terça-feira, 24 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - 1ª parte

Recinto da partida

O 5º e último mesociclo de preparação para o Ehunmilak teve início a 18 de Junho e terminou com a realização da prova (vide preâmbulo).

Neste último período, por indicação do meu treinador, Eduardo Santos, baixei drasticamente o volume de treino, por forma a chegar descansado a Beasain, no País Basco. Confesso que não foi fácil abrandar. Nunca o é, antes de uma prova importante. Para além disso, desde a Ultra de São Mamede (105 km) que não competia em nenhuma prova, o que me deixa sempre um pouco agitado. Tenho necessidade de descarregar a adrenalina.  Por outro lado, e contraditoriamente, já me sentia algo fatigado pelo inusitado volume de treino.

Questionava-me: será que treinei de mais, será que treinei de menos? Deveria ter feito algo de forma diferente? Nestas circunstâncias só há uma coisa a fazer: ter confiança no treinador. Até aqui nunca me tinha dado mal.

Aliás, a questão inicial passa logo pelo objectivo a estabelecer: será demasiado ambicioso, será pouco? É a eterna dúvida do ser humano e do atleta em particular: “Ser ou não ser?”

Enfim, parti para Espanha com a confiança de quem tinha planeado um objectivo ambicioso mas atingível por um corpo endurecido e uma alma preparada. Sempre tinham sido 5 meses de treino duro e sistemático, caramba!

Parti com toda a família, apoiantes indefectíveis, companhia permanente e bálsamo revigorante, nestas empreitadas “maiores que a vida.”

Família

Chegámos a Alsasua (Altsasu em Basco), na Navarra, a 26 km de Beasain, centro logístico da prova, na 4ª feira dia 11 de Junho.

Tinhamos alugado um agradável apartamento, geminado com outro onde se acomodaria a família do companheiro de aventura, Luís Freitas, que chegaria no dia seguinte.

Seria esta a nossa base operacional durante as 6 noites que iríamos permanecer pelo nordeste espanhol.

Na 5ª feira, para descomprimir, aproveitámos para fazer turismo por Donostia / S. Sebastian, que é uma cidade lindíssima, junto ao mar. Ainda molhámos os pés na surpreendentemente quente água da belissima praia, localizada na baia.

San Sebastian / Donostia


À tarde fomos visitar Larraitz, na base do monte Txindoki (1346 m). Este monte para além de ex-libris da prova, iria ser um dos maiores obstáculos a ultrapassar.

Txindoki

Os miúdos divertiram-se imenso num parque aventura, onde fizeram slide, entre outras actividades.

Os miúdos com o Txindoki em fundo


Às 18h30 encontrámo-nos em Beasain com a família Freitas e levantámos os dorsais. Para os levantar, foi necessário apresentar o material obrigatório para a prova. Este consistia em:

•    BI
•    Mochila (levei a Salomon XT Skin Pro)
•    Reservatório de água com capacidade para 1 litro (a mochila tem um reservatorio de 1,5 l)
•    Reserva de comida (não indicavam a quantidade de calorias, mas eu levei 10 géis de 40 g cada, o que totaliza cerca de 1000 Kcal)
•    Corta-vento impermeável (este item foi sempre o meu maior receio, dada a minha inexperiência com provas noturnas – de noite nunca tinha corrido mais do que 2 horas)
•    Calças abaixo do joelho
•    2 frontais com pilhas de reserva
•    Cobertor de sobrevivência
•    Chapéu
•    Apíto
•    Ligadura adesiva (esta deu-me trabalho a encontrar nas farmácias)
•    Telemóvel

Levei ainda:
•    Camisola térmica de mangas compridas
•    Luvas
•    Gorro
•    Bastões (fundamentais para este tipo de prova)

Após a verificação, a organização prendeu-nos o chip no pulso, forneceu-nos o dorsal (número 19)  e um livrinho muito jeitoso com todas as 16 etapas entre abastecimentos e respectiva altimetria e diversas senhas para vários fins.

Ao voltarmos para o carro, cruzamo-nos alegremente com vários dos elementos do grande contingente português.

Na 6ª feira dormi até às 10 horas (locais), tentando acumular o maior número de horas de sono possíveis. Acordei bem disposto e ansioso porque a prova tivesse início. Tanto eu como o Luís resolvemos não comparecer na Pasta-Party a fim de descansarmos o máximo possível até à hora de partida. Pela minha parte, comi uma pratada de esparguete tão bem fornida que até senti as artérias a entupirem com tamanha quantidade de hidratos de carbono.

No dia anterior a temperatura tinha estado muito alta, mas nós sabíamos que a previsão para esta noite seria de chuva e baixa drástica de temperatura, logo ataviamos a mochila com o material necessário para enfrentar estas condições (no meu caso, corta vento, camisola térmica de mangas compridas, gorro e luvas).

Às 16 horas metemo-nos nos automóveis e saímos em direção a Beasain, com ânimo nos corações e agitação nos pés.

Prespassa pela minha cabeça a lista de material obrigatório e de súbito apercebo-me: esqueci-me dos bastões! Tenho que voltar para trás para os ir buscar. Nem me passa pela cabeça prescindir deles.

Ultrapassado este pequeno contratempo, voltamos à estrada. Chegamos a Beasain, estacionamos e vamos entregar os 3 sacos com as mudas de roupa: um para o km 77 em Tolosa, outro para o km 130 em Etxegarate e o último para a chegada a Beasain.

Vamos encontrando a totalidade da comitiva portuguesa, e tiramos fotos de conjunto, para a posteridade.

Contingente Luso

São 12 destemidos homens e uma valorosa mulher, estes que tiveram a coragem de alinhar na partida e se preparam para enfrentar um dos maiores desafios da sua vida desportiva:

#9 José Morgado
#13 Vitorino Coragem
#19 Luis Ferreira
#32 Luis Freitas
#39 Paulo Costa
#68 José Sá
#84 Daniel Junior
#193 Nuno Silva
#194 Teresa Afonso
#202 Luís Mota
#316 José Simões
#317 Cirilo Santos
#318 Carlos Couto

Pouco depois das 17 horas entramos no recinto fechado em frente à sede da Autarquia. Passamos o chip pelo mecanismo de registo e apontam o nosso número numa folha de papel (usaram sempre estes dois métodos para prevenir falhas no sistema).

