terça-feira, 24 de setembro de 2019

Grande Trail Serra D'Arga - 9ª Edição








"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão."

- Herberto Hélder




Os amigos salvaram-me a vida,
quando estava num lugar tão fundo e tão escuro
que cheguei a temer nunca mais de lá sair.




Alexandra P, Alexandre R, António C, CF, GoM, Graça M, JMS, Manuel A, Manuel F, Marina S, Miguel A, Miguel F, Pedro S, TT, sois vida, sois alegria, sois poema.

Faltaram AR, JR e LR, que infelizmente não puderam vir.












Por onde começar?

Pelos amigos.

Esta viagem foi uma viagem de amizade.

Um percurso simultâneo pelo espaço interior e pelo espaço exterior.

A vida é um bosque cheio de caminhos que se bifurcam. Encontramos uma árvore e somos confrontados com uma escolha: escolhemos o caminho da esquerda ou o da direita?

Escrevo este texto e pergunto-me: delineio um plano, esboço um esqueleto e acrescento-lhe depois a carne e a pele, ou pelo contrário deixo-me levar ao sabor do pensamento, ao correr do rio da consciência?

Nós somos o conjunto das nossas escolhas, e também das escolhas de muitos outros. Por isso mesmo é que não devemos menosprezar a nossa capacidade de mudar o mundo. Podemos começar por nós próprios e por aqueles com quem nos cruzamos no jardim dos caminhos que se bifurcam. Uma pequena pedrada no lago gera ondulações que se propagam até à margem. O bater de asas da proverbial borboleta.

Os labirintos de Borges.

"I love to drive the highways, the skyways
Just to get lost
I pass so many places"

Nascemos para a perda. A perda força-nos a crescer.

O próprio cérebro do nascituro tem que sofrer um enorme desbaste de ligações neuronais para que possa aprender.

O meu Bildungsroman sofreu uma inflexão no caminho que tinha uma pedra. "Tinha uma pedra no meio do caminho." Perde-se uma ligação forte, corta-se um cordão umbilical, multiplica-se por mil outros. Ganhei mil irmãos e irmãs.

"Driving till dawn... call you from the station... leaving you a message... that I am gone..."

As emoções do ser humano podem ser reduzidas a apenas duas: amor e ódio. Tudo são matizes destes dois ingredientes intrincados que se distinguem com dificuldade.

O mundo gira nessa fornalha do amor-ódio.



Por esta altura a(o) querida(o) leitor já se vai perguntando o que foi que este gajo fumou antes de escrever isto.

Vamos pois subir um andar até ao ego, e deixemos temporariamente as profundezas do id sossegadas, se é que esse desiderato é de todo possível...


(Disclaimer: tudo isto é fição; qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.)


Partida do Parque das Nações.

Olá sorriso aberto, olhos semi-cerrados em franca sintonia com os lábios, olá Graça M.

Olá dínamo de energia, movimento encarnado em pessoa, olá Miguel A.

Arrancamos a caminho de vila Praia de Âncora. Os pneus chiam nas curvas de acesso, sentimos o centro do universo a puxar-nos na direcção centrífuga oposta à aceleração do carro.

O caminho todo conversamos, não há momentos mortos, mas sim permanente animação.

Quatro horas que passam a voar. Vinte horas. Restaurante. Vazio. Chegam Alexandre R., Pedro S. e Alexandra P. Animação. Chegam António C., Miguel A.. Mais animação.

O funcionário com Asperger... Queremos 5 cafés e 3 descafeínados... ou seria ao contrário?

Não, traga antes um café pingado, dois abatanados, um sem princípio, dois curtos, dois longos... (qualquer semelhança com a realidade é pura fição) ... curto-circuito cerebral, overload, processador ao máximo, até se ouve a ventoinha de arrefecimento...

Um festival de alegria.



Ala para casa que se fazer tarde. amanhã "we have a little thing called Arga", Marina S. dixit (não confundir com Graça M.).

Desta vez não tenho um sofá à minha espera. Vou partilhar uma dupla (not king-size) com o Miguel A. Aviso-o logo que trago hábitos matrimoniais arreigados de dormir com a bracinho por cima da companhia de cama... É uma grande peta e ele não se deixa intimidar. (acho que nada o intimida).

Deito-me cedo mas tardo a adormecer. Ouço os companheiros na sala nas suas preparações de última hora. Finalmente caio nos retemperantes braços de Morfeu.

