terça-feira, 22 de outubro de 2013

Le Grand Raid des Pyrénées





Como se ultrapassa a adversidade? Onde vamos buscar as forças para persistir quando todas as fibras do nosso corpo nos ordenam que é altura de desistir?

Dizem que a fadiga é uma ficção que o cérebro engendra para ordenar ao corpo que é altura de parar, antes que algo irreparável o pare definitivamente.

Talvez a realidade seja toda ela uma ficção criada pela nossa mente. Ou então é um enredo que o nosso cérebro constroi, dinâmica e interactivamente, para se conseguir orientar num mundo complexo e desprovido de um propósito independente da nossa vontade.

Há investigadores que dizem que temos um cérebro “social” composto por módulos, com diferentes funções. A comandar esses módulos (ou ser comandado por eles) poderá, ou não, existir uma identidade denominada o “eu”, o “self”, a “consciência”, ou o que lhe queiramos chamar.

A razão porque construimos percursos e prosseguimos objectivos é porque necessitamos de um ou vários propósitos que nos orientem nesta vida. Como não somos seres simples, não é fácil definir um propósito claro.

Talvez seja o nosso histórico evolutivo que nos atira para o fio da navalha. Talvez sejamos apenas loucos e isso esteja inscrito na nossa matriz genética. O primata que enlouqueceu.







No princípio de Janeiro inscrevi-me naquele que iria ser o meu principal desafio desportivo da época: os 160 km com 10.000 D+ (desnível positivo) do Grand Raid des Pyrénées, que teria lugar nos Pirinéus Franceses.

Numa prova de endurance extremo, como é uma corrida de 160 km pelas montanhas, com um desnível acumulado brutal , é necessário saber ler os sinais do corpo e actuar de forma a contrariá-los quando necessário, ou entregar-se sem opor resistência. Conhece a dor, vive a dor, não te deixes dominar por ela! A dor pode de facto ser tua amiga.

O ano que passou foi um ano muito dificil, por variadas razões.

Quando se chega aquele período médio da vida, em que já não somos jovens mas também ainda não somos velhos, ou pelo menos não é assim que nos vemos, temos tendência a fazer um balanço daquilo que foi e perpectivar aquilo que ainda poderá ser.

Quando um dos nossos pais sofre um encontro tangencial com a Ceifeira de Vidas e se safa por uma unha negra, apercebemo-nos a um nível visceral de que nem eles nem nós vamos durar para sempre.

Na noite de 4ª feira, dia 23 de Janeiro, quando recebi um telefonema da minha mãe, apercebi-me logo pelo tom de voz dela que algo estava muito errado. O meu pai estava inconsciente, a ambulância já lá estava e eles iam levá-lo para o hospital S. Francisco Xavier. Dirigi-me logo para lá para encontrar-me com a Mãe e ainda o consegui ver, em coma, entubado (ventilado). Fizeram-lhe um TAC, que revelou um AVC hemorrágico muito extenso,  e os médicos disseram-nos que havia a possibilidade de ele não passar das primeiras 24 horas.

No dia seguinte fizeram-lhe um orificio no craneo para drenar o sangue que se acumulava nos ventriculos cerebrais.  Nos próximos 5 dias mantiveram-no num coma induzido até ser seguro baixar os sedativos.  A minha mulher, Helena, que é médica, viu o TAC e recordo-me bem das lágrimas que lhe acorreram aos olhos ao verificar a extensão da zona afectada.

Acordou com o tubo do ventilador enfiado na garganta e não conseguiamos comunicar com ele. Depois apanhou uma pneumonia. No dia 1 de Fevereiro foi retirado dos cuidados intensivos para os cuidados intermédios da enfermaria de neurocirurgia do Hospital Egas Moniz. Durante vários dias tentava falar mas não saia nada. Era aspirado frequentemente, o que é um procedimento muito desagradável e incómodo, mas necessário. Tinha apneia do sono. Ritmo cardíaco elevado. Estava medicado para a tensão. Não me reconhecia.

No dia 14 de Fevereiro mudaram-no para um quarto da enfermaria de neurocirurgia. Nesse dia finalmente reconheceu-me. É impossível exprimir a alegria e o alento que isso me deu. Ele estava a ter uma recuperação muito para além de todas as nossas melhores esperanças.

Ainda esteve mais uma semana no HEM até que foi transferido para o Hospital Residêncial do Mar, o Hospital onde a Helena trabalha, para uma cama de cuidados continuados. Aí esteve internado até ao dia 1 de Junho. Beneficiou de excelentes cuidados prestados por uma equipa multidisciplinar muito competente, que muito o ajudou a evoluir numa recuperação para além de todas as nossas espectativas. Durante todo esse tempo o papel da minha mulher foi inestimável no apoio ao meu pai.

Foi no entanto um carrocel emocional que durou vários meses e afectou muito o meu estado de alma.

Quem me seguiu até aqui deve estar a perguntar-se o que isto tem a ver com uma crónica de corrida?! Eu responderia que quase tudo!

Antes de mais, descobri que vários companheiros já tinham ou passavam ainda por situações semelhantes e tinham ido buscar forças dentro de si para lidar com isso. Sobretudo descobri, mais uma vez, que se pode conseguir ir buscar à dor forças para seguir em frente. Senti-me irmanado numa corrente de dor, esperança e força de viver.

Mas tenham paciência para me seguir no que falta do relato e espero conseguir transmitir um pouco melhor aquilo que quero exprimir.

Treinei mais erraticamente do que no ano anterior. Tive dificuldade em conseguir conciliar as idas frequentes ao Hospital, com as minhas restantes responsabilidades pessoais e profissionais e ainda os exigentes treinos prescritos pelo meu treinador, Paulo Pires.


Treino mensal (agrupado em mesociclos de 4 semanas)


À medida que se aproximava a data da prova, mais eu me questionava da razoabilidade de me meter novamente numa aventura destas.

Contudo eu pressentia a enorme imporância de ser capaz de ultrapassar mais este desafio apesar das enormes contrariedades que tinha vindo a sofrer.

A decisão estava há muito tomada. Não havia como voltar para trás. Assim, lá partimos, em família, conforto, estrela polar e esteio da minha vida, para França, mais precisamente para St. Lary, célebre estância de Sky, nos Pirinéus Franceses. Chegámos lá na 3ª feira dia 20/08. A prova teria início na madrugada da 6ª feira seguinte.




Dois dias antes da data de início, durante um passeio de automóvel em que fizémos o reconhecimento de alguns dos postos de abastecimento mais importantes, sofri um contratempo estúpido que iria ditar a evolução da minha prova. Ao conduzir o carro, sofri uma contratura na coxa esquerda!!!

