segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Tocados Pelo Fogo






"Os traços fogosos do pensamento e do sentimento que impelem para a viagem artística - uma energia impetuosa, um elevado estado de espírito e uma inteligência desperta; um sentido visionário; um temperamento inquieto e febril - geralmente acarretam o risco de levar a estados de ânimo muito mais obscuros, um carácter sombrio e, ocasionalmente, ataques de 'loucura'. Este humor e estes estados de espírito tão opostos, às vezes entrelaçados, podem parecer aos demais ardentes, imoderados, caprichosos, tristes, perturbados ou tempestuosos. Em poucas palavras, tudo isto faz parte da definição geral do temperamento artístico e, como veremos, também constitui a base do temperamento maníaco-depressivo."

― Kay Redfield Jamison, Tocados pelo fogo





"Estima-se que cerca de 1% da população sofra desta doença, numa percentagem idêntica em ambos os sexos. Alguns elementos disponíveis relativos à realidade nacional estimam que existam cerca de 200.000 casos de doença bipolar em Portugal."

SaúdeCUF




Se era para cair nos 1% bem que poderia ter caído nos outros mais famosos 1%, do rendimento.




Mania (do grego μανία, «estado de loucura»)

Depressão (κατάθλιψη)




sín·dro·me
(grego sundromê, -ês, reunião)
substantivo feminino

1. [Medicina]  Conjunto de sintomas que caracterizam uma doença.

2. Conjunto dos sinais e sintomas que caracterizam determinada condição ou situação.

"sindrome", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa


con·di·ção
substantivo feminino

1. Cláusula.

2. Qualidade.

3. Requisito.

4. Carácter, génio, índole.

5. Modo de ser.

6. Classe ou graduação social.

7. Categoria elevada.

"condição", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

con·di·ção

substantivo feminino

1. Cláusula.

2. Qualidade.

3. Requisito.

4. Carácter, génio, índole.

5. Modo de ser.

6. Classe ou graduação social.

7. Categoria elevada.

"condição", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/condi%C3%A7%C3%A3o [consultado em 17-12-2018].
sín·dro·me
(grego sundromê, -ês, reunião)

substantivo feminino

1. [Medicina]  Conjunto de sintomas que caracterizam uma doença.

2. Conjunto dos sinais e sintomas que caracterizam determinada condição ou situação.

"sindrome", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/sindrome [consultado em 17-12-2018].



Transtorno bipolar?




"I often say, weather is your mood and climate is your personality."

― Dr. J. Marshall Shepherd



Gosto mais do termo mais expressivo "maníaco-depressívo" do que do mais inócuo "bipolar".
É muito mais eloquente.
Também não gosto do epíteto "doença". Isso pressupõe um estigma que não estou disposto a aceitar.
Parece-me que ao tentar libertar o maníaco-depressivo da condenação social, ao taxá-lo de doente e portanto irresponsável pela sua condição, presta-se-lhe um mau serviço.
Todos nós somos responsáveis pela nossa condição, exceto nos casos mais extremos. Pensar o contrário é reduzir a pessoa a um aspeto parcelar do seu ser multifacetado.
Eu sou condicionado por uma condição, mas posso tentar conduzi-la como se fora um cavalo selvagem.
Eu não sou doente, embora ocasionalmente possa ficar doente, e embora a minha condição (prefiro este termo) obrigue a medicação crónica, tal como outras doenças crónicas como a hipertensão, por exemplo.
A minha condição funde-se com a minha personalidade. Eu sou aquilo que sou e isso são muitíssimas coisas. Um termo, frase ou expressão, não capta a minha essência.
Tal como não é possível agarrar com uma mão a água que flui, também não é possível fixar a minha natureza. A minha essência é transformação.


"Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa."

― Ricardo Reis




con·di·ção

substantivo feminino

1. Cláusula.

2. Qualidade.

3. Requisito.

4. Carácter, génio, índole.

5. Modo de ser.

6. Classe ou graduação social.

7. Categoria elevada.

"condição", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/condi%C3%A7%C3%A3o [consultado em 17-12-2018].
con·di·ção

substantivo feminino

1. Cláusula.

2. Qualidade.

3. Requisito.

4. Carácter, génio, índole.

5. Modo de ser.

6. Classe ou graduação social.

7. Categoria elevada.

"condição", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/condi%C3%A7%C3%A3o [consultado em 17-12-2018].

