terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

XXVIII Maratón Ciudad de Sevilla

Às 5h30 de uma madrugada bem fresca, um Taxi amarelo deixou-me  debaixo do viaduto do Campo Grande. Dei uma voltinha por ali, tentando localizar o ponto onde o autocarro fretado pela colectividade desportiva “A Real Academia” me apanharia para dar início à longa viagem até Sevilha. Às 5h40 liguei para o meu amigo Carlos Silva, que já se encontrava em frente às roullotes, e juntei-me a ele. Com ele encontravam-se mais alguns atletas que também se preparavam para encetar a viagem até ao local da Maratona. Ali estivémos em amena cavaqueira durante algum tempo e começámos a estranhar a camioneta nunca mais aparecer, visto que a hora combinada para nos encontrarmos ali eram as 5h45. Como o autocarro vinha de Mem Martins, fomos supondo que alguem se teria atrasado e como estavamos na companhia de outros atletas, pareceu-nos que havia que aguardar com paciência. Por volta das 6h15 surgiu enfim um autocarro e nós corremos a acercarmo-nos dele. No entanto, já depois de estarmos confortavelmente sentados lá dentro (!), descobrimos que se tratava do autocarro de “O Mundo da Corrida” e não aquele que tão ansiosamente aguardávamos!

Liguei para o nosso companheiro do Run 4 Fun, o Renato Velez, que se encontrava em Setúbal, o local seguinte de paragem. O autocarro já lá se encontrava, pois aparentemente tinha passado pelo Campo Grande cerca das 5h35 e ninguém verificou se nós teriamos embarcado. Felizmente o Renato falou com a organização que se prontificou a esperar por nós enquanto o Carlos conduzia velozmente o seu automóvel até Setubal (ressalvo que a organização se portou sempre impecávelmente connosco).

E foi assim que começou, com um equivoco digno de um filme cómico, uma animada, divertida e cheia de peripécias, viagem até Sevilha.

O autocarro ia cheio com muitas das simpáticas habituais presenças nestes eventos, animados como sempre.

Chegámos cerca das 14h30 locais e fomos logo levantar os dorsais ao estádio olimpico. Depois fomos almoçar as massas do costume e fizemos o check-in no Hotel.  Eu e o grupinho de Setúbal ocupámos dois quartos duplos: eu, o Gonçalo e o Vítor num, e o Renato, o Rui e o Hélder noutro. Posso-vos dizer que foi uma tarde muito animada, na galhofa com esta malta divertida.

Para o jantar, em lugar de massa com molho, resolvi variar e comer molho com massa. Deitei-me cedo e cedo adormeci, pois não sofro da “angústia do guarda-redes antes do penalti.”

A meio da noite mais uma peripécia: tive que me levantar e, que ideia peregrina!, para não acordar os companheiros resolvi não acender a luz e usar o telemóvel como lanterna. Assim que entro na casa de banho, o telemóvel, como que movido por vontade própria, escapa-se-me das mãos e zás, com infalível pontaria, acerta em cheio na sanita.

Mas mais vale passar um véu sobre este acontecimento desagradável e basta dizer que era o único despertador que eu possuia comigo e assim fiquei dependente da wake-up call da recepção, que felizmente não falhou, pontualmente às 7h30 locais.

O resto da malta já tinha partido no autocarro para o estádio, mas nós os 6, mais o Gustavo, tínhamos combinado apanhar um taxi para não sermos obrigados a acordar às 6h da madrugada. Foi uma boa estratégia pois às 8h45 já lá estávamos, no estádio, equipados e prontos para deixar os sacos com a muda de roupa. Estava uma manhã fresca, mas solarenga e que ameaçava aquecer.


Às 9h30 tinha conseguido um lugar excelente, na linha da partida, mesmo atrás do balão das 3h00. Às 9h31 é dado o “tiro de partida” e arrancamos à desfilada por ali fora, espicaçados pelo medo de sermos atropelados no túnel de saída do estádio.

É agora o momento de fazer um flashback para o início de Janeiro. Em Janeiro inscrevi-me no Centro de Treino de “O Mundo da Corrida” no Jamor, com o intuíto de ter um acompanhamento mais profissional e um plano de treinos estruturado.  As primeiras 4 semanas foram passadas a preparar o II Ultra-Trilhos dos Abutres, e sobrou pouco tempo para preparar a Maratona de Sevilha. No entanto os treinos de séries e de força, foram sem dúvida importantes para melhorar a minha capacidade física.

O meu objectivo expresso para esta corrida situava-se nas 2h55, o que constituiria uma melhoria de alguns minutos em relação ao resultado alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa (2:57’58’’).

Fim de flashback. Saí do estádio no encalço do balão, que já era seguido por um grupo muito numeroso. Pouco depois juntou-se a mim o Carlos, correndo descontraído, apesar da lesão contraída recentemente no joelho. Dois ou três quilómetros depois passa por nós o Eduardo Santos, em grande ritmo. Seguimos o balão durante os primeiros 11 kms, pois prosseguia a um ritmo de cerca de 4’07’’/km, o que me permitiria atíngir o objectivo. Contudo os encontrões permanentes, as dificuldades nos abastecimentos e a necessidade de fazer as curvas pelo lado de fora, fizeram-me sentir a necessidade de acelerar e deixar este magote para trás.

Assim avançámos e seguimos os dois sózinhos. Fui ingerindo géis de 5 em 5 km, com a preocupação de manter um nível permanente de energia facilmente mobilizável. Verifiquei constantemente o ritmo cardíaco para confirmar o meu nível de esforço.  Nos primeiro 15 kms rondou os 150 bpm, ou seja, um ritmo muito confortavel.

Passámos à meia-maratona em 1:28’16’’ com boas perpectivas de cumprir o objectivo. Pouco depois, cruzei-me com o João, a Luísa Ralha e a Cristina Caldeira, que iam acompanhar os últimos kms de alguns companheiros Run 4 Fun.

Infelizmente por volta do 26º Km o Carlos teve de abrandar, para não massacrar mais a lesão. Eu continuei em muito bom ritmo até ao 35º Km. O ritmo cardíaco aguentou-se abaixo dos 157 bpm até este ponto.

 A partir daí tive que baixar o ritmo para os 4’16’’/km e depois para 4’20’’/km (o cardíaco foi subindo paulatinamente até aos 160 bpm). O objectivo esfumou-se numa miragem inatingível. As pernas ameaçavam ceder a qualquer momento. Estava a chegar ao limite e eu sabia-o.

Só nos últimos 2 quilómetros é que, acicatado pela próximidade do estádio e pela iminência de nem sequer conseguir melhorar o meu PBT, me atrelei a um compatriota que passou por mim e lá acelerei buscando as restantes forças, onde quer que elas se encontrassem.  Fiz o último km abaixo dos 4’00’’/km e dei o tudo por tudo no tartan do estádio. Na recta final conseguia ver os segundos a passarem no mostrador electrónico: 2:57’54’’...55’’...56’’...57’’ e já está!!!!!


A temperatura fresca e o percurso plano conjugaram-se para criar as condições propícias ao quebrar de recordes pessoais. No meu caso, proporcionaram-me uma melhoria à lá Sergey Bubka (salvo as óbvias diferenças): melhorei precisamente um segundo em relação ao meu Personal Best Time (PBT) oficial, alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa!


Depois revi a malta e fui tomar banho nas instalações do estádio. Juntei-me ao Gonçalo e fomos beber umas cervejas “isotónica” geladinhas.

A malta foi terminando a corrida e juntando-se em redor do autocarro. Iríamos todos juntos almoçar mais uma pratada de massa (acabou por ser paella), na Isla Magica.

