“Courage is the first of human qualities because it is the quality that guarantees all the others.” – Winston Churchill
(and a bit of madness I would add... / temperada com um pouco de loucura, acrescentaria eu...)
"Não existe melhor escola do que a adversidade"
- Benjamin Disraeli
"Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por
isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas
as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes
deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele
que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem
nunca consegue." – Bernardo Soares
Infeliz, ou felizmente, consoante a perspetiva, o ano de 2017 revelou-se como tendo provavelmente sido o meu "Annus Horribilis".
A minha atitude perante a vida segue a máxima do filósofo marxista italiano António Gramsci:
"Pessimismo da razão, otimismo da vontade"
Portanto, embora eu acredite que o universo é permeado pelo acaso, acredito também que contém em si, indiscutivelmente, uma componente muito forte de necessidade.
A minha formação em física fundamental teórica legou-me uma crença inabalável, platónica quase, numa ordem matemática oculta, que se traduz em regras de organização.
(a menos que existam infinitos universos, e nesse caso "anything goes")
Se numa ronda de poker nos calhar uma mão fraquinha, o que temos a fazer é o melhor que pudermos, se necessário recorrendo a bluff.
As pessoas verdadeiramente inteligentes são aquelas que se conseguem adaptar à mudança.
Demora o tempo que for necessário, mas por fim temos que dar a volta.
O que é certo é que em 2017 a minha vontade de treinar decaiu muito, o que se refletiu no meu primeiro DNF em 46 provas de Trail (5 na mítica distância de 100 milhas) e 70 provas de estrada, sem nunca claudicar desde 2009.
E tinha logo que ser numa das minha provas favoritas:
Em julho de 2017 fui para Andorra
sem grandes expetativas. Apesar de tudo correu-me melhor do que estava à
espera, tendo abandonado a meio, em Coma Bella, no km 86:
Ontem, dia 15 de novembro de 2018, levado por um impulso irresistível, e após o incentivo de alguns amigos, decidi-me inscrever-me novamente nessa insana aventura.
Ainda tinha colocado o seguinte post prudente no Facebook:
"Estou muitíssimo tentado, mas a razão diz-me que primeiro tenho que
voltar a fazer o percurso ascensional das pedras. Há demasiado tempo que
não treino em montanha. Mas sim, tenho umas contas a ajustar com esta
senhora, já que em 2017 reduziu-me à minha insignificância, quebrando-me
a meio, em Coma Bella, no km 86. No problemo, eu sou um gajo
paciente..."
Parece que a paciência se esgotou depressa...
"... já
tinha preenchido o formulário umas quatro vezes desde que abriram as
inscrições... o meu hemisfério emocional-irracional é mais forte do que o
hemisfério racional..."
Agora, tenho 8 meses para me preparar para este enorme desafio. É um parto um pouco prematuro, mas espero que o nascituro esteja à altura do desafio.
Às vezes os prematuros formam-se rijos e lutadores. Depressa aprendem que para sobreviver têm que dar o melhor de si.
Diz-se que não se deve voltar aos locais onde se foi feliz (pois tudo muda, tal como o proverbial rio de Heráclito de Éfeso, onde não nos podemos banhar duas vezes). Desejo que sim. Que mude.
E vejam lá se não vale a pena voltar a um paraíso destes?
A pandilha de 2017: Luís Ferreira, Paulo Osório, João Mota e Hélder Lemos
Ordino
Partida 2017, Paulo Osório e João Mota na frente à esquerda. Eu e o Hélder estamos algures na multidão
Armando Teixeira, 2º classificado em 2014
Créditos: a maioria das fotos são ou da organização ou de Hélder Lemos.
