
“Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.”
- José Saramago, Levantado do Chão

E a magia voltou a acontecer.
Ao fim de dois anos de travessia no deserto, levei um dorsal
de Trail do início até ao fim de uma prova.
Acordar… o barulho distante do despertador… o lento retorno
à vida…
Ainda é noite. Abro os olhos para a escuridão. Estou deitado
no sofá, meio destapado por um cobertor exíguo…
Ergo-me devagarinho. É necessário envergar a couraça de
Cavaleiro Templário desta fé que move as montanhas debaixo dos meus pés:
calções de licra; camisola térmica de manga curta, justa ao corpo para evitar
assaduras; perneiras; manguitos; luvas sem dedos; meias; ténis kalenji, os que
me caiem melhor; mochila Salomon, uma das peças de equipamento mais importantes,
pois vai carregar com todo o material essencial para completar com sucesso uma
travessia destas; bastões.
Estou equipado. Tomo tranquilamente um pequeno-almoço frugal,
mas energético: iogurte grego; aletria; café.
Estou pronto.
Saio para o breu do exterior.
Desço cerca de um quilómetro até ao local da meta. Cheguei
cedo. Alguns, poucos atletas, concentram-se junto ao pórtico. Vão chegando
mais. A adrenalina do entusiasmo é palpável, cheira-se no ar fresco da
madrugada. Retesam os músculos como nervosos cavalos puro-sangue antes do tiro
da partida.
Sinto-me calmo. Fiz o possível para chegar até aqui. Agora
estou entregue à dança entre o desgaste, a sorte, a estratégia e a boa gestão
das emoções.
A minha maior preocupação são os 8 kg em excesso que carrego
comigo. Tenho já uma vasta experiência de provas longas e com muito desnível,
mas muito pouca experiência em carregar este excesso de barriga. Vou percorrer
esse terreno desconhecido, e é aí que a estratégia e gestão emocional irão
pesar mais.
Ser conservador no avanço pelo terreno. Ir devagar, a roçar
os tempos de corte, mas nunca demasiado próximo para que não seja surpreendido
por algum imprevisto. Gerir tanto o entusiasmo como o medo.
Parece que foi uma eternidade de meses antes: a dor da
separação. O desabar de uma vida a dois. A angústia da solidão. As dúvidas
acerca da capacidade para criar um novo lar. O trabalho diário para reconstruir
um caminho.
São seis horas, soa a ordem de partida. Começamos
imediatamente a subir. Sinto-me pesado. Carrego o lastro do meu passado, almejo
as alturas de um novo futuro: sim, porque o futuro muda constantemente, escorre-nos
entre os dedos mais célere do que o passado. Pretérito, presente e futuro
coexistem simultaneamente, vivemos nas interceções de linhas que atravessam o
espaço-tempo.
Uso todo o meu corpo para ascender: bastonadas fortes no
chão, apoiado sempre em dois pontos.
Terei sido vergado pela montanha, nos idos do verão de 2015,
em Chamonix? Aos 135 km ter-se-á quebrado algo frágil dentro de mim?
Sobe Luís, sobe… tens 1h45 para chegar aos 8,5Km…
Ao meu redor outros se animam. Não cesso de me maravilhar
com a irmandade que se sente entre todos estes guerreiros da falange do inútil.
Corremos em direção ao nada, que é onde iremos todos acabar no final. Todos
temos a derrota como certa, e todos temos por certo que a única forma de
redimir essa derradeira derrota, transformando-a numa esplendorosa vitória, é
percorrendo o caminho de fronte erguida, coração cheio e um sorriso louco nos
lábios.
Chego ao abastecimento. É o primeiro Oásis. Estou bem dentro
do tempo. Todos estamos imersos neste tempo que nos sublima e transforma.
Bebo, como, respiro. De cada vez que os pulmões se enchem
sinto o fremir da pele, a excitação da cavalgada.
Próxima etapa.
Dezoito anos: o nascimento da coisa mais bela do mundo. Saiu
forçado do ventre de sua mãe, como se adivinhasse que o mundo era um local
violento e sentisse necessidade de provar logo ali que nunca cederia sem uma
rija luta. E o meu coração rasgou-se de alto abaixo, inundado pelo sentimento
mais puro e cintilante que existe.
Passo pela Barragem do Rossim, um dos locais mais idílicos à
face deste nosso maravilhoso planeta. Subo para o planalto da Serra. Vou ter
que o percorrer até perto da Garganta de Loriga, onde nos enviam numa desfilada
cega para o desconhecido da descida até ao Covão d’Ametade. Essa descida é
feita sobre grandes calhaus onde não se consegue correr. Progride-se devagar e
com dificuldade.
