COVID-19: DISTANCIAMENTO SOCIAL - DIA#31 - Uma perspetiva pessoal

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 Nascer todas as manhãs

Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in "Diário (1982)"



No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra

Carlos Drummond de Andrade
 




COVID-19: DISTANCIAMENTO SOCIAL - DIA#31  - Uma perspetiva pessoal





De acordo com a Wikipedia:


The 2019–20 coronavirus pandemic is an ongoing pandemic of coronavirus disease 2019 (COVID-19) caused by severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2).[7][b] The outbreak was identified in Wuhan, China, in December 2019,[4] declared to be a Public Health Emergency of International Concern on 30 January 2020, and recognized as a pandemic on 11 March 2020.[9][10] As of 12 April 2020, more than 1.77 million cases[5] of COVID-19 have been reported in 210 countries and territories,[6] resulting in more than 108,000 deaths. More than 404,000 people have recovered,[5] although there may be a possibility of reinfection.[11][12] The case fatality rate was estimated to be 4 percent in China,[13] but varies significantly between countries.[14]


https://en.wikipedia.org/wiki/2019%E2%80%9320_coronavirus_pandemic



Como toda a gente sabe, a Pandemia teve origem num mercado de alimentos e animais vivos, em Whuan, na China, em Dezembro de 2019 (daí chamar-se Covid-19) e depois rapidamente se espalhou pelo mundo inteiro.

No inicio, o mundo ocidental teve tendência para desvalorizar a ameaça, assumindo que seria mais um dessa série de virús que afectou sobretudo os países asiáticos, ou que teve um impacto relativamente baixo nos países ocidentais, como o SARS e o MERS, e as gripes das aves e suina.

Seria apenas mais uma gripe, não muito diferente da gripe sazonal.


Até a própria Organização Mundial da Saúde desvalorizou a ameaça nos seus estadios iniciais, tendo mudado de tom, apenas a 30 de Janeiro, quando declarou a doença como emergência internacional:

http://www.euro.who.int/en/health-topics/health-emergencies/international-health-regulations/news/news/2020/2/2019-ncov-outbreak-is-an-emergency-of-international-concern



E apenas a 11 de Março foi declarada a pandemia, já muito depois da situação estar controlada na China:

https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-opening-remarks-at-the-media-briefing-on-covid-19---11-march-2020




Pessoalmente, eu apenas tive noção da real gravidade do problema de depois de ler este artigo fascinante, de 10 de Março,muito bem articulado e documentado:

https://medium.com/@tomaspueyo/coronavirus-act-today-or-people-will-die-f4d3d9cd99ca






Antes disto, já se sabia como a doença estava a evoluir na China, mas os media pareciam indicar que se trataria de um problema regional, com pouco impacto no resto do mundo.

É certo que o primeiro caso detetado em Portugal se deu a 2 de Março, já depois da doença assumir maiores proporções em Itália.

O segundo óbito portugues, a 18 de março, foi mesmo de alguém que tinha regressado de umas férias na neve, no norte de Itália.





Mas o propósito deste post não é resumir a história recente da pandemia, mas antes tentar dar um testemunho pessoal de como tem sido viver em isolamento social, sob esta ameaça.

No domingo, dia 8 de Março foi a minha vez de organizar o treino e recovery "Heróis do Mar" do núcleo de EXPO do meus clube de corrida, RUN 4 FUN.

Já se falava bastante da doença, mas não tinhamos qualquer noção do impacto que teria nas nossas vida muito em breve.

A meio do treino juntou-se-nos o Artur Marona Beja, enfermeiro com muitos anos de tarimba, e recordo-me bem da nossa conversa durante o treino. O Artur estava alarmado com o que ai viria em termos de saúde pública. O nosso SNS está permanentemente descapitalizado, tanto em recursos humanos como em meios materiais, e muito impreparado para aguentar um choque destes.