Acontece com alguma frequência aos desportistas terem lesões estúpidas em momentos em que não estão a treinar.

Suspeitei que esta lesão poderia condicionar a minha corrida mas ainda não sabia a que ponto esta contratura iria ter uma infuência decisiva no desenrolar da minha prova.

De acordo com os manuais a performance desportiva pode-se explicar decompondo-a em 3 factores fundamentais: o VO2max, ou seja a ”potência do nosso motor”, multiplicado pela nossa resistência ou endurance, que é a capacidade de mantermos um ritmo fixo a uma percentagem elevada do VO2max, e dividido pelo custo energético da nossa locomoção (relacionado com a nossa técnica de corrida).

O meu ponto forte é o “endurance”. Para o endurance contribuem diversos factores. Quanto a mim, numa corrida com estas características, um dos mais sigificativos é o mental. Em suma, a capacidade de prosseguir sob grande sofrimento.

As provas de Ultra-Trail têm características únicas que as diferenciam das corridas de estrada. A estratégia é muito mais compexa, pois é necessário avaliar um número muito maior de variáveis, tais como o percurso, as condições ambientais, o equipamento necessário (impermeável, bastões, etc), a alimentação, o ritmo, o descanso, etc.





No dia anterior à prova fui levantar o dorsal e mostrar o habitual equipamento obrigatório. Estava preocupado com as características do impermeável. No próprio dia de saída de férias comprei à pressa um da Trangoworld e perguntava-me se seria suficiente. No ano anterior, nos 168 km do Ehunmilak, durante a 2ª noite tinha passado imenso frio, no alto da montanha e temia que isso me voltasse a acontecer.

Este ano, ao longo da prova senti novamente o problema de me agasalhar ou não. Se agasalho demais, suo em bica e desidrato rapidamente, sobretudo em montanhas humidas e ventosas. Se agasalho de menos rapo um frio do caraças e corro o risco de entrar em hipotermia, como quase me aconteceu em 2012. Andar sempre a tirar e pôr o impermeável não é prático, sobretudo porque é necessário retirar e colocá-lo na mochila incessantemente.

Com todas estas preocupações em mente, levantei-me na madrugada de dia 23, para me dirigir para o início da corrida.

A prova tem início na vila de Vielle Aure, adjacente a St. Lary. Vielle Aure está situada a 791 m de altitude.

Às 4h30 juntei-me ao grupo compacto que já se encontrava alinhado por detrás da linha de partida.







Às 5h00 é dado o tiro de partida e um grupo de 850 corredores, de luz frontal acesa na cabeça, segue pela avenida de Vielle Aure em direção a St. Lary, depois Vignec e, ao fim de 1,8 km, inicia-se a subida para o Col de Portet  (a 2215 m de altitude).

Seguimos em fila compacta, por um caminho estreito, não há espaço para ultrapassar. Vou demasiado agasalhado e começo a suar profusamente. Decido aligeirar a roupa, colocando na mochila o não estritamente necessário.




Ao fim de alguns kms saímos do caminho para a estrada, em Soulan,e entramos em trilhos em terreno mais aberto. Vamos subindo, em fila indiana pois o trilho só comporta um de cada vez, em direção ao Col (Col significa passagem) que vislumbramos lá em cima.




Quando chegamos ao Col de Portet já temos 1424 de D+, em apenas 12,6 km. Esta iria ser a tónica de toda a prova.

Esta na realidade é basicamente constituida por 5 subidas colossais (a maior das quais chega a ter quase 2000 metros de desnível positivo ininterruptos) e as correspondentes descidas, que se podem revelar ainda mais difíceis do que as subidas, como eu iria em breve constatar, de forma extremamente dolorosa.




Viro-me para trás e o espetáculo que me é dado a assistir é magnífico! O sol acaba de se levantar no horizonte. Julgo que nunca tinha visto um nascer do sol tão glorioso, enquadrado por uma fila interminável de pirilampos que sobem pelo trilho. Sinto-me irmanado numa tribo de atletas primevos, uma cadeia que percorre as águas do tempo, do passado para o futuro.

O primeiro abastecimento, o CP1, está no restaurante de Merlans. 2h20 para percorrer 14 km. Estou na posição 252 em 849 atletas.






 


De seguida contornamos o Lago de Bastan e subimos para o Col de Bastanet, a 2505 m de altitude e 20 km do início da prova. Este primeiro troço da prova, até Artigues, vai-se revelar extremamente técnico, com pedra e mais pedra e mais pedra e mais pedra. Após poucos kms já deito pedras pelos olhos. É necessário andar sempre aos saltinhos para evitar o fim prematuro da prova ao torcer algum pé ou sofrer uma queda feia por tropeçar numa pedra. Já tive o meu quinhão de quedas noutras provas, mas prefiro não adicionar outra ao rol neste cenário tão agressivo.





Do Col de Bastanet fomos progressivamente descendo, ao longo de 10 km bem duros e pedregosos, até ao abastecimento de Artigues, a 1190 m e km 30, depois de 5h08 de prova. A primeira subida e primeira descida estavam feitas. Até aqui tinha vindo a progredir muito bem e as pernas estavam a aguentar-se, apesar da coxa esquerda já começar a dar alguns sinais inquietantes. Se conseguisse manter este ritmo forte de 5 horas para fazer 30 km, conseguiria um tempo abaixo das 30 horas nos 160 km, o que eu sabia ainda não estar ao meu alcance, pelo menos para já ...neste ano ainda não (lá hei-de chegar, estou certo, com tempo e persistência).

Aproveitei para me refrescar e encher a mochila de hidratação, pois o dia está quente, e vou necessitar beber muita água para me manter hidratado.

À saída do abastecimento tive a enorme alegria de encontrar pela primeira vez a minha família à espera para me ver passar.




Abraços, beijinhos, um pouco de conversa e lá vou eu novamente com a alma renovada.








A partir daqui é sempre a subir até ao ponto mais alto da prova: o Pic du Midi de Bigorre, a 2876 m de altitude. 1700 m de subida quase ininterrupta. Trilhos estreitos. Passei por compridas filas de companheiros que faziam lembrar caravanas do deserto. Arrastavam-se por alí acima, olhando para baixo, cuidando onde colocam os pés, com um ar resignado. O céu estava glorioso, azul brilhante manchado de branco. À medida que subimos parece que o azul se altera. Sentimo-nos mais perto do céu. Contornamos manchas de neve branca. Progredimos determinados, embalados como num sonho. Após horas de marcha chegamos ao abastecimento do Col de Sencours, espécie de estação de base para a subida ao Pic.

