domingo, 4 de dezembro de 2016

EMUM - Eco Madeira Ultra Maratona 2016











Anticiclone dos Açores




















“Passamos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama,
Das que nós povoamos, a primeira,
Mais célebre por nome que por fama:
Mas nem por ser do mundo a derradeira
Se lhe aventajam quantas Vénus ama,
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.
“Os Lusiadas”, Canto V – Estância 5
Luis de Camões




Arquipélago da Madeira

Arquipélago (pop. est.: 300 000), 798 km²; capital: Funchal; país: Portugal, estatuto: Região Autónoma.

Situado no oceano Atlântico a cerca de 560 km da costa de Marrocos, o arquipélago da Madeira é formado pelas ilhas da 
Madeira, a maior, e Porto Santo, ambas habitadas, além das Desertas e das Selvagens (estas um pouco mais próximas de África), dois pequenos grupos de ilhas não povoadas. Conhecidas pelos Romanos como "Ilhas da Púrpura", Porto Santo e a Madeira foram redescobertas no século XV por navegadores ao serviço do Infante D. Henrique.

As origens vulcânicas da Madeira permanecem bem visíveis em locais como o anfiteatro montanhoso que envolve o Funchal, vestígio de uma antiga caldeira. A ilha é extremamente acidentada, com picos que atingem os 1860 m de altitude. Felizmente para os turistas, a actividade vulcânica cessou há cerca de 6500 anos – contudo, foi essa actividade que dotou a ilha de uma paisagem fértil, formada até recentemente por um importante manto de antigas florestas subtropicais que esteve na origem do seu nome – Madeira.

Nas encostas do norte da ilha permanecem bem preservadas algumas áreas dessa antiga floresta (laurissilva), hoje classificadas como Património Mundial pela UNESCO. No entanto, as soberbas flores que deram fama à Madeira podem ser apreciadas em todo o território e durante todo o ano. Uma das melhores formas de contemplar as soberbas paisagens é fazer um 
passeio pelas levadas – caminhos que seguem junto aos canais que outrora irrigavam as áreas mais secas.

A Madeira é um encantador destino turístico durante todo o ano, e embora seja importante a produção de bananas, de cana-de-açúcar e de Vinho da Madeira, grande parte do seu crescimento económico deveu-se ao turismo. O norte permanece essencialmente rural, enquanto o sul, sobretudo no Funchal e áreas vizinhas, tem vindo a crescer proporcionando acolhimento aos turistas mais exigentes. Muitos dos melhores hotéis da ilha encontram-se nesta área.







“No man is an Island, entire of itself; every man is a piece of the Continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friends or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in Mankind; And therefore never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee.”
John Donne, Meditation XVII



"Don't part with your illusions. When they are gone, you may still exist, but you have ceased to live."
- Mark Twain
  







Dar a volta a uma ilha…

É uma espécie de sonho de criança.

Uma volta completa a uma ilha.

E que ilha! A magnífica, imponente, selvagem, Ilha da Madeira! Com suas falésias escarpadas que nos atiram do alto para o abismo do mar profundo.

Com suas rugas profundas de lava ardente e seus jardins luxuriantes batidos a bátegas de água abundante.

Um desafio destes não se recusa.

Assim que me foi apresentado pelo meu amigo João Colaço, aceitei logo.

Este ano ainda não tinha cumprido a obrigatória prova de 100 milhas e esta vinha mesmo a calhar.


Para mais com o aliciante da companhia dos amigos e companheiros de viagem João Mota e Paulo Osório.






E foi mesmo com eles que parti na madrugada de quinta-feira dia 24/11, no avião da easyJet, voo das 7h00. Levámos apenas uma mala de porão, que partilhámos entre os três, para colocarmos algum material extra e sobretudo os bastões, que iriam fazer muita falta durante a prova.












O voo decorreu sem incidentes. À chegada deparámos com o Lino Luz, que também estava inscrito.






Apanhámos juntos o Aerobus que nos deixou no 3º apeadeiro, praticamente defronte ao Hotel Residencial Parque, no centro do Funchal, onde pernoitámos as 4 noites da estadia.










Quarto simples, mas com as comodidades suficientes para três aventureiros.






Fomos a Câmara de Lobos buscar os dorsais e os sacos das duas mudas de roupa e aproveitámos para almoçar uma belíssimas lapas e peixe-espada preto com batata-doce.
















Passeio e Jantar frugal de esparguete carbonara. Às 23h00 já estava no quarto a dormir.

Uma noite repousante, das melhores que tive nos últimos tempos e acordei mesmo a tempo de tomar o pequeno-almoço às 10h00, juntando-me aos companheiros.

Novo almoço de esparguete e voltámos para a residencial a fim de preparar os sacos e o equipamento.

Às 15h30 estávamos no local de partida, na Promenade do Funchal, Avenida do Mar, Praça do Povo.

Os restantes atletas encontravam-se por lá. Cumprimentei efusivamente o Alexandre Cunha e o Paulo Costa, companheiros de inúmeras destas aventuras, ao longo dos últimos anos.

