quinta-feira, 10 de maio de 2012

Oh Meu Deus Trail Run (50 km)



«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo.»

Assim tem início uma das mais conhecidas obras primas da literatura, Cem anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez. Tal como Aureliano Buendía gravou na sua memória uma imagem indelével da essência mágica da vida, daqui por muitos anos, perante a iminência do esquecimento final, também eu me hei-de recordar desses dias distantes em que calcorreei serras e montes, atravessei ribeiros e vales, transido pelo puro prazer de encher o coração de sangue e os pulmões de ar.

A minha aventura mais recente teve lugar na nossa Montanha Mágica, a Serra da Estrela, onde participei empenhadamente no Oh Meu Deus Trail Run, na distância de 50 kms. Esta prova está na sua 2ª edição, e este ano foi composta por 3 etapas, de uma série que teve início a 14 de Janeiro em Proença a Nova, continuou a 10 de Março em Vila do Rei e acabou a 5 de Maio em Manteigas. Nesta última, tiveram lugar 3 provas distíntas, uma, mais curta, de 20 kms, outra de distância intermédia com 50 kms e a prova rainha com 104 kms.

Altimetria

Com reserva para 4 (a família inteira, como já é habitual) marcada no Hotel Vale do Zêzere (que excedeu as minhas expectativas), partimos de Lisboa às 19h20 de 6ª feira dia 4. Ainda chegámos a tempo do briefing no Auditório Municipal, às 22h20. Encontrei logo algumas das caras conhecidas, o Sousa, o Serrazina, a Célia, entre outros. Dados os precalços com que decorreu a prova do ano passado (incluindo atletas que se perderam e esperaram horas para serem localizados), este ano a organização mostrava-se muito cautelosa, avisando constantemente para o perigo de determinada subida, ou troço mais complicados, alertando para o frio e vento previstos.

Hotel Vale do Zêzere
Às 23h instalámo-nos confortavelmente no hotel, jantámos as sandes e a fruta que tinhamos levado connosco e deitámo-nos logo que possível. Arrumei o equipamento que usaria no dia seguinte, para evitar acordar os miúdos quando me levantasse de madrugada. Tive sérias dúvidas acerca do que levar, pois o tempo anunciava-se frio e com chuva, mas, por outro lado, sempre que corro aqueço o suficiente para não sentir o frio.

Ainda não eram 5h30 e eu já estava acordado, pronto para correr. Vesti a roupa, desci para tomar um pequeno-almoço rápido e frugal e dirigi-me para o local de partida. Lá, reencontrei o Manuel Azevedo, o Gustavo Santos e vários outros companheiros destas aventuras. A partida das duas corridas seria dada em simultâneo, o que na minha opinião foi muito positivo, pois assim os 74 participantes dos 104 kms seriam acompanhados pelos 44 dos 50 kms e todos estaríamos menos sós ao longo do percurso.

Partida

Às 7h em ponto foi dado o tiro de partida e arrancámos pela vila acima, bem protegidos pelos impermeáveis. Ao fim de 3 kms removi o impermeável, apesar da chuva miudinha que caia esporadicamente. Saídos da povoação, entramos num misto de estradões e single-tracks com alguma tecnicidade, a caminho da Pousada de S. Lourenço. Ainda atravessámos o Mondego por duas vezes antes de chegar à Pousada.


Quanto a mim, a prova dividiu-se em 3 troços. Teve um 1º troço com uma subida à Pousada e regresso até ao campo de futebol de Manteigas, onde estava o 1º abastecimento  (apenas liquidos), aos 18,5 kms. Depois um 2º troço que subiu até à Torre, onde estava o 2º abastecimento (líquidos e sólidos) aos 36 kms e 1991 m de altitude. E por fim o 3º troço, que nos levou de volta até Manteigas, aos 730 m de altitude.


1º troço

Fui o 5º atleta a passar pelo 1º abastecimento e nessa altura constatei, com alguma surpresa, que provavelmente me encontrava em 1º lugar na prova dos 50 kms (nos postos não havia identificação de atletas por provas). Isso deu-me animo e arranquei rápido para iniciar o 2º troço. Este começou com um estradão, que subia pela encosta norte do Zêzere. Nesta altura corria isolado. Aos 20kms não vi uma fita que assinalava uma descida. O Rui Seixo, que vinha um pouco atrás de mim, também não viu. Penso que deveriam ter marcado melhor essa descida, mas isto poderá ser uma opinião parcial, feita em causa própria. Seja como for, julgo que as marcações, feitas com fita cor da laranja fluorescente, eram bem visíveis e frequentes, mas pecavam por não obedecer a um código claro, como é habitual em provas de trail (por exemplo, quando há saídas de estradões deveria existir uma fita ao comprido no chão do estradão, para indicar que essa direção termina ali).

Este engano resultou em 2 kms a mais, e várias paragens e indecisões, até reencontrarmos o caminho, na descida para o rio. Aí reencontrámos vários dos atletas que já tinhamos ultrapassado anteriormente e forçámo-nos a estugar o passo a fim de os ultrapassar novamente. Aqui permito-me um parentesis para sublinhar o alento de que usufrui na companhia do Rui Seixo, que conheci durante a prova, e que foi para mim uma ajuda preciosa. Competimos em provas distíntas, ele nos 104 kms e eu nos 50 kms, mas até Manteigas fizémos a maior parte do percurso juntos (grande atleta, ele, que acabaria por terminar em 6º lugar a prova dos 104 kms).

Zêzere

Atravessámos o rio sobre uma ponte de pedra (ou cimento) e subimos paralelos ao Zêzere, ao longo do vale, com os pés quase permanentemente enfiados dentro de água. Este rio nasce a cerca de 1900 m de altitude, junto ao Cântaro Magro, onde define um vale glaciar.

Vale do Zêzere

Nave de Santo António

Quando chegámos ao início do vale (lindíssimo), subimos até à Nave de S. António por um single-track duríssimo, onde eu só conseguia pensar que no País Basco irei ter que penar com 2 dias inteiros de subidas com um grau de dificuldade comparável...

