Blogues fundadores: a primeira memória escrita do trail português

Os blogues fundadores do trail running português (2007–2014): a primeira memória escrita da modalidade, antes das redes sociais. Inventário de dorsal1

Post da série História do Trail Running em Portugal: os blogues fundadores (2007–2014) que foram a primeira memória escrita da modalidade, antes das redes sociais — inventário, tipologias e o problema da preservação.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 10

Blogues fundadores: a primeira memória escrita do trail português

Antes dos rankings, da federação própria e das redes sociais, o trail teve blogues. Inventário, tipologias e o que ainda sobrevive no arquivo — proximidade declarada, lacunas assumidas.

📍 Portugal · Web 📅 2007–2014 📚 Dossiê 10 · Ecossistema digital ✍️ Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Rascunho estruturado — base factual verificada em fontes públicas, lacunas declaradas. Proximidade alta: o autor é, ele próprio, autor de um dos blogues inventariados (dorsal1967) — toda a referência a esse blogue é auto-citação, assinalada como tal. Uma análise temática sistemática do conteúdo dos blogues está por fazer.
2007–14
Período
fundador
27
Sítios
inventariados
4
Famílias
(crónica/fórum/arquivo/portal)
2008
Pico de
arranque
3+
«Mortos» vivos
no Wayback
Série · História do Trail Running em Portugal Este dossiê integra a série de aprofundamento que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal: Uma História de Montanha, Resistência e Comunidade». Dossiês relacionados: Dossiê 09 — Clubes de Trail (partilha fontes) e os companheiros sobre redes sociais e fóruns (11) e arquivistas e memorialistas (12).
Declaração de interesses

Quem escreve este dossiê é, ele próprio, autor de um dos blogues aqui inventariados — o dorsal1967 — e mantém-no desde 2008. Toda a referência a esse blogue é, portanto, auto-citação, assinalada como tal. O autor é parte da comunidade que escreveu e leu estes blogues e conhece pessoalmente vários dos seus autores; o tratamento é descritivo e apoiado no que está publicamente acessível, mas a proximidade é real e declara-se.

1) Porque é que os atletas escreviam

O trail português cresceu, na sua primeira década moderna, sem os instrumentos que hoje parecem naturais. Não havia ainda um circuito nacional com classificações próprias (chegaria com a ATRP, a partir de 2013), as plataformas de resultados eram dispersas, e o Facebook só se tornou central na comunidade no início da década de 2010. No vazio, o blogue — gratuito, pessoal, imediato — foi o instrumento natural de quem queria registar e partilhar a experiência. [R230]

Escrever um blogue de corrida, nesses anos, era um gesto a meio caminho entre o diário e o serviço público: contava-se a própria prova, mas também se davam informações de percurso, avisos de inscrições e fotografias para quem vinha a seguir. A plataforma dominante era o Blogger, com o SAPO Blogs como alternativa nacional. O resultado foi um arquivo disperso mas vivo — e involuntário: quase nenhum destes autores escrevia a pensar que estava a fazer história.

2) Quatro famílias, não uma

«Blogue» é, aqui, uma categoria que convém desdobrar. O ecossistema digital fundador tinha pelo menos quatro tipos de sítio, e confundi-los empobrece a leitura:

  • (a) Blogue de crónica — memória escrita pessoal, na primeira pessoa. É o objecto central deste dossiê.
  • (b) Fórum / comunidade — discussão colectiva, anterior às redes sociais.
  • (c) Arquivo de resultados — compilação de classificações, sem crónica.
  • (d) Portal / agregador — calendário, notícias, entrevistas, inscrições.

