Uma década de Trail Ultra Endurance XL - Retrospetiva, Perspetiva e Prospetiva

Summary an adventure like this gives me the strenght for at least another year. It helps me to overcome the difficulties of daily life.
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Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

- Álvaro de Campos



Muitos anos depois, diante da Ceifeira final, eu haverei de recordar aquela tarde remota em que o pai me levou a conhecer a montanha.

(parafraseado sem qualquer vergonha do sublime Gabriel Garcia Márquez)



No dia 13 de Julho de 2012, teve início a minha primeira aventura de 100 milhas nas montanhas, faz agora 10 anos. 

Julgo que a efeméride merece um post neste meu blog.


Eis aqui a lista das provas terminadas, das tentadas, das insistidas, das interrompidas e dos anos de recobro (terminadas contam 8, uma vez que o EstrelaAçor foi contabilizado tanto pela organização como pela ITRA, uma vezque a categoria das 100 milhas vai dos 130K aos 190K):




 
 
2012: Ehunmilak, 168 km - 11.000 mD+, no País Basco.

2013: Le Grand Raid desPyrénées, 160 km - 10.000 mD+, nos Pirinéus franceses.

2014: VCUF - VoltaCerdanya UltraFons, 214 km - 10.000 mD+, atravessando os Pirinéus espanhóis e franceses.

2015: Ultra-Trail duMont-Blanc, a mítica prova de 170 km - 10.000 mD+, em redor do Monte Branco, atravessando 3 paises: França, Itália e Suiça.

2016: Eco Madeira Ultra Maratona, 170 km - 7.000 mD+, ao redor da ilha da Madeira.

2017: Andorra Ultra Trail - Ronda dels Cims, 170 Km - 13.500 mD+, em Andorra. DID NOT FINISH.

2018: VAZIO

2019: Andorra Ultra Trail - Ronda dels Cims, 170 Km - 13.500 mD+, em Andorra.

2020: Estrelaçor, 180 km - 10.000 mD+. na Serra da Estrela (interrompida aos 142K devido a tempestade, mas apesar disso fui contabilizado com sendo finisher, tanto que o resultado aparece nos rankings da ITRA).

2021: TransPenedaGerês, 165 km - 8.500 mD+, na Serra da Peneda Gerês.
 
2022: ?

 

Categorias da ITRA - International Trail Running Association:

 


 

 

 

 

É desejo meu que esta lista continue a crescer até bem dentro da década de 2040.

Assim as mitocôndrias me deem saúde.



Começo por reciclar o texto de um post que descreve as primeiras 6 provas.


 




 

 

 

"Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos loucos"


– ordem de Filipe II ao arquiteto do Escorial





Correr 100 milhas é absurdo? Eis aqui o verdadeiro absurdo:

“Em todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos leva. Mas sempre chega a hora em que temos de levá-lo. Vivemos no futuro: ‘amanhã’, ‘mais tarde’, ‘quando você conseguir uma posição’, ‘com o tempo vai entender’. Estas inconsequências são admiráveis, porque afinal trata-se de morrer. Chega o dia em que o homem constata ou diz que tem trinta anos. […] Pertence ao tempo e reconhece seu pior inimigo nesse horror que o invade. O amanhã, ele ansiava o amanhã, quando tudo em si deveria rejeitá-lo. Essa revolta da carne é o absurdo”

- Camus, O Absurdo





Porque corro?

Está tudo na imaginação. Nada disto é real. Fazer 170 km na montanha não acrescenta nada ao meu destino. Não altera a ordem das coisas. Não gero novos universos, não salvo a humanidade, não alcanço a imortalidade. Continuo imerso na Condição Humana. O Cosmos continua a ser um local improvável, sem justificação nem apelo. As partículas e os campos de força continuam a saltar do vácuo e interagir porque sim. As espécies digladiam-se porque está na sua natureza. Este planeta caminha para o oblívio. A minha, a nossa, existência não é mais do que um efémero piscar de olhos num espaço-tempo vazio.

Não há redenção, não há salvação.

No entanto uma aventura destas dá-me alento para pelo menos mais um ano. Para conseguir ultrapassar as dificuldades comezinhas do dia-a-dia. As pequenas irritações, o tédio dos gestos repetitivos. O inexorável caminho em direção à decadência torna-se mais suave. Os momentos mais ricos, coloridos e vívidos.