E mais uma peripécia se desenrolou ante os meus incrédulos olhos. Na comitiva tinha vindo um senhor mais idoso e invisual, que correu acompanhado por um guia. Entretanto já tinham chegado todos os retardatários e nada de chegar este último par. Começámos a ficar compreensivelmente preocupados, sobretudo quando as 5 horas limite para o encerramento do percurso se completaram.

Lá decidimos ir almoçar, enquanto o Álvaro, da Real Academia, encetava demarches para descobrir do seu paradeiro.

Almocei na alegre companhia do grupo laranjinha, Run 4 Fun, cujos membros se encontravam bastante satisfeitos por mais uma aventura completada com sucesso.

Depois do almoço fomos ver se já havia novidades. Nada! Já havia sido contactada a organização da prova, os hospitais, a polícia e ninguém sabia de nada. Parecia que duas pessoas, uma envergando um dorsal e outra uma indicação fluorescente com a palavra “Guia” tinham desaparecido da face da terra! Eu pensaria que um tal par constituiria uma visão que se destacaria um pouco mais que um elefante cor-de-rosa numa reunião dos alcoólicos anónimos...

Já se conjecturava de tudo. Desidratação, ataque cardíaco, etc, etc (houve até alguém que aventou a hipótese delirante de eles se terem zangado um com o outro...). Mas claro que a verdadeira explicação, que estava prestes a ser revelada, é sempre simultaneamente mais simples e mais fantástica do que qualquer conjectura.

Finalmente lá chegaram os dois, entregues pela organização da Maratona.

O que é que tinha acontecido?

A verdade é que chegados cerca do 32º km foram abordados pela organização, que lhes deu duas opções: ou eram recolhidos naquele ponto ou então seguiam por sua conta e risco, pois a maratona tinha sido encerrada. Temerariamente, resolveram seguir, procurando a marcação azul no chão, mas rapidamente se perderam e acabaram por percorrer bem mais do que os 42 kms. O que é certo é que, numa notável demostração de persistência e determinação, lá conseguiram chegar à meta, no estádio, onde foram então recolhidos pela organização.

Por fim, lá arrancámos com destino a Lisboa, onde chegámos já depois das 22h. O Carlos teve a amabilidade de me levar até casa, onde cheguei cansado mas muito satisfeito por um fim-de-semana bastante agitado e divertido. É desta matéria que são feitas as histórias que hei-de contar aos meus netos, quando os tiver (se não estiver nessa altura muito aterefado a gerar novas histórias noutras aventuras desportivas).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

11 Lições que a Corrida me ensinou em outras tantas Provas



A Corrida tem sido para mim uma fonte constante de aprendizagem, tanto ao nível desportivo como ao nível pessoal. Como o escritor Haruki Murakami tão bem descreve na sua auto-biografia desportiva, "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo", a corrida é uma excelente metáfora da própria vida.

 Julgo poder afirmar (e peço que desculpem o meu pretensiosimo) que se podem ilustrar algumas importante lições de vida, tanto das minhas próprias experiências como das que observo nos meus companheiros de métier. Vou aqui descrever algumas dessas lições, identificadas em provas relevantes.


1.    O fundamental é o prazer de participar.

19ª Meia Maratona de Lisboa, 2009: num período extremamente ocupado da minha vida, resolvi participar na Meia Maratona de Lisboa. Infelizmente, tudo o que consegui fazer, à laia de preparação, foram 2 treinos de 10 km a 3 semanas da prova. Há meses que não corria regularmente, mas as saudades de participar numa prova eram muitas. Assim, lá alinhei na linha de partida, no dia 22 de Março, pronto para sentir a exaltação que a corrida sempre me proporciona. Fisicamente custou-me bastante fazer todo o percurso, e terminei os 21,1 kms com o meu pior registo de sempre, 2h22m, 5026º classificado num total de 5504 atletas que terminaram. Ainda assim, posso afirmar, inequivocamente, que a alegria de participar compensou bastamente tudo o resto.

2.    Se não conseguires correr, anda.

25ª Maratona de Lisboa, 2009: naquela que foi a minha estreia na mítica distância, atingi o famoso “muro” cerca do 30º km. Estava a sentir-me razoavelmente bem, a correr a um ritmo bem abaixo dos 6’/km e, de repente, numa questão de algumas dezenas de metros, tudo o que conseguia fazer eram uns muito penosos 8’/km. Tive que me arrastar arduamente até à linha da meta, onde terminei com um registo de 4h10m. Nesses últimos 10 kms andei mais do que corri, mas cheguei ao fim e cumpri o objectivo, que era tão somente terminar a minha primeira maratona.

3.    Acompanhado é mais fácil e mais divertido.

III Ultra Trail da Geira, 2010: tratou-se da minha primeira experiência em trail, e logo na distância de 50 km. Pouco depois do 8º km, juntei-me a um companheiro que corria ao mesmo ritmo que eu e, a partir daí, seguimos o restante caminho apoiando-nos mutuamente, trocando histórias de vida, e puxando um pelo outro. Sem a sua ajuda eu teria tido muita dificuldade em conseguir correr os últimos 10 km. No fim cruzámos a meta juntos, para selar a amizade que se foi cimentando pelo caminho.
Foi este também o primeiro trail em que fui acompanhado pela minha família, que participou na caminhada (a primeira de muitas) e me proporcionou mais um fim-de-semana divertido e inesquecível. Devo dizer que o seu apoio constante, tanto nos treinos como nas provas, tem sido fundamental para o meu desenvolvimento pessoal, enquanto desportista e enquanto pessoa.

4.    Não deixes que um revês te esmoreça.

I Ultra Trail de Sesimbra, 2011: cerca de 9 kms depois do início desta prova de 50 kms, ia bem posicionado dentro dos 20 primeiros lugares, seguindo absorto num grupo de 6 atletas. Neste ponto enganámo-nos no percurso e percorremos cerca de 1 km até nos apercebermos do erro. Quando retomámos o percurso original eu tinha caído para 97º lugar da geral, ou seja, para a cauda da corrida.  Depois tive que recuperar, paulatinamente e com alguma dificuldade, deste atraso. O que é certo é que, por ter acreditado e, quem sabe, talvez espicaçado por este revês, consegui terminar a corrida em 21º lugar, após 6h32m de muita dureza, mas também de muita beleza natural.

5.    Acredita sempre.

5º Ultra Trail da Freita, 2010: O tempo limite para acabar esta prova de 70 kms tinha sido fixado em 15 horas pela organização. Já só restaria cerca de uma hora quando ainda me faltava cumprir um dos troço mais exigentes (o famoso PR7), composto por uma descida muito técnica seguido por uma subida tão abrupta que me via forçado a parar a cada dezena de metros para recuperar o fôlego. Neste ponto confesso que tive algumas dúvidas em que conseguisse terminar dentro do tempo permitido. Contudo, forcei-me a continuar a subir o mais depressa que me era humanamente possível (mais adequado seria dizer, “arrastei-me o menos devagar possível”).
Depois de um esboço de “sprint” nos kms finais, no meio dos pinheiros, lá cheguei em 14h47m, quase in extremis, completamente esgotado.

6.    O mais difícil não é a prova mas sim a preparação.

14º 101 km de Ronda, 2011: 4 meses seguidos com um volume de treino de cerca de 370 km / mês; treino cruzado (corrida, natação e ginásio, fundamentalmente); treinos de madrugada, ao meio-dia, à noite, quando os afazeres do trabalho e da família o permitiam; dificuldades na recuperação de uns treinos para os outros; dores musculares, tendinites, dores nas articulações, bolhas nos pés, etc.
Enfim, custaram mais os 1500 km de preparação do que os 101 km de prova. No entanto, esses kms de preparação foram essenciais para conseguir atingir os meus objectivos.

