Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - 2º dia.

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Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

- Álvaro de Campos











Voltando à prova: mais uma vez não me detive muito tempo no abastecimento (Comma Bella). Apenas o essencial para comer a sopa, o melão, a melancia, os frutos secos e o presunto.

Saí para a rua em direção ao Pic Negre. Irão ser 1.300 mD+ em 11 km, até lá chegar










O abastecimento intermédio é em Roca de Pimes, no km 94.

É um abastecimento simples. Como apenas o necessário para me manter funcional.

Sobretudo atestar os flasks com água. O calor está-se a tornar insuportável.









As vistas do Pic Negre são deslumbrantes. As montanhas e vales de Andorra a perder de vista. Só por isso já vale a pena subir até aqui.








Agora iremos descer uns 400 mD- até Coll de la Caulla, para depois virarmos à direita em direção ao refúgio de Prat Primer.













O refúgio de Prat Primer é mais um pormenor maquiavélico. Quando se está a descer e à distância se lobriga a casa de pedra, ficamos convencidos que o abastecimento de Claror é já ali, e damos um enorme suspiro de alívio.

Quando lá chegamos e sofremos a amarga desilusão de verificar que é apenas um ponto de água, e que teremos que subir mais uma barreira enorme de calhaus, com 300 mD+, até ao cimo, no Coll del Bou Mort.











Depois será um km a descer até ao refúgio de Claror








Chego a Claror às 13h39. Estou em prova há 30h39 e percorri 105 Km. Ou seja, uma média de 3,4 km/h.

Ainda me sinto bem, embora muito mais cansado do que no primeiro dia. Vai-se notando no abrandamento do ritmo.

Estou agora na 107ª posição, a melhor que irei atingir durante toda a prova. A partir daqui será quase sempre a perder posições.


No ano passo não estive na prova, mas tive cá muitos amigos que tiveram a infelicidade de serem barrados neste ponto devido às condições meteorológicas, que obrigaram a organização a cancelar a prova.

Felizmente este ano o tempo está bom. Mesmo a temperatura não está demasiado elevada, apesar do calor se fazer sentir. Poderia estar muito pior.






















Agora entramos no Vale de Madriu (puta que o pariu... como dizia um amigo).

Aliás, não resisto a transcrever parte de um post de um colega atleta, pois achei-lhe imensa graça:

"Mitic AUTV 115k 9700D+ com passagem por ordenha, cortinado, bordas do prato, portas da sanfona, colo da boa morte, colada com perafita, Boné da piça, vale Madriu puta q o pariu, pico de comadrosa , marçaneta e outros terrinhas q não lembra ao diabo. Subir, descer, rir e chorar, transpiração e muita ranhoca. A ver se conseguiremos almoçar em Ordino no próximo Domingo!"
- Luís Álvaro

Almoçar em Ordino no domingo não me parece que seja possível para mim.













Em Estall Serrer há um ponto de controle onde me dão água. Há vários atletas com as pernas enfiadas dentro do rio. Na maioria são da Prova de 115 Km, o Mític. Essa prova cruza-se com a nossa em vários pontos do caminho.


Após reabastecer de água, sigo adiante. Dizem-me que irei ter uma subida com 600 mD+ até ao abastecimento de Refugi Illa.

Após 2 km começo a sentir-me extremamente cansado. O calor e a fome lentificam os meus passos. Sinto uma vontade irresistível de me deitar debaixo de uma árvore e lá ficar umas horas a descansar.

Tento combater essa sensação. Ingiro dois geis com cafeína. Procuro um sítio onde me refrescar. Ao fim de alguns kms estou ao lado do Riu dels Orris. Enfio-me debaixo de uma cascata totalmente vestido.

Estas duas ações têm o condão de me reanimar. Consigo voltar a andar a um bom ritmo.