Conversamos entre nós. O Paulo Costa confidencia-me que tem uma lesão na perna desde o MIUT (feito recentemente), mas que está esperançoso que esta não o impeça de prosseguir.  É um sinal de grande coragem, enfrentar uma prova desta natureza nessas condições!

Para surpresa minha, o Luís Mota também vai participar. Este homem é imparável! Semana após semana atínge belissimos resultados em duras provas.

O Vitorino Coragem está igual a si mesmo: comunicativo e entusiasmado com a participação na prova. Tem razões para estar: efectuou um preparação muito intensa para estar aqui a 200%.

O Luís Freitas está irrequieto, mas isso nele é normal antes das provas e passa-lhe logo assim que começa a correr. Recentemente sofreu uma lesão que lhe prejudicou muito a preparação para esta prova. No entanto estou certo que lhe irá correr de feição, pois, mercê da nossa participação conjunta em várias provas, já lhe conheço o espírito combativo e dúvido que se deixe esmorecer.


Antes da partida - Foto de José Morgado

Os minutos escorrem lentos. O ar está quente e abafado, pressagiando tempestade. A ansiedade e a adrenalina são palpáveis no ar. Cheira a testosterona ... e a medo.

5... 4... 3... 2... 1... é dada a partida!!!

187 atletas correm entusiasmados pelas ruas de Beasain, emoldurados por uma mui entusiástica mole humana. Parece uma largada de touros. Uns partem lentos, outros muito céleres.

Partida

À saída da Vila encontramos a primeira subida onde somos saudados por um burro que zurra, ataviado com o lenço das festas de San Firmin de Pamplona. Há logo quem questione divertido: “e o burro sou eu?” O proverbial sentido de humor português faz-se sentir nas mais longínquas paragens...

Vou decidido a andar em todas as subidas, no que sou acompanhado pelo Luís Freitas e pelo Paulo Costa. Nas descidas aproveitarei para tomar balanço e acelerar. Mas mesmo isso apenas durou os quilómetros iniciais, após os quais resolvo adoptar uma postura mais defensiva, aproveitando para descer correndo mas com maior precaução. Não convém rebentar já com os músculos quadricípites que muita falta me irão fazer durante a prova.


Luís Freitas comigo na sua peugada

A primeira subida é uma originalidade introduzida no percurso deste ano. Nenhuma das duas primeiras edições tinha passado por um ponto alto de Beasain. A organização decidiu alterar esse estado de coisas fazendo-nos passar pelo Usurbe (707 m) na Serra de Murumendi. Essa primeira subida deu logo para aferir parte daquilo que nos esperava: subidas com inclinações ferocíssimas, seguidas de descidas abruptas como precipícios! Nos primeiros 5 km subimos logo cerca 800 metros! Passou-me pela mente que em Portugal já tinha participado em Trails de 30 km com pouco mais desnível positivo do que isto!


Beasain com o Txindoki em fundo - Foto de José Morgado


Até este ponto ainda não chovia, e ao fim de 10 km chegámos ao 1º abastecimento (K1 – supostamente apenas líquidos), em Mandubia (548 m de altitide), tendo feito 1050 m D+ (desnível positivo) e 600 m D- (desnível negativo) em 1h20. Depois arrancámos para a etapa seguinte, que nos levaria até Zumarraga, passando pelo monte Izazpi (967 m) no km 15.

A descida para Zumarraga é agressiva e há que ter cuidado, sobretudo porque já começou a chuviscar e o terreno irá progressivamente ficando mais escorregadio. Sigo atrás do Luís Freitas e após uns 600 m de D- lá chegamos à vila, 2h54 de prova decorridas, e aproximamo-nos do pavilhão onde se encontra o abastecimento K2. Somos aplaudidos e incentivados pela grande quantidade de publico que se encontra nas ruas, o que, aliás, foi uma constante de toda a prova. Pudera em Portugal ocorrer o mesmo!  Tenho a grande alegria de passar pela minha família (e a do Freitas) que nos veio animar.


Zumarraga - Entrada no pavilhão


Entramos no pavilhão onde aproveito para repousar um pouco e ingerir alimento sólido. 
Os abastecimentos são muito bem providos: consistem em fruta fresca à discrição - melão, melancia, laranja, banana - tomate com sal, frutos secos, bolos secos de vários tipos, sopa, chouriça, pão, fiambre, queijo, coca-cola, sumos, café.

O Luís não deseja prolongar as suas paragens nos abastecimentos, a fim de não arrefecer os musculos, e portanto arranca célere. Ao fim de uns minutos lá o sigo, mas já o perdi de vista. Chegado cá fora, dada a chuva miudinha e o arrefecimento significativo, decido vestir a minha camisola térmica de mangas compridas. Sinto-me bem melhor, mas assim que alcanço a primeira subida íngreme, volto a aquecer.

Este é um problema constante: vestir, despir, consoante a variação do ritmo, do esforço, da temperatura e do vento. Tanto suo em bica, como arrefeço repentinamente. É uma gestão difícil de conseguir.


Subida - foto da organização

 Subo por um caminho muito inclinado no meio de uma floresta mais densa. Uma subida de cerca de 4 km levou-me até ao alto do Irimo (901 m). Sou ultrapassado por um casal jovem que sobe rápido que nem cabras montesas! Onde é que estes Bascos vão buscar toda esta energia?! Quando começo a descer sinto a necessidade de ligar o frontal pois a noite está a cair e já não vejo praticamente nada. Não há luar (é quase lua nova) e o céu está encoberto.