9 de março, pre distanciamento social


Como nessa semana ainda não existia uma real noção daquilo com que teríamos que lidar, marquei um treino de grupo, a ter lugar no sabado seguinte, na Serra de Sintra. Com alguma bravata, chamei-lhe o treino Thor Covid-19 Brutus Sintra, como referência à minha incrição no Tor Des Géants, corrida pedestre de 350 Km em torno do Vale D'Aosta, precisamente no norte de Itália.

O desonrolar dos eventos obrigar-me-ia a cancelar o evento.










No dia 11 de Março ainda trabalhei na EXPO, tendo tirado a minha habitual foto matinal (gosto de começar o dia bem cedinho) do ponto de vista priviligiado em que me sento em todos os dias da semana.



11 de março de 2020


Depois de voltar para casa, no inicio da noite, fui fazer a minha corridinha habitual, no Passeio Marítimo de Oeiras.





Mal sabia eu que tão cedo não voltaria a percorrer este belissimo troço à beira-mar.

Nos telejornais da noite já se começava a falar mais insistentemente na epidemia:





 


 


 


 




Na empresa de telecomunicações onde trabalho, já tinhamos por hábito tirar alguns dias por mês para fazer teletrabalho. Era-nos permitido tirar 4 dias em cada mês, e frequentemente recorríamos a esse modo de trabalho. Portanto já tinhamos alguma experiência desse regime.

Coincidentemente eu tinha reservado a quinta-feira dia 12 de Março para trabalhar a partir de casa.

Nesse dia, pela manhã, ao acordar, senti imediatamente que algo não estava bem. Tinha dores difusas, espalhadas pelo corpo, os olhos muito inflamados (com dificuldade em focar o monitor do PC), uma enorme dor de cabeça, e um mal-estar generalizado. Para além disso alguma tosse seca.

Seja como for, realizei a minha rotina habitual em teletrabalho: fui verificar o email corporativo no PC, ligado de véspera, para ver se existia algo urgente. Para mais, nesta semana e na seguinte, eu estava de prevenção, portanto convinha ver se estava tudo OK.

Apenas um parênteses: as minhas funções, enquanto Engenheiro de Telecomunicações, na área da Operação e Suporte de Rede, implicam cumprir uma semana de prevenção por mês, 24 x 7, em que posso ser chamado em qualquer altura para resolver um problema.

Tomei o pequeno-almoço, troquei o pijama pela roupa de trabalho, e voltei para o PC.

À hora do almoço preparei a minha sopinha, para durar vários dias. Mal sabia eu que essa passaria a ser uma rotina habitual.







 


 



Durante o dia os sintomas foram-se agravando. Depois do almoço comecei a ter febre. De início apenas uns míseros 37,2ºC, mas foram crescendo até chegar aos 38ºC a meio da tarde.



 





Felizmente a febre respondia bem a anti-piréticos (neste caso tomei o ibuprufeno 400 mg), e continuei sempre a trabalhar.

Nessa noite, a empresa mandou-nos a todos para casa, através de comunicado por sms, email e das repetivas chefias (WhatsApp tipicamente).

Ou seja, antecipei-me em um dia, à quarentena generalizada. Eu comecei a 12/03 e a empresa a 13/03, sexta-feira.

Na sexta-feira o dia decorreu em tudo igual ao anterior, exceto que a tosse agora já não era tão seca. Manhã sem febre, mas com dores corporais, sobretudo nas costas, e uma enorme cefaleia. De tarde febre que acalmava com o ibuprufeno. Olhos inflamados, com dificuldade de leitura.

Tentei ligar duas vezes para a linha da Saúde 24, mas sem qualquer sucesso. Aquilo fazia-nos passar por um atendedor automático muito longo em que fazia o despiste dos sintomas, e só depois começava a tocar para um assistente. Da primeira vez, após o longo processo de responder às perguntas, a chamada caiu (muito frustrante). Da segunda vez lá começou a tocar, mas nunca mais era atendida. Desisti.

