domingo, 6 de setembro de 2015

Ultra-Trail du Mont-Blanc – Uma odisseia entre Mercúrio e Plutão, uma viagem interior – Parte III














“How many roads must a man walk down before you can call him a man?”

-          Bob Dylan




Permanecemos breves 7 minutos no abastecimento, em que aproveito para beber mais uma sopinha salgada, ingerir vários gomos de laranja e paralelepípedos de banana. Desde o início já devo ter consumido uma bananeira inteira! E bebido um panelão repleto de sopa, daqueles que usam em Santa Margarida para cozinhar a sopa dos praças. Sem contar com os géis, o fast recovery, as bebidas isotónicas, as litradas de água, o quijo, o presunto. Puta que pariu esta merda toda! O que me apetecia mesmo era uma cervejinha gelada.










Encho os bidões enquanto o Nelson aguarda por mim.

Saio para a rua atrás dele e vamos caminhando devagar para que não nos dê logo ali uma tremenda indigestão. Ladeamos o lago que se nos apresenta magnífico, sob um sol radioso. Muita gente à beira da margem, alguns a tomar banho. Que inveja sinto! Tanto eu como o Nelson desejaríamos dar um valente mergulho nas águas frescas a fim de nos purificarmos do pó, do sal, do suor e do sangue do caminho.








Em lugar disso seguimos. Não se pode parar. Parar é morrer.

Somos saudados pela Maria Martins. Pergunto-lhe pelo Paulo. Diz-me que tem tido muitos problemas com vómitos. Mas lá vai seguindo. A posteriori virei a saber que teve que desistir em Vallorcine, já quase no fim do caminho, e que teve que ficar a soro. Tentou até ao fim. Bravo guerreiro!

O Nelson inicia um trote suave e eu tento acompanhá-lo o melhor que posso. Está melhor do que eu. Peço-lhe para avançar, mas ele recusa-se. Seguimos em tandem. Abandonamos Champex e preparamo-nos mentalmente para os 3 embates violentos que iremos ter que enfrentar e que sabemos estarem adiante.

Três subidas demolidoras e três descidas ainda piores.

Três moinhos de vento para bater em luta singular.

Nas palavras da organização do UTMB e do CCC:

«The second part leads to 3 heavy ascensions: Bovine, Tseppes and La Tête au vents. The long downhill parts that follow every ascension are as difficult for joints and muscles.»

Mas por ora o caminho é plano. Iremos percorrer uns bons 5 ou 6 kms por estradão antes de entrarmos no trilho vertical. Só lá para os 130 km é que começa a verdadeira provação.

Estou agora a 40 km do fim. Menos de 3.000 m de desnível positivo me separam da meta.

Que me irá acontecer nas próximas horas? Vencerei a montanha?

Só experimentando saberei.

Iniciamos a subida para Bovine e La Giete. Ainda é dia. Subimos vagarosamente. Continua a ser o Nelson quem lidera. Até a subir já começo a perder gás. Vamos sendo ultrapassados por vários atletas. Reconheço vários dos que tinha ultrapassado anteriormente. Um deles, alegremente, diz-me mesmo: “ Hey, we have seen each other all day long!”

E eu penso com os meus botões, pois é verdade, só que antes eu ultrapassava-te nas subidas e tu a mim nas descidas. Agora já estou todo fodido e tu lá vais todo lampeiro!

Devia ter treinado descidas mais longas. Mas onde, caraças? Em Sintra não há nada que se compare com isto… Poderia também ter dedicado mais tempo ao reforço muscular, mas qual tempo, fosga-se? E o tempo para trabalhar, estar com a família e ainda manter uma atividade associativa? Já para não falar no tempo para preencher outros interesses, como a leitura, a música e o cinema?

Não estica.

E para mais este ano foi ano de Half-Ironman.  Ainda necessitei nadar e treinar bicicleta de estrada. Bicicleta dá força, mas precisaria de muito mais horas em cima do selim, do que me pude dar ao luxo dispensar, para fazer a diferença.

Bem, mas chega de desculpas. Deve ser do cansaço, como dizia uma personagem célebre dos nossos reality shows. Eu nem sequer sou de desculpas, portanto fecha lá a matraca mental e toca mas é a aguentar a retranca sem tugir nem mugir e sobretudo sem parar.