A dinâmica do maníaco-depressívo é um carrossel dos sentidos.

A tortura da falta de sono.
Os pensamentos voam.
As ideias que se atropelam.
O cansaço cada vez mais estremado.
Vou ficando cada vez mais louco.
Como e bebo excessivamente.

Sinto-me prestes a rebentar.
Brighter than a thousand suns!
Um grito de socorro sobe na minha garganta,
por alguém que me ajude a por freio nesta explosão.
Estou exausto, enjoado, sem qualquer capacidade de me concentrar no que quer que seja.
Sei que dentro em breve a bolha vai rebentar e eu vou arribar à costa como uma baleia encalhada.

Certified lunatic...

If you join me, you are in for the ride of your life

Les gens normaux n'ont rien d'exceptionnel

El sol del membrillo

Hal Hartley

Nick Cave


It's better to burn out
Than to fade away

Out of the blue
and into the black









Sempre fui uma criança diferente das outras.
Era moderadamente sociável, tinha companheiros de brincadeira, mas tinha a nítida noção de que não era igual aos outros.
A minha sensibilidade era diferente.

A explosão deu-se com o início da adolescência, aí pelos 13 anos.
Transformei-me num prisioneiro na minha própria casa. Tinha fobia do exterior.

Atravessei um solitário deserto até desaguar nos 16 anos de idade e no 12º ano nos EUA. Aí revelou-se o meu primeiro episódio de mania. Recordo-me bem. Foi como se o corpo se rebelasse contra a angústia dos últimos anos e me levasse por uma nova viagem. Uma viagem de auto-confiança exultante, e cheia de esperança. Depressa fui aceite pelos colegas norte-americanos.
Era efusivo, diferente, original, caloroso e exudava charme. Fui eleito pelos pares para várias distinções.
Incorri em comportamentos perigosos.
Consumo de algumas substâncias ilícitas, sobretudo o álcool, que é proibido a menores de 21 anos nos EUA. Numa ocasião, numa disputa estúpida, bebi uma garrafa de Rum Bacardi em menos de 10 minutos.
Ia morrendo.
Ainda hoje fico enjoado só de sentir o cheiro.



Retrospetivamente, e com a vantagem da experiência e do conhecimento, parece-me que esta condição, transtorno ou doença, como lhe queiram chamar, pode-se explicar como um mecanismo em que o organismo se rebela contra a angústia e solidão existencial da condição humana. É uma fuga para a frente. O cérebro coloca todo o organismo em sobre-carga, para tentar escapar a essa angústia que o devora. Tudo fica acelerado. As descargas elétricas, os processos químicos, fisiológicos, hormonais. É um desequilibro eletro-bioquímico.
É como um automóvel em que o motor tenha sido modificado para atingir rotações mais elevadas. Demasiado elevadas para aquilo que a sua estrutura pode aguentar.
Inevitavelmente vai existir um ponto em que o motor gripa. Neste ponto entramos em depressão profunda. A energia esvai-se completamente do nosso organismo. Tudo exige um esforço muito superior aquilo do que somos capazes. Mesmo para sair da cama é necessária uma enorme força da vontade. Então temos que esperar. Esperar que a doença percorra o devido curso, até que o organismo recupere as energias perdidas.


Só quem já passou por uma depressão major é que sabe o incrivelmente que dói.

Estou prostrado. Letárgico.
Não consigo viver nem consigo morrer.
Sinto o indizível, aquilo que não se pode sentir: o terror do vazio absoluto.
É um sentir palpavelmente doloroso.
Paradoxal, pois é a essência da ausência de sentir.
Uma angústia extrema.
O organismo é um veio de transmissão do nada.
Tudo é nada.

Na depressão extrema o que se sente é o vazio.
E o vazio é um sentimento diferente de todos os outros.
É a ausência de sentimento.










A felicidade não é uma amante que me convenha. Tal como Cristo se sentia à vontade com as putas, os deserdados, os pecadores e os lazarentos, eu sinto-me à vontade é com sentimentos extremados.

Aquilo que eu conheço é uma exaltação dos sentidos, não um estado de tranquilidade.


"(...) muitas destas naturezas alegres têm, quando conhecidas mais de perto, um elemento permanentemente melancólico no fundo do seu ser."

