domingo, 21 de outubro de 2012

II Grande Trail Serra D'Arga



Sexta-feira, dia 5 de Outubro de 2012. Este feriado, o último em que se comemora a Implantação da Republica Portuguesa, que teve lugar em 1910, veio mesmo a calhar. Para quem não se recordar, nesta data comemora-se também o reconhecimento da independência do Reinado de Portugal, consubstanciada na assinatura do Tratado de Zamora por D. Afonso II de Leão e Castela, em 5 de Outubro de 1143. Ora, nos tempos conturbados que se vivem, esta independência anda um pouco ameaçada, como aliás já o esteve noutras ocasiões, e mais, ao longo dos seus quase 900 anos de história.

Mas basta de história. Dizia eu que o feriado veio mesmo a calhar porque neste fim-de-semana teria lugar em Caminha no Minho, a 2ª edição do Grande Trail Serra D'Arga. Assim pelas 14 horas já nos encontrávamos a caminho do norte, a família inteira iria participar no evento desportivo.

Após uma viagem mais rápida do que o previsto, lá chegámos ao Hotel Portas do Sol em Caminha, onde no dia seguinte teriam lugar as II Jornadas Técnicas do Trail.

O Norte evoca sempre em mim as férias da minha infância, passadas na ria de Aveiro, no Torrão do Lameiro, pequena povoação perto de Ovar. Os telhados das casas, as culturas, os cheiros, tudo me faz lembrar esse período feliz.

No sábado tivemos a grande alegria de reencontrar muitos dos amigos e habituais participantes nestas corridas pedestres na montanha. Esta prova teve uma enorme adesão, com 450 inscritos em cada uma das distâncias maiores, os 45 km e os 21 km, e ainda cerca de 140 inscritos nos 12 km, testemunho da qualidade organizativa e da enorme popularidade do Carlos Sá, o nosso atleta mais reconhecido e que muito tem feito pelo desenvolvimento da modalidade em Portugal.

De resto, o Trail Running é uma modalidade em grande expansão, e que suscita um interesse crescente entre a população portuguesa. Desejamos que assim continue pois, quanto a mim, trata-se de uma modalidade com grandes virtudes e que potencia valores muito positivos como sejam, entre outros, o são convívio, cooperação, entre-ajuda, respeito pela natureza, auto-superação, vida saudável, etc.

Nesta prova tive a oportunidade de constatar várias dessas qualidades empregues em benefício da minha pessoa. Mas estou-me a adiantar ao relato dos acontecimentos.


Dr. Pedro Amorim - Jornadas Técnicas do Trail

Comecemos por descrever brevemente as Jornadas Técnicas. Tal como no ano passado, o programa foi novamente muito interessante e tivemos a oportunidade de ouvir o Carlos Sá, o "Ultra Man" António Nascimento, o Dr. Pedro Amorim, e o Marco Olmo. O Carlos falou-nos das suas experiência na MDS e UTMB. O António, da sua preparação e participação no UltraMan do País de Gales (10 km natação + 421 km ciclismo + 84 km corrida). O Pedro falou-nos de lesões desportivas. O Marco inspirou-nos com as suas17 participações na MDS e 2 vitórias no UTMB, e os seus 64 anos de idade sempre muito activos e longe da idade da reforma. Sobretudo todos eles nos inspiraram respeito e admiração com o seu modo simples de partilhar connosco os seus extraordinários feitos.


Run 4 Fun no restaurante

Fomos jantar com os companheiros de equipa do Run 4 Fun a um Restaurante muito agradável, o Rio Coura. Degusta-se um polvo com broa e um cabrito excelentes, com uma companhia muito agradável.



Partida do GTSA 2012

No domingo tivemos um início de dia abrupto quando o telemóvel começou a apitar descontroladamente e não havia maneira de eu o conseguir desligar. Devo ter acordado a família inteira, quando finalmente lá o consegui calar. Eles iam participar na prova de 12 km, que só teria início às 10 horas, portanto tinham direito a mais umas horitas de sono.

Às 6 da manhã, juntei-me ao Paulo Jorge na sala do pequeno-almoço onde abasteci abundamentemente o estomago. Depois partimos para Dem, povoação a cerca de 10 km do Hotel, onde teria lugar a partida da Maratona.


Zona da partida

No local de partida, entre outros companheiros, encontrei o Carlos Monteiro. Decidimos correr juntos, para nos apoiarmos mutuamente. Foi uma excelente decisão, pois mantivémo-nos juntos durante a maior parte da corrida o que nos ajudou bastante.

No ano passado vimos frustada a vontade de cumprir a distância por inteiro devido às condições meteorológicas desfavoráveis (ver meu post do ano passado). Este ano o céu apresentava-se limpo e o tempo ameaçava aquecer.

Foto de Lina Batista

 À oitava badalada da torre da Igreja é dada a partida e lá arranca a mole humana, os primeiros a tentarem posicionar-se para não perderem muito tempo no single-track que se avizinhava e os menos competitivos mais lentos e mais descontraídos.

Os primeiros 3 km são feitos sempre a subir, e temos que vencer uma forte inclinação.

Ao fim de alguns quilómetros somos ultrapassados pelo companheiro Zé Guimarães, sempre em grande forma.


Foto de Ruben Huertas

Passamos pelo rio, muito escorregadio e tenho aqui o meu primeiro percalço ao embater com a coxa numa rocha, o que me provoca uma perna dorida para o resto da prova.

Aos 21 km passamos por S. Lourenço onde se encontra a meta da Meia Maratona. Pouco depois reencontramos o Zé e o Paulo Costa.

O percurso é muito duro. As subidas são demolidoras e as descidas arrasantes.

Antes da ultima subida começo a sentir fortes caimbras nas coxas e nos gémeos. Felizmente, apesar disso continuo a conseguir progredir. É muito raro ser atacado por caimbras, o que me revela a dureza do percurso.