Enquanto cá estiver vou travando a luta inglória e os meus átomos, quando se dispersarem ao vento, eles ao menos hão-de saber que vivi. Terão a minha marca, depois de já terem tido a de Gilgamesh, Homero, Alexandre, Aníbal Barca, Júlio César, Erik o Vermelho, Rolando, Zheng He, Ibn Battuta, Magalhães, Vasco da Gama, Livingstone, Neil Armstrong.

Serei um pequeno risco à escala de Plank na fábrica do espaço-tempo.





As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.
- Léon Tolstoi




As provas fáceis parecem-se todas; as difíceis são difíceis cada uma à sua maneira.

Com o TPG completo sete provas com mais de 160 km e mais de 7.000 mD+.

Cada uma delas como uma amante diferente, que se entranha na pele. Não é por acaso que Montanha é um substantivo do género feminino. Não se equivoquem, elas não estão lá para ser conquistadas, ou dominadas, ou outro qualquer verbo encharcado em testosterona. Não. Todas elas têm a última palavra e cada uma tem que ser abordada na sua especificidade. Há montanhas mais suaves, outras mais agrestes e temperamentais, e outras ainda esquivas e arredias. Mas com cada uma necessitamos saber obter a sua concordância para descobrirmos seus segredos.


Vou assumir uma liberdade literária ao tomar a parte pelo todo, chamando a montanha pelo nome da prova.











A primeira amante era Basca. Os Bascos são uma raça orgulhosa e independente, que sempre resistiu a ser assimilada por outras culturas. É necessário mostrar-lhes a nossa valia e bravura a fim de conseguirmos ganhar o seu respeito. No entanto, nunca conseguiremos que se rendam. A vida com eles será sempre uma eterna luta, muito recompensadora, e muito desgastante. 

As 100 milhas do Ehunmilak foram a minha estreia na distância. Em 2012 escrevi o seguinte no meu blog:

Psicose:
«O termo psicose é definido como a incapacidade de distinguir entre a experiência subjectiva e a realidade externa, ou seja, existe uma perda de contacto com a realidade.»

O enorme, gargântuo, demolidor desafio que foi para mim o Ehunmilak pode ser definido como a anti-psicose.

Processa-se em 3 estágios em que se vão removendo as camadas externas da psique até restar apenas o eu nu e primevo, imerso numa realidade pre-uterina, uno com o Universo ("no princípio era o Verbo").

Primeiro a Montanha destrói o corpo, fibra por fibra, até não sobrar mais nada para além da mente para nos levar adiante. Seguidamente destrói a própria mente, através do cansaço e da privação do sono, que impedem a concentração e nos dificultam os passos. Por fim sobra apenas a vontade pura para nos levar até ao fim.

Cinco dias volvidos sobre o término da prova, ainda passo horas meditando sobre o que sucedeu na Montanha. Tenho recordações muito mais vivas daquilo que se passou no segundo dia do que ocorreu no primeiro (a falta de sono prejudica a formação de memórias). Ainda tenho dores e abrasões em vários pontos do corpo e ainda tenho dificuldade em sentir o dedo grande do pé esquerdo. Ainda sinto a astenia e o sono profundo que se abateram sobre mim nos dias posteriores à prova.

Contudo, sinto também a calma reconfortante proporcionada por aquele contacto prolongado com a vontade no seu estado mais puro.


Assim são certas relações humanas. Terminam deixando-nos feridas profundas, mas simultaneamente levam-nos a lugares dentro de nós próprios onde nunca iríamos sozinhos. O que permanece é um enorme sentimento de gratidão por termos feito a viagem.








A segunda amante era Francesa, nascida nos Pirenéus. Os franceses têm uma história e culturas muito ricas, o que lhes dá um sentimento de superioridade e distanciamento que por vezes raia a sobranceria e arrogância. No entanto, também sabem ser meigos e gentis. 

As 100 milhas do Grand Raid des Pyrenées foram a minha segunda aventura na distância. O perfil da prova é altaneiro, como os franceses. É composto por 4 subidas com mais de 1.700 mD+ cada uma, e de uma interminável descida, com 2.400 mD-. Como subir e descer estas rampas brutais? 