- Ernst Kretschmer




Em determinados estados, eu olho para as outras pessoas e penso que sou um corpo estranho no seio do convívio humano. Como é que estas pessoas não sentem a angústia existencial que eu sinto?

As pessoas ficam entranhadas na tessitura do meu ser. Uma relação de muitos anos leva a que a outra pessoa fique integrada em todos os recantos do meu crânio, gravada nos circuitos elétricos, escondida entre as sinapses

O meu cérebro não é típico. Talvez nenhum seja.

Sempre se socorreram da minha capacidade de lembrar nomes e factos. Um colega, em tempos, dizia que era mais rápido perguntar-me do que ir ao Google. Espero uns segundos e o nome aparece como por magia. Tudo está ligado a tudo na minha mente. Tal como a madalena de Proust, basta um odor, ou uma imagem, para evocar toda uma panóplia de memórias.




Estou convencido que existem circuitos cerebrais que se vão reforçando ao longo da progressão do distúrbio. Por isso é que quantas mais crises sobrevierem sem tratamento adequado, mais aguda se torna a condição.

Fui diagnosticado na primavera de 2008.
A meio do intenso stress do MBA feito em regime noturno.
Era tão evidente que a médica não hesitou.
Medicado a partir daí.

Nem sei como se passaram quase 30 anos sem que eu tenha sido diagnosticado.
Ou melhor, sei: o meu estado nunca necessitou internamento.
Várias vezes psiquiatras me recitaram anti-depressivos.
Pois, observam-me sempre nas fases depressivas...
Tipicamente é nessas que o bipolar pede auxílio médico.




Ao longo dos últimos 10 anos tenho vindo a aprender que aquilo que eu tenho que fazer para domar este cavalo selvagem é no fundo muito simples. Baseia-se em três pontos fulcrais:

  • Tomar religiosamente a medicação.
  • Esforçar-me por dormir bem.
  • Manter uma atitude positiva, custe o que custar.

O segundo ponto não é fácil de cumprir. Exige muita auto-disciplina: deitar cedo quando a mente se encontra a rebentar de ideias e sede de conhecimento; tentar permanecer na cama mesmo quando ao fim de 4 horas de sono já nos sentimos perfeitamente despertos; manter a prática regular de exercício físico para esgotar o corpo.

O terceiro ponto é igualmente difícil: é necessário encontrar estratégias para quando somos assaltados pela miríade de pensamentos negativos.
A mim ajuda-me muito escrever e falar.
Cultivar relações fortes.
Saber que mais importante do que ser amado é amar.
Conseguimos sobreviver sem ser amados, mas sem cultivar a chama do amor, por alguém, independente de género, raça, língua, seja filha, mãe, irmã, amante, amiga, não vivemos.



"(...) Then, as th' earths inward narrow crooked lanes
Do purge sea waters fretful salt away,
I thought, if I could draw my pains
Through rhymes vexation, I should them allay.
Grief brought to numbers cannot be so fierce,
For he tames it that fetters it in verse."

- John Donne, The triple fool





Por razão escrevo este texto aqui e agora?

Não procuro ser uma inspiração, ou um exemplo. É mais como um "sair do armário." Eu sou isto, e muito mais.

A sociedade não está preparada para pessoas diferentes. Em 30 anos de vida profissional ativa, tive que adaptar a minha vida, os meus altos e baixos, ao ritmo inexorável do trabalho. Deveria ser o inverso: adaptar o ritmo do trabalho aos meus altos e baixos. Mas a sociedade não está preparada para isso. Exige-nos uma produção contínua e constante. Com isso perde-se muito potencial, que fica desaproveitado.


“One of the things that baffles me (and there are quite a few) is how there can be so much lingering stigma with regards to mental illness, specifically bipolar disorder. In my opinion, living with manic depression takes a tremendous amount of balls. Not unlike a tour of Afghanistan (though the bombs and bullets, in this case, come from the inside). At times, being bipolar can be an all-consuming challenge, requiring a lot of stamina and even more courage, so if you're living with this illness and functioning at all, it's something to be proud of, not ashamed of. They should issue medals along with the steady stream of medication.”