Percurso

Chegados à rotunda, cá em cima na estrada, perto do Centro de Limpeza de Neve, entramos no alcatrão em direção à Torre. Pouco depois inflectimos à esquerda e entrámos noutro single-track diabólico, o Caminho do Major, com muito calhau e alguma neve escorregadia. Aqui já comecei a sentir os efeitos do ar mais rarefeito e progredi com bastante dificuldade. Este foi, aliás, o bocado que me custou mais a percorrer. Ao fim de um tempo que me pareceu uma eternidade, finalmente saímos do estradão e voltámos ao alcatrão.

A caminho da Torre

Alcançámos o abastecimento da Torre, no meio do frio (estariam uns zero graus), do nevoeiro e da neve, e dei comigo a sentir-me mais esfomeado do que um urso depois da hibernação invernal. Era o 7º atleta a passar por este controlo, mas não fazia ideia de quantos desses companheiros estariam a fazer a prova dos 50 kms.

Aproveitei para reestabelecer as forças, com uma canja de galinha quentinha, chocolates, amendoins, marmelada, coca-cola, etc. Nem sei como é que o meu estomago não se virou do avesso com esta misturada. O que é certo é que a pausa e os alimentos me deram um novo alento e, juntamente com o Rui, consegui descer, pela estrada, novamente até à rotunda, a um ritmo de 4’30’’/km.

Da rotunda direcionaram-nos para os Poios Brancos, no cume da Serra, por um trajecto virgem, de progressão difícil, aos saltinhos por cima de inúmeros calhaus, até que tiveram início os estradões.

De regresso para Manteigas

Após um percurso que pareceu interminável (estávamos à espera de fazer 51 kms até à meta mas os nossos Garmins marcaram 60 kms e picos) lá iniciámos a descida para Manteigas. Ao subir pelo meio da vila, via o fim a aproximar-se. Alguns minutos depois, foi com uma grande surpresa (e alegria) que descobri ter sido o primeiro da prova dos 50kms a cruzar a meta.

Fui 1º Classificado da Geral (na prova de distância intermédia, que estava prevista ter 51km mas acabou por ter 58km para a generalidade dos atletas). O meu Garmin marcou 60,3 km com 2575m D+ em 7:00:02. O tempo oficial foi de 07:01:07.






A verdade é que os grandes tubarões estiveram na prova de 104kms :-) Apesar de tudo, foi para mim uma prova bem dura e um 1º lugar sempre é um 1º lugar :-)


O único cheirinho que tinha tido anteriormente de um pódio, tinha sido no K42 do Axtrail, em Outubro de 2011, onde fiquei em 3º lugar do escalão Vet I.

Fiquei para a massagem revigorante, para o almoço retemperador, para o são e alegre convívio e, “last but not least”, para o pódio. O Rui seguiu para completar os 50 kms que ainda lhe restavam fazer na prova rainha (que acabou por ter cerca de 108 kms).

Enquanto esperava, pude ver chegar vários atletas dos 104 kms, alguns deles muito desagradados com o facto de se verem obrigados a completar mais kms do que o esperado. Compreendo bem o seu ponto de vista, pois se para mim os kms a mais foram feitos durante o dia, com condições atmosféricas e de visibilidade razoáveis, para eles esses kms iriram ser feitos durante a noite, em condições muito piores. Pior ainda foi para aqueles que foram desclassificados no ponto de controle da Torre, por ultrapassarem o tempo limite estipulado para esse ponto, apesar de terem sido obrigados a fazer mais kms do que era suposto.


À posteriori, de acordo com o site da organização, «a semana que antecedeu a prova foi de muita chuva, frio e neve. Adivinhava-se uma dia de prova difícil para todos. No próprio dia de prova, após a partida, a organização ainda estava limitada nos acessos ao ponto mais alto. Ainda tinha de alterar o percurso. Assim o fez com um acréscimo de quilómetros.»

«O dia 5 de Maio e a terceira etapa de 2012 ficam marcados um tempo que teve de tudo: Sol e temperaturas quentes, chuva e vento, neve, nevoeiro e temperaturas negativas. Para ajudar os mais lentos, a lua cheia( uma das mais brilhantes dos últimos anos, apareceu para iluminar os trilhos mais sinuosos.»

Enfim, a prova é muito bonita, eu gostei muito de a fazer, e penso voltar para fazer a prova maior (a próxima edição promete ter 140 kms), mas a organização necessita claramente melhorar alguns pontos. No entanto, ao que parece, este ano já esteve bem melhor do que no ano passado e não me consta que tivesse ocorrido nenhum drama na edição deste ano.

Organizar um prova desta envergadura, num local extremamente imprevísivel (e perigoso) como a Serra da Estrela, deve ser um empreendimento muito complexo e deve exigir uma atenção minuciosa a muitos detalhes. Acho salutar que exista uma equipa que se abalance a enfrentar esse desafio.

Quanto ao tempo, e apesar de todos os avisos da organização, não sofri com frio, apesar de pouco agasalhado. Durante o dia julgo que tivemos sorte pois, apesar do tempo fresco, apenas chuviscou ocasionalmente e o vento foi brando. Não sei ao certo quais foram as condições meteorológicas durante a noite, mas terão sido certamente bem mais duras, e debaixo da escuridão.

Tudo o que sei é que a prova rainha foi ganha pelo Pedro Marques, de O Mundo da Corrida, com um fantástico tempo de 11h59. O conjunto das 3 séries da prova longa foi ganho pelo Luís Mota, do ADR Águas Belas.

Depois de partilhar a minha alegria com a minha mulher e filhos, companheiros indefectiveís das minhas aventuras, saímos para visitar o vale, que é lindíssimo (é um vale em forma de U, típico dos glaciares, com inúmeras cascatas, jorrando água, e casinhas de granito, montadas como legos).  Subimos até à Torre, onde os miúdos se deliciaram com a neve, e, apesar de não estarem suficientemente agasalhados, não queriam arredar pé.





