sábado, 27 de abril de 2013

III Ultra Trail de Sesimbra



Poderia escrever uma crónica nos moldes habituais, em que descrevo o que se passou antes, durante e depois da corrida, os momentos mais altos e os momentos mais baixos, as dificuldades sentidas e a euforia em as ultrapassar, a adrenalina da competição, etc, etc... mas prefiro falar antes de outra coisa muito mais importante.


Atletas serpenteando pela Serra


Nos últimos meses passei por uma fase menos boa da minha vida, devido a um problema de saúde do meu Pai. Foram alguns meses de um carrocel emocional muito intenso, em que passei muito tempo em diversos hospitais, a acompanhar o meu Pai.

Normalmente a corrida e sobretudo os Trails contribuem decisivamente para a minha paz de espírito, mas nesta fase tive que abdicar bastante desse paliativo. Tive também que cancelar a minha participação em várias provas de Trail Running.

Felizmente o meu Pai tem vindo a melhor imenso, o que é uma enorme fonte de alegria e me permite andar mais tranquilo.



Briefing da partida, com Eduardo Santos


Assim, o III Ultra Trail de Sesimbra foi o primeiro Trail em que participei neste ano de 2013. Mais uma vez adorei a prova, mas, acima de tudo, adorei reencontrar-me com pessoas que já não via há algum tempo.

Regra geral, a gente do Trail é muito acolhedora, as amizades são muito fáceis de formar e as pessoas são fáceis de gostar. O convívio depois da prova foi inestimável, revigorante, enriquecedor, exaltante mesmo. Enquanto esperava na fila para a massagem, e enquanto bebia umas imperiais bem fresquinhas, fui conversando com diversos companheiros, o Renato Velez, o Ricardo Diez, o João Colaço, o Eduardo Santos,  o Hélder Melo. Cá fora rencontrei  o Paulo Costa, o Bruno Fernandes, o Miguel Baptista, o Nuno Silva, o Luís Mota.

Antes da prova já tinha conversado com o Peter Cooper, com o Teodoro Trindade e com o Ricardo Maia.

Durante a prova cruzei-me com o Alexandre Cunha, o  João Faustino, o Guilherme Hora, o Jorge Serrazina, entre outros.

Na praia reencontrei o João Mota, o Manuel Azevedo, o António Neto, e muitos outros que não vou nomear aqui senão não me cabem na crónica.

Para além de tudo, foi ainda um belíssimo dia de praia, como ainda não tinha havido no presente ano, passado na companhia da minha mulher e dos meus dois filhos. Que melhor dia poderia eu desejar?




   
Os miúdos dentro de água   





Missão cumprida!



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Marcha de Aníbal sobre os Alpes



Rota de Aníbal


Do ponto onde se encontrava, no sopé dos Alpes, Aníbal Barca, filho de Amílcar “o raio”, prescrutou atentamente as montanhas que se agigantavam no horizonte, com os seus imponentes cumes nevados e as suas vertentes escarpadas, e tentou imaginar um exército inteiro, composto por 40 mil soldados, cavaleiros, bestas de carga, carroças e equipamento e ainda 27 elefantes de combate, atravessando sinuosamente por trilhos pedregosos, perigosamente empoleirado sobre vertentes escorregadias.

 
Col de Montegenèvre


O ar fresco do início do Outono, nesse remoto ano de 218 a.C.,  já fazia anunciar o vento gélido do inverno que se aproximava a passos largos. Aníbal não podia hesitar. Nessa mesma noite tinha-se revolvido incessantemente no catre, atormentado pelo mesmo sonho recorrente, onde perseguia de olhos vendados uma águia imponente que se lhe escapava sempre no último minuto, até que fora acordado pelo bramir inquieto dos elefantes.

As forças com que se teria de defrontar não se limitavam ao terreno inóspito e às agruras do clima. Teria ainda que contar com os ferozes Gauleses Alóbroges, habituados às peculiaridades daquele território.

Não tardou até embater contra esses adversários temíveis. O palco da principal contenda foi um profundo desfiladeiro, para onde o exército tinha sido conduzido pelos indispensáveis guias locais, que traiçoeiramente preparavam uma emboscada.

Uma combinação de estratégia e de uso judicioso dos elefantes, permitiu ao exército Cartaginês desenvencilhar-se desta perigosa situaçao, apesar das pesadas baixas sofridas. O facto é que a visão dos paquidermes, inauditos naquelas paragens, aterrorizou de tal forma as tribos locais que o exército de Aníbal não voltou a ser incomodado ao longo do restante da sua travessia pelos Alpes.

