Trail Running em Portugal: Uma História de Montanha, Resistência e Comunidade
"Ver 2000 pessoas a correr 170 km sem parar foi o primeiro passo para começar a olhar para o Trail Running de outra forma. Sentir a liberdade, descobrir novos…"
"Ver 2000 pessoas a correr 170 km sem parar foi o primeiro passo para começar a olhar para o Trail Running de outra forma. Sentir a liberdade, descobrir novos trilhos e paisagens; tentar ir mais longe, para lá do limite." - Carlos Sá
Trail Running em Portugal:
Uma História de Montanha,
Resistência e Comunidade
Das corridas de montanha da FPME em 1998 à consagração internacional em dois Campeonatos do Mundo — uma síntese pessoal sobre a evolução da modalidade em Portugal.
2009–2015
em 2020
2019
2019
em solo português
2024
- Declaração de interesses
- Nota Metodológica
- Fontes audiovisuais
- Nota Introdutória
- Contexto Global
- Raízes Portuguesas
- Corridas de Montanha
- A Primeira Vaga
- A Explosão (2010–2016)
- Crescimento e Dados
- Provas Icónicas
- Atletas e Protagonistas
- Corpo, Mente, Nutrição e Equipamento
- Cultura e Território
- Os Voluntários
- Ecossistema Amador
- Incêndios de 2017
- Cronologia
- Estatísticas
- Lacunas e Perspectivas
- Nota Final
- Referências
Declaração de Interesses
Sou cofundador da Associação de Trail Running de Portugal (ATRP), praticante de trail running desde 2010, finisher de oito provas de 100 milhas, autor do blog dorsal1967 citado no próprio texto, e participante regular nos circuitos nacionais ao longo de mais de uma década. Vários dos protagonistas mencionados neste documento são pessoas com quem trabalhei, treinei, organizei circuitos ou tenho relações de amizade.
Esta proximidade torna possível este texto — pelo acesso a memória, contactos e contexto — e, ao mesmo tempo, condiciona-o. O leitor deve assumir que a narrativa institucional, em particular tudo o que diz respeito à ATRP e ao processo de integração com a Federação Portuguesa de Atletismo, é contada de uma posição interna, e não a partir de uma observação neutra. Os capítulos sobre conflitos institucionais, política federativa e relação com a FPME, a FCMP e a FPA são, por isso, deliberadamente sumários: tratá-los a fundo exigiria um trabalho que não estou em posição de fazer com a distância necessária.
Tentei ser leal aos factos onde os conheço e cauteloso onde não os conheço. Sublinho cada estimativa como tal, sinalizo cada fonte que não consegui verificar, e prefiro deixar buracos visíveis a tapá-los com afirmações que não consigo sustentar.
Nota Metodológica
A história do trail running em Portugal não nasce de um único momento fundador. Para evitar uma leitura simplista, este documento distingue três genealogias que se sobrepõem no tempo:
Quando este documento usa os termos "primeiro", "pioneiro", "fundador" ou "mais antigo", esses qualificativos aplicam-se sempre a uma das categorias acima, nunca de forma absoluta. O trail português não nasceu de um único dia; resultou da convergência de múltiplas tradições e projectos.
Sobre as fontes. A bibliografia consultada está organizada por categoria temática e referenciada no texto pelo sistema [R1]–[R44]. Sempre que uma afirmação se apoia em estimativa, fonte indisponível à data de redacção ou memória pessoal, é assinalada como tal — com a marca est ao lado de valores aproximados, com itálico cinzento em parágrafos com fonte fragilizada, e em caixas próprias quando a fragilidade é central ao argumento. Reconheço que muitas das fontes mobilizadas são da própria comunidade do trail (blogs, sítios de provas, arquivos digitais mantidos por voluntários) — o que é coerente com o estatuto amador deste texto, mas significa também que a triangulação com fontes independentes é, em vários pontos, insuficiente.
Esta é uma constatação que vale a pena fazer logo aqui, porque condiciona tudo o que se segue. Não existe, tanto quanto consegui apurar, historiografia académica sobre o trail running em Portugal. Não há nenhuma tese, monografia ou artigo de história do desporto que tome como objecto a evolução da modalidade, os seus fundadores, as suas instituições, os seus conflitos.
O que existe — e que mobilizo nos capítulos seguintes — é literatura académica em ciências do desporto, geografia e turismo que usa o trail running português como amostra para estudar fisiologia, psicologia, lesões, motivação, perfil dos praticantes ou impacto territorial. É útil, e está sub-representada na v1 deste documento; mas não é história, e não substitui o trabalho historiográfico que está por fazer. O presente texto, com as suas limitações de amador, é portanto, tanto quanto sei, dos primeiros esforços de sistematização — facto que torna o cuidado metodológico mais importante (porque o texto pode ser citado por outros como referência), mas não substitui a história rigorosa que outros, em devido tempo, terão de escrever.
"Corridas de montanha" designa o percurso federado e competitivo que antecede o trail moderno. "Provas com DNA de trail" designa eventos em terreno natural que antecipam a linguagem actual. "Trail moderno" designa provas desenhadas com a cultura, distância, autonomia, tecnicidade e experiência territorial que passaram a caracterizar a modalidade na década de 2000.
Fontes audiovisuais e memória visual
Os vídeos associados a este artigo não são meros elementos decorativos. Foram seleccionados quando ajudam a documentar uma fase, uma prova, um território ou uma voz da modalidade. Alguns aproximam-se do testemunho documental, como Os Filhos da Freita; outros são peças promocionais de organizações, úteis pela sua força visual mas condicionadas pelo seu objectivo comunicacional.
Por isso, estas fontes audiovisuais são tratadas com valor desigual: ajudam a compreender a cultura visual do trail, a relação com o território, a escala dos eventos e a memória interna das organizações, mas não substituem resultados oficiais, arquivos, entrevistas, documentação institucional e fontes independentes.
Nota Introdutória
Este documento é uma síntese sobre a evolução do trail running em Portugal — desde as corridas em montanha dos anos 1990 até à modalidade hoje organizada em circuitos federativos. Aborda os seus protagonistas, as provas que marcaram cada época, as estruturas associativas e federativas, e tenta tocar — com a brevidade e a cautela que o estatuto amador impõem — alguns aspectos científicos, culturais e sociológicos.
O leitor encontrará um documento desigual: capítulos onde sou testemunha directa têm densidade de detalhe que outros não têm; capítulos onde dependo de literatura externa (fisiologia, psicologia, comparação internacional) são inevitavelmente mais sumários. Onde a desigualdade for escândalo, esforço-me por dizê-lo.
O trail running é também uma comunidade humana construída por pessoas que raramente apareceram nas capas: organizadores voluntários, arquivistas digitais, treinadores amadores, bloguers, fotógrafos, famílias e corredores de todas as condições físicas. Procuro mencioná-los — sem fingir que esgoto a tarefa.
1. Contexto Global: As Origens do Trail Running no Mundo
1.1. Raízes Ancestrais
A corrida em terreno natural é o gesto atlético mais antigo da humanidade. As culturas do pastoreio nas serras da Península Ibérica, os mensageiros de civilizações pré-colombianas, e os Tarahumara do México (popularizados internacionalmente pelo livro Born to Run de Christopher McDougall, 2009) são alguns testemunhos desta vocação. Na Europa, as primeiras corridas organizadas em terreno acidentado surgem no século XIX em Inglaterra e Escócia sob a forma do fell running — corridas em montanha sem percurso totalmente marcado.
1.2. O Trail Running Moderno
O trail running como modalidade organizada tem origem contemporânea nos Estados Unidos, com provas como a Western States Endurance Run (1974) e a Leadville Trail 100 (1983). Em 1996 foi fundada a American Trail Running Association (ATRA). Na Europa, foi o Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), criado em 2003 por Michel e Catherine Poletti, que projectou a modalidade para escala global. A International Trail Running Association (ITRA) foi fundada em 2013 e, em 2015, a World Athletics reconheceu oficialmente o trail running como disciplina do atletismo. [R1][R2]
2. Raízes Portuguesas: Da Montanha à Corrida
2.1. A Tradição de Andar na Montanha
Em Portugal, a relação com a montanha tem raízes profundas. As comunidades serranas do Minho, Trás-os-Montes, Beiras e Alentejo utilizaram historicamente os trilhos como vias de comunicação. Romarias, marchas de peregrinação e festas em santuários de altura criaram uma cultura de deslocação pedestre em terreno natural que, sem carácter competitivo, antecedeu a modalidade actual. [R3]
A Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), criada em 1945 como Federação Portuguesa de Campismo e que incorporou o montanhismo em 1991, foi a primeira estrutura federativa a organizar actividades em montanha. [R3]
2.2. Os Clubes de Montanha
Décadas antes do trail running, vários clubes de montanhismo foram guardiões dos trilhos: o Clube de Montanha do Funchal (Madeira), os Amigos da Montanha de Barcelos, o Clube Celtas do Minho, entre outros. Muitos dos primeiros trail runners portugueses tinham raízes nestas comunidades. Em Julho de 2002, foi fundada a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME), com missão autónoma de promover e regulamentar as actividades de montanha. [R4]
2.3. O Pedestrianismo
O pedestrianismo organizado — marchas em trilhos marcados — multiplicou-se nas décadas de 1980 e 1990, criando uma cultura de acesso e respeito pelos trilhos que aproximou populações urbanas de territórios rurais.
