Blogues fundadores: a primeira memória escrita do trail português
Post da série História do Trail Running em Portugal: os blogues fundadores (2007–2014) que foram a primeira memória escrita da modalidade, antes das redes sociais — inventário, tipologias e o problema da preservação.
Blogues fundadores: a primeira memória escrita do trail português
Antes dos rankings, da federação própria e das redes sociais, o trail teve blogues. Inventário, tipologias e o que ainda sobrevive no arquivo — proximidade declarada, lacunas assumidas.
fundador
inventariados
(crónica/fórum/arquivo/portal)
arranque
no Wayback
Quem escreve este dossiê é, ele próprio, autor de um dos blogues aqui inventariados — o dorsal1967 — e mantém-no desde 2008. Toda a referência a esse blogue é, portanto, auto-citação, assinalada como tal. O autor é parte da comunidade que escreveu e leu estes blogues e conhece pessoalmente vários dos seus autores; o tratamento é descritivo e apoiado no que está publicamente acessível, mas a proximidade é real e declara-se.
1) Porque é que os atletas escreviam
O trail português cresceu, na sua primeira década moderna, sem os instrumentos que hoje parecem naturais. Não havia ainda um circuito nacional com classificações próprias (chegaria com a ATRP, a partir de 2013), as plataformas de resultados eram dispersas, e o Facebook só se tornou central na comunidade no início da década de 2010. No vazio, o blogue — gratuito, pessoal, imediato — foi o instrumento natural de quem queria registar e partilhar a experiência. [R230]
Escrever um blogue de corrida, nesses anos, era um gesto a meio caminho entre o diário e o serviço público: contava-se a própria prova, mas também se davam informações de percurso, avisos de inscrições e fotografias para quem vinha a seguir. A plataforma dominante era o Blogger, com o SAPO Blogs como alternativa nacional. O resultado foi um arquivo disperso mas vivo — e involuntário: quase nenhum destes autores escrevia a pensar que estava a fazer história.
2) Quatro famílias, não uma
«Blogue» é, aqui, uma categoria que convém desdobrar. O ecossistema digital fundador tinha pelo menos quatro tipos de sítio, e confundi-los empobrece a leitura:
- (a) Blogue de crónica — memória escrita pessoal, na primeira pessoa. É o objecto central deste dossiê.
- (b) Fórum / comunidade — discussão colectiva, anterior às redes sociais.
- (c) Arquivo de resultados — compilação de classificações, sem crónica.
- (d) Portal / agregador — calendário, notícias, entrevistas, inscrições.
As datas de início referem-se, salvo indicação, à captura mais antiga no Internet Archive ou a declaração do próprio sítio — e são, por isso, limites superiores. [R313]
| Sítio | Autor(es) | Tipo | Desde | Papel |
|---|---|---|---|---|
| dorsal1967 (autor deste dossiê) | Luís Matos Ferreira | a · crónica | 2008 | Crónicas de ultra-trail, triatlo, swimrun [R302] |
| Corremais | Paulo Pires (cronista) | a · crónica | 2008 | Crónicas; criou os «Treinos Lunares» [R303] |
| carlossa.com | Carlos Sá | a · sítio de atleta | 2007 | Sítio oficial + blogue intermitente [R308] |
| Porto Runners | colectivo (clube) | a/b · crónica | — | Crónicas de prova, incl. AXtrail [R305] |
| O Mundo da Corrida | Eduardo Santos + colectivo | b·c·d + assoc. | 2008 | Fórum + portal + Associação Desportiva; lançou o UTSM [R309][R310] |
| Correr por Prazer | Vitor Dias + colectivo | d · portal | 2008 | Calendário, entrevistas, especiais [R304] |
| Portugal Running | colectivo | d · portal | 2014 | Calendário, treino — limiar tardio [R311] |
| joaolima.net | João Lima | c · arquivo | 2009 | Histórico de resultados (PDF) [R306] |
| atletismo.carlos-fonseca.com | Carlos Fonseca | c · arquivo | — | Arquivo, calendário, treinos [R307] |
3) Os blogues de crónica: a memória na primeira pessoa
O coração deste dossiê são os blogues de crónica (tipo a) — onde a experiência de correr foi posta por escrito por quem a viveu.