7.    “A dor é temporária, a glória é para sempre”.

14º 101 km de Ronda, 2011: 3 semanas antes de Ronda sofri uma lesão muito desconfortável no joelho esquerdo, durante um treino de 46 km.  As dores eram de facto agudas e intensas.  Apesar disso, consegui continuar a treinar, embora de forma mais moderada, e não desisti da ida a Ronda, mantendo a esperança de que a dor se atenuasse e não me afligisse demasiado durante a prova. Essa expectativa veio a confirmar-se, pois embora tenha experienciado vários tipos de dores durante os 101 km, felizmente nenhuma foi suficientemente incapacitante para me tolher o passo e consegui completar a prova, ao fim de 11h40m.

8.    Para melhorares, analisa os teus erros.

8ª Maratona do Porto e 26ª Maratona de Lisboa, 2011: Tinha grandes expectativas em baixar a barreira das 3 horas na Maratona do Porto, visto ser aquela onde eu tinha o melhor registo (3h09m em 2010) e aquela com um percurso mais favorável. No entanto, as minhas expectativas sairam goradas, pois falhei o objectivo por apenas 54 segundos (3h00m54s). Dei o meu melhor e mesmo assim não foi suficiente.
Acicatado por este desaire, concentrei-me na Maratona de Lisboa e treinei afincadamente nas 4 semanas que mediavam estes dois eventos. Analisei as minhas fraquezas e, no pouco tempo disponível, tentei colmatar as falhas encontradas. Introduzi pela primeira vez treino de séries e fiz treino em rampa para me preparar para a subida da Almirante Reis. E em Lisboa cumpri o meu objectivo: ganhei 3 minutos relativamente ao Porto, 2011, e terminei em 2h57m.

9.    Conhece-te a ti mesmo (doseia o teu esforço).

II Trilhos dos Abutres, 2012: parti devagar e fui ultrapassado por dezenas de atletas nos primeiros 16 kms. Não me deixei intimidar e continuei a fazer a minha própria corrida. O meu corpo dizia-me que não era boa ideia acelerar tão cedo. No 20º Km, cumpridas 2h30 de prova, atíngi finalmente o ponto mais alto do percurso. Depois comecei a descer e a ultrapassar atletas. Tanto nas descidas como nas subidas ultrapassei dezenas de corredores. Cheguei finalmente à meta ao fim de 5h49m, em 27º lugar da classificação geral.

10.    Perder uma batalha não é perder a guerra.

Até agora ainda não desisti em nenhuma das 75 provas que já completei. Mas espero que quando isso inevitavelmente acontecer (por ocorrer alguma lesão, por se me esgotarem completamente as forças, ou por outro evento ou factor inesperados) eu esteja pronto a aceitar esse facto com naturalidade. É uma das lições que ainda me falta aprender nas corridas (na vida julgo já a ter aprendido).

11.    Não dês demasiada importância às dificuldades que a vida te coloca.

As 75 provas, e os 10 mil quilómetros que já percorri em treinos nos últimos 3 anos, junto com outros companheiros ou sozinho com os meus pensamentos, ajudaram-me a relativizar os problemas que a vida me coloca. Sou uma pessoa mais calma, mais saudável e melhor com  a vida do que se não me dedicasse a esta actividade tão enriquecedora.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

II Ultra Trilhos dos Abutres

No passado sábado, dia 28 de Janeiro, teve lugar a 2ª edição dos Trilhos dos Abutres, este ano em formato Ultra.

Este evento desportivo era aguardado com muita expectativa, tendo as inscrições esgotado 2 meses antes da sua realização. Eu fui um dos afortunados que ainda arranjei um lugar para os 45 kms e consegui também inscrever toda a família na caminhada de 13 km.

Na véspera, 6ª feira, após o trabalho e ter ido buscar os miúdos à escola, lá saímos os 4 de Lisboa a caminho de mais uma aventura na Natureza. Tinhamos combinado jantar com o José Carlos Santos e a Vânia, mulher do Zé, e ainda com o casal João e Luísa Ralha e toda a restante comitiva Run 4 Fun, nomeadamente, o  Jorge Esteves, o Paulo Jorge Rodrigues e o Teodoro Trindade. O Nuno Dias de Almeida juntar-se-ia a nós no dia seguinte.

Tivemos alguma dificuldade em chegar a Miranda do Corvo, tendo-nos perdido algures perto de Condeixa. Felizmente lá nos voltámos a orientar e ainda chegámos a tempo de nos reunir a um animado grupo no Restaurante “A Parreirinha”, onde reinava uma inusitada agitação, mercê da clientela pouco habitual, composta maioritariamente por participantes na corrida. Este restaurante foi uma excelente indicação do nosso companheiro Vitorino Coragem, um lídimo representante da Associação Abutrica e decano das provas de trilhos. Deliciámo-nos com uma excelente Chanfana, que foi do agrado de toda a família.

Depois dirigimo-nos para o mui agradável Hotel Meliá Palacio da Lousã, onde iriamos pernoitar nas duas noites seguintes.


Percurso

Após uma noite bem dormida, acordei sábado de manhã cedinho e equipei-me com o arsenal habitual, adaptado para o frio agreste que se anunciava: calções de licra, camisola interior térmica, t-shirt laranja com o logotipo do Run 4 Fun, corta-vento, meias de compressão, luvas, buff para a cabeça, mochila de hidratação, e dentro desta última, o material obrigatório, manta térmica e apito, e ainda o telemóvel, para o caso de alguma eventualidade. Coloquei ainda na mochila o meu combustível de eleição: cinco geís da power bar.

Tomei um farto pequeno-almoço no panorâmico restaurante do Hotel, na agradável companhia dos companheiros Run 4 Fun e depois fui de boleia com o João e a Luísa, pois a Lena e os miúdos iriam mais tarde, uma vez que o autocarro para o ponto de partida da caminhada apenas partiria às 9h45. A temperatura indicada pelo mostrador do automóvel rondava os 3ºC.

Chegámos a tempo de nos colocarmos na fila para o ponto de controle inicial, onde seria verificado o material obrigatório. Depois aguardámos no recinto, confraternizando alegremente, enquanto não era dado o tiro de partida. Foi mais uma entusiasmante oportunidade de rencontrar “velhos” companheiros destas andanças. Digo “velhos” porque embora ainda só ande nisto há dois anos (o meu primeiro trail foi a Ultra da Geira em 2010) sinto que já formei fortes laços de estreita amizade com pessoas interessantes deste intenso meio, que de resto se presta bem a isso. Para além da partilha deste interesse comum, talvez a partilha de momentos de grande esforço e intensidade emocional e a entreajuda física e anímica que emergem nestas provas,  expliquem o estabelecimento fácil de laços entre os participantes.


Alegre grupo Run 4 Fun

Este mecanismo, que forja fortes amizades,  recorda-me uma célebre passagem do discurso do dia de São Crispin da peça Henrique V, de W. Shakespeare:

"This day is call’d the feast of Crispian.
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when this day is nam’d,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say ‘To-morrow is Saint Crispian.’
Then will he strip his sleeve and show his scars,
And say ‘These wounds I had on Crispian’s day.’
Old men forget; yet all shall be forgot,
But he’ll remember, with advantages,
What feats he did that day. Then shall our names,
Familiar in his mouth as household words-
Harry the King, Bedford and Exeter,
Warwick and Talbot, Salisbury and Gloucester-
Be in their flowing cups freshly rememb’red.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remembered-
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition;
And gentlemen in England now-a-bed
Shall think themselves accurs’d they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day."