O Nuno Gonçalves fez o briefing para os 19 atletas que alinham à partida, 18 homens e uma única mulher.

Idades compreendidas entre os 23 anos do mais novo e os 55 do mais velho.










São agora 16h00 e é dada a partida. Somos encaminhados para fora da cidade pelo Ilídio que nos deixa à saída. A partir daí estamos por nossa conta. O tempo por enquanto está quente e solarengo. No entanto as previsões apontam para chuva forte durante a noite.










Como diz o povo, “enquanto o pau vai e vem folgam as costas,” portanto há que andar depressa enquanto podemos.






Os primeiros 8 km até ao Caniço são percorridos em grupo em pouco menos de uma hora. O percurso é maioritariamente por alcatrão ou empedrado, mas a vista é magnífica. Os atletas começam a dispersar-se. Uns avançam mais rápido, outros mais vagarosos (eu incluído).
























Passo pelo aeroporto ao entardecer. A descida para Machico já é feita de noite. É a primeira de muitas descidas que serão feitas por umas escadarias típicas na Madeira, extremamente escorregadias quando molhadas, devido ao musgo e às características da pedra e do cimento utilizado.













Primeiro abastecimento de sólidos aos 15,6 km. Chego lá com 03:00:33 decorridos. Estou em 16º lugar. O João Oliveira já aqui passou faz 45 minutos. É uma máquina aquele rapaz!

O João e o Paulo levam-me 20 minutos de avanço. O Alexandre Costa e o Paulo Cunha saíram há 5 minutos.

Agora vamos atravessar a cordilheira para conseguirmos aceder à costa norte da Ilha. Tal como Aníbal atravessou os Alpes com o seu exército assim vamos nós correr de encontro ao nosso destino.








De noite a progressão é mais difícil. As fitas são daquelas vermelhas e brancas não refletoras, e as setas verdes no chão não são fáceis de ver durante a noite. Para além de que algumas foram nitidamente raspadas pelas populações locais, pouco habituadas a este ipo de evento desportivo.

Seja como for, perco-me apenas 3 ou 4 vezes, nunca por demasiado tempo pois volto atrás até reencontrar o caminho. Estas contrariedades fazem parte do desafio e saber ultrapassá-las sem desmoralizar é uma característica essencial de um Trail Runner bem-sucedido.

Por mais que planeemos uma prova ao mínimo detalhe, vão ocorrer sempre vários eventos inesperados, que podem deitar tudo a perder caso não saibamos lidar com eles adequadamente.

É isso mesmo que torna o Ultra Endurance uma modalidade fascinante que exige uma enorme disciplina e resiliência mental. Em todas as 5 provas de mais de 100 milhas que já concluí, tive que enfrentar enormes desafios que não tinha previsto. E foi o ultrapassar desses desafios que me fez saborear o sucesso do desafio concluído como uma enorme vitória.

Desde lesões que surgem na véspera, até meias mal escolhidas que estropiam os pés, quedas aparatosas ou incapacidade de ingerir alimento, tudo nos pode levar a desanimar caso não mantenhamos a fé.

E mesmo que a fé não mova as montanhas, certamente nos move para além delas.



Assim sendo, eram 21h24 quando finalmente cheguei a Porto da Cruz. Abastecimento sem história. Todos eles são iguais, exceto os dois das mudas de roupa. Bananas, gomos de laranja, batata frita, chocolate, barritas, passas, queijo, água, coca-cola e um isotónico muito aguado.











Mesmo sabendo que pode ser deletério para o meu estomago, dada a acidez que a caracteriza, passo o tempo a beber coca-cola, pelo açúcar a pela cafeína.

Como tudo o que consigo e avanço para noite. Vamos agora percorrer a costa norte da ilha.














Agora é a subida para Santana onde vou chegar às 01h39, com 47 km de prova feitos e 2.100 mD+. ainda não é um terço de prova mas já é qualquer coisa. É aqui que está a primeira muda de roupa e a primeira canja quentinha. A canja é uma maravilha, cheia de carne e massa. Vale a pena repetir. Quanto à roupa, não altero nada.













Coloquei um power-bank em cada saco de muda de roupa para carregar o Sunnto. Contudo, reparo agora que me esqueci da pinça para carregar o relógio. Ora bolas! Vai dar para apenas 10h de GPS. Depois fico às escuras.

Saio reconfortado e lanço-me em mais uma daquelas descidas híper-escorregadias que percorro muito cautelosamente ao ritmo de um elefante obstipado. Após duas ou três quedas felizmente sem gravidade, a minha velocidade desce para sub-vegetal, quase mineral.


Subo para S. Jorge e prossigo em direção a Arco de S. Jorge onde chego após 11:00:33 de prova. São 3 da madrugada e a noite nunca mais acaba.

































Agora é que estou a pouco mais de um terço da prova, com 60 km percorridos e 2.700 mD+. Neste ponto ainda estão todos os atletas em prova e eu continuo em 16º de um total de 19.

