terça-feira, 13 de novembro de 2018

Poesia coxa


Dente-de-leão na mão do meu filho





Embarcar


Sentado imóvel na laje do cais, vejo os veleiros saírem da barra e em cada um desejo embarcar.
Sonho a viagem para destinos desconhecidos, vagamente adivinhados.
Há qualquer coisa de indefinido no horizonte azul do mar que me atrai.
Qualquer coisa de novo e de ameaçador. Qualquer coisa de imprevisto e excitante lá longe onde os mastros se afundam.
E vou vendo, e sonhando...

Sinto a brisa salgada acariciar-me o rosto trazendo a promessa de vento e tempestade.
Sonho o içar da vela de Estai na proa do navio, exposto à borrasca
O caçar da Genoa nos molinetes ou rizar a vela Mestra
Ou navegar à orça fechada para onde o vento me levar
E vou vendo, e sonhando...

Entretanto vejo correr os dias na anónima e monótona passagem das sequências digitais,
que vêm de lado algum e para lado nenhum se dirigem
E sinto crescer dentro de mim um grito que não consigo apagar
E vou vendo, e sonhando...

(a angústia da influência: Pessoa já escreveu tudo o que havia para escrever)




Os Filhos


Os filhos são como polvos que se cravam nas nossas entranhas,
rasgando-nos por dentro.
Saem voando dos ventres das mães lívidas
e aterram no ar,
gritando,
e nós rangemos os dentes
destilados de puro terror,
do tremendo amor que explode no centro,
e nos lança gemendo das escarpas
aos abismos onde jurámos nunca ir.

Os filhos são como velhos carvalhos,
com enormes olhos líquidos
que nos trespassam na violência dos dias.
Nós avançamos nus pela noite
e eles gritam e gritam, vozes de cristal
que se quebram como ondas ferozes,
sobre as nossas costas.

Os filhos não saem de dentro de nós,
nascem de um mistério que está para além
e que nunca entenderemos.
Nós caminhamos com eles ao colo
mas são eles que nos levam
e nós acabamos sós,
decalcando poemas medíocres,
que empalidecem
ante a grandeza de Herberto Hélder.





Palavras


Adoro imergir num banho tépido de palavras.
Abro a torneira e vejo jorrar os termos.
Cheiro cada uma das suas sílabas:
proparoxítona cheira a álcool etílico,
tónica a Gin.
Deito-me aconchegado entre as esdrúxulas e as graves,
entre vocábulos e letras.
Já as agudas ferem-me os ouvidos, como giz em lousa.
Algumas há que nos enchem a boca,
como fatias de bolo: vo-cá-bu-lo.
Outras que nos deixam com fome: fe-vra.
Há-as diáfanas, ou densas.
Adjetivos pomposos ou simples.
Há substantivos que nos agarram com volúpia,
advérbios que nos ignoram olimpicamente.
Muitas há que passaram a alfandega:
palavras recheadas de donaire,
garbosas de aplomb,
e gulosas como croisssants.
E outras ancestrais,
escondidas nos esconsos arcanos dos nossos bisavós.
Tiramos um colherada
e sai uma figura cheia de estilo:
uma aliteração, ou mesmo uma prolépse analéptica,
como verbo que teremos ensejo de ver,
o que nunca tivemos.
Verbos imperativos que nos ordenam: conjuga!
Pronomes demasiado pessoais, como eu e tu,
e advérbios de dúvida, se porventura as tivermos.
Os artigos são mais simples,
embora por vezes uns indefinidos.
Também gosto das preposições,
não obstante as preferisse mais insubordinadas,
como conjunções.
Mas as minhas preferidas são as interjeições, porra!




Ser Feliz

Ser feliz é viver com intensidade
Amar sem limites
Odiar sem freios
Sonhar sem esperança
Morrer sem receio
Viver sem arrependimento
Magoar sem desculpa
Sofrer sem medo
Largar o que não é vivo
Agarrar o que nos liberta.








Sem comentários:

Enviar um comentário