Em 2013, escrevi o seguinte no meu blog:

Como se ultrapassa a adversidade? Onde vamos buscar as forças para persistir quando todas as fibras do nosso corpo nos ordenam que é altura de desistir?

Dizem que a fadiga é uma ficção que o cérebro engendra para ordenar ao corpo que é altura de parar, antes que algo irreparável o pare definitivamente.

Talvez a realidade seja toda ela uma ficção criada pela nossa mente. Ou então é um enredo que o nosso cérebro constrói, dinâmica e interactivamente, para se conseguir orientar num mundo complexo e desprovido de um propósito independente da nossa vontade.

Há investigadores que dizem que temos um cérebro “social” composto por módulos, com diferentes funções. A comandar esses módulos (ou ser comandado por eles) poderá, ou não, existir uma identidade denominada o “eu”, o “self”, a “consciência”, ou o que lhe queiramos chamar.

A razão porque construímos percursos e prosseguimos objectivos é porque necessitamos de um ou vários propósitos que nos orientem nesta vida. Como não somos seres simples, não é fácil definir um propósito claro.

Talvez seja o nosso histórico evolutivo que nos atira para o fio da navalha. Talvez sejamos apenas loucos e isso esteja inscrito na nossa matriz genética. O primata que enlouqueceu.




As provas de Ultra-Trail têm características únicas que as diferenciam das corridas de estrada. A estratégia é muito mais complexa, pois é necessário avaliar um número muito maior de variáveis, tais como o percurso, as condições ambientais, o equipamento necessário (impermeável, bastões, etc), a alimentação, o ritmo, o descanso, etc.

Assim são as relações humanas. É necessário nutrir e equilibrar muitos fatores diferentes para que a relação cresça e vingue. Um único ponto fraco pode deitar tudo a perder.









A terceira amante era Catalã. Residente em Puigcerdà, Pirinéus Espanhois. Os catalães são industriosos, fortes, apaixonados, desafiadores, sociáveis.

"A língua catalã pertence ao ramo itálico da família indo-europeia e é a maior língua minoritária na Europa Ocidental. Faz parte da rica cultura Ibero-gala, que inclui o provençal. Tem muitas características de espanhol e francês."

Os 214 Km do VCUF - Volta Cerdanya UltraFons, foram a minha terceira grande aventura, e a maior distância que até hoje cobri em prova. Foi também uma das provas mais sociais que fiz. O espírito de grupo entre os portugueses foi fantástico, talvez porque já nos conhecêssemos todos bem, e também porque a prova teve um número reduzido de participantes.
 

Foi ainda a prova que menos me custou a fazer, apesar da distância.

 

Os primeiros 44 quilómetros são como uma relação amorosa no início: sem grandes obstáculos, tudo avança a bom ritmo. Após esse suave percurso inicial, começam as verdadeiras dificuldades, e entra-se num carrocel de emoções que irão durar até ao fim. Isso se tivermos sorte, é claro. 

 

Em 2014 escrevi o seguinte no meu blog:

 

Existe uma multiplicidade de fatores que podem explicar o sucesso no Ultra Trail.

De acordo com os manuais, a performance desportiva pode-se explicar decompondo-a em 3 factores fundamentais: o VO2max, ou seja a ”potência do nosso motor” (a capacidade de transportar oxigénio até às células musculares), multiplicado pela nossa resistência ou endurance, que é a capacidade de mantermos um ritmo constante a uma percentagem elevada do VO2max, e dividido pelo custo energético da nossa locomoção (relacionado com a nossa técnica de corrida).

Para cada um dos 3 factores desta equação, existem vários contributos.

O VO2max pode ser melhorado, com trabalho duro de intensidade, mas depende também bastante da genética e da idade do atleta.

A endurance depende da nossa resistência à fadiga neuro-muscular, articular, da capacidade de ingerir alimento líquido e sólido durante longos períodos de esforço continuado, da resistência a amplitudes meteorológicas, ao esforço em altitude, etc, mas sobretudo endurance mental.

O custo energético está diretamente relacionado com a nossa técnica de corrida: a amplitude da passada, a postura na corrida, o deslocamento vertical e horizontal, o peso, etc.