3. As Corridas de Montanha: O Elo de Ligação (1995–2005)
3.1. O Campeonato Nacional de Corridas de Montanha
Em 1998 realizou-se a 1.ª edição do Campeonato Nacional de Corridas de Montanha, organizado sob a égide da FPME (então ainda integrada na FCMP). Foi a primeira prova competitiva nacional concebida especificamente para correr em terreno de montanha. [R5][R6]
Os resultados da 1.ª edição revelaram talentos como Vitorina Mourato (campeã feminina) e Vítor Cordeiro (vice-campeão masculino), ambos do Atletismo Clube de Portalegre — clube que seria pioneiro também nas primeiras provas de trail. Vitorina Mourato representa uma geração que correu antes de existir a palavra "trail" em Portugal.
3.2. As Primeiras Provas com DNA de Trail
O Atletismo Clube de Portalegre organizou, em Abril de 1999, o que pode ser considerado um dos primeiros trails com DNA moderno em Portugal continental: percurso de 11 km na Serra de São Mamede, com desnível, trilhos e terreno natural. Em 2000, o mesmo clube organizou uma das jornadas do 3.º Campeonato Nacional de Montanha da FPME, na Serra da Penha. [R6]
No mesmo período, a Confraria Trotamontes ensaiava os primeiros passos em direcção à Ultra Trail da Geira Romana, encontrando na Via Nova Romana o percurso para uma prova que uniria desafio físico, história e paisagem.
3.3. A FPME como Estrutura Organizadora
A FPME, autonomizada em 2002, assumiu a tutela das corridas de montanha. O seu Circuito Nacional de Montanha tornou-se a espinha dorsal competitiva das corridas em terreno natural em Portugal e formou a primeira geração de atletas portugueses experientes em terreno de montanha. Quando o trail moderno chegou, encontrou já uma cultura competitiva estabelecida pronta a adoptar a nova linguagem. [R5]
4. A Primeira Vaga: O Trail Running Chega a Portugal (2005–2012)
4.1. O Despertar — Os Primeiros Ultra Trails
A segunda metade da década de 2000 marcou uma inflexão. Atletas portugueses que tinham participado nas primeiras edições do UTMB ou em corridas como o Grand Raid des Pyrénées regressaram com um conceito diferente: o trail europeu era mais longo, mais técnico e mais sedutor do que as corridas de montanha praticadas em Portugal.
Entre os pioneiros, Carlos Sá ocupa um lugar de destaque. Natural de Vilar do Monte (Barcelos), iniciou-se no montanhismo antes de descobrir o ultra trail. Em 2008, estreou-se na Ultra Trail da Geira (45 km) com um 2.º lugar; em 2009 venceu a mesma prova; em 2010 conquistou o Grand Raid des Pyrénées (160 km, 10.000 m de desnível), colocando Portugal no mapa internacional do ultra trail. [R7][R8]
"Ver 2000 pessoas a correr 170 km sem parar foi o primeiro passo para começar a olhar para o Trail Running de outra forma. Sentir a liberdade, descobrir novos trilhos e paisagens; tentar ir mais longe, para lá do limite."
— Carlos Sá, em entrevista a CorrerPorPrazer [R9]4.2. A Ultra Trail da Serra da Freita
A Ultra Trail da Serra da Freita (UTSF) é, segundo a Confraria Trotamontes e a memória da comunidade, a primeira prova em Portugal continental concebida e organizada com a linguagem do trail moderno memória comunitária. A sua origem está em Verdon (sudeste de França), onde José Moutinho — Grão Mestre da Confraria, sediada em Gueifães (Maia) — participou numa prova que classificou como referência. Nos quatro anos seguintes, percorreu provas em França para aprender o conceito. Juntamente com Sálvio Nora — companheiro de fundação, falecido entretanto, a quem a prova é hoje dedicada — descobriu a Serra da Freita. Em 2006 realizou-se a 1.ª edição: 50 km na Serra da Freita. A logística ficou desde sempre nas mãos de Flor Madureira, que se tornou a coluna vertebral operacional da Confraria ao longo de quase duas décadas.
Os percursos de Moutinho ficaram conhecidos pelas suas "moutinhadas" — secções de extrema dificuldade morfológica: o "portal do inferno", os "aztecas", a subida das "escadas do martírio". A filosofia era clara: trail não é correr depressa, é ler o terreno.
"A própria confraria começou a agir como se isso fosse uma missão, não olhávamos só para o nosso umbigo. Achámos que o método seria criar células em todo o país com organizações e criar provas para se começar a dinamizar esta modalidade de trail."
— José Moutinho, em testemunho recolhido pela Confraria Trotamontes4.3. A Ultra Trail da Geira Romana
Percorrendo a Via Nova Romana — estrada construída pelos romanos no século I d.C. que atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês — a Ultra Trail da Geira Romana é uma das provas mais singulares do calendário. Os corredores passam por miliários romanos e atravessam ribeiras até às cumeadas do Gerês, percorrendo caminhos pisados há dois mil anos. [R10]
4.4. O Nascimento do MIUT
O Madeira Island Ultra Trail (MIUT) teve a 1.ª edição em 2008 e tornou-se rapidamente a mais ambiciosa prova de trail running em solo português. Na sua génese esteve um grupo de membros do Clube de Montanha do Funchal que desde 2004 tentavam atravessar a ilha em menos de 24 horas. A 1.ª edição contou com 141 participantes na ligação Ponta do Pargo–Machico. O percurso principal, hoje com cerca de 115 km e mais de 6.000 metros de desnível, atravessa a laurissilva classificada como Património Mundial da UNESCO e é considerado um dos mais tecnicamente exigentes do circuito europeu. [R11][R12]
4.5. A Comunidade Online — Fóruns e Blogs
Antes das redes sociais, o fórum "O Mundo da Corrida", mantido por Eduardo Santos, foi o espaço onde a comunidade de trail runners portugueses se encontrava. Foi aí que a primeira edição do Ultra Trail de São Mamede foi anunciada e os futuros participantes consultados sobre distâncias e datas — um exemplo pioneiro de co-criação de eventos. A plataforma Portugal Running, criada em Março de 2010 com o grupo de Facebook "Marginal à Noite", sucedeu-lhe como ponto de encontro principal. [R13]
5. A Explosão do Trail Running em Portugal (2010–2016)
5.1. Os Catalisadores do Boom
Entre 2010 e 2016, o trail running em Portugal registou um crescimento sem precedentes. Segundo o calendário compilado por Carlos Fonseca [R14], o número de provas multiplicou-se aproximadamente nove vezes entre 2009 e meados da década est. Em 2012 contavam-se cerca de 45 provas agendadas; em 2015, várias centenas.
Três factores convergiram. Primeiro, os feitos internacionais de Carlos Sá — a vitória na Badwater 2013 (217 km no Vale da Morte, primeiro português a vencer), o recorde no Aconcágua (6.962 m em 15h42m) e os top-10 no UTMB e na Marathon des Sables — geraram visibilidade mediática inédita. Segundo, as redes sociais permitiram a formação rápida de grupos de corrida, a partilha de percursos e a criação de uma identidade visual: uma fotografia ao amanhecer na Serra da Estrela valia mais do que qualquer campanha publicitária. Terceiro, num contexto de crise económica (2010–2014), a corrida tornou-se uma resposta democrática e o trail acrescentou natureza e aventura à equação.
🏆 Feitos Internacionais
Carlos Sá: Badwater 2013, Aconcágua 2013, top-4 UTMB. Visibilidade mediática inédita para a modalidade em Portugal.
📱 Redes Sociais
Facebook, Instagram, Strava e WhatsApp permitiram grupos de corrida instantâneos, partilha de percursos e identidade visual apelativa.
❤️ Saúde & Bem-estar
Crise económica 2010–2014: a corrida como resposta democrática. O trail adicionou natureza, aventura e profundidade emocional.
5.2. A Fundação da ATRP (2012)
Em Novembro de 2012 é fundada a Associação de Trail Running de Portugal (ATRP). A direcção fundadora foi composta por seis atletas: José Bomtempo, José Guimarães, José Carlos Santos (presidente), Luís Matos Ferreira (autor deste texto), Paulo Jorge e Pedro Neiva. Em 2013, João Mota juntou-se à direcção. [R15]
José Carlos Santos — atleta de trail desde 1995 e primeiro presidente (2012–2015) — foi figura central. Após participar na 1.ª Conferência Internacional de Trail Running em Courmayeur, regressou convicto de que Portugal precisava de uma entidade própria. A sua dimensão internacional — cofundador e director executivo da ITRA, seleccionador nacional entre 2015 e 2024 — conferiu desde o início à ATRP uma orientação global.