Noite - foto da organização


Apesar do meu Petzl Myo RXP de 140 lumens alumiar o caminho como se fora os faróis de um automóvel, ao início sinto dificuldade em localizar as fitas reflectoras na descida muito inclinada em que vou progredindo. Tenho receio de descer por ali abaixo ao engano e depois ter necessidade de subir tudo novamente para voltar ao trilho correcto. No entanto, apesar da falta de experiência, lá me vou orientando, conforme posso. Verdade seja dita, o percurso está muito bem marcado e não tenho reparos a colocar nesse aspecto. As diculdades surgem sobretudo devido à chuva e ao nevoeiro que se fará sentir nos pontos mais altos.

Às 22h34 (4h34 de prova), noite cerrada, lá chego ao abastecimento de Gorla (668 m), percorridos os primeiros 29 km e tendo começado a minha adaptação à corrida noturna.

Mal sabia eu o que ainda me esperava pela frente...


to be continued...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preâmbulo



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
-    Álvaro de Campos



Perfil Altimétrico

Percurso


O Ehunmilak (vide o meu post anterior) é uma prova pedestre de montanha, com 168 km de comprimento e 22000 metros de desnível acumulado (11 mil a subir + 11 mil a descer), que passa pelos picos montanhosos mais significativos da província de Guipúzcoa, na comunidade autónoma do País Basco. A sua personalidade própria deve-se principalmente aos seguintes factores: a enorme beleza da envolvente paisagística; a feroz inclinação ascendente e descendente dos seus trilhos, que incluem troços de vários quilómetros ultrapassando os 25%; a dureza do seu piso, capaz de desfazer a sola do pé mais rijo; a inconstância caprichosa  da sua meteorologia, que potencia o grau de dificuldade ao gerar autênticos rios de lama e perigosas pedras escorregadias.

Ou seja, um autêntico Adamastor, esperando para nos devorar caso tenhamos a ousadia de tentar a sua travessia.

«Converte-se-me a carne em terra dura;
Em penedos os ossos se fizeram;»
- Os Lusíadas, Canto V.


Psicose:
«O termo psicose é definido como a incapacidade de distinguir entre a experiência subjectiva e a realidade externa, ou seja, existe uma perda de contacto com a realidade.»

O enorme, gargântuo, demolidor desafio que foi para mim o Ehunmilak pode ser definido como a anti-psicose.

Processa-se em 3 estágios em que se vão removendo as camadas externas da psique até restar apenas o eu nu e primevo, imerso numa realidade pre-uterina, uno com o Universo ("no princípio era o Verbo").

Primeiro a Montanha destroi o corpo, fibra por fibra, até não sobrar mais nada para além da mente para nos levar adiante. Seguidamente destroi a própria mente, através do cansaço e da privação do sono, que impedem a concentração e nos dificultam os passos. Por fim sobra apenas a vontade pura para nos levar até ao fim.


Cinco dias volvidos sobre o término da prova, ainda passo horas meditando sobre o que sucedeu na Montanha. Tenho recordações muito mais vivas daquilo que se passou no segundo dia do que ocorreu no primeiro (a falta de sono prejudica a formação de memórias). Ainda tenho dores e abrasões em vários pontos do corpo e ainda tenho dificuldade em sentir o dedo grande do pé esquerdo. Ainda sinto a astenia e o sono profundo que me conquistaram nos dias posteriores à prova.

Contudo, sinto também a calma reconfortante proporcionada por aquele contacto prolongado com a vontade no seu estado mais puro.


Nota:
Da mesma forma que eu ainda me encontro no processo de reconstrução pós-Ehunmilak, esta vai ser uma crónica em (re)construção. Reservo-me, humildemente, o direito de corrigir alguma construção gramatical mal engendrada ou limar alguma expressão menos conseguida, ou até mesmo introduzir algum parágrafo que me faça sentido, à medida que for publicando.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preparação - 4º Mesociclo

Partida do Ehunmilak

Nas 4 semanas que decorreram entre 21/05 e 17/06, completei o penúltimo mesociclo de preparação para o Ehunmilak.

Ao todo, corri 379 kms com 9556 m D+, nadei 10 km, e pedalei 95 km. Neste ciclo não completei qualquer prova, pois quis concentrar-me nos treinos e não me desgastar excessivamente com provas que, pelo seu carácter competitivo, implicam sempre um maior período de recuperação.

As duas primeiras semanas deste mesociclo foram muito penosas. Contrariamente ao que é em mim natural, não sentia vontade nenhuma de sair para treinar, nos treinos arrastava-me, e a recuperação era demorada. O mundo pareceu perder a sua cor e fui tomado por alguma angústia relativa ao bom decorrer da preparação para a prova. Julgo que estava a sofrer do acumular de cansaço físico e sobretudo anímico.

Mas como não há mal que sempre dure, o que é certo é que assim que a minha mente arrebitou (deve ter feito um reboot expontâneo), o cansaço físico desvaneceu-se como nevoeiro sob um sol radioso. E assim, passei de uma quinzena com 145 km e 2650 m D+ de treino, para outra com 235 km e 6900 m D+.





Como muito bem descreve o incomparável Kilian Jornet, num excelente livro sobre a sua vida de trail runner:

«O que é que mudou realmente em relação a ontem? Que mudança ocorreu no meu corpo? Que adaptação ao esforço e que consequências teve? O meu corpo continua tão cansado como na manhã de ontem ou na de anteontem. Os meus pés ainda estão magoados; e os meus joelhos e as ancas também. Então, o que é que mudou esta manhã? Levantar-me da cama para ir tomar o pequeno-almoço não representou uma dura penitência, sem sorrir e com a cabeça em branco e o olhar no infinito. Os meus primeiros passos do dia não foram pesados e dolorosos. A minha consciência, a fala e o olhar não demoraram horas a entrar em ação. O que é que mudou, esta manhã? Absolutamente nada no meu corpo, mas tudo na minha mente.»


Neste momento, e caso consiga cumprir o último mesociclo de treino sem quaisquer lesões debilitantes, sinto-me preparado para enfrentar com confiança o enorme desafio que esta prova representa para mim.


As 7 etapas do Ehunmilak


Da imprensa local do País Basco retirei este trecho que caracteriza bem a mística da prova: 

«La tercera edición de la Ehunmilak y de la Goierriko Bi Haundiak volverá a poner a prueba a los corredores del ultrafondo a partir del próximo 13 de julio (...)

