sábado, 18 de abril de 2020

COVID or not COVID: That is the question



  




To be, or not to be, that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take Arms against a Sea of troubles,
And by opposing end them: to die, to sleep;

Hamlet




Traduzindo em português contemporâneo: é para ficar em casa ou não é?

Nos últimos dias têm-se multiplicado os indícios dados pelas autoridades em geral, e pelo governo em particular, de que estamos prestes a começar gradualmente a retomar as atividades normais da vivência de uma sociedade, sobretudo as económicas.



 



O receio óbvio é que o doente não morra da doença mas sim da cura. Com a perspetiva de uma queda anual do PIB que poderá ir até dois dígitos, o primeiro ministro, António Costa, fez um volte-face e agora já admite que poderá vir aí austeridade. Que o esforço financeiro para relançar a economia (relançar não, que isto será mesmo é não deixar definhar), vai empolar fortes deficits no futuro próximo, disso não haja dúvidas. E quem vai acabar por pagar isto tudo são os mesmos do costume: antes de mais os mais pobres e os mais desprotegidos, que são sempre quem sofre mais e primeiro; depois aquilo que ainda resta da classe média, que é a única a quem os vários Xerifes de Nottingham (de qualquer cor política) podem ir sacar dinheiro impunemente.















E agora querem-nos convencer de que vamos ter que passar a viver uma existência sanitizada, estéril e fria, quiçá durante os próximos anos, até que o vírus se torne em apenas mais um daqueles que moem mas não matam (ou pelo menos não aterrorizam, como este corona, porque matar, matam sempre):




 




Eu, pessoalmente, espero mesmo que, quando isto passar, tenha valido a pena termos ficado reclusos em casa, mesmo que sem pulseira eletrónica, semanas a fio, prescindindo de muito daquilo que faz com que a vida valha a pena ser vivida, pelo menos para mim, uma criatura do exterior, do sol e da natureza.

Uma coisa é certa: só chegámos a este ponto porque não nos preparámos para isto com deve ser. Na verdade, quase não nos preparámos de todo. Os últimos anos viram um desinvestimento brutal no Sistema Nacional de Saúde. Este parece ser um caso paradigmático em que o barato sai caro. Estima-se que isto nos vá custar cerca de 15 mil milhões pelo menos. Ora o orçamento anual do SNS é de cerca de 11 mil milhões por ano.

Nenhum país do mundo ocidental se preparou para isto. Apenas os asiáticos, porque já tinham lidado com um vírus semelhante em 2002/2003, o SARS-1.

No entanto, como foi bastamente realçado ao longo da década que passou, quer pelo Bill Gates, quer por muitos outros, gastamos imenso dinheiro em despesa de "defesa", em material, recursos humanos, exercícios de simulação de conflitos, etc, tudo aquilo que falta para nos preparar para pandemias, que são eventos muito mais prováveis do que um conflito global.

Muita gente discorre em como nunca nada mais será o mesmo, e que isto levará a um esforço coletivo no sentido da sustentabilidade de vida humana neste nosso planeta azul, do género do que se viu no pós-guerra de 1939/45. Eu, infelizmente não acredito em nada disso.

Quanto a mim, o que se tem visto é a maior exibição de tribalismo a nível planetário do que alguma vez se viu em toda a história da humanidade. Hoje em dia a plateia é vasta e o palco está fortemente iluminado pelos holofotes.

E eu não tenho tendência para acreditar em teorias da conspiração. Tal com se faz em boa ciência, acho que a explicação mais simples normalmente é a mais acertada. E aqui a explicação mais simples é que os países, os lideres juntamente com os liderados, comportam-se como galinhas a quem tivessem cortado a cabeça, correndo em todas as direções sem sequer conseguir ver para que lado estão a ir. Umas, mais por sorte do que por outra coisa qualquer, chegam a um abrigo, outras caem no abismo.

Mas voltando ao tribalismo: sempre que se sentem ameaçados por uma entidade externa, os seres humanos refugiam-se nos seus grupos, sejam eles a sua família barricada em casa, os seus colegas de profissão, o seu país, ou o seu continente.




 



Provavelmente essa razão foi a razão principal porque que foi tão fácil confinar os portugueses em suas casas. Foi por cobardia pura, por terror de uma coisa que não se compreende.

A cobertura exaustiva que os media fizeram sobre o que se passava no norte de Itália deve ter contribuído e muito para esse difundir do terror pela população.

Eu estou confinado em casa desde dia 12 de março (ou seja, há mais de 4 semanas) e apenas saio duas ou três vezes por semana para me abastecer na mercearia local. Fora isso treino em casa na passadeira, tendo saído para fazer curtas corridas (comparado com o meu standard) em apenas três ocasiões. Numa dessas ocasiões, às 7 horas da manhã, fui insultado por um automobilista que passou por mim.

Faço isto sobretudo porque o pessoal de saúde e os restantes profissionais de primeira linha me pedem para o fazer. Muito honestamente não tenho qualquer receio da doença. Talvez devesse, mas o facto é que não tenho. Já passei por mais do que uma experiência no limite da vida ou morte e agora encaro isso como um facto natural da vida. Logo na primeira semana fiquei doente, com algo que ainda não sei o que era, e nunca deixei de trabalhar em teletrabalho.