No ultra Trail existe um trade-off entre estes dois últimos fatores. Para poupar as articulações e o sistema musculo-esquelético, o individuo tende a adotar uma passada menos eficiente mas mais protetora.
Em conclusão, a performance pode ser otimizada regulando os 3 fatores.

Mas quanto a mim, o mental continua a ser o fator mais determinante quando se percorre distâncias com 3 dígitos.

Eu chamar-lhe-ia a capacidade de mantermos um diálogo constante connosco próprios. Durante a corrida vou sempre alerta aos sinais do corpo e da mente e vou criando uma narrativa da prova. É como se tivesse uma banda sonora em fundo e um fluxo permanente de imagens a cruzarem o cérebro. Alimento a mente com as boas experiências que tive noutras provas e também noutras áreas de minha vida, como a familiar, os amigos, o associativismo, o trabalho. Uso todos esses ingredientes para tecer uma história que me embala e me faz avançar etapa a etapa.
 
Também ajuda deixarmo-nos perder no tempo. Uma das razões principais porque é para mim mais fácil fazer muitos kms na Montanha do que em estrada é precisamente essa: o tempo parece que que se dissolve e a certa altura nem sabemos bem há quantas horas estamos em prova. DEve ser também essa uma das razões pelas quais por vezes nos sentimos renascer. É como se o corpo e a mente fizessem um reset e tudo começasse de novo.












A quarta amante voltou a ser Francesa, mas desta feita nascida nos Alpes, em Chamonix.

Até hoje nenhuma me colocou um desafio tão grande, me marcou tanto, e causou tanta dor, como esta paixão.

Dizem que há montanhas mais difíceis que outras, amantes mais exigentes. É possível, mas quanto a mim isso é pouco significativo. O que é relevante é a nossa relação com a montanha. Temos que saber escutar a montanha, ouvi-la com atenção. Não podemos querer dobrá-la à nossa vontade, porque ela irá rejeitar-nos. É necessária uma enorme dose de inteligência, na mais vasta aceção da palavra: racional e emocional.

As 100 milhas do Ultra Trail du Mont Blanc foram a minha quarta aventura na distância.

Esta seria a minha 4ª prova de 100 milhas nos anteriores 4 anos.

Em 2015 escrevi o seguinte no meu blog:


Em todas as provas anteriores não fui munido de nenhum objetivo em especial para além do fundamental que é divertir-me em trilhos que me deixem imagens inolvidáveis e percorrer uma viagem interior que me enriqueça enquanto pessoa. E se possível terminar a prova.

Desta vez tinha uma ambição um pouco mais prosaica: estava determinado a baixar de uma barreira horária, a das 32 horas em prova. Assumo plenamente esse desiderato.

Em 2012 tinha completado os 168 km do Ehunmilak em 39:42 e em 2013 tinha completado os 160 km do GRP em 36:42. Ambas as provas tinham sido concluídas após ultrapassar grandes dificuldades, e em ambas elas eu tinha sentido que o meu rendimento poderia ter sido melhor.

Por duas vezes já tinha concorrido a uma vaga no UTMB apenas para ver goradas as minhas expetativas em 2 sorteios madrastos.

Foram 3 anos a alimentar um sonho, a vê-lo crescer, engrandecer-se, começar a caminhar, desde os primeiros hesitantes passos, passando por um trote suave, a uma marcha forte, até ao galope furioso dos últimos meses de preparação para o desafio de uma vida.

O UTMB não é seguramente a prova mais difícil do panorama mundial, nem sequer aquela com maior grau de dificuldade que eu já fiz. Já as fiz mais técnicas (GRP), em piores condições meteorológicas (Ehunmilak) e mais compridas (VCUF).

No entanto esta prova é única. Não há nenhuma com a envolvência que esta gera. Chamonix é uma semana de festa. Vive-se, respira-se Trail Running. É a mais emblemática. São os Jogos Olímpicos do Trail. Uma espécie de encontro Tribal ao nível planetário. É o rio por onde sobem os salmões para chegar à nascente. É o cemitério onde os elefantes vêm morrer.

(…)

Levado pela arrogância da juventude, completei os primeiros 136 Km da prova em apenas 26 horas. Dá uma média de 5,13 Km/h, o que é muito bom. No entanto, repentinamente sou atingido por uma parede de rocha.