A ascenção é lenta. A certa altura cruzamo-nos com o João Cruz. Está com um problema complicado na perna/pé. Tem dificuldade em assentar o pé no chão. Seguimos em trio durante vários quilómetros, sempre a dar lugar a outros que nos ultrapassam.

Mesmo assim até La Giete não caí na classificação geral. Devem ter desistido imensos atletas em Champex (mais tarde vim a saber que foram 59).

Não resisto a introduzir aqui uma prolepse (flash-forward):

A tabela de desistências foi a seguinte:







A partir de Champex já poucos tiveram que abandonar.

Suspeito que o calor, os desarranjos intestinais e o desgaste mental foram os principais responsáveis pela razia anterior.

A partir de La Giete a maioria dos Trail Runners deve ter pensado: se já cheguei até aqui, também hei-de chegar ao fim.

Ora foi exatamente isso que eu pensei quando cheguei ao abastecimento de líquidos de La Giete (uma tenda mínima com meia-dúzia de voluntários) às 20:26 de um lusco-fusco que prometia mais do que a força humana seria capaz de sublimar.








Tinha logrado subir 819 metros a um ritmo esmorecido a cerca de 3,2 km/h.

O Nelson tinha-se antecipado alguns minutos e o João tinha ficado um pouco para trás.










A partir daqui iria ser um caminho solitário aquele que eu iria percorrer, em que teria que atravessar sozinho a segunda noite, e me veria confrontado com os meus piores fantasmas.

Moisés abriu o Mar Vermelho com o bordão e a palavra de Deus.

Eu irei ter que abrir a noite a bordoadas de raiva e desespero. Mas faltam-me as barbas do profeta.

Estou em prova há exatamente 26:26:26.

O Número da Besta escondido entre os 3 Cisnes...

Já percorri 136 km, com 8.000 m D+ / 7.150 m D-. Resta pouco!!! ...iludo-me eu…

Vamos lá descer esta montanha. Consigo um trote bem lento, mas sempre é um trote.

Vou trotando, trotando, trotando, por ali abaixo. Um quilómetro… dois quilómetros… três quilómetros… preciso descer 657 m em 5 km até chegar a Trient, ainda no lado suíço.

Há que tomar uma etapa de cada vez. É o que se faz quando se aborda um problema complexo. Analisa-se, divide-se nas suas partes constituintes, disseca-se e depois volta-se a juntar tudo outra vez, numa síntese que permita modelizar o sistema por forma a atingir uma maior compreensão.

A etapa que percorro é a da descida para Trient. Tenho que ter paciência e continuar em modo lento enquanto sou ultrapassado por 19 atletas. De qualquer forma a minha luta não era pela classificação final mas sim uma guerra contra o relógio, que neste momento já se encontra completamente perdida. Converteu-se numa batalha irredutível para lograr chegar ao fim.

Entro em modo de sobrevivência.








Às 21:35 chego ao abastecimento de Trient. Estou exausto até ao limite da força humana. Necessito de 20 minutos de repouso estático, em catalepsia, para me recompor. Não consigo ingerir alimento algum. Até a água me causa náuseas e vómitos.

A tripa deve estar forrada a amianto. Não entra nada! Ainda me faltam 30 quilómetros do pior que há e não consigo alimentar-me!

A partir daqui vai ter que ser a consumir músculo. Quando iniciei a prova pesava 72 kg para 178 cm. Neste momento devo estar uns 4 kg abaixo disso. Já não tenho reservas de glicogénio no fígado e nos músculos, não tenho gordura abdominal, nada onde ir buscar energia sem ser à massa magra. Vou-me consumir pela serra acima.

Forço-me a levantar-me. Felizmente não advêm nenhuma cãibra. Visto o impermeável e saio da tenda para o fresco da noite. Ando uns metros e deparo-me com o Paulo Pires, meu antigo treinador. É uma alegria encontra-lo ali!

Generoso como sempre, pergunta-me logo como estou e se estou com dificuldades em descer. O Nelson deve tê-lo avisado. Confirmo que sim, que as descidas não estão nada fáceis. Ajuda-me a alongar e recomenda-me uma massagem nos quadricípites, nos gémeos e nos isquiotibiais, numa casa mesmo em frente a nós, que tem o apoio médico da organização.

Entro na sala e peço a massagem. Sou atendido por duas profissionais muito competentes que me dão um tratamento VIP.

