terça-feira, 24 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - 3ª parte

Aizkorri de dia - Foto de José Morgado

Etxegarate (130 km , 663 m): este é o 2º grande abastecimento, onde tem início a 3ª parte da corrida. Desta vez não hesito e peço uma refeição quente com massa e queijo derretido. É a minha primeira refeição quente das últimas 27 horas!!! Já a mereço, repito enfaticamente para o meu estômago rebelde. Então afinal quem é que manda aqui, ora essa! E o estômago lá anui, rendido aos meus argumentos.

Não me esqueço de atestar a mochila de hidratação. Entrementes o Luís foi à tenda da cruz vermelha tratar dos pés e quando regressa está muito mais satisfeito com o tratamento que lhe deram. Desta vez, para além de lhe hidratarem a sola, colocaram-lhe uma ligadura que o protejerá mais eficazmente (na medida do possível) daqui por diante.

É a minha vez de ir à Cruz Vermelha pois também me surgiram algumas bolhas nos pés (todo este tempo imersos em água e barro, não lhes deve ter feito muito bem). Hidratam-me os pés com uma mistura de vaselina e creme hidratante que me fez maravilhas e mandam-me embora.

Fora da tenda está frio como numa câmara frigorifica! Volto para a tenda princípal e, recorrendo ao 2º saco, troco completamente de roupa. Estou muito mais agasalhado do que na 1º noite. Resultante daquele assustador episódio, o medo da hipotermia atíngiu as raias da irracionalidade.

Vários atletas abandonam a prova neste abastecimento. Aqui se toma a decisão de ficar ou prosseguir e enfrentar a noite e os seus fantasmas. Vem-me à mente o célebre solilóquio de Hamlet, princípe da Dinamarca (W. Shakespeare):

"To be, or not to be: that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?"


Às 22h estamos prontos para partir. É novamente de noite. Embora exista a possibilidade de ficar a dormir um pouco neste abastecimento, em camas de campanha, tal não nos ocorreu. Esta horita de repouso parece-nos suficiente para enfrentar a noite com outro alento. E a verdade é que me sinto revigorado.

Arrancamos devagar pois os músculos necessitam reabituar-se ao esforço. Não mais conseguiremos correr, excepto no nosso último quilómetro. Estes primeiros 130 km demoliram toda a minha resistência física e o que me move agora é apenas a mente, que vai ordenando às pernas que coloquem um passo à frente do outro, cada vez mais rápido, mas sem nunca abandonarem ambos os pés o solo.


Aratz - Aizkorri


Encaminhamo-nos em direcção ao Aizkorri (1520 m). Faltam “apenas” 38 kms para o término da aventura. No entanto estes 38 km irão ser percorridos durante a nossa 2ª noite de vigília, já com 130 km imensamente acidentados nas pernas.

Para além disso vamos ter que passar no alto exposto do Aizkorri. O Luís já conhece parte do percurso dado que aqui esteve a 20 de Maio para correr na Maratona de Montanha Zegama-Aizkorri, que tem parte do traçado em comum. Essa é uma das maratonas de montanha mais duras e emblemáticas e o Luís fê-la em condições particularmente agrestes, pois choveu o tempo todo e chegou a nevar no topo.

À medida que nos dirigimos para o abastecimento de San Adrian, o Luís vai-me revelando que o traçado que iremos encontrar é muito perigoso e que neste sim, a organização deveria obrigar os atletas a percorrê-lo acompanhados. Mais tarde eu teria a oportunidade de comprovar as suas sábias palavras.

A ascenção até aos 1000 metros de San Adrian (139 km) vai-se fazendo paulatinamente. Durante algum tempo seguimos com um grupo de bascos atrás de nós. Não percebemos patavina da algaraviada que lhes sai da boca. Chegamos ao abastecimento após 30h39 de prova.

A seguir ao abastecimento andamos algumas centenas de metros até que chegamos à cova de San Adrian. Passamos por um tunel escavado na rocha e deparamos com uma subida atroz, onde em cerca de 2 km é necessário ultrapassar 500 metros de desnível positivo!!! E isto sobre um piso de pedras duras e instáveis (ou sou eu que já vou instável...). Deve ser por isso que, muito apropriadamente, lhe chamam "O Calvário".


Subida - foto da organização


O Luís trepa mais rápido que eu e vai-me incentivando. A minha reserva de energia é que já não é muita e tenho que me concentrar o mais que a força humana permite para assentar os pés nos locais adequados. Auxiliado pelo incentivo do Luís, lá vou progredindo em direcção ao topo desta subida demolidora.

Ainda temos que chegar ao alto do Aizkorri (1520 m, km 141). Passamos por pendentes em que não convém olhar para baixo, tal o precipício que se abre ao nosso lado. Por fim lá alcançamos o refúgio onde se encontra o controle. Os voluntários fazem-nos uma festa. Peço um pouco de água que me é imediatamente dada.


Refúgio à luz do dia - foto da organização


Andamos ainda mais 3 km pelo cume da montanha até Arbelar (km 144). Depois disto ainda temos que chegar ao Andraitz (1443 m, km 146), sempre expostos ao vento cortante que me deixa gelado (a temperatura real é de 7ºC mas, com o vento, a sensação térmica é de 2ºC!).