Empurrado pelo frio crescente à medida que a altitude aumentava, e pela impossibilidade do regresso pelo mesmo caminho, o exército foi avançando, até que no nono dia após a entrada nos Alpes, Aníbal atíngiu o cume da passagem, a cerca de 3 mil metros de altitude. Diz-nos o históriador romano, Tito Lívio, que aí permaneceram acampados durante dois dias, aguardando pelos que vinham mais atrás e procurando repousar do enorme esforço dispendido. Tratando-se de um exército de africanos e iberos, não se encontravam preparados para estas condições, e muitos pereceram com as agruras da neve e do frio.

Por fim, Aníbal ordenou o reinício da marcha, e reuniu o seu exército num local com uma vista priviligiada sobre o Vale do Pó e as verdejantes planícies que se espraiavam até onde a vista podia alcançar. Aqui prometeu-lhes uma descida fácil e uma campanha rápida, até à conquista final de Roma.


Col de Clapier

  
No entanto, as penas dos Cartagineses ainda mal tinham começado. A descida revelou-se muito mais íngreme que a subida, e muitos homens e bestas de carga perderam a vida ao escorregarem pelas encostas geladas.

A certo ponto depararam-se com um deslizamento de terras que lhes impedia a passagem. O exército viu-se imobilizado numa encosta particularmente ventosa, sem mantimentos suficientes para sobreviver por muitos mais dias. A situação tornou-se particularmente desesperada e Aníbal deu ordens para se escavar um caminho alternativo. Foi necessário cortar as próprias rochas, recorrendo a fogueiras e às provisões de vinagre para criar fissuras que eram depois trabalhadas com ferramentas até toda a rocha se partir.

Após 4 terríveis dias nesta encosta mortífera, os Cartaginesese conseguiram finalmente atingir o vale ensolarado, onde puderam por fim alimentar os animais meio mortos de fome, e eles próprios repousar e restabelecer as forças, depauperadas por 15 dias de marcha forçada, após percorrer mais de 200 km sob condições de uma dificuldade extrema.

Quando Aníbal inspecionou as suas tropas, verificou consternado que, do exército inícial apenas restavam 26 mil efectivos e metade da cavalaria. Quanto aos elefantes, ainda estavam vivos mas não iriam durar muito mais.

Não obstante, foi com este exército, endurecido e solidificado pela incrível travessia, uma das maiores proezas militares de sempre, que Aníbal se preparou para abalar profundamente o poderio romano, no seu próprio território, durante os 16 anos que se seguiriam.


Aníbal Barca



A História sempre me deslumbrou, e o tema da marcha militar conjuga a paixão pelo Trail Running, ou corrida pedestre na natureza, com o fascinio pela busca dos limites da resistência humana. Dado o meu projecto de completar os 168 km do Ultra Trail do Monte Branco, nos Alpes Franceses, Italianos e Suiços, pareceu-me natural começar o ano de 2013 escrevendo este pequeno texto acerca da famosa travessia de Aníbal e do seu exército.




As minhas fontes secundárias foram a incontornável Wikipédia e a excelente e cativante obra de Robert O’Connell, “The Ghosts of Cannae”.

Recorri ainda a Tito Lívio, e a sua “História de Roma”, como fonte primária. Infelizmente não tive acesso ao clássico de Políbio, “História do Mundo”.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

5ª S. Silvestre de Lisboa



Mais um ano que termina, mais uma S. Silvestre. Apesar da extensa oferta, que no corrente ano incluía 3 S. Silvestres em dias consecutivos (Lisboa, Olivais e Amadora), este ano resolvi participar apenas na corrida da minha cidade natal e aquela onde vivo, a de Lisboa.

A minha transição do alcatrão para o trail foi quase completa em 2012, e esta foi a única vez que completei a distância de 10 km durante o ano que ora finda, apesar de a ter corrido 15 vezes nos dois anos anteriores.

Não me preparei especificamente para a prova e portanto não tinha grandes expectativas relativamente ao resultado. Estava a apontar para um tempo entre os 41 e os 42 minutos, assim uma espécie de anti-climax do bom resultado que tinha feito na última vez que tinha corrida a distância, na S. Silvestre de 2011.