Chega o atleta mais velho, o José Nunes que me diz que o tempo de corte do próximo abastecimento é às 6h da manhã. Pela primeira vez numa prova me preocupo com o tempo de corte. Tenho que percorrer os próximos 13 km em menos de 3 horas. Não me parece muito folgado. O melhor é pôr-me a andar. Ala para S. Vicente!

Felizmente o percurso é bastante plano e dá para ganhar velocidade. Chego lá às 5h15. Sem relógio é difícil aferir da velocidade de progressão. Abasteço e saio novamente, desta vez em direção ao Seixal. 7 km rápidos e planos a ouvir o mar a bater na praia, e a passar nos túneis antigos, interditados, paralelos aos mais recentes e modernos.





























Chove que se farta. Numa dessas passagens pela estrada regional 101 antiga, apanho uma tal bátega que até ando para trás com a força da chuva e do vento. O que vale é que o bonatti prova ser um excelente impermeável e mantem-me razoavelmente seco.

Apanho o José Nunes e seguimos juntos até ao Seixal, onde chegamos são 6h43. Ainda está escuro como breu.












Começa a clarear quando iniciamos a subida do meio quilómetro vertical, a caminho de Porto Moniz. Este é dos troços mais bonitos da prova e ainda bem que o fazemos de dia. Nós os dois devemos ter sido os únicos atletas a percorrer este troço com visibilidade diurna. Atrás de nós já não vem mais ninguém, pois houve 2 desistências e um barramento no controlo de tempos.







Ainda não chegámos a Porto Moniz e já o João Oliveira vai na ponta Oeste da Ilha, com mais de 20 km de avanço.






O José Nunes desce melhor do que eu e portanto quando finalmente chego ao belíssimo Oásis de Porto Moniz já ele partiu. Porto Moniz é uma alegria! Como o mais que posso no abastecimento e encharco-me de coca-cola. 90 km com 3.900 mD+ já cá cantam, mas vou necessitar de muita energia para fazer o resto.








De cada vez que me alimento é como se renascesse. Sobretudo após alimentos mais substanciais, como canjas. Estas provas são indubitavelmente autênticos eventos gastronómicos em que se safa melhor quem tiver o estomago mais rijo. Estomago e cabeça, são os dois elementos mais importantes do Ultra Endurance. Só depois vêm as pernas e o coração, nesta hierarquia de órgãos essenciais para a performance.

Ok, agora há que subir para as Achadas da Cruz. A subida é empinada mas a energia está renovada. 100 milhas fazem-se por troços. Cada um é diferente e em cada um deles nos sentimo de forma diversa.







Hesito entre virar à esquerda ou continuar em frente mas lá me decido a prosseguir no mesmo caminho.

Às 7h partiram de Porto Moniz os atletas da prova de 80 km. 










Quando chego ao abastecimento dos 100 km já está tudo muito escolhido e pouco resta. São 11h34, sou o último a passar, já não sobra quase nada. Também não sinto grande necessidade de abastecer. Ingiro uma das barras energéticas que carrego comigo e isso é suficiente para me dar alento. Inicio um trote vigoroso e em breve ultrapasso o José que vai um pouco mais lento. Agora temos que atravessar a ilha para a costa sul, não sem antes irmos ao ponto mais ocidental, a Ponta do Pargo.











As pernas já estão muito massacradas mas vão aguentando a retranca. Chego ao abastecimento às 13h10. O tempo está ótimo para correr, eu é que já não estou grande coisa. Encontro o Élio Silva que teve que ficar por aqui.








Indicam-me o caminho e lá vou eu para os últimos 60 km. 

O próximo abastecimento é na lindíssima vila de Paúl do Mar. 

Da Fajá da Ovelha até ao nível do mar vai ser uma descida com uma vista magnífica. 












Às 15h14 sou muito bem recebido no abastecimento. Este é o 2º ponto de muda de roupa, aos 120 km, e tomam bem conta de mim. Mais uma canja excelente, e adicionalmente o luxo de um copo de café a escaldar.


Não altero nada na roupa. Aproveito é para guardar na mochila mais algumas barras energéticas que tinha colocado no saco. Podem vir a fazer falta. Às vezes passam-se 3 horas entre abastecimentos, sobretudo quando esses têm mais de 12 km de intervalo.

Saio do abastecimento e percorro cerca de 2 kms na frente marítima do Paúl até à ponta oposta. Aqui tem início outra das grandes subidas da prova. Uma subida interminável, que tem sempre mais uma curva que nos deixa sempre mais afastados das casas lá em cima. Mas com paciência tudo se consegue e por fim lá chego ao topo.

Agora há um posto de controlo sem abastecimento em Estreito da Calheta, que é o ponto de partida da Maratona.