E aqui está a descrição da prova por um grande amigo meu, companheiro na aventura que foi dirigir os destinos da associação de que deu enquadramento à modalidade, a ATRP, companheiro em inúmeros trilhos, um gigante destas aventuras e um ser humano de exceção, o João Mota: Finisher em Andorra
Sentado imóvel na laje do cais, vejo os veleiros saírem da barra e em cada um desejo embarcar. Sonho a viagem para destinos desconhecidos, vagamente adivinhados. Há qualquer coisa de indefinido no horizonte azul do mar que me atrai. Qualquer coisa de novo e de ameaçador. Qualquer coisa de imprevisto e excitante lá longe onde os mastros se afundam. E vou vendo, e sonhando... Sinto a brisa salgada acariciar-me o rosto trazendo a promessa de vento e tempestade. Sonho o içar da vela de Estai na proa do navio, exposto à borrasca O caçar da Genoa nos molinetes ou rizar a vela Mestra Ou navegar à orça fechada para onde o vento me levar E vou vendo, e sonhando... Entretanto vejo correr os dias na anónima e monótona passagem das sequências digitais, que vêm de lado algum e para lado nenhum se dirigem E sinto crescer dentro de mim um grito que não consigo apagar E vou vendo, e sonhando... (a angústia da influência: Pessoa já escreveu tudo o que havia para escrever) Os Filhos
Os filhos são como polvos que se cravam nas nossas entranhas,
rasgando-nos por dentro.
Saem voando dos ventres das mães lívidas
e aterram no ar,
gritando,
e nós rangemos os dentes
destilados de puro terror,
do tremendo amor que explode no centro,
e nos lança gemendo das escarpas
aos abismos onde jurámos nunca ir.
Os filhos são como velhos carvalhos,
com enormes olhos líquidos
que nos trespassam na violência dos dias.
Nós avançamos nus pela noite
e eles gritam e gritam, vozes de cristal
que se quebram como ondas ferozes,
sobre as nossas costas.
Os filhos não saem de dentro de nós,
nascem de um mistério que está para além
e que nunca entenderemos.
Nós caminhamos com eles ao colo
mas são eles que nos levam
e nós acabamos sós,
decalcando poemas medíocres,
que empalidecem
ante a grandeza de Herberto Hélder.
Palavras
Adoro imergir num banho tépido de palavras.
Abro a torneira e vejo jorrar os termos.
Cheiro cada uma das suas sílabas:
proparoxítona cheira a álcool etílico,
tónica a Gin.
Deito-me aconchegado entre as esdrúxulas e as graves,
entre vocábulos e letras.
Já as agudas ferem-me os ouvidos, como giz em lousa.
Algumas há que nos enchem a boca,
como fatias de bolo: vo-cá-bu-lo.
Outras que nos deixam com fome: fe-vra.
Há-as diáfanas, ou densas.
Adjetivos pomposos ou simples.
Há substantivos que nos agarram com volúpia,
advérbios que nos ignoram olimpicamente.
Muitas há que passaram a alfandega:
palavras recheadas de donaire,
garbosas de aplomb,
e gulosas como croisssants.
E outras ancestrais,
escondidas nos esconsos arcanos dos nossos bisavós.
Tiramos um colherada
e sai uma figura cheia de estilo:
uma aliteração, ou mesmo uma prolépse analéptica,
como verbo que teremos ensejo de ver,
o que nunca tivemos.
Verbos imperativos que nos ordenam: conjuga!
Pronomes demasiado pessoais, como eu e tu,
e advérbios de dúvida, se porventura as tivermos.
Os artigos são mais simples,
embora por vezes uns indefinidos.
Também gosto das preposições,
não obstante as preferisse mais insubordinadas,
como conjunções.
Mas as minhas preferidas são as interjeições, porra!
Ser Feliz
Ser feliz é viver com intensidade Amar sem limites Odiar sem freios Sonhar sem esperança Morrer sem receio Viver sem arrependimento Magoar sem desculpa Sofrer sem medo Largar o que não é vivo Agarrar o que nos liberta.
"Na enfermidade é que percebemos que não vivemos sós, mas acorrentados a
uma criatura de outro reino, cujos abismos nos separam, que não nos
conhece e pelo qual nos é impossível fazer-nos compreender: nosso corpo.
Qualquer assaltante que encontrássemos no caminho, talvez pudéssemos
sensibilizá-lo em seu interesse pessoal, senão pela nossa desgraça. Mas
rogar piedade ao nosso corpo é discursar diante de um polvo, para quem
nossas palavras não podem ter mais sentido que o rumor das águas, e com o
qual nos aterrorizaríamos de ser condenados a conviver."
- Marcel Proust, "O Caminho de Guermantes, À la recherche du temps perdu"
O meu Pai faleceu no domingo, dia 18 de fevereiro de 2018, aos 83 anos, após 5 anos de luta constante (dele e da minha Mãe) contra as sequelas de um AVC.
