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domingo, 28 de julho de 2019

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - 3º dia.







Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
 - Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"









De Inclés até à meta faltam apenas 27km.

Vamos ter que ultrapassar a Cresta de Cabana Sorda e a Collada Meners.

Saio da tenda. Cá fora está fresco mas não demasiado. Ainda bem, porque tenho ainda duas subidas tramadas para fazer, e se estiver calor será muito pior.

Entretanto uma urgência repentina se instala. É a chamada da natureza. No entanto não vislumbro qualquer local onde possa existir algum recato a fim de cumprir sossegadamente essa função. Também não posso aguardar, que a urgência é grande.

Onde fazer?

O campo é quase completamente descoberto, e do lado oposto do trilho existe um parque de campismo.

Estou num dilema. Ou fico visível para o trilho ou fico visível para o parque de campismo. A escolha acaba por ser fácil. Os veraneantes não conheço nem voltarei a ver. No trilho poderá passar gente conhecida.

E assim cumpro a função, que há coisas que não se podem evitar.

Sinto-me muito melhor. Volto ao trilho e começo a subir vigorosamente. Esta horita de sono fez milagres por mim. Esta madrugada quando cheguei ao abastecimento parecia morto, incapaz de dar sequer mais um passo. Agora estou ótimo! As pernas respondem, não sinto dores. Maravilha!

Agora tenho por fim a certeza absoluta de que chegarei ao fim, dentro do tempo limite.

Há que subir 8000 mD+ até chegar à Cresta de Cabana Sorda.
Se não tivesse repousado, não sei bem como seria capaz de fazer isto. Talvez fizesse, mas muito mais lentamente.

















A subida é longa, mas o ânimo também é grande.

Às 10h18 chegamos ao Refugi Coms de Jan, km 150. Estou na 158ª posição, após 51h18 de prova.

Nunca tinha estado tanto tempo em prova. Nem sequer nos 215 km do VCUF.

Até aqui a velocidade média é de 2,9 km/h.

Faltam-me cumprir 20 km até à meta

No refúgio alimento-me bem como de costume.

No entanto tenho um percalço caricato.

Vejo umas mini-sandes de queijo dentro de um recipiente e estendo a mão para ir buscar uma. A voluntária impede-me dizendo que há mais na mesa e estes ainda estão em preparação. Removo a mão, só que entretanto já tinha tocado ao de leve numa das sandes.

Ela diz-me que então mais vale comer aquela, uma vez que já lhe tinha tocado. Encho-me de espanto.

Ela de facto não deve fazer ideia do que é uma prova de trail. Todos os alimentos que estão em cima da mesa já terão sido tocados por inúmeros atletas. Sobretudo os frutos secos que são recolhidos à mão-cheia.

E saberá ela onde já estiveram as mãos de todos estes camaradas? Os locais onde aplicaram vaselina? Numa prova, esse tipo de considerações de higiene vão pela janela. O que queremos é ingerir calorias e nutrientes que nos levem até ao próximo abastecimento. O resto não interessa para nada.


Mas voltemos à história.

A próxima subida são cerca de 400 mD+ até Collada Meners.









Chego à Collada Meners.

Pronto, as subidas estão feitas. Resta apenas descer para Ordino, passando pelo Refúgio de Sorteny. 













Chego a Refugi de Sorteny às 13h24, após 54h24 de prova.

Estou em 154º lugar.

Está imenso calor.

Como fruta e refresco-me. 

10 minutos depois de chegar, estou sentado dentro da cabana, a preparar-me para prosseguir, quando assoma à porta a cara sorridente da Sandra!

Não estava nada à espera de a ver por aqui. Contava que me fossem receber mais abaixo, mas no último abastecimento não.

Foi uma enorme alegria! E logo a alegria duplicou quando apareceu também o Rui. Perguntaram-me como estava, se precisava de algo, e disseram-me que eu era o seu herói.

Se eles não tivessem aparecido, possivelmente eu faria os últimos 12 km a andar. Mas o ânimo que me incutiram fez com que conseguisse um trote razoável.

Fui-os revendo em mais pontos adiante, juntamente com a Carla, o António, O Jorge, a Elsa, o Gonçalo. Animaram imenso este último troço.























E pronto, terminei os 170 km & 13.500 mD+ de Ronda dels Cims em 57:00:34 (3 km/h), ladeado pelos meus amigos e companheiro de equipa do RUN 4 FUN.

Há lá maior felicidade?





































Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - 2ª noite.





Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.

- Álvaro de Campos



When you're climbing at high altitudes, life can get pretty miserable. 

- Edmund Hillary









Esta segunda etapa de noite é a mais temida.

Tenho que subir cerca de 700 mD+ até Pas de les Vaques e depois descer outro tanto até ao abastecimento de Inclés.




A subida é muitíssimo dura. É ladeada por um ribeiro, e a água cai por todo o lado, deixando o terreno encharcado. E para aumentar a dificuldade, quase não há trilho. O terreno é composto por tufos de erva, e montes de arbustos que dificultam imensamente a progressão. Para mais, de noite torna-se difícil identificar que caminho tomar.