As datas de início referem-se, salvo indicação, à captura mais antiga no Internet Archive ou a declaração do próprio sítio — e são, por isso, limites superiores. [R313]

Sítio Autor(es) Tipo Desde Papel
dorsal1967 (autor deste dossiê)Luís Matos Ferreiraa · crónica2008Crónicas de ultra-trail, triatlo, swimrun [R302]
CorremaisPaulo Pires (cronista)a · crónica2008Crónicas; criou os «Treinos Lunares» [R303]
carlossa.comCarlos Sáa · sítio de atleta2007Sítio oficial + blogue intermitente [R308]
Porto Runnerscolectivo (clube)a/b · crónicaCrónicas de prova, incl. AXtrail [R305]
O Mundo da CorridaEduardo Santos + colectivob·c·d + assoc.2008Fórum + portal + Associação Desportiva; lançou o UTSM [R309][R310]
Correr por PrazerVitor Dias + colectivod · portal2008Calendário, entrevistas, especiais [R304]
Portugal Runningcolectivod · portal2014Calendário, treino — limiar tardio [R311]
joaolima.netJoão Limac · arquivo2009Histórico de resultados (PDF) [R306]
atletismo.carlos-fonseca.comCarlos Fonsecac · arquivoArquivo, calendário, treinos [R307]
Nota de homonímia. O Paulo Pires do Corremais — cronista e criador dos «Treinos Lunares» — não é o Paulo Pires treinador (beAPT, ligado a Carlos Sá) que aparece noutros dossiês. São pessoas distintas com o mesmo nome.

3) Os blogues de crónica: a memória na primeira pessoa

O coração deste dossiê são os blogues de crónica (tipo a) — onde a experiência de correr foi posta por escrito por quem a viveu.

O Corremais, de Paulo Pires, é talvez o exemplo mais completo: activo desde 2008 e ainda hoje, juntou crónicas de prova a um projecto próprio, os «Treinos Lunares» na Costa da Caparica, cuja cronologia o blogue preservou — um caso de blogue que não só registou a comunidade como a criou. [R303] O dorsal1967, do autor deste texto, acompanha desde 2008 um percurso de ultra-trail, triatlo e swimrun, e cruza-se com a história do RUN 4 FUN e da ATRP — citado aqui com a reserva da auto-citação. [R302] O sítio de Carlos Sá (carlossa.com), online desde 2007, é um híbrido: sítio oficial de atleta com blogue intermitente, e a primeira presença digital sólida de um protagonista de elite português. [R308]

A estes juntam-se as secções de crónicas de clubes, das quais o caso mais citável é o dos Porto Runners, cujos relatos de participação no AXtrail das Aldeias do Xisto (2009–2010) são hoje documentos da fase pioneira — escritos por quem lá esteve, sem saber que estava a fazer arquivo. [R305]

3.1 · A memória da génese: o «Último KM»

Antes de haver trail, houve corrida de montanha — e a memória dessa pré-história está preservada, sobretudo, num blogue: o «Último KM», de Jorge Branco (online aproximadamente entre 2009 e 2020). O seu post de Novembro de 2011, «Para a história da corrida em montanha em Portugal», é uma das poucas tentativas comunitárias de reconstituir a genealogia federativa da modalidade: descreve a Manteigas–Penhas Douradas (cuja primeira edição data, segundo o blogue, de 1983) como «a mãe das corridas de montanha em Portugal», atribui a António Matias a inspiração no modelo pirenaico de Luchon–Superbagnères, e relata o lançamento do circuito «Desafio 95» e provas como a Transestrela. [R314]

O valor é duplo e o cuidado também. Por um lado, o «Último KM» liga directamente a genealogia das Corridas de Montanha (fase federativa, ~1995–2005) — material precioso para os dossiês sobre as origens. Por outro, é uma fonte secundária e retrospectiva (escrita em 2011 sobre factos dos anos 80 e 90), de natureza comunitária: as datas e atribuições que avança devem ser trianguladas com regulamentos e resultados originais antes de entrarem como facto. É, ainda assim, um dos melhores pontos de partida que a blogosfera oferece para a pré-história da modalidade.