A noite anterior, um misto de animação, convívio e troca de experiências, com a família RUN 4 FUN. Todos temos pelo menos duas famílias, a da carne e a da escolha, que escolhemos e que nos escolhe. E que boa escolha esta foi. Amizades forjadas pelas dificuldades ultrapassadas em conjunto permanecem para a vida, mesmo se a pessoas perderem o contacto, a ligação mantem-se.
O abastecimento do Covão, num belíssimo parque natural. 28
Km. O meu corpo já renasceu várias vezes. As dores que tive já desapareceram e já
outras as substituíram. Estou sensivelmente a um terço da aventura. A
experiência segreda-me ao ouvido que apenas tenho que abraçar cada pontada,
cada músculo maçado, cada ínfima sensação, reciclando-as continuamente, para
que o corpo se renove e renasça em cada etapa.
2016, os 105 Km do Ultra Trail Atlas Toubkal, em Marrocos. A
chegada ao abastecimento do quilómetro 60, completamente desgastado e
questionando-me como poderia continuar… A enorme batata cozida que me salvou a
vida. Comer, comer bem e beber sempre. Mesmo um Jedi precisa ter acesso direto
à fonte da força…
A brutal subida novamente para a Garganta de Loriga… 700 mD+
bem duros e desgastantes, feitos em apenas 4 km.
A chegada ao abastecimento onde sou envolvido pelo carinho,
atenção e incentivo do Rui e da Sandra, com a sua alegria e enorme
generosidade. Dão ao próximo, que neste caso sou eu o feliz contemplado, o que
têm de mais precioso: o seu tempo.
Cheguei às 12h20, a cerca de 40 minutos do tempo de corte.
Tenho que estugar o passo. É muito arriscado.
Parto para a descida, o quilómetro vertical para Loriga. É
dos percursos mais bonitos da Serra e preenche-nos de espanto pela enorme
beleza e brutalidade da Natureza.
Descer pode ser tão ou mais duro do que subir, mas com o
apoio dos bastões e da paisagem, vou progredindo com alacridade.
Está imenso calor. Vou enfiando a cabeça dentro de água
sempre que posso.
Loriga divisa-se lá ao fundo, como uma miragem. Após um
tempo interminável chego ao estradão. Agora é um percurso rápido, a trote largo,
até ao abastecimento.
Chego, sento-me. 40 km. Como sofregamente uma sopa morna.
Encho-me de aletria, tomate, sal, pão com mel, enfim, tudo aquilo a que posso
deitar mão. O que me vale é que tenho o estomago forte.
Grand Raid des Pyrenées, 2013. Na subida para o Pic du Midi,
o flask cheio de coca-cola e a acidez no estômago que aí se instalou. Não mais.
A alimentação é o mais importante. Não ceder às tentações. Ingerir apenas
aquilo que é favorável.
Ganhar coragem. Sair. Agora são 11 km até ao Alvoco, sob o
sol severo. É um percurso sem história. Faz-se bem. Às 15h55 estou no abastecimento.
Não tenho fome, apenas uma imensa sede. Obrigo-me a ingerir algumas calorias. A
subida para a Torre vai pesar. É necessário um bom aporte de energia.
Vários amigos trocam de roupa no abastecimento. Resolvo não
mudar nada. O que trouxe é o que levo. Por precaução encho os dois flasks e o
depósito da mochila. Levo dois litros de água comigo.
Dois anos antes: o mesmo calor, semelhante dureza, uma alma
quebrada. Toda a diferença. Pela primeira vez, desde a Ultra inicial, em maio
de 2010, lanço o tapete ao chão. Sinto-me destroçado. Cada bocadinho de mim lentamente
arrancado pedaço a pedaço pela inclemência da Serra. Durante os próximos dois
anos irei provar o sabor amargo da dúvida: serei novamente capaz, ou estarei
acabado?
Uma parte significativa da minha identidade forjou-se e
consolidou-se neste desporto. Ainda só tenho 9 anos disto, mas é como se fosse
uma vida inteira.
Terei que percorrer o caminho das pedras. Dois anos a
recuperar. Dois anos a sonhar. Dois anos de espera.
Saio do Alvoco com uma hora de avanço em relação ao tempo de
corte. Não posso deixar margem para imponderáveis. A subida é simultaneamente
magnífica e atroz. Se estivesse a subir para o próprio Olimpo não sentiria um
maior espanto e respeito. A encosta está completamente exposta ao sol
inclemente e este pesa-me sobre os ombros. Por cada meia hora de progressão
exasperante de tão lenta, a uma velocidade paquidérmica, paro um minuto para
recuperar as forças e observar a esplêndida paisagem. O cosmos é mesmo um local
magnífico, único e precioso.