― Carrie Fisher, Wishful Drinking






A imensa curiosidade e irrefreável sede de conhecimento:

De 1985 a 2009, frequência dos seguintes cursos:

Licenciatura em Biologia, Fac. de Ciências, Univ. Lisboa (interrompido)
Licenciatura em Engenharia Física Tecnológica, IST, Univ. Lisboa (terminado)
Doutoramento em Física, Pennsylvania State University (interrompido)
Mestrado em Física, Pennsylvania State University (terminado)
Mestrado em Filosofia, Fac. de Letras, Univ. Lisboa (interrompido)
Mestrado em Investigação Operacional, IST, Univ. Lisboa (interrompido)
Doutoramento em História e Filosofia das Ciências, Fac. de Ciências, Univ. Lisboa (interrompido)
Lisbon MBA, Univ. Católica & Univ. Nova (terminado)

Mil recomeços.










Testemunho de um caso extremo (Bipolar I).
- Kay Redfield Jamison

Em Bipolar II (meu caso), mais suave, não há necessidade de internamento.











“What do you think you are, for Chrissake, crazy or somethin'? Well you're not! You're not! You're no crazier than the average asshole out walkin' around on the streets and that's it.”

― Ken Kesey, One Flew Over the Cuckoo's Nest















sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E03






"Success consists of going from failure to failure without loss of enthusiasm." 

- Winston Churchill


"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita."

- Coríntios 13, 1-3





Nunca é demais afirmar o seguinte: para se atingir um objectivo, a preparação é fundamental. E para manter a constância na preparação, a paixão é essencial.



O meu objetivo principal para o ano de 2019 é muito ambicioso: nada mais nada menos do que completar os desafiantes 170 km & 13.500 m D+ do Andorra Ultra Trail - Ronda dels Cims:






Conforme já expliquei no meu post anterior:


Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E02 



... o treino divide-se em mesociclos compostos por 4 microciclos de uma semana cada. Aumenta-se a carga (distância e altimetria) em crescendo até ao 4º microciclo e depois volta-se a baixar no início do mesociclo seguinte.  





Gosto de registar todos os treinos, para comparar a performance em prova com a preparação efetuada, e assim ser o mais rigoroso e "cientifico" possível.

Eis aqui um gráfico com todos os Mesociclos realizados desde que comecei a correr em meados de 2008:




Mesociclos mensais: esforço total = Corrida + Bike/3 + 4xNatação & Total Desnível positivo


Ou medido segundo a definição de esforço da ITRA: km-effort = Km + (D+)/100




O ponto mais alto deste gráfico, o climax da minha "carreira" desportiva, deu-se em Agosto de 2015, quando finalmente participei no Ultra Trail du Mont Blanc, após dois anos consecutivos em que não fui sorteado.

Ultra-Trail du Mont-Blanc – Uma odisseia entre Mercúrio e Plutão, uma viagem interior – Parte I



Já completei Trails que "objetivamente" (distância & altimetria & dificuldade do terreno) são mais dificieis do que o UTMB. No entanto, até hoje, este foi para mim o mais duro de todos em quantos participei.

Foi aquele em que me entreguei mais, aquele em que arrisquei mais, aquele para o qual fiz a mais árdua preparação, aquele em que deixei mais de mim no terreno.

Após o ter terminado, andei uns tempos abalado, a sofrer de ressaca, física mas sobretudo mental.

Para além disso, no outono de 2015 surgiram problemas pessoais que começaram a ter impacto na minha vontade de treinar e de competir.

Isso é bastante evidente no meu índice de progressão na performance da ITRA (International Trail Running Association):





O meu rating tem vindo a descer, como o da dívida pública portuguesa nos tristes tempos da Troika.


Performance, by ITRA



Best Performances:




Eis aqui as minhas 17 provas registadas na ITRA:





Mas voltando ao fio de raciocínio: para aquilatar do ponto me encontro na preparação, o ideal é efetuar uma comparação homóloga entre anos que culminaram com provas de 100 milhas (2012, 2013, 2014, 2015 e 2016):



Distância percorrida:







Desnível:




Em km-effort (com as datas das 100 milhas assinaladas):





O que salta à vista é que a preparação em 2017 foi muito mais fraca, tanto em distância como em altimetria, do que em 2015 (ponto mais alto) e até mesmo do que em 2016.

Por isso é que em 2017 não consegui completar a prova que vou abordar novamente em 2019. Como se costuma dizer: "não há milagres". #Treinasses...


Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2017 - S01E03




Agora o que tenho que fazer é ir controlando a minha progressão pelo histórico que tenho registado.

Se assim fizer, estou totalmente convicto que terei sucesso.