- From St. Crispin's Day Speech of Shakespeare's Henry V


Para melhor me situar no espaço e no tempo, vou ocasionalmente socorrer-me da útil informação dos excelente relatos do João Ralha, Nuno Dias de Almeida e Luís Ricardo.



Altimetria e Ritmo

Assim que o “tiro” de partida foi dado os atletas que estavam na fila da frente partiram tão rápido que mais parecia se prepararem para correr 10 kms em lugar de 45. Eu próprio completei este primeiro km em 4’13’’. Deve ter sido da excitação do início e da vontade de não ficarmos bloqueados na fila nalgum single-track que estivesse aí ao virar da esquina. Démos uma volta a Miranda do Corvo, passámos pelo parque biológico e depois seguimos em direção à Serra. Ao fim de 10 minutos a correr já me sentia cheio de calor e tive que remover o corta-vento e colocá-lo na mochila. Já devia saber, pois em corrida alguma necessitei de mais do que uma camisola interior, para além da t-shirt.

Levada
Durante os primeiros 16 kms fui sendo sucessivamente ultrapassado por mais de duas dezenas de atletas. Sentia-me lento e pesado e interrogava-me acerca do que teria comido aquela gente ao pequeno-almoço para acordarem tão cheios de energia.

Logo no início tivémos que enfiar os pés dentro da água de um ribeiro e logo de seguida na lama que encontrámos em abundancia nesta parte inicial do percurso, devido aos profusos cursos de água que corriam dentro de uma floresta cerrada. Foi um baptismo que deixava antever o que iriamos encontrar mais para a frente. Felizmente esse previsão saiu gorada e a maior parte da humidade concentrou-se nestes kms iniciais, senão julgo que teríamos tido grandes dificuldades nas partes mais técnicas que se concentraram na segunda metade do percurso.

Os primeiros 11 kms não apresentaram dificuldades de maior, mas a partir desse ponto teve início uma subida muito acentuada, até ao km 16 e depois novamente entre o km18 (2º abastecimento) e o km 20, onde, cumpridos 2h30 de prova, atingi finalmente o ponto mais alto do Concelho, com 940 metros de altitude, perto das eólicas. 

Depois, até aos 24 kms, foi sempre a descer, com um troço particularmente difícil num corta-fogo inclinadíssimo que atrapalhou, e muito, bastantes atletas. Foi nesta descida que comecei a recuperar rapidamente os lugares que tinha perdido na primeira metade da corrida. Ultrapassei dezenas de companheiros. Aguentei um ritmo elevado e voei veloz até ao 28º km, onde se encontrava o 3º abastecimento. Após esta fase da corrida raramente me cruzei com alguém.

Ao km 34 entrei na bonita Aldeia de Xisto de Gondramaz mal sabendo da surpresa que nos aguardava logo de seguida: um troço de cerca de 200 metros em que tivémos que descer agarrados a cabos de aço para não nos despenharmos pela escarpa abaixo.  Os quilómetros seguintes não foram significativamente mais fáceis, feitos em single-track junto ao rio, num percurso belíssimo mas perigoso, em que era necessária uma atenção constante onde colocávamos os pés.  Passámos por várias cascatas e atravessamos o rio diversas vezes, sobre escorregadios troncos de madeira. Ia com o coração apertado ao pensar que os meus filhos tinham passado por aquele percurso algum tempo antes, integrados na caminhada dos 13 kms. Por cada bombeiro que passava fazia insistentemente a mesma pergunta: “não ocorreu nenhum acidente com nenhuma criança, pois não?!”


Cascata


Subida final
Por fim cheguei ao abastecimento do km 39, onde parei para beber uma coca-cola e ingerir um cubo de marmelada. Até aqui ainda não tinha parado nos abastecimentos, socorrendo-me da minha provisão de água e geis energéticos. No entanto, cumpridas 5h14 de prova, essas provisões já se revelavam manifestamente insuficientes, pelo que foi necessário um pequeno reforço.

Daqui arranquei para a parte final da corrida, cerca de 4 kms entre pinhais e dois já na vila. Gastei as últimas forças que ainda tinha, e deparei-me ainda com uma curta mas dolorosa subida final em que fui atacado por caimbras pela primeira vez. Duzentos metros depois estava a meta, dentro do pavilhão desportivo. Cruzei-a depois de 5h49 de esforço,alegria, sofrimento, exultação, espanto e muitos mais sentimentos contraditórios que se vivem com intensidade nestes eventos repletos de momentos ímpares. Tinha percorrido 45 kms com 2100 m de desnível positivo e chegado em 27º lugar da geral, 11º do meu escalão (M40M).

Bebi umas minis fresquinhas para repor os electrolitos :-) e fui confraternizando com quem chegava. O Zé Carlos Santos já lá estava, tendo conquistado galhardamente o 1º lugar do seu escalão, em 5h39. Foi um enorme regresso às provas, e às vitórias, muito bem merecido dado os treinos rigorosos que cumpriu e que eu tive a honra de acompanhar numa pequena parte.


Zé Carlos, no esforço final

O vencedor da edição deste ano foi o Armando Teixeira, numas incríveis 4h21! Enfim, esses tempos não são para todos...

Pouco depois chegaram os membros Run 4 Fun da minha família, juntamente com a Vânia, mulher do Zé Carlos, felizmente sãos e salvos, e até bastante satisfeitos apesar das cerca de 4h30 de passeio.

Infelimente não pude esperar que os restantes companheiros do Run 4 Fun cumprissem a sua chegada à meta, em triunfo merecido para cada um deles, pois os miúdos já começavam a ficar impacientes. Deixo aqui os meus parabéns ao Nuno pela sua mui auspiciosa estreia nestas lides, ao Paulo Jorge por mais uma excelente prestação, ele que se iniciou nestas andanças há apenas 9 meses (até custa a crer!), ao Jorge e ao Teodoro por mais um desafio completado, eles que já são experientes Ultra-trailers, e ao João e à Luísa pela sua primeira Ultra, completada com sucesso, e logo que Ultra!!!

Cabe aqui uma palavra de apreço para a organização, que esteve impecável.  Nunca tinha visto uma marcação de prova tão cerrada: existiam fitas laranja quase de 10 em 10 metros! Os abastecimentos eram abundantes, via-se o corta vento laranja da Associação Abutrica por todo o lado e existiam bombeiros em todos os pontos essenciais. O almoço/jantar estava bem organizado e toda a gente foi de uma simpatia extrema.

É certo que existiram alguns troços um pouco perigosos, mas a mim isso preocupou-me mais no caso dos participantes na caminhada do que nos das provas competitivas. Estes últimos usualmente já sabem ao que vêm e devem abster-se de dar o passo mais largo do que a perna onde a tecnicidade recomenda prudencia. O único senão que tenho a apontar é o facto de a caminhada ainda estar a decorrer quando atletas das provas competitivas já estavam a terminar, o que obrigava a alguma ginástica para não nos atropelarmos mutuamente.

Enfim, em jeito de resumo, gostei muito da prova e penso voltar para o ano. Os Abutres estão sem dúvida de Parabéns com P grande!

Quanto a nós, família Bárrios Ferreira, ainda aproveitámos o domingo para ir almoçar ao célebre restaurante “O Burgo”, onde retemperámos as forças com um excelente cozido, copiosamente regado com um encorpado jarro de tinto da região.