Segue-se um conjunto de emails trocado com um grupo de amigos próximos (apenas os meus emails):
09/02/2018, 6ª feira, 16:47
«Segundo
a médica especialista, os Cuidados Paliativos têm de ser “um direito de todas
as pessoas” quando estão em situações de doença grave e de sofrimento porque a
eutanásia não é a resposta para o sofrimento e a medicina tem respostas.»
«Às pessoas que estão em sofrimento e em fim de vida é preciso ter-se “muito
mais” para oferecer “do que a morte” que é “profundamente redutor, retrogrado e
ultrapassado”.»
Estou um pouco mais suscetível a
estas temáticas porque o meu Pai está a morrer numa cama de hospital.
Foi internado na 3ª feira dia 30/01
com desidratação e falência renal e desde então só tem piorado. Já não dá
acordo de si. Ontem os médicos disseram-me que os orgãos estão todos a entrar
em falência. Nem era necessário terem-no dito pois bastava estar à cabeceira da
cama para perceber o que se passava.
Ontem, quando ia a caminho do Hospital de Cascais para o visitar, tive a
pouca sorte de ligar o radio e ouvir a Srª Drª Deputada perorar contra os
facilitismos de deixar morrer as pessoas que não têm a coragem de enfrentar a
dor da sua existência (não terá sido isto textualmente o que ela disse, mas o
teor era este, ou pelo menos, certo ou errado, foi isto que eu ouvi), deu-me cá uma vontade de inverter marcha e a ir procurar no
Hospital, no Parlamento ou nalguma festa da Quinta do Marinha, para lhe enfiar
duas galhetas bem enfiadas.
10/02/2018, Sábado, 11:50
Na minha curta vida, já vi dois
tipos de moribundos. O meu avô materno, que morreu semiconsciente e calmo. E o
meu pai, que está inconsciente, mas cujo corpo se recusa a morrer.
Gosto muito
do (mais famoso) poema do Dylan Thomas, acerca da morte, mas parece-me que
falha completamente o ponto.
Esta estrofe em particular:
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
(Análise de um especialista: “even though smart
people know death is inevitable (line 4), they don't just accept it and let
themselves fade away (line 6), because they may not have achieved everything they
were capable of yet (line 5)”)
O que eu
vejo é um corpo que resiste à morte, dê por onde der, mesmo quando a mente já
foi.
Não tem nada de nobre, nem de
edificante. É apenas a vida a lutar contra a morte. A mente consciente não tem
nada a ver com essa luta.
Um parêntesis:
O poema declamado
pelo Sir Anthony Hopkins está divinal:
Do not go gentle into that good night
Dylan Thomas, 1914 - 1953
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
"A rapturous ode to the unassailable tenacity of the human spirit by the
Welsh poet Dylan Thomas (October 27, 1914–November 9, 1953)."
Misses the point.
O próprio
Dylan Thoms morreu tragicamente:
«In early November of 1953, as New York suffered a burst of air pollution that
exacerbated his chronic chest illness, Thomas succumbed to a round of
particularly heavy drinking. When he fell ill, Reitell and her doctor attempted
to manage his symptoms, but he deteriorated rapidly. At midnight on November 5,
an ambulance took the comatose Thomas to St. Vincent’s Hospital in New York.
His wife, Caitlin Macnamara, flew from England and spun into a drunken rage
upon arriving at the hospital where the poet lay dying. After threatening to
kill Brinnin, she was put into a straitjacket and committed to a private
psychiatric rehab facility.»
É um bom contraponto. Como disse um amigo meu, “a realidade é
tramada”
10/02/2018, Sábado, 21:44
Vim do hospital agora e hoje
houve um desenvolvimento de que eu não estava à espera: ele estava
consciente. Pelo menos na medida em que uma pessoa com sequelas de um AVC
profundo consegue estar consciente (o que é isso da consciência?).
As patologias mentais são
fodidas. O cancro é fodido, mas não há nada como um problema grave na caixa
dos pirolitos para nos deixar completamente desconcertados. Com uma pessoa
com cancro sabemos instintivamente como lidar. Com uma pessoa cujo cérebro
não funciona normalmente e que portanto não nos devolve as emoções que
estaríamos à espera (boas ou más) ficamos desarmados.
(" Stanford Professor Robert Sapolsky, posits that depression is the
most damaging disease that you can experience. Right now it is the number
four cause of disability in the US and it is becoming more common. Sapolsky
states that depression is as real of a biological disease as is
diabetes.")