Na Calheta, ao km 135, temos o abastecimento. Já só faltam 37 kms!!! Agora sei que acabo nem que o tenha que fazer a andar ou a rastejar. Não seria a primeira vez numa prova de 100 milhas. No entanto prefiro arranjar forças para correr. Andar 37 kms demora uma eternidade e é mentalmente muito desgastante quando já se tem 26:23:03 de prova. São agora 18h23 e está a anoitecer rapidamente. Ultrapassei mais dois companheiros que vêm mais lentos. Um deles acabaria por desistir.

Agora tenho que me dirigir para a Ponta do Sol no km 143. Forço um trote muito dorido. Vou lento, pouco mais rápido que uma marcha forçada, mas é o que se consegue. O retorno da noite trás consigo os seus fantasmas de volta.

Começo a ter pequenas alucinações. O cérebro vê coisas que não existem. Pessoas onde estão apenas caixotes do lixo. Animais onde se encontram pedras. Agora o desafio é sobretudo mental. Obrigar os pés a se moverem sincopadamente, um após o outro.

Não sei a que horas chego finalmente á Ponta do sol. Parece que passou uma eternidade. Sem relógio para me orientar o tempo deixa de fluir. Fico suspenso numa limbo temporal em que os eventos não parecem obedecer a uma ordem causal específica.














Avanço como que por milagre. Próxima paragem: Ribeira Brava. Como lá cheguei não faço ideia, mas cheguei. 







Agora tenho pela frente um dos maiores desafios da prova: a subida de 600 m para a Quinta Grande. Nesta altura do campeonato é como subir o Evereste. Vai exigir um esforço titânico de todas as fibras do meu ser. Um esforço lento, paquidérmico, constante, irresistível.











158 km com 6.900 mD+ já estão feitos! Cada prova de 100 milhas é uma prova. Das 5 que já fiz esta é aquela que tem menor desnível acumulado. No entanto também é aquela para a qual vim pior preparado (menor treino, maior peso). Para além disso nunca fiz uma prova que tivesse tanto alcatrão e empedrado. Os meus pés já não aguentam mais o sapateado no chão duro. Os joelhos felizmente vão-se aguentando, mas os pezinhos estão nas últimas. Tenho receio de sofrer alguma fratura de esforço. Vamos ver se isto se aguenta.

Faltam 14 km em duas etapas. Vou descer para Câmara de Lobos, numa descida infernal, com milhares de degraus, que vou fazendo como posso. Julgo que o abastecimento estará no molhe, mas quando lá passado verifico surpreendido que me enganei. Ainda faltam vários kms para lá chegar. Esse kms vão ser feitos junto ao mar. Em cada curva vejo um abastecimento com voluntários a acenar. Sempre que lá chego constato que o cérebro me pregou mais uma partida.









Até À Praia Formosa ainda vou ter que penar. Lá chegado, o abastecimento é depois de um túnel muito curioso.









Já só faltam 6 km planos. No entanto vão ser integralmente feitos a andar, que agora é que já não dá mesmo para ser de outra forma. A parte inicial é toda pela Promenade, até que inflete para dentro, para o meio da enorme oferta hoteleira do Funchal. As pessoas com quem me cruzo não sabem bem como reagir a esta espécie de alienígena, que caminha apoiado em bastões e com um frontal agarrado à testa. Devo fazer uma linda figura! E lá vou caminhando por entre os hotéis e os ocasionais foliões noturnos que me olham espantados. Agora que penso nisso até me admiro como não mandaram chamar os psiquiatras para me levarem num casaco branco.











Finalmente chego ao passeio marítimo do Funchal. Faltam algumas centenas de metros para chegar à tão almejada meta. Passo a passo vou progredindo lentamente mas seguro da vitória final.

Chego por fim, às 4 da madrugada, após 36:03:27 de prova, cerca de 23 delas feitas de noite.












Sou visto pelas enfermeiras de plantão. Estou com febre e a pupila não reage à luz. Fora isso a glicémia está um pouco elevada, bem como a pressão sanguínea. Dadas as circunstâncias, acho tudo isso normal. Enquanto espero começo a tremer de frio. A solução é embrulhar-me na manta térmica. 

Desisto da massagem e sou transportado até ao hotel no carro de um voluntário.

O banho quente sabe-me como a vida. Meto-me debaixo dos lençóis e durmo um sono reparador.



Às 12h00 os companheiros acordam-me para apanharmos a boleia do Sr. Nobrega que nos leva ao local da entrega de prémios.

Todos quantos terminámos recebemos um prémio. Sou 5º do escalão de M45 e embora só haja 5, também vou ao pódio. É quase uma festa de família. O João e o Paulo fazem 2º do escalão. 






O grande vencedor é o João Oliveira.











Depois da cerimónia somos convidados pela associação de atletismo para almoçar. Temos o prazer de almoçar umas belas espetadas Madeirenses em boa companhia.






A carne sabe-me muitíssimo bem, depois de 36 horas a comer comida de plástico.

Nem janto, vou logo para a cama assim que regresso ao hotel.

O dia seguinte passa-se sossegadamente a passear pelo Funchal.

