quinta-feira, 7 de maio de 2015

De Vela até aos Açores



Bénéteau First 24, La Licorne


Bénéteau First 24, La Licorne.


Horta, Faial




A sanidade mental é uma defesa orquestrada pela mente para sobreviver à condição humana



Não me recordo ao certo do ano, mas terá sido por volta do verão quente de 1999.



Desde 1997 que eu estava inscrito nas aulas de natação na recém-inaugurada Piscina do Estádio Universitário de Lisboa.

Cedo tinha confidenciado à minha professora, a Paula Bettencourt, que um sonho antigo meu seria atravessar o mar num veleiro.

Uma manhã igual a qualquer outra, vindo do nada, a Paula lança-me um desafio: "Tenho uns amigos que vão partir de veleiro amanhã de madrugada de Vila Moura em direção à ilha do Faial, nos Açores. Falta-lhes um elemento para completarem a tripulação. Queres ir?"

Não precisei de mais de 2 segundos para decidir que uma oportunidade destas surge apenas uma vez na vida.

Às 15h já estava a caminho do Algarve.

Ao fim da tarde chegámos e fui apresentado aos restantes elementos da tripulação: O Carlos Borges, skipper experiente e um personagem fora do vulgar. E dois irmãos, o António e o Carlos, um deles cirurgião e o outro arquiteto, ambos da família Teixeira Duarte.

Apresentaram-me o veleiro. Quando o vi fiquei surpreendido pela sua dimensão exígua. Afinal tratava-se de uma nau de 24 pés, ou seja, cerca de 7,3 metros, com lotação para 4 tripulantes.

Seria nesta casca de noz que iríamos arrostar com as intempéries do Oceano Atlântico, caso nos cruzássemos com alguma.



O Borges encarregou-me a mim e ao Carlos de irmos ao super-mercado comprar provisões baseados numa lista elaborada por ele e numa estimativa de 8 dias no mar.

Felizmente o Carlos provou ser um individuo sensato e assim comprou em dobro aquilo que o Borges tinha indicado. Seja como for, cerca de 50% dos "abastecimentos" consistiam em garrafas de Scotch e de cerveja. Em breve eu iria constatar a razão de ser de tamanha quantidade de álcool.

Arrumámos as provisões no veleiro e fomos dormitar um pouco.

Bem cedo de madrugada levantámo-nos do calor dos lençóis e preparámos o veleiro para zarpar. Iriam passar muitos dias antes que voltássemos a  sentir o conforto de uma cama lavada.

Às 5 horas estávamos a sair da marina, a caminho do cabo de S. Vicente em Sagres. A excitação da viagem era palpável no ânimo da tripulação.

Demorámos um dia inteiro até lá chegar, navegando sempre nas águas calmas do prolongamento do Mar Mediterrâneo.

A aventura começou verdadeiramente quando dobrámos o cabo e entrámos nas águas revoltas do Oceano. O La Licorne começou a saltar endemoninhado nas ondas que lhe batiam de frente. Quase imediatamente comecei a sentir-me extremamente enjoado. O estomago deixou de conter qualquer alimento, sólido ou líquido.

Passei pelas 3 fases do enjoo. Primeiro sentimo-nos simplesmente muito enjoados. Depois temos medo de morrer em breve. Ao fim de várias horas passamos a ter medo de nunca mais morrer.

24 horas assim são um suplício digno da imaginação de um torcionário de nível mundial, de um Torquemada ou de um Dr. Mengele.

Felizmente na manhã do dia seguinte a borrasca nas minha entranhas tinha milagrosamente passado, para não mais voltar.




Como se processa a vida a bordo?

Como somos quatro, fazemos turnos de 2 horas cada um ao leme, dia e noite.

Entendam-me bem: eu nunca tinha sequer posto os pés num veleiro em toda a minha vida, quanto mais navegar no Oceano. Tive que aprender rapidamente. Na verdade, dos meus 4 companheiros apenas o Skipper tinha experiência de mar. O André tinha um 420 com o qual fazia uns passeios junto à costa, mas em termos de experiência era tudo.

