segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E06






“A inteligência de um indivíduo é medida pela quantidade de incerteza que ele é capaz de suportar”
— Kant





4º Mesociclo



Tal como no  3º Mesociclo, este 4º Mesociclo foi cumprido de acordo com as expetativas e com o planeado. Consegui meter 4 semanas fortes, com distância e desnível.

















E o meu peso continua a baixar, de acordo com o plano:








As codições para o scucesso estão a ser reunidas.






segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E05





O impossível reside nas mãos inertes daqueles que não tentam.
- Epicuro




3º Mesociclo



Recapitulando aquilo que descrevi no meu post anterior: S02E04:


Desde que a 15 de Novembro me inscrevi novamente nos míticos 170 km de Ronda dels Cims, tive que delinear novamente um plano de treinos ambicioso para que não venha a sofrer da mesma desilusão de 2017.
O plano está relatado neste post: S02E02 e neste: S02E03.
Trata-se de cumprir 8 Mesociclos, compostos por 4 Microciclos de uma semana, cada um.
Os dois primeiros Mesociclos foram cumpridos, um pouco ad-hoc e sem grande planeamento, exceto pela vontade de fazer quilómetros e sobretudo desnível, que é o que verdadeiramente conta numa prova com 13500 mD+.
A fórmula que gosto de usar para aferir do volume do meu treino é aquela que foi definida pela ITRA e que conjuga a distância percorrida com o desnível subido: km-effort = Km + (mD+)/100




Este 3º Mesociclo (coluna preta) foi cumprido de acordo com as expetativas e com o planeado. Consegui meter 4 semanas fortes, com distância e desnível.











E o meu peso está a baixar, de acordo com o plano:




Agora há que permanecer nesta senda.

A preparação é condição necessária do sucesso.





segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

State of Flow







"In positive psychology, flow, also known colloquially as being in the zone, is the mental state of operation in which a person performing an activity is fully immersed in a feeling of energized focus, full involvement, and enjoyment in the process of the activity. In essence, flow is characterized by complete absorption in what one does, and a resulting loss in one's sense of space and time."

- Wikipedia


"You are in an ecstatic state to such a point that you feel as though you almost don’t exist. I have experienced this time and time again. My hand seems devoid of myself, and I have nothing to do with what is happening. I just sit there watching it in a state of awe and wonderment. And [the music] just flows out of itself."

- American Composer


"Ecstasy is essentially a stepping into an alternative reality."

- Mihaly Csikszentmihalyi


"An almost automatic, effortless, yet highly focused state of consciousness."

- Mihaly Csikszentmihalyi





"Flow" caracteriza-se pela concentração completa numa determinada atividade, que absorve todos os nossos sentidos, abafa a monitorização interna, e nos dá um sentimento de desaparecimento das fronteiras da nossa existência, como se deixássemos de existir.

Se há atividade que me coloca na "Zona", ou em "Flow", é a corrida, sozinho, na Serra de Sintra.

Frequentemente me perguntam no que penso, ao longo de 8 horas de treino consecutivo na Serra. A verdade é que na maior parte do tempo não penso em nada. Estou profundamente concentrado em tudo o que se passa à minha volta, no chão que piso, no assobiar do vento, no chilrear dos pássaros, nos odores das árvores, na dança ritmada das pernas. As fronteiras entre mim e o exterior desvanecem-se e eu deixo de existir como entidade separada e fundo-me com o universo.

É uma forma de meditação em movimento. Todas as preocupações se desvanecem. Consigo calar aquela vozinha interna, aquele grilo falante, verborreico e incessante. Sinto-me única e verdadeiramente feliz, extasiado.

Correr com companhia também é bom, mas de uma forma diferente. Aí sentimo-nos parte do grupo. Sozinho sinto-me parte da natureza. Fundo-me com o Cosmos.



Para ser feliz necessito de muito pouco:

  • Oportunidades para satisfazer a minha curiosidade e ser criativo (Paixão)
  • Correr na montanha e nadar no mar (Liberdade)
  • Família e amigos (Amor)

Tudo o resto é acessório.












domingo, 30 de dezembro de 2018

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E04







"All of the sons of Adam are part of one single body.
They are of the same essence.
When time afflicts us with pain
In one part of that body
All the other parts feel it too.
If you fail to feel the pain of others
You do not deserve the name of man."

Persian poet Saadi Shirazi (Persian: سعدی) ‎(1184 - 1283/1291?)



