Trail Camps: a escola imersiva do trail português
Trail camps em Portugal: o estágio imersivo como escola da modalidade. Do primeiro camp documentado (AXtrail, 2012) aos camps de clube, aos estágios de elite da APT e ao Girls Trail Camp — quatro funções: técnica, comunidade, território e alto rendimento.
Trail Camps: a escola imersiva do trail português
O estágio de vários dias onde a modalidade se transmite — técnica, comunidade, território e alto rendimento. Uma instituição recorrente, e subdocumentada, do trail português.
O trail camp — o estágio imersivo de vários dias — é onde a modalidade se transmite: técnica, comunidade, território e, num pólo, alto rendimento. É uma instituição recorrente no trail português, mas quase sempre contada de passagem. Este dossiê junta-a.
O autor foi atleta do grupo de treino APT (Dossiês 24 e 28), que realizava estágios de montanha. Essa proximidade dá memória directa e enviesa — tudo o que for elogio remete para facto verificável ou fonte externa, e a memória pessoal é identificada como tal. Vários casos aqui reunidos estão já documentados noutros dossiês, e é a esses que o texto remete.
1) O que é um trail camp
Não é uma prova nem um treino avulso: é um estágio de imersão, de um fim-de-semana a três dias, que combina sessões em terreno técnico, formação (subida/descida, planeamento, nutrição, material), vida de grupo e uma componente de território — a serra como sala de aula. Tem raízes no montanhismo e no atletismo de fundo, mas ganhou identidade própria no trail, importada em parte da cultura internacional dos camps de marca. A definição do próprio autor, num balanço de 2022, fixa o essencial (auto-citação [R8]):
O camp é, nessa leitura, o contraponto não-competitivo da prova: o mesmo terreno, o mesmo grupo, mas «sem a tirania do relógio».
2) A primeira geração: o camp como formação (2012–2013)
O primeiro Trail Running Camp documentado em Portugal foi organizado pela Go Outdoor (a empresa do AXtrail), a 8–9 de Setembro de 2012, nas Aldeias do Xisto de Benfeita e Fajão: workshops de técnica (subida, descida, lama), planos de treino, alimentação e lesões — cinco anos de organização de provas convertidos em formação [R1].
A Go Outdoor não ficou por aí nesse ano. Semanas depois, a 27–28 de Outubro de 2012, organizou o Trail Running Camp da Serra da Lousã — e foi este o primeiro trail camp em que o autor deste dossiê participou. Vale a pena contá-lo por dentro, porque é o retrato-modelo do formato (testemunho do autor — Zona 3; registado na altura no blogue [R9] e revisitado em 2022 [R8]).
A recepção fez-se às 10 horas no Auditório da Biblioteca Municipal da Lousã, junto à Câmara — foi ali que decorreram as sessões teóricas, com «renomeados especialistas na modalidade», como o autor escreveu dias depois [R9]. A base de toda a parte prática era a Pousada de Juventude da Lousã: partida e chegada dos treinos, balneários abertos a todos, alojamento com pequeno-almoço. E o coração do fim-de-semana eram três treinos de dificuldade crescente, a subir da serra às aldeias:
- Treino 1 — ~1 h, 5,5 km, 700 m D+: Senhora da Piedade (Castelo de Arouce e ermidas), central hidroeléctrica.
- Treino 2 — ~2 h, 10 km, 1.400 m D+: Aldeias do Xisto de Casal Novo, Chiqueiro e Talasnal; aldeia serrana do Vaqueirinho.
- Treino 3 — ~3 h, 15 km, 1.900 m D+: Aldeias do Xisto de Candal e Chiqueiro; aldeias serranas do Catarredor e Vaqueirinho.
À volta dos treinos, a vila como base logística e uma rede de gente: o Montanha Clube da Lousã, a GNR e os Bombeiros Municipais na segurança, e até ementas de grupo negociadas nos restaurantes da terra.
E há um episódio que ficou — e que é, mais de uma década depois, o melhor lembrete de que a serra não perdoa distracções. Era a estreia nos trilhos de um atleta que, sem experiência, se deixou ficar para trás num troço dado como fácil, sem que ninguém desse pela falta; a certa altura terá seguido por um trilho errado. Quando o grupo se apercebeu, já a noite tinha caído e a serra estava demasiado escura para o encontrar. Estávamos perto da vila e tentámos que a GNR trouxesse cães pisteiros — mas, de noite, não era possível. Organizámo-nos então em duplas e batemos a serra a gritar o nome dele. Foi finalmente encontrado, são e salvo — e, apesar do frio intenso, tivera o discernimento de se tapar com folhas e, de tempos a tempos, se levantar e correr um pouco para se aquecer. (Testemunho do autor — Zona 3; o episódio consta, em síntese, do balanço público de 2022 [R8].) Foi uma lição colectiva sobre navegação, luz, frio e margem de segurança — dessas que um camp ensina melhor do que qualquer teoria, e que ficou gravada em quem lá esteve.
O saldo do autor, na altura, resume a primeira função do camp — a de escola e de convívio: encontrou ali «excelentes atletas e seres humanos de grande valor» e «momentos de grande partilha, em locais de grande beleza natural» [R9]. Numa modalidade que ainda quase não tinha escolas, o camp era a própria escola: transferência horizontal de saber, o território como sala de aula, a vila como base.