Mas o que
é certo é que ele tinha os olhos abertos e pela reação dos olhos quando me
viu, estou convencido de que me reconheceu.
Desde que teve o AVC em
Janeiro de 2013, esta é a 4ª vez que é internado.
Em duas
dessas vezes (na 1ª e agora nesta) os médicos afirmaram que ele iria morrer.
As outras duas foram internamentos com pneumonia.
Foda-se, isto é um carrossel
do caralho. Estou para ver quantas vezes é que uma pessoa aguenta fazer o luto
do mesmo ente familiar querido.
A primeira
vez está descrita no meu blog de corridas:
O ano que passou (2013) foi um ano muito difícil, por variadas razões.
Quando se chega aquele período médio da vida, em que já não somos jovens, mas
também ainda não somos velhos, ou pelo menos não é assim que nos vemos, temos
tendência a fazer um balanço daquilo que foi e perspetivar aquilo que ainda
poderá ser.
Quando um dos nossos pais sofre um encontro tangencial com a Ceifeira de
Vidas e se safa por uma unha negra, apercebemo-nos a um nível visceral de que
nem eles nem nós vamos durar para sempre.
Na noite de 4ª feira, dia 23 de janeiro, quando recebi um telefonema da minha
mãe, apercebi-me logo pelo tom de voz dela que algo estava muito errado. O
meu pai estava inconsciente, a ambulância já lá estava e eles iam levá-lo
para o hospital S. Francisco Xavier. Dirigi-me logo para lá para encontrar-me
com a Mãe e ainda o consegui ver, em coma, entubado (ventilado). Fizeram-lhe
um TAC, que revelou um AVC hemorrágico muito extenso, e os médicos
disseram-nos que havia a possibilidade de ele não passar das primeiras 24
horas.
No dia seguinte fizeram-lhe um orifício no crânio para drenar o sangue que se
acumulava nos ventrículos cerebrais. Nos próximos 5 dias mantiveram-no
num coma induzido até ser seguro baixar os sedativos. A minha mulher,
Helena, que é médica, viu o TAC e recordo-me bem das lágrimas que lhe
acorreram aos olhos ao verificar a extensão da zona afetada.
Acordou com o tubo do ventilador enfiado na garganta e não conseguíamos
comunicar com ele. Depois apanhou uma pneumonia. No dia 1 de fevereiro foi
retirado dos cuidados intensivos para os cuidados intermédios da enfermaria
de neurocirurgia do Hospital Egas Moniz. Durante vários dias tentava falar,
mas não saia nada. Era aspirado frequentemente, o que é um procedimento muito
desagradável e incómodo, mas necessário. Tinha apneia do sono. Ritmo cardíaco
elevado. Estava medicado para a tensão. Não me reconhecia.
No dia 14 de fevereiro mudaram-no para um quarto da enfermaria de
neurocirurgia. Nesse dia finalmente reconheceu-me. É impossível exprimir a
alegria e o alento que isso me deu. Ele estava a ter uma recuperação muito
para além de todas as nossas melhores esperanças.
Ainda esteve mais uma semana no HEM até que foi transferido para o Hospital Residencial
do Mar, o Hospital onde a Helena trabalha, para uma cama de cuidados
continuados. Aí esteve internado até ao dia 1 de junho. Beneficiou de
excelentes cuidados prestados por uma equipa multidisciplinar muito
competente, que muito o ajudou a evoluir numa recuperação para além de todas
as nossas expectativas. Durante todo esse tempo o papel da minha mulher foi
inestimável no apoio ao meu pai.
Foi no entanto um carrossel emocional que durou vários meses e afetou muito o
meu estado de alma.
11/02/2018, Domingo, 5:47
O velhote
sobrevive dia após dia com a boca bem aberta a tentar enfiar o máximo de
oxigénio possível para dentro dos pulmões (o ruído faz lembrar uma chaleira com
água a ferver).
Se ele de
facto estiver consciente, então eu preferia que não estivesse.
To be, or not to be? That is the question—
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And, by opposing, end them? To die, to sleep—
No more—and by a sleep to say we end
The heartache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to—’tis a consummation
Devoutly to be wished! To die, to sleep.
To sleep, perchance to dream—ay, there’s the rub,
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause. There’s the respect
That makes calamity of so long life.
For who would bear the whips and scorns of time,
Th' oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of th' unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? Who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscovered country from whose bourn
No traveler returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.