Aqui cometo o meu primeiro erro estratégico. Encho um bidão com coca-cola e vou bebendo à medida que subo. Erro crasso! O excesso de coca-cola acaba por me deixar enjoado e a sua acidez agride o meu estomago.










Seja como for progrido bem até ao pico. Às 8h08 de prova reencontro a minha família lá no alto. 40 km já lá vão. Pequena pausa para apreciar a vista, alguns dedos de conversa com os entes queridos e desço novamente. A descer todos os santos ajudam e vou disparado que nem uma seta por alí abaixo.

No Col de Sencours ingiro a sopa mais salgada da minha vida, o que a somar à coca-cola quase me deixa KO. Depois disto andei kms com a sensação de ter engolido um calhau de sal. O  estomago não me deixa ingerir mais nada que não seja água.

Este é um grande problema. Numa prova destas características, a alimentação é fundamental. Gasta-se qualquer coisa da ordem das 20.000 Kcal, que é necessário repôr, a todo o custo, senão o “motor” deixa de funcionar.

Do Col de Sencours até ao abastecimento de Hautacam vão ser 20 km de muita sede! Parece que estou no Saara. A dado passo, quando a minha água se esgotou, cheguei a beber água de uma ribeira que caia do alto. Fiquei um pouco apreensivo mas suponho que as vacas desta região sejam saudáveis, porque é garantido que os cursos de água estão conspurcados...









Aliás a fauna local é composta sobretudo por vacas, cavalos e ovelhas. Os primeiros são uns animais imponentes que metem respeito quando se passa por eles.




Quando me aproximei de Hautcam levantou-se um nevoeiro impenetrável, que cobriu com um manto opaco aquilo que até ali tinha sido um dia quente e ensolarado.




Cheguei a Hautacam às 17h33 da tarde, após 12h33 de prova. Ainda me sentia fresco após estes primeiros 60 km.

Em Hautacam estava novamente a minha família à espera. Troquei umas palavras com eles, consegui finalmente alimentar-me, voltei a encher a mochila de hidratação e lá segui para Villelongue, onde iria encontrar a primeira refeição sólida e o saco de muda de roupa.




Desci 1000 m e ao km 72 entrevi finalmente o oásis de Villelongue.

Em Villelongue fui novamente recebido pela Helena e os miúdos, o Rui e a Ritinha, que me transmitiram instantaneamente pelos seus sorrisos maravilhosos o alento necessário para os próximos kms. Demorei-me 35 minutos, e fui ajudado a vestir roupa seca e a trocar os sapatos, dos Salomon para os Mizuno, pois os primeiros já me começavam a magoar os pés e ganhar bolhas nesta altura altura não era nada boa ideia. Confessei à Helena a minha preocupação com a perna esquerda, que já se vinha a ressentir há algum tempo, massacrada pela enorme descida desde os 2876m do Pic du Midi até aos 504m de Villelongue. Como sempre, ela soube escolher judiciosamente as palavras, relembrando-me que eu sempre tinha sido capaz de resolver estas situações e que não iria ser desta que iria claudicar. Por vezes necessitamos que alguém que amamos nos lembre destas coisas.

Este seria o derradeiro ponto onde veria a família antes da meta, dado o restante do percurso ser feito a horas pouco próprias para as crianças e por locais de mais dificil acessibilidade a partir da nossa base em St. Lary.

Enviei também um sms ao Paulo, a informá-lo que já aqui estava.

Quando saí do Abastecimento, já estava a entardecer. Dentro de pouco iria cair a noite. Saí da cidade e entrei novamente nos trilhos. Procurei seguir as recomendações do meu treinador e juntar-me a um grupo que tivesse um ritmo semelhante ao meu.

Infelizmente, como cometi o erro de não sair com o frontal colocado, a certa altura deixei de ter luz suficiente para caminhar em segurança e vi-me obrigado e parar e abrir a mochila para retirar o frontal e agasalhar-me melhor para a noite. Quando acabei de me equipar, os meus companheiros tinham desaparecido.

Estuguei o passo para tentar apanhá-los, mas ainda demorei vários kms em ritmo acelerado até alcançá-los. Quando finalmente me juntei a eles, ajustei andamento pelo seu passo forte. Nada de correr pois tinhamos pela frente uma subida quase initerrupta desde os 504 m até aos 2334 m de altitude.

Demorámos quase 3 horas para fazer os primeiros 13 km com 1245 D+  até chegarmos à tenda de Pouy Dormide, o CP6. Este abastecimento é muito exposto aos elementos e decido ficar o mínimo indispensável para me alimentar e recuperar forças. Faltam ainda 5 km e 700 m D+ para chegar ao alto de Cabaliros, no km 90.




Esta subida final é extenuante, arrastamos-nos por ali acima. Por vezes o terreno é tão inclinado que quase tocamos com as mãos no solo. Acima dos 2000 m começo a sentir o mal de altitude: enjoos, dor de cabeça e o coração acelerado que parece rebentar no peito. Demoro mais de uma hora a percorrer este troço. Vou com o olhar fixo na altimetria do Garmin, desejando que o número suba como que por milagre. Finalmente chego ao alto. A paisagem noturna é magnífica, com uma lua resplandecente e um mar de névoa cinza a cobrir os vales.

Aproveito para relaxar e apreciar a paisagem noturna. O desafio que se me apresenta daqui para a frente é bastante superior aquele que estou a deixar para trás. Tenho estado muito forte nas subidas. Desde Villelongue até aqui ultrapassei 30 atletas.

Agora na descida é que vão ser elas! Mal inicio a descida começo logo a sentir dores muito fortes na coxa esquerda.



Sei que em 10 km vou ter que descer 1400 m até Cauterets!

A agonia que senti ao descer cada um daqueles 1400 metros, desde Cabaliros até Cauterets, é difícil de explicar. A dor aguda que sentia era como uma faca a ser espetada na perna. Foi uma marcha penosa e lenta, a minha “longa marcha” noturna pelos single-tracks dos Pirinéus. De noite tudo parece mais difícil. O corpo está mais atento às más sensações. Somos assaltados pelos nossos monstros pessoais.

Demorei quase 3 horas a descer 10 km até aos 100 km de prova e fui ultrapassado por 15 companheiros. Pelo caminho fui pensando que não estava a ver maneira de fazer mais 60 km nestas condições. Que iria ser esta a primeira vez que desistia numa prova de Trail, depois de mais de 20 Ultras concluidas com sucesso. E logo no maior objectivo desportivo de um ano tão complicado como este!!!

Depois relaxei e pensei no meu pai, que, apenas alguns meses antes tinha lutado contra a morte e sobrevivido contra todas as probabilidades e pensei que nem que tivesse que fazer os restantes 60 km ao pé coxinho, iria acabar esta prova!!!