Penso que o que de mais fundamental a corrida nos proporciona é precisamente aquilo que está espelhado no poema de Saadi Shirazi: o sentido de irmandade que se atinge através do esforço e da alegria de superação partilhadas.
Correr faz-me sentir parte de uma corrente humana, de solidariedade, compreensão mútua e empatia.

E a vertente do Trail Running é aquela onde esse sentimento é mais forte e acentuado.

Quantos amigos já fiz em corrida pelas montanhas? Muitos. Mas, sobretudo, a qualidade dos laços que se forjam é única. Ultrapassar grandes dificuldades em conjunto deixa marcas para a vida. Num único (longo) evento, parece que se vive tanto quanto em meses de vida. Em intensidade, profundidade, alegria, dor, tristeza, exultação, sofrimento, euforia, abatimento, entusiasmo, desespero, júbilo, desalento, regozijo, desânimo, glória.

Para o Trail Runners, não há proveniência, estrato social, profissão, raça, etnia, nacionalidade, idade, género, orientação, pois o que se vê é uma pessoa com a mesma paixão (e para fazer Trail de forma sustentada é necessária paixão) e o que se sente é a irmandade dos elementos desta tribo.

É esta a principal razão que me mantém no Trail.

E por isso mesmo é que os últimos dois anos, em que pratiquei muito pouco esta minha paixão, me custaram muito mais do que poderiam ter custado. O Trail ameniza e relativiza tudo. Não há nada como estar na Serra ou na Montanha e sentir a brisa no rosto, o coração a pulsar, os pulmões a inflar e as pernas a moverem-se ritmadamente.

E a vertente competitiva também é significativa. O que há de mais natural nos seres vivos é serem competitivos. Está inscrito na matriz genética. Penso que todos nós necessitamos de nos medir contra uma referência qualquer, e essa referência pode ser o nosso próprio progresso, mas invariavelmente também será as marcas dos nossos pares, digamos o que dissermos. As pessoas passam demasiado tempo a negar a sua própria natureza. É uma perda de tempo. O que se deve fazer é abraçar essa natureza e orientá-la para fins úteis e produtivos.

Pode parecer que a prática da corrida não obedece a nenhum fim útil, mas isso é um grande equívoco. É extremamente útil, não só ao melhorar a nossa saúde física e sobretudo mental, mas também pelas externalidades positivas que traz para a vida em sociedade. Os grupos de corrida são redes sociais de partilha e apoio mútuo extremamente benéficos.

Na nossa sociedade de hoje, parece que todas as atividades têm necessariamente que ter um objetivo económico. Pessoalmente, sinto como fundamental precisamente este sentido de libertação que uma atividade sem qualquer objetivo monetário, para quem a pratica, nos proporciona.

Eu diria, portanto, que o mais fundamental que correr nos trás são o sentido de pertença e de liberdade.









Mas voltemos ao tema do título desta crónica.

Desde que a 15 de Novembro me inscrevi novamente nos míticos 170 km de Ronda dels Cims, tive que delinear novamente um plano de treinos ambicioso para que não venha a sofrer da mesma desilusão de 2017.

O plano está relatado neste post: S02E02 e neste: S02E03.

Trata-se de cumprir 8 Mesociclos, compostos por 4 Microciclos de uma semana, cada um.

Os dois primeiros Mesociclos estão cumpridos, um pouco ad-hoc e sem grande planeamento, exceto pela vontade de fazer quilómetros e sobretudo desnível, que é o que verdadeiramente conta numa prova com 13500 mD+.

A fórmula que gosto de usar para aferir do volume do meu treino é aquela que foi definida pela ITRA e que conjuga a distância percorrida com o desnível subido: km-effort = Km + (mD+)/100

No seguinte gráfico vê-se a progressão de treino desde que comecei a treinar de forma sistemática. Em resumo, vê-se uma progressão razoavelmente constante desde o final de 2009 até Novembro de 2016 (embora se note já alguma quebra desde o UTMB, em Agosto de 2015). Depois há um grande hiato até Agosto de 2018, apenas interrompido por 3 meses de treino para Ronda dels Cims em Abril, Maio e Junho de 2017.





Portanto, de acordo com histórico dos 5 anos em que completei provas com mais de 160K / 10KD+ (2012, 2013, 2014, 2015, 2016), eu diria que, para ser bem sucedido, terei que fazer volumes de km-effort de cerca de 500 km por Mesociclo.





Decompondo em Kms e altimetria, dará cerca de 400 km e 10 KD+ por Mesociclo.






Um factor fundamental, para conseguir completar estas cargas de treino, é o peso, que terá que baixar para os níveis de 2013. Isso significa perder cerca de 2 kg por mês até o início de Maio, quando participarei nos 80K / 5KD+ do Estrela Grande Trail, que encaro como uma prova de preparação para Ronda dels Cims.