Mais 20 minutos se passaram nestes arranjos, mas valem a pena a demora. Agradeço e vou falar com o João Cruz que está estendido numa maca, bastante maltratado. Está pálido, transparente que nem um fantasma e tem um indicador enfiado num daqueles aparelhos de medição da oxigenação sanguínea. Para ele este é necessariamente o fim da linha. Não tem qualquer hipótese de dar sequer mais um passo. Recomendo-lhe que não continue. São sempre decisões difíceis de tomar, para mais tendo chegado até aqui, e consigo sentir que ele está hesitante. Há situações em que o adequado é incentivar o atleta a continuar. Nitidamente este não é o caso. O mais importante é preservar a integridade física da pessoa.

Estas coisas acontecem a qualquer um. Para o ano estará de volta para a sua desforra. Desejo-lhe as melhoras e saio para a rua. Após andar uma centena de metros vejo-me forçado a remover o impermeável. Continua um tempo quente e em andamento geramos calor mais que suficiente para contrariar a (pouca) frescura da noite.

Esta subida para Catogne (Tseppes) é menos técnica que a anterior, de Bovine, mas é longa cumó camandro! Ou assim parece, pois na realidade tem o mesmo desnível, 816 m D+ em 5 km. Na verdade o que se passa é que eu cada vez me movo mais vagarosamente. Vou bebendo uns golos de água entre náuseas e vómitos, mas forço-me a andar. Uma ideia martela-me o cérebro: tenho que chegar a França! tenho que chegar a França! tenho que chegar a França!








Chego a Catogne, a 2.034 m de altitude, quase duas horas depois de ter partido de Trient. Quase duas horas para percorrer 5 quilómetros a 2,8 km/h! No meu plano isso deveria ser feito em uma hora e meia. Parece-me excessivo. Fui ultrapassado por 31 companheiros! Estou cada vez mais lento. Onde irá isto parar? Quando griparei as cabeças de todas as bielas?







A descida vai ser bem pior.

Passo por companheiros sentados à beira do caminho com o olhar perdido no vazio. Pergunto-lhes se estão bem, a que anuem levemente com a cabeça.

Serão estes as sentinelas que ladeiam o Estige, à medida que a barca de Caronte me arrasta para o fundo?

«Da descida ao Hades ninguém volta ou, pelo menos, não volta aquele que foi.»

Estará Tirésias à minha espera para me revelar a profecia? Alcançarei a tranquilidade do meu reino, mas a viagem será particularmente dura? Apenas conseguirei retornar se refrear a minha cobiça?

Fala comigo Tirésias! Revela-me o meu destino!

O meu destino é descer, descer, descer… tenho um rendez-vous com uma povoação francesa chamada Vallorcine, a 1.270 m de altitude.

Demoro quase duas horas a descer. Mais precisamente, uma hora e quarenta e sete minutos. O mesmo que tinha demorado a subir e a exatamente à mesma velocidade: 2,8 km/h!

Ou seja, estou cada vez mais perro, cada vez mais trôpego, cada vez mais irremediavelmente empenado!








Vallorcine


Entro na tenda de Vallorcine às 01:55 da noite. Venho zonzo. Necessito de me sentar rapidamente. Faço-o na primeira mesa que encontro. Fico alguns minutos a olhar o chão até conseguir recuperar o sangue frio.

Estou morto. Ou assim me sinto. Tenho que ressuscitar, tenho que ressuscitar!


«Mache dich, mein Herze, rein,
Ich will Jesum selbst begraben.
Denn er soll nunmehr in mir
Für und für
Seine süße Ruhe haben.
Welt, geh aus, lass Jesum ein!»


Volto a não conseguir ingerir nada.

Entre mim e Chamonix interpõem-se 20 km e 1.000 m D+ / 1.200 D-. Parece de pouca monta. No entanto irão ser os piores 20 km e 1.000 m D+ / 1.200 D- de toda a minha vida.


«We shall go on to the end, we shall fight in France,
we shall fight on the seas and oceans,
we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our Island, whatever the cost may be,
we shall fight on the beaches,
we shall fight on the landing grounds,
we shall fight in the fields and in the streets,
we shall fight in the hills;
we shall never surrender»








02:23. Saio da tenda. Felizmente tenho pela frente 3,7 km fáceis até Col Des Montets, em estradão e com apenas 196 m D+. Estes não têm história. Rapidamente chego ao sopé da montanha, a 1.466 m de altitude.

Agora é que vão ser elas! Consigo divisar perfeitamente a coluna de pirilampos que sobem pela encosta, inclinadíssima.