O meu chefe deu-me uma sugestão útil, que foi tentar a linha da Médis, seguro de saúde da nossa empresa. E assim fiz. Fui atendido por um enfermeiro, que me fez um longo despiste. Uma vez que eu sou cronicamente hipertenso e como me queixava das fortes dores de cabeça ele mandou-me verificar a pressão sanguínea.

De facto os valores estavam elevados:







Resolveram enviar-me um médico a casa.

Essa noite bate-me à porta o médico mais velho que alguma vez me atendeu. O senhor já deveria ter setenta e muitos anos. Garantidamente dentro do grupo de maior risco. Talvez por isso ou por ser um clínico da velha guarda, atendeu-me em menos que nada. Auscultou-me e perguntou-me pelos sintomas. Passou-me a receita e pirou-se logo que possível. Também ele devia temer pela vida.

E deixou-me uma receita:

Azitromicina, ambroxol e actifed.


 




No sábado de manhã aviei a medicação.  Na farmácia a fila formava-se cá fora, na rua. Estariam cerca de 5 pessoas à minha frente.

O fim de semana passou-se sem registo de nota.

A febre durou 3 ou 4 dias e depois passou. Cerca do 4º dia os sintomas já faziam mais lembrar uma gripe ou constipação normal.

Segunda-feira continuei a trabalhar como de habitual, mas em teletrabalho.

Tinha ficado de ir buscar os meus filhos a casa da minha ex-mulher, mas dadas as circunstâncias combinámos que aguardariamos pela sexta-feira seguinte.

A partir deste dia, 16/03, as alunos das escolas foram enviados para casa, e várias outras medidas de "lockdown" foram tomadas pelo governo.

Na verdade a sociedade civil tinha-se já antecipado, e várias escolas já tinham fechado, incluindo a da minha filha. O IST, onde o meu filho estuda, também encerrou pouco depois.



As fotos habituais do nascer do sol, passararam a ser tiradas do meu telhado (tenho a enorme sorte de ter pontos priveligiados de observação, tanto em casa como no trabalho)





As saídas de casa passaram a resumir-se às idas à mercearia de bairro (abençoados trabalhadores, que mantiveram sempre funcional e abastecida, a minha linha de abastecimento; são os meus heróis pessoais; sempre recorri ao comércio local e ainda mais o farei de futuro)










Por esta altura já sabiamos que muito provavelmente o estado de emergência iria ser declarado na quarta ou quinta-feira seguintes, pelo presidente da república.

Perante a possibilidade de ficar confinado em casa, sem possibilidade de praticar desporto ao ar livre, encomendei logo uma passadeira da Decathlon, que me foi entregue à porta, nessa mesma quarta-feira, por dois funcionário protegidos por máscaras.

Depois verificou-se que o estado de emergência permitia pequenas corridas não muito longe de casa, no entanto na segunda-feira eu não sabia disso. Seja como for, passei a usar quase exclusivamente a passadeira para treinar, não por receio de sair à rua, mas porque penso que devemos dar o exemplo.

Aliás, nunca parei de trabalhar, não alterei o meu calendário de prevenções, tendo inclusive realizado trabalhos noturnos nessa mesma quarta-feira, enquanto ainda estava doente, porque penso que devemos ser todos solidários e todos contribuir na medida das nossas possibilidades para o continuar do normal funcionamento do país, pelo menos o mais aproximado que for possível. Se o pessoal de saúde (e de tantas outras profissões essenciais) se encontra na linha da frente, nós que estamos no resguardo das nossas casas temos que dar também o nosso melhor.





Só no sábado dia 21, quando já me senti razoavelmente melhor, é que estreei a passadeira.

No entanto, nessa mesma quinta-feira, tive a imensa alegria de participar num treino conjunto, à distância (pelo Zoom), com os meus camaradas RUN 4 FUN, numa excelente iniciativa do Rúben Costa, a que se associou o Pedro Ribeiro, enquanto orientador do cross-fit.






