quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ultra-Trail du Mont-Blanc – Uma odisseia entre Mercúrio e Plutão, uma viagem interior – Parte I















“Tudo isto já aconteceu e acontecerá novamente”
- Battlestar Galactica



Três anos! Três anos a pensar neste momento. A sonhar acordado, a fixar-me num horizonte que se afastava de cada vez que eu me aproximava.

Fixado no instante do tiro de partida. No instante mágico do tiro da partida.


Os anos já me ensinaram que não nos devemos focar no momento da chegada mas sim no da partida, e viver cada segundo entre eles como se fosse o mais precioso, independentemente do seu conteúdo. Só assim nos será aberta a porta que dá a possibilidade de viver a vida por inteiro. Não ganhamos o céu, mas conquistamos a terra.


O calor tórrido de uma tarde invulgar.

Alinhavamo-nos 2563 atrás da linha de partida (de 2748 inscritos). À frente os 200 da elite (fazendo lembrar uma outra falange com 300 bravos que defenderam heroicamente a sua posição há 2.500 anos atrás). Atrás deles os 2363 guerreiros de pelotão. Tal como na Batalha das Termópilas, uma amálgama de nacionalidades apertava-se atrás do estreito pórtico pronta a lançar-se na batalha que se avizinhava.

Franceses, espanhóis, italianos, britânicos, japoneses, americanos, alemães, chineses, portugueses e muitos outros. A coligação de cidades-nação da Grécia antiga que se levantou em armas contra o gigante Persa que ameaçava o berço da democracia, assim nós nos levantávamos para conquistar este outro gigante de granito e gelo que se interpunha entre nós e os nossos sonhos.









Dez segundos antes das 18:00 tem início a contagem decrescente. 10, 9 ,8 ,7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… c’est parti!!! … ou não, consoante a colocação no alinhamento inicial.

A multidão que assiste é o tronco de uma boa constritor imensa que começa a apertar os seus anéis sobre uma presa cuja cabeça é projetada para a frente, lançada sobre a turba impaciente que ladeia as ruas da Vila e escoa velozmente os atletas em direção ao exterior. Alguns minutos mais irão passar até que o grosso da mole humana se coloque em marcha, mas também esses irão finalmente ter a sua hora.













Saímos de Chamonix velozes em direção a Les Houches. São apenas 8 km muito rápidos. Lá chegados começamos a subir para Le Délevret. Vamos ter que vencer 896 m a subir e mais 6 km.

Encontro a Lucinda Sousa que vai tentando manter um ritmo conservador para as suas (grandes) capacidades. Acompanho-a até quase ao topo. Sinto-me bem. A multidão faz uma barulheira ensurdecedora. Agitam badalos, oferecem gomas, gritam o nosso nome, dão-nos palmadas, enfim, uma enorme festa.











A descida para Saint-Gervais oferece-me 828 m em 7 km. “Inclinadote”, penso eu, sobretudo quando entramos nas pistas de esqui e o desnível se acentua. Aí tento largar os travões para evitar forçar os quadricípites. Estranhamente começo a sentir os calcanhares a aquecerem progressivamente até ao limite do insuportável e a nítida sensação de bolha a formar-se lentamente em ambos os pés…  a crescer insidiosamente… a agigantar-se ameaçadora… e por fim a explodir numa onda de dor e náusea! Mau! É raro formar bolhas e nunca nessa região do pé. Que se passa comigo?!! (meias novas, erro de principiante...)

Cada vez que assento o pé no chão é como se um centurião romano me pregasse um prego no calcanhar. Sinto-o a explodir dentro do osso. Vou-me defendendo o melhor que posso. Assento sobretudo na parte anterior, o que a descer não é nada fácil.











Chego a Saint Gervais ao anoitecer. São agora 20:24. Abasteço-me a removo as sapatilhas. De facto tenho duas bolhas já enormes e já rebentadas. A pele começa a ficar repuxada para trás. Que fazer? Não vim preparado para isto. Repito: nunca me acontece. Pergunto-me como irei aguentar os 150 km que ainda faltam percorrer?