Fui defendendo a perna esquerda o melhor que podia, apenas dobrando a direita para descer e forçando a esquerda o menos possível, apoiando-me nos bastões. Claro que o expectável é que isto também acabe por ter consequências na perna que é sobrecarregada, mas não havia alternativa senão prosseguir.

A perna aguentou e lá cheguei ao conforto do pavilhão em Cauterets, a 925 m de altitude, após 21h17 de prova. Quando cheguei  eram 02h22 da noite e caía uma chuva miudinha. Estava na posição 136 em 546 atletas que ainda prosseguiam em prova, reduzidos dos 850 iniciais. A primeira coisa que fiz foi procurar uma enfermeira, que me deu paracetamol para as dores. No abastecimento notava-se bem o ar destroçado da maioria dos atletas. Era palpável o odor a desespero dos muitos que iriam desistir logo ali.




Após um descanso retemperador iniciei a subida de 10 km e 1000 m D+ para Aulian. Nas subidas continuava forte e voltei a ultrapassar 23 atletas. Às 05h27 da madrugada cheguei ao abastecimento, encharcado da chuva mas determinado.




Agora teria que enfrentar mais uma descida, a penúltima, de 9 km e 750 m D- até Esquieze Sère onde estava o 2º abastecimento sólido e o saco com a muda de roupa. Graças ao efeito analgésico do Paracetamol, ou ao seu efeito placebo, não estou certo, consegui descer, em 2 horas, até à vila. O terreno estava empapado, lamacento e muito escorregadio, mas não sofri nenhuma queda debilitante, apenas os banhos de lama inevitáveis. A chegada foi feita ao amanhecer, pelo alcatrão que parecia nunca mais terminar, até finalmente chegar ao Pavilhão onde estavam os abastecimentos, a refeição quente, as enfermeiras (o mais próximo que já vi de um anjo) com os comprimidos de paracetamol e o podólogo.  120 kms e 7400 D+ já cá cantavam, após 27h21 de prova.

Desta vez permaneci quase uma hora a recuperar da tremenda tareia que tinha levado até então. Mudei novamente de roupa. E fui tratar dos pés, que já avolumavam umas bolhas bem feias. O podólogo fez-me um tratamento à maneira, com uns cremes e umas tiras protetoras que me garantiram o conforto possível para os próximos kms.

À saída liguei novamente o telemóvel e vi a mensagem do Paulo, que me sugeria tomar anti-inflamatório “e siga!” É assim mesmo “El Comandante”, nada de mariquices!

Infelizmente já era tarde para tomar o anti-inflamatório mas outras oportunidades surgiriam. Seja como for, eram 8h27 da manhã e eu sentia-me animicamente bem. Não deve ser por acaso que a palavra alma tem as mesmas letras que lama. Temos que rastejar pela lama para que alma venha à superfície.

Já só faltavam 41km e 2400 D+. Basicamente um GTSA, ou Uma Ultra dos Abutres até à meta, mas com ainda mais calhaus afiados como facas.





Agora era sempre a subir até Tournaboup. Foi um percurso sem incidentes e sem memória o que me levou até lá, km 132, 1461 m de altitude, após subir 947 m D+. Estava agora na posição 102 em 442 resistentes.

Faltava a dura parte final.




Para começar, 1000 m de subida até ao Col de Barèges, no km 140, 2469 m de altitude. Uma subida extenuante, inicialmente sobre calhaus enormes, seguidos de uma progressão difícil de tão inclinada (mais de 10% de inclinação).

Às 13h13 chego lá. 32h07 de prova. Será que ainda vou conseguir baixar do meu tempo do ano anterior no Ehunmilak? Preciso bater 39h42. Não sei se será possível. Começo a descer e vou muitíssimo lento. A perna volta a mostrar que não tem vontade nenhuma de ser castigada. Riposta castigando-me duramente a mim. 2 horas com os dentes cerrados para fazer 9 km a descer!  Vou sendo ultrapassado por atletas que descem rápidos que nem setas.









 
Finalmente lá chego ao Restaurant Merlans, primeiro e último ponto de abastecimento desta prova. O círculo está quase completo. São 15h18 da tarde. Ainda vou chegar antes do anoitecer. Temo os longos 13 km da última descida. 1400 m D-, sempre a descer. Peço um anti-inflamatório, tal como o Paulo tinha recomendado.  Descanso um pouco. Telefono à Helena para lhe dizer que estou quase mas receio que ainda devo demorar a fazer esta descida.

Estou na posição 96 em 436 bravos. Metade já desistiu. Todos os que chegaram até aqui irão chegar ao fim. Já cheira a meta. O cheiro doce do sucesso!




Saio do abastecimento, subo a última colina até ao Col de Portet a 2215 m de altitude e lá vou eu lançado o mais que posso por alí abaixo. Ou foi do anti-inflamatório ou da adrenalina da “recta” final (numa prova de 160 km , com 10.000 D+, 13 km com 1.400 D- são uma “recta final”), o que é certo é que consigo manter um ritmo relativamente vivo face às minhas expectativas. Fui descendo, descendo e descendo, Espiaube, Vignec, saio da floresta e entro na aldeia, falta um km de alcatrão, acelero, devo ir a um ritmo de 6 min/km mas sinto-me como se fosse num sprint fenomenal. A algumas centenas de metros da meta vejo os miúdos e a Helena. Agarro um em cada mão e lá vamos os 4 em direção à meta. Vêem-me lágrimas aos olhos, estou quase a terminar aquilo que várias horas antes me tinha parecido impossível.




Faltam alguns metros... poucos metros... cruzo a meta, consegui!!!

Enorme alegria! Abraço a família. Recebo um telefonema do Paulo que me dá os parabéns. Devo-lhe a ele, à Helena, ao Rui, à Rita e aos meus pais esta conquista, Sou Bi100 milhas! Só me falta o UTMB para ter o meu tricampeonato do Ultra-Trail.




Demorei 36:42:46 para fazer estes duros 160 km. Tirei exactamente 3 horas ao meu tempo anterior. Fui 103 em 436 finalistas. Mas acima de tudo provei a mim próprio que se pode persistir debaixo das condições mais desanimadoras.

No dia seguinte estava um sol radioso, espelhando o estado exaltado da minha alma. Aproveitámos a manhã para ir ver a entrega dos prémios e pudémos assistir cheios de orgulho à exibição por duas vezes da bandeira portuguesa sobre o pódio. Nas senhoras, a Susana Simões tinha ganho o 3º lugar da geral! Nos homens, o Telmo Veloso tinha ficado em 3º do escalão sénior!