Depois tivémos que voltar para Lisboa, onde nos aguardavam os afazeres mundanos da vida.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

4ª S. Silvestre de Lisboa



Em Dezembro de 2010 dei início a este blog e o meu 2º post relatava a minha 1ª participação numa S. Silvestre, neste caso na de Lisboa, que ia na sua 3ª edição.
Na altura o meu objectivo passava por baixar dos 40 minutos numa corrida de 10 km.
Hoje, 20 crónicas passadas sobre esse início de contribuição para a blogoesfera, relato aqui a minha experiência em mais uma S. Silvestre de Lisboa, desta feita na edição de 2011.
Este ano a corrida teve lugar no sábado, último dia do ano, com início às 16 horas. Achei óptimo a corrida ter lugar ainda durante o dia (em 2010 fora à noite), pois assim envolvi a família toda, Helena, Rui e Rita, os quais participaram na Mini de 5 km, tornando o evento muito mais agradável. Apanhámos o metro e lá nos dirigimos para a Praça dos Restauradores, a qual se encontrava bastante animada quando chegámos.  Encontrámos logo o alegre grupo dos Run 4 Fun, que se dintinguiam claramente, mercê da fluorescente t-shirt laranja.




Um minuto e trinta e sete segundos antes da elite masculina, partiram as atletas da elite feminina, com a Ana Dulce Félix a encabeçar um grupo de resolutas atletas. Depois partiram os restantes atletas. Eu aranquei juntamente com o meu amigo Gonçalo Cardoso e lá fui aproveitando o ritmo vigoroso que ele impunha.


Os primeiros 5 kms foram relativamente planos e simples de fazer. O problema foi quando começou a subida da Av. da Liberdade. Aí o meu ritmo baixou acentuadamente. Quando comecei a subir a Fontes Pereira de Melo ainda tive a oportunidade de vislumbrar a Dulce Félix a descer,  já ladeada pelo Tiago Costa e pelo Hermano Ferreira, que haveriam de cruzar a meta de mãos dadas, embora este último fosse dado como vencedor.


Chegado ao Saldanha, foi altura de ir buscar forças onde elas ainda existissem, para acelerar na descida e fazer os últimos 2 kms o mais rápido possível. E lá cheguei à meta em 38’52’’, menos um exacto minuto do que no ano anterior. Suspeito que para baixar um minuto na próxima edição, vai ser necessário muito mais treino...




Alguns segundos depois chegou o meu filho Rui, tendo acabado de completar os 5 kms, logo seguido pelos restantes membros da família.



E assim passámos mais uma divertida e saudável tarde, nesta nossa bela cidade de Lisboa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Treino após Natal em Lisboa

  

42 km, quase por acaso. Uma bonita volta a Lisboa, num dia esplendoroso, para queimar os excessos da quadra e sobretudo simplesmente pelo prazer de correr.

Nesta actividade de eleição, o que verdadeiramente me dá prazer, mais ainda do que participar em provas e competir, é a liberdade de me perder nos meus pensamentos, fundir a mente, o corpo e o universo, enquanto as pernas vão seguindo no seu ritmo, o coração vai bombeando o sangue nas artérias e os pulmões se vão insuflando com o mundo ao seu redor. É seguir sem rumo certo, na direção onde os olhos pousam. E depois voltar, à descoberta, por novos caminhos. 

Para mim estar vivo é isto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

26ª Maratona de Lisboa

Crónica de uma conquista anunciada.

Há já um ano que tinha como objectivo baixar das 3 horas na mítica distância da Maratona.

Tinha-o tentado no Porto em Novembro de 2010 e novamente em Lisboa em Dezembro do mesmo ano. 

No Porto fiquei-me pelas 3:09, com parciais de 1:33 + 1:36. Em Lisboa quedei-me pelas 3:13, com parciais de 1:31 + 1:42. Nesta última, ao início ainda tentei seguir a bandeirinha das 3 horas, mas cedo abandonei esse propósito. Ainda assim, consegui fazer a primeira metade em 1:31, o que ainda permitia manter a esperança no sucesso. No entanto, a dureza da prova, conjugada com as condições meteorológicas adversas e a falta de preparação para um tão ambicioso objectivo, levaram a que eu quebrasse na longa subida da Almirante Reis. Paciência, o desafio teria que ficar para o esperançoso ano de 2011.

Entretanto comecei a preparar-me para os 101 km de Ronda, para os 70 km da Freita e para os 78 km do Swissalpine, e não voltei a pensar na Maratona. Esse “bichinho” não tornou a atormentar-me até concluir os trilhos do K42, na Serra da Lousã, a 8 de Outubro deste ano.

Uma prova de Trail tem características completamente diferentes de uma Maratona de estrada. No Ultra-Trail trata-se, sobretudo, de resistir ao desgaste acumulado, em mais de uma dezena de horas passadas a correr em pisos com variados graus de tecnicidade e com desníveis acentuados. Numa Maratona o que conta é conseguir manter um regime elevado, em percursos relativamente lineares, durante algumas horas. Ambos os tipos de provas representam grandes desafios, sobretudo quando empreendidas no limiar da capacidade individual, independentemente da performance de cada um.

Quando entro numa prova, realizo-a sempre no limiar da minha capacidade, para que quando termine não me sobrem dúvidas se poderia ter feito melhor. Muito portuguesmente, “ou vai ou racha!” É uma opção pessoal, nem melhor nem pior do que qualquer outra, mas é a minha.

Assim que terminei o K42, teve início a minha preparação para as Maratonas do Porto e de Lisboa. No entanto, como não consigo resistir a estes “chamamentos da natureza”, inscrevi-me nos 42 km do Grande Trail Serra D’Arga, que teriam lugar no dia 23/10, duas semanas antes da data da Maratona do Porto. Todavia, a prova acabou por ter apenas 20 km devido às condições meteorológicas, que obrigaram a organização a encurtá-la. Apesar do desapontamento, essa mudança até foi vantajosa para mim, pois permitiu-me retomar a preparação para a Maratona mais repousado.

Já descrevi, noutro post, a minha experiência no Porto em 2011, mas deixo aqui o resumo do que aconteceu. Parti confiante que seria dessa que iria cumprir o meu objectivo. Realizei a quase totalidade da prova à frente do balão das 3 horas. No entanto a partir dos 30 kms comecei a acusar o desgaste, dei o meu melhor, mas fui por fim ultrapassado pelo balão, a apenas 2 kms da meta. Tinha tido o objectivo tão próximo e no entanto vi-o escapar-se-me por entre os dedos. Atravessei a linha de chegada em 3:00’53’’, 53 míseros segundos demasiado tarde…

Não me deixei esmorecer e, nas 4 semanas que me restavam para Lisboa, intensifiquei a minha preparação. Incluí pela primeira vez séries no meu “plano de treinos.” Na verdade, esse “plano” consiste, basicamente, em fazer um longo, durante o fim-de-semana, natação uma vez por semana e correr rápido nos outros dias (agora reforçado com as séries). Também não tomo suplementos alimentares mas procuro fazer antes refeições equilibradas (peixinho, sopa de legumes, leite e frutos secos fazem milagres).

Volume de treino; 3 Maratonas de Lisboa assinaladas

Gosto de usar as provas, em ambiente de competição, para treinar de uns eventos para outros. Motivam-me para me superar. Assim, corri pela primeira vez a Meia Maratona de Nazaré e ainda fiz o VI G. P. da Arrábida.

Na véspera do grande dia, deitei-me cedo. De madrugada, acordei despertíssimo, sem necessitar de relógio, cerca das 5 horas. A adrenalina já corria nas veias. Tomei um pequeno-almoço de fruta e torradas com mel e preparei o material habitual para estas lides: 6 géis de 41g, o Garmin, as meias de compressão, os ténis adidas levezinhos, o chapéu para evitar o sal nos olhos e, com imenso orgulho, a novíssima camisola dos Run 4 Fun.