3) A geração dos clubes: o camp como comunidade
Com o crescimento dos clubes, o camp tornou-se ritual de pertença. O Monsanto Running Team mantém um Trail Camp anual que junta 20–30 atletas nas serras da Estrela e da Gardunha [R3]. E o RUN 4 FUN Trail Camp decorreu em Arganil (Serra do Açor), 11–13 de Novembro de 2022, organizado por Ana Chocalheiro e João Antunes, com convidados ligados a Arganil (Sofia Roquette, David Gouveia) e um programa que cruzou trail exigente, uma caminhada aberta à população, iniciação e convívio [R4] — nas mesmas serras onde, dez anos antes, o AXtrail fizera o primeiro camp do país, mas agora com os próprios sócios no lugar da «elite». É a segunda função: o camp como tecido social.
4) O pólo de método: os estágios da elite
No alto rendimento, o camp é preparação estruturada. O grupo de treino APT / beAPT de Paulo Pires APT fazia estágios de montanha em território nacional, sobretudo na Serra da Estrela — o 3.º estágio da APT, em Julho de 2013, foi no Vale do Rossim —, com a montanha real como banco de ensaio das provas-alvo de verão [R5]. E o método da APT chegava também aos camps abertos pela via da formação: Paulo Pires APT foi um dos palestrantes técnicos da cena dos trail camps, que tinham, quase sempre, várias palestras a par dos treinos. Aqui o camp já não é sobretudo iniciação ou convívio: é carga específica e método, o degrau que aproxima o pelotão preparado da linha da frente.
E há o apex da função de método: o estágio de selecção. Em Maio de 2015, a ATRP e Armando Teixeira organizaram um estágio da Selecção Nacional de Trail no Vale do Rossim (Serra da Estrela), em preparação para os Campeonatos do Mundo — com o autor deste dossiê presente como acompanhante técnico da Federação Portuguesa de Atletismo [R7]. É o camp posto ao serviço da representação nacional, não já do clube nem do indivíduo (cf. Dossiê 05).
Este pólo tem hoje um braço internacional documentado: a Strendure (Strendure Running Team / Coaching), o projecto de treino de João Mota — cofundador da direcção da ATRP —, que orienta mais de 70 atletas e organiza trail camps imersivos nos Alpes, na Madeira e em Andorra, com metodologia assente no TrainingPeaks [R10]. Nasce ao contrário da APT (do treinador, não do grupo), mas é da mesma família: o treino estruturado a criar comunidade — e a levar o camp para fora, ao terreno das grandes provas.
5) A geração da inclusão: o camp como porta de entrada
O camp também se tornou instrumento de alargamento da base. O Girls Trail Camp — «Mulheres e Trilhos» (2023), criado por duas praticantes portuguesas, nasceu da percepção de um meio maioritariamente masculino e propôs-se ser porta de entrada e comunidade para mulheres na modalidade [R6]. É a quarta função: o camp como ferramenta deliberada de inclusão — prova de que o formato, nascido técnico, também serve para corrigir desequilíbrios da modalidade.
6) Uma temporada de camps, por dentro (2015)
O melhor retrato da variedade do formato é uma temporada vista de dentro. Num balanço publicado em Agosto de 2015, o autor deste dossiê documenta os camps que fez num só ano — prova concreta das funções acima. (Auto-citação [R7]; entra como testemunho identificado.)
- Estágio da Selecção — Vale do Rossim, Maio (ATRP / Armando Teixeira; §4).
- Tour du Mont Blanc — Junho, 190 km em quatro etapas, refúgios; organizado por Paulo Pires (o dos «Treinos Lunares» / Corremais, não o treinador Paulo Pires APT). O camp de aventura organizada — desafio colectivo, mais do que método de elite.
- Alcains Trail Camp — Julho, por Didier Valente: ~47 km na Serra da Estrela (Alvoco → Torre → Loriga), ~3.000 m de desnível.
- Treino Convívio do Vitorino Coragem — Julho, em Miranda do Corvo, com «centro logístico no Centro de Trail de Vila Nova», banhos em cascatas e abastecimentos regulares.
E um dado de infraestrutura: em Julho de 2015 inaugurava-se o Centro de Trail de Vila Nova (Miranda do Corvo, na órbita da Serra da Lousã) — «um dos 2 primeiros Centros de Trail Running em Portugal», «um conceito muito interessante que irá sem dúvida divulgar ainda mais o Trail Running» [R7]. Os dois primeiros centros de trail do país foram, precisamente, este de Vila Nova (Miranda do Corvo) e o de Carlos Sá, em Penacova (identificação por testemunho do autor — Zona 3; cf. Dossiê 01). Os centros de trail são o parente permanente do camp — a base fixa onde o estágio pontual se apoia. O balanço fecha com o denominador comum de tudo isto:
7) Limites e lacunas
- Falta o inventário completo dos trail camps (clube, comercial, elite, inclusão) com cronologia e continuidade.
- Faltam números de participação e perfis por camp.
- Faltam testemunhos de organizadores sobre origem, método e evolução.
- Falta a relação com os camps internacionais de marca (o que se importou, o que se adaptou).
- Falta medir o impacto formativo — quantos entraram ou progrediram por esta via (liga ao Dossiê 36).
- Falta o inventário dos centros de trail (bases fixas) e a sua relação com os camps pontuais — os dois primeiros são o de Vila Nova (Miranda do Corvo) e o de Carlos Sá (Penacova) (por confirmar datas e o par exacto em fonte escrita).
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