Em 2010 foi esta a primeira grande prova internacional que o nosso grande Carlos Sá venceu, com o tempo de 26h40.

Neste ano de 2013, a prova masculina foi ganha pelo Basco Iker Karrera, em 24:54:56. Nos últimos kms ainda se deu ao luxo de abrandar, porque vinha aqui em preparação para os 330 km do Tor des Géants, que venceu duas semanas depois! Há atletas impressionantes!





É loucura? É insanidade? O que é verdadeiramente difícil são todos os pequenos actos heroicos que é necessário levar a cabo na vida quotidiana. Uma corrida, por mais extrema que seja, tem um objectivo preciso. Se chegarmos à linha da meta, cumprimos o objectivo. A vida raramente é tão simples. Exige muito mais estratégia e determinação para valer a pena ser vivida. Mas é claro que se pode aprender algo com as corridas. Sobretudo com todo o processo de preparação para uma prova. Podemos aprender que devemos partir um objectivo ambicioso em pequenas partes que sejam mais facilmente geríveis. Podemos aprender que sem esforço, dedicação e um bom planeamento não conseguimos alcançar resultados. Que na vida como nos Trails, as subidas aos céus sucedem-se às descidas aos infernos, o importante é saber persistir.

E muitas outras pequenas lições muito úteis para a vida.




O mais importante que eu tenho aprendido é que devemos abraçar todo o espectro de emoções humanas para sermos completos.


Dente-de-leão na mão do meu filho... há algo mais poético do que isto?


sábado, 27 de abril de 2013

III Ultra Trail de Sesimbra



Poderia escrever uma crónica nos moldes habituais, em que descrevo o que se passou antes, durante e depois da corrida, os momentos mais altos e os momentos mais baixos, as dificuldades sentidas e a euforia em as ultrapassar, a adrenalina da competição, etc, etc... mas prefiro falar antes de outra coisa muito mais importante.


Atletas serpenteando pela Serra


Nos últimos meses passei por uma fase menos boa da minha vida, devido a um problema de saúde do meu Pai. Foram alguns meses de um carrocel emocional muito intenso, em que passei muito tempo em diversos hospitais, a acompanhar o meu Pai.

Normalmente a corrida e sobretudo os Trails contribuem decisivamente para a minha paz de espírito, mas nesta fase tive que abdicar bastante desse paliativo. Tive também que cancelar a minha participação em várias provas de Trail Running.

Felizmente o meu Pai tem vindo a melhor imenso, o que é uma enorme fonte de alegria e me permite andar mais tranquilo.



Briefing da partida, com Eduardo Santos


Assim, o III Ultra Trail de Sesimbra foi o primeiro Trail em que participei neste ano de 2013. Mais uma vez adorei a prova, mas, acima de tudo, adorei reencontrar-me com pessoas que já não via há algum tempo.

Regra geral, a gente do Trail é muito acolhedora, as amizades são muito fáceis de formar e as pessoas são fáceis de gostar. O convívio depois da prova foi inestimável, revigorante, enriquecedor, exaltante mesmo. Enquanto esperava na fila para a massagem, e enquanto bebia umas imperiais bem fresquinhas, fui conversando com diversos companheiros, o Renato Velez, o Ricardo Diez, o João Colaço, o Eduardo Santos,  o Hélder Melo. Cá fora rencontrei  o Paulo Costa, o Bruno Fernandes, o Miguel Baptista, o Nuno Silva, o Luís Mota.

Antes da prova já tinha conversado com o Peter Cooper, com o Teodoro Trindade e com o Ricardo Maia.

Durante a prova cruzei-me com o Alexandre Cunha, o  João Faustino, o Guilherme Hora, o Jorge Serrazina, entre outros.

Na praia reencontrei o João Mota, o Manuel Azevedo, o António Neto, e muitos outros que não vou nomear aqui senão não me cabem na crónica.

Para além de tudo, foi ainda um belíssimo dia de praia, como ainda não tinha havido no presente ano, passado na companhia da minha mulher e dos meus dois filhos. Que melhor dia poderia eu desejar?




   
Os miúdos dentro de água   





Missão cumprida!



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Marcha de Aníbal sobre os Alpes



Rota de Aníbal


Do ponto onde se encontrava, no sopé dos Alpes, Aníbal Barca, filho de Amílcar “o raio”, prescrutou atentamente as montanhas que se agigantavam no horizonte, com os seus imponentes cumes nevados e as suas vertentes escarpadas, e tentou imaginar um exército inteiro, composto por 40 mil soldados, cavaleiros, bestas de carga, carroças e equipamento e ainda 27 elefantes de combate, atravessando sinuosamente por trilhos pedregosos, perigosamente empoleirado sobre vertentes escorregadias.

 
Col de Montegenèvre


O ar fresco do início do Outono, nesse remoto ano de 218 a.C.,  já fazia anunciar o vento gélido do inverno que se aproximava a passos largos. Aníbal não podia hesitar. Nessa mesma noite tinha-se revolvido incessantemente no catre, atormentado pelo mesmo sonho recorrente, onde perseguia de olhos vendados uma águia imponente que se lhe escapava sempre no último minuto, até que fora acordado pelo bramir inquieto dos elefantes.

As forças com que se teria de defrontar não se limitavam ao terreno inóspito e às agruras do clima. Teria ainda que contar com os ferozes Gauleses Alóbroges, habituados às peculiaridades daquele território.

Não tardou até embater contra esses adversários temíveis. O palco da principal contenda foi um profundo desfiladeiro, para onde o exército tinha sido conduzido pelos indispensáveis guias locais, que traiçoeiramente preparavam uma emboscada.

Uma combinação de estratégia e de uso judicioso dos elefantes, permitiu ao exército Cartaginês desenvencilhar-se desta perigosa situaçao, apesar das pesadas baixas sofridas. O facto é que a visão dos paquidermes, inauditos naquelas paragens, aterrorizou de tal forma as tribos locais que o exército de Aníbal não voltou a ser incomodado ao longo do restante da sua travessia pelos Alpes.

Empurrado pelo frio crescente à medida que a altitude aumentava, e pela impossibilidade do regresso pelo mesmo caminho, o exército foi avançando, até que no nono dia após a entrada nos Alpes, Aníbal atíngiu o cume da passagem, a cerca de 3 mil metros de altitude. Diz-nos o históriador romano, Tito Lívio, que aí permaneceram acampados durante dois dias, aguardando pelos que vinham mais atrás e procurando repousar do enorme esforço dispendido. Tratando-se de um exército de africanos e iberos, não se encontravam preparados para estas condições, e muitos pereceram com as agruras da neve e do frio.