Fiz a viagem de metro até aos Restauradores um pouco em cima da hora e já não cheguei a tempo de tirar a fotografia da praxe com os animados Run 4 Fun.


Run 4 Fun

Coloquei-me na linha de partida dos sub-40’, onde reencontrei uma série de amigos, entre os quais outros elementos dos Run 4 Fun, como o Carlos Martins e o Gerardo Atienza, a malta do Clube Vodafone e ainda o Gonçalo Cardoso, que tinha sido meu companheiro de prova no ano anterior, entre outros.

Às 17:30, 2’39’’ antes da partida geral, foi dada a partida das atletas femininas de elite, a fim de reeditar o confronto mulheres versus homens das últimas 3 edições. Após o tiro de partida, tentei desenvencilhar-me o melhor possível da confusão inicial, tendo que zigzaguear por entre os desportistas mais lentos a fim de ganhar momentum. O Garmin registou um km inicial a 3’36’’ e um 2º km a 3’39’’.  A certa altura passou por mim o Diogo Branco que ia cheio de força.




Os primeiros 5 km até ao Rossio são rápidos, mas convém não abusar porque senão depois pagam-se na subida da Av. Da Liberdade. Apesar de tudo consegui manter um ritmo forte na subida e após o que pareceu uma eternidade lá cheguei ao Saldanha, onde teve início algo que não pode se descrito senão como uma cavalgada desenfreada pela avenida abaixo. Fiz os 2 últimos km em 3’26 e 3’21’’ e cruzei a meta com um novo record pessoal de 38’14’’, tempo de chip.




Dadas as minhas baixas expectativas iniciais e o facto de ter mudado recentemente de escalão para o M45, não deixou de ser uma mui agradável surpresa.




Na meta ainda tive a alegria de cumprimentar o Carlos Martins, o Zé Carlos Melo, o Diogo Branco e o Olivier Delmotte, todos com records pessoais na distância, feitos neste percurso exigente. Deve haver algo no bolo rei ou nas rabanadas natalícias que propicia estas boas prestações em época festiva.




domingo, 18 de novembro de 2012

Fim de época - Início do defeso



Após 10 meses de atividade deportiva intensa, é chegada a hora de baixar o ritmo e preparar o novo ano que se avizinha.

A 18 de Janeiro já saberei se a minha pre-inscrição no UTMB terá sido aceite e poderei preparar-me com esse grande objetivo em mente ou para uma alternativa igualmente gratificante.

Entretanto, para registo, aqui fica a tabelinha com todas as provas concluídas em 2012:


Provas 2012
   

Gosto muito de participar em provas de Trail, mas embora a alma se alimente destes eventos enriquecedores, infelizmente o corpo não aguenta tudo o que esta lhe impõe. Em 2013 tenciono fazer uma gestão diferente do calendário e completar menos provas a fim de dar mais tempo ao corpo para descansar, e assim poder usufruir melhor das provas em que me inscrever.  


sábado, 17 de novembro de 2012

5º AXTrail series 2012 - UTAX

AXTrail series 2012 - Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

#03 SERIE - UTAX

 

Percurso
Altimetria


Nesta segunda década do século XXI, no mundo ocidental é cada vez mais notório que nos deixámos anestesiar pela nossa auto-indulgência complacente. Vivemos protegidos em bolhas de conforto. Procuramos afastar de nós tudo o que é doloroso e incómodo. Tudo nos é apresentado esterilizado e formatado. Tentamos aderir a padrões de beleza e juventude desenquadrados. Deslocamos-nos a velocidades vertiginosas dentro de carapaças de metal e plastico. Não temos tempo para parar e contemplar. Usamos e deitamos fora.

Já não conseguimos sentir o apoio reconfortante do solo nos nosso pés. Já não enterramos as mãos na terra. Não sujamos as unhas. Não molhamos a cabeça. Os nossos cadáveres já não chegam ao caixão gastos pelos elementos mas sim corroidos pela abastança.

 E em lugar de nos sentirmos preenchidos, sentimo-nos cada vez mais vazios.

Outrora, numa época mais brutal, as orgulhosas legiões de Roma percorriam as vias da PAX Romana. Marchavam dias seguidos para acudir a focos de conflito. Os legionários eram curtidos pelos elementos e forjavam a sua têmpera na refrega da batalha. Era enquanto equilibravam perigosamente a vida sobre o fio da navalha e as entranhas se lhes tornavam palpáveis e contraídas de terror que a vida se tornava verdadeiramente real de tão perto se escapar.

