sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Porque corro?










Continuam a questionar-me quais as razões que me levam a correr distâncias que ultrapassam a razoabilidade. A minha resposta poderá soar algo lírica e megalómana, mas se não fosse lírica e megalómana, penso que não encontraria razões suficientemente fortes para o fazer.
 
Adianto já que corro devido ao que o ato de correr me faz sentir, a um nível visceral, bioquímico, hormonal, bioelétrico. A nossa reação ao exterior é mediada pela forma como sentimos internamente esse exterior, e correr faz-me sentir vivo.  


Porque corro?

Está tudo na imaginação. Nada disto é real. Fazer 170 km na montanha não acrescenta nada ao meu destino. Não altera a ordem das coisas. Não gero novos universos, não salvo a humanidade, não alcanço a imortalidade. Continuo imerso na Condição Humana. O Cosmos continua a ser um local improvável, sem justificação nem apelo. As partículas e os campos de força continuam a saltar do vácuo e interagir porque sim. As espécies digladiam-se porque está na sua natureza. Este planeta caminha para o oblívio. A minha, a nossa, existência não é mais do que um efémero piscar de olhos num espaço-tempo vazio.

Não há redenção, não há salvação.

No entanto uma aventura destas dá-me alento para pelo menos mais um ano. Para conseguir ultrapassar as dificuldades comezinhas do dia-a-dia. As pequenas irritações, o tédio dos gestos repetitivos. O inexorável caminho em direção à decadência torna-se mais suave. Os momentos mais ricos, coloridos e vívidos.

Enquanto cá estiver vou travando a luta inglória e os meus átomos, quando se dispersarem ao vento, eles ao menos hão-de saber que vivi. Terão a minha marca, depois de já terem tido a de Gilgamesh, Homero, Alexandre, Aníbal Barca, Júlio César, Erik o Vermelho, Rolando, Zheng He, Ibn Battuta, Magalhães, Vasco da Gama, Livingstone, Neil Armstrong.

Serei um pequeno risco à escala de Plank na fábrica do espaço-tempo.



A transcendência

A felicidade não tem valor evolutivo. O que procuramos é a transcendência. E o que procuramos transcender é a nossa finitude, a nossa fragilidade, o nosso medo profundo. Vivemos aterrados. Perdidos num universo que não compreendemos, no qual não encontramos lugar nem propósito para as nossas curtas existências. É o terror do vazio que nos empurra para a frente. Não avançamos à procura da felicidade. Fugimos do vácuo.
Enquanto primatas que somos, não experienciamos de forma absoluta o momento presente, mas vivemos antes imersos num contínuo que nos mergulha no passado e nos projeta no futuro. O lobo é muito mais um ser do presente, o qual vive de forma completa e inteira. Essa imersão no tempo leva-nos muitas vezes a esquecer o valor do processo e focamo-nos apenas no objetivo, que está sempre diferido. No próprio instante em que o cumprimos, esgota-se. 
O lobo vive o processo. E os processos mais vitais são os mais viscerais, aqueles que envolvem a maior dose de êxtase, ligada inextricavelmente com extremos de agonia e desconforto. Por exemplo, quando corremos e damos o nosso máximo, durante um período prolongado de esforço ininterrupto e esgotante, o que é que sentimos? Sobretudo desconforto, mas também uma enorme exaltação. E sentimos isso tudo em simultâneo. São duas faces da mesma moeda que não são separáveis, experienciadas em uníssono. O que é que fica depois de acabarmos? O principal não é com certeza a marca atingida, mas antes a memória indelével e física do processo de correr. A corrida permite-nos, mesmo que seja apenas por breves instantes, escapar à condição humana.




domingo, 2 de setembro de 2018

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2017












Este ano não fui feliz. Problemas pessoais impediram-me de treinar como seria necessário para completar um desafio desta natureza.

Mesmo assim, consegui chegar ao refúgio de Coma Bella aos 86 km de prova, muito para além de onde pensava ser capaz. A subida da base de vida de Margineda até ao refúgio de Coma Bella foi um tormento inimaginável. Assim que lá cheguei, percebi logo que me seria humanamente impossível subir 4.800 metros até Pic Negre, o próximo ponto mais alto. O mais razoável era não colocar em risco a minha integridade física, e assim abandonei a prova neste ponto.






A montanha continuará lá e existirão outras oportunidades para a conquistar.





domingo, 25 de junho de 2017

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2017 - S01E02







Em Dezembro comprometi-me com uma Enorme Aventura:







Eis aqui a apresentação do desafio:

Andorra Ultra Trail Vallnord - Ronda dels Cims


No entanto, pela primeira vez em 6 anos, não me encontro preparado para um desafio desta magnitude.

Não tenho nem o treino nem o peso adequado para completar estes duríssimos 170 km com 13.500 mD+.

Em Abril estava a pesar mais 10 kg do que quando estou em forma. Tinha traçado o objetivo muito ambicioso de perder 9 kg em 3 meses mas não consegui. Neste momento peso mais 6 kg do que deveria.



Peso a 06/04


Senti bem esse peso excessivo em Maio quando tive que abandonar o Estrela Grande Trail em Alvoco da Serra, ao fim de apenas 52 km.

E mais recentemente na Via Algarviana também o senti: o peso do corpo e o peso da falta de treino.

Foi o peso da alma, devido a eventos recentes na minha vida pessoal, que se refletiu no peso do corpo.














Seja como for, tal como referi na minha crónica do Estrela Grande Trail 2017, não perdi a vontade de participar nestas enormes aventuras.