O melhor é aguentar. Não há alternativa. Removo as polainas que não estão a ajudar os pés a arrefecer (estão em brasa os meus penantes…) e sigo. Agora vai ter início a longa subida para o Col du Bonhomme (Col significa passagem). É uma longa subida de 1438 m e 19 km até lá chegarmos.









De Saint-Gervais a Les Contamines o caminho é fácil, sem incidentes (não fora o raio das bolhas!). Dá para manter um bom ritmo se ignorar a dor. A subir é mais suportável do que a descer pois o peso do corpo assenta naturalmente mais na parte anterior do pé.







Pelo caminho ligo a frontal que a noite está a cair. Tem início aquilo que seria a tónica das próximas horas: após o caos e balburdia iniciais, forma-se agora uma fila ordeira e interminável de pirilampos mágicos em ambos os sentidos, para a frente e para trás do meu ponto de referência. É uma bela cobra ondulante que desliza pela montanha acima.






Até Les Contamines bebo quantidades industriais de água. Está um princípio de noite quente.






Assim que saio do abastecimento verifico que necessito vestir o impermeável durante um bocadinho pois arrefeci. São apenas alguns minutos de corrida com o casaco vestido até recomeçar a suar.

Após Les Contamines, e à medida que a inclinação vai aumentando, começa enfim a arrefecer.

Até ao parque de campismo de Notre-Dame de La Gorge é terreno rolante e as milhas vão passando velozes.






Depois subimos em estradão inclinado até La Balme. Aí deparo-me com um cenário deveras curioso. Mais um abastecimento numa tenda exposta mas ladeado por várias tendas de marcas de suplementos como a Overstims e outras, que nos oferecem barras e géis e uma fogueira na rua que nos aquece ao passarmos (aqui já está bem mais fresco, mas continuo apenas com a primeira camada térmica da SportHG e com os manguitos).



















Até aqui tenho aproveitado todos os abastecimentos sólidos para ingerir uma canja salgadinha e com massa fininha, que é a coisa que melhor me sabe nestas provas de ultra resistência visceral. Normalmente o primeiro órgão que dá de si é precisamente o trato intestinal, originando perdas acentuadas de rendimento e prováveis desistências. São provas para gente de estomago forte. A alimentação tem que ser muito bem gerida pois sem combustível a fornalha não carbura.

Apesar das bolhas continuo num excelente ritmo. Resolvi que a única forma de levar esta empreitada até ao fim é assimilando, vivendo, bebendo a dor. Regularmente vou batendo o pé com a força da raiva para atordoar o espírito até que seja apenas uma mancha difusa na neblina do pensamento.



É agora altura de revelar o meu objetivo (não tão) secreto.

Esta era a minha 3ª prova de 100 milhas nos últimos 4 anos.

Em todas as provas anteriores não fui munido de nenhum objetivo em especial para além do fundamental que é divertir-me em trilhos que me deixem imagens inolvidáveis e percorrer uma viagem interior que me enriqueça enquanto pessoa. E se possível terminar a prova.

Desta vez tinha uma ambição um pouco mais prosaica: estava determinado a baixar de uma barreira horária, a das 32 horas em prova. Assumo plenamente esse desiderato.

Em 2012 tinha completado os 168 km do Ehunmilak em 39:42 e em 2013 tinha completado os 160 km do GRP em 36:42. Ambas as provas tinham sido concluídas após ultrapassar grandes dificuldades, e em ambas elas eu tinha sentido que o meu rendimento poderia ter sido melhor.

Por duas vezes já tinha concorrido a uma vaga no UTMB apenas para ver goradas as minhas expetativas em 2 sorteios madrastos.

Foram 3 anos a alimentar um sonho, a vê-lo crescer, engrandecer-se, começar a caminhar, desde os primeiros hesitantes passos, passando por um trote suave, a uma marcha forte, até ao galope furioso dos últimos meses de preparação para o desafio de uma vida.

O UTMB não é seguramente a prova mais difícil do panorama mundial, nem sequer aquela com maior grau de dificuldade que eu já fiz. Já as fiz mais técnicas (GRP), em piores condições meteorológicas (Ehunmilak) e mais compridas (VCUF).