Por vezes é necessário içar o Estai (vela), noutras é preciso rizar a vela grande ou caçar a Genoa. Cambar (mudar de direção). Andar à bolina é ir contra o vento, algo que as velas triangulares permitem fazer.

Na verdade um veleiro moderno não é empurrado pelo vento, mas sim puxado, socorrendo-se do mesmo fenómeno que sucede na asa de um avião. A configuração das velas obriga o ar a ganhar velocidade na face anterior, o que diminui a pressão nessa face e aumenta na outra. É o diferencial destas duas pressões que origina a força motriz que desloca o veleiro.

Na maior parte do tempo não se faz rigorosamente nada a não ser olhar para o infinito ou conversar com os companheiros. Num veleiro de 7 metros não existe nenhum sítio para onde ir. Não temos outro remédio senão entendermo-nos bem com os restantes membros da tripulação.

Ao fim de alguns dias no mar já conhecemos a história de vida dos companheiros de trás para a frente. Apercebi-me rapidamente que esta é a razão de ser de tanto álcool a bordo. Não há mesmo muito para fazer a não ser beber.

Uma madrugada, quando estava eu ao leme e os companheiros estavam na cabina a dormir, sou cumprimentado pelo Borges que assoma à escotilha com uma garrafa de cerveja na mão. Bebe-a de um trago e pega numa fatia de pão de forma branco que ingere rapidamente. Subitamente vejo-o a mudar de cor. Mal tem tempo de se atirar à amurada e vomitar borda fora. Depois, mais recomposto, vira-se para mim com o ar mais sério do mundo: “esta fatia de pão branco deve-me ter feito mal…”

O veleiro é o mais minimalista possível. Por dento está todo descarnado. Não temos luz de presença por falta de bateria. Existe um pequeno motor fora de borda, mas gasolina é que não há muita.




Interior descarnado do La Licorne



Felizmente já se navega por GPS, mas o Borges continua a tomar nota nas cartas marítimas regularmente da nossa posição através de métodos mais ancestrais, recorrendo ao sextante, por segurança.

Nos primeiros dias sentimos sempre vento de oeste. Vamos navegando sempre à bolina, a um ritmo de tartaruga marinha, uns 4 ou 5 nós. Os 8 dias de viagem já parecem uma miragem.

Por vezes ocorre um incidente para animar a viagem. Um deles foi particularmente crítico, quando o Borges resolveu correr pelo tombadilho e escorregou caindo dentro de água. Apesar de irmos apenas a uns 5 nós, é impressionante a rapidez com que o La Licorne se afasta dele. O que há a fazer numa situação destas é garantir que um elemento da tripulação fixa permanentemente o homem que é necessário salvar enquanto os restantes executam a manobra do oito. Consegue-se assim que o navio passe junto ao sinistrado e então lança-se um cabo ou uma boia que ele agarra. 

Graças à (pouca) experiência do António, conseguimos recuperar o Borges. Suámos frio, não só pelo Borges mas por todos nós. Sem o Borges estávamos todos tramados. Não conseguiríamos navegar o veleiro a bom porto.

Noutra ocasião levámos em cheio com uma tempestade aterradora. Vento, chuva e ondas enormes durante horas seguidas. A visibilidade era tão má que da popa, onde nos encontrávamos os quatro bem juntinhos, não se conseguia ver a proa.

E quando é necessário deslocarmo-nos à proa para caçar o Estai, no meio de ondas de 6 metros? Nunca nenhum de nós se furtou a essa manobra e penso que isso foi essencial para ganharmos o respeito uns dos outros.

No mar surgem necessariamente conflitos, sobretudo em situações de grande stress. O respeito dos membros da tripulação uns pelos outros e a grande dependência que se cria são fundamentais para sanar as diferenças que surgirem. É muito importante que em determinadas ocasiões seja possível insultarmo-nos mutuamente, a fim de libertar a tensão.