Los trazados más duros y los desniveles más extremos, además de las condiciones meteorológicas, medirán la capacidad de resistencia y la velocidad de los cerca de 500 inscritos en dos carreras que transcurrirán por algunos de los paisajes más hermosos y significativos de la geografía del territorio.

La prueba reina, la Ehunmilak, constará de 168 kilómetros, es decir casi cuatro maratones consecutivos, y un desnivel positivo de 11.000 metros. El trazado, con salida y llegada en Beasain, recorre un total de 29 municipios de las comarcas de Goierri, Tolosaldea, Urola-Kosta, Urola-Garaia y Debagoiena, cruzará los parques naturales de Aizkorri y Aralar, y ascenderá por los montes Txindoki (1.346), Ganbo (1.402), Irimo (896), Erlo (1.026), o Ernio (1.075), o parajes como Larraitz, San Adrián o Etxegarate. Parte del recorrido, además, transcurrirá por el escenario de la maratón Zegama-Aizkorri, una cita ya tradicional en el calendario internacional de carreras de montaña (...)

Pero la fama de la Ehunmilak ha traspasado todas las fronteras, y entre los inscritos figuran también un corredor austriaco, un alemán, un chino, un finlandés, un británico, catorce portugueses y un venezolano (...)

La cifra de abandonos en 2011 aporta otro datos más sobre la extrema dureza de esta prueba: De 203 inscritos, solo 97 completaron el recorrido en el tiempo máximo permitido de 48 horas.»


Tenho 48 horas para concluir os 168 km. Tenciono fazê-lo.


to be completed...

domingo, 27 de maio de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preparação - 3º Mesociclo

"O caminho faz-se caminhando"

Nas 4 semanas que decorreram entre 23/04 e 20/05, completei mais um mesociclo de preparação para o Ehunmilak.

Incluíndo as duas provas em que participei, os 58 km do Oh Meu Deus e os 105 km do UTSM, corri 338 kms com 9461 m D+. Desta vez completei menos 50 kms que no ciclo anterior (mas introduzi mais 800 m D+), pois a preparação e recuperação das provas em que me tinha inscrito obrigaram a reduzir a carga.

A participação em provas é importante como preparação para o objetivo principal, mas, por outro lado, obriga a um aliviar do treino na semana anterior, com o intuíto de chegar em boa forma à prova, e na semana posterior o corpo e a mente naturalmente exigem um período de recuperação.

Já iniciei um novo mesociclo, o penúltimo antes da prova. Esta semana foi preenchida por treino muito leve, pois ainda me sinto bastante massacrado depois dos 105 kms do UTSM e de todas as outras provas em que tenho participado desde o início do ano (UTA em Janeiro, Maratona de Sevilha em Fevereiro, AXtrail e Trail de Penafirme em Março, UTS em Abril, OMD e UTSM em Maio) . Só no fim de semana é que consegui voltar a introduzir algum volume (22 km no sábado + 21 km no domingo).

Até ao Ehunmilak, por enquanto não estou inscrito em mais nenhuma prova, pois tenciono concentrar-me nos treinos, que prometem ser duros!

to be continued...


quinta-feira, 24 de maio de 2012

I Ultra Trail da Serra de São Mamede



“O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.”
- José Saramago, Levantado do Chão


Foto de Paula Fonseca

Paisagem foi o que não faltou no passado sábado. Paisagem bela, bruta, selvagem e domesticada, de cortar a respiração. Paisagem anterior ao homem e com a marca que ele depois lhe deixou, sentado sobre as serras e os montes e deslizando ao longo dos rios e dos vales.

Mas estou-me a adiantar à história. Esta teve início quando em boa hora me inscrevi no 2º Ultra Trail de 100K da minha ainda recente encarnação desportiva, a instâncias de um bom amigo, o Luís Ricardo, natural do municipio de Portalegre. Desta feita para participar no I Ultra Trail da Serra de São Mamede, prova que nasceu da empreendedora iniciativa do Atletismo Clube de Portalegre.






Altimetria da Prova

Percurso da Prova


Conheci o Luís Ricardo no 2º Trail das Terras de Sicó, em 2011, e logo me cativou pela sua alegre expontaneidade, verbo escorreito e trato afável. Desde então cruzámo-nos em mais algumas provas,que nos permitiram alimentar uma amizade forjada na cumplicidade de um forte interesse partilhado e na sua natural simpatia. Como Alentajano hospitaleiro que é, convidou a minha família a partilhar o espaço da sua durante um fim de semana da Pascoa, e assim passámos um par de dias inolvidáveis, a usufruir de tudo o que de melhor o Alto Alentejo tem para oferecer. Pelo meio aproveitámos para fazer um excelente treino pela zona de onde o Luís é natural, e onde vai edificando o seu Refúgio.


Luís Ricardo - Foto de José Sousa
  
Na passada 6ª feira voltámos ao lar da acolhedora família Ricardo, agora para nos prepararmos para a aventura desportiva que se iria desenrolar. Tomado o jantar, dirigimo-nos para o Estádio, onde se encontrava o secretariado em que se levantavam os dorsais e onde iria ter início a prova, às 4 horas da madrugada. Já em casa, só tivémos tempo de preparar o material obrigatório (frontal, pilhas, reservatório com 1 litro de água, 1000Kcal sob a forma de géis e barras, apito e telemóvel) e enfiá-lo dentro da mochila de hidratação. Pouco depois das 22h já estava deitado e a dormir (não sou de ansiedades e há que dormir, que diabo!).

Acordámos cerca das 2h, tomámos o pequeno-almoço indispensável e fomos para o estádio. Tivémos a desdita de comprovar que já estava a chover e que a temperatura estava fresca (estariam uns 10 graus). Encarámos esse facto como um pequeno contratempo e o nosso ânimo não arrefeceu. Na verdade até ficámos mais descansados pois provavelmente não iríamos correr o risco de sobreaquecer com as inclementes elevadas temperaturas alentejanas.