No entanto esta prova é única. Não há nenhuma com a envolvência que esta gera. Chamonix é uma semana de festa. Vive-se, respira-se Trail Running. É a mais emblemática. São os Jogos Olímpicos do Trail. Uma espécie de encontro Tribal ao nível planetário. É o rio por onde sobem os salmões para chegar à nascente. É o cemitério onde os elefantes vêm morrer.

Para cumprir o meu objetivo tracei um plano, construí a minha folhinha de excel com os tempos de passagem necessários em cada ponto (basicamente peguei na informação da organização acerca dos tempos previstos para o primeiro e acrescentei-lhe mais 55%).








Col du Bonhomme, em Junho, de dia e com neve



Agora são 3,4 km até Col du Bonhomme e 622 m a subir. Começa o primeiro trilho verdadeiramente técnico da prova. Tenho que alçar a perna para subir calhaus que me parecem ter o tamanho da Serra da Estrela. A lua lança um manto surreal sobre o vale. Subo rápido. Vou ultrapassando atletas. Estou possesso. Chego ao Col a 2325 metros, passo pelos voluntários e o caminho inflete para a esquerda. Vamos subir mais um pouco até ao Refuge de La Croix du Bonhomme. São apenas mais 2 kms que se fazem depressa.










Ao lado do refúgio esperam-nos meia-dúzia de voluntários que controlam a nossa passagem. São agora 00:49 de domingo. Já estou a correr há 06:49 e acabei de completar 45 km com 2.876 D+. Levo 34 minutos de avanço em relação ao meu plano. Se conseguisse continuar a este ritmo iria acabar em menos de 28 horas! Mas claro que o plano prevê uma diminuição progressiva de ritmo à medida que o cansaço se instala.




Refuge de La Croix du Bonhomme, em Junho, de dia e com neve




Aqui não existe abastecimento. É necessário descer a montanha até Les Chapieux para o encontrar. A descida não apresentaria grandes dificuldades não fosse o estado lastimável dos meus pobres pezinhos. São 885 m em 5 km que se conseguem fazer a correr se ignorarmos a dor. As pernas ainda estão boas, logo funcionalmente está tudo OK e não há razão para não descer rápido. Assim faço e às 01:33 estou cá em baixo, ainda com 32 minutos de avanço sobre o plano.








À entrada do abastecimento existe um controle de material. Verificam o telemóvel, a manta de sobrevivência e o impermeável. Tudo OK. Demoro-me 14 min no abastecimento para arrumar algumas coisas na mochila que me estão a incomodar e saio para a noite clara. Agora serão meia-dúzia de kms pouco inclinados no alcatrão até a aldeia fantasma de Ville des Glaciers (meia dúzia de casebres). Corro sempre que posso. O luar sobre o alcatrão é tão forte que a luz do frontal nem sequer é necessária. A fila progride às escuras como zombies. Parece a longa marcha do Mao.






Chegado à Aldeia Fantasma o caminho vira à direita e entra num estradão que atravessa o rio sobre uma ponte e segue paralelo ao rio (Torrent des Glaciers).




De dia seria assim.









Aqui mudamos de paradigma. A fila ininterrupta que me tinha acompanhado desde Les Contamines, começa a quebrar. Os elos separam-se à medida que iniciamos a subida para Itália que espreita no Col de La Seigne a 2502 m de altitude. São quase 1.000 a subir até lá chegar. Vou forte como um touro. Avanço decidido. Se Aníbal fez 27 elefantes de combate transpor os Alpes, carago, também eu o hei-de conseguir com estas perninhas que Darwin me deu.

É impressionante o suor que se gasta a subir esta montanha. São 03:47 quando chego ao topo e não sinto o mínimo frio, mesmo de manga curta. Sinto é uma sede do caraças! A água já se esgotou, vou ter que abastecer num regato dos muitos que caiem do alto da serra.

À nossa frente estende-se Vale Veni em Itália.






Continuo com 28 min de avanço em relação à rota traçada. O meu astrolábio tem-me guiado bem. Basta seguir a minha própria estrela polar. Estou eufórico! Sinto-me um gigante! Não há nada que não consiga fazer!