À noite jantámos, no restaurante do Hotel, uma explêndida Chanfana à moda da Serra e uma dose de Feijocas. No dia seguinte, ainda tivémos a oportunidade de visitar o belíssimo Vale do Rossim, com a sua barragem e parque de campismo, e ainda a aldeia mais alta de Portugal, o Sabugueiro (1050 m), onde comprámos um apetitoso queijo da Serra (que, nos últimos dias, tem estado a dar cabo da minha dieta equilibrada).

Acabo esta crónica como comecei:

«Ao ser destapado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:
— É o maior diamante do mundo.
— Não — corrigiu o cigano. — É gelo.»

Diamante ou gelo, a magia está ao alcance da mão (ou do pé)...







quarta-feira, 25 de abril de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preparação - 2º Mesociclo


Desde o meu último relato da preparação para os 168km, com 11000m D+ (nunca é de mais relembrar...), do Ehunmilak (“Cem milhas”), completou-se mais um mesociclo de treino.

A minha preparação para este enorme desafio consiste num único macrociclo, em que o treino é pensado a longo prazo, com esse objectivo em mente. Pelo caminho vão-se incluindo algumas provas intermédias, que servem não só como preparação, mas também como objectivos per se.

O meu treinador, o Eduardo Santos, do Centro de Treino da Associação “O Mundo da Corrida”, vai definindo e adaptando regularmente o meu treino de mesociclo (conjunto de 4 microciclos de 1 semana cada), que vou cumprindo o melhor que posso e consigo. Faço sobretudo treino intervalado, reforço muscular e treino longo, intercalados com treinos mais leves de recuperação.

No mesociclo mais recente, completei 387 kms, e, sobretudo, escalei 8636 m de desnível positivo (D+), que me parece mais significativo ainda do que própriamente a distância, a fim de cumprir com sucesso o ambicioso objectivo a que me propus (em que vou ter que escalar 11000 m no tempo limite de 48 h). O campeoníssimo (e fenómeno do Trail) Kilian Jornet, define os seus treinos pelo D+ e não pela distância.

Competi ainda no II Ultra-Trail de Sesimbra (50 kms, 1300 m D+), que completei em 5h12.

No sábado passado voltei a fazer um treino longo na Serra, que me levou a completar 44 kms, com 1869 m D+, em 6h10.


Para o próximo mesociclo tenho previstas duas provas de Ultra Distância, o Trail do “Oh Meu Deus”, na Serra da Estrela (50 km) e o UTSM (100km) em Portalegre.


A dificuldade maior consiste, sem dúvida, em manter a frescura, tanto física como mental, necessária para cumprir um plano de treinos exigente. A recuperação entre treinos e provas não é fácil e a falta de tempo induz a tendência para cortar nos exercícios de alongamento e flexibilidade, essenciais para evitar lesões. Treina-se acompanhado crónicamente pela dor: uma contratura mal curada, joelhos massacrados, dores na região lombar, pubálgia, pés doridos, etc...

Boa parte das vezes é necessário treinar a solo, e muitas horas seguidas nos trilhos da Serra exigem um espírito contemplativo e alguma dose de introspecção. É preciso treinar em quaisquer condições meteorológicas, suportando o desconforto da chuva, do frio ou do calor.

Enfim, a constância e persistência são condições necessárias, e se acompanhadas por algum estudo, discernimento e muito trabalho, podem-se transformar também em condições suficientes para alcançar objectivos ambiciosos.


Recentemente li um livro muito interessante, dedicado ao tema da memória: "Moonwalking with Einstein - The Art and Science of Remembering Everything".


Nele, o autor, Joshua Foer, retrata a forma como o desenvolvimento e massificação de vários tipos de suporte de informação, que tem progressivamente facilitado o seu acesso, levou a que a nossa memória colectiva se tenha tornado cada vez mais externalizada e, enquanto individuos, tenhamos passado a recorrer muito menos à nossa memória interna.

No entanto, prossegue o autor, alguns individuos, algo excêntricos, persistem em manter viva uma tradição, que remota aos antigos gregos, que involve técnicas milenares, bastante criativas, para memorização de extensas quantidades de informação. Joshua propõe-se ele próprio aprender essas técnicas, no espaço de um ano, ao fim do qual competiria no Campeonato Norte-Americano de Memória.

No início a tarefa parece abismal, pois as provas do campeonato incluem feitos de memorização aparentemente apenas acessíveis a individuos dotados de talentos (ou desordens) inatos excepcionais, tais como memorizar a ordem de um baralho de cartas num minuto, ou mil digitos aleatórios numa hora.

A conclusão surpreendente do livro, é que graças a uma dedicação excepcional, muito trabalho e uma confiança inabalável, Joshua consegue, ao fim desse curto período de tempo de intensa preparação, vencer o Campeonato!

Retrospectivamente, o autor reflecte que a maioria das pessoas, nas tarefas a que se propõem, contententa-se em colocar apenas o esforço necessário para alcançar  o que ele chama o “OK Plateau.” Esse é um nível de competência apenas suficientemente bom para conseguirmos cumprir com os requisitos exigidos pela sociedade ou satisfazer as nossas necessidades. Uma vez atingido este nível, passamos a funcionar em modo automático, de menor esforço, e não evoluimos mais além.

A fim de se ultrapassar esse plateau e alcançar feitos verdadeiramente excepcionais é necessário um exigente e continuado esforço, consciente, metódico e concentrado. A lição principal, que o autor extraiu da sua experiência, é que tal é alcançavel por individuos em tudo o resto perfeitamente vulgares, apenas excepcionais na tenacidade com que estão comprometidos em levar a cabo essa jornada de descoberta.

to be continued...

domingo, 22 de abril de 2012

II Ultra-Trail de Sesimbra



No passado domingo, dia 15, decorreu a 2ª edição do Ultra Trail de Sesimbra. Esta foi a minha segunda participação nesta magnifica prova.

Tal como referi na crónica do ano passado, no domingo tive que acordar muito cedo, para conseguir estar frente ao Hotel Sesimbra Spa antes do “tiro de partida,” que seria dado às 7h30. Como cheguei em cima da hora, já não tive tempo de ouvir o briefing inicial, mas ainda fui a tempo de arrancar com o grupo compacto de cerca de 150 atletas.