A esse retrato retrospectivo soma-se um arquivo contemporâneo da génese: o Terras de Aventura (terrasdeaventura.net), o sítio do organizador que se diz «a casa da corrida de montanha em Portugal». Tem capturas no Internet Archive desde 2 de Abril de 2004 e preserva, no sítio vivo, regulamentos e classificações do Circuito Nacional de Montanha de 2003 a 2017. A secção de crónicas não está, porém, no sítio actual (refundado em WordPress em 2019): é na versão antiga, recuperável na Wayback Machine, que está, por exemplo, o relato da 1.ª edição do Cross da Serra do Açor (5 de Maio de 1996, 105 participantes, 1974 m de desnível), com uma dedicatória retrospectiva à memória de Sálvio Nora (companheiro de fundação da UTSF, falecido em 2006 — em 1996 a prova decorreu em vida dele; ver Dossiês 03/04). Duas reservas, porém. O conteúdo mais antigo — o «Desafio – Troféu de Montanha» de 1995 a 2003 — já não está acessível no sítio vivo (atalhos de ano inactivos) e só poderá ser recuperado na Wayback Machine. E, mais decisivo: essa crónica do Açor foi escrita por dois familiares (tio e sobrinho) e tudo indica que um deles é o próprio Jorge Branco, autor do «Último KM», que a reproduz em 2013. As duas fontes partilham origem: somam testemunho, mas não se confirmam uma à outra. O verdadeiro segundo apoio independente para a génese continua a ser o joaolima.net. [R330]

3.2 · A crónica não acabou em 2014: o arco longo

O período fundador (2007–2014) não fecha a blogosfera de crónica — apenas a vê perder centralidade para as redes sociais. Vários blogues de relato de prova nasceram já depois de 2014 ou prolongaram-se muito para lá dele, e alguns continuam activos em 2026. Não são «fundadores» no sentido estrito, mas pertencem ao mesmo género — a memória escrita na primeira pessoa — e prolongam-no num arco que vai dos anos da génese até ao presente. Autoria e período foram confirmados por verificação directa (Junho de 2026); a leitura sistemática do conteúdo está por fazer.

Sítio Autor(es) Período Provas / foco
Último KMJorge Branco~2009–2020Génese: Manteigas–Penhas Douradas (1983), António Matias, Desafio 95 [R314]
Ramalhos ON TOURJoão Mota («Ramalhos»)2010–2016Relatos + perspectiva interna da direcção da ATRP (2013–2016) [R316]
Tripas e NortadasRui Pinho (Porto)2009–2015 (post isolado em 2006)Provas do Norte: Trail de Santa Justa / Valongo (2012) [R321]
Ex-SedentárioJosé Guimarãesc. 2011–2021Expansão do trail: AXtrail, Louzan Trail, Serra d'Arga, MIUT [R315]
Quarenta e Dois Ponto DoisFilipe Torres2014–2023Serra d'Arga, UTAX, MIUT, UTMB [R318]
Diários de CorridaLourenço Bray2017–2018+UTMB, MIUT, Transvulcania, PT281 [R319]
Sapatilhas PensadorasAndreia Ribeiro (p/ confirmar)c. 2017 →UTSF (2017); entrevistas — autoria feminina [R320]
Amantes da Corridacolectivo (não identificado)2018 →Estrada + trail; Azores Trail Run (2018) [R322]
Uivos de LoboLuis F. M. Ricardo2010–2019Ultra-trail: UTSM, Conímbriga–Sicó, Piódão, EstrelAçor (180 km), MIUT [R324]
RUN.BABY.RUNautora (pseudónimo)2013–2023Trail/ultra: Serra d'Arga, Tor des Géants (2018), UTMB — autoria feminina [R325]
Trilhos Míticos«Zen»2007–2015 (reg. 2025)Trail, aventura, orientação, BTT — dos blogues de trail mais antigos [R327]
Papa KilómetrosCarlos Cardoso2012–2026Trail, ultra e estrada; organiza os «Trilhos dos Pernetas» [R328]
das mãos para os pésPedro Conde2013–2023Ultra-trail internacional: Marathon des Sables, UT Mt. Fuji, Tarawera, Hardrock [R329]
Nuno Faria FerreiraNuno Faria Ferreira2023–2026Ultra-trail extenso; «Oh Meu Deus» 100 milhas (2026) [R317]
Cronologia · nascimento e paragem dos blogues de crónica
Quando viveram os blogues de crónica de trailArranque → última actualização · barra cheia = activo em 2026 · barra clara = parou · tracejado = regresso · tom azul = crónica sobretudo de estrada2006200620082008201020102012201220142014201620162018201820202020202220222024202420262026Tripas e NortadasMaria Sem Frio Nem CasaTrilhos Míticoscarlossa.comdorsal1967CorremaisÚltimo KMRamalhos ON TOURUivos de LoboEx-SedentárioPapa KilómetrosRUN.BABY.RUNdas mãos para os pésúltima a correrQuarenta e Dois Ponto DoisDiários de CorridaSapatilhas PensadorasAmantes da CorridaNuno Faria Ferreira
Inclui os blogues de crónica com datas identificáveis (19), entre eles dois diários femininos sobretudo de estrada — a azul — (Maria Sem Frio Nem Casa e «última a correr»); portais, fóruns e arquivos de resultados (incl. o Terras de Aventura e o Crónicas das Corridas) não entram. As datas de arranque são limites superiores (primeira captura ou declaração do próprio sítio). [R313]