Outra variável fundamental, sobretudo para quem tem que subir muito, é o Peso:






Tenho que baixar cerca de 8 kg até Julho de 2019. Mesmo.

















quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Escritos dispersos III









Depois, quando ficaram apenas os homens, reuniram-se para um brainstorm, pensaram fora-da-caixa e colaram post-its nas vigias do navio. Por fim decidiram nomear um SWAT team cuja missão seria analisar a viabilidade de estabelecer um processo Agile. 

Ultrapassada essa fase, não conseguiram chegar a acordo acerca da periodicidade e scope das sprints, para além de que a nomeação do Scrum Master enfrentou sérios problemas por não existir ninguém qualificado. 

Após as duas primeiras sprints, verificou-se que as anteparas do navio não eram modulares e estanques e, portanto, não permitiam correções cirúrgicas, tendo-se chegado à conclusão de que o esforço de testes da solução demoraria mais tempo do que o advento da próxima era glaciar...

No fim decidiram fazer rollback ao Iceberg…





quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Pequenos conselhos práticos - Solo Duro


Imagem do Blogue de Maria Tadeu





Esta rúbrica é dirigida aos Trail Runners que se estão a iniciar na modalidade e que ainda não têm prática de uma vertente muito interessante das corridas em trilhos: o "solo duro".

O que é o solo duro?

"Solo duro" é a expressão que indica o pavilhão gimnodesportivo, ou outras instalações semelhantes, disponibilizado pela organização, para que os atletas possam ter um local onde pernoitar antes e depois de uma prova. É solo duro, porque não inclui camas. Na melhor das hipóteses conseguem-se umas esteiras usadas na prática da ginástica e que se encontram disponíveis no pavilhão.

Quanto a mim, trata-se de uma excelente opção para pernoitar, por várias razões.
A saber: é gratuito; conveniente; normalmente encontra-se perto da linha de partida; e propicia o convívio.

Claro que tem inconvenientes, sobretudo para os mais sensíveis.
São locais agitados e barulhentos: há malta (como eu, por exemplo) que, ao ressonar, debita decibéis dignos de um 747 a descolar com total potencia dos quatro motores; existe sempre alguém acordado e irremediavelmente afetado pelo bicho carpinteiro; de vez em quando, a meio da noite, há alguém que gosta de acender uma luz para confirmar, pela enésima vez, se tem todo o equipamento necessário para a prova; há sempre o camarada que fica afetado de bexiguite aguda, que o obriga a deslocar-se à casa de banho de meia em meia hora; e há os bêbados ocasionais.

O intuito principal desta crónica, é dar alguns conselhos, baseados na prática, com o objetivo de que a experiência de dormir em solo duro se torne o mais confortável possível. Quanto a mim existem 3 elementos essenciais:

Os tampões para os ouvidos:

Recomendo Ohropax. Fazem milagres:


A venda para os olhos:

Qualquer Buff serve a função:




Uns copitos de CRF reserva (não em demasia, senão, em lugar de calmante, torna-se estimulante):





Esta última pode ser usada de duas formas distintas, mas igualmente eficazes: ou a bebemos para anestesiar a excitação da véspera de prova, ou damos com ela na cabeça do gajo que estiver a ressonar mais alto.


E pronto, se seguirem estes conselhos julgo que poderão desfrutar da excelente experiência que é dormir em solo duro.


Pela parte que me toca, já dormi confortavelmente nos locais mais improváveis:








quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Escritos dispersos II







Diferença entre as mulheres e os homens:


Uma mulher faz update à foto de perfil numa rede social e surgem imediatamente comentários de outras mulheres elogiando, tais como: 'linda!', ou o mais recente: 'poderosa!', que é uma forma de apoio mútuo do género feminino, face à secular opressão masculina.


Já se um 'gajo' fizer update à foto, aparecem logo outros cinco 'manos' a tecer comentários depreciativos do género: 'estás feio cumá m----', ou o clássico: 'ganda larilas!'.


Podem-se tirar várias conclusões:


A primeira é que a opressão de género continua a ser bem real, de forma que as mulheres sentem necessidade de se protegerem e os homens podem-se dar ao luxo de se oprimirem entre si.


Segunda: as mulheres são mais sensíveis e sofisticadas do que os homens, os quais ainda não saíram do quadro mental que formaram no Paleolítico Superior.


A terceira e mais simples, é a minha favorita: as mulheres são bonitas e poderosas e os homens são de facto feios cumá m----.