O Corremais, de Paulo Pires, é talvez o exemplo mais completo: activo desde 2008 e ainda hoje, juntou crónicas de prova a um projecto próprio, os «Treinos Lunares» na Costa da Caparica, cuja cronologia o blogue preservou — um caso de blogue que não só registou a comunidade como a criou. [R303] O dorsal1967, do autor deste texto, acompanha desde 2008 um percurso de ultra-trail, triatlo e swimrun, e cruza-se com a história do RUN 4 FUN e da ATRP — citado aqui com a reserva da auto-citação. [R302] O sítio de Carlos Sá (carlossa.com), online desde 2007, é um híbrido: sítio oficial de atleta com blogue intermitente, e a primeira presença digital sólida de um protagonista de elite português. [R308]
A estes juntam-se as secções de crónicas de clubes, das quais o caso mais citável é o dos Porto Runners, cujos relatos de participação no AXtrail das Aldeias do Xisto (2009–2010) são hoje documentos da fase pioneira — escritos por quem lá esteve, sem saber que estava a fazer arquivo. [R305]
3.1 · A memória da génese: o «Último KM»
Antes de haver trail, houve corrida de montanha — e a memória dessa pré-história está preservada, sobretudo, num blogue: o «Último KM», de Jorge Branco (online aproximadamente entre 2009 e 2020). O seu post de Novembro de 2011, «Para a história da corrida em montanha em Portugal», é uma das poucas tentativas comunitárias de reconstituir a genealogia federativa da modalidade: descreve a Manteigas–Penhas Douradas (cuja primeira edição data, segundo o blogue, de 1983) como «a mãe das corridas de montanha em Portugal», atribui a António Matias a inspiração no modelo pirenaico de Luchon–Superbagnères, e relata o lançamento do circuito «Desafio 95» e provas como a Transestrela. [R314]
O valor é duplo e o cuidado também. Por um lado, o «Último KM» liga directamente a genealogia das Corridas de Montanha (fase federativa, ~1995–2005) — material precioso para os dossiês sobre as origens. Por outro, é uma fonte secundária e retrospectiva (escrita em 2011 sobre factos dos anos 80 e 90), de natureza comunitária: as datas e atribuições que avança devem ser trianguladas com regulamentos e resultados originais antes de entrarem como facto. É, ainda assim, um dos melhores pontos de partida que a blogosfera oferece para a pré-história da modalidade.
A esse retrato retrospectivo soma-se um arquivo contemporâneo da génese: o Terras de Aventura (terrasdeaventura.net), o sítio do organizador que se diz «a casa da corrida de montanha em Portugal». Tem capturas no Internet Archive desde 2 de Abril de 2004 e preserva, no sítio vivo, regulamentos e classificações do Circuito Nacional de Montanha de 2003 a 2017. A secção de crónicas não está, porém, no sítio actual (refundado em WordPress em 2019): é na versão antiga, recuperável na Wayback Machine, que está, por exemplo, o relato da 1.ª edição do Cross da Serra do Açor (5 de Maio de 1996, 105 participantes, 1974 m de desnível), com uma dedicatória retrospectiva à memória de Sálvio Nora (companheiro de fundação da UTSF, falecido em 2006 — em 1996 a prova decorreu em vida dele; ver Dossiês 03/04). Duas reservas, porém. O conteúdo mais antigo — o «Desafio – Troféu de Montanha» de 1995 a 2003 — já não está acessível no sítio vivo (atalhos de ano inactivos) e só poderá ser recuperado na Wayback Machine. E, mais decisivo: essa crónica do Açor foi escrita por dois familiares (tio e sobrinho) e tudo indica que um deles é o próprio Jorge Branco, autor do «Último KM», que a reproduz em 2013. As duas fontes partilham origem: somam testemunho, mas não se confirmam uma à outra. O verdadeiro segundo apoio independente para a génese continua a ser o joaolima.net. [R330]
3.2 · A crónica não acabou em 2014: o arco longo
O período fundador (2007–2014) não fecha a blogosfera de crónica — apenas a vê perder centralidade para as redes sociais. Vários blogues de relato de prova nasceram já depois de 2014 ou prolongaram-se muito para lá dele, e alguns continuam activos em 2026. Não são «fundadores» no sentido estrito, mas pertencem ao mesmo género — a memória escrita na primeira pessoa — e prolongam-no num arco que vai dos anos da génese até ao presente. Autoria e período foram confirmados por verificação directa (Junho de 2026); a leitura sistemática do conteúdo está por fazer.