Dois pontos merecem destaque. O «Ramalhos ON TOUR», de João Mota, é o caso mais próximo de uma fonte institucional vivida: o blogue corre de 2010 a 2016, mas é só a partir de 2013 — quando João Mota integrou a direcção da ATRP, e até deixar o cargo em 2016 — que passa a escrever-se também de dentro, incluindo sobre fricções e a sua própria saída. É material relevante para os dossiês sobre a associação (09, 19 e 43), mas exige o mesmo aviso de proximidade: é testemunho de parte, não história institucional. [R316] E a autoria feminina, rara nesta blogosfera, aparece em dois blogues de trail identificados: o «Sapatilhas Pensadoras», de Andreia Ribeiro — que manteve uma rubrica de entrevistas a outras praticantes —, e o «RUN.BABY.RUN», escrito sob pseudónimo por uma ultra-maratonista de trail («voltar à estrada não é uma opção») com participações na Serra d'Arga, no UTMB e no Tor des Géants. São poucos, mas existem — e contam. [R320][R325]

Como cresceu este inventário. Parte dos blogues acima foi encontrada por bola de neve: seguindo os blogrolls — as listas de «outros blogues» que os próprios cronistas mantinham na barra lateral. O «Último KM», em particular, guardava uma lista («A minha Lista de blogues») com mais de cem blogues de corrida portugueses — na esmagadora maioria de estrada, mas com um punhado de trail (Trilhos Míticos, Papa Kilómetros, das mãos para os pés) que aqui se incorporou. Essa lista é, em si, um documento da blogosfera da época. [R327][R328][R329]

3.3 · Retrato breve: o que cada blogue guarda

As tabelas dizem quem e quando; este retrato diz, em poucas linhas, o quê. É uma caracterização — assente no foco e nas provas que cada blogue regista —, não ainda uma leitura temática sistemática, que continua por fazer (§7).

Precisão cronológica. «Núcleo fundador» é aqui um agrupamento editorial — as crónicas que o dossiê trata como centrais —, não um critério de antiguidade. O diário de corredora mais antigo do inventário é o «Maria Sem Frio Nem Casa» (Maio de 2006), embora sobretudo de estrada; em trail, o registo mais antigo é o «Trilhos Míticos» (2007), a par do carlossa.com (2007). O «Tripas e Nortadas» tem um post isolado em 2006, mas só se tornou activo de forma continuada em 2009.

O núcleo fundador (2007–2008)

  • dorsal1967 — crónicas de ultra-trail, triatlo e swimrun do autor deste dossiê, entrelaçadas com a vida do clube RUN 4 FUN e com a ATRP. [R302]
  • Corremais (Paulo Pires) — crónicas de prova a par dos «Treinos Lunares» da Costa da Caparica: registo da comunidade e motor dela. [R303]
  • carlossa.com (Carlos Sá) — sítio oficial do primeiro atleta de elite do trail português, com blogue intermitente; menos diário, mais montra de carreira. [R308]
  • Porto Runners — secção de crónicas de clube cujos relatos do AXtrail (2009–2010) são hoje documentos da fase pioneira. [R305]

