Fecha os olhos para não seres cego
“Fecha os olhos para não seres cego.”
Vergílio Ferreira, Pensar
À primeira leitura, a frase parece contraditória. Como pode fechar os olhos evitar a cegueira? Mas é justamente na contradição que Vergílio Ferreira abre caminho para a reflexão.
Vivemos num tempo em que a visão está saturada. Notificações, redes sociais, telejornais, opiniões instantâneas, desinformação mascarada de verdade — tudo compete pela nossa atenção. Olhar demasiado para esse espetáculo contínuo é, paradoxalmente, perder a clareza. Ficamos cegos pelo excesso de imagens, de ruídos, de discursos que se atropelam.
A cegueira da saturação
Ser cego não é apenas não ver — é também não conseguir discernir. E hoje, mais do que nunca, corremos esse risco. Quando todos gritam, deixamos de distinguir vozes. Quando todos opinam, deixamos de ouvir argumentos. O excesso não ilumina; confunde.
O ato de fechar os olhos
Fechar os olhos, então, é um gesto de resistência. É recusar a avalanche de estímulos para regressar ao silêncio. É permitir que a mente respire. Só nesse recolhimento é possível distinguir o essencial do acessório, a verdade da manipulação.
Fechar os olhos não significa alienar-se — significa criar um espaço para ver melhor. A lucidez, hoje, talvez exija exatamente esse passo atrás: desligar os ecrãs, abstrair-se da corrente ruidosa, ouvir o silêncio interior.
Ver melhor
Talvez seja isso que Vergílio Ferreira sugere: que, num mundo saturado de visões superficiais, só quem fecha os olhos pode realmente abrir-se à visão profunda. Só na pausa, no recolhimento, conseguimos pensar com clareza. E só então deixamos de ser cegos.
“Fecha os olhos para não seres cego.” — Vergílio Ferreira
Comentários
Enviar um comentário