| Sítio | Autor(es) | Período | Provas / foco |
|---|---|---|---|
| Último KM | Jorge Branco | ~2009–2020 | Génese: Manteigas–Penhas Douradas (1983), António Matias, Desafio 95 [R314] |
| Ramalhos ON TOUR | João Mota («Ramalhos») | 2010–2016 | Relatos + perspectiva interna da direcção da ATRP (2013–2016) [R316] |
| Tripas e Nortadas | Rui Pinho (Porto) | 2009–2015 (post isolado em 2006) | Provas do Norte: Trail de Santa Justa / Valongo (2012) [R321] |
| Ex-Sedentário | José Guimarães | c. 2011–2021 | Expansão do trail: AXtrail, Louzan Trail, Serra d'Arga, MIUT [R315] |
| Quarenta e Dois Ponto Dois | Filipe Torres | 2014–2023 | Serra d'Arga, UTAX, MIUT, UTMB [R318] |
| Diários de Corrida | Lourenço Bray | 2017–2018+ | UTMB, MIUT, Transvulcania, PT281 [R319] |
| Sapatilhas Pensadoras | Andreia Ribeiro (p/ confirmar) | c. 2017 → | UTSF (2017); entrevistas — autoria feminina [R320] |
| Amantes da Corrida | colectivo (não identificado) | 2018 → | Estrada + trail; Azores Trail Run (2018) [R322] |
| Uivos de Lobo | Luis F. M. Ricardo | 2010–2019 | Ultra-trail: UTSM, Conímbriga–Sicó, Piódão, EstrelAçor (180 km), MIUT [R324] |
| RUN.BABY.RUN | autora (pseudónimo) | 2013–2023 | Trail/ultra: Serra d'Arga, Tor des Géants (2018), UTMB — autoria feminina [R325] |
| Trilhos Míticos | «Zen» | 2007–2015 (reg. 2025) | Trail, aventura, orientação, BTT — dos blogues de trail mais antigos [R327] |
| Papa Kilómetros | Carlos Cardoso | 2012–2026 | Trail, ultra e estrada; organiza os «Trilhos dos Pernetas» [R328] |
| das mãos para os pés | Pedro Conde | 2013–2023 | Ultra-trail internacional: Marathon des Sables, UT Mt. Fuji, Tarawera, Hardrock [R329] |
| Nuno Faria Ferreira | Nuno Faria Ferreira | 2023–2026 | Ultra-trail extenso; «Oh Meu Deus» 100 milhas (2026) [R317] |
Dois pontos merecem destaque. O «Ramalhos ON TOUR», de João Mota, é o caso mais próximo de uma fonte institucional vivida: o blogue corre de 2010 a 2016, mas é só a partir de 2013 — quando João Mota integrou a direcção da ATRP, e até deixar o cargo em 2016 — que passa a escrever-se também de dentro, incluindo sobre fricções e a sua própria saída. É material relevante para os dossiês sobre a associação (09, 19 e 43), mas exige o mesmo aviso de proximidade: é testemunho de parte, não história institucional. [R316] E a autoria feminina, rara nesta blogosfera, aparece em dois blogues de trail identificados: o «Sapatilhas Pensadoras», de Andreia Ribeiro — que manteve uma rubrica de entrevistas a outras praticantes —, e o «RUN.BABY.RUN», escrito sob pseudónimo por uma ultra-maratonista de trail («voltar à estrada não é uma opção») com participações na Serra d'Arga, no UTMB e no Tor des Géants. São poucos, mas existem — e contam. [R320][R325]
3.3 · Retrato breve: o que cada blogue guarda
As tabelas dizem quem e quando; este retrato diz, em poucas linhas, o quê. É uma caracterização — assente no foco e nas provas que cada blogue regista —, não ainda uma leitura temática sistemática, que continua por fazer (§7).