Lá corremos pela marginal, até passarmos o porto de abrigo e começarmos a subida para a pedreira. Devido ao frio matinal, e aos ameaços de chuva, iniciei a corrida com o corta-vento vestido. No entanto, rapidamente o despi e guardei na mochila, pois depressa aqueci, como de costume.

Ao fim de cerca de 4 kms, virámos para a esquerda, seguindo em direcção à praia do cavalo, e entrámos nos single-tracks iniciais (trilhos onde só passa uma pessoa) onde tiveram início as primeiras subidas e descidas da prova.


Altimetria

Este ano o percurso teve a particularidade de ser feito no sentido inverso ao do ano passado, o que nos permitiu efectuar a parte mais técnica da prova ainda com alguma frescura. Na minha opinião, isso foi vantajoso. Por outro lado , a perpectiva sobre as magnificas vistas proporcionadas pelo trajecto foi também a inversa do ano passado, o que terá os seus detractores e os seus apoiantes. Seja como for, a verdade é que o percurso é de facto de uma beleza única e existirão poucas provas de trilhos que permitam o usufruto deste tipo de paisagem natural.

Percurso

O trajecto estava muito bem marcado, com fitas vermelhas e brancas e marcações azuis no solo. Segui, inserido num pequeno grupo composto pelo Renato Velez, pelo Helder Rosa e por mim. Lá fomos cumprindo o carrocel de subidas e descidas o melhor que conseguíamos. Às tantas perdi o equilíbrio e dei uma queda aparatosa, mas sem quaisquer consequências para além de umas pernas e mãos esfoladas.


Caminheiros

Cerca do 13º km, descemos até às ruinas do Forte de São Domingos da Baralha. Depois subimos novamente e entrámos num estradão de areia que nos levou até ao Cabo Espichel, onde encontrámos o primeiro ponto de controlo, por volta do 16º km. Nesta altura seguia em 17ª posição. Depois passámos pelo Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel. A partir daqui a progressão foi relativamente fácil e rapidamente chegámos ao início do troço na praia do Meco, ao fim de 2h36 e 25,5 kms percorridos.

Os 3,5 kms da praia são bem durinhos e enquanto os percorro vou-me perguntando como será fazer 43 kms disto na Ultra Melides-Troia...

Saimos da praia e chegamos ao 2º ponto de controlo. Neste momento já passei para a 11ª posição. Daqui para a frente o trajecto é feito dentro do pinhal, de volta para Sesimbra. Tentei aguentar-me o melhor que podia, mas fui sempre com receio que a qualquer momento me desse um “estoiro” monumental. 

Ao 42ºkm, ao fim de 4h17, entro novamente na pedreira, a caminho do Castelo. Deste ponto em diante a minha prova é practicamente idêntica à do ano passado.

Pedreira

Os quilómetros até ao Castelo são bastante penosos mas vão-se fazendo. Quando finalmente chego lá ao alto, já levo 4h54 de prova.

A partir daqui é sempre a descer! Ganho fôlego e lá vou eu tentar percorrer os últimos 3 km o mais depressa que conseguir. Chego ao porto de abrigo e percorro a marginal até à meta, onde termino no 10º lugar da geral, 6º do escalão, após 5 horas e 12 minutos de muita dureza mas também de muita beleza natural. O meu Garmin marca 50,9 km. O objectivo principal, que como sempre é terminar, foi cumprido, mas, desta feita, com o prazer acrescido de ter melhorado a minha prestação em 1 hora e 20 minutos em relação ao ano passado.



Recebo um abraço do Eduardo Santos, reencontro a minha mulher e filhos, que fizeram a caminhada de 15 kms, e vou confraternizando com os atletas presentes e com aqueles que vão chegando. O Renato chega dois minutos volvidos, com um ar muito fresco, de quem aparentava estar apenas a começar.

Não deixo passar a oferta de uma (na verdade foram duas) cervejinha fresquinha, cortesia da organização. Aproveito a oportunidade para receber uma massagem revigorante, que muito bem me soube. Gostaria também de salientar a presença de insufláveis, que muita alegria deram aos petizes presentes, incluindo os meus filhos.

O Luís Mota teve mais uma excelente prestação, vencendo em 4 horas e 28 minutos. Uma vez mais, a organização de “O Mundo da Corrida” esteve muito bem. É sem dúvida um trail a manter e eu estarei cá para o ano para o fazer novamente.





domingo, 1 de abril de 2012

22ª Meia Maratona de Lisboa


No passado domingo, dia 25 de Março, o dia amanheceu fresco, mas a prometer subida de temperatura e muito sol. Acordei cedo (ainda mais do que o costume, devido à mudança de hora) tomei o pequeno-almoço e dirigi-me para a estação do Arreiro, onde me encontrei com a restante comitiva do Run 4 Fun, pois tinhamos combinado apanhar o comboio das 8h13. E lá fizémos a curta viagem até ao Pragal, divertidos como sempre.

Este ano o acesso ao garrafão da ponte estava facilitado, pois a rampa da descida tinha sido alargada, e como chegámos cedo nem sequer apanhámos a multidão do costume.

Depois esperámos 2 horas que fosse dado o tiro de partida, tentando colocarmo-nos o mais à frente possível. Vislumbravamos o grupo do dorsal VIP, que fazia o seu aquecimento sem restrições, no espaço vazio que medeava a zona de partida e o cordão de segurança, atrás do qual nos mantinham.

Finalmente foi dado o tiro de partida e lá arrancámos a trote em direção ao início, pois a confusão era tal que não permitia correrias.  

A primeira metade da ponte foi feita a custo, em cima do gradeamento, pois era o único local onde se podia progredir sem obstáculos. A descida para Alcantra permitiu acelerar e lá embaixo, a seguir ao primeiro abastecimento, começou finalmente a verdadeira corrida.

Fui em grupo com o Carlos Silva e o Mário Gomes, até que o Carlos ficou para trás, mercê de uma lesão que o tem incomodado, e avancei com o Mário. Fui-me sentindo bem durante toda a corrida e a companhia do Mário foi ajudando a manter um ritmo forte. Para quem já está habituado a fazer distências maiores, 21 km passam depressa.