Em 2013, poucos meses após a fundação da associação, a ATRP lançou o seu primeiro Circuito Nacional de Trail, com um conjunto inicial de provas seleccionadas. Em 2014, a estrutura competitiva foi aprofundada e alargada, com circuitos por distância, incluindo Trail e Ultra Trail. Em Maio de 2014, a ATRP foi também aceite como associado extraordinário da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA). No final de 2013 contava com cerca de 900 associados; em 2020 superava os 11.000 est, fonte original [R16] indisponível à data — valor citado em comunicação interna ATRP/imprensa, a confirmar. A partir de 2023, com a integração no sistema de filiação da FPA, os atletas que pretendam participar nos circuitos e campeonatos nacionais passaram a filiar-se directamente na Federação. [R15][R16][R17][R35][R36][R37]
5.3. A Primeira Selecção Nacional (Annecy, 2015)
Um marco da consolidação institucional foi a presença portuguesa no Campeonato do Mundo de Trail Running de 2015, em Annecy, França — a primeira vez que uma selecção nacional participou numa prova mundial da especialidade. Oito atletas foram seleccionados a partir dos circuitos nacionais de 2013 e 2014: Carlos Sá, Nuno Silva, Luís Mota e Hélder Ferreira (masculinos); Ester Alves, Júlia Conceição, Lucinda Sousa e Susana Simões (femininas). O estágio preparatório decorreu no Vale do Rossim, Serra da Estrela, organizado pela ATRP em parceria com Armando Teixeira e o Estrela Grande Trail. [R18][R19]
5.4. Os Campeonatos do Mundo em Solo Português
A consagração de Portugal como destino de trail veio com dois Campeonatos do Mundo realizados em solo nacional: em 2016, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, e em 2019, em Miranda do Corvo e na região das Aldeias do Xisto. Estes eventos atraíram atletas de dezenas de países e geraram cobertura mediática internacional. O MIUT consolidou-se neste período: em 2015 foi aceite no Ultra Trail World Tour; em 2016 registou 2.041 participantes de 41 países; em 2017 atingiu 2.490 participantes de 45 nacionalidades. [R11]
6. Crescimento, Demografias e Dados dos Praticantes
6.1. A Evolução do Número de Provas
O crescimento do número de provas é um dos indicadores mais expressivos da popularidade da modalidade. Em 2012 contavam-se cerca de 45 provas agendadas. Os dados de Carlos Fonseca apontam um crescimento de aproximadamente nove vezes entre 2009 e meados da década de 2010 est. [R14] Em 2015, a dissertação de mestrado da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril sistematizou a evolução dos participantes entre 2006 e 2015 e o perfil dos praticantes — tornando-se a fonte académica de base para compreender a primeira década de crescimento. Em 2018, o estudo de Julião, Valente e Mendes (CICS.NOVA/UNL) registou 68 corridas em 35 eventos no calendário oficial do continente. [R20][R21][R14]
6.2. Membros da ATRP
Ao fim do primeiro ano de existência (Novembro de 2013), a ATRP contava com cerca de 1.000 est, comunicação institucional ATRP, não auditado associados em representação de mais de 90 clubes. Em Maio de 2014 tinha 1.500 est, comunicação institucional ATRP, não auditado associados e representava mais de 120 associações. Em 2020, o número ultrapassava os 11.000 est, valor de comunicação institucional, não auditado. [R15][R16]
6.3. Filiados na Federação Portuguesa de Atletismo
Em 2016, a FPA registava 14.542 atletas filiados. A modalidade cresceu de forma consistente, atingindo 19.439 em 2019. A pandemia interrompeu a trajectória: 2021 registou 17.396. A retoma foi vigorosa: 20.273 em 2022, 21.875 em 2023 e 23.835 em 2024, um crescimento de 61% face a 2016. Em 2024, dez associações regionais bateram recordes históricos, com Lisboa (3.504), Porto (2.792) e Madeira (2.137) à cabeça. [R22][R23]
6.4. Perfil dos Praticantes
Os estudos disponíveis traçam um perfil aproximado: predominantemente masculino (apesar de a participação feminina ter crescido significativamente nos anos recentes — segundo a ATRP, de cerca de 15% no início para próximo de 30% em 2025 est); com idade média entre os 35 e os 50 anos; com habilitações literárias acima da média nacional; com profissões de classe média e média-alta. Esta sociologia tem implicações importantes para qualquer afirmação sobre o trail como modalidade "democrática" — voltarei ao tema mais à frente. [R20][R21]
7. As Provas Icónicas — Geografia do Trail Português
O trail português distribui-se geograficamente por todo o território, com concentrações regionais que reflectem a topografia, a tradição associativa e a capacidade das comunidades locais para transformar caminhos em eventos. Os exemplos seguintes não esgotam a geografia da modalidade nem definem uma hierarquia de valor; funcionam antes como núcleos históricos e territoriais que ajudam a ler a sua evolução.
7.1. MIUT — Madeira Island Ultra Trail
O MIUT é, desde 2008, a prova-bandeira do trail português a nível internacional. A travessia da ilha da Madeira de Porto Moniz a Machico, com cerca de 115 km e mais de 6.000 metros de desnível, atravessa a laurissilva e oferece um percurso tecnicamente exigente. A entrada no Ultra Trail World Tour em 2015 elevou a sua dimensão internacional. [R11][R12]
7.2. UTSF — Ultra Trail Serra da Freita
A UTSF é a prova matricial do trail moderno em Portugal continental, organizada pela Confraria Trotamontes desde 2006. Apesar das dimensões modestas em comparação com o MIUT, o seu peso simbólico na comunidade é considerável: foi a primeira a importar o vocabulário e a lógica do trail europeu. As "moutinhadas" — secções de extrema dificuldade desenhadas por José Moutinho — tornaram-se referência cultural.
7.3. UTSM — Ultra Trail Serra de São Mamede
Organizado pelo Atletismo Clube de Portalegre desde 2008, o UTSM tem uma genealogia especial: o ACP foi também o organizador do primeiro trail com DNA moderno (1999) e de jornadas do Campeonato Nacional de Corridas de Montanha. Vitorina Mourato, primeira campeã nacional de corridas de montanha em 1998, foi cofundadora. A prova foi interrompida e regressou em 2025. [R6][R24]
7.4. UTAX / AXtrail — Aldeias do Xisto
O AXtrail/UTAX, nas Aldeias do Xisto, é exemplo de prova que se enraíza num projecto territorial: as próprias Aldeias do Xisto são uma rede de cooperação intermunicipal de desenvolvimento rural. A prova destrói-se e reconstrói-se ao longo dos anos com os incêndios e as recuperações dos trilhos. A sua história cruza trail running, desenvolvimento rural, aldeias, voluntariado e inclusão — incluindo o AX Trail da Inclusão, referência pioneira das joelettes em Portugal. [R25]
7.5. Trilhos dos Abutres — da prova comunitária ao palco mundial
Os Trilhos dos Abutres, em Miranda do Corvo e na Serra da Lousã, representam a capacidade de uma prova nascida de uma comunidade local ganhar escala nacional e internacional sem perder uma identidade própria. O Mundial de Trail de 2019 deu visibilidade global a esse trabalho, mas não o criou do nada: tornou visível uma maturidade organizativa construída ao longo de vários anos, entre trilhos técnicos, Aldeias do Xisto, voluntariado, público e forte cultura local.
7.6. Ultra Trail da Geira Romana
Organizada pela Confraria Trotamontes na Peneda-Gerês, segue a Via Nova Romana e cruza um dos cenários arqueológicos mais relevantes da Península Ibérica. Mais do que uma prova, é um exercício de arqueologia em movimento.
7.7. Açores — a dimensão atlântica do trail português
Os Açores merecem ser lidos como uma geografia própria dentro do trail português, e não apenas como extensão insular do calendário continental. No Faial, no Pico, em São Jorge, em São Miguel ou nas Flores, a modalidade ganha outra gramática: vulcões, fajãs, lama, vento, humidade atlântica, trilhos costeiros e travessias entre ilhas. O Azores Trail Run, fundado em 2012, e eventos como o Triangle Adventure e o Golden Trail Championship 2020 colocaram o arquipélago no mapa internacional da modalidade e mostraram como o trail pode funcionar simultaneamente como desporto, narrativa territorial e promoção das ilhas.
7.8. Representatividade territorial: notas adicionais
Com base em contributos de leitores e organizadores, importa explicitar provas com forte peso histórico regional que não estavam nomeadas na versão inicial desta secção: Louzan1000 (Serra da Lousã), o eixo Manteigas / Penhas Douradas na Serra da Estrela, Ultra Trilhos dos Reis (Portalegre) e Cross da Laminha (Santo Tirso). A inclusão destes exemplos não encerra o mapa; corrige apenas uma omissão de representatividade.
Esta lista é parcial e marcada pela geografia onde o autor pratica e organiza. Provas igualmente importantes ficam sem o espaço que mereceriam. Uma lista mais representativa incluiria, entre muitas outras:
Norte:
Ultra Trail do Marão (Amarante), TransPeneda-Gerês (Parque Nacional da Peneda-Gerês / Montalegre e Terras de Bouro), Trail Amigos da Montanha (Barcelos), Grande Trail Fisgas de Ermelo (Mondim de Basto / Serra do Alvão).
