O que vivi merece ser escrito, para me lembrar que vivi
- Pedro Paixão
Embarcar
Sentado imóvel na laje do cais, vejo os veleiros saírem da barra e em cada um desejo embarcar. Sonho a viagem para destinos desconhecidos, vagamente adivinhados. Há qualquer coisa de indefinido no horizonte azul do mar que me atrai. Qualquer coisa de novo e de ameaçador. Qualquer coisa de imprevisto e excitante lá longe onde os mastros se afundam. E vou vendo, e sonhando... Sinto a brisa salgada acariciar-me o rosto trazendo a promessa de vento e tempestade. Sonho o içar da vela de Estai na proa do navio, exposto à borrasca O caçar da Genoa nos molinetes ou rizar a vela Mestra Ou navegar à orça fechada para onde o vento me levar E vou vendo, e sonhando... Entretanto vejo correr os dias na anónima e monótona passagem das sequências digitais, que vêm de lado algum e para lado nenhum se dirigem E sinto crescer dentro de mim um grito que não consigo apagar E vou vendo, e sonhando... (a angústia da influência: Pessoa já escreveu tudo o que havia para escrever)
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
- Mário Cesariny, in 'Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano'
Chegou a hora de fazer o habitual rescaldo, ou post-mortem, da prova.
Sendo cientista de formação e engenheiro de profissão, e tendo o fetiche dos números, não resisto a usar tabelas e gráficos para fazer a análise.
Mas primeiro começo pela informação generosamente coligida pelo Orlando Duarte.
As seguintes palavras são da sua lavra:
«
Ronda Dels Cims 2019
Uma Ultra em Trilhos à volta de todo o Principado de Andorra, através do
ponto mais alto, o pico de Comapedrosa a 2942 m, ao longo da fronteira. Sob a
lua cheia durante os dias mais longos.
170 km com 13.500D+
Partida do centro de Ordino
16 picos acima dos 2400 m
Altitude média: 2,085 m
Percurso por zonas panorâmicas de alta montanha alternando por zonas rochosas e glaciares, pradarias de alta montanha e bosques
Algumas secções totalmente em cumes rochosos
13 estações de ajuda (abastecimentos)
451 Inscritos: 418 homens e 34 mulheres / 7.5%
335 veteranos: 309 homens e 26 mulheres / 7.8%
116 seniores: 108 homens e 8 mulheres / 6.9%
32 países
ARMADA LUSA na RONDA DEL CIMS 2019
35 portugueses: 33 homens e 2 mulheres / 5.7%
Ana Paula Santos
André Castro
António Arede
António Pinto
António Soares
Armando Teixeira
Bruno Fernandes
Carlos André
David Quelhas
Diogo Simão
Flávio Francisco
Gil Rocha
Gonçalo Valente
Gustavo Pessa
Hélder Pinto
Hugo Brito
Jennifer Alves
João Borge
João Miguel Quintal
Luis Carmo
Luis Matos Ferreira
Luís Oliveira
Luis Onca
Luís Ribeiro
Marco Filipe
Nélson Sousa
Nuno André
Paulo Alves
Paulo Ferreira
Paulo Gil
Pedro Batista
Salvador Oliveira
Sergio Freitas
Telmo Dourado
Vitor Pereira
ARMADA LUSA na RONDA DEL CIMS
170 KM / 13.500D+
35 inscritos
32 à partida: 30 homens e 2 mulheres
20 Finalistas: 19 homens e uma mulher!
Bravo, Campeões!
A Ronda Del Cims começou em 2009 com 90 km e 5500D+
O vencedor foi o grande Kilian Jornet.
Teve 254 Finalistas e nenhum era português. Embora Pedro Basso estivesse na
linha de partida.
Em 2010 passa para 112 km e 9700D+. Tem 98 Finalistas e não há registo de
participação portuguesa.
Em 2011 passa para as míticas 100 milhas e tem 46 Finalistas. Neste ano
começa a participação regular da Armada Lusa. Tem um único Finalista português:
João Hora Faustino. Célia Azenha e Jorge Serrazina
desistem nesta edição.
De 2011 até 2019 esta prova teve 1325 Finalistas, entre os quais há 49
portugueses, e neste particular há que destacar a presença feminina de Ana Paula Santos.
Perdoem-me a imodéstia, mas já tenho dez anos disto e começo a conhecer-me muito bem.
Eis o primeiro gráfico:
O que este gráfico representa é a diferença, de tempo na progressão no terreno, entre o tempo que resultaria de uma velocidade média constante (neste caso de 3 km/h) e o tempo real que decorreu no terreno.
O que salta à vista é que até ao km 130 tive sempre uma margem confortável de mais de 3 horas de avanço. Essa margem começa a perder-se com a segunda noite, no troço muito complicado entre Pas de la Casa e Inclés, e depois esboroa-se completamente com o descanso de duas horas e meia em Inclés. De Sorteny até Ordino volto a recuperar terreno, o que significa que ainda tinha alguma folga para fazer este troço rolante a trotar.
Este tipo de curva está muito bem ilustrado (como sempre) pelo Luís Sommer Ribeiro, numa das suas crónicas do Sr. Ribeiro:
«Regra dos 30%
O cansaço não é proporcional mas exponencial.
Esta frase malandra e estranha com que explicamos as dificuldades nas
ultras parece difícil de compreender, por isso vou explicar sem ser com a
corrida.
Os jogos de rugby decidem-se nos últimos 20 minutos (25% do tempo).
Qualquer jogo a sério, por maior que seja a diferença entre as equipas
em campo, mantém-se mais ou menos estável até aos 60 minutos. Quem não
está por dentro do desporto até julga muitas vezes estar a ver uma
surpresa.
Aos 60 minutos somos atingidos com o duro martelo da verdade e a melhor equipa vai-se embora.
Claro que há excepções, mas a regra é esta.
Jogos que acabam com diferença de 50 pontos, chegam a estar renhidos aos 60 minutos.
60 minutos de sonho, 20 de realidade.
Nas ultras acontece exactamente o mesmo.
Conseguimos preparar os primeiros 66%, sabemos que nos restantes 33%
seremos confrontados com a realidade da nossa forma e como isto da
matemática não é retórica ainda falta 1% para lidarmos como
conseguirmos.»
Eis aqui um gráfico sememlhante, da minha prestação no UTMB em 2015:
Nota-se que tive uma quebra brutal a partir de Champex.