Foi extremamente divertido, e deixou-me todo partido.


No sábado lá estreei a passadeira. Agora que comprei aquilo, vou ter que dar o litro.





E nessa sexta-feira, dia 20, fui finalmente buscar os meus filhos.

Estava cheio de saudades: com eles a vida tem outro sabor.


 






Aos fins-de-semana as chamadas em conferência com a diáspora familiar (o meu irmão vive em Saettle) também são um enorme bálsamo:








Durante a semana foi divulgado internamente que um colega do meu piso teria ficado doente na mesma altura que eu, e que tinha testado positivo para o covid-19.

A partir desse momento a probabilidade de eu estar infetado com o virús aumentou bastante. Combinei com a Lena, a minha ex-mulher que eu deveria fazer o teste. Ela é médica e se apanhasse o virús deixaria de poder cumprir a sua função.

Na sexta-feira, logo que acordei, bem cedinho tentei ligar para a Saúde 24. Desta vez fui atendido à segunda chamada, ao fim de poucos minutos. Fizeram o despiste e disseram-me que se considerassem que eu cumpria os critérios para ser testado enviar-me-iam um sms (e email) com a requisição.

Nesta altura já existiam protocolos com laboratórios privados e uma lista deles no site da DGS. Recebi o sms ao inicio da noite. No dia seguinte de manhã, sábado 28, tentei contactar um dos laboratórios do meu concelho de residência. O meu telefonema demorou mais de uma hora a ser atendido, mas finalmente lá me marcaram o teste. A data disponível mais próxima seria na quinta-feira dia 2 de abril. Nessa altura já teriam passado 21 dias desde que fiquei doente, portanto pareceu-me que a probabilidade de ainda estar infetados seria muito baixa, mas pelo menos teria a certeza.

Nesse sábado tive a grande alegria de dar a minha primeira corridinha (19K) ao ar livre, junto à marginal (o passeio maritimo no concelho de Cascais estava interditado).



 









Foi muito estranho correr sem praticamente me cruzar com vivalma. Mas foi uma enorme dose de ar fresco. Soube-me pelo mundo.




Este foi o mês em que todos os portugueses se tornaram epidemiologistas.

Cada um apresentava nas redes sociais a sua curva de evolução da epidemia, e eu não fui exceção.

No início parecia mesmo que a epidemia estava a tomar um ritmo explosivo, seguindo uma curva exponencial:





Tanto que levou a um artigo bastante falado do matemático portugues Jorge Buescu:





Foi por esta altura que se começou a falar em aplanar a curva. O conceito é simples: se tomarmos medidas de distanciamento social, estaremos a diminuir a taxa de propagação do virús, o que levará a um atraso na sua difusão pela população. Esse período de tempo mais dilatado resultará numa menor sobrecarga no SNS e permitirá salvar muito mais vidas, diminuindo a taxa de mortalidade causada pelo virús (além de permitir o atendimento dos outros casos graves, de agudos não-covid)



No domingo, dia 29, às 6h20 passou uma reportagem, no Toda a Verdade da SIC Notícias, que me deixou particularmente impressionado. Mostrava a forma como a pandemia foi tratada em Whuan na China. Contém cenas impressionantes em que as autoridades vão a casa das pessoas, medem-lhes a temperatura e caso seja superior a 37ºC levam-nas à força. Há uma imagem em que se vê as supostas autoridades a soldarem portas para que as pessoas não saiam à rua.














E Lisboa, vista do meu telhado, também continua a ser uam cidade linda e únca no mundo:





E a vida continua a correr o seu curso.

Este casalinho de pombos resolveu fazer o seu ninho de amor no meu canteiro da sardinheira:



 




Entretanto iam-se fazendo previsões acerca da data do pico da pandemia em Portugal:







Foi mudando sucessivamente do final de maio para meados de abril, à medida que a curva se ia alterando.