Consigo chegar ao último abastecimento ainda a sentir-me com força bastante para completar os últimos 3 km sem esmorecer. A prova está-me a correr bem, e o meu Garmin marca 42 km feitos em 5h48.

Infelizmente ao virar da esquina o desastre espreita!

Assim que inicio a descida para Dem, tropeço numa pedra e caio desamparado sobre umas rochas, o que me faz sofrer várias escoriações, um punho dorido e um golpe num sobrolho, o qual é passível de ter provocado alguma inquietação entre os companheiros que passaram a seguir, pois deve ter escorrido aparatosamente algum sangue sobre o meu rosto. Na altura fiquei algo desorientado e como não via nada do olho esquerdo confesso que receei o pior.

Felizmente nada era de grave a após o sangue ter sido limpo por um bombeiro, e me terem passado as caimbras que me assolaram após a queda, lá prossegui até à meta no ritmo possível.

Gostaria de realçar o ENORME espírito de camaradagem que existe entre os atletas desta bela modalidade: não houve nenhum atleta que não parasse para indagar do meu estado, e para inquirir se poderia ser de algum auxílio, atrasando-se alguns minutos preciosos e comprometendo assim a sua prestação na corrida. Inclusíve, os primeiros que me viram voltaram algumas centenas de metros atrás ao abastecimento para ir buscar auxílio. Isto só revela da grande qualidade humana e do enorme espírito de entre-ajuda que se encontra entre estas pessoas. Pela minha parte fiquei muito sensibilizado e gostaria de agradecer publicamente a todos esses companheiros.

Um grande BEM HAJAM para todos!


Meta

Na meta fui recebido calorosamente pelo Carlos Sá, que fez questão de receber todos os atletas à medida que chegavam.

Apesar do meu percalço, considero que foi um belíssima prova, uma excelente organização, e um óptimo dia para correr. Para o ano estarei cá novamente.



Equipa Run 4 Fun

Entretanto, o Run 4 Fun tinha uma vasta equipa a participar nos 12 km, com 600 m D+, entre eles a minha companheira e os nossos dois filhos.


Foto de Manuela Cruz

Também eles adoraram a prova. No fim tiveram todos direito ao colete de Finisher, o que os deixou impantes de orgulho.

A equipa ficou classificada em 3º lugar e teve direito e troféu.


Troféu do 3º lugar por equipas

Muitos parabéns para a equipa, quase integralmente feminina!!!

Vários outros companheiros Run 4 Fun participaram na Maratona e na Meia Maratona. A minha homenagem para todos eles.

Vários elementos da equipa Run 4 Fun (os da Maratona já tinham partido)


Agora a próxima aventura será em Novembro na Serra da Lousã, onde tenciono completar os 82 km do UTAX.


2º Mesociclo 2012/2013

Partida do GTSA 2012


Nas 4 semanas que decorreram entre 10/09 e 07/10, completei o meu segundo mesociclo da nova época desportiva, cujo grande objetivo é correr o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), em Agosto de 2013.

Ao todo, corri 360 km com 7800 m D+, nadei 6,5 km, e pedalei 16 km. Já começo a recuperar do enorme cansaço sentido após terminar os 168 km do Ehunmilak.




Este mesociclo foi adaptado à preparação para duas provas específicas, a Meia Maratona de Portugal e o Grande Trail Serra D'Arga.

A Meia Maratona de Portugal correu-me melhor do que esperava e terminei com um tempo de chip de 01:27:16, semelhante ao tempo que tinha feito em 2011.

De resto a prova foi uma festa, com uma enorme adesão popular e com a agradável particularidade do concerto do João Gil e Luís Represas e dos Xutos e Pontapés no fim, não fora a prova fazer parte da Rock 'n' Roll Marathon Series.


Concerto dos Xutos e Pontapés


No último fim-de-semana do mesociclo, participei nos 45 km do GTSA. Essa prova mereceu uma deslocação da família inteira até Caminha, onde participámos todos, cada um na sua distância. De resto, a prova merecerá uma crónica própria, pelo que não valerá a pena alongar-me aqui.


domingo, 16 de setembro de 2012

1º Mesociclo 2012/2013

Serra da Estrela


Nas 4 semanas que decorreram entre 13/08 e 09/09, completei o meu primeiro mesociclo da nova época desportiva, cujo grande objetivo é correr o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB).

Ao todo, corri 412 km com 5953 m D+, nadei 5 km, e pedalei 25 km. Neste mesociclo já introduzi bastantes quilómetros e um desnível  razoável. Este ano estou decidido a introduzir mais km no meu treino e continuar a incrementar o D+. Nos 168 km do Ehunmilak apenas consegui correr ao longo dos primeiros 130, e portanto quero treinar o suficiente para estar apto a correr durante toda a prova do Monte Branco (exceto nas subidas, claro está).




No fim do ciclo participei na mítica Meia Maratona de S. João das Lampas. Este ano piorei em dois minutos o meu resultado do ano passado, mas apesar disso fiquei bastante satisfeito pois sentia-me em pior forma neste início de época. Contráriamente ao que aconteceu neste verão, no ano passado não abrandei o ritmo de treino durante o período de férias e portanto não baixei de forma. Este ano a recuperação da boa forma está a ser mais lenta do que eu gostaria, mas para ter sucesso é necessário ser capaz de ultrapassar a frustração.





A última semana do mesociclo foi passada em parte na Serra da Estrela, onde gozámos 3 dias de férias em família bem merecidas. Assentámos arraiais na excelente Casa das Penhas Douradas,  nas Penhas Douradas (1500 m de altitude), muito perto do cenário idílico do Vale do Rossim.


