sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ultra-Trail du Mont-Blanc – Uma odisseia entre Mercúrio e Plutão, uma viagem interior – Parte II














“L'esprit avance sur le chemin de la douleur”
          Dominique Simoncini



Arnuva.

Depois da subida aos céus, a descida aos infernos...






São 11:39 de uma manhã escaldante. Estou há 17:39 horas em prova.

Pela primeira vez encho a mochila de hidratação com 1 litro de água. Até aqui os dois soft flasks de 500 ml que trago comigo têm bastado, no entanto de acordo com o mapa terei agora que vencer a subida ao Grand Col Ferret sob o sol inclemente e percorrer 14 km sem encontrar qualquer abastecimento. Não sei se encontrarei algum regato neste troço, ou se o ponto intermédio em La Peule terá água mas não quero arriscar. É mais um kg que se carrega às costas, mas com a hidratação todo o cuidado é pouco!

Saio em direção ao Grand Col Ferret, fronteira entre a Itália e a Suiça, entre o Vale Ferret italiano e o Vale Ferret Suiço.









“O passo Ferret é um colo a 2 537 m de altitude, no maciço do Monte Branco, que liga Courmayeur no vale de Aosta a Orsières na cantão suíço do Valais. Geograficamente o colo liga o vale Ferret dos dois países.
- Wikipedia




Vale Ferret em Itália





Começo a subir. O Grand Col Ferret aguarda por mim irónico, com um sorriso escarninho nos lábios, ferozmente decidido a defender o acesso ao Cantão do Valais na Suiça.








Uma vez mais uma fila de exploradores indómitos se lança pela montanha acima. Ninguém corre. Todos andam, de cabeça baixa, numa lenta, longa e resignada marcha.







Passamos do lado direito do Refuge Elena e infletimos para a direita, onde o terreno se empina assustadoramente.






Subo já bem mais lento, a 3,1 km/h. Mesmo assim ultrapasso companheiros. Estão todos destroçados como eu. Ou então poupam-se para os desafios que ainda se avizinham.












Chego lá acima às 13:05. Continuo com 20 minutos de atraso. Os primeiros hão de ter passado aqui ao amanhecer, cerca das 06:30. Ou seja, com pouco mais de 6 horas e meia de avanço em relação a mim. Após 19 horas de prova não me parece nada mau para um empenado que já viu a Terra rodar em torno do Sol 47 vezes, como eu.







Aqui no alto está mais fresco. A vista é magnífica mas não me posso demorar para não arrefecer. Ingiro um gel, e inicio a descida para La Fouly. Estou em território suíço!







Custa-me a descer. Inicio um trote vacilante e sigo para baixo. Vou sendo ultrapassado por vários daqueles que ultrapassei na subida. Teremos que descer 1.073 m em 10 km até ao próximo abastecimento de sólidos, em La Fouly. Mil e setenta e três metros, assim por extenso!  Um quilómetro vertical a descer, sob o sol abrasador que nos vai aquecendo à medida que descemos no vale enquanto a temperatura vai aumentando impiedosamente. Isto já com 101 km e 6.500 D+ / 5.000 D- de carga em todo o sistema musculo-esqueletico e neuro-motor.









Estou acordado desde as 9 horas da manhã de 6ª feira. Já passam das 13:30 de sábado quando chego ao abastecimento intermédio de líquidos em La Peule. Ou seja, já estou desperto há mais de 28 horas. Julgo que essa é uma das razões porque desejo acabar em menos de 32 horas: para não entrar por mais uma madrugada dentro. Recordo-me bem como isso me afetou em 2012 nas 100 milhas do Ehunmilak e não desejo voltar a passar pela mesma experiência: a dor, o frio gélido de um corpo demasiado esgotado para gerar calor, a vertigem, a náusea, o chão que vibra e salta com vontade própria, o olhar vidrado, a mente obnubilada. Quero evitar isso tudo.

No abastecimento aproveito para encher os soft flasks e enfiar a cabeça debaixo de um chuveiro misericordioso que a organização colocou à nossa disposição. O meu cérebro já estava a ponto de se evaporar pelas narinas, não fora esta miraculosa intervenção.