Por a malta finalmente começar a interiorizar que tinha mesmo que ficar em casa






Todas as notícias, ao longo de todo o dia, em todos os canais, tinha um único tema: a pandemia.







A pressão a que todos os trabalhadores que continuavam no ativo, fosse presencialmente ou em teletrabalho, aumentou ao mesmo ritmo da curva.

Uma das grandes desvantagens de estar em casa em teletrabalho é que passamos a estar dentro das instalações da empresa a tempo inteiro. A nossa casa passa a fazer parte dessas instalações. Torna-se muito mais complicado recusar uma solicitação, seja a que horas for. E em empresas habituadas a trabalhar com ferramentas digitais, isso torna-se ainda mais acutiliante. Seja por teams, skype, whatsApp, email, sms ou o plain good old telephone, estamos sempre disponíveis. E existe uma tendência generalizada para curto-circuitar os processos habituais de workflow.

Outro factor de aumento de stress laboral, nas telecomunicações, é o facto de termos que reforçar a rede e os serviços, para poder dar vazão a um aumento muito substancial do uso dos nosso serviços.

Antes estavamos a trabalhar a 150% de capacidade.Agora estamos a 200%.

Tanto que a certa altura a única forma de suportar este ritmo, é conseguir o mix correto entre hábitos saudáveis e outros menos saudáveis mas fundamentais para aliviar o stress.









Quanto à epidemia, todos os dias a Ministra da Saúde (ou secretário) é acompanhada pela Diretora Geral de Saúde na conferência de imprensa que tem lugar cerca das 12h30 e onde são discutidas as estatísticas do dia anterior, e são repondidas as questões dos jornalistas.

Existe uma pergunta constante em todas essas sessões: porque não se estão a testar mais pessoas?

E a resposta também é sempre a mesma: testa-se baseado em critérios de racionalidade não de racionamento (um pouco dúbia a distínção): não é possível testar todas as pessoas, portanto vai-se testando mediante os recursos humanos e de meios de teste disponiveis.

A diretiva da OMS é testar o mais possível, e os países campeões dessa abordagem (a Coreia do Sul, a Ilha Formosa, etc) são também aqueles que têm a epidemia mais controlada.

Em Portugal torna-se difícil desenhar curvas epidemiológicas com base nestes dados pouco representativos. Estima-se que uma fatia muito maior da população esteja infetada do que aquela que é mostrada nas estatísticas.

Mesmo os números que deveriam ser mais fiável, de internamentos e óbitos, são contestados pois não é trivial declarar que um óbito se deveu à Covid ou a outra causa aguda.





 


Nos outros dois países latinos, Itália e Espanha, a epidemia continua a grassar aparentemente sem barreiras, apesar das medidas de contenção, que terão sido tomadas demasiado tarde, segundo os especialistas.






Fala-se muito na catástrofe económica que se avizinha, que se antecipa muito pior do que aquela de 2008.

O PIB está em grande quebra em todos os países, neste que é um choque global, simétrico no seu impacto, mas assimetrico nas suas implicações. Como sempre quem irá sofrer mais serão os países mais pobres, e dentro dos países, serão as camadas mais desprotegidas. O desemprego e layoff estão a aumentar exponencialmente.

A União Europeia não se entende nas medidas concertadas a tomar.

Existem países que adoptam estratégias outlier para enfrentar a epidemia, nomeadamente UK e a Suécia. UK incialmente não toma medidas de lockdown e isolamento social, mas depressa muda de estratégia quando os casos começam a aumentar significativamente. A Suécia vai continuando a vida como de habitual. Diz-se que este país já tem por si condições fora do normal, em que grande parte dos agragados são de pessoa única, e não existe contacto frequente com as gerações mais velhas.





A população mais frágil e desprotegida é precisamente a dos mais velhos. Os casos atravessam os lares como fogo em capim seco, em todos os países da união e também nos EUA.