Resumo do GARMIN








“Uma vez que nos espera uma longa vida, mais vale viver esse tempo cheio de vitalidade, com objectivos bem claros em mente e perseguindo com firmeza as nossas metas, do que atravessar os anos que nos esperam no meio do nevoeiro. Nessa perspectiva, julgo que correr constitui uma verdadeira ajuda. A essência da corrida consiste em nos obrigar a dar tudo por tudo, dentro dos nossos limites. E isso funciona como uma metáfora da própria vida (…)”
 

- Haruki Murakami, "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo."









sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

World without Time






"Do we exist in time, or does time exist in us? (...) We conventionally think of time as something simple and fundamental that flows uniformly, independently from everything else, from the past to the future, measured by clocks and watches. In the course of time, the events of the unverse succeed each other in an orderly way: pasts, presents, futures. The past is fixed, the future open ... And yet all of this has turned out to be false.
One after another, the characteristic features of time have proved to be approximations, mistakes determined by our perspective, just like the flatness of the Earth or the revolving of the sun. (...) What we call 'time' is a complex collection of structures, of layers."

- Carlo Rovelli, The Order of Time




Por onde começar?

Esta frase, ela própria, implica um sentido temporal: um início, uma progressão.

A noção de tempo está tão entranhada em nós, seres temporais, que não conseguimos imaginar um mundo sem tempo. Que mundo seria esse? Em relação a que medida se poderiam ordenar os eventos que se sucedem?

O espaço e o tempo são as entidades que tomamos como mais fundamentais. O espaço em que nos movemos e o tempo que mede a sucessão dos eventos em que tomamos parte.

Mas paremos um pouco. Em que consistem esse espaço e esse tempo?

O espaço é aquele referencial cartesiano, com uma origem e três vectores ortogonais, que apontam para cada uma das três dimensões espaciais, e que nos permite localizarmos a nossa posição inequivocamente? E está pendurada onde, essa gaiola? É um conjunto de gaiolas, que se movem uniformemente umas em relação às outras?


 

Existe de facto uma coisa chamada espaço, palco dos eventos do mundo? Ou o espaço surge apenas como aproximação das relações entre os eventos?

E o tempo?

Em que é que pensamos quando pensamos em tempo? quais são as características que atribuímos a essa entidade?

Simples
Fundamental
Independente de tudo o resto
Flui uniformemente do passado para o futuro
Medido por relógios.





Será mesmo?

E será que sempre encarámos o tempo desta forma?

Será o tempo físico idêntico ao tempo subjectivo (psicológico, do sujeito)?

Antes da revolução cientifica e antes de Galileu e Newton que noção de tempo tínhamos?

Existia um tempo universal, ou cada vila, cada cidade se regia pelo seu próprio tempo?

Se pegarmos nos compêndios de história verificamos que, não há tanto tempo assim, cada vila tinha o seu próprio meio-dia solar. Cada local se regia pelos ritmos naturais do sol e do campo. Meio-dia era quando o relógio solar dizia que o sol estava no ponto mais alto do céu. O ritmo de vida pautava-se pelo espaço de tempo que mediava ente o nascer e o pôr do sol.





Na verdade, a invenção do tempo com as características que apresentámos deve-se à revolução cientifica e à grande uniformização efetuada por Newton. Ao unificar as leis que regem os movimentos astrais com aquelas responsáveis pela queda das maçãs, foi necessário introduzir uma variável independente, o tempo.









Mais tarde, com a revolução tecnológica, a invenção do motor a vapor, o aparecimento da locomotiva, e a necessidade de sincronização universal dos horários do comboio, a uniformização do tempo saltou dos laboratórios de física para a organização da sociedade.




Passou a existir uma separação clara entre o tempo subjectivo e o tempo físico.





Mas voltemos à variável independente. Essa variável estava disponível. Galileu já tinha operacionalizado o seu uso, ao medir a queda dos graves recorrendo a plataformas inclinadas e a clepsidras que pingavam água a espaços regulares.




Kepler dizia-nos que a linha que une o planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais.





Newton introduziu 3 leis. A segunda diz-nos que a força que atua sobre um corpo imprime uma aceleração diretamente proporcional. E aceleração é variação de velocidade com o tempo. Velocidade, ela própria é deslocação no tempo.






Este tempo é simples, independente, fundamental, flui uniformemente e pode ser medido por relógios. Só tem um pequeno problema: não tem direção. Flui tanto para a frente como para trás.