(…)

A partir daqui iria ser um caminho solitário aquele que eu iria percorrer, em que teria que atravessar sozinho a segunda noite, e me veria confrontado com os meus piores fantasmas.

Moisés abriu o Mar Vermelho com o bordão e a palavra de Deus.

Eu irei ter que abrir a noite a bordoadas de raiva e desespero. Mas faltam-me as barbas do profeta.

Estou em prova há exatamente 26:26:26.

O Número da Besta escondido entre os 3 Cisnes...

Já percorri 136 km, com 8.000 m D+ / 7.150 m D-. Resta pouco!!! ...iludo-me eu…

(…)

A descida vai ser bem pior.

Passo por companheiros sentados à beira do caminho com o olhar perdido no vazio. Pergunto-lhes se estão bem, a que anuem levemente com a cabeça.

Serão estes as sentinelas que ladeiam o Estige, à medida que a barca de Caronte me arrasta para o fundo?

«Da descida ao Hades ninguém volta ou, pelo menos, não volta aquele que foi.»

Estará Tirésias à minha espera para me revelar a profecia? Alcançarei a tranquilidade do meu reino, mas a viagem será particularmente dura? Apenas conseguirei retornar se refrear a minha cobiça?

Fala comigo Tirésias! Revela-me o meu destino!

O meu destino é descer, descer, descer… tenho um rendez-vous com uma povoação francesa chamada Vallorcine, a 1.270 m de altitude.

Demoro quase duas horas a descer. Mais precisamente, uma hora e quarenta e sete minutos. O mesmo que tinha demorado a subir e a exatamente à mesma velocidade: 2,8 km/h!

Ou seja, estou cada vez mais perro, cada vez mais trôpego, cada vez mais irremediavelmente empenado!
Entro na tenda de Vallorcine às 01:55 da noite. Venho zonzo. Necessito de me sentar rapidamente. Faço-o na primeira mesa que encontro. Fico alguns minutos a olhar o chão até conseguir recuperar o sangue frio.

Estou morto. Ou assim me sinto. Tenho que ressuscitar, tenho que ressuscitar!

(…)

Depois desta prova, não voltei a ser o mesmo durante alguns anos. Deixou-me de rastos, exausto, tanto física como mentalmente.

Subjetivamente, foi a mais dura de todas.













A quinta amante foi madeirense. 

Os 170 km da EMUM – Eco Madeira Ultra Maratona foram a minha quinta aventura na distância.

Esta foi uma amante sem história. Um affair de verão, que não deixa grandes recordações, exceto uma agradável e superficial sensação de um pedaço de tempo bem passado. Foi uma prova suave, a transição das amantes violentas e impetuosas do passado para o que viria no futuro.









 

 

 


A sexta amante foi Andorrenha.

Objetivamente esta última foi a mais difícil de todas. Subjetivamente, tudo depende de nós, ou não fora esta afirmação, ela mesma uma perfeita tautologia.

As 100 milhas do Andorra Ultra Trail – Ronda dels Cims, exigiram de mim duas tentativas para conseguir ter sucesso.

Em 2017 fiz a minha primeira tentativa. O período de 12 meses entre Julho de 2017 e Julho de 2018 foi o meu annus horribilis. Na linha de partida sabia que não me tinha preparado o suficiente. Mas tive esperança que os longos anos de prática pudessem produzir um milagre. E de certa forma produziram. Com treino mínimo e excesso de peso, mesmo assim logrei atingir o abastecimento do quilómetro 87, em Coma-Bella.

Não tinha a cabeça na prova.

Tal como uma relação em que não estamos empenhados nem envolvidos, por estarmos demasiado centrados nos nossos próprios problemas, reais ou imaginários, eventualmente a outra pessoa se farta, também a montanha não perdoa a falta de diligência.

Depois desta derrota amarga, fiquei praticamente um ano inteiro sem treinar. Apenas mantive alguns treinos esporádicos em estrada, mas de baixíssima intensidade e volume, e não voltei a competir.

Engordei imensamente. Bebia demasiado. Passei de um peso normal de 70 Kg, para 85 Kg. Entretanto o meu pai faleceu, divorciei-me, mudei de casa. 


"Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente."
- Luís de Camões


Parei completamente de correr. Só em Julho de 2018 é que voltei a ter vontade de ir para a estrada, calcorrear o alcatrão. Foi um renascer lento. O peso baixou para 80 kg mas aí permaneceu estagnado. Não conseguia a velocidade de antigamente. Maratonas abaixo das 3 horas pareciam uma miragem distante. 

Lentamente fui-me reerguendo das cinzas. Recomecei a participar em provas de estrada e a ter resultados longe dos registos do passado, mas perfeitamente razoáveis.

Em Novembro de 2018 senti-me confiante o suficiente para arriscar tentar novamente uma prova de 100 milhas. E claro que a escolha teria que recair novamente sobre aquela que tinha ficado a meio. 

Eu só não termino aquilo que deixa de fazer sentido. E as duas coisas que maior sentido me têm feito ao longo da vida, são a família (e amigos), e a corrida na montanha. 
 
 
Assim, em  Julho de 2019 lá alinhei novamente na linha de partida.

Apesar da enorme dureza da prova, acabei por não a sentir dessa forma. Percorri o caminho com muita calma e paciência. Perfeitamente integrado no meio que me envolvia. E isso faz toda a diferença.

Tal como comentei no blog:

Como diz o Yuval Harari no "Sapiens", acho que a vida de um caçador-recoletor era mais interessante do que a nossa. Era mais perigosa e tinha mais dor, doença, trauma, etc, mas a isso estamos nós adaptados por milénios de evolução. Aquilo a que não estamos adaptados é à rotina de um trabalho de escritório. É uma fraca aproximação, eu sei, mas por mais dor que tenha numa corrida de 170 km, sinto-me muitíssimo mais feliz, e essa felicidade perdura durante algum tempo.
 
 
O espírito com que encarei esta prova foi mais ou menos este, que está espelhado neste trecho do meu blog:
 
Agora entramos no Vale de Madriu (puta que o pariu... como dizia um amigo).

Aliás, não resisto a transcrever parte de um post de um colega atleta, pois achei-lhe imensa graça:

"Mitic AUTV 115k 9700D+ com passagem por ordenha, cortinado, bordas do prato, portas da sanfona, colo da boa morte, colada com perafita, Boné da piça, vale Madriu puta q o pariu, pico de comadrosa , marçaneta e outros terrinhas q não lembra ao diabo. Subir, descer, rir e chorar, transpiração e muita ranhoca. A ver se conseguiremos almoçar em Ordino no próximo Domingo!"
- Luís Álvaro
 
 

Neste caminho fui ajudado por muitos amigos que fizeram a viagem comigo, tanto em espírito como em corpo.
 
Chego a Refugi de Sorteny às 13h24, após 54h24 de prova.
 
Está imenso calor.
 
Como fruta e refresco-me. 
 
10 minutos depois de chegar, estou sentado dentro da cabana, a preparar-me para prosseguir, quando assoma à porta a cara sorridente da Sandra!

Não estava nada à espera de a ver por aqui. Contava que me fossem receber mais abaixo, mas no último abastecimento não.

Foi uma enorme alegria! E logo a alegria duplicou quando apareceu também o Rui. Perguntaram-me como estava, se precisava de algo, e disseram-me que eu era o seu herói.

Se eles não tivessem aparecido, possivelmente eu faria os últimos 12 km a andar. Mas o ânimo que me incutiram fez com que conseguisse um trote razoável.

Fui-os revendo em mais pontos adiante, juntamente com a Carla, o António, o Jorge, a Elsa, o Gonçalo. Animaram imenso este último troço

E pronto, terminei os 170 km & 13.500 mD+ de Ronda dels Cims em 57:00:34 (3 km/h), ladeado pelos meus amigos e companheiro de equipa do RUN 4 FUN.

Há lá maior felicidade?


 






 

 

 

 

 
 
 
 
 
A sétima amante foi Beirã.
 
A Serra da Estrela é a minha zona favorita para treinar. Adoro pernoitar no parque de campismo  do Eco Resort do Vale do Rossim, um dos locais mais belos do mundo.
 
Fazer o quilómetro vertical desde a Loriga até à Torre e depois descer até ao Alvoco é um treino fantástico.

 
 

 
 
No entanto é uma Serra muito temperamental. Tão depressa alegre e contente como logo furiosa e irascível.