Trata-se de vencer o Maciço Des Aiguilles Rouges, obrigá-lo a conceder-nos direito de passagem para o Vale de Chamonix, dobrar a sua vontade ao nosso querer. Ou o domamos ou é ele que nos subjuga.

No remoto Outono de 218 A.C. Aníbal cometeu a incrível proeza de fazer passar um exército inteiro, composto por 40 mil soldados, cavaleiros, bestas de carga, carroças e equipamento e ainda 27 elefantes de combate, atravessando sinuosamente por trilhos pedregosos, perigosamente empoleirado sobre vertentes escorregadias, desde a Gália até ao Vale do Pó, na Península Itálica. Esse enorme feito irá ecoar pelos anais da história até ao fim dos tempos.

Desejo emular este herói antigo, mas à minha pequena e humilde escala.

Não pode haver hesitações. Tenho que acabar aquilo que comecei!

Inicio a ascensão. Começa fácil mas cedo inclina desmesuradamente. São 661 m D+ em 4 kms, mas mesmo esta medida é enganadora, pois o desnível está sobretudo concentrado nos primeiros 2 kms. E que desnível! O terreno é o mais técnico que apanhei até agora nesta prova.

Para vencer os degraus irregulares de rocha, cada qual do tamanho de um Everest, é necessário alçar a perna bem alto, enquanto se crava com força os bastões no solo. É uma subida a tração total, todo-o-terreno, feita de esforço bruto, cavalo de carga em lugar de cabra montesa. Alimária estupidificada pelo destroçar da alma.



De dia seria assim. De noite é pior.


De dia seria assim. De noite é pior.



UTMB 2014



Ascensão efectuada no limiar da rabdomiólise. Não tenho mais nada para entregar ao Ciclo de Krebs senão a minha alma.






Cada passo parece exigir uma reserva de energia que eu não sei de onde vem.

ATP?! ADP?! Onde estais que tanto preciso de vós?


“Eli, Eli, lemá sabachtáni?” - Mateus 27:46


Quero descer para o vale, a caminho de Chamonix e não subir ao céu. Céu e inferno começam a confundir-se. Subir… descer…  descer… subir… as cores são as mesmas: o negrume da noite. A destruição da alma.

O horror! O horror! O coração das trevas.

Mefistófeles, Belzebu. Anjo caído. Asas arrancadas. Fogo dos infernos.

Recordo-me das palavras do Bob Dylan: “How many roads must a man walk down before you can call him a man”

Hei-de subir nem que me caiam todos os dentes, me saltem todas as unhas, me esfolem toda a pele!

Após 3 horas de subida ininterrupta chego enfim a Tête aux Vents.






São agora 05:33 da madrugada. Dentro de uma hora irá ter inicio o amanhecer.

Aquilo que eu mais temia tinha-se concretizado. Vou atravessar mesmo uma segunda noite e desaguar na manhã do segundo dia.











Inicio a penúltima etapa: a descida de 274 m em 3 km para La Flégere. Dito assim parece fácil. Um passeio. Só que não é. O terreno continua a ser extremamente técnico. Pedra e mais pedra e mais pedra! E para as minhas pernas pulverizadas descer os calhaus ainda é mais difícil do que subir. Em várias ocasiões me vejo forçado a passar pela experiência humilhante de descer de costas, escorregando pela rocha enquanto me agarro com as mãos onde posso. Não há forma de dobrar os joelhos mais do que 5 ou 6 graus. Precisaria de conseguir pelo menos 45 graus de amplitude.

Vou progredindo com uma enorme lentidão, despendendo um esforço titânico. Cerro os dentes. Sou ultrapassado por mais 55 Trail runners nestes escassos 3 km. Sou um dos elefantes de Aníbal, lento, pesado, dormente.




UTMB 2014: Iker e Tofol



La Flégere


Ao fim de uma eternidade chego enfim ao abastecimento de La Flégere (no alto do teleférico). Lá dentro estão apenas outros dois companheiros. Repouso durante uns dez minutos a ganhar coragem para os 8 km que faltam. E sobretudo para os 928 m de descida a que não me posso furtar.

São 07:10 de uma manhã radiosa. Estou há 35:33 em prova. Em condições normais seria possível cumprir esta descida numa hora e doze minutos. É o que consta no meu plano. Escrutino a folha de papel com um ar atónito.