O arco longo da crónica (da génese a 2026)

  • Último KM (Jorge Branco) — não é diário de prova, é arqueologia da modalidade: reconstitui a genealogia da corrida de montanha e guardava o maior blogroll da época. [R314]
  • Ramalhos ON TOUR (João Mota) — relatos que, a partir de 2013, passam a olhar a modalidade de dentro da direcção da ATRP, fricções e saída (2016) incluídas. [R316]
  • Tripas e Nortadas (Rui Pinho) — crónica das provas do Norte e da comunidade portuense; activo de forma continuada desde 2009 (após um post isolado em 2006). [R321]
  • Ex-Sedentário (José Guimarães) — a narrativa de uma transformação, do sedentarismo ao ultra-trail (AXtrail, Serra d'Arga, MIUT, Abutres). [R315]
  • Quarenta e Dois Ponto Dois (Filipe Torres) — relatos focados nas grandes provas: Serra d'Arga, UTAX, MIUT, UTMB, Estrela Grande Trail. [R318]
  • Diários de Corrida (Lourenço Bray) — diário de ultra-distância em provas-marco: UTMB, MIUT, Transvulcania, PT281, Arrábida. [R319]
  • Sapatilhas Pensadoras (Andreia Ribeiro) — relatos na 1.ª pessoa mais entrevistas a outras praticantes («Falando com outras Sapatilhas»): raro blogue de trail de autoria feminina que dá voz a outras mulheres. [R320]
  • Amantes da Corrida — blogue colectivo de estrada e trail (Azores Trail Run / Triangle Adventure, 2018). [R322]
  • Uivos de Lobo (Luis F. M. Ricardo) — vocacionado para o ultra-trail mais duro: UTSM, Conímbriga–Sicó, Piódão, EstrelAçor (180 km), MIUT. [R324]
  • RUN.BABY.RUN — diário de uma ultra-maratonista de trail (pseudónimo): Serra d'Arga, UTMB, Tor des Géants (2018); 2.º blogue de trail de autoria feminina. [R325]
  • Trilhos Míticos («Zen») — trail misturado com aventura, orientação e BTT; um dos mais antigos (desde 2007). [R327]
  • Papa Kilómetros (Carlos Cardoso) — trail, ultra e estrada de um praticante que também organiza («Trilhos dos Pernetas»): crónica e bastidores no mesmo sítio. [R328]
  • das mãos para os pés (Pedro Conde) — janela para o ultra-trail internacional: Marathon des Sables, UT Mt. Fuji, Tarawera, Hardrock. [R329]
  • Nuno Faria Ferreira — o registo mais recente (2023–2026): ultra-trail extenso, do Ehunmilak ao MIUT e à «Oh Meu Deus» de 100 milhas. [R317]
  • última a correr (Eduarda Sousa) e Maria Sem Frio Nem Casa — dois diários de corredora, sobretudo de estrada mas que tocam o trail (a primeira relata o MEO Urban Trail de Lisboa); valem como vozes femininas de uma blogosfera maioritariamente masculina. [R331][R326]

4) Os vizinhos: fóruns, arquivos e portais

O fórum/portal/associação — «O Mundo da Corrida». Antes do Facebook, a discussão sobre trail terá tido um dos seus centros n'«O Mundo da Corrida» — que não foi uma coisa, mas três em simultâneo: um fórum de discussão (mantido por Eduardo Santos), um portal de conteúdos (omundodacorrida.com — onde estava, por exemplo, uma página de homenagem com textos de Sálvio Nora) e uma associação desportiva formal (a Associação Desportiva O Mundo da Corrida, desde 2008, com calendário, inscrições e provas). O director de prova do Ultra Trail de São Mamede descreve esse núcleo, na história oficial da prova, como o «Fórum da Associação O Mundo da Corrida»: «Na altura tudo o que era discussão sobre trail acontecia [aí] [...], e foi aí mesmo que lançámos a prova e inquirimos os eventuais futuros praticantes». [R310] É uma afirmação importante — descreve este espaço como infra-estrutura de co-criação de provas. A reserva que fica é de preservação, não de natureza: o que está hoje arquivado de forma mais completa é a vertente de associação (calendário, inscrições, provas); do fórum no sentido clássico, com os seus tópicos e discussões, sobra pouco — e é essa parte, a da conversa, que a preservação não salvou. [R309][R310]

