Entre a pedrinha e o caminho

Uma pedra com uma paisagem de montanhas na sua superfície, junto de um caminho que serpenteia em direção ao mar.

Ao longo da minha vida, houve sempre uma tensão entre a contemplação e a ação. Enquanto me demorava numa pergunta, havia alguma coisa por fazer. Enquanto fazia, havia alguma coisa que gostaria de compreender melhor. Ambas reclamavam tempo, e o tempo que dava a uma já não estava disponível para a outra.

A minha curiosidade levou-me a mudar frequentemente de objeto de estudo. Biologia, física, gestão, história, engenharia: cada domínio abria um mundo, com as suas perguntas, os seus instrumentos e as suas maneiras de olhar. Entrar num deles era descobrir quanto havia ainda para aprender. Entretanto, outro começava a chamar por mim.

Reconheço-me nesta passagem de Um, ninguém e cem mil, de Luigi Pirandello:

Não é que, atenção, a minha vontade se opusesse a seguir as vias para as quais o meu pai me encaminhava. Seguia-as todas. Mas, avançar por elas, não avançava. Detinha-me a cada passo; punha-me, primeiro à distância e depois cada vez mais perto, a girar em volta de cada pedrinha que encontrava, e admirava-me assaz de os outros serem capazes de me passar à frente sem fazer caso daquela pedrinha, que para mim, entretanto, tinha assumido as proporções de uma montanha insuperável, ou, melhor, de um mundo em que poderia facilmente ter fixado residência.

Assim ficara, parado nos primeiros passos de tantas vias, com o espírito cheio de mundos, ou de pedrinhas, que é a mesma coisa. Mas não me parecia, de todo, que aqueles que me tinham passado à frente e percorrido toda a via, ao fim e ao cabo, soubessem mais sobre ela do que eu. Tinham-me passado à frente, não se põe isso em dúvida, e todos braveando como cavalinhos; mas depois, ao fundo da via, haviam encontrado um carro, o seu carro; tinham-se deixado atrelar a ele com muita paciência, e agora tiravam-no. Eu não, não tirava carro nenhum; e por isso não tinha bridas nem antolhos; via, sem dúvida, mais do que eles; mas no que toca a andar, não sabia para onde.

— Luigi Pirandello, Um, ninguém e cem mil

Conheço essa demora. Uma pergunta aparentemente pequena pode ocupar muito espaço. Começamos por querer esclarecer um detalhe e, pouco depois, estamos a interrogar os pressupostos de toda uma explicação. A atenção tem esta capacidade de aumentar as coisas. Aquilo que parecia simples à distância torna-se difícil de abandonar quando começamos a vê-lo melhor.

Mas a minha identificação com o narrador de Pirandello tem um limite. Também percorri caminhos.

Viajei bastante desde jovem. Depois dos trinta anos, tive uma vida desportiva muito ativa: natação em águas abertas, corrida de estrada, trail, triatlo, swimrun. Participei na fundação e na direção de uma associação de trail running. Houve movimento, decisões, compromissos. Houve coisas que fiz com outras pessoas e cuja existência deixou de depender apenas da minha vontade de continuar a pensar nelas.

Quando olho para este percurso, encontro tanto o homem que se demora diante da pedra como aquele que quer saber aonde vai dar o caminho.

É tentador arrumar estas duas disposições numa história coerente. Dizer que o estudo preparava a ação e que a ação alimentava o estudo. Há certamente momentos em que isso acontece. Mas essa explicação deixa de fora a disputa. Uma vida tem espaço para interesses diferentes; não tem tempo ilimitado para lhes dar a atenção que todos parecem merecer.

Mudar de objeto de estudo traz a alegria de começar a ver de outra maneira. Traz também a consciência do que ficou por aprofundar. A cada novo interesse, os anteriores continuam a existir. Não deixam de ser interessantes só porque nos afastámos deles.

