto vigor que mais parecia que se preparavam para correr uma prova de 10 km em lugar de um K42. Raciocinei que isso provavelmente se devia ao facto de as partidas do K42 e do K21 se terem dado em simultâneo e portanto não me deixei intimidar e decidi fazer antes a corrida ao meu ritmo. 

Durante boa parte da prova beneficiei da agradável companhia do Luís Ricardo e do Emanuel Oliveira, o que muito me ajudou nas etapas iniciais. Até ao 1º abastecimento em Candal o percurso foi relativamente simples, sem grandes penas. A partir daí é que teve início a grande escalada, que nos levou até ao ponto mais alto da serra, a 1204 m de altitude. Nesta subida começou-se a sentir o acentuado desnível anunciado pela organização, que totalizaria 3500 m positivos. Fui seguindo o Emanuel o melhor que podia e conseguia. 

Chegados ao topo, tivemos que iniciar a primeira descida. Se as subidas eram arrasadoras, as descidas não o eram menos, por nos levarem por trilhos extremamente técnicos e difíceis. O calor fora de época que se fez sentir contribuiu também para aumentar o grau de dificuldade de uma prova já de si exigente. Felizmente, os abastecimentos estavam bem providos e fartei-me de beber coca-cola para suprir as reservas de hidratos de carbono e cafeína. O percurso estava bem assinalado e a organização foi impecável.

No fim, a minha estratégia de me poupar durante a primeira metade da prova revelou-se acertada pois fiz a segunda metade ainda munido com reservas de energia e fui paulatinamente ultrapassando vários companheiros de trail, o que me permitiu acabar muito acima das minhas melhores expectativas, num inesperado 14º lugar da geral e 3º do meu escalão (Veteranos 1). Ao fim de 6h26m cruzei a meta, sendo recebido calorosamente pelo Grão-Mestre Moutinho. O vencedor, em 4h35m, foi o espanhol Tòfol Castañer, da Salomon Team e campeão do mundo de Skyrunning.

Pela primeira vez tive a grande alegria de subir a um pódio, logo na companhia de dois atletas muito melhores do que eu, o Pedro Marques e o Francisco Gaio. A maior satisfação retira-se da participação nestes eventos na natureza, na companhia de pessoas que estimamos e admiramos, mas não seria honesto negar que a subida ao pódio, mesmo no lugar mais baixo, tem um gostinho especial.

A família também se divertiu na caminhada que os levou da Lousã até ao Talasnal. Na meta, lá estavam à minha espera, uma fonte constante de ânimo e alegria. Uma vantagem deste trail ter tido lugar num sábado é que depois ainda nos sobrou o resto do dia e o dia seguinte para explorarmos as redondezas, o que aproveitámos para conhecer a serra, com muito gosto e prazer.