terça-feira, 6 de novembro de 2018

Maratona do Porto 2018









RUN 4 FUN





"Ah, to be no longer conscious of being, like a stone, like a plant! To remember no longer even one's own name! Stretched out upon the grass, hands interlaced at the back of one's neck, to look up at the dazzling, sun-puffed clouds as they sail past in the blue sky, to listen to the wind which makes, up there in the chestnut grove, a sound like the breaking of the sea."
-  Luigi Pirandello, "Um, ninguém e cem mil"





Ma-ra-to-na… quatro sílabas que se enrolam na língua batendo o ritmo, a primeira aberta e solta, no fluir simples e fácil dos primeiros quilómetros, as duas seguintes a chicotearem os dentes, com o impulso e a determinação necessários para percorrer o longo e solitário percurso intermédio, e a última, crescendo para a meta, na antevisão do doloroso esforço final.


Na linha de partida, a massa humana acotovela-se, fremente de antecipação e entusiasmo. O nervoso miúdo evola-se tremente no odor acre a adrenalina e o calor transmite-se lentamente de corpo para corpo sintonizando o coletivo para a prova que está prestes a ter início. Aqui e ali trocam-se piadas, cumprimentos, desafios.


A mente produz um estado de agitação nas vísceras internas e nos músculos das pernas e estas retornam uma imagem corporal da tónica dominante da emoção que o eu experiencia. O sentimento prevalecente é uma mescla de ansiedade pela incógnita dos longos quilómetros e de alegria pela antecipação do prazer de correr.


A partida é finalmente dada e a mole humana é projetada para a frente, liberta enfim dos seus freios. É como um rio que rompe irredutível por uma barragem e cai glorioso sobre o vale.


Entro no ritmo estável dos pés tocando levemente o chão, enquanto a chuva tem início, refrescante, limpa, revigorante, amparado por dezenas de companheiros. Somos uma grande manada de gnus migrando na savana africana.


Vou domando os receios traiçoeiros que vão assolando a minha mente: será que vou quebrar nos últimos 7 quilómetros, como em Lisboa? Deveria ter descansado mais na semana que passou? Procuro esvaziar o cérebro de tudo o que não seja o sentimento de si que o corpo me proporciona. Sentir as pernas a mover alternadamente, o coração a bater forte, os pulmões a inflar, a brisa no rosto. 


A adrenalina vai dando lugar às endorfinas. Os receios iniciais vão sendo substituídos pela calma. O ritmo vai oscilando entre os 4:45 e os 4:55 por km. Suficientemente regular para não se tornar demasiado desgastante. 


Chegamos às arcadas de metal da ponte D. Luís I. É a passagem para a outra margem. O Porto tem muita gente na rua a aplaudir e incentivar os atletas. Gritam pelo nosso nome, que encontram escrito no dorsal. “Luís! Luís! força tu consegues!” O incentivo lava a alma e irmana-nos numa corrente humana de apoio e solidariedade. O desporto tem o dom de conseguir trazer ao de cimo que de melhor e de pior existe no ser humano. Nunca é neutro. É sempre colorido pelo arco-íris da emoção.


Em Gaia, percorremos o troço junto ao Douro. Cruzamo-nos com os atletas que voltam já no retorno. Um primeiro grupo voando baixinho a uma velocidade alucinante. Depois um hiato longo e um segundo grupo em bom ritmo. De seguida vão surgindo atletas esparsos, progressivamente engrossando até que passa o grupo compacto dos que seguem a bandeira das 3 horas. Pouco depois vejo o Luís Carvalho passar. Grito-lhe o meu apoio. De seguida vem a bandeira das 3h15 seguida por um grupo ainda maior e mais compacto. Contorno o ponto de viragem. Cruzo-me com o João Sousa e tocamos as mãos. De seguida passo pelo Fernando Rosete, Manuel Romano, Nuno Dias de Almeida, Jorge Paulo, Jorge Esteves, Elsa Mota, Gonçalo Melo, Miguel San-Payo, Nuno Marques, Pedro Morgado. Este desporto é singular e paradoxalmente individual e coletivo. Todos estes rostos e as pessoas por detrás deles, únicas, alegres, bonitas, maravilhosas, fazem mais pelo meu ânimo do que uma biblioteca inteira de livros de auto-ajuda ou comprimidos de prozac alguma vez poderiam fazer.


Estou a chegar novamente à ponte. Vinte e nove estão feitos. Sinto-me surpreendentemente bem. Falta o terço final. É uma incógnita como me sentirei nesses derradeiros quilómetros. Afinal de contas, a minha preparação está longe de ter sido aquela de que eu gostaria. Após um período de um ano de quase completa ausência, com serviços mínimos no que diz respeito à corrida, voltei a treinar regularmente no final de julho. Falta-me readquirir a confiança e experiência que advém da participação regular em provas de várias distâncias.


Seguimos para leste, na margem norte do Douro. Vou cumprindo escrupulosamente o meu plano de ingestão calórica: um gel de 42g de 7 em 7 kms. 