Centro:
Estrela Grande Trail (Manteigas), Oh Meu Deus by UTMB / Ultra Trail Centro Portugal (Seia, Serra da Estrela, Açor e Lousã), EstrelAçor Trail Ultra Endurance (Penhas da Saúde, Covilhã), Louzantrail (Serra da Lousã), Góis Trail — Entre a Serra e o Ceira (Góis), Trilhos dos Abutres (Miranda do Corvo — palco do Mundial de Trail de 2019).
Centro Interior e Centro-Sul:
Ultra Trilhos da Gardunha (Louriçal do Campo / Castelo Branco), Trail da Cereja (Fundão / Serra da Gardunha), Trail de Marvão (Marvão / Serra de São Mamede), Proença Cross Trail (Proença-a-Nova).
Lisboa, Tejo e Setúbal:
Sintra Trail — Monte da Lua e Cruz Alta (Sintra), Trilhos de Almourol (Entroncamento / Castelo de Almourol / Médio Tejo), Trail do Almonda (Pedrógão, Torres Novas / Serra d'Aire), Trilhos do Javali (Setúbal / Arrábida).
Sul:
Trail da Costa Vicentina (Porto Covo / Santiago do Cacém), Algarviana Ultra Trail — ALUT (interior algarvio), Algarve Xtreme Trail (Querença / Serra do Caldeirão), Trail Entre os Moinhos do Guadiana ou Trail do Falcão Real (Baixo Guadiana / Alcoutim).
Ilhas:
Ultra Blue Island by Azores Trail Run (Faial), Triangle Adventure by Azores Trail Run (Pico, São Jorge e Faial), Trail dos Morcegos (São Miguel), Trail do Queijo da Fajãzinha (Flores), MIUT — Madeira Island Ultra-Trail (Madeira).
Esta enumeração é ela própria incompleta. O calendário nacional conta centenas de provas anuais — um inventário rigoroso exigiria trabalho sistemático que este texto não fez.
Para responder a esta limitação, este projecto passa a manter um dossiê complementar de inventário vivo: Atlas das Provas de Trail em Portugal (Inventário Vivo), actualizado por critérios explícitos e com convite aberto a correcções documentadas.
8. Atletas e Protagonistas
Esta selecção é representativa, não exaustiva. Reflecte uma escolha pessoal e está enviesada para atletas próximos da geografia onde o autor praticou. Para um inventário mais alargado, ver os arquivos de João Lima [R26] e Carlos Fonseca [R14].
8.1. Carlos Sá
Carlos Sá é, em qualquer leitura, a figura central do trail português. Os feitos internacionais entre 2010 e 2017 colocaram Portugal no mapa mundial da modalidade. A vitória na Badwater 2013 (217 km no Vale da Morte, em 24h38m) é especialmente significativa: foi o primeiro português a vencer a prova. [R7][R8][R27]
| Ano | Prova | Resultado |
|---|---|---|
| 2010 | Grand Raid des Pyrénées (160 km / 10.000 mD+) | 1.º absoluto |
| 2011 | UTMB (170 km) | 5.º geral — 22h48m |
| 2012 | UTMB (170 km) | 4.º geral |
| 2012 | Marathon des Sables (250 km) | 4.º / melhor europeu |
| 2013 | MIUT — 1.º Campeão Nacional Ultra Trail | 1.º absoluto |
| 2013 | Aconcágua — recorde mundial ascensão+descida | 15h42m |
| 2013 | Badwater Ultramarathon (217 km, Vale da Morte) | 1.º absoluto — 24h38m |
| 2014 | Marathon des Sables | 4.º lugar |
| 2017 | Tor des Géants (330 km, Itália) | 4.º lugar |
8.2. Armando Teixeira
Armando Teixeira começou a correr aos 33 anos. Ex-técnico de alta tensão, deixou a profissão para se dedicar ao desporto e à formação académica. Capitão de equipa em dois Campeonatos do Mundo (2016 e 2018), foi nomeado Seleccionador Nacional de Trail Running em 2024 (sucedendo a José Carlos Santos). Coorganiza o Estrela Grande Trail em Manteigas. biografia segundo testemunho directo e cobertura jornalística — datas exactas a confirmar contra fonte primária
8.3. As Atletas Femininas — uma história por escrever
Aqui devo ser sincero: este capítulo está mal feito. Posso enumerar nomes — Ana Carolina Oliveira, Ana Duarte, Ana Quinta, Cármen Henriques, Célia Azenha, Cristina Moura, Ester Alves-Santos, Fátima Buchas, Flor Madureira, Glória Serrazina, Inês Marques, Mariana Ballester, Margarida Bagão, Paula Soares, Raquel Campos, Sofia Roquete; e, na geração das corridas de montanha, Vitorina Mourato — mas o que cada uma destas atletas representa, organizou, criou, perdeu e venceu não cabe nas linhas de que disponho. Vitorina Mourato, campeã feminina do 1.º Campeonato Nacional de Corridas de Montanha em 1998 e cofundadora do UTSM, é a primeira heroína desportiva desta genealogia, mas a sua história — como a das outras — exige um trabalho de recolha que este texto não fez. Flor Madureira é a organizadora que tornou a UTSF possível durante quase duas décadas. O capítulo das mulheres no trail português está por escrever, e é a maior lacuna deste documento.
8.4. Os Veteranos: Jorge Serrazina e Outros
O trail português tem uma cultura veterana invulgarmente forte. Jorge Serrazina, natural de Óbidos, começou a correr aos 47 anos por convite de um vizinho. Nos anos seguintes escalou sistematicamente as distâncias: Everest Trail Race no Nepal, Grand Raid des Pyrénées, Marathon des Sables, múltiplas participações no Tor des Géants. Vítor Cordeiro, vice-campeão masculino em 1998, mantinha-se em competição em 2025 com 60+ anos. Teodoro Trindade, actualmente na categoria M65 mas com percurso de longa data, acumulou mais de 50 provas de ultra distância e milhares de quilómetros. Estes percursos são dimensão real e pouco estudada da modalidade.
8.5. Organizadores e Bastidores
A história não se conta só pelos atletas. José Moutinho representa a matriz fundadora do trail moderno em Portugal. Flor Madureira representa o trabalho logístico sem o qual as grandes provas não sobrevivem. Vitorino Coragem (1952–2020), figura muito reconhecida e querida do meio, representa os criadores de percurso. Tiago Araújo e a Associação Abútrica representam a capacidade de uma comunidade local construir um evento de dimensão mundial (Mundial 2019). João Lima e Carlos Fonseca representam a preservação da memória estatística. Eduardo Santos e Margarida Henriques representam a comunidade digital antes das redes sociais — Eduardo Santos como criador do fórum «O Mundo da Corrida», Margarida Henriques como figura associada à sua dinamização. Para o papel dos treinadores, ver 8.6.
8.6. Treinadores e a Evolução do Treino
O trail português foi, durante a primeira década, inteiramente autodidata. A figura que mais claramente representa a viragem para uma abordagem estruturada é Paulo Pires (FADEUP) — formado em alto rendimento, entrou no universo das ultradistâncias por convite de Carlos Sá, orientou a «Armada Portuguesa do Trail» (Carlos Sá, Armando Teixeira, Natércia Silvestre, Leonardo Diogo, entre outros) e em 2016 apresentou a plataforma beAPT, uma das primeiras tentativas portuguesas de sistematizar o coaching de trail em formato digital. Armando Teixeira (ver 8.2) representa o modelo complementar do atleta-treinador, tendo orientado o estágio da selecção nacional para o Mundial de Annecy 2015.
9. Corpo, Mente, Nutrição e Equipamento
9.1. O Corpo
O trail running impõe ao organismo exigências fisiológicas diferentes das corridas de estrada. As mudanças constantes de ritmo e inclinação activam padrões musculares complexos. O quadricípite, os isquiotibiais e os peroneais sofrem cargas excêntricas intensas nas descidas. Em ultra trails acrescenta-se fadiga metabólica cumulativa, depleção de glicogénio, risco de hiponatremia (diluição perigosa do sódio no sangue por ingestão excessiva de água) e degradação cognitiva por privação de sono. Gerir estas variáveis é tão determinante como a capacidade física pura. [R29]
Em Portugal há produção académica relevante: a tese de doutoramento da Universidade do Porto "The Portuguese Trail Runner" (perfil músculo-esquelético, fisiológico e neuromuscular) [R29] e o estudo de Matos et al. (2019, Frontiers in Physiology) sobre carga de treino, capacidade aeróbia e bem-estar em atletas dos campeonatos nacionais portugueses, conduzido no Politécnico de Viana do Castelo em colaboração com investigadores suíços [R38]. Estes trabalhos são porta de entrada para quem quiser aprofundar o tema com base científica.