Agir exige outro tipo de escolha. É preciso decidir com o conhecimento que temos, aceitar que alguma coisa ficou por esclarecer, dar um passo cujas consequências ainda não conhecemos inteiramente. Quando há outras pessoas envolvidas, essa exigência torna-se mais concreta. A nossa hesitação também ocupa o tempo dos outros.

Há uma pergunta que me acompanha nesta tensão: quando é que a reflexão está a tornar uma decisão melhor, e quando é que está apenas a adiá-la?

Não tenho uma resposta que sirva para todas as situações. Desconfio de quem trata qualquer demora como fraqueza. Há decisões que merecem mais atenção do que aquela que lhes damos. Mas também desconfio da facilidade com que podemos atribuir profundidade à nossa dificuldade em escolher. Uma pergunta pode precisar de tempo; pode igualmente oferecer-nos um lugar confortável onde permanecer.

Pirandello torna esta ambiguidade particularmente incómoda. O seu narrador considera que vê mais do que os que passaram à frente e acabaram atrelados aos seus carros. Talvez veja. Mas também admite que não sabe para onde andar. A liberdade de não estar preso a um destino pode coexistir com a dificuldade de dar um destino à própria liberdade.

É aqui que ganha sentido, para mim, a vontade de criar um lugar onde as pessoas possam pensar pela própria cabeça. Um lugar com tempo para uma pergunta amadurecer, onde mudar de opinião não seja uma derrota e onde discordar não obrigue a deixar de conversar.

Imaginar esse lugar é já enfrentar uma dificuldade: que organização permite a liberdade de pensamento? Seria preciso encontrar um ritmo, cuidar da conversa, dar espaço a quem demora mais a falar. Seria preciso aceitar que nem todos chegariam à mesma conclusão, e que algumas conversas terminariam sem conclusão nenhuma. Ainda assim, alguém teria de marcar o encontro e abrir a porta.

As palavras de Alexandre O’Neill, em Há Palavras que Nos Beijam, acrescentam uma dimensão que não gostaria de perder. As palavras podem tocar-nos antes de sabermos explicar o que fizeram. Uma frase interrompe a leitura, fica connosco, regressa anos depois. Também assim encontramos as nossas pedrinhas.

Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

— Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca

Por isso, esse lugar teria de acolher mais do que argumentos. A literatura permite-nos permanecer numa experiência sem a reduzir imediatamente a uma tese. Uma imagem pode dar forma a uma inquietação que ainda não sabemos formular. O próprio texto de Pirandello faz isso por mim: oferece uma figura em que reconheço uma parte do meu percurso, e contra a qual consigo pensar a outra.

Pessoa, no texto sobre a liberdade, leva-nos à dificuldade de viver os contrários:

Como Ser Livre

Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo - quando o homem se ergue a este píncaro, está livre, como em todos os píncaros, está só, como em todos os píncaros, está unido ao céu, a que nunca está unido, como em todos os píncaros.

— Fernando Pessoa, Teoria da Heteronímia

Leio-o como um convite a suportar aquilo que não encaixa facilmente. No entanto, mesmo quando conseguimos compreender posições diferentes, continuamos a ter de escolher o que fazer. O entendimento não nos dispensa dessa responsabilidade.

Talvez seja isso que ainda procuro: conseguir demorar-me sem perder inteiramente o movimento, e avançar conservando alguma atenção ao que fica à margem.

Continuo a encontrar pedrinhas que me fazem parar. Continuo a querer percorrer caminhos. Com os anos, tornou-se mais nítido o preço de cada escolha: quando avanço, deixo perguntas por responder; quando me demoro, há possibilidades que passam.

Gostava de um lugar onde fosse possível pousar uma dessas pedras sobre a mesa e olhar para ela em companhia. Onde houvesse tempo para descobrir o mundo que contém. E onde, a certa altura, alguém pudesse perguntar:

E agora, o que vamos fazer com aquilo que vimos?

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