Os arquivos. O joaolima.net (desde 2009, actualizado pelo menos até Outubro de 2025) e o sítio de Carlos Fonseca são de outra natureza: não são memória escrita, são arquivo de resultados — indispensáveis para reconstruir o que aconteceu, e tratados em detalhe no Dossiê 12. O joaolima.net guarda, além disso, registo de provas da génese (Desafio 95, Transestrela, Manteigas–Penhas Douradas) — um segundo apoio, independente do «Último KM», para a pré-história da modalidade. Ficam aqui assinalados para que não se confundam com os blogues de crónica. [R306][R307]

Os portais. O Correr por Prazer (desde 2008) e, mais tarde, o Portugal Running (2014) são agregadores: calendário, notícias, entrevistas. O Correr por Prazer produziu entrevistas e especiais — incluindo cobertura de Carlos Sá e de Ester Alves — úteis, mas com a cautela devida a um portal interessado na promoção da modalidade. [R304] Um caso afim, mais modesto, é o Crónicas das Corridas (cronicasdascorridas-site.weebly.com), agregador de resultados activo entre 2012 e 2014 com uma secção dedicada ao Circuito Nacional de Montanha da FPME — cobertura da fase federativa, ainda que já produzida nos anos 2010. [R332] Já o Racefinder (racefinder.pt) pertence a uma geração posterior e a outra categoria: é uma plataforma comercial de inscrições e calendário, não um blogue de crónica nem um portal editorial fundador. Fica aqui só para desambiguação — o seu lugar é no Dossiê 11. [R323]

5) O que estes blogues guardam (e o cuidado ao lê-los)

Lidos como conjunto, partilham temas: a narrativa do esforço e do sofrimento, o território (a serra, o trilho, a noite, o frio) e a comunidade (os nomes, os encontros, os convívios). São um registo etnográfico involuntário da modalidade.

Duas cautelas. Primeira: são fontes de parte — quem escreve é protagonista ou entusiasta, e o tom é celebratório por natureza. Segunda: a representatividade é enviesada — escreviam sobretudo homens, urbanos, com tempo e meios, o que reproduz (e não corrige) o perfil sociológico do praticante. O próprio inventário confirma-o: de mais de duas dezenas de sítios, só dois blogues de trail de autoria feminina foram localizados — «Sapatilhas Pensadoras» (Andreia Ribeiro) e «RUN.BABY.RUN» (pseudónimo). Mulheres escreviam sobre corrida — o «Maria Sem Frio Nem Casa» é um diário de corredora desde 2006 [R326], e o «última a correr», de Eduarda Sousa (Braga), corre desde 2013 [R331] — mas sobretudo sobre estrada, com o trail só à mistura; a crónica de trail feminina propriamente dita é ainda mais escassa. Tomar a blogosfera como «a voz da comunidade» seria um erro: é uma voz, a dos que escreviam — e esses eram, na esmagadora maioria, homens. [R230]

6) Transição para as redes sociais e o problema da preservação

A partir do início da década de 2010, o centro de gravidade migrou dos blogues para o Facebook (e depois Strava, Instagram). Ganhou-se alcance e imediatismo; perdeu-se durabilidade e profundidade — uma crónica de 2.000 palavras é citável dez anos depois; um post de Facebook de 2013 é, na prática, irrecuperável. Vários blogues fundadores pararam nessa transição; outros, como o Corremais e o dorsal1967, sobreviveram.

