Floreiras servem para pôr flores

Um prédio em corte ao anoitecer, com uma história por andar: a música da vizinha a subir pelo teto, a reunião de condóminos com os pés na água e as raízes de um arbusto a descer pelo tubo das águas pluviais.

Crónica de um prédio, andar a andar.

Num prédio não se escolhem os vizinhos. Herdam-se, como os canos. Partilhamos com eles paredes, garagem, um fundo de reserva e, sobretudo, o barulho. Ao fim de uns anos conhecemo-los melhor do que a alguns primos, sem nunca termos jantado com nenhum.

O 5.º andar

A vizinha do 5.º é a conversa do prédio. Em todas as reuniões de condóminos em que aparece gente nova, alguém pergunta “o que se passa com a senhora?”. Os veteranos contam então, com o gosto de quem já contou muitas vezes, que a própria irmã a tentou internar e não conseguiu. E que um dia alguém lhe furou os quatro pneus do carro, e ela saiu da garagem assim mesmo, em cima das jantes, a deitar faíscas pela rampa.

Ouve mal e por isso põe a música alta. Gosta de a pôr às horas mortas da noite, e o quarto da minha filha fica mesmo por cima.

Uma noite desci e bati à porta. Do outro lado senti uma presença a olhar pelo buraco da fechadura. Ninguém abriu, mas a música parou. Achei que tinha ganho.

Na vez seguinte bati e a música não parou. Abriu-se a porta e a senhora saiu disparada, de braço no ar, pronta para me bater. Fiquei quieto. Ela parou a um metro de mim, olhou-me, deu meia-volta e voltou para dentro. No patamar, o vizinho da porta ao lado espreitava pela frincha. Só disse: “Essa bêbada!” E fechou a porta.

Gritava da janela a quem passava: “Seus burros!” Havia dias em que se arrastava pelos corredores e outros em que ninguém tinha sossego. Chegou a bater numa empregada da limpeza. E no entanto, segundo a funcionária da empresa que gere o condomínio, pagava sempre a horas e ligava todos os dias para o escritório com perguntas. Um dia ligou a dizer que tinham roubado a casa de cima. Na língua dela, “roubar” queria dizer que alguém tinha removido todo um andar que agora era um espaço vazio.

Um dia deixámos de a ver. Talvez tenha sido internada. A música acabou, e com ela o tema de conversa das reuniões. Às vezes, à noite, dou por mim a reparar no silêncio.

O vizinho das cadeiras

O homem que disse “essa bêbada!” também tinha a sua história comigo. Uma noite bateu-me à porta aos gritos: eu andava a arrastar móveis por cima do quarto dele a horas impróprias. Fiquei sem perceber nada, até perceber: eram as cadeiras da cozinha.

No dia seguinte comprei feltros para as pernas das cadeiras. Ele deve ter passado meses a ranger os dentes na cama, a contar cadeiradas, até que um dia rebentou. Nunca o tinha visto assim, nem antes nem depois.

O vizinho do lado

O vizinho do lado é um senhor de idade, muito educado. Cumprimenta-me sempre que me vê e pergunta pelos meus pais. A mulher deixou-o por causa da paranoia.

Uma manhã encontrei um manifesto enfiado por baixo da porta. Explicava como o MI5 e os serviços secretos o perseguiam, lhe punham escutas em casa e o tinham por uma ameaça, porque ele sabia demais sobre certas conspirações. Para mais pormenores, mandava ler o blogue dele. Fui ler. Estava lá o meu nome: “Na casa do LF colocaram aparelhos que lançam radiação eletromagnética para o meu apartamento.”

Continuamos a cruzar-nos no corredor e a cumprimentar-nos com toda a cordialidade. Ele pergunta pelos meus pais. Eu pergunto como vai ele. Nenhum de nós fala da radiação.

O vizinho de cima

O vizinho de cima é carrancudo. Uma vez viu os meus filhos lá em cima, sobre a casa das máquinas, de onde se via o terraço dele, e não gostou nada.

Calhou no dia de anos da minha filha. A família foi-se embora e eu fui correr. Quando voltei, tinha à porta de casa a escada que eu usava para subir do meu terraço para a casa das máquinas. Não chegou lá sozinha.

Tomei banho, subi e toquei à campainha. Perguntei-lhe porque tinha feito aquilo. Exaltou-se: tinha filhos pequenos e não queria ninguém a espreitar o terraço dele. O terraço dele, diga-se, tem vista para o meu. Respondi que não podia tirar coisas da minha casa. Ficou ainda mais exaltado, disse que qualquer dia alguém levava um tiro e fechou-me a porta na cara.

Pouco depois foi a mulher dele que me bateu à porta. Disse que ele tinha bebido demais, mas que eu não podia subir à casa das máquinas. Respondi que talvez tivesse razão, mas que isso se resolvia a conversar, e não a mexer nas minhas coisas. Prometi não voltar a subir.

No dia seguinte foi ele próprio pedir-me desculpa. Respeitei-lhe o gesto.

Nunca cheguei a levar um tiro.

A garagem

O vizinho do prédio em frente tem dois lugares de estacionamento ao lado dos meus e três Mercedes: um fogareiro, um desportivo topo de gama e uma carrinha Vito. O filho anda no desportivo. Um dia apanhei-o com a carrinha num dos meus lugares, a estender roupa de feira.

O terceiro Mercedes não tem lugar fixo. Tem os nossos.

Ordem de trabalhos, ponto único: as águas pluviais

Os tubos das águas pluviais do condomínio vivem entupidos. Chega a época das chuvas e há anos em que a água entra pelas casas dentro.

Um ano descobriu-se a causa, ou parte dela: as raízes dos arbustos que alguns condóminos tinham plantado nas floreiras tinham entrado pelos canos. Discutiu-se o assunto em assembleia, longamente, como se discute tudo em assembleia. Ninguém foi responsabilizado. O custo foi dividido por todos e reforçou-se o fundo de reserva. Decidiu-se ainda, por maioria, que nas floreiras só podia haver flores. Ficou escrito na ata, como quem descobre a pólvora: floreiras servem para pôr flores.

No ano seguinte os canos voltaram a entupir.

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