Quem não dorme nada é o MA. Tem uma costela amolgada. O que não tem é posição para dormir.

Seis e quinze: toca a alvorada. Banho rápido para aquecer, pequeno-almoço frugal pois não tenho grande apetite. Bem sei que o aporte de energia é muito importante, mas agora não dá. Quando chegar aos abastecimentos logo como.

Toda a falange da laranja se apronta para o combate. Está de chuva grossa e a previsão é para todo o dia.

Todos de corta-vento ou impermeável. Só nos faltam as guelras e as barbatanas.

O Manuel A. e o António C. conduzem-nos de carro os 4 kms até à partida.

Vai-se juntando gente em DEM. Nem a chuva grossa consegue lavar a patina de boa disposição que se colou à pele de todos os presentes.

A Xana P., o MA e moi-meme, tiramos selfies, rimo-nos, parece que vamos para uma vernissage em lugar de ser para 55K/37K de granito, água e celulose.

Atrás do pórtico, não descortinamos os restantes companheiros laranja. Estão todos escondidos sob as cotas de malha da batalha que se avizinha.

Às 8 badaladas do sino da Igreja arrancamos pelo empredrado de DEM. Uma voltinha à povoação para partir o pelotão e de seguida toca a subir os primeiros 400 ou 500 mD+ da prova. Chuva, chuva, chuva. Nevoeiro, nevoeiro, nevoeiro. A visibilidade é baixa.

Subo cauteloso mas constante. O MA já avançou por ali acima. Vai danado. Parece que vai assaltar as muralhas de Jerusalém.

A pedra é granítica e apesar de estar molhada agarra muito bem. Chegados ao topo, temos uma descida fantástica sobre lages de granito. Passamos a voar ao lado dos moinhos de vento do cavaleiro da triste figura. Não os vemos, apenas ouvimos o seu lamento agudo: vou, vou, vou...

Adoro esta descida. Entretanto o Pedro S. apanhou-me na subida e descemos rápidos em tandem.

Chegamos ao abastecimento onde encontramos o MA em conversação telefónica com o filho. Pai é pai, mesmo no meio de uma corrida...

Toca a continuar. Seguimos os três, mas depressa me deixam para trás. Vão endiabrados e eu sei que tenho que conservar energia se quero chegar ao fim.

Chuva, chuva, chuva, nevoeiro, nevoeiro, nevoeiro, regatos, regueiros, ribeiras, água, água, água.

Pés permanentemente molhados. Chão pesado, corpo encharcado. Mas alma lavada e sorriso rasgado por todos os seus dentes.

"No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra"

Segundo abastecimento ao fim de 4 horas e meia. Tenho fome. Muita fome. Já deveria ter comido algo, mas fui deixando andar. É agora que me vou desforrar: sopa, café, chocolate, bolo, amendoins, etc.

Chega uma boa surpresa: o Manuel F. entra na tenda. Como gosto de o ver. Incute-me sempre um enorme ânimo com a sua gargalhada aberta e sonora e os olhos brilhantes de alegria. Saímos juntos, mas ele tem que parar para atender a um chamado da natureza. Eu vou seguindo, com alguma esperança que em breve ele me volte a apanhar.

Mas não, esperança gorada: vou ter que cumprir a prova em solidão externa, mas sempre acompanhado pelo carinho interior dos amigos.

O MA e o PS estão lá para a frente. Atrás vêm o MF, AR, TT & GM, GM & MS. E na prova de 37K, que decorre em simultâneo com a de 55K, vêm a CF, a XP, e o RM.

Somos uma linha ininterrupta, uma cadeia que se estende do passado para o futuro. Onze anos de RUN 4 FUN, nove edições de Serra D'Arga, estão aqui representados nas esperanças, frustrações, sonhos, dores, alegrias, mazelas, riso e choro, sol e chuva.

Pela terceira vez parto de DEM. A primeira foi interrompida em S. Lourenço. Tempo semelhante ao de hoje, mas mais fresco. A segunda terminou em DEM, mas por pouco não era cortada cerce por um encontro imediato com um bloco de granito.

CF é uma força da natureza.

XP sobe pela enésima vez o km vertical. Desta vez a festa é sua.

RM vai despido, exposto à intempérie.

MA toma o destino em suas mãos e conquista a montanha.

PS ganha experiência em desafios cada vez maiores. Para ele o céu é o limite.