9.2. A Mente
A busca de contacto com a natureza é a motivação mais citada pelos trail runners, seguida do desafio pessoal, da melhoria da saúde e da escapatória ao stress. A expressão "completar é vencer" é reveladora: o trail tende a colocar o processo acima do resultado. As provas longas criam estados psicológicos descritos pelos próprios praticantes como "meditação em movimento" — descrições que pertencem ao registo da experiência subjectiva e que devem ser distinguidas de afirmações científicas estabelecidas, que requerem investigação peer-reviewed. descrição experiencial, não validação clínica
A psicologia do trail running com amostras portuguesas tem produção académica recente. Coelho et al. (2015) aplicaram a Sport Motivation Scale a 103 participantes de uma prova nacional, concluindo que a motivação intrínseca para a estimulação é o factor mais valorizado pelos praticantes [R40]. Gameiro et al. (2023, Perceptual and Motor Skills), do Politécnico de Leiria e do CIDESD, analisaram mental toughness e resiliência em 307 trail runners portugueses, mostrando associação significativa entre estas variáveis e a performance [R39].
9.3. Alimentação
A nutrição para trail evoluiu muito nos últimos quinze anos. Nos primeiros tempos, os atletas improvisavam com sopas, fruta e pão dos abastecimentos. Com o crescimento da modalidade, a nutrição tornou-se mais especializada — mas os números exactos (gramas de hidratos por hora, miligramas de sódio) variam por atleta, contexto e duração da prova, e devem ser planeados com profissionais. Um aspecto culturalmente rico das provas portuguesas: os abastecimentos com caldo verde quente a meio da noite, canja, batata com sal, queijos da Estrela. É uma embaixada improvisada da cultura alimentar das regiões atravessadas.
9.4. Equipamento
A história do equipamento de trail running é, em larga medida, a história do calçado. Marcas como Salomon, Hoka, Inov-8, La Sportiva e Merrell desenvolveram modelos progressivamente mais leves e específicos. O relógio GPS democratizou-se, passando de luxo profissional a equipamento standard. Plataformas como Strava, Garmin Connect e Wikiloc criaram um ecossistema de dados que transformou os padrões de treino: antes do GPS, treinava-se "a olho"; depois, com dados.
9.5. Profissionalização — uma transição inacabada
O trail português foi inteiramente construído por voluntários nos primeiros anos. Algumas provas atingiram entretanto escala que exigiu profissionalização: equipas técnicas, orçamentos consideráveis, estruturas de segurança com médicos e helicópteros. Carlos Sá foi o primeiro atleta português a conseguir patrocínio (Berg Outdoor) que lhe permitisse dedicar-se à modalidade a tempo inteiro. A integração do trail na FPA em 2023 foi um marco institucional não isento de tensões — parte da comunidade, que valorizava a informalidade e a independência, viu com reserva esta "atletização". Tratar a fundo essa transição exigiria entrevistas com posições críticas que este texto não fez. [R17]
10. Cultura, Território e Impacto Social
10.1. Trail e Desenvolvimento Local
Uma das dimensões mais significativas do trail running em Portugal é o impacto no desenvolvimento dos territórios de baixa densidade. Provas em concelhos do interior — Marvão, Miranda do Corvo, Mondim de Basto, Vila Pouca de Aguiar, Terras de Bouro — atraem visitantes que noutras circunstâncias dificilmente lá chegariam. O impacto económico (dormidas, refeições, comércio local) é real, embora carente de quantificação rigorosa. Quando essa quantificação existir, valerá mais do que dezenas de declarações entusiásticas como esta. [R20][R21]
10.2. Trail e Sustentabilidade Ambiental
O crescimento massivo do trail colocou questões sérias sobre impacto ambiental. Julião, Valente e Mendes (CICS.NOVA/UNL, 2018), num dos poucos trabalhos académicos portugueses dedicados directamente à modalidade, analisaram a pressão das provas sobre áreas protegidas e a sua não-inclusão entre as actividades formalmente reconhecidas no turismo de natureza, alertando para os impactos cumulativos da concentração de participantes em zonas sensíveis [R21]. Outros estudos têm documentado, em zonas como Sintra, a Serra da Lousã ou a Serra d'Arga, erosão de trilhos, compactação do solo e perturbação da fauna. A resposta do sector tem sido a adopção progressiva de códigos de boas práticas: limitação de participantes, certificação de percursos, copo reutilizável obrigatório, proibição de lixo nos percursos, e iniciativas de compensação ambiental por parte de várias organizações. [R32]
10.3. Trail e Arqueologia
Portugal tem uma das mais ricas concentrações de património arqueológico da Península Ibérica e o trail nacional atravessa-o frequentemente: a Via Nova Romana (Geira), os arredores de Conímbriga, antas megalíticas do Alentejo, castros do noroeste, levadas da Madeira. O Trail de Conímbriga atravessa literalmente o maior sítio arqueológico romano de Portugal.
10.4. Inclusão
O trail português tem dimensão de inclusão crescente. A criação do AXtrail da Inclusão — primeira corrida de joelettes em Portugal — demonstrou que o modelo pode incorporar pessoas com mobilidade reduzida. Provas com distâncias curtas e caminhadas em paralelo permitem participação de pessoas de condições físicas variadas. Provas Kids para crianças e categorias veteranas para atletas acima dos 60 e 70 anos criam eventos onde avós e netos partilham a linha de chegada.
10.5. O lado menos confortável
Há uma narrativa habitual sobre o trail português como modalidade democrática, da qual eu próprio fui partícipe. Vale a pena resistir-lhe. Os estudos de perfil sociológico [R20][R21] indicam praticantes maioritariamente urbanos, de classe média e média-alta, com habilitações superiores acima da média nacional. As inscrições, o equipamento, as deslocações para provas no interior, as estadias e a alimentação somam custos que excluem muitos. A modalidade tem dimensões de abertura genuínas — voluntariado, cultura de inclusão dentro de cada prova, hospitalidade rural — mas afirmar a sua "democratização" sem contraponto é generosidade que a sociologia não confirma.
11. Os Voluntários — Reconhecimento Sem Substituto para Pesquisa Própria
Nenhuma prova de trail acontece sem voluntários. Esta frase não é cortesia — é uma verdade estrutural.
Um evento como o MIUT mobiliza centenas de pessoas que trabalham 24–48 horas seguidas: montam abastecimentos em lugares inacessíveis de madrugada, marcam e retiram quilómetros de trilho, servem comida quente, comunicam com equipas de resgate, confirmam dorsais, acompanham atletas em crise, limpam o percurso no dia seguinte. Alguns fazem-no há mais de uma década. Não aparecem nas classificações nem nos documentos históricos.
11.1. Quem São
A sociologia do voluntariado no trail é mais complexa do que parece. Há ex-atletas que, por lesão ou problema de saúde, deixaram de poder correr e encontraram aqui o seu lugar. Há familiares de atletas que acompanharam cônjuges ou filhos a provas durante anos e passaram a fazer parte activa do evento. Há pessoas que nunca correram um trail mas se identificam com os valores da comunidade.
11.2. O Voluntariado como Subsídio Invisível
Se as horas de todos os voluntários de uma prova de média dimensão fossem remuneradas ao salário mínimo, o custo de organização seria várias vezes superior ao actual est, ordem de grandeza, sem estudo formal. O voluntariado funciona como subsídio invisível à viabilidade do trail de pequena e média dimensão em Portugal — e por extensão, à acessibilidade da modalidade. À medida que o trail se profissionaliza e as provas crescem, a pressão sobre este modelo aumenta. Reconhecer esta tensão é o primeiro passo para a gerir. Quantificá-la com seriedade é trabalho ainda por fazer.
O capítulo dos voluntários é, na minha leitura, a maior dívida deste texto. Não fiz entrevistas formais, não recolhi testemunhos transcritos, não identifiquei voluntários com 10+ anos de participação ininterrupta. Reconhecer a sua centralidade sem fazer o trabalho de a documentar não chega. É lacuna que assumo, não problema que resolvo.
12. Ecossistema Amador, Blogosfera e Memória Digital
O trail running português cresceu de baixo para cima. Antes das marcas, dos circuitos internacionais e das redes sociais, existiu um ecossistema amador que fez quase tudo: registou resultados, criou calendários, escreveu crónicas, fotografou provas, organizou treinos. Sem este ecossistema, o boom de 2012–2016 não teria tido a escala que atingiu.
12.1. Arquivos Históricos: João Lima e Carlos Fonseca
João Lima criou e mantém o mais completo arquivo de resultados de provas portuguesas, com classificações desde 1910 até aos anos recentes. Para o trail, é fonte de memória preciosa. Carlos Fonseca mantém o portal de atletismo e trail mais referenciado pela comunidade, com sistema de categorização adoptado pela ATRP e o calendário que permitiu documentar o crescimento da modalidade. [R26][R14]
12.2. A Blogosfera
Os blogs foram a literatura espontânea do trail. dorsal1967 (Luís Matos Ferreira, autor deste texto) cruzou trail, ultra endurance e reflexão. CorrerPorPrazer (Vítor Dias), fundado em 2008, tornou-se o site de corrida mais visitado de Portugal, com calendários e mais de 100 grupos de corrida listados. Corremais (Paulo Pires) registou os Treinos Lunares — corridas nocturnas em torno da lua cheia. RunPortugal (Eduardo Santos) sucedeu ao fórum "O Mundo da Corrida" como newsroom informal da modalidade.