Fuck the Algoritm

 

Vou passar a usar este tipo de estratégia para fritar a moleirinha ao Facebook, à Amazon e ao Google.

Portanto não se admirem se nuns dias me apanharem a publicar artigos encomiásticos elogiando o Bolsonaro, e noutros me flagrarem (isto é português ou brasileiro?) a vilipendiar o Trump... se por vezes for a favor da imigração livre e sem restrições e noutras debitar um discurso racista inqualificável. Se idealizar as relações pan-amorosas e em simultâneo condenar o sexo antes do casamento. 

O objetivo será baralhar de tal forma o algoritmo, que impossibilitado de encontrar qualquer padrão que permita classificar-me, entre em completo meltdown, faça buffer-overflow, reescreva posições de memória não protegidas, lance uma exceção tão definitiva que, acabrunhado, se refugie num templo budista nos Himalaias, para tentar descobrir o sentido da vida. Zuckerberg,

Bezos, Brin & Page, you are fucked!


#FucktheAlgoritm









segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E02






“Life isn't about waiting for the storm to pass... It's about learning to dance in the rain.”


― Vivian Greene




“Morir por una religión es más simple que vivirla con plenitud; batallar en Éfeso contra las fieras es menos duro (miles de mártires oscuros lo hicieron) que ser Pablo, siervo de Jesucristo; un acto es menos que todas las horas de un hombre. La batalla y la gloria son facilidades; más ardua que la empresa de Napoleón fue la de Raskolnikov”.

― Jorge Luis Borges, El Aleph




“I've missed more than 9000 shots in my career. I've lost almost 300 games. 26 times, I've been trusted to take the game winning shot and missed. I've failed over and over and over again in my life. And that is why I succeed.”

— Michael Jordan







Agora que iniciei a preparação para o desafio extremo que são os 170 Km com 13.500 mD+ (desnível positivo) do Andorra Ultra Trail - Ronda dels Cims, sinto necessidade de rever os meus próprios conselhos para encetar uma preparação adequada à dureza desta prova.

Com esse intuito percorri aquilo que já escrevi neste blogue à procura de rever os ensinamentos da experiência passada.

A minha primeira aventura desta dimensão foi no já longínquo ano de 2012, nas 100 milhas do Ehunmilak, (Ehun = 100; milak = milhas) no País Basco. 



Desde então já completei com sucesso 5 aventuras destas:


2012: Ehunmilak, 168 km - 11.000 mD+, no País Basco.

2013: Le Grand Raid des Pyrénées, 160 km - 10.000 mD+, nos Pirinéus franceses.

2014: VCUF - Volta Cerdanya UltraFons, 214 km - 10.000 mD+, atravessando os Pirinéus espanhóis e franceses.

2015: Ultra-Trail du Mont-Blanc, a mítica prova de 170 km - 10.000 mD+, em redor do Monte Branco, atravessando 3 países: França, Itália e Suiça.

2016: EMUM - Eco Madeira UltraMaratona, 170 km - 7.113 mD+, em redor da Ilha da Madeira.
 


Recapitulemos como me preparei para esta aventuras (links para as descrições):

III Ehunmilak 2012 - Preparação - 1º Mesociclo

Le Grand Raid des Pyrénées

VCUF - Volta Cerdanya UltraFons - Prelúdio


E eis aqui um apontamento que julgo ser interessante:





Muito se afirma acerca da dureza das prova. Que a prova X é mais dura do que a prova Y, ou que a prova Z é a mais dura de todas. Quanto a mim, desde que não sejam claramente distintas, na distância, altimetria ou tipo de terreno, não é verdadeiramente possível comparar nenhuma delas entre si. O fator mais importante de todos é, e continuará sempre a ser, o fator humano. Tudo depende da qualidade da preparação prévia que eu levar para a prova, do meu estado psíquico na ocasião e da capacidade de me adaptar aos imprevistos que irão necessariamente ocorrer ao longo das 40 horas que duram uma prova destas. Para além disso temos ainda algumas variáveis extrínsecas que também tem o seu peso, como, por exemplo, a meteorologia, e a qualidade da logística que a organização coloca no terreno.

A corrida em montanha é particularmente recompensadora porque somos apenas nós, sozinhos contra a montanha. Ou melhor, temos que nos tornar amigos da montanha senão ela tritura-nos e cospe-nos fora.