Saí de casa e corri 2 km até à estação do Oriente. Serviria como aquecimento. Aí apanhei o metropolitano, onde encontrei o César Moreira, entusiasmado com a perspectiva de completar a sua primeira Maratona. Chegados ao Estádio 1º de Maio, encontrámos logo a malta da camisola laranja, bem visíveis e animados.


RUN 4 FUN

Deixei o saco com a muda de roupa junto da organização e encaminhei-me para o local da partida. Posicionei-me cedo na linha de partida, pois sabia que, se queria cumprir o meu objectivo, todos os segundos contavam. Baseado na minha experiência do ano anterior, sabia que Lisboa seria uma prova mais dura que o Porto. Eu teria que ser mais forte do que 4 semanas antes. Na partida juntaram-se-me o Olivier Delmotte (na sua estreia), do Clube Vodafone, o Orlando Ferreira (já experiente maratonista) e o Carlos Silva, dos Pumas do Guincho, que vinha de fazer um tempo excelente na Meia Maratona da Nazaré.

Dado o tiro de partida, arranquei com força, pois gosto de me libertar do grupo compacto para evitar atropelos. Assim, fiz logo os 2 primeiros kms abaixo dos 4’00’’/km e deixei para trás a bandeirinha das 3 horas. Ao 4º km reduzi o ritmo, pois não convinha começar a acumular acido láctico tão cedo na prova.

Ainda me mantive à frente da bandeira até entrar no Campo Grande, onde fui apanhado pelo pelotão de cerca de 15 atletas que se moviam em uníssono com a “lebre” das 3 horas. Deste ponto até à Praça do Comercio fui por vezes adiantado em relação a este grupo e noutras vezes no seu seio. Esta primeira metade da Maratona engana um pouco e tem algumas variações de altimetria que ocasionam variações de ritmo. Eu tenho tendência a aproveitar as descidas para acelerar, uma vez que o meu ritmo cardíaco não se ressente.

Grupo da Bandeira das 3 horas

Os minutos e os quilómetros foram passando até que finalmente chegámos a Santos e, guiados pela bandeira, qual Gil Eanes a dobrar o Cabo Bojador, atravessámos a marca da Meia Maratona, com um registo de 1:28, ou seja com 2 minutos de folga. Tive a primeira oportunidade, de muitas, de rever os rostos alegres e encorajadores dos companheiros Run 4 Fun. Relembro o João Ralha, sorridente quando me viu passar. Pouco depois teria início a prova da Meia Maratona, em que duas dezenas de laranjinhas tomaram parte.

Avançámos a bom ritmo até cerca do quilómetro 28, já perto de Álges, onde invertemos o sentido e voltámos na direcção da Praça do Comercio. Até aqui continuava a sentir-me bem, mas confesso que se não fosse o grupo da bandeira teria provavelmente fraquejado. O andamento rápido, que a “lebre” continuava a imprimir, permitiu-me permanecer na rota correcta.

Percurso da Maratona

A partir daqui cruzei-me várias vezes com companheiros Run 4 Fun e de cada vez que isso acontecia recebia palavras de encorajamento, o que me fazia acelerar um pouco o passo. Em prova alguma ouvi tantas vezes gritado o meu nome. Com 15 participantes na Maratona, 20 na Meia Maratona e 20 nas Estafetas, e ainda um numeroso grupo de entusiásticos apoiantes, a cor laranja estendia-se ao longo de toda a Avenida da Índia e 24 de Julho. Deste ponto em diante, foi cerrar os dentes e manter, sempre manter, o ritmo, para segurar a folga necessária, a fim de ter tempo de subir a Almirante Reis, o meu Everest.

Cruzei-me com o António Cruz, que aparecia em toda a parte para tirar fotografias aos esforçados atletas.

Chegámos novamente à Praça do Comércio, percorremos a Rua da Prata e iniciamos a tão temida subida da Almirante Reis. Esperavam-nos 6 duros quilómetros a subir. Cerrei ainda mais os dentes e fui buscar à minha reserva mental as forças necessárias para manter um ritmo abaixo das 4’30’’/km, deixando para trás o grupo da bandeira.

O objectivo começou a materializar-se. Já sentia a meta a aproximar-se. Mais algumas centenas de metros e entrei no estádio. Percorri os duzentos metros finais num sprint louco para tentar ficar ainda dentro do minuto 57. E, finalmente, lá consegui cortar a meta em 2:57’58’’.

Meta!

As longas horas de treino, a difícil restrição alimentar e a mentalização positiva tinham-se concretizado no resultado pretendido: a barreira das 3 horas tinha finalmente caído! Sentia-me exultante de alegria!



Fui buscar o saco com a muda de roupa, recebi uma massagem relaxante e juntei-me ao animado grupo Run 4 Fun que se ia agrupando nas bancadas do estádio. Celebrávamos com enorme entusiasmo a chegada de cada atleta. Permanecemos inamovíveis até à chegada do último Run 4 Fun.

Por fim, terminada a festa, regressei para minha casa, para a minha família, que sempre me apoiou ao longo dos anos e a quem tudo devo.


“Uma vez que nos espera uma longa vida, mais vale viver esse tempo cheio de vitalidade, com objectivos bem claros em mente e perseguindo com firmeza as nossas metas, do que atravessar os anos que nos esperam no meio do nevoeiro. Nessa perspectiva, julgo que correr constitui uma verdadeira ajuda. A essência da corrida consiste em nos obrigar a dar tudo por tudo, dentro dos nossos limites. E isso funciona como uma matáfora da própria vida (…)”

Haruki Murakami, "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo."


sábado, 3 de dezembro de 2011

VI Grande Prémio da Arrábida

Domingo, dia 27 de Novembro, teve lugar o VI G. P. da Arrábida, organizado pela Associação de Atletismo Lebres do Sado. A corrida tem início no Jardim de Vanicelos em Setúbal, sobe até Palmela e volta a descer para o local de Partida.
O dia estava esplêndido, se bem que ainda um pouco fresco às 10:00, hora de início da prova. Encontrei uma numerosa comitiva do meu clube, o Run 4 Fun, que se preparava alegremente para participar em mais uma celebração popular de são convívio desportivo.


 Esta prova tem uma particularidade sui generis, que consiste nos dois primeiros quilómetros serem feitos em pelotão, encabeçado por duas lebres que trotam num ritmo suave de cerca de 6’/km. Após essa fase inicial controlada, é dada liberdade aos atletas para darem corda aos sapatos, o que muitos fazem denodadamente, libertando explosivamente toda a energia até aí a custo contida.


Eu tentei, com alguma dificuldade, acompanhar alguns amigos da Proaventuras, em particular o Gonçalo Cardoso. Após os primeiros 5 kms razoavelmente planos, a prova tem dois kms a subir para o castelo de Palmela. Esse troço é aquele que faz mais mossa nos atletas. Como me sentia forte, consegui fazê-los abaixo dos 5’/km e aproveitei para ultrapassar alguns corredores, incentivado pelo Bruno Bastos Silva, pelo António Cruz e pelo Renato Velez que nos esperavam montados nas suas BTTs.

  
Chegado a Palmela, pude finalmente colocar o “turbo” a funcionar e arranquei à desfilada pelo encosta abaixo. Os próximos 6 kms foram todos feitos abaixo dos 4’/km, e ainda tive força para um sprint final em cima da linha da meta. Só não parei para beber o cálice de moscatel da praxe, que é servido aos 8600 m. Ficará para a próxima.

 
A prova foi muito participada, com 545 atletas a cruzarem a linha de chegada.
Depois da corrida fomos almoçar um excelente choco frito, especialidade regional de Setúbal. E assim se passou mais um esplêndido dia, nos arrabaldes da linda cidade de Setúbal.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

37ª Meia Maratona Internacional da Nazaré



No domingo passado, dia 13 de Novembro, juntei-me a esta grande festa do atletismo popular que é a Meia Maratona Internacional da Nazaré, a qual já vai na 37ª edição, tendo tido início no distante ano de 1975. 