Mas ao fim de um tempo interminável, lá chego a Port Dret, no alto. Depois é praticamente plano até chegar a Pas de les Vaques.

Aqui tem início a descida para Inclés.














Após uma descida que nunca mais acabava, chego por fim ao abastecimento de Inclés, no km 143.

São 04h44, e demorei 05h16 a fazer os últimos 13 km, ou seja 2,3 km/h, lento, lento, lento...

Estou em 130ª posição.

O tempo de corte aqui é às 12h00. Tenho 7 horas de folga.

Entro na tenda. Existem 5 camas de campanha a ocupar um dos lados da tenda. Resolvo imediatamente deitar-me numa delas.

Estou exausto. Mesmo que não consiga dormir, tentarei descansar. Tenho medo de ficar completamente trôpego devido à imobilidade, mas tenho que arriscar.

E também não tenho vontade nenhuma de fazer sequer mais um km de noite.

Tapo-me com um cobertor exíguo. Ao fim de pouco tempo estou a tremer de frio. A humidade infiltra-se pela rede da cama e entra-me pelas costas desprotegidas. Tenho que vestir qualquer coisa e embrulhar-me o melhor possível no cobertor, mas no início tenho preguiça de o fazer. Faço lembrar um daqueles montanhistas no Everest, que vão congelando devagar, mas que não têm já forças sequer para se protegerem.

Ao fim de cerca de uma hora, lá visto tudo o que tenho, impermeável incluído e enrolo-me no cobertor como cachorro quente.

Olho para o relógio: são 06h00 da madrugada. Da vez seguinte que olho já são 07h00. Devo ter passado pelas brasas. Uma horita a dormir! Nada mau. Nunca antes tinha conseguido fazer isto. Devo estar mesmo cansado. Também já estou em prova há 48 horas.

Custa-me imenso a sair do quentinho. Levanto-me e vou tomar o "pequeno-almoço" embrulhado no cobertor. A refeição é o costume: sopa consistente, fruta, frutos secos, coca-cola, etc.

Às 07h18 lá consigo sair da tenda, para o fresco da manhã. Estive 2h30 a repousar neste abastecimento.





Vamos para o último dia de prova. Já está quase!













Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - 2º dia.






Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

- Álvaro de Campos











Voltando à prova: mais uma vez não me detive muito tempo no abastecimento (Comma Bella). Apenas o essencial para comer a sopa, o melão, a melancia, os frutos secos e o presunto.

Saí para a rua em direção ao Pic Negre. Irão ser 1.300 mD+ em 11 km, até lá chegar










O abastecimento intermédio é em Roca de Pimes, no km 94.

É um abastecimento simples. Como apenas o necessário para me manter funcional.

Sobretudo atestar os flasks com água. O calor está-se a tornar insuportável.









As vistas do Pic Negre são deslumbrantes. As montanhas e vales de Andorra a perder de vista. Só por isso já vale a pena subir até aqui.








Agora iremos descer uns 400 mD- até Coll de la Caulla, para depois virarmos à direita em direção ao refúgio de Prat Primer.













O refúgio de Prat Primer é mais um pormenor maquiavélico. Quando se está a descer e à distância se lobriga a casa de pedra, ficamos convencidos que o abastecimento de Claror é já ali, e damos um enorme suspiro de alívio.

Quando lá chegamos e sofremos a amarga desilusão de verificar que é apenas um ponto de água, e que teremos que subir mais uma barreira enorme de calhaus, com 300 mD+, até ao cimo, no Coll del Bou Mort.











Depois será um km a descer até ao refúgio de Claror








Chego a Claror às 13h39. Estou em prova há 30h39 e percorri 105 Km. Ou seja, uma média de 3,4 km/h.

Ainda me sinto bem, embora muito mais cansado do que no primeiro dia. Vai-se notando no abrandamento do ritmo.

Estou agora na 107ª posição, a melhor que irei atingir durante toda a prova. A partir daqui será quase sempre a perder posições.


No ano passo não estive na prova, mas tive cá muitos amigos que tiveram a infelicidade de serem barrados neste ponto devido às condições meteorológicas, que obrigaram a organização a cancelar a prova.

Felizmente este ano o tempo está bom. Mesmo a temperatura não está demasiado elevada, apesar do calor se fazer sentir. Poderia estar muito pior.






















Agora entramos no Vale de Madriu (puta que o pariu... como dizia um amigo).

Aliás, não resisto a transcrever parte de um post de um colega atleta, pois achei-lhe imensa graça:

"Mitic AUTV 115k 9700D+ com passagem por ordenha, cortinado, bordas do prato, portas da sanfona, colo da boa morte, colada com perafita, Boné da piça, vale Madriu puta q o pariu, pico de comadrosa , marçaneta e outros terrinhas q não lembra ao diabo. Subir, descer, rir e chorar, transpiração e muita ranhoca. A ver se conseguiremos almoçar em Ordino no próximo Domingo!"
- Luís Álvaro

Almoçar em Ordino no domingo não me parece que seja possível para mim.