Há ainda uma dimensão que os números não captam, mas que quem manteve um blogue ao longo destes anos sentiu de perto: a erosão do envolvimento. Como autor de um blogue desde 2008, observei-o em primeira mão: nos primeiros anos, um relato de prova gerava leituras, comentários e respostas — havia conversa à volta do texto. Com o tempo, à medida que a atenção das pessoas se dispersou por cada vez mais plataformas e a capacidade de atenção encurtou — o formato longo a ceder terreno ao imediato —, esse retorno foi-se esvaziando: hoje, o mesmo tipo de texto que antes suscitava dezenas de reacções passa, em grande medida, despercebido. Não é só uma mudança de meio; é uma mudança na economia da atenção — e ajuda a explicar por que tantos blogues, mesmo sem chegarem a fechar, simplesmente emudeceram. [Testemunho directo do autor.]

Correcção factual — preservação

A diretiva da série assinalava como inacessíveis alguns sítios fundadores — confrariatrotamontes.com, desnivel.pt, carlossa.com. A verificação no Internet Archive (Junho de 2026) mostra que os três têm cópia viva na Wayback Machine, com capturas recentes acessíveis — e o carlossa.com responde no domínio original. Lição dupla: «morto na Web aberta» não é «perdido», e a preservação activa (arquivar URLs, guardar transcrições) deve ser parte do método. [R313; corrige a §6.4 da diretiva — ver ERRATA.]

7) Lacunas em aberto

  1. Inventário pré-2007 contemporâneo — há agora um registo contemporâneo da génese (o Terras de Aventura, capturas desde 2 de Abril de 2004), mas é arquivo de organizador, não crónica pessoal, e a sua crónica da génese partilha origem com o «Último KM». Falta uma terceira fonte independente (regulamentos/resultados federativos dos anos 90, imprensa) e blogosfera de crónica escrita à data antes de 2007. Pista por confirmar: o «Último KM» refere uma Corrida do Monge anterior ao «Desafio 95», mas nenhuma outra fonte a corrobora — fora do corpo do texto até verificação.
  2. Identidades por confirmar — a autoria do «Sapatilhas Pensadoras» (Andreia Ribeiro), o pseudónimo do «RUN.BABY.RUN», e os nomes dos dois autores (tio e sobrinho) da crónica do Cross da Serra do Açor; e ainda Tertúlia dos Ultras / Portugal Ultras, fora do corpo do texto.
  3. Leitura sistemática do conteúdo (análise temática) — por fazer; só caracterização.
  4. Blogues de autoras — a blogosfera documentada é fortemente masculina (só dois blogues de trail femininos identificados; «Corre como uma menina» tornou-se inacessível antes de verificável).
Convite ao Contraditório e a Contributos Este dossiê é um primeiro mapa, não um cadastro fechado. Contributos documentados são bem-vindos sobre:
  • Blogues fundadores em falta — sobretudo anteriores a 2008, regionais, ou de autoras (de trail, só «Sapatilhas Pensadoras» e «RUN.BABY.RUN»; de estrada com trail à mistura, «Maria Sem Frio Nem Casa» e «última a correr»);
  • Datas de início precisas e razões de encerramento dos blogues inventariados;
  • A história de «O Mundo da Corrida» contada por quem a viveu;
  • Cópias locais / capturas de blogues perdidos da Web aberta;
  • Correcções a qualquer atribuição de autoria, data ou facto, com fonte verificável.

Contributos podem ser enviados por comentário neste post ou por email (contacto no blog). Correcções substantivas são publicadas com crédito e no modo de erratum indicado na metodologia da série.

Este dossiê reutiliza [R230] (artigo-base) e introduz fontes novas a partir de [R302]. A numeração será reconciliada com a bibliografia-mãe na sincronização da série.