Hoje, felizmente, não queremos retornar à incerteza e brutalidade daqueles tempos. Mas temos saudades de nos sentirmos vivos. Por isso, cada vez mais aderimos a meios para fugir à carapaça, nem que seja apenas temporariamente.

Talvez apenas na loucura se encontre a sanidade.

A minha loucura pessoal passa cada vez mais pelo Trail Running. Assim, no passado fim de semana, juntamente com a minha família, rumei uma vez mais à Vila da Lousã, onde me esperava mais uma edição de uma prova do circuito AXtrail (a ter lugar no sábado dia 10 de Novembro).

Chegámos na 6ª feira já perto das 21h e instalámo-nos na Pousada da Juventude, num quarto com dois beliches, ideal para nós os 4. A Pousada revelou-se uma escolha excelente dado que foi o centro nevrálgico de operações da Organização da prova.

No secretariado, apresentei o material obrigatório para a segurança dos atletas, habitual nestas provas longas, levantei o dorsal e os sacos com as t-shirts (muito giras por sinal) e encaminhei-me para assistir ao briefing.

A edição deste ano seria a mais longa de todas as provas do AXtrail que eu já tinha empreendido até à data, prometendo 82 km de distância e 5000 m de D+ (desnível positivo), que se afiguravam muito duros, dada a experiência que eu já tinha com outras provas do circuito, sempre muito técnicas e desafiantes para a resistência dos atletas. Lembrava-me em especial dos 45 km do K42 realizado no ano anterior, com os seus 3200 m de D+ e a sua dureza bela.

Na madrugada seguinte acordei às 4h45 e preparei-me para enfrentar a dura prova. Às 5h30 já estava perto da linha de partida, confraternizando com os companheiros e amigos que tenho tido a felicidade de conhecer ao longo destes 3 anos de trilhos trilhados em conjunto.



Partida

A previsão meteorológica não se anunciava nada favorável, mas eu resolvi partir vestido apenas com a térmica de mangas compridas e a t-shirt do meu clube, o Run 4 Fun. O impermeável ia dentro da mochila para quando fosse necessário.



Lá vou eu de farol aceso!


Arrancámos às 6 horas, ainda de noite e alumiados pelo frontal. Assim que abandonámos o alcatrão, e seguimos em direção ao Castelo de Arouce, ermidas e praia fluvial, começámos logo a enfileirar por single-tracks que subiam, subiam, subiam pela serra acima.

Depois de um troço diabólico, feito a caminhar, sobre uma estreita levada que caía a pique para a esquerda sob os nossos olhares temerosos, passámos pelo primeiro abastecimento, dos 7.5 km, na Aldeia de Xisto do Candal, onde resolvi não parar. Segui, sempre debaixo de chuva, em direção ao abastecimento dos 20 km em Aigra Nova. Aproveitei este abastecimento para retemperar forças e para ajustar um dos bastões, que se mostrava renitente.


Aldeia de Xisto


Desde o início que senti que não estava nos meus melhores dias e portanto resolvi fazer o caminho todo em gestão do esforço. Para além disso, as condições meteorológicas aumentaram muito o grau de dificuldade da prova, que já de si era muito exigente. A longa subida até ao alto do Trevim desgasta o mais afoito. Uma vez chegado ao alto, a quase 1200 m de altitude, o maior adversário revelou-se ser o vento. E que adversário!  Cheguei lá completamente encharcado e, apesar de levar o impermeável, o vento cortante que se fazia sentir fez-me recear seriamente sofrer uma hipotermia.

Já completei provas mais duras, mas nem mesmo no Ehunmilak tinha enfrentado um troço onde me tivesse sentido tão enregelado. Talvez tenha sido impreparação minha, pois o meu impermeável não se revelou à altura das condições térmicas que tive de enfrentar. Sou um indivíduo magro e portanto naturalmente pouco defendido do frio. Foi neste troço que mais receei ter de abandonar a prova, caso estas condições térmicas se prolongassem. Felizmente, quando comecei a descer a serra as condições melhoraram, fiquei mais protegido do vento e consegui aquecer um pouco. Junto com o frio, dissipou-se também o medo e pude continuar com outro ânimo.


João Colaço e Alexandre Cunha


No entanto, poucos quilómetros volvidos fui acometido por outro receio. O medo de ter que desistir por as pernas não aguentarem. Passei o abastecimento do Coentral e até ao Talansnal, no km 45 (47 no meu Garmin), fui sempre acompanhado desse espectro.