Esta blogosfera não foi só comentário. Foi pedagogia, memória e identidade: muitos atletas aprenderam a preparar a sua primeira prova longa lendo crónicas de pessoas que tinham sofrido antes deles.
12.3. Clubes e Grupos de Treino
Os clubes foram a infraestrutura social da modalidade. O Monsanto Running Team, fundado em 2011, tornou-se um dos maiores clubes de trail de Lisboa, com a icónica "Hora do Esquilo" — treinos diários antes de a família acordar. Os Porto Runners tiveram protagonismo no AXtrail. Os Amigos da Montanha de Barcelos, com ligação a Carlos Sá, organizaram em 2010 o inaugural Ultra Trail Amigos da Montanha. O Trail da Salamandra de Sintra foi espaço formativo de muitos atletas. O RUN 4 FUN, com núcleos em Lisboa e Almada, é exemplo dos clubes amadores que deram massa crítica e identidade social ao trail. [R33][R34]
12.4. Investigação Académica — o que existe, e o que não existe
Convém distinguir duas coisas que se tendem a confundir. O que não existe é historiografia académica do trail running em Portugal: nenhuma tese, monografia ou artigo de história do desporto que tome a modalidade como objecto principal e construa, com aparato crítico, a narrativa da sua evolução, dos seus protagonistas e das suas instituições. O que existe é um corpus crescente de investigação em ciências do desporto, geografia, turismo e educação física que utiliza o trail running português como amostra ou como caso de estudo para responder a outras perguntas.
Esse corpus, a que recorri sempre que possível, inclui pelo menos sete linhas de trabalho:
Fisiologia, lesões e treino. A tese de doutoramento da FADEUP "The Portuguese Trail Runner" sobre lesões músculo-esqueléticas, perfil morfológico e neuromuscular [R29]. O estudo de Matos et al. (2019) sobre carga de treino e capacidade aeróbia em atletas dos campeonatos nacionais, publicado em Frontiers in Physiology [R38]. A dissertação de mestrado da FMH/Universidade de Lisboa sobre planeamento e metodologia de treino para o UTMB [R43].
Psicologia do desporto. Coelho et al. (2015) sobre motivação autodeterminada (Sport Motivation Scale) [R40]. Gameiro et al. (2023) sobre mental toughness e resiliência em 307 trail runners portugueses [R39].
Geografia, território, turismo. A dissertação da ESHT Estoril sobre potencial territorial e perfil dos praticantes [R20]. Os trabalhos de Julião, Valente e Mendes (CICS.NOVA/UNL, 2018) sobre espaços naturais e áreas protegidas [R21]. A dissertação de mestrado em SIG e Ordenamento do Território (UP) sobre fatores de risco e susceptibilidade a incêndios em provas de trail entre 2017 e 2020 [R41].
Análise comparada ibérica. Trabalho da NOVA com análise comparada de praticantes em contexto ibérico [R42] — uma das raras incursões académicas que cruzam Portugal com Espanha, e fonte privilegiada para colmatar a lacuna comparativa que assumi noutro lugar deste texto.
Educação física e desporto escolar. Pelo menos uma dissertação que estuda aptidão física em alunos que praticam trail vs. outras modalidades no Desporto Escolar [R44].
Saúde pública e prevalência. Pereira et al. (2021, PLOS ONE) sobre prevalência da corrida recreativa em Portugal — não específico ao trail, mas com base populacional sólida que enquadra a discussão [R30].
Esta literatura é base útil para muitos capítulos deste documento, mas não dispensa o trabalho que ela própria não faz: documentar a história institucional, biográfica e social da modalidade. É essa a fronteira entre o que aqui se reúne e a história rigorosa que continua por escrever.
13. Os Incêndios de 2017 e o Trail Running
Os incêndios florestais de Junho e Outubro de 2017 foram a maior catástrofe florestal da história portuguesa moderna, destruindo mais de 500.000 hectares e causando mais de 100 mortes. Para a comunidade do trail, representaram a destruição de territórios que eram simultaneamente cenários de prova, espaços de treino e paisagens de identidade. A Serra da Lousã, o Caramulo, a Serra da Freita, a Serra de Montemuro foram severamente atingidos. Trilhos do AXtrail/UTAX, Louzantrail e UTSF foram destruídos ou danificados.
13.1. Impacto Imediato
Vários eventos foram cancelados, alterados ou relocalizados. Percursos construídos ao longo de anos de trabalho desapareceram em horas. Os organizadores enfrentaram realidade para a qual nenhum regulamento os preparara: como dar continuidade a um evento quando o território que lhe dava sentido estava em cinzas.
13.2. Resposta da Comunidade
A resposta não foi apenas logística. Clubes e organizações mobilizaram-se para acções de reflorestação e limpeza: os Amigos da Montanha de Barcelos (projecto BiodiverCidade), organizadores do AXtrail e do Louzantrail (recuperação de trilhos), grupos de trail de todo o país (jornadas de voluntariado ambiental). Esta resposta revelou uma dimensão do trail que as classificações não captam: a consciência de que a modalidade depende da saúde dos territórios.
13.3. O Eucalipto e a Política Florestal
Os incêndios reabriram o debate sobre o modelo florestal português, marcado pela monocultura de eucalipto. A comunidade do trail, sem ter sido formada para essa discussão, foi nela apanhada — porque os trilhos atravessam essas plantações, e porque a sua destruição afecta directamente a modalidade. Não cabe a este texto resolver o tema, mas ignorá-lo seria desonesto.
14. Cronologia
15. Estatísticas-chave
15.1. Arquivo João Lima — escala
| Indicador | Valor | Nota |
|---|---|---|
| Provas registadas (1910–2020) | 2.783 | Não exclusivo a trail |
| Vencedores registados | 12.741 | Masculino e feminino |
| Classificações em PDF | 10.376 | Arquivo histórico de resultados |
15.2. MIUT — Crescimento Documentado
| Ano | Participantes | Nota histórica |
|---|---|---|
| 2008 | 141 | 1.ª edição — Ponta do Pargo a Machico |
| 2009 | 82 | 2.ª edição — partida passa para Porto Moniz |
| 2010 | Não realizado | Incêndios florestais na Madeira |
| 2011 | 128 | Retoma após interrupção |
| 2012 | 303 | Crescimento regional e nacional |
| 2013 | 449 | Campeonato de Portugal de Ultra Trail |
| 2014 | 749 | Consolidação |
| 2015 | 1.329 | Entrada no UTWT; 36 países |
| 2016 | 2.041 | Integrado no UTWT; 41 países |
| 2017 | 2.490 | 45 países |
| 2018 | 2.487 | 55 países |
| 2019 | 2.724 | 52 países — inscrições esgotam em 17 horas |
15.3. Linha Interpretativa do Crescimento
| Período | Caracterização | Marcos |
|---|---|---|
| 1998–2005 | Base inicial | Campeonatos FPME, corridas de montanha, provas pioneiras |
| 2006–2008 | Introdução do trail moderno | UTSF, MIUT, Geira, primeiros ultra trails |
| 2009–2012 | Crescimento acelerado | Carlos Sá internacional, blogs, fóruns, fundação da ATRP |
| 2013–2015 | Estruturação competitiva | Circuitos ATRP, MIUT no UTWT, 1.ª selecção nacional |
| 2016–2019 | Internacionalização | Dois Mundiais em Portugal |
| 2020–2026 | Maturidade e regulação | Pandemia, integração federativa, novos formatos, sustentabilidade |
16. Lacunas Reconhecidas e Caminho para uma História Mais Sólida
Este texto é um ponto de partida. Reúno em baixo os capítulos que assumo como deficitários e o tipo de trabalho que cada um exigiria para sair desse estado.