Até às 16 horas do segundo dia tudo foi decorrendo com normalidade. Estava confortavelmente dentro do plano que tinha gizado para completar a prova em 42 horas. Iniciava a subida do Alvoco para a Torre e tudo estava dentro da normalidade.

Começo a subida, ainda com bastante energia de reserva. à medida que vou subindo o tempo vai-se alterando significativamente. Conforme descrevi na minha crónica:

«Inicio a subida monstra. Serão 1.270 mD+ em apenas 7 kms. Surpreendentemente sinto-me bem a subir. Vou em bom ritmo. Sou acalentado pela certeza de que se chegar à Torre então alcançarei garantidamente a meta das Penhas.

Cruzo-me com vários atletas. Dois passam por mim mais ligeiros. Alcanço um grupo de 5. Penso que apenas dois deles estão em prova. Os outros são uma espécie de guarda de honra.

A chuva e o frio começam a fustigar-nos à séria. Agora principio mesmo a sentir-me enregelado. O que vale é que estou preparado para tudo. Desde a partida que carrego comigo, na mochila, uma segunda camada térmica de mangas compridas, calças impermeáveis, dois pares de luvas com dedos, um segundo buff para o pescoço, um gorro quente, a manta de sobrevivência, uma velinha e isqueiro, ligadura elástica para garantir mobilidade em caso de sofrer alguma entorse, um pequeno canivete (com as mãos enregeladas torna-se difícil manipular objetos), segundo frontal com pilhas de substituição, para o caso do primeiro sofrer uma avaria. E alimento de reserva. No País Basco ia entrando em hipotermia e o que me valeu foi ingerir várias barras e géis energéticos de uma penada.
 
(...)
 
Assim que chegamos ao planalto anoitece. Está nevoeiro cerrado. Não se vê um palmo à frente do nariz. Quem não tiver track no relógio está tramado. Vou atrás do grupinho de 5, e eles vão chamando por mim (fico-lhes muito grato). Cruzamo-nos com atletas perdidos, feitos baratas tontas. Subitamente um GNR assoma junto a nós. Guia-nos até ao PAC da Torre.

Entramos completamente encharcados. Alguns atletas estão cobertos por mantas. Contam-nos que houve dois que entraram em hipotermia.

De acordo com o meu Garmin, são 19h11. 150 kms, com 7.100 m D+, em 31h48.

A prova acabou. É um anti-climax mesmo estranho.»

 

De acordo com a Associação O Mundo Da Corrida e com a ITRA, a prova é válida. Dos 20 atletas que ficaram neste ponto, fui o 19º a chegar:







A oitava amante foi Minhota.

 

If we are victorious in one more battle with the Romans, we shall be utterly ruined.

— Plutarch

 

"A pyrrhic victory is a victory that comes at a great cost, perhaps making the ordeal to win not worth it. It relates to Pyrrhus, a king of Epirus who defeated the Romans in 279 BC but lost many of his troops."

 

 

TransPenedaGerês, 165 km - 8.500 mD+, na Serra da Peneda Gerês.

 

 Da crónica no meu Blog:

 

«Confesso que assim que acabei a prova não só tinha perdido por completo a vontade de me meter em algo do género nos tempos próximos, como  também não tinha qualquer vontade de descrever aquilo porque tinha passado.

Foi uma prova extremamente sofrida, desde o início. 

Os dois anos de 2020 e 2021 foram anos completamente fora de vulgar, com a pandemia do Covid-19, o excesso de trabalho e os treinos extremamente irregulares.

(...)

Bem, para a história ficou a medalha e a inscrição do meu nome no "Mural dos Conquistadores", mas sobretudo o momento inolvidável do cruzar da meta ao nascer do sol. A dor passa mas essas memórias ficam para avida.»

 

 


 

 

 


 

2022 também tem sido um ano muito intenso, com todo o trabalho, sobretudo na ocasião do ataque informático à Vodafone, e adicionalmente com as cerca de 3 horas diárias de curso em desenvolvimento de software, que terminaram apenas no fim do mês de Junho.

Resta metade do ano para iniciar uma preparação progressiva e sustentada para que no próximo ano de 2023 esteja de novo pronto para me meter nestas aventuras XL.

 

No calendário nacional tenho estas opções:

 


 


 Ou então posso fazer algo completamente diferente como 100 milhas na Patagónia:




O que eu sei é que enquanto não me sentir preparado não volto a inscrever-me numa prova com esta exigência.