Assim, lá estarei no próximo dia 07 de Julho, alinhado na linha de partida com os demais companheiros de aventura.

Ninguém me tira isso.

Se no fim tiver que mandar fazer uma T-shirt de "Starter" por não ter conseguido a de Finisher, assim o farei!

E para o ano voltarei a alinhar na partida para a aventura.

Não interessa quantas vezes caímos, o importante é levantarmo-nos sempre.

Quantas vezes já fiz isso ao longo da vida? Tantas que já nem as consigo enumerar todas.




Se nunca tivesse cedido à loucura de alinhar na partida, nunca teria vivido todas estas aventuras maravilhosas:






Em 2010, na meta do Serra da Freita, com os meus queridos filho Rui e sobrinho Tiago


Em 2011, na meta do Swissalpine, com o meu querido filho Rui



Em 2012, na chegada do Ehunmilak com o amigo Luís Freitas



Em 2013, na Chegada do GRP, com os meus queridos filhos, Rui e Rita



Em 2014, na partida da VCUF, com todos os companheiros Portugueses



Em 2015, na Chegada do UTMB, com um esgar de dor



Em 2016, na partida do EMUM, com os companheiros João Mota e Paulo Osório




Em 2017, com o amigo Paulo Costa na linha de Partida do EGT







sábado, 24 de junho de 2017

GR13 - Via Algarviana





GR13, mais conhecido como Via Algarviana. 302 km que atravessam as 3 serras algarvias. Tem início em Alcoutim e termina no Cabo de S. Vicente.












Foto de Paulo Pires


Os sete magníficos:

José Santos, Luís Ferreira, Luís Trindade, José Melo, Eduardo Lourenço, Joao Faustino, e o capitão Paulo Pires.




Foto de Paulo Pires



Começámos em Balurcos onde fomos largados pela Rodoviária, cerca das 22:00 de 6ª feira dia 9 de Junho. Ou seja, atalhámos os primeiros 25 km por falta de vontade em andar para trás. Depois foi caminhar uma etapa noturna com 50 km até Cachopo, com mochilas de 8 kg às costas.



Exaustos, após uma noite a caminhar




Retemperar forças em Cachopo




No dia seguinte, sábado 10, tentámos evitar a canícula de 40°C e partimos às 18h. Mais 30 km até Barranco do Velho onde pernoitámos ao relento.



Foto de João Faustino
Foto de João Faustino

Foto de João Faustino

Foto de João Faustino

Foto de João Faustino





Domingo arrancámos cedo para uma etapa de 50 km até Messines. Cheguei completamente acabado e decidi que no dia seguinte tinha mesmo que dormir. Dormimos no quartel dos bombeiros.


A caminho de Messines


Piscinas naturais em Alte


Quartel dos Bombeiros de Messines



A malta arrancou cedo mas eu e o Melo dormimos até às 10h. Depois comboio e autocarro até Monchique. Cortámos assim 55 km. Aí recebemos os companheiros. Desta vez dormimos todos numa pensão local.


Ritual Funerário do Alto Paleolítico



































Terça feira nova etapa longa com 70 km, até cerca de 8 km de Vila do Bispo. Por esta altura já tinha ficado para trás e os meus companheiros levavam já uns 15 km de avanço. Como já eram 4 da madrugada e eu não conseguia prosseguir mais, deitei-me debaixo de um pinheiro e dormi que nem um justo até às 8h. Acho que os bichos fugiram todos com o cheiro.




A caminho de Sagres









No Bed & No Breakfast


Suite Presidencial




Depois foi fazer das tripas coração até ao destino final, mais 25 km até Cabo de S. Vicente onde finalmente cheguei às 17h de quarta feira dia 14, completamente destroçado do ponto de vista físico, mas muito feliz do ponto de vista anímico. Vá-se lá perceber a alma humana!









Foto de Paulo Pires



Cabo de S. Vicente










Foto de Paulo Pires




Relato mais completo no Blog do Paulo:

Runbook de um gajo que mudou de vida



Estrela Grande Trail 2017 ou a Crónica de um DNF







Mais cedo ou mais tarde tinha que acontecer. Não consegui terminar os 109 Km do Estrela Grande Trail.

Não deu mais. Cheguei ao abastecimento de Alvoco da Serra completamente desgastado e não consegui prosseguir.

Foi a primeira vez que me aconteceu.

Sempre pensei que uma desistência numa prova seria uma espécie de via de não retorno, que abriria caminho para outras futuras desistências.

Mas agora que aconteceu verifico que não é nenhum bicho de sete cabeças. Posso até dizer que esta desistência me ensinou mais do que muitos provas terminadas com sucesso.

Ensinou-me que de facto o que importa mesmo é participar! Eu sabia que não estava em forma para percorrer os duros 109 Km da Serra da Estrela. Já tinha completado a prova em 2016 e estava bem ciente do que me esperava.

Mas decidi não ficar em casa. Decidi ir à luta. Mais: decidi não trocar a distância maior pela outra mais curta.

E não me arrependi. Já não consegui subir até à Torre, mas desci até à Louriga, que é sempre um percurso facinante.

É imperioso ter a humildade de escutar o corpo.

O que retiro desta aventura é todo o incrível ambiente que sempre rodeia as boa provas de Trail. As viagens na companhia de amigos; o rever companheiros que conhecemos há já vários anos. A dormida em solo duro em ambiente comunitário. A imersão na natureza. O prazer de estar vivo.