O núcleo fundador (2007–2008)
- dorsal1967 — crónicas de ultra-trail, triatlo e swimrun do autor deste dossiê, entrelaçadas com a vida do clube RUN 4 FUN e com a ATRP. [R302]
- Corremais (Paulo Pires) — crónicas de prova a par dos «Treinos Lunares» da Costa da Caparica: registo da comunidade e motor dela. [R303]
- carlossa.com (Carlos Sá) — sítio oficial do primeiro atleta de elite do trail português, com blogue intermitente; menos diário, mais montra de carreira. [R308]
- Porto Runners — secção de crónicas de clube cujos relatos do AXtrail (2009–2010) são hoje documentos da fase pioneira. [R305]
O arco longo da crónica (da génese a 2026)
- Último KM (Jorge Branco) — não é diário de prova, é arqueologia da modalidade: reconstitui a genealogia da corrida de montanha e guardava o maior blogroll da época. [R314]
- Ramalhos ON TOUR (João Mota) — relatos que, a partir de 2013, passam a olhar a modalidade de dentro da direcção da ATRP, fricções e saída (2016) incluídas. [R316]
- Tripas e Nortadas (Rui Pinho) — crónica das provas do Norte e da comunidade portuense; activo de forma continuada desde 2009 (após um post isolado em 2006). [R321]
- Ex-Sedentário (José Guimarães) — a narrativa de uma transformação, do sedentarismo ao ultra-trail (AXtrail, Serra d'Arga, MIUT, Abutres). [R315]
- Quarenta e Dois Ponto Dois (Filipe Torres) — relatos focados nas grandes provas: Serra d'Arga, UTAX, MIUT, UTMB, Estrela Grande Trail. [R318]
- Diários de Corrida (Lourenço Bray) — diário de ultra-distância em provas-marco: UTMB, MIUT, Transvulcania, PT281, Arrábida. [R319]
- Sapatilhas Pensadoras (Andreia Ribeiro) — relatos na 1.ª pessoa mais entrevistas a outras praticantes («Falando com outras Sapatilhas»): raro blogue de trail de autoria feminina que dá voz a outras mulheres. [R320]
- Amantes da Corrida — blogue colectivo de estrada e trail (Azores Trail Run / Triangle Adventure, 2018). [R322]
- Uivos de Lobo (Luis F. M. Ricardo) — vocacionado para o ultra-trail mais duro: UTSM, Conímbriga–Sicó, Piódão, EstrelAçor (180 km), MIUT. [R324]
- RUN.BABY.RUN — diário de uma ultra-maratonista de trail (pseudónimo): Serra d'Arga, UTMB, Tor des Géants (2018); 2.º blogue de trail de autoria feminina. [R325]
- Trilhos Míticos («Zen») — trail misturado com aventura, orientação e BTT; um dos mais antigos (desde 2007). [R327]
- Papa Kilómetros (Carlos Cardoso) — trail, ultra e estrada de um praticante que também organiza («Trilhos dos Pernetas»): crónica e bastidores no mesmo sítio. [R328]
- das mãos para os pés (Pedro Conde) — janela para o ultra-trail internacional: Marathon des Sables, UT Mt. Fuji, Tarawera, Hardrock. [R329]
- Nuno Faria Ferreira — o registo mais recente (2023–2026): ultra-trail extenso, do Ehunmilak ao MIUT e à «Oh Meu Deus» de 100 milhas. [R317]
- última a correr (Eduarda Sousa) e Maria Sem Frio Nem Casa — dois diários de corredora, sobretudo de estrada mas que tocam o trail (a primeira relata o MEO Urban Trail de Lisboa); valem como vozes femininas de uma blogosfera maioritariamente masculina. [R331][R326]
4) Os vizinhos: fóruns, arquivos e portais
O fórum/portal/associação — «O Mundo da Corrida». Antes do Facebook, a discussão sobre trail terá tido um dos seus centros n'«O Mundo da Corrida» — que não foi uma coisa, mas três em simultâneo: um fórum de discussão (mantido por Eduardo Santos), um portal de conteúdos (omundodacorrida.com — onde estava, por exemplo, uma página de homenagem com textos de Sálvio Nora) e uma associação desportiva formal (a Associação Desportiva O Mundo da Corrida, desde 2008, com calendário, inscrições e provas). O director de prova do Ultra Trail de São Mamede descreve esse núcleo, na história oficial da prova, como o «Fórum da Associação O Mundo da Corrida»: «Na