Foi com enorme alegria que finalmente revi o Talasnal, belíssima e preservada Aldeia de Xisto onde já tinha pernoitado noutra ocasião. Não aproveitei o saco de muda para trocar de roupa pois pareceu-me que poucos km volvidos estaria novamente encharcado, dado que não havia maneira da chuva cessar. Aproveitei sim, e de que maneira!, a morna canja que foi colocada à minha disposição. Que bem me soube ingerir algo quente e salgado!


Talasnal


Assim que alcancei o Talasnal compreendi que, se já chegara até ali, dificilmente não completaria a prova.

Saí do Talasnal e comecei a descer. Fui-me cruzando com atletas da prova dos 30 km. A certa altura passei pelo companheiro Jorge Esteves, que ia a passo com outro companheiro, pois tinha tido uma queda que lhe tinha deixado algumas dores. Apesar disso seguia animado e com um sorriso nos lábios.




Passei por uma descida completamente enlameada e já muito pisada. Via-se que os atletas já tinham tentado descer por todos os carreiros possíveis. Logo no primeiro troço fiz um pouco de sku involuntário. Não me conseguia aguentar em cima das sapatilhas. Decidi que o melhor era deslizar por ali abaixo sentado, sempre que possível. Pouco depois cheguei à estrada.

Daí parti para mais subidas e descidas. A certa altura cheguei ao 5º abastecimento, aos 52 km, onde se separavam os trilhos da Ultra e do Trail. Perguntei quanto faltava até ao próximo abastecimento e responderam-me que a partir dali os abastecimentos eram de 10 em 10 km. Segui em direção a Miranda do Corvo. Percorri uns estradões intermináveis, cheios de poças de água.  Recordo-me de passar pelo km 60 e olhar para o Garmin verificando que tinham passado 10 horas exactas desde que tinha iniciado esta odisseia.

O abastecimento de Senhora da Piedade de Tábuas é que nunca mais chegava! Desci, desci, desci e finalmente lá estava ele! Segundo o meu Garmin, estava já no km 67! Os quilómetros deviam-se ter transformados em milhas marítimas, devido à humidade! Entrei no abrigo e logo de seguida tive a felicidade de ver chegar o meu grande amigo Luís Ricardo, companheiro de Portalegre. Decidimos correr juntos até ao fim.

Até ao abastecimento de Espinho, percorremos um troço junto à ribeira, muito técnico e perigoso dado ser feito com a luz escassa do frontal. O Luís Ricardo foi um apoio inestimável para que este desafio fosse concluído da melhor forma. Conseguimos correr até ao fim, onde era possível fazê-lo, no restante andávamos, e o Ricardo foi-me incentivando e aguardando por mim quando eu ficava para trás. Tenho tido a sorte, de ser apoiado nestes desafios por pessoas de grande valor humano, a quem fico muito grato, pela amizade e companheirismo. O meu muito obrigado para o Luís Ricardo!

Aos 77 km chegámos ao abastecimento de Espinho, no Ti Patamar, onde fomos recebidos pelo mui popular Vitorino Coragem, que já tinha terminado a sua prova de Trail, e estava ali a apreciar uma bagaceira enquanto convivia com quem passava.

Arrancámos novamente para o caminho e apenas o incentivo constante do Ricardo me mantinha a correr, quanto todas as fibras do meu corpo me ordenavam que parasse, por piedade!

Mais 8 km de provação e foi, por fim, após 14h58 de prova, com uma grande felicidade que cortei a linha da meta, fui acolhido pelo José Moutinho e pelo Fernando Pinto, e revi a minha família e amigos.


Luís Ricardo e Luís Ferreira

Família


Comprovou-se mais uma vez que beleza e dureza estão incritas no código genético das provas do AXtrail. Gosto muito destas provas, pois realizam-se em cenários idílicos, de rara beleza, oferecem percursos técnicos e desafiantes, e têm uma mística muito particular. A envolvente das Aldeias do Xisto proporciona um espaço mágico de encantamento. A companhia e fraternidade dos companheiros dos Trilhos facilitam momentos de amizade e partilha inesquecíveis. As caminhadas para as famílias dos atletas também são muito bem conseguidas pois oferecem uma experiência envolvente e informativa. Esta foi das provas que fiz que tinha o percurso melhor marcado, nunca me enganei nem sequer tive dúvidas em ponto algum, isto apesar da chuva, do nevoeiro e do cair da noite. Por tudo isso, as minhas felicitações e agradecimentos para a organização.