Historicamente, enquanto espécie, já vivemos bem pior. Eu sou hipertenso, o que me coloca num grupo de risco. Mas ainda assim, a minha probabilidade de morrer com esta doença é da ordem da probabilidade de ser infetado multiplicada pela taxa de mortalidade do meu grupo de risco. Deverá ser o quê? Se acreditassemos nos números oficiais, então neste momento estão infetadas 200 pessoas por cada 100 mil habitantes, ou seja 0,2% da população. A taxa do meu grupo é de cerca de 8%. Logo a minha probabilidade de morrer será de 0,16%.Claro que o número de infetados reais será muito superior ao que foi testado. Talvez 5 a 10 vezes superior. Mesmo assim, a minha probabilidade de morrer devido a isto continua a ser muito pequena.










  





A verdade é que, apesar dos discursos mais pessimistas, Portugal tem passado relativamente incólume, sob esta pandemia, se descontarmos é claro o facto de uma substancial percentagem das vítimas serem idosos em lares (cerca de 30% do total de óbitos), que são liminarmente encerrados nessas instituições, praticamente sem apoio médico. Talvez seja devido às medidas de distânciamento social, não o nego. Mas só quando a poeira assentar é que poderemos ter algumas certezas (ou talvez não).









Enfim, apesar das minhas queixas pessoais, eu sou um dos grandes privilegiados, pois estou protegido em minha casa, que é um espaço agradável e não claustrofóbico. Trabalho mais do que nunca, mas isso depende em grande parte da minha capacidade de estabelecer limites, portanto continua a estar sob meu controle. Faço-o muito por espírito de missão, pois trabalho no desenvolvimento e manutenção de ferramentas de teletrabalho, que parecem ser particularmente úteis nos tempos que correm. Hoje em dia temos excelentes ferramentas de comunicação, que nos permitem manter uma vida social relativamente razoável, mesmo que nos faça falta o toque da pele. Nunca deixei de me conseguir abastecer na mercearia local (abençados anjos: são os meus heróis pessoais). Ou seja, apesar desta prisão domiciliária, ainda tenho boa parta da minha vida sob controle.

Mas assusta-me ouvir dizer que vamos ter que passar um longo inverno metafórico sem contacto humano visceral que tanto nos faz falta. Nós ainda não somos serres desmaterializados, e provavelmente nunca seremos.

O bem mais valioso que temos enquanto sociedade é a confiança mútua. A sua manutenção é um trabalho constante, muito laborioso e delicado. Facilmente se destrói. Qualquer movimento contrário ao estabelecimento da confiança, é um passo no sentido ou do caos ou do totalitarismo que se lhe segue.

E o impacto mais insidioso deste vírus, mais do que na saúde, poderá vir a ser mesmo na confiança mútua, nesse cimento essencial da sociedade.

Cada uma destas crises, afasta-nos uns dos outros e atira-nos para os braços da desresponsabilização pelo espaço público, por aquilo que é de todos. Vimos isso depois da crise financeira e económica de 2008/2010 e voltaremos a ver de novo.

De cada vez que uma catástrofe destas acontece, dá-se uma perda generalizada da inocência e as pessoas apercebem-se de que o Rei vai nu.

As virtualidades da nossa sociedade, a sua eficiência logística, são precisamente as mesmas que a tornam frágil. O "Just-in-time" sem acumulação de stock e sem produção local; a capacidade de viajar rapidamente para qualquer parte do mundo; os meios de partilha de informação não mediada em que todos são supremas autoridades de todos os temas; a desconfiança nos especialistas; etc. Tudo isso é combustível para uma enorme fogueira.

Temos que lutar contra esta fragmentação da sociedade mundial. Sublinhar aquilo que nos une e tentar corrigir aquilo que no separa. A todos os níveis de organização.

Temos que conseguir construir uma narrativa comum que nos motive para a solidariedade e coesão social global.

Se não estivermos à altura desse desafio, então sim, não teremos futuro.

Tal como Gremsci, eu mantenho-me um pessimista da razão e um otimista na ação.





Vejam este TED Talk que vale a pena. O palestrante é um pouco monocórdico mas o conteúdo é excelente:

"In the midst of the COVID-19/coronavirus pandemic, many grocery shelves are empty because of mass hoarding and panic buying. In this enlightening talk, political scientist Dr. Hacker explains that the problem is not incivility, but our social perspective. In this crisis, "winner take all" means taking all the toilet paper and supplies and leaving none for your neighbor. Framing the problem as types of games, he advocates abandoning the zero-sum mentality and adopting a collective attitude."










Para acabar num tom mais ligeiro, que ninguém aguenta demasiada realidade, passemos aos boatos que circulam acerca das redes de telecomunicações de nova geração.

A OMS viu-se obrigada a publicar este comunicado na sua página de FaceBook, para desmentir este boato em particular:






Entretanto, na net há gente com muita imaginação:
:)