altura tudo o que era discussão sobre trail acontecia [aí] [...], e foi aí mesmo que lançámos a prova e inquirimos os eventuais futuros praticantes». [R310] É uma afirmação importante — descreve este espaço como infra-estrutura de co-criação de provas. A reserva que fica é de preservação, não de natureza: o que está hoje arquivado de forma mais completa é a vertente de associação (calendário, inscrições, provas); do fórum no sentido clássico, com os seus tópicos e discussões, sobra pouco — e é essa parte, a da conversa, que a preservação não salvou. [R309][R310]
Os arquivos. O joaolima.net (desde 2009, actualizado pelo menos até Outubro de 2025) e o sítio de Carlos Fonseca são de outra natureza: não são memória escrita, são arquivo de resultados — indispensáveis para reconstruir o que aconteceu, e tratados em detalhe no Dossiê 12. O joaolima.net guarda, além disso, registo de provas da génese (Desafio 95, Transestrela, Manteigas–Penhas Douradas) — um segundo apoio, independente do «Último KM», para a pré-história da modalidade. Ficam aqui assinalados para que não se confundam com os blogues de crónica. [R306][R307]
Os portais. O Correr por Prazer (desde 2008) e, mais tarde, o Portugal Running (2014) são agregadores: calendário, notícias, entrevistas. O Correr por Prazer produziu entrevistas e especiais — incluindo cobertura de Carlos Sá e de Ester Alves — úteis, mas com a cautela devida a um portal interessado na promoção da modalidade. [R304] Um caso afim, mais modesto, é o Crónicas das Corridas (cronicasdascorridas-site.weebly.com), agregador de resultados activo entre 2012 e 2014 com uma secção dedicada ao Circuito Nacional de Montanha da FPME — cobertura da fase federativa, ainda que já produzida nos anos 2010. [R332] Já o Racefinder (racefinder.pt) pertence a uma geração posterior e a outra categoria: é uma plataforma comercial de inscrições e calendário, não um blogue de crónica nem um portal editorial fundador. Fica aqui só para desambiguação — o seu lugar é no Dossiê 11. [R323]
5) O que estes blogues guardam (e o cuidado ao lê-los)
Lidos como conjunto, partilham temas: a narrativa do esforço e do sofrimento, o território (a serra, o trilho, a noite, o frio) e a comunidade (os nomes, os encontros, os convívios). São um registo etnográfico involuntário da modalidade.
Duas cautelas. Primeira: são fontes de parte — quem escreve é protagonista ou entusiasta, e o tom é celebratório por natureza. Segunda: a representatividade é enviesada — escreviam sobretudo homens, urbanos, com tempo e meios, o que reproduz (e não corrige) o perfil sociológico do praticante. O próprio inventário confirma-o: de mais de duas dezenas de sítios, só dois blogues de trail de autoria feminina foram localizados — «Sapatilhas Pensadoras» (Andreia Ribeiro) e «RUN.BABY.RUN» (pseudónimo). Mulheres escreviam sobre corrida — o «Maria Sem Frio Nem Casa» é um diário de corredora desde 2006 [R326], e o «última a correr», de Eduarda Sousa (Braga), corre desde 2013 [R331] — mas sobretudo sobre estrada, com o trail só à mistura; a crónica de trail feminina propriamente dita é ainda mais escassa. Tomar a blogosfera como «a voz da comunidade» seria um erro: é uma voz, a dos que escreviam — e esses eram, na esmagadora maioria, homens. [R230]
6) Transição para as redes sociais e o problema da preservação
A partir do início da década de 2010, o centro de gravidade migrou dos blogues para o Facebook (e depois Strava, Instagram). Ganhou-se alcance e imediatismo; perdeu-se durabilidade e profundidade — uma crónica de 2.000 palavras é citável dez anos depois; um post de Facebook de 2013 é, na prática, irrecuperável. Vários blogues fundadores pararam nessa transição; outros, como o Corremais e o dorsal1967, sobreviveram.