| Lacuna | Estado actual | Trabalho que falta |
|---|---|---|
| Mulheres no trail | Lista de nomes, dois parágrafos | Entrevistas formais a fundadoras, organizadoras, atletas; cruzamento com arquivos; capítulo próprio |
| Voluntários | Reconhecimento retórico | Identificar voluntários com 10+ anos de actividade; testemunhos transcritos; quantificação económica |
| Conflitos ATRP/FPA/FPME | Síntese diplomática | Trabalho de outsider — o autor é parte interessada |
| Incêndios de 2017 | Síntese impressionista | Inventário das provas afectadas; entrevistas com organizadores |
| Comparação ibérica/europeia | Praticamente ausente neste texto, embora exista trabalho académico NOVA [R42] | Mobilizar o trabalho da NOVA; estudo comparativo mais alargado com Espanha (FEDME, Salomon Spain Series), França e Itália |
| Açores | Introdução acrescentada, ainda insuficiente | Capítulo próprio sobre Azores Trail Run, Triangle Adventure, Golden Trail Championship 2020 e a gramática atlântica da modalidade |
| Aspectos comerciais e económicos | Síntese sumária | Estudo de receitas/custos; modelo UTMB World Series; patrocínios |
| Profissionalização real dos atletas | Anedótico | Quantos vivem da modalidade; estrutura de patrocínios |
| Doping e segurança | Ausente | Casos, regulamentos, fiscalização |
| Plataformas de inscrição | Ausente | Acorrer, Lap2Go, All4Running, Stop&Go — fundadores e modelos |
| Fotografia e cultura visual | Ausente | A estética que construiu a identidade visual da modalidade |
| Trail e classes sociais | Tocado, não desenvolvido | Análise sociológica do perfil real dos praticantes |
| Trail e alterações climáticas | Mencionado | Impacto nos trilhos, adaptação dos calendários |
| Treino e treinadores | Esboço (8.6) | Levantamento sistemático dos treinadores portugueses de trail; formações, metodologias, atletas orientados; evolução do coaching online em Portugal |
16.1. Tendências em Curso (2026)
O trail running em Portugal em 2026 é uma modalidade madura, com estrutura organizativa sólida e base de praticantes alargada. As tendências em curso incluem maior integração tecnológica (análise de dados de treino com IA, navegação digital em trilhos), aprofundamento das preocupações de sustentabilidade e o crescimento sustentado da participação feminina. Os desafios incluem a gestão do impacto ambiental em áreas protegidas, o equilíbrio entre democratização e preservação do espírito de aventura, a prevenção de riscos em provas longas, e a sustentabilidade financeira de um sector com muitas provas de pequena dimensão e base voluntária. A questão climática é crescente: com Verões cada vez mais quentes, provas de Junho a Setembro enfrentam riscos de temperatura extrema.
17. Nota Final
A história do trail running em Portugal é uma história de comunidade. Começou nos anos 1990 com as corridas em montanha organizadas pela FPME, tomou forma própria com os primeiros ultra trails no início dos anos 2000, cresceu rapidamente entre 2010 e 2016, e consolidou-se ao longo da última década numa das modalidades desportivas mais visíveis do país. Atravessa serras, levadas, trilhos romanos e aldeias de xisto. Mobiliza atletas, organizadores, voluntários, famílias, comunidades locais.
Este documento, repito-o aqui no fim para não haver dúvida, é uma síntese amadora. Está enviesado pela perspectiva de quem o escreve. Tem capítulos onde cumpre razoavelmente a tarefa de informar e capítulos onde só consegue identificar o trabalho que outros terão de fazer. As suas omissões são tantas como as suas afirmações.
Espero que sirva de ponto de partida — para quem quiser conhecer a modalidade, e sobretudo para quem decidir, com mais tempo, mais distância e mais método, escrever a história que isto não é. Talvez esse alguém seja o próprio autor. A proximidade ao tema — que neste texto é declarada como limitação — pode, paradoxalmente, ser também um trunfo: o acesso a fontes vivas, a memória de dentro, os contactos que uma investigação de raiz teria de construir de zero. Apesar de tudo o que aqui foi dito sobre os riscos do viés e da falta de distância, o autor considera seriamente dedicar-se a essa tarefa com o método que ela exige.
O que se segue é mais do mesmo — no bom sentido. Cada post vai explorar um tema, um protagonista ou uma prova que aqui só ficou esboçado: mais pistas, mais perguntas, mais memória organizada. Continuam a ser capítulos de um mapeamento amador, escritos sem pesquisa primária sistemática e com os mesmos limites declarados. A história rigorosa — com fontes primárias, revisão por pares e distância institucional — continua à espera de quem a queira fazer com o método que este projecto não tem.
A ordem de publicação pode mudar — o roteiro é vivo. As correcções, contributos e testemunhos de leitores podem mudar as prioridades. E estes posts de mapeamento são também, para o autor, a preparação para o que poderá vir a ser um estudo mais formal — com fontes primárias, entrevistas sistemáticas e o rigor que esta série deliberadamente não tem.
Este artigo-base é, por enquanto, construído a partir de fontes documentais, digitais e da memória do autor como praticante. Não passou ainda pelo crivo directo de muitos das pessoas que fizeram esta história: fundadores de provas, primeiros organizadores, atletas da geração fundadora, dirigentes associativos, treinadores e colaboradores cujos nomes aparecem nestas páginas. O autor tenciona contactar progressivamente esses protagonistas — em particular os que estão identificados como fontes primárias em falta nos dossiês da série — para obter testemunhos em primeira mão, corrigir imprecisões e enriquecer a narrativa com perspectivas que nenhum arquivo digital consegue substituir. Qualquer informação obtida directamente de participantes será integrada em versões futuras, classificada com escala de confiança A e identificada como fonte primária.
Nota sobre as fontes
Esta bibliografia foi renumerada consecutivamente em relação a versões anteriores. Está organizada em cinco categorias e mantém apenas as fontes que à data de redacção estavam acessíveis ou que, por serem fundamentais e estarem temporariamente indisponíveis, são marcadas como tal. Na presente actualização, a categoria académica foi expandida com sete novas referências (R38–R44) identificadas em pesquisa específica: trabalhos publicados em revistas indexadas (Frontiers in Physiology, Perceptual and Motor Skills, PLOS ONE), teses portuguesas (FADEUP, FMH/UL, ESHT Estoril, UP-SIG) e investigação aplicada (Politécnico de Leiria, IPVC, CICS.NOVA). Importa sublinhar que esta literatura usa o trail running português como amostra para responder a perguntas de fisiologia, psicologia, geografia ou turismo — não constitui historiografia da modalidade, que continua por escrever. Reconheço três limites mantidos: (1) a bibliografia académica internacional sobre trail/ultra continua sub-representada; (2) há pouca literatura em livro citada; (3) muitas fontes são da própria comunidade (sítios de provas, arquivos digitais), o que é coerente com o estatuto amador deste texto mas significa também que a triangulação independente é, em vários pontos, insuficiente.
I. Internacionais e Globais
II. Fontes Institucionais Portuguesas
III. Fontes de Provas
IV. Comunidade, Arquivos e Blogosfera
V. Fontes Académicas
Fontes citadas mas com problemas de acesso
À data de redacção desta v2, as seguintes fontes estavam total ou parcialmente inacessíveis: confrariatrotamontes.com (servidor com erro), desnivel.pt (link indisponível), Sapienta Sports (domínio sequestrado). As afirmações que delas dependiam estão sinalizadas no texto como estimativas ou memória comunitária, à espera de confirmação contra fontes alternativas em versões futuras.
Os vídeos abaixo não são apenas decoração do artigo. Foram seleccionados porque ajudam a documentar uma fase, uma prova, um território ou uma voz da história do trail running em Portugal. Alguns aproximam-se do testemunho documental, como Os Filhos da Freita; outros são vídeos oficiais ou promocionais das próprias organizações, úteis pela sua força visual mas condicionados pelo seu objectivo comunicacional.
Por isso, devem ser lidos como fontes de valor desigual: ajudam a compreender a cultura visual, a escala dos eventos, a relação com o território e a memória interna da modalidade, mas não substituem resultados oficiais, entrevistas, arquivos e fontes independentes.
Núcleo documental principal
Os Filhos da Freita é uma das fontes audiovisuais mais importantes para compreender a génese simbólica da Ultra Trail Serra da Freita e, por extensão, uma fase pioneira do trail running em Portugal. O documentário liga José Moutinho, a Confraria Trotamontes, Arouca, as aldeias, os voluntários, a dureza dos percursos e a construção de uma mística própria em torno da prova.
O Mundial de Trail de 2016 no Gerês é um dos grandes marcos internacionais da modalidade em Portugal. O vídeo deve ser visto como registo de contexto e promoção de um momento em que Portugal recebeu a elite mundial num cenário de montanha protegido, com forte carga simbólica para o trail nacional.
O MIUT 2016 Official Video representa a afirmação internacional da Madeira como território de trail. A travessia da ilha tornou-se uma das imagens mais fortes do trail português: montanha vulcânica, levadas, escadarias, costa atlântica e uma prova capaz de projectar Portugal no calendário internacional.
Trilhos dos Abutres 2019 — You make it EPIC! é uma peça oficial de activação do Campeonato do Mundo de Trail de 2019. Não é um documentário histórico no mesmo sentido da Freita, mas é um registo visual importante da afirmação de Portugal como organizador de grandes eventos mundiais de trail running.
O Golden Trail Championship 2020, no Faial, representa a entrada dos Açores no imaginário global do trail de elite. Num ano marcado pela pandemia e pela interrupção de grande parte do calendário internacional, o arquipélago tornou-se palco de uma competição mundial, mostrando uma gramática atlântica do trail português: vulcões, lama, vento, mar, fajãs e ilhas como território de corrida.
Registos complementares
Os registos da AXtrail Series 2010 mostram uma fase inicial em que o trail português começou a cruzar desporto, aldeias, trilhos marcados, turismo de natureza e desenvolvimento territorial. Nas Aldeias do Xisto, o trail deixou de ser apenas corrida em montanha e passou a funcionar também como narrativa do interior.
O Oh Meu Deus ocupa um lugar especial na história do trail português de longa distância. Nascido na Serra da Estrela, ajudou a afirmar a ideia de ultra trail como travessia dura, instável e profundamente marcada pela montanha, pelo clima e pela resistência mental.