Eu próprio tenho a minha mãe num lar, o que me deixa preocupado. Felizmente é um lar muito diferenciado, que hospeda ex-professores, e cuja direção tem assumido uma conduta exemplar ao longo de todos este período.












Devido às graves consequências económicas da paragem da economia, existe uma enorme pressão para marcar datas para o regresso à normalidade.


 



Entretanto faço o meu teste e o resultado vem negativo como previsto. O ambiente do laboratório é de filme de hollywood: pessoal totalmente protegido de alto a baixo. Faz lembrar o ébola.

Ainda serei seguido diariamente, por contacto telefónico do médico de serviço, mas ao fim de uma semana recebo alta.



As medidas do estado de emergência são intensificadas para lidar com o período das férias da Páscoa.
As pessoas são proibidas de se deslocarem para fora do seu concelho de residência, a menos que tenham uma razão válida para o fazer (e normalmente bem documentada)





As famílias enfrentam vários desafios.


 


As que estão confinadas todas em conjunto têm que lidar com vários deles:

  • a necessidade de conciliar o teletrabalho com tomar conta de crianças pequenas (fonte de enorme angústia).
  • o aumento da violência doméstica

As que comutam de casa para o trabalho também têm os seus:

  • a quem deixar o cuidado das crianças
  • como evitar contaminar os familiares que estão em casa

Os que estão ociosos em casa também terão os seus desafios.


E sobretudo a forma como estes desafios se apresentam é muito diferente consoante o estrato social:

O tamanho da casa, se tem espaços exteriores, etc.

Enfim, como sempre, mesmo que a contaminação atinja todos por igual (e isso não é verdade), os efeitos são sempre muito diferentes.

Dos EUA vem a notícia de que a comunidade Afro-Americana é desproporcionalmente afetada. Em Chicago a população Afro-Americana respresenta 30% do total, mas 70% dos infetados. As razões avançadas são: menor percentagem de empregos em teletrabalho e piores cuidados de saúde (falta de seguro de saúde, etc).


A evolução da doença continua imparável, mas Portugal parece passar entre os pingos da chuva: o SNS ainda não foi assoberbado e o crescimento dos indicadores parece estar controlado.





No entanto subsistem as críticas às estatísticas portuguesas









Critica-se o sub-investimento no sistema:








Eu continuo a fazer a minha vida o mais normal possível.

Os miúdos já foram para casa da mãe. Obrigo-me a cozinhar só para mim (o que é bem mais dificil, por falta de motivação)







Bebo mais do que deveria, mas penso que sob-control.
É a minha barreira contra o Covid-19.





Vivemos num mundo estranho. Em plena crise comercial, existe excesso de produção agricola que não consegue ser escoada: 





O "Just-in-time" do mundo em que vivemos, revela as suas consequência mais insidiosas quando somos atingidos por estas calamidades globais.

Somos tristemente confrontados com a angustiante evidência de que, por mais sofisticado que se tenha tornado (ou precisamente por essa razão) o mundo não está preparado para isto.


Mas continuam sempre a existir razões para ter esperança, tais como este melro, tranquilamente pousado no parapeito do meu terraço:





Faz-nos recordar que a vida continua sempre.


No Reino Unido o próprio lider do governo, Boris Johnson é internado nos cuidados intensivos.

Os policias britânicos fazem lembrar uma sitcom cómica (os 3 estarolas?):





Se o impacto nos países desnevolvidos é aquele que se está a ver, como irá ser nos países sul-americanos e sobretudo em África?


Favelas em Caracas






Fala-se na segunda vaga da curva, a ter lugar após dominada a primeira. Não há certezas acerca deste virús: confere imunidade? Voltará no Outono?






Os calendários escolares sofrem grandes alterações:







No dia 9 de abril (Sexta-feira Santa), finalmente surge a notícia de que o Eurogrupo chegou a acordo acerca de medidas para auxiliar a economia.