Já depois da volta de Algés, o último quilómetro custou-me a fazer, o que me deu a sensação que nesta corrida dei tudo o que tinha para dar. Cruzei a meta já em esforço, mas com um sprint final nos últimos 200 metros.

Meta

Mesmo assim consegui bater, por uns diminutos 10 segundos, a minha melhor marca na distância, conseguida no ano anterior, na mesma prova. Terminei em 222º lugar da classificação geral, 36º do escalão, em 1h23'58''.


Esta foi a minha 18ª Meia Maratona, desde que comecei a participar em provas de estrada. Teve um sabor especial, uma vez que a minha primeira prova foi a 12ª Meia Maratona de Lisboa, que teve lugar em Março de 2002, há precisamente 10 anos.

Palmarés

Terminada a corrida, juntei-me aos companheiros, em frente ao Planetário, e tirámos esta bela foto de grupo:

Run 4 Fun

Fui para casa tomar banho e juntei-me novamente ao grupo, na mui agradável Quinta de S. António, na Malveira da Serra, onde um belissimo cozido nos esperava e muita boa disposição e alegre convívio nos prometia o resto da tarde.



Antes de ir para casa, ainda fui ver a esplendorosa vista do mar no Bar "O Moinho".
 E assim terminou mais um agradável e bem passado fim-de-semana.





sábado, 24 de março de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preparação - 1º Mesociclo


Preâmbulo: Ehumilak significa 100 milhas em Basco. Com a particularidade de serem 100 milhas percorridas com 22000 metros de desnível acumulado (11000 D+) em terreno bastante técnico (vulgo, duro) com 48 horas de tempo limite.




Iniciei a minha participação nas Corridas em Trilhos (Trails), em Maio de 2010, no III Ultra Trail da Geira,e logo aí me tornei adepto desta modalidade. Essa é uma prova de uma grande beleza, que atravessa o cenário paradisíaco da Serra do Gerês.

Desde então, já participei em 12 provas de Trail e 7 de Ultra-Trail. Confesso que as minha provas favoritas são mesmo as de Ultra-Trail (distâncias superiores à da Maratona, em Montanha, por caminhos de terra batida ou por trilhos na montanha).

Para mim, a prova  mais emblemática do Ultra-Trail é, sem dúvida, o Ultra Trail do Monte Branco (UTMB), e gostaria muito de a fazer numa data futura. No entanto, uma vez que apenas existem 2500 dorsais disponíveis para fazer a prova e a procura tem vindo a ser cada vez maior (5000 atletas se candidataram para a edição de 2012), a organização exige que todos os atletas cumpram o requisito de pontuar em corridas anteriores, constantes de uma lista previamente estabelecida. Para a edição de 2013 o critério consiste em conseguir 7 pontos num máximo de 3 provas diferentes, cumpridas de Janeiro de 2011 a Dezembro de 2012.

Em 2011 consegui 6 pontos em 3 provas diferentes: 101 km de Ronda, Ultra Trail Serra da Freita, Swissalpine K78.

Em 2012 necessito conseguir pelo menos mais 3 pontos numa única prova. Mas como sou um fulano um pouco insano e algo ambicioso, ouvi falar no célebre Ehunmilak, que dá logo 4 pontos, e constatei que iria ter a companhia de pelo menos mais dois compatriotas companheiros habituais destas epopeias e bons amigos, o Luís Freitas e o Vitorino Coragem, e, após algum matutar, decidi-me! Decidi-me e, bem dito, bem feito, inscrevi-me!

Enviei o certificado médico (que deveria atestar insanidade mental para além de robustez física...) e foi-me atribuido o dorsal nº 19.

Alea jacta est! Os dados estão lançados!
Ave caesar morituri te salutant! Salve César, aqueles que vão morrer te saúdam!

A prova irá ter lugar a 13 de Julho, faltam 4 meses para treinar arduamente. Muito suor, sangue e lagrimas me esperam até meados de Julho.

Para uma prova destas não basta treinar. É necessária também uma forte mentalização positiva e uma familiarização, dentro do possível, com as condições em que irá decorrer.
Para isso já comecei a estudar a informação disponível, quer no site oficial, quer nos blogs da net, bebendo também da experiência de outros companheiros que por lá já passaram.


Txindoki (1338 m)
Subida para o pico do Txindoki
Noite com calhaus...
Bruma matinal


Baseado em tudo o que li até agora, o cenário que se desenhou na minha mente é que esta é uma prova de uma extrema dureza, mas também de uma extrema beleza. E, sem dúvida, um enorme desafio!


Nos próximos meses irei tentar relatar aqui neste blog a trajectória percorrida a caminho desta meta, vertendo nestas páginas electrónicas as dificuldades e alegrias experiencias e a aprendizagem feita ao longo de todo o percurso prévio, finalmente culminando com o próprio evento.


Comecei a preparação específica para este desafio no sábado, dia 10 Março, com um treino na Serra de Sintra, em que tentei simular o desnível que irei encontrar no País Basco. Deste treino julgo ter aprendido algumas coisas (que se aplicam às minhas características, não sendo generalizáveis a todos atletas):

1 - Não é fácil encontrar um local perto de Lisboa onde se consiga obter condições semelhantes às que irei encontrar na prova. Para conseguir cumprir 2500m de desnível positivo tive subir e descer ao alto do Monge várias vezes, ao longo de 46 kms em 7 horas (ou seja, fiz em treino que corresponde a cerca de um quarto do Ehunmilak):


2 - O segredo fundamental da preparação está na recuperação entre treinos. Depois de fazer um treino pesado destes é necessário um período de recuperação, em que se tem necessariamente de aliviar a carga de treinos. É fundamental levar este factor em conta quando se planeia um ciclo de preparação para um prova específica.