Em frente à Casa das Penhas Douradas


A Lena e os miúdos andaram de Kayak na barragem. Este ano a água estava fresca, mas anteriormente já lá conseguimos nadar com água a 24 ºC.


Barragem do Rossim


Aproveitámos para fazer caminhadas em família, através de uns percursos muito bem marcados e com uma descrição do percurso muito completa. Descobrimos algumas preciosidades históricas, como por exemplo a casa de "o Dr. Afonso Costa, republicano conspirador em tempos da monarquia, que, dizem as más-linguas, se refugiava nestas paragens em reuniões carbonárias e altamente conspirativas."


Casa de Afonso Costa

Ou que Álvaro Cunhal convalesceu durante uma temporada, no Hotel Pensão Montanha, "construído em 1903, para dar seguimento ao tratamento da tuberculose e outras enfermidades segundo as práticas do Sanatorium Schatzalp de Davos-Platz na Suissa"


Hotel Pensão Montanha ao fundo

As Natureza em toda a sua pujança está bem patente no inolvidável Vale das Éguas, conforme descreve o guia: "O Vale da Éguas é um vale muito suave. Belíssimo. Cheio de curiosidades. blocos de granito de formas estranhas. Afloramentos de quartzo branco e rosa. Bosques de espécies variadas. Local de pastorícia no verão. Miradouros únicos..."


Afloramento de quartzo branco e rosa, o "seixo branco"


Eu fartei-me de correr pela Serra.


Vale do Rossim em fundo


Já diz o poeta que o sonho comanda a vida e no meu caso comanda os meus treinos. Todos necessitamos  de ter um sonho para cada uma das várias áreas das nossas vidas: familiar, profissional, pessoal. São esses sonhos que  nos dão alento para continuarmos a lutar para concretizarmos os nossos objectivos.


domingo, 19 de agosto de 2012

Treino Hamarmilak no Jamor

Foto de José Carlos Melo


Mais uma excelente manhã de domingo se passou na companhia de um grupo de pessoas divertidas, desempoeiradas e saudáveis. O encontro foi organizado pelo afável e expedito Miguel Serradas Duarte e, teve como pretexto, de acordo com as suas próprias palavras:

«Em vez de 100 milhas são só 10, como pretexto para comemorar a participação portuguesa no Ehunmilak deste ano. No Jamor porque consigo um percurso giro e variado de trilhos, e porque quem não quiser correr tanto ou de todo tem onde ficar à vontade. O mesmo se aplica a familiares que não correm e se calhar gostavam de vir.»


Foto de José Carlos Melo


Assim, conseguiu-se (ou melhor, conseguiu o Miguel!) reunir um animado grupo com algumas dezenas de participantes, entre membros do clube Run 4 Fun e amigos.

Às 10h15, depois do briefing inicial do Miguel, arrancámos para umas voltas divertidas pelos trilhos do Jamor.

Tivemos direito a uma bela volta, que o Jamor tem excelentes condições para fazer um treino interessante e variado (desde o alto na Erminda da Boa Viagem até à pista de cross).


Foto de José Carlos Melo


Depois de 16,8 quilómetros de muita galhofa, cortesia dos animadores do costume (assim de repente vêm-me à cabeça os nomes do César Moreira e do Nuno Tempera, porque será?), preparámo-nos para o que verdadeiramente nos tinha levado até ali: o banquete disfarçado de pic-nic! ;)

Estenderam-se as mantas e pousaram-se os pitéus e as minis. Mais uma vez a malta excedeu-se, e houve fartura de comida, em quantidade e qualidade. Sem desmerecer as restantes iguarias, que estavam ótimas, a Paula Magalhães levou um bacalhau com broa que estava divinal!


Foto de Luís Matos Ferreira


A companhia foi muito agradável e a conversa interessante. Cerca de duas horas a correr, para hora e meia a comer, parece-me um equilíbrio razoável entre corrida e abastecimento...  :)

Enfim, estou a tornar-me adepto destes treinos na natureza com final gastronómico. Aliás, não apenas nestes convívios. O meu plano de reforma, depois de ser obrigado a trabalhar até aos 75 anos pelo Estado Associal que se avizinha, e não receber daí um tostão, passa por participar no maior número de Trails possível, e alimentar-me alarvemente nos abastecimentos (resta saber quanto melão, banana e marmelada consigo ingerir). ;)

Mais uma vez os meus agradecimentos ao Miguel e aos restantes amigos por uma manhã muito bem passada, em excelente companhia.

sábado, 18 de agosto de 2012

40º Treino Lunar

Foto de Paulo Fernandes


Ontem, dia 17/08, participei pela primeira vez num dos famosos Treinos Lunares, o 40º, concebidos pelo popular Paulo Pires, atleta da margem sul e reconhecido bloguista.

Parti de Lisboa na companhia de companheiros do Run 4 Fun, o João Ralha, a Luísa Ralha, o Gerardo Atienza e a Manuela Cruz, habituais presenças nestes treinos noturnos.


Foto de Paulo Fernandes


Encontrámo-nos com os restantes atletas (várias dezenas!) cerca das 20h30, na praia da Costa da Caparica e, após algumas indicações do Paulo, lá partimos pela areia fora, já o sol declinava e a noite se avizinhava. Fui de conversa com o Guilherme Hora e nem senti passar a meia hora feita no sentido sul. A regra que está estabelecida é que meia-hora após o início os atletas regressam para o ponto de partida, para que desta forma cada um possa ir ao seu ritmo. O trajeto foi todo feito sobre areia dura, com o frontal a alumiar o caminho, e portanto não apresentou dificuldades de maior.