E pronto, volto a colocar-me em movimento, que quanto mais me demorar mais se agiganta a terrível possibilidade de me ver obrigado a gerir mais uma madrugada.

La Fouly é uma miragem que tarda a materializar-se. Primeiro é necessário dar muitas voltas, descer e voltar a subir quando já estava certo de que o caminho seria sempre para baixo. São apenas 148 positivos intercalados com os 630 negativos que faltam, mas parecem 500 porque me afastam do destino. Quero descer para o vale, a caminho de do Oasis de Champex Lac e não subir novamente ao céu.





Pelo caminho passo pelo amigo Alexandre Cunha, que me parece fisicamente bem mais fresco do que eu mas que está com problemas complicados nos pés.

Por fim desembocamos num estradão paralelo ao rio que percorre todo o vale, a Dranse de Ferret, atravessamos uma ponte para a margem direita e entramos numa estrada alcatroada.

Seguimos a trote esforçado, 3 ou 4 Trail Runners que tentam esconder uns dos outros o desgaste físico, o esgotamento moral, o cheiro iminente a amarga derrota.

À entrada da Vila sou alegremente saudado pelo mesmo grupo de portugueses que já me tinha feito uma festa em Courmayeur. A primeira coisa que vislumbro por entre a gritaria é a nossa querida bandeira nacional. É uma visão arrebatadora. Cheira a família, cheira a amigos, cheira a mar e praia, a cerveja ao luar e tinto com farinheira. Cheira a casa neste cantão longínquo de uma terra bárbara.
Lanço-me para a frente renovado. Entro no abastecimento e recomponho-me o melhor que posso. A farinheira e o tinto esfumam-se em geis, bananas e sopa salgada.  São 14:41. Tenho apenas 33 minutos de atraso em relação ao plano. Nada está perdido! A segunda madrugada ainda é evitável.

Agora vamos continuar a descer até Praz de Fort, mais 690 m em 9 km, antes de iniciarmos a subida para Champex Lac.









A certo ponto do caminho sou alcançado pelo companheiro Nelson Sousa. É a terceira vez que me cruzo com ele. A primeira em La Balme, muitas horas atrás, a segunda na subida para Bertone e agora esta. Resolvemos seguir ao mesmo ritmo. Eu estou mais forte nas subidas mas ele está melhor nas descidas. Agora puxa ele por mim. Faz-me bem elevar o ritmo, que já andava próximo do caracol. Vamos progredindo no seio de um calor intenso. Bebo como um cavalo. O que me aguenta são as pastilhas de sais que vou dissolvendo em água.

Vamos conversando e os quilómetros vão passando mais ligeiros.

Chegados ao fundo do vale, atravessamos a vila de Issert onde os locais nos fazem uma festa e nos dão água a beber.










Agora há que subir 445 m até ao lago. Entramos na floresta e em trilhos raiados de raízes e degraus de terra.

Aqui puxo eu. E toca a subir. A subir ainda estou relativamente bem. São 5 km até Champex. Bute!

A floresta é mágica, com estátuas de animais entalhados na madeira em cada curva.

Às 17h e pouco começamos a ouvir a algazarra vinda de cima. Atravessamos uma estrada de alcatrão. Subimos um curto estradão e finalmente entramos na enorme tenda de Champex Lac.



Champex-Lac











São agora 17:27, passaram 23:26 desde o início desta odisseia, e já lá vão 125 km com 7.300 D+ / 6.800 D-. Confirmo no relógio. Tenho agora 54 minutos de atraso em relação ao plano. Raios! Estou a fraquejar. Por este andar vou fazer 33 horas de tempo final…



Diferença para o plano em horas





… mal sabia eu o quanto essa previsão iria sair gorada e o calvário que me esperava durante as próximas longas e excruciantes horas. 

Se fizerem o obséquio de ter a paciência de me escutar até ao fim, irão ouvir o relato de alguém que desceu na barca de Caronte pelas águas do Estige até ao Hades, e como de lá regressou.





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