3- Não é possível nem desejável simular, na sua totalidade, uma prova desta envergadura num treino. Não adianta muito realizar regularmente treinos muito longos (superiores a 5 ou 6 horas), pois corremos o risco de descurar outras componentes da preparação. O que se pode fazer,  para complementar a preparação, é completar algumas Ultras nos meses anteriores (com moderação).

to be continued...

sábado, 17 de março de 2012

5º AXTrail series 2012

AXTrail series 2012 - Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

 

#01 SERIE - Foz de Alge / Ferraria de São João (04-03-2012)


Percurso
Altimetria


Foi com muito entusiasmo que, eu a Lena e os miúdos, nos dirigimos para Ferraria de S. João, no sábado dia 3 de Março. Iríamos mais uma vez participar na 1ª etapa do Axtrail, que tão boas recordações nos tinha deixado no ano anterior.

Aldeia de Xisto

Este ano alugámos um quarto muito agradável nas Casas do Vale do Ninho, geridas por um casal muito simpático, o Pedro e a Sofia, também ele um experiente aficionado destas provas de montanha.
 
Apesar dos primeiros dois meses do ano terem sido de tempo completamente seco, a meteorologia anunciava chuva para o fim-de-semana, e, assim que chegámos a Ferraria, concretizou-se a previsão: chuva em abundância, nevoeiro cerrado e tempo fresco, a rondar os 12ºC. Mas isso não nos desanimou, e após um pequeno de período de descanso junto à lareira quentinha da casa, resolvemos ir jantar ao mesmo local do ano passado, a Aldeia de Xisto Casal de S. Simão. 

Casal de S. Simão

Chegados ao restaurante “Varandas do Casal”, onde estava sediado o secretariado da prova,  levantámos os dorsais e fomos degustar um excelente repasto, composto por umas apetitosas entradas e uma chanfana bem gostosa. Isto do turismo desportivo tem destas regalias: faz bem à alma e sabe bem ao corpo! No restaurante tivémos a alegria de reencontrar o Emanuel Oliveira, companheiro habitual destas andanças.
 
No dia seguinte, cerca das 8 horas, tomámos um pequeno-almoço abundante e saímos para ir apanhar o autocarro que nos levaria até à Foz do Alge. A prova não é em circuito fechado mas sim linear, terminando no centro de BTT de Ferraria.
 
A Lena e os miúdos dirigiram-se para o Casal de S. Simão onde teria início a caminhada de 5 kms. As caminhadas organizadas pela Go Outdoor são muito estimulantes, pois são orientadas por um guia licenciado em Eco-turismo, que vai prestando informações interessantes acerca da fauna e flora, ao longo do caminho.
 
A prova principal, de 32 kms com cerca de 1300 m de desnível positivo, teve início à hora marcada, as 10 da manhã, após as indicações da organização. O céu estava nublado e o tempo bem fresco, embora nesta altura ainda não chovesse.  A malta da frente arrancou bem rápido, como já é costume. Este ano pareceu-me que existiam muitas caras novas, para além dos habitués. O Trail em Portugal está em franca expansão e vê-se cada vez mais gente nova a participar.

Início da Prova

De acordo com as indicações do José Moutinho, co-organizador da prova e sobejamente reconhecido Grão-Mestre da Confraria Trotamontes, o percurso seria o seguinte (idêntico a 2011):
 
«O percurso Foz de Alge - Ferraria S. João tem início junto ao Rio Zêzere na Foz de Alge. Até chegar à Ponte do Poeiro, o percurso segue por um inevitável estradão com vista para o açude de pesca desportiva, até que entra num trilho novo com cerca de 14 km que acompanha a Ribeira de Alge até às Fragas de S. Simão. Zona bastante técnica com paisagem de conto de fadas até chegar às Fragas de S. Simão. Daí para a frente o caminho é já conhecido daqueles que participaram nas edições anteriores. Passagem pela Aldeia do Xisto do Casal de S. Simão, com a descida técnica das fragas, um pouco de alcatrão entre as aldeias de Além da Ribeira e Azeitão e voltamos de novo ao singletrack que raramente é interrompido por algum pequeno troço de caminho mais largo. Após perto de 4 km de trilho ao longo da Ribeira da Ferraria e ao encontrar as Fragas do Cercal, os atletas vão percorrer as cristas quartzíticas do monte de S. João, numa paisagem aberta e vasta que contrastará com as paisagens mais fechadas que encontraram anteriormente. Após 450m de denível e chegados ao topo, resta a descida até à Ferraria de S. João onde poderão cortar a meta junto ao centro de BTT.»

Ribeira de Alge

Eu fiz os primeiros 4 kms do estradão a um ritmo significativamente mais lento do que no ano passado, pois recordava-me perfeitamente do quanto os 20 kms iníciais moem o corpo. Essa primeira parte da corrida é feita em terreno essencialmente plano, mas com muitas mini-subidas e descidas e saltinhos por cima de raízes, troncos e pedras, que desgastam muito as pernas. Em 2011, após sair desse troço e ter iniciado a subida já perto de Casal de S. Simão é que verifiquei que já não tinha muitas reservas para completar os 12 kms que ainda faltavam. Este ano estava decidido a não cometer o mesmo erro!

Abastecimento

Assim, deixei os atletas mais velozes seguirem ao seu ritmo e fui controlando o meu próprio ritmo. O terreno estava muito húmido e frequentemente começava a chover. Caí algumas vezes, mas nunca em locais perigosos. Uma das quedas foi mais aparatosa, pois levou-me a embater com a coxa contra os troncos que formavam uma ponte improvisada, e deixou-me a perna dorida até ao fim da prova.

Monte de S. João

Depois do Casal de S. Simão, fiz a descida técnica das Fragas, percorri o trilho ao longo da Ribeira da Ferraria e ainda subi a custo cerca de 450 metros até à cumeada da Serra do Espinhal, imersa em cerrado nevoeiro, e depois desci  abruptamente até Ferraria de S. João, onde cruzei a meta, debaixo de chuva, após 3h45m de prova, em 24º lugar da Classificação geral, 8º do meu escalão, tendo concluído a prova 130 atletas. Melhorei 20 minutos em relação ao tempo do ano passado e desta feita não me perdi uma única vez.