Foto de Paulo Fernandes


Uma hora depois da partida, reunimo-nos no local do pic-nic noturno. Mais ainda do que pelo próprio treino em si, que é muito giro, estes treinos diferenciam-se pelo animado convívio que se realiza após o seu término. Corri cerca de 10 km e depois tive direito ao melhor “abastecimento” de toda a minha ainda curta “carreira desportiva”. Os participantes organizam-se expontaneamente e cada um trás os seus petiscos para partilhar com os restantes. E que petiscos! Até bacalhau com grão, pasteis de nata e vinho tinto havia! Recuperei todas as calorias que tinha gasto e ainda deu para armazenar mais uma boa quantidade delas.


Foto de João Veiga


Enfim, são as coisas simples, como a solidariedade patente nestes convívios, em que as pessoas oferecem as dádivas da sua generosidade, boa disposição e alegria, que me fazem acreditar que este nosso pequeno país perdurará sobre todas as dificuldades.



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Novo macrociclo, novos objetivos!



Se assumir que os dois anos e meio que decorreram desde a minha primeira participação numa maratona (Lisboa, Dez/2009) foram uma longa preparação para a minha primeira participação numa prova de montanha com 100 milhas de distância (Beasain, Jul/2012), então o volume de treinos efectuado por mesociclo (período de 4 semanas) até à data do Ehunmilak (168 km) foi aquele que está  traçado no seguinte gráfico:




Do gráfico é patente que ainda mais significativo do que o aumento da quantidade de quilómetros mensais foi o aumento do Desnível positivo (D+) que fui acumulando. Se existe algum, será esse o segredo para completar com sucesso, em menos de 48 horas, uma dura prova de montanha com 11000 m D+.

Encerrado este importante capítulo do meu desenvolvimento desportivo, foi tempo de dar um pouco de repouso ao corpo e ao espírito. No mesociclo que encerrou a minha época desportiva de 2011/2012, e que terminou no passado domingo, dia 12/08, aliviei muito o volume de treino, como se pode constatar pelo gráfico:




Pelo meio ainda participei numa Ultra de 50 km, o UTNLO, mas estava claramente fora de forma, o que seria de esperar após o violento esforço que foi necessário empreender para vencer o Ehunmilak.

Após um breve interlúdio de uma semana, em que não treinei, retomei ontem os treinos com uma ida ao Jamor. Já estava com saudades. Pude constatar que voltei das “férias” mais lento e menos resistente e que vou ter que ir aumentando gradualmente a carga para voltar aos níveis anteriores de forma física.




Ultra Trail do Monte Branco

Percurso do UTMB
Altimetria do UTMB

O meu objectivo principal para a época de 2012/2013 será a participação no 10º Ultra Trail do Monte Branco (UTMB), de 168 km, caso seja sorteado, uma vez que os 7 pontos de qualificação já eu tenho. Se não tiver a alegria de ser um dos felizardos no sorteio (as probabilidades jogam contra mim, uma vez que se esperam 2 candidatos para cada vaga e os candidatos repetentes beneficiam de um factor de ponderação que lhes multiplica a probabilidade por 2) então terei de encontrar um desafio semelhante, como plano B.

Recordo que o UTMB é a prova rainha do Trail Europeu, quiçá internacional (como diria o João Pinto, “somos dos melhores do mundo, quiçá da Europa!”). A edição deste ano, 2012, irá ter início às 18h30 de dia 31/08. Cerca de 2300 atletas alinharão à partida (entre eles o meu colega de equipa Run 4 Fun e amigo, Paulo Jorge Rodrigues), prontos para percorrer os 168 km com 9600 m D+, alguns dos quais os levarão acima dos 2500 m de altitude, e ao longo dos quais terão que enfrentar sucessivamente condições meteorológicas correspondentes às 4 estações do ano.



Portugueses na edição de 2012 do UTMB


Do site oficial retiro o seguinte trecho:
"It's a real outpouring of granite peaks, of high crystalline summits, where erosion of an exceptional intensity has cut out, sawn, sliced up, broken, smashed the imposing upheaval of ancient rocks, revealing a landscape of exceptional beauty." (Roger Frison-Roche, guide-writer.)




Mal posso esperar pela abertura das incrições em Dezembro e pelo anúncio dos resultados do sorteio a 18 de Janeiro de 2013 às 9h de Lisboa.

Mas até à minha hipotética participação ainda decorrerão vários meses, portanto necessito estabelecer outros objectivos intermédios. Até Novembro já estou inscrito nas seguintes provas:

Setembro: Meia Maratona de S. João das Lampas (21,1 km)
Outubro: GTSA (42 km)
Novembro: UTAX (82 km)

Em Dezembro provavelmente correrei a Maratona de Lisboa, que é aqui mesmo “à porta de casa” e assim aproveito para completar a minha 10ª maratona.

Em 2013 logo se verá, mas felizmente o que não faltam são interessantes provas de trail por este Portugal fora, por vezes o difícil é escolher.

Agora há que iniciar a preparação, com denodo e alegria, um objectivo de cada vez, até conquistar o objectivo final! Esse horizonte radiante deixa-me muito entusiasmado!


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

IV Trail Noturno da Lagoa de Óbidos




Hesitei bastante antes de me resolver a participar nos 50 km do Ultra Trail Noturno Lagoa de Óbidos (UTNLO). Por um lado, as excelentes recordações que esta mesma prova, na sua versão de 2010, ainda na sua 2ª edição e com “apenas” 42 km, me tinha legado, acicatavam-me o desejo de voltar a correr o percurso magnífico, traçado pelas mãos conhecedoras dos associados do Clube de Atletismo de Óbidos.

Por outro lado, sentia alguma apreensão face à perspectiva de correr uma prova nocturna de 50 km, três semanas apenas após ter concluído os 168 km do Ehunmilak, e com um cansaço acumulado de vários meses de preparação para esse enorme desafio, que incluiram a participação em diversas Ultras. Para além disso, desde o Ehunmilak reduzira muito o volume de treino, o que, conjugado com o cansaço, levou a uma necessária redução da forma física.