Chego ao Refugi Illa com um bom avanço sobre o tempo de barramento, que neste ponto é às 02h da madrugada. Ainda é de dia e com um pouco de sorte conseguirei chegar à 2ª base de vida ao anoitecer.

No entanto sinto-me exausto. Depois de me alimentar abundantemente, necessito estender-me na erva. Este abastecimento é apenas um tenda exposta ao vento, sem camas.

Deito-me com muito cuidado para não ter alguma caimbrã. As minhas pernas estão exaustas.

Os meus pés massacrados e a sola completamente enrugada por estar permanentemente molhada.
Não consigo secar os ténis e as meias.

Aplico um pouco de vaselina, mas não estou muito confiante pois os pés voltam a estar molhados.


Ao fim de um bocado a olhar para o céu, decido-me a levantar-me. Custa-me horrores. Faço-o muito lentamente. Estou de pé. Equipo-me. Dou o meu primeiro passo hesitante na direção do trilho.

Aqui vou eu a tentar recuperar a mobilidade dos músculos. Felizmente tenho os bastões para me apoiar.

Os bastões são os meus maiores amigos. Tornaram-se uma segunda natureza. Uso-os para subir, para descer, para correr em plano, para caminhar, para me apoiar, para tudo.













Agora vamos ter que transpor duas passagens, a Portella Blanca e o Col dels Isards.

Na Portella Blanca sou recebido por um voluntário português do mais entusiasta que vi até hoje. O homem fala, fala, fala. Aprecio o momento caloroso, mas tenho que me por a andar.








Chego ao topo ainda de dia, mas já no lusco-fusco. Ainda não precisei ligar o frontal.

De seguida vou enfrentar a descida para Pas de la Casa.

Todos os relatos são concordante em afirmar que é uma descida tramada, escorregadia e com muita pedra. Confirmo, mas não me custa assim tanto. O importante é que já se vêem as luzes de Pas de la Casa na distância, lá no vale.













Em Pas de la Casa está a 2ª base de vida.

Chego lá já de noite, às 22h38. Estou em prova há 39h38 e já calcorreei 130 km. Ainda não cheguei ao meu recorde de tempo no terreno, mas está quase.

À entrada estou na 127ª posição.

A minha média de velocidade até aqui foi 3,3 km/h.

Esta é a 4ª barreira horária, depois das 10h em Coma Arcális, das 26h em La Margineda, e das 43h em Refúgi Illa.

Aqui sou obrigado a sair antes de serem 8h da manhã. Não há perigo. Faltam mais de 9 horas. A última verdadeira barreira horária é no próximo abastecimento, Incles Baladosa, no km 143. E eu estou decidido a não descansar enquanto não chegar lá, mesmo que tenha que arrostar com uma segunda noite sem dormir.


Tal como no UTMB, falta vencer "apenas" os 3 últimos gigantes: Pas de les Vaques, Cresta de Cabana Sorda, Collada Meners.




A cabana de madeira onde se localiza o abastecimento está extremamente quente. Vejo-me forçado a por-me em tronco nu.

Faço tudo com muita calma. Ingiro mais uma daquelas sopas consistentes. Como melão, melancia, presunto, etc.

Peço o meu saco com o intuito de trocar apenas as meias, mas reparo que coloquei no saco duas meias do pé direito. Troco apenas uma, depois de passar vaselina pela planta do pé. Nestes postos existem podólogos e enfermeiros, mas não quero perder tempo em tratamentos.

Troco as pilhas do frontal.

Ao fim de 50 minutos, saio para a rua, vestido com uma camada interior e o impermeável por fora.

À saída sou o 116º classificado.

Ainda dentro da cidade, removo o impermeável. Mal se começa a andar depressa, o corpo aquece logo.

Está noite cerrada.





Vou ter que atravessar mais esta noite para desaguar num novo dia. E com um novo dia, uma nova esperança. Vamos ver como vou enfrentar os meus demónios nesta segunda noite...




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