Por fim, Aníbal ordenou o reinício da marcha, e reuniu o seu exército num local com uma vista priviligiada sobre o Vale do Pó e as verdejantes planícies que se espraiavam até onde a vista podia alcançar. Aqui prometeu-lhes uma descida fácil e uma campanha rápida, até à conquista final de Roma.


Col de Clapier

  
No entanto, as penas dos Cartagineses ainda mal tinham começado. A descida revelou-se muito mais íngreme que a subida, e muitos homens e bestas de carga perderam a vida ao escorregarem pelas encostas geladas.

A certo ponto depararam-se com um deslizamento de terras que lhes impedia a passagem. O exército viu-se imobilizado numa encosta particularmente ventosa, sem mantimentos suficientes para sobreviver por muitos mais dias. A situação tornou-se particularmente desesperada e Aníbal deu ordens para se escavar um caminho alternativo. Foi necessário cortar as próprias rochas, recorrendo a fogueiras e às provisões de vinagre para criar fissuras que eram depois trabalhadas com ferramentas até toda a rocha se partir.

Após 4 terríveis dias nesta encosta mortífera, os Cartaginesese conseguiram finalmente atingir o vale ensolarado, onde puderam por fim alimentar os animais meio mortos de fome, e eles próprios repousar e restabelecer as forças, depauperadas por 15 dias de marcha forçada, após percorrer mais de 200 km sob condições de uma dificuldade extrema.

Quando Aníbal inspecionou as suas tropas, verificou consternado que, do exército inícial apenas restavam 26 mil efectivos e metade da cavalaria. Quanto aos elefantes, ainda estavam vivos mas não iriam durar muito mais.

Não obstante, foi com este exército, endurecido e solidificado pela incrível travessia, uma das maiores proezas militares de sempre, que Aníbal se preparou para abalar profundamente o poderio romano, no seu próprio território, durante os 16 anos que se seguiriam.


Aníbal Barca



A História sempre me deslumbrou, e o tema da marcha militar conjuga a paixão pelo Trail Running, ou corrida pedestre na natureza, com o fascinio pela busca dos limites da resistência humana. Dado o meu projecto de completar os 168 km do Ultra Trail do Monte Branco, nos Alpes Franceses, Italianos e Suiços, pareceu-me natural começar o ano de 2013 escrevendo este pequeno texto acerca da famosa travessia de Aníbal e do seu exército.




As minhas fontes secundárias foram a incontornável Wikipédia e a excelente e cativante obra de Robert O’Connell, “The Ghosts of Cannae”.

Recorri ainda a Tito Lívio, e a sua “História de Roma”, como fonte primária. Infelizmente não tive acesso ao clássico de Políbio, “História do Mundo”.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

5ª S. Silvestre de Lisboa



Mais um ano que termina, mais uma S. Silvestre. Apesar da extensa oferta, que no corrente ano incluía 3 S. Silvestres em dias consecutivos (Lisboa, Olivais e Amadora), este ano resolvi participar apenas na corrida da minha cidade natal e aquela onde vivo, a de Lisboa.

A minha transição do alcatrão para o trail foi quase completa em 2012, e esta foi a única vez que completei a distância de 10 km durante o ano que ora finda, apesar de a ter corrido 15 vezes nos dois anos anteriores.

Não me preparei especificamente para a prova e portanto não tinha grandes expectativas relativamente ao resultado. Estava a apontar para um tempo entre os 41 e os 42 minutos, assim uma espécie de anti-climax do bom resultado que tinha feito na última vez que tinha corrida a distância, na S. Silvestre de 2011.

Fiz a viagem de metro até aos Restauradores um pouco em cima da hora e já não cheguei a tempo de tirar a fotografia da praxe com os animados Run 4 Fun.


Run 4 Fun

Coloquei-me na linha de partida dos sub-40’, onde reencontrei uma série de amigos, entre os quais outros elementos dos Run 4 Fun, como o Carlos Martins e o Gerardo Atienza, a malta do Clube Vodafone e ainda o Gonçalo Cardoso, que tinha sido meu companheiro de prova no ano anterior, entre outros.

Às 17:30, 2’39’’ antes da partida geral, foi dada a partida das atletas femininas de elite, a fim de reeditar o confronto mulheres versus homens das últimas 3 edições. Após o tiro de partida, tentei desenvencilhar-me o melhor possível da confusão inicial, tendo que zigzaguear por entre os desportistas mais lentos a fim de ganhar momentum. O Garmin registou um km inicial a 3’36’’ e um 2º km a 3’39’’.  A certa altura passou por mim o Diogo Branco que ia cheio de força.




Os primeiros 5 km até ao Rossio são rápidos, mas convém não abusar porque senão depois pagam-se na subida da Av. Da Liberdade. Apesar de tudo consegui manter um ritmo forte na subida e após o que pareceu uma eternidade lá cheguei ao Saldanha, onde teve início algo que não pode se descrito senão como uma cavalgada desenfreada pela avenida abaixo. Fiz os 2 últimos km em 3’26 e 3’21’’ e cruzei a meta com um novo record pessoal de 38’14’’, tempo de chip.




Dadas as minhas baixas expectativas iniciais e o facto de ter mudado recentemente de escalão para o M45, não deixou de ser uma mui agradável surpresa.




Na meta ainda tive a alegria de cumprimentar o Carlos Martins, o Zé Carlos Melo, o Diogo Branco e o Olivier Delmotte, todos com records pessoais na distância, feitos neste percurso exigente. Deve haver algo no bolo rei ou nas rabanadas natalícias que propicia estas boas prestações em época festiva.




domingo, 18 de novembro de 2012

Fim de época - Início do defeso



Após 10 meses de atividade deportiva intensa, é chegada a hora de baixar o ritmo e preparar o novo ano que se avizinha.

A 18 de Janeiro já saberei se a minha pre-inscrição no UTMB terá sido aceite e poderei preparar-me com esse grande objetivo em mente ou para uma alternativa igualmente gratificante.

Entretanto, para registo, aqui fica a tabelinha com todas as provas concluídas em 2012:


Provas 2012
   

Gosto muito de participar em provas de Trail, mas embora a alma se alimente destes eventos enriquecedores, infelizmente o corpo não aguenta tudo o que esta lhe impõe. Em 2013 tenciono fazer uma gestão diferente do calendário e completar menos provas a fim de dar mais tempo ao corpo para descansar, e assim poder usufruir melhor das provas em que me inscrever.  


sábado, 17 de novembro de 2012

5º AXTrail series 2012 - UTAX

AXTrail series 2012 - Circuito de trail running nas Aldeias do Xisto

#03 SERIE - UTAX

 

Percurso
Altimetria


Nesta segunda década do século XXI, no mundo ocidental é cada vez mais notório que nos deixámos anestesiar pela nossa auto-indulgência complacente. Vivemos protegidos em bolhas de conforto. Procuramos afastar de nós tudo o que é doloroso e incómodo. Tudo nos é apresentado esterilizado e formatado. Tentamos aderir a padrões de beleza e juventude desenquadrados. Deslocamos-nos a velocidades vertiginosas dentro de carapaças de metal e plastico. Não temos tempo para parar e contemplar. Usamos e deitamos fora.