[R230] Artigo-base da série — «Trail Running em Portugal…» (dorsal1967, Maio 2026). Testemunho directo do autor — ver Declaração de interesses. dorsal1967.blogspot.com
[R302] dorsal1967 — blogue do autor (auto-citação). dorsal1967.blogspot.com
[R303] Corremais — Paulo Pires (cronista). corremais.paulopires.net
[R304] Correr por Prazer. correrporprazer.com
[R305] Porto Runners — secção de crónicas. portorunners.net
[R306] joaolima.net — histórico de resultados das provas portuguesas. joaolima.net
[R307] Carlos Fonseca — atletismo, calendário e treinos. atletismo.carlos-fonseca.com
[R308] carlossa.com — sítio oficial de Carlos Sá. carlossa.com
[R309] Associação Desportiva O Mundo da Corrida. associacaomundodacorrida.com
[R310] UTSM / ACP — utsm.pt (história, texto de João Carlos Correia, director de prova). Testemunho do «Fórum da Associação O Mundo da Corrida». utsm.pt
[R311] Portugal Running. portugalrunning.com
[R312] Correr na Cidade. corrernacidade.com
[R313] Internet Archive — Wayback Machine. Verificação de acessibilidade e datas de captura (Junho 2026). web.archive.org
[R314] Último KM — Jorge Branco, «Para a história da corrida em montanha em Portugal» (2011). Génese da corrida de montanha. ultkm.blogspot.com
[R315] Ex-Sedentário — José Guimarães. Expansão do trail (c. 2011–2021). exsedentario.pt
[R316] Ramalhos ON TOUR — João Mota («Ramalhos»). Blogue 2010–2016; perspectiva interna da direcção da ATRP a partir de 2013 (na direcção 2013–2016). rontour.wordpress.com
[R317] Nuno Faria Ferreira. Crónicas de ultra-trail (2023–2026). nunofariaferreira.wordpress.com
[R318] Quarenta e Dois Ponto Dois — Filipe Torres. Relatos de prova (2014–2023). quarentaedoispontodois.blogspot.com
[R319] Diários de Corrida — Lourenço Bray. Relatos de ultra (2017–2018+). ultramaratona.wordpress.com
[R320] Sapatilhas Pensadoras — Andreia Ribeiro (por confirmar). UTSF (2017); autoria feminina. sapatilhaspensadoras.wordpress.com
[R321] Tripas e Nortadas — Rui Pinho. Provas do Norte (activo desde 2009; post isolado em 2006). tripasenortadas.blogspot.com
[R322] Amantes da Corrida. Estrada + trail; Azores Trail Run (2018). amantesdacorrida.blogspot.com
[R323] Racefinder — plataforma comercial de inscrições e calendário (geração posterior; ver Dossiê 11). racefinder.pt
[R324] Uivos de Lobo — Luis F. M. Ricardo. Ultra-trail (2010–2019): UTSM, Conímbriga–Sicó, Piódão, EstrelAçor, MIUT. uivosdelobo.blogspot.com
[R325] RUN.BABY.RUN — trail/ultra de autoria feminina (pseudónimo; 2013–2023): Serra d'Arga, UTMB, Tor des Géants. runbabyrun-becomeagoddess.blogspot.com
[R326] Maria Sem Frio Nem Casa — diário de corredora (desde 2006); sobretudo estrada. mariasemfrionemcasa.blogspot.com
[R327] Trilhos Míticos — «Zen». Trail/aventura (2007–2015; regresso 2025); dos mais antigos. trilhosmiticos.blogspot.com
[R328] Papa Kilómetros — Carlos Cardoso. Trail, ultra e estrada (2012–2026); organiza os «Trilhos dos Pernetas». papakilometros.blogspot.com
[R329] das mãos para os pés — Pedro Conde. Ultra-trail internacional (2013–2023): Marathon des Sables, UT Mt. Fuji, Tarawera, Hardrock. dasmaosparaospes.blogspot.com
[R330] Terras de Aventura — sítio do organizador (webmaster Ricardo Cruz). Capturas no Wayback desde 2004; Circuito Nacional de Montanha 2003–2017; Desafio 1995–2003; crónica do Cross da Serra do Açor (1996), por dois familiares (tio e sobrinho; tudo indica que um é Jorge Branco) — não independente de [R314]. terrasdeaventura.net
[R331] última a correr — Eduarda Sousa (Braga, desde 2013). Estrada com trail à mistura (MEO Urban Trail Lisboa); autoria feminina. ultimaacorrer.wordpress.com
[R332] Crónicas das Corridas (2012–2014) — agregador de resultados com secção «Circuito Nacional de Montanha (FPME)». cronicasdascorridas-site.weebly.com
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