No estádio - Foto de Vitorina Mourato

No estádio encontrámos os cerca de 200 participantes que iriam alinhar à partida e revimos com alegria muitos dos companheiros destas aventuras. Entre eles o companheiro Carlos Santos (Caló) do Run 4 Fun e o Eduardo Santos, de O Mundo da Corrida e meu treinador. A emoção era palpável, sentia-se a tensão na humidade do ar, cheirava a adrenalina antes do tiro de partida. Parafraseando uma personagem de um filme famoso: “I love the smell of adrenaline in the morning...”


Grupo da Frente - Foto de João Faustino

 Às 4h em ponto arrancámos para aquilo que adivinhávamos iria ser uma saga de proporções épicas. A noite estava escura (“e tempestuosa” :-)). Progredimos com o frontal aceso, num grupo que incluia o Luís Ricardo, o Cláudio Quelhas, o Guilherme Hora e moi meme. Avançávamos rápido para tentar evitar os habituais engarrafamentos quando atingissemos o troço mais técnico no single-track junto ao ribeiro. Aos 10 km passámos pelo primeiro PAC (posto de abastecimento e controle) nos Viveiros e aos 17 kms passámos pelo PAC2, em Alegrete, freguesia muito pitoreca, com um pequeno Castelo bem conservado. Estavamos com 1h33 de prova. Encontráva-me em 21º Lugar, mercê do forte ritmo imposto neste início de prova (5’30’’/km).

A caminho das Antenas

Aqui teve início a longa e progressiva ascenção para o PAC3 nas Antenas. Ao fim de 2 horas de prova resolvemos desligar o frontal pois o dia já começava a clarear e, de qualquer forma, no meio de todo aquele nevoeiro a luz do dito espalhava-se muito difusa , tornando o ar opaco. Por enquanto ainda fazíamos as subidas todas a correr, no entanto quando chegámos à última subida, perdemos todas as veleidades de o fazer pela sua brutal inclinação. Com esforço, lá conseguimos chegar ao PAC3, aos 30 kms, no ponto mais alto do percurso (cerca de 1000m), com 3h15 de prova e ainda em 21º lugar.

Eu sabia bem que, para as minhas capacidades, este ritmo era demasiado violento para uma prova 100 km, mas com o entusiasmo do início e a alegre companhia (o Luís contava estórias e episódios picarescos que muito nos divertiam) os kms foram passando rapidamente. 

Foi neste ponto que perdi o Luís. Segui atrás do Cláudio e começámos a descer para a Barragem da Apartadura, onde chegámos uma hora depois (aos 39,5 kms).

Barragem da Apartadura - Foto de Macedo

Daqui seguimos para a o PAC5 em Porto Espada onde chegámos, juntamente com o Vasco Marques, com 5h21 e 48 kms nas pernas. Mantinha-me em 20º lugar. O tempo continuava húmido e fresco, com chuva ocasional, mas nunca necessitei de recorrer ao corta-vento que trazia na mochila para qualquer eventualidade.


Bruma - Foto de João Faustino

A esta altura já sentia as pernas bem pesadas e interrogava-me como iria estar quando chegasse a Marvão, o ponto fulcral da nossa aventura. O tempo foi limpando à medida que nos aproximávamos de Marvão e pudemos apreciar o magnífico cenário, luxuriantemente arborizado, que se desenrolava diante de nossos olhos. Castanheiros, carvalhos, vinhas e olivais espalhavam-se pela paisagem.

Às 10h da manhã atravessámos o Rio Sever e pouco depois do km 55 encontrámos o Jorge Serrazina e o João Faustino. Duas semanas antes o Jorge tinha sido 9º nos 108 kms do OMD e na semana anterior o João tinha sido 2º nos 101 kms de Ronda. Atletas incansáveis estes, para quem provas de 100 kms são apenas aquecimentos para as grandes aventuras de 330 kms na montanha.

Subida para Marvão

 Contornámos a serra e iniciámos a tortuosa subida para o Castelo, que se divisava alcandorado no alto do maciço rochoso. Quando já julgávamos estar perto das muralhas e de um brave mas merecido repouso, eis que somos obrigados a inflectir para a direita e iniciar uma descida que me levou a questionar-me se não teria falhado alguma marcação, não fosse esta já a saída de Marvão. Mas não, o caminho era mesmo aquele. Desventurados de nós que tivémos então que iniciar uma nova subida, muito mais inclinada, a exigir tracção integral e muito fôlego.

Subida para Marvão - Foto de João Faustino

 Ao fim de um tempo interminável, entrei na porta do Castelo, onde nos esperava o João Carlos Correia do ACP (este homem, para além de incansável tem o dom da ubiquidade pois estava em todo o lado numa preocupação constante que tudo estivesse bem com os atletas). 

Às 11h05 (7h05 de prova) cheguei ao tão almejado PAC6, onde me reestabeleci com uma sopa quente, bananas, muitos gomos de laranja, coca-cola, etc. Os abastecimentos foram sempre excelentes, mas foi sobretudo a partir deste ponto que eu comecei a comer como um alarve, dado o dispêndio energético que já tinha sido feito para completar estes 60 kms iniciais. Curiosamente neste momento estava com um tempo e quilometragem idênticos aos que tinha feito no Oh Meu Deus, duas semanas antes (onde participei na prova de distância intermédia).

Vila Medieval de Marvão - Foto de autor não identificado

Neste ponto tinha ganho alguns lugares e estava agora em 14º. Dispensei a troca de roupa e saí das muralhas em direcção a Carreiras. A descida até Portagem foi bastante penosa pois foi feita por um estradão de empedrado irregular que, a cada impacto, me dava a sensação de  facas a espetarem-se nos meus pobres e muito massacrados pezinhos.

Calçada Medieval - Foto de João Faustino

Quando cheguei cá abaixo e passei a ponte sobre o Rio Sever deparei-me com dois companheiros perdidos, o Francisco Costa e o Rúben Pedro. Ao que parece as marcações tinham sido removidas por alguém. Andámos pela povoação desnorteados. Pedimos indicações à GNR, mas ninguém nos sabia orientar, até que passou um ciclista (da organização?) que nos voltou a colocar no rumo certo.