É a mais antiga das Meias Maratonas que se realizam no nosso país e sem dúvida uma das mais pitorescas, pelo local onde se realiza, pelo percurso, pelo apoio do público e pelo grupo de participantes fiéis e empenhados (um bom conjunto de atletas de pelotão, como revelam os resultados).




Acordei bem cedo, às 7 horas, pois tinha combinado com o Miguel Dias e o Nuno Almeida irmos juntos de carro para a Nazaré. Depois de uma viagem sem incidentes, chegámos ao Hotel Quico, onde estavam hospedados o Nuno Marques, a Cristina Caldeira, o Jorge Duarte Pinheiro e filhos, e o Francisco Sanches Osório. O Nuno teve a gentileza e o trabalho de organizar toda a logística, incluindo distribuição de dorsais e fornecimento de banhos após a prova, que muito jeito nos deu. 

Dirigimo-nos para o centro da vila, onde nos encontrámos com o José Magalhães, o Serafim Desidério e o Vítor Lopes. E assim a armada Run 4 Fun ficou completa.

Estávamos em amena cavaqueira quando passa por nós a madrinha da prova, a grande atleta e grande pessoa, Rosa Mota. Disponibilizou-se logo para tirar várias fotografias connosco, simpática como sempre.



  
 
Depois do aquecimento, dirigi-me para a partida onde encontrei o Carlos Silva, dos Pumas do Guincho. Conseguimo-nos colocar perto da linha de partida e aguardámos pelo tiro que seria dado pela Rosinha.

E pum! Arrancámos o melhor que pudemos. A partida é relativamente fácil e desafogada, só é pena que não exista controle de chip na partida. O Carlos rapidamente descolou e só voltei a vê-lo no retorno.

Corri o melhor que pude, ainda me sentindo algo combalido da Maratona do Porto, que se tinha realizado uma semana antes. Como íamos a subir ligeiramente, contra o vento, e me sentia cansado, resolvi não arriscar. Nos primeiros 5 quilómetros demos a volta à vila e depois seguimos em direcção a Famalicão. Passei a marca dos 10 kms em 41’15’’ e metade da prova em cerca de 43’23’’.

Em Famalicão, aos 12,5 kms demos a volta ao bidão, para retornarmos pelo mesmo caminho, desta vez com o vento pelas costas e em ligeira descida. Antes da volta ainda tive a oportunidade de me cruzar com o Carlos, correndo muito solto e com um ar muito fresco. Vi logo que ele iria fazer um grande tempo.

No retorno, acelerei em direcção à Nazaré, decidido a arriscar, apesar das dores nas pernas e do receio de sofrer alguma lesão. Quando passámos novamente por cima da ponte, começou a cair uma forte chuvada, que felizmente abrandou ainda antes de chegarmos à meta.

Os últimos 4 kms são feitos a menos de 4’00’’/km e finalmente cruzo a meta, em 1h26’10’’, esgotado mas feliz, pois julgo não me ter portado mal. Assim que cruzo a meta, começa a cair uma tal carga de água que mais parecia que S. Pedro tinha aberto as comportas celestiais.





Constato que consegui fazer um "negative split", com uma segunda metade um pouco mais rápida do que a primeira.

Troco o chip pelo prato comemorativo e fico a aguardar pelos restantes companheiros do Run 4 Fun. Revejo o Carlos Silva, que tinha feito um tempo canhão de 1h23’10’’ e encaminho-me com os companheiros para o Hotel, e para o merecido banho.

Depois fomos almoçar numa marisqueira e voltámos para casa, após mais este dia bem passado, a fazer desporto e conviver com os amigos.



sábado, 12 de novembro de 2011

8ª Maratona do Porto

Desde sempre que gosto de correr. É uma paixão antiga, vivida com maior ou menor intensidade ao longo dos anos, em ocasiões esquecida, noutras reacendida, consoante os caminhos da vida e os desejos do coração.

A minha recordação mais antiga do acto de correr reporta-se aos meus 10 anos quando frequentava o 6º ano e nas aulas de educação física o “stor” nos fazia dar voltas à pista. Depois voltei a correr no 12º ano, quando fiz um programa de intercâmbio nos EUA e me inscrevi na equipa de atletismo onde corria a milha e as duas milhas. Foi nesse longínquo ano de 1985 que corri a minha primeira prova de 10 km, da qual já não recordo o percurso ou o resultado, mas lembro-me vivamente do prazer de competir e da agonia extrema do esforço físico.

Depois disso ainda corri ocasionalmente apenas pelo prazer de correr, mas nunca mais competi em provas de pista ou de estrada. Isto até um ano depois de me nascer o primeiro filho, quando, incentivado por amigos, resolvi inscrever-me numa meia maratona. 
Nessa altura essa distância parecia-me imensa e não sabia como haveria de a completar. No entanto como na altura fazia natação todos os dias no Estádio Universitário, já tinha uma preparação física razoável, bastou-me treinar algumas semanas para cumprir o objectivo dos 21,1 km até à meta, em 2h00’, isto em Março de 2002. 
Depois disso ainda participei mais algumas vezes nas duas meias maratonas das pontes, e apenas nestas provas, com resultados que oscilavam entre as 1h44’ e as 2h22’ consoante a maior ou menor preparação efectuada especificamente para essas provas.

Em 2009, em resultado da carga de trabalho e stress do MBA que estava a concluir em part-time, acumulando com uma actividade profissional exigente, tinha atingido um peso para mim impensável de 90 kg e um nível de sedentarismo muito pouco saudável. Entrementes, o meu irmão, Jorge Ferreira, já tinha completado a sua primeira Maratona e incitado pelo seu exemplo, em Agosto, tomei a firme decisão de que teria que correr uma Maratona até ao fim do ano.

Preparei-me e em Novembro, juntei-me a um grupo de corredores fantásticos, os Run 4 Fun, de que já devem ter ouvido falar :-), e que muito me têm ajudado a superar-me. 
Em Dezembro lá corri a 24ª Maratona de Lisboa, apadrinhado e auxiliado pelo João Ralha, excelente companheiro, que me rebocou durante boa parte da prova. E consegui chegar ao fim, em 4h10, apesar de ter levado em cheio com o “muro” aos 30 e picos kms.

Nos 2 anos que decorreram desde então, já completei 9 maratonas, 7 de estrada e 2 de montanha, e preparo-me agora para completar a 10ª em Dezembro, na 26ª edição da Maratona de Lisboa. Os resultados foram (quase) sempre melhorando desde Dezembro de 2009, na seguinte progressão (em estrada): Lisboa 2009 – 4h10’; Sevilha 2010 – 3h35’; Berlim 2010 – 3h25’, Algarve 2010 – 3h19’; Porto 2010 – 3h09’; Lisboa 2010 – 3h13’ e da mais recente, a do Porto 2011, falarei em seguida.
Percurso da Maratona

Este ano, nesta distância tinha nos meus planos apenas o AXtrail K42 e as maratonas do Porto e Lisboa. O objectivo traçado era baixar das 3 horas, algo que, com o devido treino, considerava ao meu alcance. Contudo como tanto faço provas de estrada como de trail, não me foi possível fazer um treino específico para esta corrida. Assim, parti para o Porto com a noção clara que teria que arriscar. 