Às 21h15 avião de volta, e pronto mais uma grande aventura, excelentes momentos de convívio com os companheiros e uma boa história para contar aos netos. Que mais se pode querer?








P.S. já me inscrevi na 6ª. Vai ser a Ronda dels Cims 2017 em torno de Andorra, em Julho próximo. Ele há gajos que nunca se emendam…





sábado, 19 de novembro de 2016

EMUM - Eco Madeira Ultra Maratona 2016 - Prólogo








Percurso


Altimetria





De acordo com o site oficial da prova:


O ECO MADEIRA ULTRA MARATONA é um evento de corrida ultra endurance non-stop, que decorre na ilha da Madeira.

Este evento constitui a 1.ª prova de 100 milhas na Região Autónoma da Madeira.

EMUM - Eco Madeira Ultra Maratona - prova destinada aos atletas dos escalões de seniores e veteranos de ambos os sexos, com extensão aproximada de 170 km, com o seguinte percurso:


A partida da prova ULTRA MARATONA será dada às 16h00 do dia 25 de novembro, no centro da cidade do Funchal, designadamente na praça do Povo (Av. do Mar), seguindo para São Gonçalo, Caniço, Gaula, Santa Cruz, Machico, Porto da Cruz, Faial, Santana, São Jorge, Arco de São Jorge, Boaventura, Ponta Delgada, São Vicente, Seixal, Ribeira da Janela, Porto Moniz, Achadas da Cruz, Ponta do Pargo, Fajã da Ovelha, Paul do Mar, Prazeres, Estreito da Calheta, Calheta, Madalena do Mar, Ponta do Sol, Ribeira Brava, Campanário, Quinta Grande, Caldeira, Câmara de Lobos, com meta no Funchal (Praça do Povo).

Os percursos do ECO MADEIRA ULTRA MARATONA são maioritariamente compostos por caminhos junto ao litoral (Caminho Real n.º 23), estradas asfaltadas, caminhos de terra batida, trilhos e pequenas extensões de levadas (canais de irrigação).



Este irá ser o meu próximo desafio, a ter lugar já na próxima 6ª feira dia 25 de Novembro de 2016.

Enfim, desde 2012 que todos os anos tenho completado uma prova de 100 milhas e este ano não poderia ser a exceção. Assim, quando o meu amigo João Colaço me contactou a convidar-me para correr todo o perímetro da paradisíaca ilha da Madeira, não hesitei!

Este não tem sido propriamente um ano de grande forma física e psíquica/anímica, mas um desafio destes não se recusa.

Como escrevia o poeta Mário de Sá Carneiro:

"Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!"

Até lá, a um desafio nada se recusa, que eu quero por força viver pelo meu próprio pé.




Vejamos como tem sido a minha preparação para mais esta loucura:



Nota-se uma quebra clara a partir do início do Verão.



Tenho que controlar melhor o meu peso. É uma das variáveis que faz mais diferença numa prova destas.



Comparação dos volumes de treino nos últimos 4 anos.



Volume mensal desde 2010.


Tabela de Passagens do EMUM 2016




A minha primeira aventura desta dimensão foi no já longínquo ano de 2012, nas 100 milhas do Ehunmilak, no País Basco.

Desde então já completei com sucesso 4 aventuras destas:


2012: Ehunmilak, 168 km - 11.000 mD+, no País Basco.

2013: Le Grand Raid desPyrénées, 160 km - 10.000 mD+, nos Pirinéus franceses.

2014: VCUF - VoltaCerdanya UltraFons, 214 km - 10.000 mD+, atravessando os Pirinéus espanhóis e franceses.

2015: Ultra-Trail duMont-Blanc, a mítica prova de 170 km - 10.000 mD+, em redor do Monte Branco, atravessando 3 paises: França, Itália e Suiça.



Experiência não me falta. Espero que compense a falta de preparação que tem sido a nota dominante do corrente ano de 2016.


Alea Jacta Est!










terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ultra Trail Atlas Toubkal - UTAT 2016 - A prova

Os 15 magníficos

João Faustino, Marisa Marques, António Costa, Francisco Martins, Paulo "El comandante" Pires, Ana Paula Guedes, Miguel Serradas Duarte, Marian Leite Braga, João Mota, Rui Pedro Julião, Rui Pires, Luis Afonso, Nuno Faria, José Santos, Luis Matos Ferreira (na foto falta o Flávio Francisco).




"The chain of the High Atlas is the highest of Morocco: it culminates at 4167 m with the Toubkal Jebel and stands as a long of more than 700 km border separating the oceanic and subtropical climate, warm and rather humid, semi climate -désertique and continental.

Today, the High Atlas itself as a land of Berber culture and traditions remain alive. Far contemporary Road, one discovers the azibs (dry stone shepherd huts) and small houses douars that seem totally out of time, thrown here and there in the vast desert of altitude.

Here, hospitality is a founding principle. The Berbers welcome you to their improbable villages, built on the mountain side or the bottom of a lush valley. We live in autarky and self-sufficiency, to nothing, in a simplicity that invites reflection on our own lifestyle."








"Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida..."

- Álvaro de Campos



“A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.”







Quem acredita que aquilo que os seres humanos procuram é a felicidade labora num equívoco. A felicidade não tem valor evolutivo.

O que todos nós procuramos é a transcendência. Aquilo que procuramos transcender é a nossa finitude, a nossa fragilidade, o nosso medo profundo.

Vivemos aterrados. Perdidos num universo que não compreendemos, no qual não encontramos lugar nem propósito para as nossas curtas existências.

É o terror do vazio que nos empurra para a frente. Não avançamos à procura da felicidade. Fugimos do vácuo.

O que nos move não é a procura do positivo, mas sim a fuga do negativo.

Esta é uma perspetiva que lança luz sobre as ações humanas.




Porque corro?

Porque razão participo em provas que demoram mais de 24 horas e que implicam uma enorme dose de sofrimento físico e psíquico? Ninguém me força a fazer isto. Não tenho qualquer retorno material, pelo contrário, sou eu quem tem que financiar estas minhas aventuras. Sou eu quem tem que passar horas intermináveis a treinar na Serra, faça chuva ou faça sol

Posso elencar inúmeras razões que justifiquem esta minha paixão:

Porque me faz bem.

Porque me dá a conhecer locais maravilhosos.

Porque a corrida em trilhos na natureza é uma atividade eminentemente social, que expandiu enormemente a minha rede de amizades.

Porque gosto da competição.

Pelo sentimento de superação.

Porque adoro todos os sentidos que desperta em mim, tudo aquilo que me faz sentir.

Adoro sentir o vento no rosto e o coração a pulsar.

E muitas outras razões válidas e verdadeiras.

Mas na verdade a razão principal e a mais verdadeira de todas é porque me permite, mesmo que seja apenas por breves instantes, escapar da condição humana.





Recentemente reli um livro fascinante, “O filósofo e o lobo”, onde, à luz do que aprendeu com a convivência com um lobo, o autor, Mark Rowlands, se questiona, entre outras coisas, acerca da natureza da felicidade. 

Segundo ele, o homo sapiens não vive de forma absoluta o momento presente, mas antes imerso num contínuo que nos mergulha no passado e nos projeta no futuro. O lobo é mais um ser do presente, o qual vive de forma completa e inteira. 

Essa imersão no tempo leva-nos muitas vezes a esquecer o valor do processo e focamo-nos apenas no objetivo, que está sempre diferido. No próprio instante em que o cumprimos, esgota-se. 

O lobo vive o processo. E os processos mais vitais são os mais viscerais, aqueles que envolvem a maior dose de êxtase, ligada inextricavelmente com extremos de agonia e desconforto. Por exemplo, quando corremos e damos o nosso máximo, durante várias horas de esforço ininterrupto e esgotante, o que é que sentimos? Sobretudo desconforto, mas também uma enorme exaltação. E sentimos isso tudo em simultâneo. São duas faces da mesma moeda que não são separáveis, experienciadas em uníssono. O que é que fica depois de acabarmos? O principal não é com certeza a marca atingida, mas antes a memória indelével e física do processo de correr.










Às 6h10 de uma manhã fria, no planalto de Oukaimeden, a 2.500 metros de altitude, na cordilheira do Atlas Marroquino, soou a contagem descrescente: 5, 4, 3, 2, 1, go!

Lançamo-nos em uníssono para o ar frio da madrugada, correndo rápido para aquecer. O primeiro quilómetro é plano, dá para engrenar a quinta e disparar para frente. Esperam-nos 105 km com 6.500 m de desnível positivo, em terreno muito técnico. As montanhas são inclinadas, pedregosas, secas e brutas. Praticamente não há vegetação, à exceção de uns arbustos espinhosos que apenas as cabras conseguem mastigar.

Subimos às escuras, iluminados pela luz do frontal. Assim que o terreno empina começamos a caminhar, que trotar por ali acima gasta demasiada energia. Vou com o Nuno Faria e o Rui Pires. São cerca de 11 km até ao primeiro posto de controlo (PC1), lá no alto aos 3.000 m. Não haverá abastecimento à nossa espera.

Uma das características principais desta prova, é que esta sim, é de facto em semi-autonomia, ao contrário daquelas a que estamos habituados no continente europeu. Fomos informados pela organização de que existem apenas 3 abastecimentos. Da extensa lista de material obrigatório consta a necessidade de carregar 3.000 Kcal connosco. Cada bolsinho da minha mochila alberga várias barritas energéticas.

Chegando ao alto deparamos com o espetáculo magnífico do nascer do sol. Há lá coisa mais bonita do que um esplendoroso nascer do sol? Sobretudo neste ambiente marciano que reverbera numa vasta paleta dos mais variados tons ocres.