Vale Veni de dia seria assim... pirâmides à esquerda


Agora descemos 200 metros para voltarmos a infletir à esquerda em direção a uma originalidade do percurso deste ano: o Col des Pyramides Calcaires. Vamos ser presenteados com mais 269 m de subida e 2,2 km para percorrer. Mas que 2 kms! O terreno mais pedregoso de todo o percurso, com um monte de calhaus soltos empilhados uns em cima dos outros! No entanto a vista que se nos apresenta mais do que compensa a hora extra que passo neste troço. À luz fantástica do luar brilham diante de nós duas pirâmides gémeas incrivelmente semelhantes às de Gizé. Os gigantes Quéops e Quéfren diante de nós em todo o seu esplendor!






Não, não é uma alucinação, são mesmo reais. A cada curva espero encontrar o Faraó e o seu exército. E também os deuses Ísis e Osíris e seu filho Hórus.

Mal sei eu que mais adiante, bem mais adiante, também eu irei necessitar da intervenção de Hórus para ressuscitar de um abatimento físico extremo.








Por agora despeço-me das pirâmides e desço o melhor que posso para o Refuge Elisabetta e de seguida o Lac Combal onde encontro o abastecimento às 05:18, ainda de noite. Apesar de estar exposto aos elementos, é um autêntico Oásis no meio do deserto, onde me alimento e bebo sofregamente. O relógio está exatamente em cima do planeado. Tenho-me estado a portar bem.






Este vale glaciar tem algo de mágico, de etéreo, algo de inóspito. Faz-me lembrar as imagens da lua.

Como parei arrefeço e portanto tenho que vestir por momentos o impermeável e as luvas. Só até entrar novamente em velocidade de cruzeiro.

Atravesso o vale. Está imerso em nevoeiro. Vêm-me à memória os Cavaleiros da Távola Redonda e sua busca do Santo Graal. Excalibur, Sir Lancelot e o Rei Artur.











Agora vou ter que transpor a montanha para poder aceder ao Vale Ferret. 457 metros e uns 2 km separam-me da passagem em Arrête du Mont Favre. Conquisto-a ao amanhecer. São agora 06:25 e desponta a claridade de um novo dia. Apercebo-me que algo está errado com o meu olho esquerdo. Tento não me alarmar. Caiu uma névoa permanente sobre este olho. Felizmente o direito está bem senão teria muita dificuldade em progredir no terreno. Que se passará? Recordo-me do vídeo do Seb Chaigneau, onde se vê o homem parado num abastecimento do UTMB, de noite, desesperado e com os olhos embaciados sem conseguir discernir pevas. Será que a retina se deslocou? Será uma inflamação da córnea? Deveria parar não vá ocorrer algo de definitivo e irremediável?

Resolvo assumir a posição mais otimista. Se ao Seb eventualmente passou, a mim também há-de passar. É só ter paciência e entretanto socorrer-me do outro olho. E assim faço pacientemente durante várias horas (demorou cerca de 6 horas a retornar ao normal). O Trail Ultra Endurance é uma empreitada apenas acessível aos fortes ou aos muito pacientes. Considero-me membro do segundo grupo.

Já cheira a Courmayeur. Basta descer 5 km e 500 m até Col Checrouit e depois mais 4 km e 700 m até a Cidade.

De dia tudo é mais fácil. Ainda não sinto o mínimo sono. Basta continuar em frente e lá chegarei.






Às 07:04 chego ao Col. O abastecimento é num alto de Teleférico. Arrumo o frontal, os manguitos e as luvas na mochila. Ingiro uns géis e sigo para a descida acentuada que me aguarda marota.

Já a conheço da voltinha que aqui fiz em Junho com uns amigos. Não se espera nada de bom.

Melhor ou pior, ainda a consigo vencer em trote rápido. Cruzo-me com muito pouco atletas. Ultrapasso alguns e sou ultrapassado por outros. Não devo estar assim tão mal ainda.

A velha carcaça aguenta-se.




Courmayeur



Courmayeur vai subindo para mim lenta mas seguramente. A vista é magnífica. Estou quase a chegar às casas. Saio do trilho e entro no alcatrão. Uma corrida rápida até ao pavilhão do fórum desportivo e encontro-me ao seu lado. Entregam-me o saco com os meus haveres, e sigo para dentro do pavilhão. 