Mas já nos estamos a adiantar.

Comecemos pelo fluir uniforme e independente.

Até ao início do século XX, nos meios científicos ninguém contestou essa uniformidade, que parecia gravada na tessitura do universo.

Mas então deu-se a catástrofe: surgiu um jovem brilhante, rebelde e irrequieto, empregado de um escritório de patentes, físico nas horas vagas... que eram todas aquelas a que podia deitar mão.




Em 1905, Albert Einstein, então com apenas 25 anos, publicou de rajada uma série de artigos miraculosos que mudaram para sempre a nossa percepção do universo. Não logo, de repente, pois os homens são o que são, e resistem a mudar as suas conceções e crenças. Há quem diga que levam tempo a aceitar a mudança. Outros dirão que a mudança só é verdadeiramente aceite quando os velhos guardiões do templo se reformam ou morrem e são substituídos por uma nova geração que já foi educada nos novos paradigmas.





Em 4 artigos apenas, versando, o movimento Browniano, o efeito fotoelétrico, a teoria da relatividade, e a equivalência entre matéria e energia, Einstein forneceu evidência forte para a realidade das moléculas, confirmando a hipótese atómica da matéria, explicou a quantização da radiação (energia), lançando inadvertidamente as bases da Mecânica Quântica, e mostrou que o espaço e o tempo não são conceitos absolutos. Ou seja, revolucionou por completo o nosso entendimento da matéria, da energia, do espaço e do tempo.









O tempo já não flui independentemente do observador. Torna-se uma arena, em que cada sujeito tem o seu tempo próprio que flui de forma diferente do tempo próprio deste outro sujeito, dependendo do estado de movimento de ambos. Não existe mais um tempo absoluto, cósmico.

Só não nos apercebemos dessa discrepância porque à nossa escala a diferença é muito pequena para que os nossos processos biológicos a detetem.

Vivemos numa bolha, grosso modo do tamanho do nosso planeta, em que a ilusão é completa. Mais longe, a ilusão quebra-se. A diferença passa a ser suficientemente grande para ser observada pelos nossos instrumentos. Se um de dois irmãos gémeos, o mais aventureiro, for dar uma voltinha às estrelas mais próximas, admitindo que pode tirar partido de tecnologia avançada que lhe permita atingir velocidades suficientemente próximas da da luz, quando voltar e se reencontrar com o seu irmão sedentário terá um choque ao deparar com uma versão muito mais envelhecida de si próprio.




Através de cálculos, ambos os irmãos poderão aferir do tempo próprio que terá decorrido para cada um deles, mas não terão nenhuma medida universal independente e absoluta a que se possam agarrar, para poderem dizer que num determinado instante um estava a olhar para Alfa Centauri pela vigia da nave enquanto o outro estava a ver um episódio de um reality-show na TV.

Não existe uma torre pendurada num centro cósmico, com um relógio universal. Nem sequer existe um centro cósmico.
 
Como a natureza do génio é a insatisfação permanente, durante toda a década posterior a 1905, Einstein dedicou-se a demonstrar que o próprio espaço-tempo é uma entidade dinâmica, que se dobra e curva consoante os caprichos da tirânica matéria-energia.




A gravidade de Newton deixou de ser uma força misteriosa exercida à distância, desaparecendo por completo, restando apenas a interação local entre a curvatura do espaço-tempo e os corpos.





Uma consequência surreal do governo dos corpos massivos na tessitura do espaço-tempo é a passagem mais lenta do tempo junto à superfície de um planeta ou astro. O mais fantástico é que a tecnologia atual permite medir essa diferença com uma precisão muito considerável. Os relógios atuais possibilitam verificar que o intervalo de tempo que decorre à superficie de um laboratório é de facto diferente daquele que decorre apenas um metro acima, na superficie de uma mesa.

Na verdade, ambas as teorias do século XX, modernas por excelência, a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral, oferecem previsões que foram confirmadas por medições incrivelmente precisas.




No entanto, são teorias incompatíveis, na sua estrutura, no seu formalismo, na sua visão do mundo.






A Mecânica Quântica é a teoria do domínio do pequeno, da granularidade, do indeterminismo, do aspeto relacional das grandezas físicas, e a Relatividade Geral é a teoria do grande, do contínuo, do determinismo.







Vivem em mundos separados e colidem de frente apenas quando se extremam, na brutal violência do centro dos buracos negros, na explosão imensa do início do universo. Quando nos abeiramos desses precipícios, e a nossa lupa da imaginação vai descascando as leis do imensamente pequeno, observamos horrorizados que a teoria do contínuo quebra, pois caminha inevitavelmente para o esmagamento absoluto da singularidade. Aquele ponto infinitesimal em que a matemática do continuo deixa de ser adequada para descrever a realidade.