Após a prova fui tomar um banho quente e ingerir uma refeição retemperadora, regada com um copo de tinto, que me soube divinalmente.

No dia seguinte ainda pude assitir à entrega dos prémios. O José Carlos Santos lá subiu ao ponto mais alto do pódio, na categoria de veteranos II, da prova de Trail, o que já se vai tornando um hábito, e o grande Armando Teixeira foi o justo vencedor da prova de 85 km. Em femininos foi a Susana Simões quem ganhou o Ultra Trail.


Pódio dos Vet II do Trail

Pódio da Geral do UTAX

Organização


Depois fomos almoçar ao famoso restaurante “O Burgo”, na companhia da família Ricardo e da família Santos, onde nos deleitámos com uns saborosissímos pratos de veado e de javali, bem regados com um tinto encorpado.

Por fim, foi hora de dizer adeus e regressar novamente para a lufa-lufa da vida citadina, com ânimo redobrado.





Este foi o oitavo Ultra Trail que completei neste ano de 2012. Agora tenciono descansar até ao fim do ano, abrandando no ritmo e volume dos treinos, para iniciar fresco a nova época.




domingo, 4 de novembro de 2012

3º Mesociclo 2012/2013





Nas 4 semanas que decorreram entre 08/10 e 04/11, completei o meu terceiro mesociclo da presente época desportiva, cujo grande objetivo é correr o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), em Agosto de 2013.

Ao todo, corri 330 km com 5600 m D+.

Volume de treino desde o início de 2010


Este macrociclo teve em vista os 82 km do Ultra Trail das Aldeias do Xisto, que terá lugar a 10 de Novembro na Lousã, uma prova que promete revelar-se muito dura, dado o seu grande desnível positivo (5000 m) e o terreno muito técnico que teremos que percorrer, em condições meteorológicas imprevisíveis.

Infelizmente, não consegui completar o volume de treino a que me propus, pois por vezes não é fácil cumprir um plano de treinos rigoroso, dada a vida agitada que hoje em dia todos temos. Quantas vezes não fazemos tudo "a correr" e até a própria corrida é feita "a correr", para despachar mais uns tantos quilómetros num qualquer intervalo entre dois afazeres que nos absorvem o tempo.

Isso leva-me a questionar-me o que é o tempo e para que serve? É talvez a pergunta mais fundamental que o ser humano pode colocar a si próprio pois a resposta que encontrar poderá ser determinante para as suas escolhas de vida. Uma coisa é certa: todos recebemos como dádiva uma certa quantidade de tempo, imprevisivel mas necessariamente limitada. Logo é bom que o usemos com algum critério.

Eu tenho escolhido passar mais tempo na natureza, na companhia da minha família. Esta minha paixão pelo Trail Running tem-me proporcionado muito boas amizades e momentos de grande partilha, em locais de grande beleza natural.

Ainda recentemente participei no Trail Running Camp da Serra da Lousã, onde tive o prazer de ouvir e dialogar com alguns renomeados especialistas na modalidade e de conviver com excelentes atletas e seres humanos de grande valor.

Possa o meu tempo continuar a ser preenchido desta forma saudável e muito recompensadora!



domingo, 21 de outubro de 2012

II Grande Trail Serra D'Arga



Sexta-feira, dia 5 de Outubro de 2012. Este feriado, o último em que se comemora a Implantação da Republica Portuguesa, que teve lugar em 1910, veio mesmo a calhar. Para quem não se recordar, nesta data comemora-se também o reconhecimento da independência do Reinado de Portugal, consubstanciada na assinatura do Tratado de Zamora por D. Afonso II de Leão e Castela, em 5 de Outubro de 1143. Ora, nos tempos conturbados que se vivem, esta independência anda um pouco ameaçada, como aliás já o esteve noutras ocasiões, e mais, ao longo dos seus quase 900 anos de história.

Mas basta de história. Dizia eu que o feriado veio mesmo a calhar porque neste fim-de-semana teria lugar em Caminha no Minho, a 2ª edição do Grande Trail Serra D'Arga. Assim pelas 14 horas já nos encontrávamos a caminho do norte, a família inteira iria participar no evento desportivo.

Após uma viagem mais rápida do que o previsto, lá chegámos ao Hotel Portas do Sol em Caminha, onde no dia seguinte teriam lugar as II Jornadas Técnicas do Trail.