No entanto, como me parecia uma excelente maneira de acabar a época desportiva, e como tenho uma enorme dificuldade em passar um mês inteiro sem participar em qualquer prova, lá me decidi pela positiva. Mal sabia eu das agruras que me aguardavam.


Percurso


Assim, no sábado dia 4 de Agosto, já depois das 18 horas, juntei-me à extensa excursão laranja do meu Clube Desportivo, os sempre animados Run 4 Fun. Chegámos a Óbidos, levantámos os dorsais no Pavilhão e dirigimo-nos para o largo do “Jogo da Bola”, onde teria início a corrida.



Run 4 Fun

Com Jorge Serrazina no largo do "Jogo da Bola"




Pela quantidade crescente de participantes, é nítido que as corridas na natureza estão em franca expansão. Entre as duas provas que iriam decorrer, o UTNLO de 50 km e o TNLO de 27 km, estariam incritos cerca de 400 atletas, mercê da singularidade desta estival prova nocturna e também da popularidade de vários membros do CAOB.

É sempre um momento agradável, o reencontro com a malta conhecida e amiga, antes do início das corridas, durante o seu decorrer e após o seu término. Para me sentir bem necessito de participar regularmente nestas competições, pelo ambiente, pelo convívio, pela amizade e pela adrenalina.

Às 21 horas os atletas tiveram ordem de saída para uma marcha lenta pela principal artéria da Vila, e perante os rostos admirados de quem tinha vindo expressamente para assistir ao festival medieval que decorria por estas semanas na Vila. Lá fomos, em fila estreita pela rua apertada, ante as ovações e os gritos de incitamento dos populares presentes, os quais devem ter ficado muito supreendidos por depararem com um troupe de atletas nocturnos, munidos de frontais luminosos, lenços na cabeça, mochilas de hidratação, meias de compressão e toda a extensa parafrenália associada a esta singular actividade, quando tudo quanto esperavam era um ambiente medieval, com mascarados a condizer.


Partida - Foto de Eduardo Santos

Após a marcha inicial, reunimo-nos à saída da vila, onde se deu a partida real, cerca das 21h15. Como é seu cariz habitual, os atletas partiram animados, lançando comentários divertidos, como o do fulano que dizia: “em lugar de estar em frente à televisão, com uma cerveja geladinha na mão, a ver os outros correrem, estou eu aqui; não tenho juizo nenhum!”

A partida foi algo confusa, com os atletas em magote, a tentarem não se atropelar nem serem atropelados, nas vias estreitas e empoeiradas que nos levaram para longe do castelo e em direcção à Lagoa. Como as duas corridas tiveram partida simultânea, os cerca de 18 km iniciais foram feitos sempre na companhia de muita gente, até ao ponto de bifurcação. Mas lá chegaremos. Nestes primeiros quilómetros fui levado a manter um ritmo (cerca de 5’30’’/km) superior ao que tinha em mente como razoável (cerca de 6’/km) devido ao natural vigor dos participantes na prova mais curta.

O percurso ora passava por bosques densamente arborizadas, onde tinhamos que saltitar para a esquerda e para a direita para nos desviarmos das árvores, ora mudava para estradões. Acompanhei o Francisco Mira Gaio durante algum tempo, e aproveitámos para ir um pouco na conversa. Neste fase da corrida ele ainda seguia num ritmo conservador, o que me permitiu acompanhá-lo. Um pouco mais tarde, quando eu já tinha gasto o combustível, ele passou por mim que nem uma seta, e ainda me gritou, “anda Luís!”, mas eu é que já só consegui reponder: “força Francisco!”

Por mim passou também o Nuno Dias de Almeida e pouco depois o Orlando Ferreira, ambos em grande forma. A seguir foi a vez do companheiro Arlindo Deus me alcançar e aproveitei a sua boleia, uma vez que vinha a um ritmo semelhante ao meu. Recordo-me de o Arlindo me dizer - só tenho receio de nos perdermos - e eu responder - Arlindo, estamos perdidos! Voltámos atrás, retomámos o caminho e um pouco mais adiante, corríamos afanosamente, quando nos deparámos com um grande grupo de pirilampos gigantes que se encaminhava rapidamente na nossa direcção. “Diabo! Hoje nem sequer bebi”, pensei eu... Afinal era um grande grupo de atletas que se tinha perdido e regressava pelo mesmo caminho a fim de reencontrar as fitas. É o costume nestes eventos: como é muito cansativo mantermo-nos constantemente alerta, a certa altura baixamos a concentração, confiamos em que os atletas que vão à frente sabem o caminho e damos connosco perdidos!

O desvio correcto levou-nos para dentro de uns canaviais e para uns troços onde era necessário molhar os pézinhos na lama e no lodo. Em breve as sapatilhas pareciam umas botifarras carregadas de barro e limos. Por vezes enterrávamo-nos  até aos tornozelos. Enfim, uma animação para quem gosta de desafios variados! Fez-me recordar a alegria que tinha quando era miúdo ao enterrar os sapatinhos em todas as poças a caminho da escola. Se quisesse monotonia tinha mas é ido fazer uma prova de estrada, que diabo!

A certa altura fui ultrapassado pelo Jorge Mimoso, o qual me reconheceu e ainda estivémos algum tempo na conversa até ele arrancar novamente. Dizia-me ele que se deveria reformar do trail, logo a seguir à sua 2ª participação nos 330 km do Tor des Geants, no final de Agosto, e pensava eu, “chiça, como os quilómetros que o Mimoso já tem nas pernas, deve dar direito a reforma por inteiro com bonificação acrescida e menção especial!”