De há muito que já só ambiciono chegar à meta.

Ponho-me a caminho. Desço a caminhar. Não ouso mais do que isto. Os músculos pura e simplesmente não respondem mais ao sistema nervoso central.

Continuo a ser ultrapassado por gente aos magotes. Muitos japoneses. Todos de pequena estatura, todos concentrados no que estão a fazer.

Outros camaradas me passam, velozes que nem setas, a um ritmo vertiginoso de quem teria ouvido o tiro de partida há apenas meia-dúzia de quilómetros atrás. Neste curto troço sou ultrapassado por 114 atletas. Reconheço e saúdo alguns portugueses. Estou genuinamente feliz por eles irem terminar a prova. Oxalá a Armada Lusa arribe incólume a bom porto. Perderemos alguns bravos marinheiros pelo caminho, ao longo da rota para Calecute, mas o objetivo final será alcançado. Desbravaremos novos mundos para a coroa portuguesa.

Passo pelo Chalet de La Floria. As placas pedestres indicam cerca de uma hora até Chamonix. Envio um sms para a minha mulher para a avisar que estou quase.

Continuo a descer. Desço e desço e desço. Chamonix vai subindo para mim indolente e langorosa. Sou uma gota que escorrega lentamente para a foz.



Foto Strava



Finalmente saio do bosque e entro na estrada à entrada de Chamonix. Mais uma curta volta pela cidade e arribo à reta na Rua Joseph Vallot, onde me espera a minha família. Sinto uma alegria e um alívio imenso ao vê-los. Acompanham-me na travessia das últimas centenas de metros. A rua está ladeada por uma multidão que assiste e bate palmas. É a vantagem de se chegar durante o dia: temos muito público a assistir e a encorajar-nos nestes metros finais.







Ensaio um trote muito esforçado. Tenho que chegar em corrida, que diabo!

Dobro o Cabo da Boa Esperança e entro na reta da Meta às 09:24. Está à vista! Resta ultrapassá-la com a réstia de dignidade que me sobra.











Está feito!!!
















Chamonix


O Pedro Portugal recebe-me na meta.

Sou finisher da maior epopeia desportiva que vivi até hoje! Pelo menos aquela que mais me custou a completar.

Beijos, abraços, fotografia para a posteridade. Recolha do colete de Finisher.










Vou buscar o saco com a roupa de Courmayeur.

Voltamos para casa a fim de ingerir finalmente uma boa refeição e tomar um banho retemperador.

Esse almoço soube-me ao melhor de toda a minha vida. O famoso néctar dos deuses.

De seguida banho.

Dispo-me e coloco-me debaixo do chuveiro com água balsâmica a correr sobre o meu corpo destroçado.

Repentinamente sou assolado por todo o enjoo, toda a náusea, todo o cansaço, toda a emoção que tinha coriaceamente contido até agora.

É como um dique que rebenta e solta uma cascata descontrolada para o fundo do vale.

Choro incontrolavelmente.

Ondas de dor varrem-me o corpo.

Vou cair desamparado, sinto-o.

Grito pelo nome da minha mulher que acorre a socorrer-me.

Ajuda-me a sentar-me e envolve-me numa toalha e num apertado abraço protetor.

Choro, choro, choro durante uma eternidade.

Até que por fim a descarga emocional passa, arrastando consigo a dor e a náusea, para longe de mim.

Sobrevivi.













Existe um segredo para o Trail de Ultra Endurance? Uma fórmula mágica?

Sim, existe. É a mesma chave que abre a porta da vida.

É o seguinte:

Percorre o caminho com um sorriso nos lábios.






8 comentários:

  1. Grande epopeia que deve ter sido! Parabéns!

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  2. Brutal, espectacular, inspirador. Nem sei o que dizer mais. Muitos, muitos parabéns, e obrigado!

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  3. "Mais do que ser primeiro
    Herói é quem
    Sabe dar-se inteiro
    E dentro de si mesmo, ir mais além."
    Escrito por Manuel Alegre, dedicado a Carlos Lopes e que na minha opinião sumariza bem a tua pessoa nestas aventuras. Brilhante!

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    1. Grande Ricardo! Muito obrigado pelo comentário muito poético. Gostei. Abraço.

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  4. Emocionante, inspirador e uma lição para a vida. Obrigado pela partilha.

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    1. Muito obrigado amigo João. A tua opinião é muito importante para mim.

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