Já não conseguimos sentir o apoio reconfortante do solo nos nosso pés. Já não enterramos as mãos na terra. Não sujamos as unhas. Não molhamos a cabeça. Os nossos cadáveres já não chegam ao caixão gastos pelos elementos mas sim corroidos pela abastança.

 E em lugar de nos sentirmos preenchidos, sentimo-nos cada vez mais vazios.

Outrora, numa época mais brutal, as orgulhosas legiões de Roma percorriam as vias da PAX Romana. Marchavam dias seguidos para acudir a focos de conflito. Os legionários eram curtidos pelos elementos e forjavam a sua têmpera na refrega da batalha. Era enquanto equilibravam perigosamente a vida sobre o fio da navalha e as entranhas se lhes tornavam palpáveis e contraídas de terror que a vida se tornava verdadeiramente real de tão perto se escapar.

Hoje, felizmente, não queremos retornar à incerteza e brutalidade daqueles tempos. Mas temos saudades de nos sentirmos vivos. Por isso, cada vez mais aderimos a meios para fugir à carapaça, nem que seja apenas temporariamente.

Talvez apenas na loucura se encontre a sanidade.

A minha loucura pessoal passa cada vez mais pelo Trail Running. Assim, no passado fim de semana, juntamente com a minha família, rumei uma vez mais à Vila da Lousã, onde me esperava mais uma edição de uma prova do circuito AXtrail (a ter lugar no sábado dia 10 de Novembro).

Chegámos na 6ª feira já perto das 21h e instalámo-nos na Pousada da Juventude, num quarto com dois beliches, ideal para nós os 4. A Pousada revelou-se uma escolha excelente dado que foi o centro nevrálgico de operações da Organização da prova.

No secretariado, apresentei o material obrigatório para a segurança dos atletas, habitual nestas provas longas, levantei o dorsal e os sacos com as t-shirts (muito giras por sinal) e encaminhei-me para assistir ao briefing.

A edição deste ano seria a mais longa de todas as provas do AXtrail que eu já tinha empreendido até à data, prometendo 82 km de distância e 5000 m de D+ (desnível positivo), que se afiguravam muito duros, dada a experiência que eu já tinha com outras provas do circuito, sempre muito técnicas e desafiantes para a resistência dos atletas. Lembrava-me em especial dos 45 km do K42 realizado no ano anterior, com os seus 3200 m de D+ e a sua dureza bela.

Na madrugada seguinte acordei às 4h45 e preparei-me para enfrentar a dura prova. Às 5h30 já estava perto da linha de partida, confraternizando com os companheiros e amigos que tenho tido a felicidade de conhecer ao longo destes 3 anos de trilhos trilhados em conjunto.



Partida

A previsão meteorológica não se anunciava nada favorável, mas eu resolvi partir vestido apenas com a térmica de mangas compridas e a t-shirt do meu clube, o Run 4 Fun. O impermeável ia dentro da mochila para quando fosse necessário.



Lá vou eu de farol aceso!


Arrancámos às 6 horas, ainda de noite e alumiados pelo frontal. Assim que abandonámos o alcatrão, e seguimos em direção ao Castelo de Arouce, ermidas e praia fluvial, começámos logo a enfileirar por single-tracks que subiam, subiam, subiam pela serra acima.

Depois de um troço diabólico, feito a caminhar, sobre uma estreita levada que caía a pique para a esquerda sob os nossos olhares temerosos, passámos pelo primeiro abastecimento, dos 7.5 km, na Aldeia de Xisto do Candal, onde resolvi não parar. Segui, sempre debaixo de chuva, em direção ao abastecimento dos 20 km em Aigra Nova. Aproveitei este abastecimento para retemperar forças e para ajustar um dos bastões, que se mostrava renitente.


Aldeia de Xisto


Desde o início que senti que não estava nos meus melhores dias e portanto resolvi fazer o caminho todo em gestão do esforço. Para além disso, as condições meteorológicas aumentaram muito o grau de dificuldade da prova, que já de si era muito exigente. A longa subida até ao alto do Trevim desgasta o mais afoito. Uma vez chegado ao alto, a quase 1200 m de altitude, o maior adversário revelou-se ser o vento. E que adversário!  Cheguei lá completamente encharcado e, apesar de levar o impermeável, o vento cortante que se fazia sentir fez-me recear seriamente sofrer uma hipotermia.

Já completei provas mais duras, mas nem mesmo no Ehunmilak tinha enfrentado um troço onde me tivesse sentido tão enregelado. Talvez tenha sido impreparação minha, pois o meu impermeável não se revelou à altura das condições térmicas que tive de enfrentar. Sou um indivíduo magro e portanto naturalmente pouco defendido do frio. Foi neste troço que mais receei ter de abandonar a prova, caso estas condições térmicas se prolongassem. Felizmente, quando comecei a descer a serra as condições melhoraram, fiquei mais protegido do vento e consegui aquecer um pouco. Junto com o frio, dissipou-se também o medo e pude continuar com outro ânimo.


João Colaço e Alexandre Cunha


No entanto, poucos quilómetros volvidos fui acometido por outro receio. O medo de ter que desistir por as pernas não aguentarem. Passei o abastecimento do Coentral e até ao Talansnal, no km 45 (47 no meu Garmin), fui sempre acompanhado desse espectro.




Foi com enorme alegria que finalmente revi o Talasnal, belíssima e preservada Aldeia de Xisto onde já tinha pernoitado noutra ocasião. Não aproveitei o saco de muda para trocar de roupa pois pareceu-me que poucos km volvidos estaria novamente encharcado, dado que não havia maneira da chuva cessar. Aproveitei sim, e de que maneira!, a morna canja que foi colocada à minha disposição. Que bem me soube ingerir algo quente e salgado!


Talasnal


Assim que alcancei o Talasnal compreendi que, se já chegara até ali, dificilmente não completaria a prova.

Saí do Talasnal e comecei a descer. Fui-me cruzando com atletas da prova dos 30 km. A certa altura passei pelo companheiro Jorge Esteves, que ia a passo com outro companheiro, pois tinha tido uma queda que lhe tinha deixado algumas dores. Apesar disso seguia animado e com um sorriso nos lábios.