Ao fim de 25 km, sempre na companhia reconfortante do Arlindo, lá chegámos ao abastecimento da praia, com cerca de 2h35 de prova feitos. Aproveitei para encher a barriga com marmelada, fruta, bolachas e lá partimos para a parte mais dura da prova, mas também uma das mais interessantes: as dunas de areia.

Lá fomos gerindo estes cerca de 6 km, o melhor que podíamos. Se as subidas nas dunas custavam, as descidas nas arribas também não eram fáceis, pois a luz do frontal não me chegava para distínguir bem onde colocar o pé sem correr o risco de o torcer ou evitar por vezes, fruto da distância mal calculada, um ou outro impacto mais duro no solo. Essa foi, aliás, uma dificuldade constante até ao fim e acabei a prova com as plantas dos pés muito massacradas.

Após 3h40 de prova, lá chegámos ao abastecimento dos 32 km. Ou seja, estes últimos 7 km tinham demorado uma hora a percorrer! Depois deste ponto, vi-me forçado a baixar ainda mais o ritmo e o perdi o Arlindo de vista. A partir daqui corri sempre isolado e fui sendo sucessivamente ultrapassado por diversos atletas.

A páginas tantas passou por mim o Carlos Henriques, fresco como uma alface e cheio de força. Ficámos mais um pouco na conversa e depois também ele arrancou em direcção a Óbidos. Por esta altura esta Ultra de 50 km já me parecia mais uma reunião social, do tipo speed dating. Conversa aqui, conversa ali, sempre a rock ‘n rollar. Eu é que já mal me aguentava nas canetas e os pés, então, estavam destroçados por todas aquelas descidas cheias de regos da chuva, endurecidos pelo sol estival.

Aproveito para agradecer aos vários amigos que tiveram a amabilidade de abrandar para trocar dois dedos de conversa comigo. Sem o seu apoio teria sido muito mais difícil para mim concluir a prova.

Quando o meu Garmin marcou os 42 km, com 5h15 de prova percorridas, lembrei-me que em 2010 tinha demorado praticamente menos uma hora para fazer a mesma distância. Mas já só faltavam 8 km para a tortura acabar. Pouco depois, num estradão, deparei-me com a placa dos 20 km da corrida mais curta. Ou seja, já só faltavam 6,5 km para a meta. As subidas fazia-as todas a caminhar, nas rectas e descidas aproveitava para correr.

Por fim avistei as muralhas do castelo. O ânimo ao sentir a meta já tão perto permitiu-me acelerar o andamento, de caracol para tartaruga. A 2 km do fim, resolvi finalmente que era hora de colocar um pouco de ritmo no meu andamento e a partir daí consegui fazer o percurso final todo a correr até ultrapassar a porta da muralha e chegar finalmente à meta, 6h22 depois do tiro de partida.


Meta - Foto de Eduardo Santos


Esta não foi, garantidamente, a prova de trail mais dura em que já participei, mas, apesar do seu pequeno desnível, tem algumas (boas) surpresas para quem se atreva a alinhar na linha de partida. A minha conclusão é que não importa se são 10 km, 50 km ou 170 km. Tudo depende do tipo de terreno que se pisa e sobretudo da preparação com que se chega a uma prova.

Seja como for, custou-me bastante a fazer, sobretudo a partir do início da segunda metade. A dificuldade com que progredi no terreno levou a que não conseguisse apreciar a prova como ela mereceria. Poderia ter feito a prova mais curta, mas nessa eventualidade não teria percorrido aqueles que considero os troços mais interessantes do percurso. De futuro tentarei chegar mais bem preparado às provas em que participar. Foi mais uma lição que aprendi.

Por fim, uma palavra de apreço para a organização do CAOB, que julgo ter estado impecável. A parceria com o Mundo da Corrida também resultou feliz.

É uma prova diferente, que vale a pena fazer e tem boas surpresas para os neófitos do trail.


terça-feira, 24 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - Epílogo


As armas e os barões assinalados


“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;”

        - Lusíadas, Canto I.


Só vários dias mais tarde é que viria a saber que o resultado oficial da minha prova tinha sido 39:42:47, e que tinha ficado classificado em 55º lugar num total de 112 finalistas. Dos 187 atletas que alinharam à partida, 75 tiveram que desistir por variadas circunstâncias. A minha sentida homenagem para todos esses valorosos atletas que empreenderam “em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”

Terminada a prova fui tomar o banho retemperador no polidesportivo de Beasain, seguido de uma nova refeição de massa e queijo derretido (é este o sinal concludente de que devo ser mesmo masoquista) que ficou quase toda no prato.

Por fim, uma excelente massagem, providenciada por uma menina que percebia do assunto. A alternativa era um basco com ar de lutador de sumo. Felizmente consegui enganar o espanhol que se sentou ao meu lado, dizendo-lhe que já estava livre, numa ocasião em que ele estava distraído na conversa. Desta feita, quando se levantou e se apercebeu do erro, já era tarde... lutador de sumo com ele, menina para mim...

Depois voltámos para Alsasua, onde cerca das 12 horas eu imergi num sono profundo mas agitado, onde sonhei que estava a ser perseguido até aos confins do mundo, por um Gigante feito de uma amálgama de lama, rocha e silvas (e tinha a cara do lutador de sumo).

Às 20 horas levantei-me, apertado pela fome que se fazia sentir (perdi 4 kg com esta brincadeira), jantei e deitei-me novamente, só acordando no dia seguinte às 8 horas da manhã.

Aí tiveram início as dores pos-parto de que fui atingido. Abrasões pelo corpo todo, músculos doridos, joelhos destroçados, etc, etc. Se fosse aqui arrolar a lista de maleitas, mais pareceria a história clínica de um velho de 90 anos, com um historial de 80 anos de trabalho na agricultura.