De forma subtil, o corpo vai tentando forçar-me a abrandar. Ou melhor, a mente, baseada nas leituras que faz do esforço despendido. Os limites humanos são regulados pelo cérebro, que procura a todo o custo evitar que o corpo saia de limites relativamente estreitos de homeostasia. Os parâmetros que permitem a vida são muito bem definidos, no que diz respeito à hidratação, temperatura corporal, inflamação, ph, etc. É um meio muito estável e que é necessário preservar. Para isso concorrem a dor e a sensação de esforço. O cérebro orquestra um estado mental que nos força a abrandar quando se forma uma perceção subconsciente de desgaste excessivo. No entanto esses limites são ajustáveis. Existe sempre uma folga relativamente lata que pode ser encurtada.


Forço-me a manter o ritmo. Nesta fase da corrida, essa manutenção exige uma atenção constante. Um esforço continuado de concentração. Passo finalmente pelo km 32. É um marco psicológico. A partir aqui faltam os 10 kms finais. Surpreendentemente, sinto-me bem. Muito bem até. O meu ritmo cardíaco médio tem sido de 140 bpm, o que significa que em termos cardíacos estou folgado. O fator limitativo são as pernas e o meu receio da falta de quilómetros de treino, que me levam a assumir uma abordagem conservadora. Agora que a meta já se adivinha, permito-me soltar as pernas. Aumento o ritmo para os 4:45 médios


É uma sensação ótima, de enorme júbilo, conseguir acelerar no final. Vou ultrapassando muitos atletas que se encontram nitidamente desgastados. Sei agora que vou conseguir acabar bem. Chego à Foz. Subimos para Norte, sempre acompanhados pela chuva grossa. Passamos pela rotunda do Castelo do Queijo. Falta o derradeiro quilometro. Acelero como se estivesse possuído pelo próprio belzebu. Uma curva para a direita, outra para a esquerda e estou na linha da meta. Atravesso-a enquanto o relógio ainda marca as 3h26. O tempo, sempre o tempo, medida de todas as coisas, balança onde se equilibra o espaço que vai do nascimento até à morte.







Sinto-me feliz, redimido, uno. A chuva cobre com pudor as lágrimas da minha pungente emoção.




“I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.”

- Blade Runner



... or to be reborn, acrescentaria eu.









sábado, 27 de outubro de 2018

Recomeçar




"Não é que, atenção, a minha vontade se opusesse a seguir as vias para as quais o meu pai me encaminhava. Seguia-as todas. Mas, avançar por elas, não avançava. Detinha-me a cada passo;
punha-me, primeiro à distância e depois cada vez mais perto, a girar em volta de cada pedrinha que encontrava, e admirava-me assaz de os outros serem capazes de me passar à frente sem fazer caso daquela pedrinha, que para mim, entretanto, tinha assumido as proporções de uma montanha insuperável, ou, melhor, de um mundo em que poderia facilmente ter fixado residência.

Assim ficara, parado nos primeiros passos de tantas vias, com o espírito cheio de mundos, ou de pedrinhas, que é a mesma coisa. Mas não me parecia, de todo, que aqueles que me tinham passado à frente e percorrido toda a via, ao fim e ao cabo, soubessem mais sobre ela do que eu. Tinham-me passado à frente, não se põe isso em dúvida, e todos braveando como cavalinhos; mas depois, ao fundo da via, haviam encontrado um carro, o seu carro; tinham-se deixado atrelar a ele com muita paciência, e agora tiravam-no. Eu não, não tirava carro nenhum; e por isso não tinha bridas nem antolhos; via, sem dúvida, mais do que eles; mas no que toca a andar, não sabia para onde.

 — Luigi Pirandello, "Um, ninguém e cem mil"



Fico sempre surpreendido quando me dizem que tenho sorte em ter facilidade em perder peso, ou que sou um predestinado com talento para a corrida. Isso é um equívoco. Eu não tenho facilidade para nada. Como todas as outras pessoas, tenho que trabalhar arduamente para atingir os meus objetivos. Trabalhar muito e prolongadamente. 

Há coisas que fazemos nas nossas curtas vidas como se não tivéssemos alternativa. Empreendimentos que nos absorvem de tal forma que fazem parecer que não somos nós que os conduzimos, mas eles que nos guiam. A isso chamamos vocação. Sorte tem a pessoa que encontra uma vocação. Não é um caminho simples. Talvez mais fácil seja viver depreendido. Não ter inquietações nem paixões. Mas duvido que a natureza humana seja permeável a um estado de nirvana absoluto.