No dia da prova acordei bem cedo, às 5 horas, e tomei um pequeno-almoço abundante às 6 horas. Às 8 horas estava na rua a aquecer e a dirigir-me para o local da partida, junto ao Palácio de Cristal. O tempo estava fresco e ensolarado, óptimo para correr. 
Lá reencontrei os bravos companheiros da camisola laranja, o António Cruz, o José Carlos Melo, o Luís Correia, o Miguel San-Payo e o Orlando Ferreira, e depois, ao longo da prova tive a felicidade de me cruzar ainda o Carlos Brazão, o Jorge Esteves e o Teodoro Trindade.

Eu e o António ainda fizemos mais um curto aquecimento e dirigimo-nos de imediato para a partida, a fim de ficarmos bem posicionados e não sermos submergidos na habitual atrapalhação das partidas (mas há que reconhecer que a partida da Maratona do Porto é uma das mais ordeiras das provas que conheço). 
Deu-se o tiro de partida e eu arranquei rápido para tentar ultrapassar a malta mais lenta e assim entrar no meu “ritmo de cruzeiro” o mais cedo possível. Tivemos um 1º km a subir, onde o meu coração atingiu os 152 bpm e depois começámos uma descida de vários quilómetros pela Avenida da Boavista, em direcção ao Castelo do Queijo e depois a Foz. 

Antes do tiro de partida, tinha trocado impressões com o António e concluímos que tínhamos estratégias muito semelhantes para abordar esta corrida. 
Como ele já soberbamente descreveu no seu post (os post do António são sempre uma fonte única de útil informação científica e inspiradora experiência pessoal), pretendíamos começar com uma intensidade cardíaca menor e subir de intensidade ao longo da prova. E uma vez que o perfil altimétrico da prova começa a descer e acaba a subir, resolvemos também fazer a 1ª metade mais rápida do que a 2ª, o que não é contraditório com aquilo que afirmámos acerca da intensidade cardíaca. Para mim esta estratégia fazia sentido pois, baseado na experiência do ano anterior, parecia-me que precisaria de atingir a marca dos 21,1 km em menos de 1h28’30’’ se queria ter tempo para completar os últimos kms, a subir (mesmo que ligeiramente) e provavelmente contra o vento do norte. 
Enfim, queria ter uma folga razoável, pois bem sei que a Maratona começa a doer a sério a partir do 2º terço.

Os primeiros 10 kms foram completados muito rapidamente, com ritmos entre os 4’00’’/km e os 4’13’’/km. Passei a marca dos 10 km em cerca de 41’15’’, dentro do plano. Desde cedo me adiantei do balão das 3h, a fim de cumprir o meu plano, mas agora corria isolado e começava a sentir a falta de companhia e de alguma protecção contra o vento ligeiro que se fazia sentir. 
Acelerei um pouco para tentar apanhar os atletas que corriam algumas dezenas de metros à minha frente. Corríamos agora junto ao rio, num passeio lindíssimo que enchia a alma de júbilo. Os populares incentivavam-nos alegremente, com regionalismos típicos do norte. Fui-me hidratando e ingerindo os meus géis, regularmente de 7 em 7 kms, a fim de não exaurir as reservas de hidratos de carbono, estratégia imprescindível para não esbarrar com o famoso “muro”.

Em breve atravessei o túnel, onde o meu Garmin se baralhou um pouco, e cheguei à ponte de D. Luís. Depois, em Gaia, colei-me a dois atletas que progrediam a bom ritmo, até chegar ao pórtico da meia-maratona na Afurada. Passei este marco em 1h28’54’’ ainda razoavelmente dentro do plano. 
No sentido oposto passei por todos os atletas do Run 4 Fun, com o António sempre à frente do balão das 3h15’. Voltei a passar a ponte D. Luís e foi pouco depois, cerca do quilómetro 28, que o meu verdadeiro sofrimento teve início. As pernas já começavam a dar sinais claros do esforço acumulado, e a ameaçar com a assustadora perspectiva de debilitantes cãibras. Fui forçando o ritmo, concentrando-me nos quilómetros que faltavam: “já só falta um terço da prova… 10 kms… 9 kms…”  
Tive várias variações de ritmo, resultado de uma luta constante entre os dois hemisférios do cérebro, um que me mandava abrandar e outro que me ordenava para acelerar.  
No regresso da viragem dos 28 km passei pelo António que ainda ia à frente do balão das 3h15’. Pensei, “o António vai em grande ritmo” e mal sabia eu que esse ritmo elevado já só era mantido à custa de uma enorme capacidade de sofrimento.
Ritmo Cardíaco em várias provas (Max 175)

Passei a marca dos 30 km em 2h06’57’’, ainda com uma margem de 25 segundos para atingir o meu objectivo. Aguentei-me num ritmo de cerca de 4’17’’/km (o necessário para conseguir menos de 3 horas dada a margem de que dispunha) até aos 36 kms, procurando apanhar boleia com alguns atletas que me iam ultrapassando. 
Quando chegámos à Foz estava estoirado e ainda me faltavam os tão temidos 6 quilómetros finais. Apercebi-me que iria ser muito complicado manter os 4’17’’/km até ao fim.  Colei-me a dois atletas dos Falcões Selvagens e esforcei-me por me manter a seu lado. No entanto também eles sentiam o desgaste da prova. Baixei para 4’23’’/km, depois para 4’27’’/km e ainda para 4’29’’/km. Os últimos 2 kms foram feitos em enorme esforço em 4’33’’/km e lá consegui chegar à meta, ao fim de 3h00’53’’.


Assim que parei apercebi-me que não conseguiria correr nem mais 10 metros. Estava exausto, mas feliz apesar de não ter cumprido o objectivo. É como escreveu o António: só se falha quando não tentamos um objectivo suficientemente ambicioso.
Maratona do Porto 2011
 

Depois fui tratar de beber uma cervejinha e esperar pelos companheiros. Lá vi o António chegar às 3h15’ bastante combalido, mas com um excelente resultado que só o pode alegrar. Não pude esperar pelos restantes companheiros, pois tinha que fazer o checkout do Hotel, mas pelos seus relatos pude mais tarde verificar que todos tiraram grande proveito desta excelente 8ª Maratona do Porto.

Recentemente li um livro fascinante, “O filósofo e o lobo”, onde, à luz do que aprendeu com a convivência com um lobo, o autor, Mark Rowlands, se questiona, entre outras coisas, acerca da natureza da felicidade. 
Segundo ele, o homo sapiens não vive de forma absoluta o momento presente, mas antes imerso num contínuo que nos mergulha no passado e nos projecta no futuro. O lobo é mais um ser do presente, o qual vive de forma completa e inteira. 
Essa imersão no tempo leva-nos muitas vezes a esquecer o valor do processo e focamo-nos apenas no objectivo, que está sempre diferido. No próprio instante em que o cumprimos, esgota-se. 
O lobo vive o processo. E os processos mais vitais são os mais viscerais, aqueles que envolvem a maior dose de êxtase, ligada inextrincavelmente com extremos de agonia e desconforto. Por exemplo, quando corremos e damos o nosso máximo, durante várias horas de esforço ininterrupto e esgotante, o que é que sentimos? Sobretudo desconforto, mas também uma enorme exaltação. E sentimos isso tudo em simultâneo. São duas faces da mesma moeda que não são separáveis, experienciadas em uníssono. O que é que fica depois de acabarmos? O principal não é com certeza a marca atingida, mas antes a memória indelével e física do processo de correr.


Adidas Adizero Pro 4


Esta semana já recomecei os treinos a pensar já na Maratona de Lisboa. A do Porto corri com os meus velhinhos e gastos Adidas Adizero Adios, que me puxaram sobremaneira pelos gémeos (são levezinhos e relativamente planos). Entretanto recebi pelo correio o meu novo modelo, os Adidas Adizero Pro 4, que são ainda mais leves e ainda mais planos. Mal posso esperar para os experimentar!