Meta

Após o banho revitalizador, fomos almoçar o churrasco da praxe, no pavilhão da Aguda,  preparado pela organização. Gostaria de realçar que a toda a organização, tanto da prova como da caminhada, estiveram impecáveis, como, aliás, é de seu tom. No pavilhão confraternizámos com os restantes participantes deste magnífico evento. Não pudemos ficar para a ceromónia de entrega dos prémios pois tinhamos que voltar cedo para Lisboa.

Para dar um equadramento histórico e cultural, vale a pena deixar aqui o texto que o José Moutinho publicou no Forum do Mundo da Corrida:

«Foz de Alge teve na Historia um papel importante e estrategico para Portugal pois nas suas terras encontrava-se a fábrica de fundição de ferro na margem da Ribeira de Alge, e, sem dúvida, enquanto durou foi factor de desenvolvimento económico e social, contribuindo para a elevação da Arega a concelho durante séculos e deixando até ao presente vestígios de alguma burguesia, existente nesse período.

Estas ferrarias, consideradas as mais importantes, devido à proximidade de matas circundantes (esteva e urse), aproveitadas para o combustível exigido pelo seu funcionamento e localização. De resto, era juntamente com a agricultura uma das riquezas naturais dos habitantes - a exploração do carvão vegetal -.
Infelizmente, de 1759 a 1761 as ferrarias desta zona foram mandadas encerrar. No dizer de Martins da Cunha Pessoa, que mandou examinar, trinta anos depois as ruínas, de duas delas junto à Vila de terá sido por “má condução das lenhas por parte de quem as utilizava”.
Porém, no início do século XIX, foram feitos esforços para por a funcionar as ferrarias da foz do Alge, sob a direcção de José Bonifácio de Andrade e Silva, intendente-geral de minas, e, em cumprimento da carta régia de 18 de Maio de 1801, procederam à reconstrução e chamaram mineiros, fundidores e refinadores, todavia, suspensos em 1807 devido às invasões francesas.
Apesar disso, mais tarde ai foram fabricadas armas que o exército Miguelista utilizou no cerco do Porto.»

Ferrarias

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

XXVIII Maratón Ciudad de Sevilla

Às 5h30 de uma madrugada bem fresca, um Taxi amarelo deixou-me  debaixo do viaduto do Campo Grande. Dei uma voltinha por ali, tentando localizar o ponto onde o autocarro fretado pela colectividade desportiva “A Real Academia” me apanharia para dar início à longa viagem até Sevilha. Às 5h40 liguei para o meu amigo Carlos Silva, que já se encontrava em frente às roullotes, e juntei-me a ele. Com ele encontravam-se mais alguns atletas que também se preparavam para encetar a viagem até ao local da Maratona. Ali estivémos em amena cavaqueira durante algum tempo e começámos a estranhar a camioneta nunca mais aparecer, visto que a hora combinada para nos encontrarmos ali eram as 5h45. Como o autocarro vinha de Mem Martins, fomos supondo que alguem se teria atrasado e como estavamos na companhia de outros atletas, pareceu-nos que havia que aguardar com paciência. Por volta das 6h15 surgiu enfim um autocarro e nós corremos a acercarmo-nos dele. No entanto, já depois de estarmos confortavelmente sentados lá dentro (!), descobrimos que se tratava do autocarro de “O Mundo da Corrida” e não aquele que tão ansiosamente aguardávamos!

Liguei para o nosso companheiro do Run 4 Fun, o Renato Velez, que se encontrava em Setúbal, o local seguinte de paragem. O autocarro já lá se encontrava, pois aparentemente tinha passado pelo Campo Grande cerca das 5h35 e ninguém verificou se nós teriamos embarcado. Felizmente o Renato falou com a organização que se prontificou a esperar por nós enquanto o Carlos conduzia velozmente o seu automóvel até Setubal (ressalvo que a organização se portou sempre impecávelmente connosco).

E foi assim que começou, com um equivoco digno de um filme cómico, uma animada, divertida e cheia de peripécias, viagem até Sevilha.

O autocarro ia cheio com muitas das simpáticas habituais presenças nestes eventos, animados como sempre.

Chegámos cerca das 14h30 locais e fomos logo levantar os dorsais ao estádio olimpico. Depois fomos almoçar as massas do costume e fizemos o check-in no Hotel.  Eu e o grupinho de Setúbal ocupámos dois quartos duplos: eu, o Gonçalo e o Vítor num, e o Renato, o Rui e o Hélder noutro. Posso-vos dizer que foi uma tarde muito animada, na galhofa com esta malta divertida.

Para o jantar, em lugar de massa com molho, resolvi variar e comer molho com massa. Deitei-me cedo e cedo adormeci, pois não sofro da “angústia do guarda-redes antes do penalti.”

A meio da noite mais uma peripécia: tive que me levantar e, que ideia peregrina!, para não acordar os companheiros resolvi não acender a luz e usar o telemóvel como lanterna. Assim que entro na casa de banho, o telemóvel, como que movido por vontade própria, escapa-se-me das mãos e zás, com infalível pontaria, acerta em cheio na sanita.

Mas mais vale passar um véu sobre este acontecimento desagradável e basta dizer que era o único despertador que eu possuia comigo e assim fiquei dependente da wake-up call da recepção, que felizmente não falhou, pontualmente às 7h30 locais.

O resto da malta já tinha partido no autocarro para o estádio, mas nós os 6, mais o Gustavo, tínhamos combinado apanhar um taxi para não sermos obrigados a acordar às 6h da madrugada. Foi uma boa estratégia pois às 8h45 já lá estávamos, no estádio, equipados e prontos para deixar os sacos com a muda de roupa. Estava uma manhã fresca, mas solarenga e que ameaçava aquecer.


Às 9h30 tinha conseguido um lugar excelente, na linha da partida, mesmo atrás do balão das 3h00. Às 9h31 é dado o “tiro de partida” e arrancamos à desfilada por ali fora, espicaçados pelo medo de sermos atropelados no túnel de saída do estádio.