A minha natureza sempre teve um cariz marcadamente inquieto. A minha mente divaga facilmente.
Hoje em dia talvez se pudesse afirmar que fui uma criança com deficit de atenção e que isso se prolongou pela adolescência e pela vida adulta. Embora essa característica possa ser entendida como uma significativa desvantagem, tem, no entanto, um reverso. Acredito que tal como a seleção natural atua sobre as mutações genéticas, ou seja sobre o erro, também a imaginação labora sobre erros de interpretação. A originalidade consiste em ligar de novas formas conceitos díspares, ou transportar uma ideia para um contexto diferente. Quando sigo um fio de raciocínio, tenho dificuldade em concentrar-me nos passos individuais de forma sistemática e sustentada. Então procuro adivinhar o que me escapou e prever o que vem a seguir. Desta forma, por vezes o erro conduz à originalidade. Pode ser uma originalidade simplesmente absurda ou, pelo contrário, frutuosa.

Talvez a imaginação seja precisamente aquilo que nos distingue dos computadores. Um algoritmo clássico não pode errar. Se encontrar um caso que não foi previsto lança uma exceção e para. Talvez os novos algoritmos de Machine Learning funcionem de forma diferente e tenham espaço para o erro e eventualmente se consigam algoritmos tão imaginativos que cheguem a imaginar que existem, a imaginar que é dor a dor que deveras sentem, como diria o poeta. Ou talvez não.

Porque diabo me alongo nesta divagação? Talvez porque penso que a paixão pressuponha a capacidade de imaginar. A capacidade de atribuir qualidades fantásticas a atos perfeitamente banais, como correr. Carregamos toda esta bagagem emocional em que enredamos os nossos atos ligando-os a miríades de outros atos, sentimentos, pensamentos, pessoas, ideias. Quanto mais fortes e ricas essas ligações mais intensas as sentimos.

Quando se esgota uma paixão, sentimos uma necessidade irreprimível de reconfigurar essas ligações. Durante algum tempo vagueamos perdidos e perdemos a vontade de fazer coisas que antes nos eram pressurosas. Aos poucos vamo-nos reerguendo. Religamos aquilo que nos dá prazer, aquilo que nos faz avançar. Reconfiguramos as nossas paixões. Reescrevemos o nosso passado por forma a criar uma nova narrativa que nos permita fazer sentido do que foi e perspetivar o que será.

Recomeçar a treinar depois de um período de ausência é um enorme desafio. Atingir a forma é um percurso difícil e espinhoso. Voltar a percorrer o mesmo caminho apresenta dificuldades ainda maiores. Sobretudo a nível mental. Quando se progride para um objetivo pela primeira vez, sente-se a progressão como natural e cada nova conquista é uma agradável surpresa. Quando se volta a trilhar o caminho já percorrido, é necessária uma maior tenacidade. Em lugar de nos compararmos com as conquistas recentes, temos tendência a compararmo-nos com as conquistas mais antigas e isso é desmotivador. É fundamental empreender um esforço positivo para perspetivar o futuro a uma luz favorável. Acreditar que voltaremos a conseguir atingir as mesmas metas, e quiçá superá-las. Adicionalmente, a nossa atitude perante o tempo é determinante. Se encararmos o tempo como um inimigo a recear, viveremos tolhidos pelo desânimo e falta de fé. Se pelo contrário abraçarmos a passagem do tempo como um decorrer natural, abrimos espaço a novos e radiosos futuros. 

Desde comecei a correr de forma sistemática (sempre corri, desde a minha adolescência, mas de forma irregular, não-sistematizada e sem quaisquer objetivos que não o próprio prazer de correr), em julho de 2009, fui progredindo sustentadamente e com muito planeamento e esforço. Desde a minha primeira Maratona em dezembro de 2009, em que demorei mais de 4 horas, até exatamente dois anos depois conseguir finalmente baixar da marca das 3 horas, completei 40 provas de estrada, em distâncias desde os 10 km aos 42 km. Como se vê na tabela seguinte, a minha progressão foi lenta, gradual e sustentada.





Não foi por acaso. Não acordei um dia, alinhei na meta de fiz um tempo sub-3 horas assim saído da testa de Zeus. Primeiro tive que percorrer muitos quilómetros. Fazer treino de séries, de rampas, intervalado, fartlek, longos, enfim, a receita habitual. E isso é que verdadeiramente custa, como tudo o resto na vida. Para ter sucesso é necessário esforço sistemático, persistente, que não desanima perante os revezes (sejam lesões, desarranjos intestinais ou gripes em dia de prova) e sobretudo conseguir manter sempre a chama da paixão acesa, mesmo que por vezes a luzinha se afigure muito frágil ao vento inclemente. Aí entra a imaginação. Aquela imaginação de criança, em que combatemos denodadamente dragões ou cavaleiros imaginários. Há que revestir o ato de correr com uma roupagem que intrinsecamente não tem, mas que o torna mágico e apetecível. Se necessário fazer tocar a música dos "Chariots of Fire" na mente e imaginarmo-nos na pele do Roger Bannister a bater os 4 minutos na milha.


Não está tudo na cabeça, mas está lá o que verdadeiramente faz a diferença, para o bem ou para o mal, a escolha é nossa.



P.S. como tudo na vida, o receio não é não conseguir chegar lá, o receio é não querer o suficiente...