Agora vamos descer em direção ao PC2 que fica no km 20 seguido do PC3 ao km 30, cerca de 1.500 m mais abaixo do ponto onde estamos. A descida é rápida, por um estradão largo. Entusiasmo-me e acelero. Iremos passar por várias aldeias berberes, que mal se divisam no meio da paisagem ocre. As casas são feitas do material circundante, um barro laranja ocre. Estão perfeitamente camufladas, confundindo-se com a paisagem. O único elemento moderno que as distingue são as antenas parabólicas nos telhados planos. Pode não existir água corrente, mas a televisão (e a eletricidade) não falta.






As aldeias estão plantadas junto a leitos de ribeiros. O único verde que se divisa é junto a estas aldeias, nas poucas árvores que medram junto aos ribeiros e na agricultura de socalcos.








Pouco antes do PC2 cruzo-me com o Paulo Pires, com o José Santos e com a Paula que participavam na etapa dos 42 km do Challenge. Saúdam-me entusiasticamente.

Chegado ao PC2, sou controlado em 32º lugar, número idêntico ao do meu dorsal. Se fosse supersticioso diria que é um bom augúrio. Entro, ingiro uns frutos seco, abasteço de água e saio novamente.

A parte seguinte do percurso é monótona. Apanhamos um troço interminável de estradão, sempre à mesma cota. O PC3 nunca mais chega. Vou junto com o Rui Pedro Julião. Demoro cerca de 5 horas a fazer estes 30 km iniciais. Está muito calor. Destilo. O abastecimento tem figos, damascos, amendoins, bananas e pouco mais. Não consigo ingerir nada de jeito. O meu estomago está impermeabilizado pelo calor e pela água que o tenho forçado a aceitar. Tampouco consigo deglutir as barras energéticas que trago comigo. Sabem-me a serradura. O saco estomacal está completamente vulcanizado por este ambiente telúrico.





Os próximos 30 km, até ao abastecimento de sólidos, vão doer. As fibras do meu corpo guardam a memória do brutal calvário que passei um ano antes quando cumpri os 170 km do UTMB como se fossem uma promessa que se tem que cumprir custe o que custar.

O nosso corpo é inteligência incorporada. Guarda a memória do que fomos e do que sentimos. Desde esse fatídico fim-de-semana em Agosto de 2015 que nunca mais consegui correr sem esforço. Um ano inteiro a penar em cada treino. O corpo a recordar-me as 39 horas de agonia. A segunda noite interminável. Os últimos 34 kms feitos de uma lentidão agoniante. A passo. Subidas paquidérmicas. Descidas permitidas de costas. Quadricípites destroçados. Pés em carne viva. Rins em pre-falência.

Tenho medo, medo de ser forçado a desistir. DNF na tabela final. Did Not Finish. Pensamentos de derrota martelam-me o cérebro. Seria tão mais simples abandonar. Confirmaria que já não sirvo para isto. Que estou acabado. Que tenho que deixar as Ultras.



Agora é sempre a subir. Avanço lento como um caracol. As pernas doem-me. Os braços doem-me de tanto puxar pelos bastões. Os ombros doem-me. Sinto-me agoniado do calor e da altitude. Por diversas vezes estou prestes a vomitar. Mas não há carga para alijar.









Levo 2,5 l de água nos reservatórios e o precioso líquido vai-se escoando rapidamente. Entro num planalto riscado por um ribeiro largo. A água está prestes a acabar. Tenho que abastecer no rio. Os comprimidos purificadores são obrigatórios, mas eu não quero saber. Que se lixe. Demoram 30 minutos a atuar de qualquer forma. Avanço determinado em direção ao PC4, onde sei que encontrarei água para reabastecer. Assim que lá chego perguntam-me se estou bem. Digo que sim, mas que me deem água que depois falaremos. Bebo mais sofregamente do que um camelo de três bossas.






Repouso um pouco. São agora 15h35. Estou em prova há cerca de 9h30. Avalio temeroso os 600 metros de desnível que me separam do próximo cume, a 3 km de distância e 3.000 m de altitude. Não vai ser aqui que vou parar. Vou ter ainda que ultrapassar mais este obstáculo.

Não sei de que subsiste o corpo. Provavelmente de si próprio. O que é certo é que vou vencendo a altitude.

Chegado lá acima tenho uns 9 km para descer. Troto o melhor que posso, por entre os rebanhos de cabras que fogem espavoridos à nossa aproximação. Tenho que chegar ao abastecimento de sólidos. Tenho que me forçar a ingerir alguma fonte de energia. Tenho, tenho, tenho!

Agora parece um carrocel. Tanto desce como volta a subir. Não sei o que me custa mais. Tudo me custa. Até os pontapés nas pedras são bem-vindos pois a dor aguda, lancinante, faz-me esquecer o espasmo contínuo dos músculos e articulações.


































Às 18h15 chego finalmente ao abastecimento. Encontro o Rui Pedro e o Kiko. O Kiko parece ter uma perna bastante maltratada.

O abastecimento é um oásis! Muito fraquinho em alimentos, uma sopa muito aguada, com réstias de massa fininha, uns triângulos de queixo e pouco mais. Tem no entanto o meu salva-vidas. Umas enormes batatas cozidas, com casca e tudo. A batata salvou-me a prova. Levo o meu tempo a ingeri-la inteira, com calma.