Os dois companheiros distanciaram-se pois eu já não conseguia manter um ritmo muito vivo. Penei até Carreiras, onde se encontrava o PAC7, aos 70 kms. Continuava em 15º mas tinha já 8h15 de prova e perguntava-me quando daria um estoiro monumental. Felizmente a minha mulher e filhos, juntamente com a mulher e filha do Luís Ricardo, encontravam-se neste posto para me receber e animar. O meu filho fez-me uma exuberante “guarda de honra” até ao abastecimento, que muito me animou. Confessei à minha mulher que já estava todo partido mas ela replicou que os que tinham passado antes não iam melhor.

Helena e Rita

Engoli um cubo demarmelada, hidratei-me e decidi que não era necessário reabastecer de água a mochila. Parti em direcção a Castelo de Vide. Subi uma calçada medieval com cerca de 3 kms. Na realidade o PAC8 não estava situado em Castelo de Vide mas sim no alto da Senhora da Penha, portanto quando comecei a ver Castelo de Vide do outro lado da encosta onde me encontrava, imaginei desconsoladamente que ainda teria que descer e subir para lá chegar. Mas não, aos 77 kms, com 9h20 de caminho, cheguei ao PAC8 onde reencontrei a minha família.

Alimentei-me e fui informado que o próximo PAC se encontrava a 14 kms. Na realidade este penúltimo troço teve cerca de 16 kms, o que, psicológicamente, foi algo difícil de gerir, pela distância inesperada, pois os abastecimentos são sentidos como uma espécie de oásis onde nos abrigamos da inclemência do caminho. Nesta altura da corrida estava tão massacrado que já ansiava pelas subidas, pois eram ocasiões em que me podia dar ao luxo de caminhar em lugar de correr, dado estar certo que neste ponto do campeonato todos os outros atletas faríam o mesmo. Nesta altura fui ultrapassado pelo Guilherme Hora, que estava a fazer uma corrida muito inteligente, detrás para a frente (nestas provas longas a estratégia é essencial para gerir inteligentemente o esforço).


PAC9 - Foto de Daniel Casado

Ao 93º km lá cheguei finalmente ao PAC9 no Convento da Provença, com 11h27 de prova. Os atletas que lá estavam pareciam completamente demolidos, átomo por átomo. O camarada que seguia em 6º lugar tinha acabado por desistir neste ponto. Eu tinha agora 13 companheiros à minha frente. Mais uma vez a minha família se encontrava lá, indefectível à minha espera. Retrospectivamente, estou certo que a sua presença neste três últimos PACs foi essencial para que eu não esmorecesse.

Família - Foto de Daniel Casado

Daqui para a frente os restantes 12 kms foram integralmente geridos com o coração porque as pernas gritavam permanentemente por misericórdia, que tivesse dó e parasse. Os ultimos 5 kms foram já feitos com Portalegre à vista, o que constituiu uma espécie de tormento de Tântalo, ver ali a meta tão perto e ainda não lhe conseguir chegar...

Estádio - Foto de João Faustino

Por fim, entrei no estádio, ao som da música dos Queen: “We are the champions my friend... ”

Uma última volta final à pista e eis que cruzo a meta, fisicamente completamente destroçado mas com uma enorme satisfação anímica. As longas hora de treino, e o cumprimento dos planos que o Eduardo Santos me vai elaborando regularmente, têm dado frutos.

Fui 11º da classificação geral e 4º do meu escalão M40, com 105 kms percorridos e 3400m D+ (desnível positivo) em 13h03.


 Há quem diga que a dor é temporária mas a glória é para sempre. Respondo eu que qualquer um que corra durante 13 horas seguidas confirmará que esse “temporário” assemelha-se muito a uma infinita eternidade.


Família no Pódio - Foto de Helena Bárrios
 
O vencedor da prova foi o Luís Mota, com o extraordinário tempo de 10h39!

Cumprimentei o Guilherme Hora e o Cláudio Quelhas, que já tinham chegado, e esperei pela minha família que chegou pouco depois. Fui para a massagem relaxante, tomei um banho que me soube maravilhas e alimentei-me.

Depois do Luís chegar (muitos parabéns para ele, que completou galhardamente a sua primeira ultra de 100K!) ainda fomos jantar o excelente repasto que a organização nos tinha preparado. Souberam-me especialmente bem as 3 imperiais geladas que ingeri. Depois voltámos para casa do Luís e para o descanso dos guerreiros.

O Alentejo tem fama de ser plano mas a região de Portalegre não o é seguramente! Esta foi uma prova bem difícil, pelas subidas e descidas acentuadas e pela dureza do piso. Mas é assim mesmo que se querem as provas de trail e esta merece indubitavelmente os 3 pontos que lhe foram atribuídos. Para além disso, a beleza da paisagem é inexcedível e a organização esteve impecável. A longa e meticulosa preparação, empreendida pelo Atletismo Clube de Portalegre, concretizou-se num evento sem falhas. São de destacar a quantidade e qualidade da informação que foi sendo colocada na site da organização ao longo dos meses que antecederam a prova, os vários treinos prévios que cobriram todo o percurso, a abundância dos abastecimentos e a simpatia dos voluntários nos PACs, etc, etc.

No domingo ainda aproveitámos a hospitalidade da família Ricardo para efectuarmos um belíssimo passeio a Marvão, Portagem e Castelo de Vide, com roteiro gastronómico pelo meio.


Peço que me desculpem a extensão enfadonha desta crónica mas como diz  Saramago:

“Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.”
- José Saramago, Levantado do Chão

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Oh Meu Deus Trail Run (50 km)



«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo.»

Assim tem início uma das mais conhecidas obras primas da literatura, Cem anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez. Tal como Aureliano Buendía gravou na sua memória uma imagem indelével da essência mágica da vida, daqui por muitos anos, perante a iminência do esquecimento final, também eu me hei-de recordar desses dias distantes em que calcorreei serras e montes, atravessei ribeiros e vales, transido pelo puro prazer de encher o coração de sangue e os pulmões de ar.