Em Estall Serrer há um ponto de controle onde me dão água. Há vários atletas com as pernas enfiadas dentro do rio. Na maioria são da Prova de 115 Km, o Mític. Essa prova cruza-se com a nossa em vários pontos do caminho.


Após reabastecer de água, sigo adiante. Dizem-me que irei ter uma subida com 600 mD+ até ao abastecimento de Refugi Illa.

Após 2 km começo a sentir-me extremamente cansado. O calor e a fome lentificam os meus passos. Sinto uma vontade irresistível de me deitar debaixo de uma árvore e lá ficar umas horas a descansar.

Tento combater essa sensação. Ingiro dois geis com cafeína. Procuro um sítio onde me refrescar. Ao fim de alguns kms estou ao lado do Riu dels Orris. Enfio-me debaixo de uma cascata totalmente vestido.

Estas duas ações têm o condão de me reanimar. Consigo voltar a andar a um bom ritmo.











Chego ao Refugi Illa com um bom avanço sobre o tempo de barramento, que neste ponto é às 02h da madrugada. Ainda é de dia e com um pouco de sorte conseguirei chegar à 2ª base de vida ao anoitecer.

No entanto sinto-me exausto. Depois de me alimentar abundantemente, necessito estender-me na erva. Este abastecimento é apenas um tenda exposta ao vento, sem camas.

Deito-me com muito cuidado para não ter alguma caimbrã. As minhas pernas estão exaustas.

Os meus pés massacrados e a sola completamente enrugada por estar permanentemente molhada.
Não consigo secar os ténis e as meias.

Aplico um pouco de vaselina, mas não estou muito confiante pois os pés voltam a estar molhados.


Ao fim de um bocado a olhar para o céu, decido-me a levantar-me. Custa-me horrores. Faço-o muito lentamente. Estou de pé. Equipo-me. Dou o meu primeiro passo hesitante na direção do trilho.

Aqui vou eu a tentar recuperar a mobilidade dos músculos. Felizmente tenho os bastões para me apoiar.

Os bastões são os meus maiores amigos. Tornaram-se uma segunda natureza. Uso-os para subir, para descer, para correr em plano, para caminhar, para me apoiar, para tudo.













Agora vamos ter que transpor duas passagens, a Portella Blanca e o Col dels Isards.

Na Portella Blanca sou recebido por um voluntário português do mais entusiasta que vi até hoje. O homem fala, fala, fala. Aprecio o momento caloroso, mas tenho que me por a andar.








Chego ao topo ainda de dia, mas já no lusco-fusco. Ainda não precisei ligar o frontal.

De seguida vou enfrentar a descida para Pas de la Casa.

Todos os relatos são concordante em afirmar que é uma descida tramada, escorregadia e com muita pedra. Confirmo, mas não me custa assim tanto. O importante é que já se vêem as luzes de Pas de la Casa na distância, lá no vale.













Em Pas de la Casa está a 2ª base de vida.

Chego lá já de noite, às 22h38. Estou em prova há 39h38 e já calcorreei 130 km. Ainda não cheguei ao meu recorde de tempo no terreno, mas está quase.

À entrada estou na 127ª posição.

A minha média de velocidade até aqui foi 3,3 km/h.

Esta é a 4ª barreira horária, depois das 10h em Coma Arcális, das 26h em La Margineda, e das 43h em Refúgi Illa.

Aqui sou obrigado a sair antes de serem 8h da manhã. Não há perigo. Faltam mais de 9 horas. A última verdadeira barreira horária é no próximo abastecimento, Incles Baladosa, no km 143. E eu estou decidido a não descansar enquanto não chegar lá, mesmo que tenha que arrostar com uma segunda noite sem dormir.


Tal como no UTMB, falta vencer "apenas" os 3 últimos gigantes: Pas de les Vaques, Cresta de Cabana Sorda, Collada Meners.




A cabana de madeira onde se localiza o abastecimento está extremamente quente. Vejo-me forçado a por-me em tronco nu.

Faço tudo com muita calma. Ingiro mais uma daquelas sopas consistentes. Como melão, melancia, presunto, etc.

Peço o meu saco com o intuito de trocar apenas as meias, mas reparo que coloquei no saco duas meias do pé direito. Troco apenas uma, depois de passar vaselina pela planta do pé. Nestes postos existem podólogos e enfermeiros, mas não quero perder tempo em tratamentos.

Troco as pilhas do frontal.

Ao fim de 50 minutos, saio para a rua, vestido com uma camada interior e o impermeável por fora.

À saída sou o 116º classificado.

Ainda dentro da cidade, removo o impermeável. Mal se começa a andar depressa, o corpo aquece logo.

Está noite cerrada.





Vou ter que atravessar mais esta noite para desaguar num novo dia. E com um novo dia, uma nova esperança. Vamos ver como vou enfrentar os meus demónios nesta segunda noite...