Mas as críticas continuam a fazer-se ouvir, dos mais variados quadrantes: que é muito pouco; que apesar do auxílio não estar indexado a medidas de austeridade, no fundo elas estão implicitas devido às regras orçamentais do eurogrupo. Enfim, é mais um caso de ver para crer.

O certo é que a própria razão de ser da união está sob ameaça como nunca esteve anteriomente: os países do norte não aceitam passar cheques em branco para os países do sul, e os países do sul não aceitam ficar escravizados às regras dos do norte.




No meio disto tudo, eu cá me vou aguentando, recorrendo à arma mais potente que tenho no meu arsenal: o sentido de humor. Toda a minha vida foi essa faceta que me ajudou a ultrapassar os episódios mais complicados, e esta ocasião não é exceção.


Resolvi dedicar-me a esse mundo fascinante da tática desportiva.


Comecei com um esquema clássico, 4-3-4:







Atenção que o ponta-de-lança, Aguardente da Lourinhã, é um jogador do calibre de um Ronaldo, fazendo parte de uma das 3 zonas demarcadas de produção de aguardente vínica: o Cognac, o Armagnac e a Lourinhã.

https://observador.pt/especiais/nas-caves-da-lourinha-nasce-uma-das-mais-famosas-aguardentes-do-mundo/

O problema com esta equipa é que os jogadores se desgastam a um ritmo muito elevado, sendo imperosa uma elevada frequência do mercado de contratações.




Outra coisa que me dá imenso ânimo é esta senhora. Bendita seja! O Rodrigo Guedes de Carvalho até é capaz de estar a fazer um excelente trabalho de motivação dos portugueses, mas confesso que esta senhora me motiva muito mais...








E lá vou fazendo uso do meu ginásio particular o melhor que consigo. Confesso que é um pálido substituto para os treinos de fim-de-semana na serra de Sintra. Sinto imensa, imensa falta desses treinos, em que me perco um dia inteiro pela Serra. Isso não há nada que substitua. Manter a motivação para treinar nestas circunstâncias é muito complicado.

Na sexta-feira passada, dia 9, lá fui dar uma volta na rua. Cheguei ao início do passeio maritimo e estava tudo vedado. Os sitios bonitos para treinar estão todos interditos. Ao fim de 5 km voltei para trás, abatido por essa limitação à minha liberdade. Eu sou uma criatura do dia, do sol e do exterior em ambiente natural.

Ontem lá treinei 21 km na passadeira. Não foi fácil. Mas  a música foi-me dando alento.









Entretanto no mundo a loucura continua à solta. Quando a mim o gráfico mais impressionante de todos é este:








Hoje é dia de Páscoa.

Os meus filhotes retornam a minha casa esta tarde. Fazem-me imensa falta.

Felizmente, para me fazer companhia, tenho comigo o meu chuchu:












Gostaría de desejar a todos uma SANTA PÁSCOA, repleta de paz, esperança, amor e tranquilidade.


Para os Cristãos espalhados pelo mundo a Páscoa é tempo de reflexão, redenção e renascimento.

É a celebração da morte e ressurreição de Cristo.

E que tema mais atual do que a renovação, de que a humanidade nos parece estar muito necessitada.

Para homenagear esta data, deixa-se aqui um pot-pourri de imagens sagradas e profanas.





"Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé."

  • João 1 - 5:4





"Apesar da idade, não me acostumar à vida.

Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca.

Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição.

Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento.

Esquecer em cada poente o do dia anterior.

Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória.

Nascer todas as manhãs."

  • Miguel Torga, in "Diário (1982)"





E como dizem o Eric Idle e o James Corden, que nunca nos esqueçamos que o mundo é um local pelo qual vale a pena lutar.




















Esta é a minha vivência pessoal deste período. Gostaria de ler as vossas, uma vez que nos encontramos num período de distanciamento social, que torna mais difícil ouvi-las de viva voz.




A afeição ainda resolverá os
Problemas da Liberdade;
Aqueles que se amam
Tornar-se-ão invencíveis.

- Walt Whitman








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