O Norte evoca sempre em mim as férias da minha infância, passadas na ria de Aveiro, no Torrão do Lameiro, pequena povoação perto de Ovar. Os telhados das casas, as culturas, os cheiros, tudo me faz lembrar esse período feliz.

No sábado tivemos a grande alegria de reencontrar muitos dos amigos e habituais participantes nestas corridas pedestres na montanha. Esta prova teve uma enorme adesão, com 450 inscritos em cada uma das distâncias maiores, os 45 km e os 21 km, e ainda cerca de 140 inscritos nos 12 km, testemunho da qualidade organizativa e da enorme popularidade do Carlos Sá, o nosso atleta mais reconhecido e que muito tem feito pelo desenvolvimento da modalidade em Portugal.

De resto, o Trail Running é uma modalidade em grande expansão, e que suscita um interesse crescente entre a população portuguesa. Desejamos que assim continue pois, quanto a mim, trata-se de uma modalidade com grandes virtudes e que potencia valores muito positivos como sejam, entre outros, o são convívio, cooperação, entre-ajuda, respeito pela natureza, auto-superação, vida saudável, etc.

Nesta prova tive a oportunidade de constatar várias dessas qualidades empregues em benefício da minha pessoa. Mas estou-me a adiantar ao relato dos acontecimentos.


Dr. Pedro Amorim - Jornadas Técnicas do Trail

Comecemos por descrever brevemente as Jornadas Técnicas. Tal como no ano passado, o programa foi novamente muito interessante e tivemos a oportunidade de ouvir o Carlos Sá, o "Ultra Man" António Nascimento, o Dr. Pedro Amorim, e o Marco Olmo. O Carlos falou-nos das suas experiência na MDS e UTMB. O António, da sua preparação e participação no UltraMan do País de Gales (10 km natação + 421 km ciclismo + 84 km corrida). O Pedro falou-nos de lesões desportivas. O Marco inspirou-nos com as suas17 participações na MDS e 2 vitórias no UTMB, e os seus 64 anos de idade sempre muito activos e longe da idade da reforma. Sobretudo todos eles nos inspiraram respeito e admiração com o seu modo simples de partilhar connosco os seus extraordinários feitos.


Run 4 Fun no restaurante

Fomos jantar com os companheiros de equipa do Run 4 Fun a um Restaurante muito agradável, o Rio Coura. Degusta-se um polvo com broa e um cabrito excelentes, com uma companhia muito agradável.



Partida do GTSA 2012

No domingo tivemos um início de dia abrupto quando o telemóvel começou a apitar descontroladamente e não havia maneira de eu o conseguir desligar. Devo ter acordado a família inteira, quando finalmente lá o consegui calar. Eles iam participar na prova de 12 km, que só teria início às 10 horas, portanto tinham direito a mais umas horitas de sono.

Às 6 da manhã, juntei-me ao Paulo Jorge na sala do pequeno-almoço onde abasteci abundamentemente o estomago. Depois partimos para Dem, povoação a cerca de 10 km do Hotel, onde teria lugar a partida da Maratona.


Zona da partida

No local de partida, entre outros companheiros, encontrei o Carlos Monteiro. Decidimos correr juntos, para nos apoiarmos mutuamente. Foi uma excelente decisão, pois mantivémo-nos juntos durante a maior parte da corrida o que nos ajudou bastante.

No ano passado vimos frustada a vontade de cumprir a distância por inteiro devido às condições meteorológicas desfavoráveis (ver meu post do ano passado). Este ano o céu apresentava-se limpo e o tempo ameaçava aquecer.

Foto de Lina Batista

 À oitava badalada da torre da Igreja é dada a partida e lá arranca a mole humana, os primeiros a tentarem posicionar-se para não perderem muito tempo no single-track que se avizinhava e os menos competitivos mais lentos e mais descontraídos.

Os primeiros 3 km são feitos sempre a subir, e temos que vencer uma forte inclinação.

Ao fim de alguns quilómetros somos ultrapassados pelo companheiro Zé Guimarães, sempre em grande forma.


Foto de Ruben Huertas

Passamos pelo rio, muito escorregadio e tenho aqui o meu primeiro percalço ao embater com a coxa numa rocha, o que me provoca uma perna dorida para o resto da prova.

Aos 21 km passamos por S. Lourenço onde se encontra a meta da Meia Maratona. Pouco depois reencontramos o Zé e o Paulo Costa.