11/02/2018, Domingo, 9:59
Resposta de um amigo:
“Menos Shakespeare e mais Monty Python são as recomendações
da direcção geral de saúde”
11/02/2018, Domingo, 14:42
Excelente recomendação!! Por uma vez, vou aceitar essa
recomendação
“I see you have the machine that goes 'ping!'. This is my favourite. You see,
we lease this back from the company we sold it to - that way it comes under the
monthly current budget and not the capital account.”
"- Is it a boy or a girl?"
"- Well it's a little early to start imposing roles on it, don't you
think?"
Eu estou a
trabalhar.
A minha Mãe está no Hospital com o meu Pai.
Ela mandou-me isto pelo WhatsApp:
"O antibiótico de largo espectro não está ainda a fazer efeito, apesar da
hidratação o sódio não tem baixado, o quadro clínico é igual ao de sexta. Têm
tentado que esteja o mais confortável possível. Prognóstico reservado."
Ele deu
entrada no Hospital de Cascais no dia 30/01, com desidratação, falência renal e
uma infeção urinária.
Depois ficou
diabético e apanhou uma pneumonia.
Isso tudo conjugado com as sequelas do AVC, a hipertensão, a fibrilhação
auricular e anti-coagulação não dão um prognóstico muito famoso.
12/02/2018, 2ª feira, 16:13
Esta noite vou-me encharcar para aqui:
Pátio do Sol, Carnaval com Ena Pá 2000
15/02/2018, 5ª feira, 18:13
Entrámos na fase dos cuidados paliativos. O médico falou connosco,
para saber qual a nossa posição acerca de mudarem o objetivo clínico, da cura
para o maior conforto possível do paciente.
Tanto eu como a minha mãe somos a favor. O que eu quero é
que lhe tirem a sonda do nariz e as outras tretas que para ali têm. O
antibiótico acaba hoje.
Ironicamente, ele ainda nunca tinha estado tão desperto como
hoje. Acorda, reconhece-nos, estou certo disso, e tenta comunicar, mas não
consegue.
No entanto, não sei até que ponto ele consegue orientar-se
no espaço, no tempo, ou sequer reconhecer a situação em que está.Mas que reage de uma forma totalmente
aflitiva, isso reage.
Caracterizar a morte como um momento é acertar complemente
ao lado, pelo menos em grande parte dos casos. É mais um processo. Sorte tem
quem morre de morte fulminante.
"Somewhere some lucky bastard is having a heart-attack."
16/02/2018, 6ª feira, 13:13
O dilema que nos corroí é mesmo este. Tanto na vida como na
morte:
“It sucks
when you know that you need to let go, but you can´t, because you are still
waiting for the impossible to happen.”
16/02/2018, 6ª feira, 14:16
Outro equívoco (num escritor fantástico):
“Quando o Alma-Grande entrou, o Isaac estava no auge de um
combate que quase sempre se trava de corpo extenuado. O inimigo era uma parte
de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e
agradecido à seiva, corajosamente defendia o resto da muralha. As bagadas pelas
têmporas abaixo e um ritmo apressado da respiração davam sinal desta guerra.
Mas de nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, para sentir
a grandeza e a solenidade de tal hora.”
Faleceu hoje, às 18h30, quando eu
estava a subir para o quarto de hospital para o ver.
Felizmente cheguei a tempo de amparar a minha mãe.
19/02/2018, 2ª feira, 10:03
Na 5ª feira ainda teve muitos momentos de consciência em que
nos reconhecia e se notava perfeitamente que se emocionava (tanto nós como os
enfermeiros e os médicos sentimos isso).
Estou convicto que perto do fim ele soube o que lhe estava a
acontecer.
No sábado já estava completamente agónico. Era palpável que
não demoraria muito.
Ontem quando cheguei ao quarto, ele tinha acabado de morrer.
O aspeto de um cadáver recém-falecido não tem nada a ver com
o corpo arranjadinho que se vê nos velórios. Até a enfermeira estava
impressionada.
A morte não é bonita.
O que é bonito é aquilo que os mortos deixam em nós.
O meu Pai tinha um sentido de humor muito semelhante ao meu
(ou vice-versa).
Foi algo que partilhámos ao longo da vida e que nos uniu.
Acho que este sketch dos Monty Python vai de encontro a essa
nossa forma de ver o mundo.