MF trava a sua própria luta contra a rebelião do corpo. É assaltado pela dúvida mas avança sólido. As batalhas mais duras e marcantes são aquelas em que nos vencemos a nós próprios.

AR gere a prova com espírito cientifico. E nunca perde a boa disposição e a saudável ironia que o caracterizam. Vai finalmente conquistar Arga.

GoM & TT avançam com a tranquilidade de quem tem muita experiência e nada a provar.

JMS vai filmando tudo. Graças a ele ficamos com um excelente registo para memória futura.

GM vence as contrariedades e luta contra a adversidade. Desistir não é opção. Guerreira.

MS avança segura. Nunca perde o sorriso e a boa disposição.

AC estica a corda. Vai ser por muito pouco mesmo.

e "last but not least", Manuel A, surge por todo o lado. A sua prova é no dia seguinte, mas entretanto presta serviço cívico. Que alegria vê-lo em Montaria. O seu ar gaiato, resposta sempre pronta. Que alegria!

Não esquecer também C e R, que vieram acompanhar os companheiros (aliteração?).



Abastecimento a abastecimento vamos progredindo.

Último abastecimento: dou de caras com os olhos negros e fundos do PS e sorriso caloroso e amigo. Cada encontro destes dá-me uma nova força. Vamos percorrer a última subida e descidas.

Última subida no meio do vendaval. até levanto voo. Recuperei a força, subo a trote. Ultrapasso, ultrapasso, sinto-me o maior trail runner do mundo...

Meia-hora à minha frente dá-se o rendez-vous entre MA e XP. Enorme alegria. Seguem juntos. Cada um dando força ao outro. Cortam a meta em tandem. Celebração da amizade.

Finalmente chego lá acima. Descer a bom ritmo. Está quase, quase, quase. E o quase transforma-se em cor, som, cheiro e sabor. Cumpri a peregrinação. Sinto concentrada num momento único a enorme alegria que o percurso me proporcionou.

Arga está conquistada.



Mais uma vez o Manuel A. Resgata-me de um hipotermia que se anuncia. Ainda esperamos pelo cruzar da meta do PS, mas depois leva-me a casa, onde tomo um dos melhores banhos da minha vida.

XP e MA já lá estão. Sinto-me muito feliz por os rever.

Vão chegando companheiros, trazidos pelo UBER MAN, Manuel A.

O pós-prova é sempre um momento muito especial. Estamos descontraído, felizes que nem gaiatos que passaram o dia a pular de galochas para dentro de poças de agua turvas de lama. A conversa flui facilmente.

XP regala-nos com uns belos ovos mexidos, temperados com o seu humor inteligente e maroto.

AC mantém-se como sempre espirituoso e original. Este pequeno reves não é de molde a quebrar-lhe o ânimo.

GM trás um largo sorriso trémulo. Forte emoção estampada nos olhos. Esta custou.



Saímos para jantar em Caminha, no Coura. Aí desagua toda a armada. Jantar animadissimo. Estou muito cansado mas extremamente feliz.

Foto de família.







Domingo, 6h, o AC acorda o Manuel A., que entra em campo neste dia. Toca a levantar pá!

- Deixa-me dormir!

só não diz 't "#$%& porque apenas no dia seguinte aprenderia a expressão.

Acaba por ser o MA que o leva, um pouco mais tarde, a horas decentes.



Algumas horas depois saímos todos para Montaria onde iremos esperar o nosso amigo.

"Um por todos, todos por um!"

Vamos lá buscar o D'Artagnam da Reboleira...


Montaria é um festival de alegria.

Vão chegando atletas após atletas.



O MA e eu, subimos um pouco pela Serra para melhor esperarmos o último dos moicanos.



Lá o vislumbro ao longe. O laranja é inconfundível. Vem cansado mas com boa cara. Descemos até junto dos restantes companheiros.

Enorme festa!

Bifanas e cerveja.

Foto com o Carlos Sá.


O Manuel A alargou significativamente o seu vocabulário neste quilómetros pela Serra. A pronúncia do norte tem o condão de fazer isso às pessoas:

"Agora uma pia cheia de água áqui é que era bomee! Para enfiar a cabeça até ao fundo!"



De volta para o hotel. O episódio da chave perdida do carro do JMS. O reboque e o artista das manobras.



O regresso a casa. A paragem na Batalha para uma refeição hilariante de bifanas, cerveja preta, e somersby para a malta mais jovem...



Enfim, felicidade é isto.





(algumas fotos)





















































































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