Ainda quero andar muitos e bons anos nesta modalidade, ainda tenho muito tempo pela frente, e portanto desejo fazer as coisas com pés e cabeça para que não volte a ficar um ano praticamente parado como aconteceu entre Julho de 2021 e Julho deste ano.

Já tenho muita experiência no Ultra Trail, com 46 Ultras terminadas:



Portanto já sei o que devo fazer. Basta manter a cabeça fria e delinear um plano inteligente. E claro, ter alguma sorte para não sofrer nenhuma lesão incapacitante.

Eventualmente hei-de conseguir voltar a ponderar uma aventura ainda mais extrema, como o Tor Des Géants


 






 
Here is my list of completed 3 digit races:

 


 

 

And my ITRA (International Trail Running Association) record:

 

 


 

 

 


 


 

"Ancient" history, or "the good old days":




 





Ranking evolution::


General:

 



XXL





XL




L




M




S








And the National Rankings by ATRP (Associação de Trail Running de Portugal)




 

 
 
 
 
 




Comentários

  1. Grande Luís...
    E é um belo post neste teu interessante blog tanto na vertente lúdica como do ser que és.

    És uma espécie de Arquimedes, filósofo, engenheiro.... Mestre inventor e utilizador da alavanca que multiplica a força para levantar algo.

    Fico muito contente de te sentir a voltar a ter ideias de voltar aos montes.

    Independentemente de teres ficado mais tempo do que pudesses prever sem um ires a jogo, bem vistas as coisas, acho que para ti é só mais um momento.
    Tal como na Montanha existe a tal multiplicidade de fatores que é preciso gerir, na outra vida existe ultiplicidade de fatores que é preciso gerir para ir em pleno para a Montanha.
    E para além disso foram tempos fáceis e com condições para treinar como deve ser.

    E se te conheço um pouco, vamos ver-te aí a palminhar as "pequenas" ultras para ires ganhando ganhando condição até a próxima mega aventura.

    Também gostava deizer que estes tipo de post nos teu blog, "públicos", que na sua essência são escritos para ti próprio e para a tua relação com o oblívio,
    mas que podem ajudar bastante a entender o que é o desporto do Trail. Principalmente o Trail nestas distâncias absurdas.

    E tu sabes que foi por te ler muitas vezes que me atrevi um dia a cumprir uma aventura com essa distância das 100 milhas.
    Foi uma aventura cheia de dificuldades e foi do cralhes. Agradeço-te por isso.


    Carrega!!

    Run abraço

    Rui

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    1. Meu bom amigo Rui,

      Muito obrigado pelas tuas palavras sinceras e poéticas.

      Tens sido o meu grande companheiro de treinos e forte fonte de motivação, já há alguns tempos, sobretudo na fase difícil que têm sido os anos mais recentes. Nestas alturas sobressaem os bons amigos.

      Fico feliz em saber que te posso ter dado alguma vontade de cumprir uma prova de 100 milhas, mas o sucesso é inteiramente teu. Sobretudo pela forma determinada como encaraste esse objetivo e não te deixaste esmorecer pelas duas primeiras tentativas interrompidas por forças alheias à tua vontade. Os verdadeiros campeões medem-se pela forma como não deixam que os obstáculos de interponham entre eles e os seus sonhos.

      E também pelo planeamento rigoroso e pelo estudo e vontade de saber sempre mais. És um exemplo também nisso.

      E sobretudo pela tua dimensão enquanto pessoa, sempre pronto a ajudar o próximo e a contribuir para que as pessoas tenham boas experiências e um meio onde se possam desenvolver e ir mais longe.

      Forte abraço meu amigo!



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  2. As saudades que tinha de ler e reler as tuas crónicas! Obrigado pelo que tens dado e por continuares a ser uma referência para mim.
    Acredito que durante muitos anos vais ser tu a escolher o teu destino.
    Forte abraço do Quénia.

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    Respostas
    1. Grande Jorge! Muito obrigado pelas tuas palavras, mas sobretudo pela tua companhia e amizade. Temos estado juntos em várias destas aventuras e ainda estaremos em muitas mais por muitos anos. Força para ti nessas aventuras do desporto e da vida. Forte abraço amigo!

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