Seja como for, lá arranjei, novamente encorajado pelo Luís, forças para ir fazer turismo cultural para Bilbao / Bilbo, mais precisamente visitando o Guggenheim, como seu singular edificio e a sua excelente colecção de arte moderna.

Turismo cultural

Nos dias seguintes fui sabendo dos resultados dos restantes atletas da comitiva portuguesa (a minha mãe, adepta incondicional número um, fez-me um relato telefónico detalhado do que se passara) e tomei conhecimento do vibrante acompanhamento que foi feito à nossa prova por parte da comunidade Lusa adepta do trail.

Fiquei muito satisfeito por todos os que terminaram, e senti-me solidário com os que por alguma circunstância fortuita não puderam terminar. À posteriori, li com atenção as suas histórias e segui os seus comentários.


Para sumarizar a prova e as férias envolventes, em apenas tres palavras: valeu a pena!


III Ehunmilak 2012 - 3ª parte

Aizkorri de dia - Foto de José Morgado

Etxegarate (130 km , 663 m): este é o 2º grande abastecimento, onde tem início a 3ª parte da corrida. Desta vez não hesito e peço uma refeição quente com massa e queijo derretido. É a minha primeira refeição quente das últimas 27 horas!!! Já a mereço, repito enfaticamente para o meu estômago rebelde. Então afinal quem é que manda aqui, ora essa! E o estômago lá anui, rendido aos meus argumentos.

Não me esqueço de atestar a mochila de hidratação. Entrementes o Luís foi à tenda da cruz vermelha tratar dos pés e quando regressa está muito mais satisfeito com o tratamento que lhe deram. Desta vez, para além de lhe hidratarem a sola, colocaram-lhe uma ligadura que o protejerá mais eficazmente (na medida do possível) daqui por diante.

É a minha vez de ir à Cruz Vermelha pois também me surgiram algumas bolhas nos pés (todo este tempo imersos em água e barro, não lhes deve ter feito muito bem). Hidratam-me os pés com uma mistura de vaselina e creme hidratante que me fez maravilhas e mandam-me embora.

Fora da tenda está frio como numa câmara frigorifica! Volto para a tenda princípal e, recorrendo ao 2º saco, troco completamente de roupa. Estou muito mais agasalhado do que na 1º noite. Resultante daquele assustador episódio, o medo da hipotermia atíngiu as raias da irracionalidade.

Vários atletas abandonam a prova neste abastecimento. Aqui se toma a decisão de ficar ou prosseguir e enfrentar a noite e os seus fantasmas. Vem-me à mente o célebre solilóquio de Hamlet, princípe da Dinamarca (W. Shakespeare):

"To be, or not to be: that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?"


Às 22h estamos prontos para partir. É novamente de noite. Embora exista a possibilidade de ficar a dormir um pouco neste abastecimento, em camas de campanha, tal não nos ocorreu. Esta horita de repouso parece-nos suficiente para enfrentar a noite com outro alento. E a verdade é que me sinto revigorado.

Arrancamos devagar pois os músculos necessitam reabituar-se ao esforço. Não mais conseguiremos correr, excepto no nosso último quilómetro. Estes primeiros 130 km demoliram toda a minha resistência física e o que me move agora é apenas a mente, que vai ordenando às pernas que coloquem um passo à frente do outro, cada vez mais rápido, mas sem nunca abandonarem ambos os pés o solo.


Aratz - Aizkorri


Encaminhamo-nos em direcção ao Aizkorri (1520 m). Faltam “apenas” 38 kms para o término da aventura. No entanto estes 38 km irão ser percorridos durante a nossa 2ª noite de vigília, já com 130 km imensamente acidentados nas pernas.

Para além disso vamos ter que passar no alto exposto do Aizkorri. O Luís já conhece parte do percurso dado que aqui esteve a 20 de Maio para correr na Maratona de Montanha Zegama-Aizkorri, que tem parte do traçado em comum. Essa é uma das maratonas de montanha mais duras e emblemáticas e o Luís fê-la em condições particularmente agrestes, pois choveu o tempo todo e chegou a nevar no topo.

À medida que nos dirigimos para o abastecimento de San Adrian, o Luís vai-me revelando que o traçado que iremos encontrar é muito perigoso e que neste sim, a organização deveria obrigar os atletas a percorrê-lo acompanhados. Mais tarde eu teria a oportunidade de comprovar as suas sábias palavras.

A ascenção até aos 1000 metros de San Adrian (139 km) vai-se fazendo paulatinamente. Durante algum tempo seguimos com um grupo de bascos atrás de nós. Não percebemos patavina da algaraviada que lhes sai da boca. Chegamos ao abastecimento após 30h39 de prova.

A seguir ao abastecimento andamos algumas centenas de metros até que chegamos à cova de San Adrian. Passamos por um tunel escavado na rocha e deparamos com uma subida atroz, onde em cerca de 2 km é necessário ultrapassar 500 metros de desnível positivo!!! E isto sobre um piso de pedras duras e instáveis (ou sou eu que já vou instável...). Deve ser por isso que, muito apropriadamente, lhe chamam "O Calvário".


Subida - foto da organização


O Luís trepa mais rápido que eu e vai-me incentivando. A minha reserva de energia é que já não é muita e tenho que me concentrar o mais que a força humana permite para assentar os pés nos locais adequados. Auxiliado pelo incentivo do Luís, lá vou progredindo em direcção ao topo desta subida demolidora.

Ainda temos que chegar ao alto do Aizkorri (1520 m, km 141). Passamos por pendentes em que não convém olhar para baixo, tal o precipício que se abre ao nosso lado. Por fim lá alcançamos o refúgio onde se encontra o controle. Os voluntários fazem-nos uma festa. Peço um pouco de água que me é imediatamente dada.