Passei por uma descida completamente enlameada e já muito pisada. Via-se que os atletas já tinham tentado descer por todos os carreiros possíveis. Logo no primeiro troço fiz um pouco de sku involuntário. Não me conseguia aguentar em cima das sapatilhas. Decidi que o melhor era deslizar por ali abaixo sentado, sempre que possível. Pouco depois cheguei à estrada.

Daí parti para mais subidas e descidas. A certa altura cheguei ao 5º abastecimento, aos 52 km, onde se separavam os trilhos da Ultra e do Trail. Perguntei quanto faltava até ao próximo abastecimento e responderam-me que a partir dali os abastecimentos eram de 10 em 10 km. Segui em direção a Miranda do Corvo. Percorri uns estradões intermináveis, cheios de poças de água.  Recordo-me de passar pelo km 60 e olhar para o Garmin verificando que tinham passado 10 horas exactas desde que tinha iniciado esta odisseia.

O abastecimento de Senhora da Piedade de Tábuas é que nunca mais chegava! Desci, desci, desci e finalmente lá estava ele! Segundo o meu Garmin, estava já no km 67! Os quilómetros deviam-se ter transformados em milhas marítimas, devido à humidade! Entrei no abrigo e logo de seguida tive a felicidade de ver chegar o meu grande amigo Luís Ricardo, companheiro de Portalegre. Decidimos correr juntos até ao fim.

Até ao abastecimento de Espinho, percorremos um troço junto à ribeira, muito técnico e perigoso dado ser feito com a luz escassa do frontal. O Luís Ricardo foi um apoio inestimável para que este desafio fosse concluído da melhor forma. Conseguimos correr até ao fim, onde era possível fazê-lo, no restante andávamos, e o Ricardo foi-me incentivando e aguardando por mim quando eu ficava para trás. Tenho tido a sorte, de ser apoiado nestes desafios por pessoas de grande valor humano, a quem fico muito grato, pela amizade e companheirismo. O meu muito obrigado para o Luís Ricardo!

Aos 77 km chegámos ao abastecimento de Espinho, no Ti Patamar, onde fomos recebidos pelo mui popular Vitorino Coragem, que já tinha terminado a sua prova de Trail, e estava ali a apreciar uma bagaceira enquanto convivia com quem passava.

Arrancámos novamente para o caminho e apenas o incentivo constante do Ricardo me mantinha a correr, quanto todas as fibras do meu corpo me ordenavam que parasse, por piedade!

Mais 8 km de provação e foi, por fim, após 14h58 de prova, com uma grande felicidade que cortei a linha da meta, fui acolhido pelo José Moutinho e pelo Fernando Pinto, e revi a minha família e amigos.


Luís Ricardo e Luís Ferreira

Família


Comprovou-se mais uma vez que beleza e dureza estão incritas no código genético das provas do AXtrail. Gosto muito destas provas, pois realizam-se em cenários idílicos, de rara beleza, oferecem percursos técnicos e desafiantes, e têm uma mística muito particular. A envolvente das Aldeias do Xisto proporciona um espaço mágico de encantamento. A companhia e fraternidade dos companheiros dos Trilhos facilitam momentos de amizade e partilha inesquecíveis. As caminhadas para as famílias dos atletas também são muito bem conseguidas pois oferecem uma experiência envolvente e informativa. Esta foi das provas que fiz que tinha o percurso melhor marcado, nunca me enganei nem sequer tive dúvidas em ponto algum, isto apesar da chuva, do nevoeiro e do cair da noite. Por tudo isso, as minhas felicitações e agradecimentos para a organização.

Após a prova fui tomar um banho quente e ingerir uma refeição retemperadora, regada com um copo de tinto, que me soube divinalmente.

No dia seguinte ainda pude assitir à entrega dos prémios. O José Carlos Santos lá subiu ao ponto mais alto do pódio, na categoria de veteranos II, da prova de Trail, o que já se vai tornando um hábito, e o grande Armando Teixeira foi o justo vencedor da prova de 85 km. Em femininos foi a Susana Simões quem ganhou o Ultra Trail.


Pódio dos Vet II do Trail

Pódio da Geral do UTAX

Organização


Depois fomos almoçar ao famoso restaurante “O Burgo”, na companhia da família Ricardo e da família Santos, onde nos deleitámos com uns saborosissímos pratos de veado e de javali, bem regados com um tinto encorpado.

Por fim, foi hora de dizer adeus e regressar novamente para a lufa-lufa da vida citadina, com ânimo redobrado.





Este foi o oitavo Ultra Trail que completei neste ano de 2012. Agora tenciono descansar até ao fim do ano, abrandando no ritmo e volume dos treinos, para iniciar fresco a nova época.




domingo, 4 de novembro de 2012

3º Mesociclo 2012/2013





Nas 4 semanas que decorreram entre 08/10 e 04/11, completei o meu terceiro mesociclo da presente época desportiva, cujo grande objetivo é correr o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), em Agosto de 2013.

Ao todo, corri 330 km com 5600 m D+.

Volume de treino desde o início de 2010


Este macrociclo teve em vista os 82 km do Ultra Trail das Aldeias do Xisto, que terá lugar a 10 de Novembro na Lousã, uma prova que promete revelar-se muito dura, dado o seu grande desnível positivo (5000 m) e o terreno muito técnico que teremos que percorrer, em condições meteorológicas imprevisíveis.

Infelizmente, não consegui completar o volume de treino a que me propus, pois por vezes não é fácil cumprir um plano de treinos rigoroso, dada a vida agitada que hoje em dia todos temos. Quantas vezes não fazemos tudo "a correr" e até a própria corrida é feita "a correr", para despachar mais uns tantos quilómetros num qualquer intervalo entre dois afazeres que nos absorvem o tempo.

Isso leva-me a questionar-me o que é o tempo e para que serve? É talvez a pergunta mais fundamental que o ser humano pode colocar a si próprio pois a resposta que encontrar poderá ser determinante para as suas escolhas de vida. Uma coisa é certa: todos recebemos como dádiva uma certa quantidade de tempo, imprevisivel mas necessariamente limitada. Logo é bom que o usemos com algum critério.

Eu tenho escolhido passar mais tempo na natureza, na companhia da minha família. Esta minha paixão pelo Trail Running tem-me proporcionado muito boas amizades e momentos de grande partilha, em locais de grande beleza natural.

Ainda recentemente participei no Trail Running Camp da Serra da Lousã, onde tive o prazer de ouvir e dialogar com alguns renomeados especialistas na modalidade e de conviver com excelentes atletas e seres humanos de grande valor.

Possa o meu tempo continuar a ser preenchido desta forma saudável e muito recompensadora!