O Ultra Trail da Serra de São Mamede mostra uma geografia diferente do trail português: o Alentejo de altitude, a fronteira, os castelos, as vilas históricas e a dureza discreta da Serra de São Mamede.
Estes canais e vídeos complementam o artigo, mas foram deixados como links para não transformar a página principal numa lista demasiado longa de embeds.
- LouzanTrail / Montanha Clube Trail Running — Serra da Lousã, Aldeias do Xisto e cultura de montanha.
- Azores Trail Run — arquivo audiovisual da dimensão açoriana do trail português.
- Golden Trail Championship 2020 — A Strategic Battle — filme complementar do evento nos Açores.
- Carlos Sá Ultrarunner — arquivo pessoal de um dos protagonistas maiores da modalidade.
- UTMB World Series — contexto internacional e linguagem visual global do trail moderno.
Eis o meu histórico competitivo reconhecido pela ITRA. Fica como ilustração de algumas das mais belas provas que se realizam em solo nacional e internacional. Os últimos anos foram marcados por muitas lesões, até que o joelho me impediu de correr em 2025. É um ciclo de 15 anos que se fecha.
| Data | Prova | País | Dist. / D+ | Pos. | Tempo |
|---|---|---|---|---|---|
| 2024 | |||||
| 2024-09-15 | STE - Sintra Trail X'treme – 33km | 31 km / +1570 m | 167/172 | 6:18:41 | |
| 2024-06-08 | Oh Meu Deus – K50+ | 58 km / +3330 m | 104/119 | 12:46:20 | |
| 2023 | |||||
| 2023-09-17 | STE - Sintra Trail X'treme, 6ed – 30k | 31 km / +1590 m | 215/222 | 5:25:08 | |
| 2023-07-07 | GRAN TRAIL COURMAYEUR – GTC 100 Km | 104 km / +7030 m | DNF | DNF | |
| 2023-05-05 | Ultra Trail de São Mamede – UTSM 100 K+ | 108 km / +5230 m | 118/124 | 25:02:18 | |
| 2023-04-23 | Ultra Trail Geira Romana – Ultra Geira Romana | 52 km / +2210 m | 53/55 | 10:37:20 | |
| 2023-04-01 | Piodão Trail Running – 50 km | 52 km / +2950 m | 124/124 | 11:36:43 | |
| 2022 | |||||
| 2022-10-22 | DURATRAIL – DURATRAIL 48Km | 49 km / +2190 m | 72/77 | 9:28:02 | |
| 2022-09-18 | STE - Montepio Sintra Trail X'treme, 5ed – 31k | 30 km / +1590 m | 152/172 | 5:15:29 | |
| 2021 | |||||
| 2021-06-03 | TransPenedaGerês – TPG 168k Race of the 4 Castles | 166 km / +8420 m | 56/126 | 37:43:06 | |
| 2020 | |||||
| 2020-10-23 | EstrelAçor Ultra Endurance – EA_Penhas_Torre | 141 km / +6850 m | 19/20 | 31:51:09 | |
| 2020-02-29 | Trail De Conimbriga Terras De Sico – 57 Km | 57 km / +2190 m | 220/299 | 9:32:41 | |
| 2020-01-12 | ULTRA TRILHOS DOS REIS / Delta Cafés – 46K | 46 km / +2170 m | 299/422 | 7:27:30 | |
| 2019 | |||||
| 2019-12-07 | EPIC Trail Run Azores – EPIC60 | 61 km / +3060 m | 80/111 | 10:34:57 | |
| 2019-11-10 | Penacova Trail do Centro – 42km | 40 km / +2100 m | 69/79 | 7:56:52 | |
| 2019-10-13 | Trail Costa Vicentina – Trail Longo | 58 km / +970 m | 89/93 | 8:17:34 | |
| 2019-09-21 | Grande Trail Serra d'Arga – GTSA 55 km | 55 km / +2770 m | 195/415 | 8:37:44 | |
| 2019-07-19 | Andorra Ultra Trail Vallnord – Ronda dels cims | 170 km / +13500 m | 156/408 | 57:00:34 | |
| 2016 | |||||
| 2016-10-29 | Trans Peneda Gerês – 55 Km | 56 km / +3010 m | 116/216 | 8:59:32 | |
| 2016-10-01 | ultra trail atlas toubkal – UTAT - 105K | 95 km / +6270 m | 17/57 | 24:17:15 | |
| 2016-05-21 | Estrela Grande Trail® | 90 km / +4550 m | 131/240 | 16:12:47 | |
| 2015 | |||||
| 2015-08-28 | Ultra-Trail Du Mont-Blanc® – UTMB® | 170 km / +10060 m | 624/1630 | 39:24:46 | |
| 2015-04-11 | Madeira Island Ultra Trail – MIUT | 110 km / +6970 m | 95/284 | 22:19:07 | |
| 2014 | |||||
| 2014-10-18 | AXtrail Ultra Trail Aldeias Do Xisto – UTAX | 105 km / +5720 m | 82/160 | 20:41:02 | |
| 2014-06-06 | VOLTA CERDANYA ULTRAFONS | 213 km / +10000 m | 13/42 | 40:50:18 | |
| 2014-04-12 | Madeira Island Ultra Trail – MIUT | 116 km / +7144 m | 64/128 | 26:11:09 | |
| 2014-01-25 | Trilhos dos Abutres® – U T A 45 | 46 km / +2800 m | 128/509 | 7:16:10 | |
| 2013 | |||||
| 2013-10-19 | AXtrail Ultra Trail Aldeias Do Xisto – TSL | 42 km / +2500 m | 21/207 | 5:16:05 | |
| 2013-08-23 | Le Grand Raid Des Pyrénées – GRP160 Ultra | 161 km / +9766 m | 103/434 | 36:42:46 | |
| 2013-06-29 | Ultra-Trail® Serra Da Freita – Ultra | 70 km / +4000 m | 30/138 | 12:56:18 | |
| 2013-05-18 | UTSM - Ultra Trail da Serra de São Mamede – 100 Km | 100 km / +3400 m | 21/229 | 13:11:02 | |
| 2012 | |||||
| 2012-11-10 | AXtrail Ultra Trail Aldeias Do Xisto – UTAX | 82 km / +5000 m | 52/109 | 14:58:55 | |
| 2012-07-13 | Ehunmilak Ultra-Trail® | 168 km / +11000 m | 55/112 | 39:42:47 | |
| 2012-05-19 | UTSM - Ultra Trail da Serra de São Mamede – 100 Km | 100 km / +3400 m | 11/159 | 13:03:12 | |
| 2011 | |||||
| 2011-07-30 | Swissalpine Marathon – K78 | 79 km / +2600 m | 295/1219 | 9:36:24 | |
| 2011-07-03 | Trail Serra Da Freita – Ultra | 70 km / +4122 m | 39/134 | 12:24:47 | |
| 2011-05-07 | LA LEGION - 101 KM DE RONDA 24H | 101 km / +2600 m | 101/1996 | 11:40:46 | |
| 2010 | |||||
| 2010-06-27 | Trail Serra Da Freita – Ultra | 70 km / +4400 m | 65/85 | 14:47:08 | |
Fonte: ITRA RunnerSpace · 38 provas registadas (2010–2024)
Grande Luís (LMF),
ResponderEliminarParabéns por mais um "trabalho" e contributo à história do Trail em Portugal.
Primeiro dizer que não era fácil ou simples fazer este levantamento. Parabéns por teres conseguido fazer o enquadramento de forma eficaz.
Queria também deixar a nota que apesar de por vezes longos, fizeste bem em fazer o preâmbulo sobre a forma do leitor se posicionar. E as referências que espaços que deixas em aberto também ajudam a perceber o contexto dos capítulos.
Olhando para os teus teus pontos finais e a abordagem sobre vários temas diria que há muito para ser escrito ou documentado de alguma forma
Pessoalmente gosto da parte mais prática. Por exemplo o treino para as provas de trail.
Mas para a história o trail o tema da introdução ou tentativa de introdução do doping, segurança e os aspetos económicos e impactos do Trail nas localidades parecem-me serem interessantes para explorar.
Mais uma vez parabéns!
Rui
Grande Rui,
EliminarMuito obrigado pelas tuas palavras. Vindas de alguém que conhece bem este meio, têm para mim um valor especial.
Tens toda a razão: este levantamento não era simples e ficou, inevitavelmente, incompleto. A ideia foi mesmo tentar criar um primeiro enquadramento, abrir pistas e deixar espaço para que outras memórias, testemunhos e contributos possam completar a história.
Também concordo contigo nos temas que referes. A parte do treino para trail merece, por si só, um texto mais prático e aprofundado. E temas como segurança, doping, economia local e impacto das provas nas comunidades são fundamentais para compreender a evolução da modalidade para lá dos resultados e das provas em si.
Este texto foi sobretudo um ponto de partida. Comentários como o teu ajudam-me a perceber que há ainda muito por escrever — e talvez esse seja precisamente o melhor sinal.
Um grande abraço e obrigado pelo contributo!