Há ainda uma dimensão que os números não captam, mas que quem manteve um blogue ao longo destes anos sentiu de perto: a erosão do envolvimento. Como autor de um blogue desde 2008, observei-o em primeira mão: nos primeiros anos, um relato de prova gerava leituras, comentários e respostas — havia conversa à volta do texto. Com o tempo, à medida que a atenção das pessoas se dispersou por cada vez mais plataformas e a capacidade de atenção encurtou — o formato longo a ceder terreno ao imediato —, esse retorno foi-se esvaziando: hoje, o mesmo tipo de texto que antes suscitava dezenas de reacções passa, em grande medida, despercebido. Não é só uma mudança de meio; é uma mudança na economia da atenção — e ajuda a explicar por que tantos blogues, mesmo sem chegarem a fechar, simplesmente emudeceram. [Testemunho directo do autor.]
A diretiva da série assinalava como inacessíveis alguns sítios fundadores — confrariatrotamontes.com, desnivel.pt, carlossa.com. A verificação no Internet Archive (Junho de 2026) mostra que os três têm cópia viva na Wayback Machine, com capturas recentes acessíveis — e o carlossa.com responde no domínio original. Lição dupla: «morto na Web aberta» não é «perdido», e a preservação activa (arquivar URLs, guardar transcrições) deve ser parte do método. [R313; corrige a §6.4 da diretiva — ver ERRATA.]
7) Lacunas em aberto
- Inventário pré-2007 contemporâneo — há agora um registo contemporâneo da génese (o Terras de Aventura, capturas desde 2 de Abril de 2004), mas é arquivo de organizador, não crónica pessoal, e a sua crónica da génese partilha origem com o «Último KM». Falta uma terceira fonte independente (regulamentos/resultados federativos dos anos 90, imprensa) e blogosfera de crónica escrita à data antes de 2007. Pista por confirmar: o «Último KM» refere uma Corrida do Monge anterior ao «Desafio 95», mas nenhuma outra fonte a corrobora — fora do corpo do texto até verificação.
- Identidades por confirmar — a autoria do «Sapatilhas Pensadoras» (Andreia Ribeiro), o pseudónimo do «RUN.BABY.RUN», e os nomes dos dois autores (tio e sobrinho) da crónica do Cross da Serra do Açor; e ainda Tertúlia dos Ultras / Portugal Ultras, fora do corpo do texto.
- Leitura sistemática do conteúdo (análise temática) — por fazer; só caracterização.
- Blogues de autoras — a blogosfera documentada é fortemente masculina (só dois blogues de trail femininos identificados; «Corre como uma menina» tornou-se inacessível antes de verificável).
- Blogues fundadores em falta — sobretudo anteriores a 2008, regionais, ou de autoras (de trail, só «Sapatilhas Pensadoras» e «RUN.BABY.RUN»; de estrada com trail à mistura, «Maria Sem Frio Nem Casa» e «última a correr»);
- Datas de início precisas e razões de encerramento dos blogues inventariados;
- A história de «O Mundo da Corrida» contada por quem a viveu;
- Cópias locais / capturas de blogues perdidos da Web aberta;
- Correcções a qualquer atribuição de autoria, data ou facto, com fonte verificável.
Contributos podem ser enviados por comentário neste post ou por email (contacto no blog). Correcções substantivas são publicadas com crédito e no modo de erratum indicado na metodologia da série.
Este dossiê reutiliza [R230] (artigo-base) e introduz fontes novas a partir de [R302]. A numeração será reconciliada com a bibliografia-mãe na sincronização da série.
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