Hoje em dia as empresas recorrem muito a boot camps para team-building. Garanto-vos que 13 dias no mar a arrostar com todo o espectro de condições meteorológicas, desde intempéries até calmaria, forja um espírito de equipa muito mais real.

No dia seguinte à tempestade, o mar parecia a planície alentejana, com montes a perder de vista. Largas ondas, muito lisas. É um fenómeno fascinante que nunca mais esquecerei.

E de facto, depois da tempestade lá estava a bonança. Durante dois dias inteiros não soprou a menor brisa. O sol torrava-nos a mioleira e o veleiro não saia do mesmo ponto, velas murchas, caídas. Perguntamo-nos se o vento chegará algum dia.

Aproveitámos para mergulhar no azul profundo do Oceano. É uma sensação única nadar numa coluna de água com alguns quilómetros de profundidade. A água da corrente do golfo é tépida, agradável.

O vento chegou novamente e com ele veio a chuva. Sentei-me à proa a levar com a chuva fria que caía de cima e com as ondas quentes que batiam na proa. Passei vários dias encharcado até aos ossos, em salmoura.

Ou torrávamos ao sol, ou vivíamos encharcados de água. Não havia meio-termo.

Por vezes passavam por nós grupos de golfinhos brincalhões, tartarugas marinhas e até um ou dois tubarões.
Lixo, também nos cruzávamos com bastante lixo, o que nos entristecia.

Ocasionalmente passava rápido à distância um enorme cargueiro, carregadinho de contentores.

De noite tínhamos que ter particular cuidado em não ser esmagados por um desses monstros. Apontávamos à vela com uma lanterna a fim de sermos vistos.

Ao fim de 12 dias finalmente avistámos a ilha de S. Miguel. Primeiro uma ténue sombra à distância. Depois foi crescendo ao longo do dia até finalmente passarmos ao largo. O objetivo era o Faial.

No entanto, bem antes de chegarmos ao nosso destino fomos confrontados por uma das célebres tempestades do canal. Novamente ondas do tamanho de pequenos prédios.

Apressámo-nos a fazer meia-volta em direção a S. Miguel. Sobreviver a uma tempestade já é uma sorte. Duas é uma improbabilidade.

Foi com indisfarçável alívio que atracámos em Ponta Delgada. Durante as horas seguintes continuei a senti o chão debaixo de mim a oscilar com as ondas. Que sensação estranha!

O André e o João decidiram ficar em S. Miguel. Apenas eu e o Borges e um irmão deles que nos esperava, o Pedro, seguiríamos para o Faial na madrugada do dia seguinte.

E assim foi, desta feita sem qualquer incidente, tendo finalmente atracado na famosa marina da Horta, após 13 dias de mar.



O Pedro e Borges no La Licorne, Faial



Marina da Horta





Ainda tive tempo de beber umas cervejas com o Borges no famoso Peter’s do Faial antes de apanhar o avião para Lisboa.




Eu a meio e o Borges à Direita.


Peter's


Ilha do Pico


Foi uma experiência estranhíssima fazer em sentido inverso em apenas duas horas a mesma viagem que tinha durado 13 dias…

A minha mulher, Helena, veio esperar-me ao aeroporto e assim que nos metemos no carro e entrámos na rotunda do aeroporto, eu ia sofrendo uma apoplexia. Os automóveis pareciam estar todos a precipitarem-se vertiginosamente para cima de mim. Foi mais assustador do que duas semanas no mar.

Toda a experiência lentificou a minha perceção do tempo e só após alguns dias, muito lentamente voltei ao habitual.


Tenho saudades daquela experiência de grande contemplação e meditação interior. Nas nossas vidas é raro termos oportunidade de estacar para apenas olhar o infinito. 







Eis aqui um vídeo de um Bénéteau First 24:







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