Tentando destilar estas cinco experiências de uma forma condensada, eu diria o seguinte:


De acordo com os manuais, a performance desportiva pode-se explicar decompondo-a em 3 fatores fundamentais: o VO2max, ou seja, a “potência do nosso motor”, multiplicado pela nossa resistência ou endurance, que é a capacidade de mantermos um ritmo fixo a uma percentagem elevada do VO2max, e dividido pelo custo energético da nossa locomoção (relacionado com a nossa técnica de corrida).

Nas provas de Trail Ultra Endurance (> 100 km), o fator mais significativo é o endurance. Quando se progride para a distância de 100 milhas (160 km com 10.000 m de desnível positivo), ou superior, o incremento na dificuldade é muito superior ao mero incremento da distância. O maior desafio é o desnível.

Estas provas têm características únicas, que as diferenciam das corridas de estrada. A estratégia é muito mais complexa, pois é necessário avaliar um número muito maior de variáveis, tais como o tipo de terreno, as condições ambientais, o equipamento necessário (impermeável, bastões, nutrição), a alimentação, o ritmo, o descanso, o sono, etc.

Para se efetuar uma preparação adequada é necessário atacar várias frentes. Não basta treinar corrida, é essencial fazer também reforço muscular, sobretudo em esforço excêntrico (agachamentos), munirmo-nos do equipamento necessário, habituar o corpo à ingestão de calorias em prova, e visualizar claramente na mente o objetivo a atingir (endurance mental). 

Normalmente o treino divide-se em mesociclos compostos por 4 microciclos de uma semana cada. Aumenta-se a carga (distância e altimetria) em crescendo até ao 4º microciclo e depois volta-se a baixar no início do mesociclo seguinte. Isto permite uma adaptação progressiva do organismo ao esforço. A recuperação entre treinos é fundamental.

Se partirmos de uma boa base, 6 macrociclos poderão ser suficientes para nos prepararmos para um desafio destes, colocando uma média de treino de cerca de 100 km e 3 mil metros de desnível positivo por semana. 

Não é possível nem desejável simular, na sua totalidade, uma prova desta envergadura num treino. Não adianta muito realizar regularmente treinos muito longos (superiores a 5 ou 6 horas), pois corremos o risco de descurar outras componentes da preparação. O que se pode fazer, para complementar a preparação, é completar algumas Ultras nos meses anteriores (com moderação).


Como se vive uma prova de 160 km, que pode durar 40 horas?


Se a preparação física prévia tive sido corretamente feita, resta a resiliência mental. É essa capacidade que te vai levar até ao fim, por sobre todos os imprevistos que o caminho te irá necessariamente lançar pela frente. 

Planeia bem, de forma congruente com o teu treino, mas está pronto para alterar o teu plano consoante as mudanças nas condições. A dureza da prova depende das tuas circunstâncias. 

Decompõe a distância em objetivos mais curtos. De abastecimento para abastecimento. Sente o corpo. Ouve o que ele te diz. Reavalia a estratégia. Não desanimes. Tal como na vida, a seguir a uma descida aos infernos poderá estar uma subida aos céus.

Aproveita todos os abastecimentos sólidos para ingerir hidratos de carbono de libertação lenta. Normalmente o primeiro órgão que dá de si é precisamente o trato intestinal, originando perdas acentuadas de rendimento e prováveis desistências. São provas para gente de estomago forte. A alimentação tem que ser muito bem gerida pois sem combustível a fornalha não carbura.

Não introduzas em prova nada de que não tenhas já experimentado em treino, seja roupa ou alimentação.

Não corras demasiado rápido na primeira metade da prova, pois vais necessitar de todas as tuas forças para chegar ao fim. Sê conservador e adere ao teu plano, enquanto tal for possível.

Se conseguires, dorme um pouco a meio da prova, pois a segunda noite vai ser muito dura. Os teus fantasmas vão andar à solta.

O melhor conselho possível: desfruta de todo o caminho. Foca-te não só no momento da chegada, mas também no da partida, e vive cada segundo entre eles como se fosse o mais precioso, independentemente do seu conteúdo.





Enfim, estou de volta à dura rotina dos microciclos, mesociclos e macrociclos.



Eis aqui os registos de treino, até à data da minha anterior tentativa (falhada) de completar Ronda dels Cims, em Julho de 2017:

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2017