Agora temos que descer. A descida é outro martírio. O meu frontal dá sinal que a bateria está a ficar fraca e muda automaticamente para um modo de poupança. Passo a descortinar muito pior o caminho. Vou seguindo o Luís, que vai escolhendo as melhores pedras para pisar, dentro do trilho.

Não tenho alucinações mas quase. As pedras e o solo parecem por vezes vibrar como se revoltas por uma miríade de vermes pululantes. O sono começa verdadeiramente a afectar-me. Luto para me manter concentrado. A certa altura menciono ao Luís que já não vejo grande coisa e ele empresta-me o seu frontal de reserva que tem num bolso à mão. Isso melhora bastante o meu moral. Não me sentia sequer com forças para procurar na mochila as pilhas de reserva e colocá-las no frontal.

Já passam das 4 horas da madrugada quando, ao fim de um calvário interminável, em que descemos 1200 m D- sobre um trilho impiedoso, lá atingimos o abastecimento de Oazurtza (148 km, 845 m, 34h26). É um enorme alívio. Quase desfaleço sobre uma cadeira. Mal tenho forças para trocar palavras com os voluntários da organização. O Cabo das Tormentas está dobrado e não fomos devorados pelo enorme Adamastor de pedra.

Enfim me alimento e partimos novamente, para não nos habituarmos demasiado ao repouso anestesiante. Já me sinto um pouco melhor, mas a partir daqui a progressão irá ser toda feita à base de pura força de vontade.

Faltam duas etapas de 10 km cada. Vamos fazer uma de cada vez. Dois objectivos sequênciais.

Arrastamo-nos a caminho de Mutiloa. Temos ainda que descer cerca de 700 m D-. Não temos qualquer noção da velocidade a que os estamos a fazer. Imaginamos que já vamos a meio do primeiro troço. Trocamos palavras optimistas de incitamento. Cada aldeia que avistamos julgamos ser essa o término da etapa.

O dia clareia e ouvem-se os passaros a chilrear. Passamos por Zerain sem o sabermos e buscamos desesperadamente sinais claros do abastecimento. Enorme desilusão! Ainda não é aqui...

Andamos mais uns quilómetros, até que por fim, em Mutiloa (158 km, 600 m, 37h16) damos finalmente com o abstecimento K15. Que imensa alegria! Já só falta a última etapa! Está feito!

Abastecemos e partimos assim que o relógio marca as 7h30. Resolvemos que teremos que chegar ao fim antes de se completarem as 40 horas de prova. É esse o nosso objectivo!!! Temos duas horas e meia para o conseguir. Parece mais que suficiente, mas se tivermos atenção verificamos que os anteriores 10 km foram percorridos em duas horas e quarenta e cinco minutos!

Forçamos uma marcha rápida. Não corremos pois o que mais tememos é, já tão perto, morrer na praia. Seja como for, progredimos a bom ritmo. A altimetria é favorável: “apenas” temos que enfrentar mais 325 m D+ e 350 m D-. O que é isso para quem já percorreu a via sacra que nós cumprimos! Falta apenas uma estação!


Foto da organização


Após vários quilometros e um enorme desgaste (os músculos rangem por todo o lado; sinto-me prestes a dissolver-me numa pasta amorfa e difusa), gritamos o nosso “Terra à vista!” É a Índia do nosso contentamento. É Beasain que se avista por fim. Ainda encontramos um grupo de voluntários que nos controla e a quem perguntamos quantos quilómetros faltam para a meta. A resposta a partir daqui irá ser sempre a mesma, a quem quer que perguntemos: 4 kms. Deve ser um número mágico, proveniente do fundo do inconsciente colectivo do povo basco: 4km! 4km! 4km!

São os 4 km mais duros de toda a minha vida! Temos ainda que ultrapassar um quilómetro de gravilha dura como os cornos de um bode. Sinto as bolhas a expandirem-se nos pés. Deixo de ter sensibilidade nos dedos do pé esquerdo. O pé direito está dormente. Contra ventos e marés, avançamos irredutivelmente.

Beasain está do nosso lado esquerdo. Passamos debaixo de um tunel e eis-nos na estrada principal. Agora é sempre a direito. Vamos entrar na artéria princípal da vila. Já passa das 9h30. É a altura de começar a correr. Corremos com o que nos resta do coração. Ao longe avistamos a nossa família. Alcançamo-los. Seguramos as mãos dos nossos filhos e unidos a eles dirigimo-nos para a meta.

A emoção tomou posse de mim. Embargou-se-me a garganta e fui preenchido por uma tremenda sensação de felicidade e realização.


Meta!

Cruzamos a meta em apoteose, rodeados pelas nossas famílias, a quem eu dedico este especial triunfo. A eles, ao meu treinador, Eduardo Santos, que me orientou sabiamente ao longo de todos estes meses de preparação sistematica e exaustiva para esta prova, e a todos os familiares e amigos que me acompanharam, incentivaram, vibraram e comigo viveram, durante as 39 horas e 42 minutos em que corri, andei e gatinhei por vales e montes Bascos. A vossa ajuda foi preciosa! São vocês que fazem com que tudo isto tenha um sabor muito especial. Bem hajam!

Uma dedicação especial para o meu companheiro de luta, o Luís Freitas, cujo inestimável auxílio e companheirismo foram essenciais para que eu terminasse bem esta epopeia. É bem certo que uma aventura destas forja laços de amizade muito fortes.


Luís Freitas e Luís Ferreira


resta o epílogo...

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