O percurso é muito duro. As subidas são demolidoras e as descidas arrasantes.

Antes da ultima subida começo a sentir fortes caimbras nas coxas e nos gémeos. Felizmente, apesar disso continuo a conseguir progredir. É muito raro ser atacado por caimbras, o que me revela a dureza do percurso.

Consigo chegar ao último abastecimento ainda a sentir-me com força bastante para completar os últimos 3 km sem esmorecer. A prova está-me a correr bem, e o meu Garmin marca 42 km feitos em 5h48.

Infelizmente ao virar da esquina o desastre espreita!

Assim que inicio a descida para Dem, tropeço numa pedra e caio desamparado sobre umas rochas, o que me faz sofrer várias escoriações, um punho dorido e um golpe num sobrolho, o qual é passível de ter provocado alguma inquietação entre os companheiros que passaram a seguir, pois deve ter escorrido aparatosamente algum sangue sobre o meu rosto. Na altura fiquei algo desorientado e como não via nada do olho esquerdo confesso que receei o pior.

Felizmente nada era de grave a após o sangue ter sido limpo por um bombeiro, e me terem passado as caimbras que me assolaram após a queda, lá prossegui até à meta no ritmo possível.

Gostaria de realçar o ENORME espírito de camaradagem que existe entre os atletas desta bela modalidade: não houve nenhum atleta que não parasse para indagar do meu estado, e para inquirir se poderia ser de algum auxílio, atrasando-se alguns minutos preciosos e comprometendo assim a sua prestação na corrida. Inclusíve, os primeiros que me viram voltaram algumas centenas de metros atrás ao abastecimento para ir buscar auxílio. Isto só revela da grande qualidade humana e do enorme espírito de entre-ajuda que se encontra entre estas pessoas. Pela minha parte fiquei muito sensibilizado e gostaria de agradecer publicamente a todos esses companheiros.

Um grande BEM HAJAM para todos!


Meta

Na meta fui recebido calorosamente pelo Carlos Sá, que fez questão de receber todos os atletas à medida que chegavam.

Apesar do meu percalço, considero que foi um belíssima prova, uma excelente organização, e um óptimo dia para correr. Para o ano estarei cá novamente.



Equipa Run 4 Fun

Entretanto, o Run 4 Fun tinha uma vasta equipa a participar nos 12 km, com 600 m D+, entre eles a minha companheira e os nossos dois filhos.


Foto de Manuela Cruz

Também eles adoraram a prova. No fim tiveram todos direito ao colete de Finisher, o que os deixou impantes de orgulho.

A equipa ficou classificada em 3º lugar e teve direito e troféu.


Troféu do 3º lugar por equipas

Muitos parabéns para a equipa, quase integralmente feminina!!!

Vários outros companheiros Run 4 Fun participaram na Maratona e na Meia Maratona. A minha homenagem para todos eles.

Vários elementos da equipa Run 4 Fun (os da Maratona já tinham partido)


Agora a próxima aventura será em Novembro na Serra da Lousã, onde tenciono completar os 82 km do UTAX.


2º Mesociclo 2012/2013

Partida do GTSA 2012


Nas 4 semanas que decorreram entre 10/09 e 07/10, completei o meu segundo mesociclo da nova época desportiva, cujo grande objetivo é correr o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), em Agosto de 2013.

Ao todo, corri 360 km com 7800 m D+, nadei 6,5 km, e pedalei 16 km. Já começo a recuperar do enorme cansaço sentido após terminar os 168 km do Ehunmilak.




Este mesociclo foi adaptado à preparação para duas provas específicas, a Meia Maratona de Portugal e o Grande Trail Serra D'Arga.

A Meia Maratona de Portugal correu-me melhor do que esperava e terminei com um tempo de chip de 01:27:16, semelhante ao tempo que tinha feito em 2011.

De resto a prova foi uma festa, com uma enorme adesão popular e com a agradável particularidade do concerto do João Gil e Luís Represas e dos Xutos e Pontapés no fim, não fora a prova fazer parte da Rock 'n' Roll Marathon Series.


Concerto dos Xutos e Pontapés


No último fim-de-semana do mesociclo, participei nos 45 km do GTSA. Essa prova mereceu uma deslocação da família inteira até Caminha, onde participámos todos, cada um na sua distância. De resto, a prova merecerá uma crónica própria, pelo que não valerá a pena alongar-me aqui.