Agora vai começar a anoitecer. Vou sair com os companheiros. A presença deles trouxe-me um novo ânimo. Visto roupa quente que lá em cima vai fazer frio.

Saímos. Sinto-me novo. Parece que iniciei agora a prova. As dores foram-se. O espírito renovou-se (o voltaren também ajudou).

Vamos ter que subir até ao PC7, novamente acima dos 3.000 m. Despois desceremos ao PC8 e finalmente iniciaremos a subida para o nosso zénite.

Às 20h estou no PC8, juntamente com o Rui Pedro e o Kiko. Já é de noite. Servem-nos chá de menta, afogado em açúcar. Sabe-me pela vida.





Tem aqui início a subida para o cume do nosso Evereste. Estamos a 2.866 m e teremos que subir até aos 3.670 m em cerca de 4 km. Vai ser um desafio a esta altitude. Há que começar. Subo cheio de força. Nem pareço a mesma pessoa que percorreu penosamente os primeiros 50 kms. Vou ultrapassando atletas. Passo pelo PC9 quase sem parar, já sinto o cheiro ao ponto mais alto.

No topo não se encontra ninguém. Apenas as marcas refletoras que nos indicam que é chegada a altura de iniciar a descida. Cerca de um km depois encontro a tenda do PC10 (km 72). Paro apenas o tempo de trocar uma palavras com os voluntários (dizem-me que estão 3ºC neste local) e saio disparado a fim de não arrefecer. Mais um km e têm início os famosos 2 kms verticais, abruptos de inclinados, de descida quase contínua.

Tinham-me avisado que que descer sem cair uma meia-dúzia de vezes era uma missão impossível e é um facto que confirmo. Para mais desço rápido. Vou fazendo uma espécie de ski nas pedras soltas, deslizando de lado onde possível. Seja como for avanço depressa apesar da dificuldade do terreno. A progressão exige uma enorme concentração a fim de evitar partir a cabeça contra os calhaus.

É com um grande alívio que finalmente atinjo um planalto, a cerca de 1950 m. Permite-me soltar as pernas por alguns momentos.

E pronto, mais uma pequena descida e já avisto ao longe as luzes de Imlil, km 84 da prova, 1.600 m. Imlil é uma vila turística, ponto de base das expedições ao Atlas Toubkal, o 2º ponto mais alto de África, com os seus 4.200m de Altitude.

O abastecimento e base de vida fica num hotel.com alguma dificuldade consigo localizar o hotel, onde encontro um grupo de voluntárias extremamente simpáticas. Estou no PC12 e são agora 01h45 da madrugada. Quase 20h de prova.

Como um sopa meio aguada e um pratinho de macarrão. Vai ter que servir até ao fim da prova que o meu estomago não dá para mais.

Entretanto entra na sala o João Faustino, que tinha estado a dormir uma sesta. Decidimos sair juntos.




Já só falta o troço final. Estimamos demorar umas 4h30.

A saída de Imlil é seguramente o troço mais feio da prova. Até parece de propósito. Fazem-nos passar por aquilo que parece uma lixeira. Enfim, fraca escolha, mas depressa a deixamos para trás.

Nas subidas vou bastonando com vigor. Teremos que subir novamente aos 2.000 m e depois descer para os 1.750. Aqui encontramos novo PC, o 13º. Está fresco, portanto bebemos uma cola e avançamos novamente. Faltam as duas subidas finais. Até aos 2.200 m e depois até aos 2.700 m. Avançamos sem parar. Quanto mais depressa chegarmos mais depressa deixaremos de sentir a dor. Os derradeiros 500 m custam eternidades. Está escuro como breu e portanto não temos noção onde nos encontramos.





Finalmente o terreno nos parece conhecido. Deverá ser o troço final de pedra solta mesmo antes de chegar ao pórtico feito de duas bandeiras marroquinas, sobranceiro ao planalto onde se encontra o acampamento.





São quase seis horas da manhã e estamos prestes a chegar. A alegria de avistar Oukaimeden afoga todo o sofrimento. Resta descer um par de quilómetros. Palmilhamo-los felizes por enfim chegar.

Às 6h17 juntos cruzamos finalmente a meta.

O que se me tinha afigurado impossível está completado. Cumpriu-se mais uma vez.

Vou sair daqui revigorado, tendo tirado a desforra da desventura nos Alpes.

Estas corridas não são a vida mas confundem-se com ela. Como se distingue o que é real daquilo que está apenas na nossa imaginação? Existe de facto mais alguma coisa para além da nossa imaginação? Ou faz sequer sentido a questão?

O ser humano gosta de classificar o mundo, colocar etiquetas e organizar arrumadinho em caixas. Mas o mundo continua a ser mais fluido e maleável do que os nossos contentores.






Nota: créditos fotograficos devidos a vários companheiros. Menção especial para as fantásticas fotos do Rui Pires.


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