Animo-me com o pensamento de que já progredi mais do que
dois anos antes. E tenho uma certeza férrea de que se chegar ao topo dentro do
tempo, serei capaz de chegar ao fim da aventura. Transbordo a mente de
fantasia. Cada passo é uma luta contra um dragão. Cada batimento de coração gera
um novo universo.
Inexoravelmente vou subindo. Projeto o sorriso dos meus
filhos na tela da minha mente. Ouço o barulho ritmado e calmante das ondas do
mar distante. O ritmo carrega-me para cima.
Ao fim de quase 3 horas de contínuo e lento martelar no
chão, completo os 6 km com 1200 mD+ desta etapa, e chego finalmente à Torre e
ao enorme alívio do abastecimento. Se isto não é um Oásis no deserto, então não
sei o que é. Todas as dúvidas se dissipam. Aqui renasço para uma nova vida. Aqui
bebo de uma nova fonte. Agora estou certo de terminar. Dobrei o meu Cabo das
Tormentas. Não há Adamastor que me pare. Que local tão apropriado para a
renovação da minha alma: o ponto mais alto de Portugal.
Sou prestimosamente atendido pelo meu amigo Paulo Jorge.
Como a sopinha da praxe. Parto com a alma renovada. Agora é descer. Troto e
corro. Avanço rapidamente. Sinto-me como se tivesse agora começado a prova.
Está muito mais fresco. O sol está prestes a desaparecer no horizonte.
Após 8 quilómetros chego ao abastecimento na Casa do Vale Glaciar.
67 Km. Os voluntários oferecem-me parte do seu almoço, que aceito com agrado e
sem cerimónias: atum com tomate. Sabe-me que nem ginjas.
Coloco o frontal, pois o anoitecer cai rapidamente. Subimos
em fila para os Poios Brancos. A subida é curta e chegamos rapidamente ao alto.
Agora o terreno torna-se fácil, percorremos um estradão em trote veloz. Após
cerca de 5 km chegamos ao abastecimento mais divertido onde alguma vez parei.
Os voluntários têm minis a arrefecer num pequeno tanque de pedra. Já devem ir
bastante adiantados nessa outra ultra da cerveja, pois o estado de hilaridade
geral é evidente. Oferecem-me uma mini, que prontamente aceito. Não como nada.
Basta-me esta cerveja para acalmar o meu estômago massacrado.
Saio para a noite e para a última etapa de 12 km. O tempo
está dominado. Vou ter que descer até ao Poço do Inferno, mais uma apta
metáfora para as curvas recentes da minha vida. E depois subir novamente uns
curtos 350 mD+ para finalmente descer para o derradeiro destino.
A descida e subida inicial é feita sobre o abismo negro. A
orientação não é possível. Subo e desço e volto a subir e descer. Não tenho
qualquer noção de quando isto terminará. Mas sei que irá terminar bem. Na
verdade, não será um términus, mas sim um novo inicio, estou certo disso.
E finalmente diviso as luzes de Manteigas ao fundo do
estradão. Desço rapidamente, entro na cidade. Deparo-me com o João, que me acompanha
e indica o caminho para a meta. Como fiquei feliz ver o seu rosto e logo de
seguida os rostos dos meus outros companheiros!
Ana, António, Isabel, João, Luís, Marina, Nuno, Rui, Rute,
Sandra. São um poema, um hino à amizade e solidariedade humanas.
Sinto-me revigorado, capaz de mover montanhas! Enquadrado
por esta moldura humana, corro para a meta, que finalmente atravesso ao fim
dois anos, dezoito horas e dezanove minutos.
A emoção é grande, mas vivo-a internamente, com placidez.
Foi sobretudo isso que esta aventura reforçou em mim: uma reconfortante paz
interior.
Uma coisa em que acredito profundamente: na vida é
necessário ter muitíssima determinação para atingirmos os nossos objetivos. É fundamental
acreditar, de forma sustentada, que iremos conseguir, mesmo se tenhamos muitos
momentos de dúvida. E é essencial ter objetivos para que a vida valha a pena.
E temos que percorrer a vida com entusiasmo. A fantasia
(imaginação) é muito, muito, muito importante. Não são as coisas em si, mas
aquilo que colocamos nelas, que é fundamental. Na verdade, é tudo produto da
nossa imaginação. Mesmo a forma como percecionamos a "realidade",
como a vivemos, como lidamos com ela. Acredito que temos muito mais liberdade
do que aquela que julgamos ter. Dentro da nossa cabeça temos a possibilidade de
criar mundos.
E temos a possibilidade de conduzir as nossas emoções em
lugar de nos deixarmos dominar por elas. Necessita muita aprendizagem, mas é possível.