A minha aventura mais recente teve lugar na nossa Montanha Mágica, a Serra da Estrela, onde participei empenhadamente no Oh Meu Deus Trail Run, na distância de 50 kms. Esta prova está na sua 2ª edição, e este ano foi composta por 3 etapas, de uma série que teve início a 14 de Janeiro em Proença a Nova, continuou a 10 de Março em Vila do Rei e acabou a 5 de Maio em Manteigas. Nesta última, tiveram lugar 3 provas distíntas, uma, mais curta, de 20 kms, outra de distância intermédia com 50 kms e a prova rainha com 104 kms.

Altimetria

Com reserva para 4 (a família inteira, como já é habitual) marcada no Hotel Vale do Zêzere (que excedeu as minhas expectativas), partimos de Lisboa às 19h20 de 6ª feira dia 4. Ainda chegámos a tempo do briefing no Auditório Municipal, às 22h20. Encontrei logo algumas das caras conhecidas, o Sousa, o Serrazina, a Célia, entre outros. Dados os precalços com que decorreu a prova do ano passado (incluindo atletas que se perderam e esperaram horas para serem localizados), este ano a organização mostrava-se muito cautelosa, avisando constantemente para o perigo de determinada subida, ou troço mais complicados, alertando para o frio e vento previstos.

Hotel Vale do Zêzere
Às 23h instalámo-nos confortavelmente no hotel, jantámos as sandes e a fruta que tinhamos levado connosco e deitámo-nos logo que possível. Arrumei o equipamento que usaria no dia seguinte, para evitar acordar os miúdos quando me levantasse de madrugada. Tive sérias dúvidas acerca do que levar, pois o tempo anunciava-se frio e com chuva, mas, por outro lado, sempre que corro aqueço o suficiente para não sentir o frio.

Ainda não eram 5h30 e eu já estava acordado, pronto para correr. Vesti a roupa, desci para tomar um pequeno-almoço rápido e frugal e dirigi-me para o local de partida. Lá, reencontrei o Manuel Azevedo, o Gustavo Santos e vários outros companheiros destas aventuras. A partida das duas corridas seria dada em simultâneo, o que na minha opinião foi muito positivo, pois assim os 74 participantes dos 104 kms seriam acompanhados pelos 44 dos 50 kms e todos estaríamos menos sós ao longo do percurso.

Partida

Às 7h em ponto foi dado o tiro de partida e arrancámos pela vila acima, bem protegidos pelos impermeáveis. Ao fim de 3 kms removi o impermeável, apesar da chuva miudinha que caia esporadicamente. Saídos da povoação, entramos num misto de estradões e single-tracks com alguma tecnicidade, a caminho da Pousada de S. Lourenço. Ainda atravessámos o Mondego por duas vezes antes de chegar à Pousada.


Quanto a mim, a prova dividiu-se em 3 troços. Teve um 1º troço com uma subida à Pousada e regresso até ao campo de futebol de Manteigas, onde estava o 1º abastecimento  (apenas liquidos), aos 18,5 kms. Depois um 2º troço que subiu até à Torre, onde estava o 2º abastecimento (líquidos e sólidos) aos 36 kms e 1991 m de altitude. E por fim o 3º troço, que nos levou de volta até Manteigas, aos 730 m de altitude.


1º troço

Fui o 5º atleta a passar pelo 1º abastecimento e nessa altura constatei, com alguma surpresa, que provavelmente me encontrava em 1º lugar na prova dos 50 kms (nos postos não havia identificação de atletas por provas). Isso deu-me animo e arranquei rápido para iniciar o 2º troço. Este começou com um estradão, que subia pela encosta norte do Zêzere. Nesta altura corria isolado. Aos 20kms não vi uma fita que assinalava uma descida. O Rui Seixo, que vinha um pouco atrás de mim, também não viu. Penso que deveriam ter marcado melhor essa descida, mas isto poderá ser uma opinião parcial, feita em causa própria. Seja como for, julgo que as marcações, feitas com fita cor da laranja fluorescente, eram bem visíveis e frequentes, mas pecavam por não obedecer a um código claro, como é habitual em provas de trail (por exemplo, quando há saídas de estradões deveria existir uma fita ao comprido no chão do estradão, para indicar que essa direção termina ali).

Este engano resultou em 2 kms a mais, e várias paragens e indecisões, até reencontrarmos o caminho, na descida para o rio. Aí reencontrámos vários dos atletas que já tinhamos ultrapassado anteriormente e forçámo-nos a estugar o passo a fim de os ultrapassar novamente. Aqui permito-me um parentesis para sublinhar o alento de que usufrui na companhia do Rui Seixo, que conheci durante a prova, e que foi para mim uma ajuda preciosa. Competimos em provas distíntas, ele nos 104 kms e eu nos 50 kms, mas até Manteigas fizémos a maior parte do percurso juntos (grande atleta, ele, que acabaria por terminar em 6º lugar a prova dos 104 kms).

Zêzere

Atravessámos o rio sobre uma ponte de pedra (ou cimento) e subimos paralelos ao Zêzere, ao longo do vale, com os pés quase permanentemente enfiados dentro de água. Este rio nasce a cerca de 1900 m de altitude, junto ao Cântaro Magro, onde define um vale glaciar.

Vale do Zêzere

Nave de Santo António

Quando chegámos ao início do vale (lindíssimo), subimos até à Nave de S. António por um single-track duríssimo, onde eu só conseguia pensar que no País Basco irei ter que penar com 2 dias inteiros de subidas com um grau de dificuldade comparável...

Percurso

Chegados à rotunda, cá em cima na estrada, perto do Centro de Limpeza de Neve, entramos no alcatrão em direção à Torre. Pouco depois inflectimos à esquerda e entrámos noutro single-track diabólico, o Caminho do Major, com muito calhau e alguma neve escorregadia. Aqui já comecei a sentir os efeitos do ar mais rarefeito e progredi com bastante dificuldade. Este foi, aliás, o bocado que me custou mais a percorrer. Ao fim de um tempo que me pareceu uma eternidade, finalmente saímos do estradão e voltámos ao alcatrão.