Refúgio à luz do dia - foto da organização


Andamos ainda mais 3 km pelo cume da montanha até Arbelar (km 144). Depois disto ainda temos que chegar ao Andraitz (1443 m, km 146), sempre expostos ao vento cortante que me deixa gelado (a temperatura real é de 7ºC mas, com o vento, a sensação térmica é de 2ºC!).

Agora temos que descer. A descida é outro martírio. O meu frontal dá sinal que a bateria está a ficar fraca e muda automaticamente para um modo de poupança. Passo a descortinar muito pior o caminho. Vou seguindo o Luís, que vai escolhendo as melhores pedras para pisar, dentro do trilho.

Não tenho alucinações mas quase. As pedras e o solo parecem por vezes vibrar como se revoltas por uma miríade de vermes pululantes. O sono começa verdadeiramente a afectar-me. Luto para me manter concentrado. A certa altura menciono ao Luís que já não vejo grande coisa e ele empresta-me o seu frontal de reserva que tem num bolso à mão. Isso melhora bastante o meu moral. Não me sentia sequer com forças para procurar na mochila as pilhas de reserva e colocá-las no frontal.

Já passam das 4 horas da madrugada quando, ao fim de um calvário interminável, em que descemos 1200 m D- sobre um trilho impiedoso, lá atingimos o abastecimento de Oazurtza (148 km, 845 m, 34h26). É um enorme alívio. Quase desfaleço sobre uma cadeira. Mal tenho forças para trocar palavras com os voluntários da organização. O Cabo das Tormentas está dobrado e não fomos devorados pelo enorme Adamastor de pedra.

Enfim me alimento e partimos novamente, para não nos habituarmos demasiado ao repouso anestesiante. Já me sinto um pouco melhor, mas a partir daqui a progressão irá ser toda feita à base de pura força de vontade.

Faltam duas etapas de 10 km cada. Vamos fazer uma de cada vez. Dois objectivos sequênciais.

Arrastamo-nos a caminho de Mutiloa. Temos ainda que descer cerca de 700 m D-. Não temos qualquer noção da velocidade a que os estamos a fazer. Imaginamos que já vamos a meio do primeiro troço. Trocamos palavras optimistas de incitamento. Cada aldeia que avistamos julgamos ser essa o término da etapa.

O dia clareia e ouvem-se os passaros a chilrear. Passamos por Zerain sem o sabermos e buscamos desesperadamente sinais claros do abastecimento. Enorme desilusão! Ainda não é aqui...

Andamos mais uns quilómetros, até que por fim, em Mutiloa (158 km, 600 m, 37h16) damos finalmente com o abstecimento K15. Que imensa alegria! Já só falta a última etapa! Está feito!

Abastecemos e partimos assim que o relógio marca as 7h30. Resolvemos que teremos que chegar ao fim antes de se completarem as 40 horas de prova. É esse o nosso objectivo!!! Temos duas horas e meia para o conseguir. Parece mais que suficiente, mas se tivermos atenção verificamos que os anteriores 10 km foram percorridos em duas horas e quarenta e cinco minutos!

Forçamos uma marcha rápida. Não corremos pois o que mais tememos é, já tão perto, morrer na praia. Seja como for, progredimos a bom ritmo. A altimetria é favorável: “apenas” temos que enfrentar mais 325 m D+ e 350 m D-. O que é isso para quem já percorreu a via sacra que nós cumprimos! Falta apenas uma estação!


Foto da organização


Após vários quilometros e um enorme desgaste (os músculos rangem por todo o lado; sinto-me prestes a dissolver-me numa pasta amorfa e difusa), gritamos o nosso “Terra à vista!” É a Índia do nosso contentamento. É Beasain que se avista por fim. Ainda encontramos um grupo de voluntários que nos controla e a quem perguntamos quantos quilómetros faltam para a meta. A resposta a partir daqui irá ser sempre a mesma, a quem quer que perguntemos: 4 kms. Deve ser um número mágico, proveniente do fundo do inconsciente colectivo do povo basco: 4km! 4km! 4km!

São os 4 km mais duros de toda a minha vida! Temos ainda que ultrapassar um quilómetro de gravilha dura como os cornos de um bode. Sinto as bolhas a expandirem-se nos pés. Deixo de ter sensibilidade nos dedos do pé esquerdo. O pé direito está dormente. Contra ventos e marés, avançamos irredutivelmente.

Beasain está do nosso lado esquerdo. Passamos debaixo de um tunel e eis-nos na estrada principal. Agora é sempre a direito. Vamos entrar na artéria princípal da vila. Já passa das 9h30. É a altura de começar a correr. Corremos com o que nos resta do coração. Ao longe avistamos a nossa família. Alcançamo-los. Seguramos as mãos dos nossos filhos e unidos a eles dirigimo-nos para a meta.

A emoção tomou posse de mim. Embargou-se-me a garganta e fui preenchido por uma tremenda sensação de felicidade e realização.


Meta!

Cruzamos a meta em apoteose, rodeados pelas nossas famílias, a quem eu dedico este especial triunfo. A eles, ao meu treinador, Eduardo Santos, que me orientou sabiamente ao longo de todos estes meses de preparação sistematica e exaustiva para esta prova, e a todos os familiares e amigos que me acompanharam, incentivaram, vibraram e comigo viveram, durante as 39 horas e 42 minutos em que corri, andei e gatinhei por vales e montes Bascos. A vossa ajuda foi preciosa! São vocês que fazem com que tudo isto tenha um sabor muito especial. Bem hajam!

Uma dedicação especial para o meu companheiro de luta, o Luís Freitas, cujo inestimável auxílio e companheirismo foram essenciais para que eu terminasse bem esta epopeia. É bem certo que uma aventura destas forja laços de amizade muito fortes.


Luís Freitas e Luís Ferreira


resta o epílogo...