É agora o momento de fazer um flashback para o início de Janeiro. Em Janeiro inscrevi-me no Centro de Treino de “O Mundo da Corrida” no Jamor, com o intuíto de ter um acompanhamento mais profissional e um plano de treinos estruturado.  As primeiras 4 semanas foram passadas a preparar o II Ultra-Trilhos dos Abutres, e sobrou pouco tempo para preparar a Maratona de Sevilha. No entanto os treinos de séries e de força, foram sem dúvida importantes para melhorar a minha capacidade física.

O meu objectivo expresso para esta corrida situava-se nas 2h55, o que constituiria uma melhoria de alguns minutos em relação ao resultado alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa (2:57’58’’).

Fim de flashback. Saí do estádio no encalço do balão, que já era seguido por um grupo muito numeroso. Pouco depois juntou-se a mim o Carlos, correndo descontraído, apesar da lesão contraída recentemente no joelho. Dois ou três quilómetros depois passa por nós o Eduardo Santos, em grande ritmo. Seguimos o balão durante os primeiros 11 kms, pois prosseguia a um ritmo de cerca de 4’07’’/km, o que me permitiria atíngir o objectivo. Contudo os encontrões permanentes, as dificuldades nos abastecimentos e a necessidade de fazer as curvas pelo lado de fora, fizeram-me sentir a necessidade de acelerar e deixar este magote para trás.

Assim avançámos e seguimos os dois sózinhos. Fui ingerindo géis de 5 em 5 km, com a preocupação de manter um nível permanente de energia facilmente mobilizável. Verifiquei constantemente o ritmo cardíaco para confirmar o meu nível de esforço.  Nos primeiro 15 kms rondou os 150 bpm, ou seja, um ritmo muito confortavel.

Passámos à meia-maratona em 1:28’16’’ com boas perpectivas de cumprir o objectivo. Pouco depois, cruzei-me com o João, a Luísa Ralha e a Cristina Caldeira, que iam acompanhar os últimos kms de alguns companheiros Run 4 Fun.

Infelizmente por volta do 26º Km o Carlos teve de abrandar, para não massacrar mais a lesão. Eu continuei em muito bom ritmo até ao 35º Km. O ritmo cardíaco aguentou-se abaixo dos 157 bpm até este ponto.

 A partir daí tive que baixar o ritmo para os 4’16’’/km e depois para 4’20’’/km (o cardíaco foi subindo paulatinamente até aos 160 bpm). O objectivo esfumou-se numa miragem inatingível. As pernas ameaçavam ceder a qualquer momento. Estava a chegar ao limite e eu sabia-o.

Só nos últimos 2 quilómetros é que, acicatado pela próximidade do estádio e pela iminência de nem sequer conseguir melhorar o meu PBT, me atrelei a um compatriota que passou por mim e lá acelerei buscando as restantes forças, onde quer que elas se encontrassem.  Fiz o último km abaixo dos 4’00’’/km e dei o tudo por tudo no tartan do estádio. Na recta final conseguia ver os segundos a passarem no mostrador electrónico: 2:57’54’’...55’’...56’’...57’’ e já está!!!!!


A temperatura fresca e o percurso plano conjugaram-se para criar as condições propícias ao quebrar de recordes pessoais. No meu caso, proporcionaram-me uma melhoria à lá Sergey Bubka (salvo as óbvias diferenças): melhorei precisamente um segundo em relação ao meu Personal Best Time (PBT) oficial, alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa!


Depois revi a malta e fui tomar banho nas instalações do estádio. Juntei-me ao Gonçalo e fomos beber umas cervejas “isotónica” geladinhas.

A malta foi terminando a corrida e juntando-se em redor do autocarro. Iríamos todos juntos almoçar mais uma pratada de massa (acabou por ser paella), na Isla Magica.

E mais uma peripécia se desenrolou ante os meus incrédulos olhos. Na comitiva tinha vindo um senhor mais idoso e invisual, que correu acompanhado por um guia. Entretanto já tinham chegado todos os retardatários e nada de chegar este último par. Começámos a ficar compreensivelmente preocupados, sobretudo quando as 5 horas limite para o encerramento do percurso se completaram.

Lá decidimos ir almoçar, enquanto o Álvaro, da Real Academia, encetava demarches para descobrir do seu paradeiro.

Almocei na alegre companhia do grupo laranjinha, Run 4 Fun, cujos membros se encontravam bastante satisfeitos por mais uma aventura completada com sucesso.

Depois do almoço fomos ver se já havia novidades. Nada! Já havia sido contactada a organização da prova, os hospitais, a polícia e ninguém sabia de nada. Parecia que duas pessoas, uma envergando um dorsal e outra uma indicação fluorescente com a palavra “Guia” tinham desaparecido da face da terra! Eu pensaria que um tal par constituiria uma visão que se destacaria um pouco mais que um elefante cor-de-rosa numa reunião dos alcoólicos anónimos...

Já se conjecturava de tudo. Desidratação, ataque cardíaco, etc, etc (houve até alguém que aventou a hipótese delirante de eles se terem zangado um com o outro...). Mas claro que a verdadeira explicação, que estava prestes a ser revelada, é sempre simultaneamente mais simples e mais fantástica do que qualquer conjectura.

Finalmente lá chegaram os dois, entregues pela organização da Maratona.

O que é que tinha acontecido?

A verdade é que chegados cerca do 32º km foram abordados pela organização, que lhes deu duas opções: ou eram recolhidos naquele ponto ou então seguiam por sua conta e risco, pois a maratona tinha sido encerrada. Temerariamente, resolveram seguir, procurando a marcação azul no chão, mas rapidamente se perderam e acabaram por percorrer bem mais do que os 42 kms. O que é certo é que, numa notável demostração de persistência e determinação, lá conseguiram chegar à meta, no estádio, onde foram então recolhidos pela organização.

Por fim, lá arrancámos com destino a Lisboa, onde chegámos já depois das 22h. O Carlos teve a amabilidade de me levar até casa, onde cheguei cansado mas muito satisfeito por um fim-de-semana bastante agitado e divertido. É desta matéria que são feitas as histórias que hei-de contar aos meus netos, quando os tiver (se não estiver nessa altura muito aterefado a gerar novas histórias noutras aventuras desportivas).