À entrada sou saudado por um grupo de portugueses muito entusiasta e esfusiante com uma enorme bandeira das quinas. Reconheço a Tu Xa. Irei reencontrá-los várias vezes ao longo do caminho. O seu entusiasmo contagia-me e dá-me forças. Abençoados sejam!  


São agora 7:45, estou apenas 13 minutos atrasado em relação ao plano, ou seja está tudo sob controlo!

Já percorri 78 km com 4.500 D+. Estou quase a meio do percurso e apenas passaram 13:45 de prova.

Dentro do pavilhão a primeira coisa que faço é sentar-me numa mesa e organizar os meus pertences. Troco a térmica por uma t-shirt técnica mais fresca. O buff pelo boné e mais nada. Mantenho todo o equipamento restante.

De seguida tiro o telemóvel do modo de voo (se o tiver ligado a bateria vai-se num instante nas zonas sem rede) e verifico os muitos sms que a minha mulher me tem enviado ao longo da noite.  É o melhor que existe para o ânimo.

Por vezes não é claro se sou eu que transporto a família e os amigos comigo ao longo do percurso ou se são eles que me transportam a mim. Julgo que os levo comigo quando na realidade são eles que me levam consigo.

Afirma a mecânica fundamental que não existe ação à distância e a teoria da relatividade ensina-nos que nada pode viajar mais rápido do que a luz. Deve portanto existir um campo quântico para além dos 4 conhecidos. O campo do amor, que permeia as profundezas do espaço-tempo e em que duas ou mais almas podem existir num estado entrelaçado através da distância e do tempo.

Envio um sms de conforto a dizer que estou ótimo em que omito caridosamente o estado lastimável dos meus pezinhos de crucificado.

Saio para mais um dia, mais uma aventura. Sou um poço de ânimo. Um dínamo de alegria.

Próxima paragem: Refuge Bertone!!!








Subo a Vila a trote até entrar no estradão e depois no trilho. Terei que subir 816 m, mas não me preocupam. Sinto-me capaz de vencer o Evereste!

Começo a ultrapassar atleta atrás de atleta num ritmo louco, insano, insustentável. Estou possesso. Passo 50 atletas até chegar ao Refúgio às 09:23. Agora é que me encontro de facto quase em cima de metade do caminho, percorrido em 15:23.






Está um calor infernal! Uns 35 graus lá embaixo no vale, ou coisa parecida, e uns vinte e muitos aqui em cima.

Após ingerir a sopinha da praxe e mais uns quartos de laranja, uns quadrados de banana e algum presunto e chouriço, parto para os 7 kms entre os dois refúgios mais famosos, razoavelmente à cota dos 2.000 m de altitude.









Este troço entre o Refúgio Bertone e o Refúgio Bonatti é o mais belo de toda a prova. A vista sobre o Vale Ferret e sobre o maciço do Monte Branco é magnífica. É pena estar a percorrê-la de costas para o vale, mas de vez em quando vou deitando uma olhada para trás.

Às 10:41 chego ao Bonatti. Levo 16:41 horas em cima das pernas. Continuo com 17 min de atraso em relação ao plano. Nada mau!






No refúgio ingiro uns geís e pouco mais que o estomago pede tréguas. Sobretudo tomo sais para repor todo aquele que se encontra agora sobre a minha epiderme formando uma segunda camada de pele. 10 minutos para recuperar e sigo.






Agora serão 5 km até Arnuva, lá embaixo aos 1786 m de altitude. Só temos que descer 334 m mas custam-me. Quase a chegar à tenda do abastecimento sou apanhado por uma coluna de atletas que tinha ultrapassado anteriormente. Isto não augura um futuro fácil. Confesso que tenho puxado por mim sem dó nem piedade para tentar garantir o objetivo.














Quanto tempo mais aguentarão os meus pezinhos martirizados e as minha perninhas massacradas?

Uma coisa é aguentar a dor de pele esfolada outra é continuar a manter os músculos a funcionar após 17:39, cumpridos 96 km e 5.721 D+ / 4.970 m D-, de um cavalgar louco pelas montanhas.

A dor aguenta-se, mas as pernas têm forçosamente de continuar a mover-se. Até onde é que a mente nos pode levar?














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