A caminho da Torre

Alcançámos o abastecimento da Torre, no meio do frio (estariam uns zero graus), do nevoeiro e da neve, e dei comigo a sentir-me mais esfomeado do que um urso depois da hibernação invernal. Era o 7º atleta a passar por este controlo, mas não fazia ideia de quantos desses companheiros estariam a fazer a prova dos 50 kms.

Aproveitei para reestabelecer as forças, com uma canja de galinha quentinha, chocolates, amendoins, marmelada, coca-cola, etc. Nem sei como é que o meu estomago não se virou do avesso com esta misturada. O que é certo é que a pausa e os alimentos me deram um novo alento e, juntamente com o Rui, consegui descer, pela estrada, novamente até à rotunda, a um ritmo de 4’30’’/km.

Da rotunda direcionaram-nos para os Poios Brancos, no cume da Serra, por um trajecto virgem, de progressão difícil, aos saltinhos por cima de inúmeros calhaus, até que tiveram início os estradões.

De regresso para Manteigas

Após um percurso que pareceu interminável (estávamos à espera de fazer 51 kms até à meta mas os nossos Garmins marcaram 60 kms e picos) lá iniciámos a descida para Manteigas. Ao subir pelo meio da vila, via o fim a aproximar-se. Alguns minutos depois, foi com uma grande surpresa (e alegria) que descobri ter sido o primeiro da prova dos 50kms a cruzar a meta.

Fui 1º Classificado da Geral (na prova de distância intermédia, que estava prevista ter 51km mas acabou por ter 58km para a generalidade dos atletas). O meu Garmin marcou 60,3 km com 2575m D+ em 7:00:02. O tempo oficial foi de 07:01:07.






A verdade é que os grandes tubarões estiveram na prova de 104kms :-) Apesar de tudo, foi para mim uma prova bem dura e um 1º lugar sempre é um 1º lugar :-)


O único cheirinho que tinha tido anteriormente de um pódio, tinha sido no K42 do Axtrail, em Outubro de 2011, onde fiquei em 3º lugar do escalão Vet I.

Fiquei para a massagem revigorante, para o almoço retemperador, para o são e alegre convívio e, “last but not least”, para o pódio. O Rui seguiu para completar os 50 kms que ainda lhe restavam fazer na prova rainha (que acabou por ter cerca de 108 kms).

Enquanto esperava, pude ver chegar vários atletas dos 104 kms, alguns deles muito desagradados com o facto de se verem obrigados a completar mais kms do que o esperado. Compreendo bem o seu ponto de vista, pois se para mim os kms a mais foram feitos durante o dia, com condições atmosféricas e de visibilidade razoáveis, para eles esses kms iriram ser feitos durante a noite, em condições muito piores. Pior ainda foi para aqueles que foram desclassificados no ponto de controle da Torre, por ultrapassarem o tempo limite estipulado para esse ponto, apesar de terem sido obrigados a fazer mais kms do que era suposto.


À posteriori, de acordo com o site da organização, «a semana que antecedeu a prova foi de muita chuva, frio e neve. Adivinhava-se uma dia de prova difícil para todos. No próprio dia de prova, após a partida, a organização ainda estava limitada nos acessos ao ponto mais alto. Ainda tinha de alterar o percurso. Assim o fez com um acréscimo de quilómetros.»

«O dia 5 de Maio e a terceira etapa de 2012 ficam marcados um tempo que teve de tudo: Sol e temperaturas quentes, chuva e vento, neve, nevoeiro e temperaturas negativas. Para ajudar os mais lentos, a lua cheia( uma das mais brilhantes dos últimos anos, apareceu para iluminar os trilhos mais sinuosos.»

Enfim, a prova é muito bonita, eu gostei muito de a fazer, e penso voltar para fazer a prova maior (a próxima edição promete ter 140 kms), mas a organização necessita claramente melhorar alguns pontos. No entanto, ao que parece, este ano já esteve bem melhor do que no ano passado e não me consta que tivesse ocorrido nenhum drama na edição deste ano.

Organizar um prova desta envergadura, num local extremamente imprevísivel (e perigoso) como a Serra da Estrela, deve ser um empreendimento muito complexo e deve exigir uma atenção minuciosa a muitos detalhes. Acho salutar que exista uma equipa que se abalance a enfrentar esse desafio.

Quanto ao tempo, e apesar de todos os avisos da organização, não sofri com frio, apesar de pouco agasalhado. Durante o dia julgo que tivemos sorte pois, apesar do tempo fresco, apenas chuviscou ocasionalmente e o vento foi brando. Não sei ao certo quais foram as condições meteorológicas durante a noite, mas terão sido certamente bem mais duras, e debaixo da escuridão.

Tudo o que sei é que a prova rainha foi ganha pelo Pedro Marques, de O Mundo da Corrida, com um fantástico tempo de 11h59. O conjunto das 3 séries da prova longa foi ganho pelo Luís Mota, do ADR Águas Belas.

Depois de partilhar a minha alegria com a minha mulher e filhos, companheiros indefectiveís das minhas aventuras, saímos para visitar o vale, que é lindíssimo (é um vale em forma de U, típico dos glaciares, com inúmeras cascatas, jorrando água, e casinhas de granito, montadas como legos).  Subimos até à Torre, onde os miúdos se deliciaram com a neve, e, apesar de não estarem suficientemente agasalhados, não queriam arredar pé.





À noite jantámos, no restaurante do Hotel, uma explêndida Chanfana à moda da Serra e uma dose de Feijocas. No dia seguinte, ainda tivémos a oportunidade de visitar o belíssimo Vale do Rossim, com a sua barragem e parque de campismo, e ainda a aldeia mais alta de Portugal, o Sabugueiro (1050 m), onde comprámos um apetitoso queijo da Serra (que, nos últimos dias, tem estado a dar cabo da minha dieta equilibrada).

Acabo esta crónica como comecei:

«Ao ser destapado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:
— É o maior diamante do mundo.
— Não — corrigiu o cigano. — É gelo.»

Diamante ou gelo, a magia está ao alcance da mão (ou do pé)...