À escala de Planck, 35 ordens de grandeza abaixo da nossa dimensão humana, e 25 abaixo do tamanho do próprio átomo, o contínuo quebra e desfaz-se numa espuma de flutuações quânticas, em que o próprio espaço-tempo passa a ser granular.




Quantum Foam


Ai entra a relativamente recente Teoria da Gravitação Quântica. O esforço de aplicar as regras da quantização da matéria ao próprio espaço-tempo.



Quando se atingem volumes da ordem de grandeza da escala de Planck, entra em jogo a repulsão quântica, que impede que a matéria continue a colapsar sob o efeito da gigantesca força da gravidade. O problema da singularidade fica resolvido, e em lugar de colapsar até ao infinitésimo absoluto, o universo faz um "big bounce"e volta a expandir-se.


Mas a teoria não se fica por aí.

Vai mais longe. Muito mais longe. Uma certa corrente da Gravitação Quântica, afirma mesmo que o próprio tempo se desvanece e deixa de ter existência. As coisas deixam de ter existência própria. A essa escala o que existem são eventos e as relações entre eles. Tudo é dinâmico, nada existe sem estar em permanente mutação. Nada é, tudo acontece. E acontece sem tempo. As equações que governam esta dinâmica não têm uma variável temporal autónoma.





O tempo torna-se um conceito emergente, que surge "macroscopicamente", da interação de um número incrivelmente elevado de granulos de eventos. Podemos pensar nele como pensamos a temperatura, por exemplo. A temperatura não existe a nível microscópico. Nesse reino, o que existe  são violentas colisões entre átomos e moléculas. A temperatura é um fenómeno que sentimos porque somos demasiado grandes para sentir o impacto individual de cada uma das partículas de matéria. O que sentimos é uma média da agitação dessas micro-partículas. E a isso chamamos temperatura. Para nós tem uma presença bem real. Regelamos com a neve e torramos face às chamas de uma fogueira.

Assim é o tempo. Para nós tem uma presença real e efetiva. Mas é apenas uma ilusão. E não num sentido Budista, místico, mas sim numa acessão física muito real, que embora não estando provada, é uma plausibilidade muito grande para uma substancial fação da comunidade cientifica que se dedica a estas coisas.

E quando afastamos a lupa, o que acontece? O tempo surge espontaneamente, nas equações à escala dos átomos. E é um tempo misterioso, que tem direção mas não tem sentido. Se colocarmos as equações em reverse, não notamos qualquer diferença. Não existe uma seta do tempo nas equações da dinâmica das partículas.

A seta do tempo apenas surge à nossa escala, como mais uma característica emergente da complexidade dos sistemas. Se deixarmos cair um vaso ele quebra-se em contacto com o solo. Nunca presenciaremos o fenómeno inverso, de um vaso que espontaneamente se ergue inteiro dos seus pedaços, qual fénix renascida das cinzas.





O que está na base desta assimetria? Mais uma vez os físicos dizem-nos que é a terceira lei da termodinâmica: a entropia cresce sempre num sistema fechado. E a entropia é a medida da desordem.






Mas, a um olhar mais atento, também isto se revela como sendo apenas uma aproximação macroscópica. À medida que nos aproximamos da escala do senhor Planck, mais uma vez o conceito quebra. O tempo liberta-se das suas amarras e passa a dirigir-se para onde muito bem entender. Para o futuro, mas também para o passado.  

Camada de complexidade sobre camada de complexidade, vai fazendo emergir as características de temporalidade e de dimensionalidade a que estamos habituados. Mas tudo não passa de uma ilusão útil.

E o que é para nós a desordem? Se pegarmos num baralho com 4 naipes e 13 figuras, parece ser fácil caracterizar a ordem como oposição à desordem. Ordem é ter as cartas ordenadas por naipes. Primeiro os paus, depois as espadas, a seguir ou ouros e por fim as copas. E porque não ordenadas por figuras? Ou por cores? Cada ordenação é uma convenção, verificamos consternados. Não existe então uma forma única de separar as cartas? Não, qualquer separação resume-se apenas a um produto da nossa mente.

Será a entropia uma medida da nossa ignorância dos estados microscópicos do universo? Será uma medida da nossa interação com o Cosmos?

Será que o nosso tempo surge apenas da forma particular como interagimos com o universo?

Será que esta questão faz sequer sentido?

Até onde é que as perguntas nos levarão?