A ATRP: génese, crescimento e integração no atletismo federado
Post da série História do Trail Running em Portugal: génese, crescimento e integração da ATRP — Associação de Trail Running de Portugal — da fundação em Novembro de 2012 à integração no atletismo federado (FPA) em 2023.
A ATRP: génese, crescimento e integração federativa
Da fundação em Novembro de 2012 ao Circuito Nacional, às sucessivas direcções e à integração no atletismo federado — fontes públicas, proximidade declarada, lacunas assumidas.
(Novembro)
desde 2012
extraordinário FPA
na FPA
(est., não auditado)
Quem escreve este texto é cofundador da ATRP e integrou a sua direcção fundadora, em Novembro de 2012. Tudo o que diz respeito à fundação, às direcções, à relação com a FPA e ao processo de integração federativa é narrado de uma posição interna — com o acesso a memória e contexto que essa posição dá, e com o viés que inevitavelmente comporta. Por isso, o post limita-se a factos documentados publicamente; onde a única fonte é a memória do autor, di-lo expressamente. Uma história institucional independente e crítica da ATRP está por fazer e é trabalho de quem tiver a distância e o método que o autor, por ser parte, não pode mobilizar.
1) Antes da ATRP: um vazio de representação
Quando a ATRP foi fundada, o trail running português já não era marginal. Havia provas-bandeira a consolidar-se — a Ultra Trail Serra da Freita desde 2006, o MIUT desde 2008, a Geira Romana desde 2008 — e o número de eventos crescia ano após ano. O que não havia era uma entidade que representasse a modalidade como tal.
As corridas em montanha estavam, no plano federativo, sob a tutela da FPME, herdeira do montanhismo organizado, e o atletismo de estrada e pista sob a FPA. Mas o trail running moderno — na acepção da influência do UTMB e do circuito europeu a partir de 2006 — crescia sobretudo fora dessas estruturas: em confrarias, clubes de montanha, grupos de amigos e associações multi-desporto. As provas multiplicavam-se sem um quadro comum de distâncias, de regulamentação ou, sobretudo, de seguro desportivo. [R230]
É este o vazio que a ATRP veio ocupar: dar à modalidade uma voz colectiva, um conjunto de regras partilhadas e uma estrutura de filiação que cobrisse atletas e organizadores. A associação não inventou o trail português — ele existia e crescia. Deu-lhe representação.
2) A fundação: Novembro de 2012
A ATRP foi constituída em Novembro de 2012, como associação sem fins lucrativos. [R220][R15] No registo legal consta com o NIPC 510379281, sob a forma jurídica de associação e o CAE 93191 — «organismos reguladores das actividades desportivas» —, com sede em Miranda do Corvo, no Centro de Estágio de Trail Running e BTT de Vila Nova. [R291][R290]
O site institucional descreve a origem como nascida «do entusiasmo e da vontade de um grupo de atletas apaixonados por trilhos e montanhas», mas não nomeia os fundadores. [R15] Como cofundador e testemunha directa, registo aqui, para memória futura, a composição da direcção fundadora: cinco atletas — José Bomtempo, José Guimarães, José Carlos Santos (presidente), Luís Matos Ferreira (autor deste texto) e Paulo Jorge —, aos quais se juntou, em 2013, João Mota. José Carlos Santos, praticante de trail desde 1995 e mais tarde cofundador e director executivo da ITRA, foi a figura central da orientação internacional da associação desde o primeiro dia. [R230]
O objecto social declarado nos estatutos é amplo: a promoção, divulgação, organização e regulamentação do trail running em Portugal. [R290] Essa palavra — regulamentação — viria a estar no centro de toda a história posterior da relação com a FPA.
A própria associação inscreve a sua génese num contexto internacional: descreve a presença na 1.ª Conferência Internacional de Trail Running, em Courmayeur (Itália), como o momento que reforçou «a certeza de que Portugal precisava de uma entidade forte, representativa e inclusiva nesta modalidade em rápido crescimento», afirmando ter sido reconhecida desde então como interlocutor junto de federações e organizações internacionais. [R15] A ligação não é casual: José Carlos Santos, o primeiro presidente, é cofundador da ITRA.
3) Os primeiros anos: crescimento e o Circuito Nacional
O crescimento inicial foi rápido. No final de 2013, ao assinalar o seu primeiro ano de existência, a ATRP contava já com cerca de 900 associadosest. Em Maio de 2014, comunicava representar cerca de 1.500 atletasest em mais de 120 associações — um crescimento de mais de 50% em menos de seis meses. [R220]
O instrumento estruturante deste período foi o Circuito Nacional de Trail. Nas épocas de 2013 e 2013/2014, a ATRP apresentou Circuitos Nacionais de Trail e de Ultra Trail — cerca de dez provas de trail e sete de ultra trail —, dando pela primeira vez à modalidade um calendário competitivo nacional com classificações próprias. Há registo de provas do circuito já a decorrer em Março de 2013. [R292]
A ATRP fixou também um quadro de categorias de distância que se tornou referência: trail curto (até 21 km), trail longo (21–42 km), ultra trail médio (42–69 km), ultra trail longo (70–99 km) e ultra trail XL / endurance (mais de 100 km), com os respectivos escalões etários — categorias recolhidas e citadas, aliás, em trabalho académico que usou o trail português como objecto de estudo. [R296]
Para lá do circuito, a ATRP foi assumindo funções de entidade reguladora sectorial: certificação de provas, regulamento de certificação e integração de circuitos, um Circuito Jovem, o projecto dos Centros de Trail (infra-estruturas permanentes, em parceria com municípios) e, durante a pandemia, um protocolo de segurança para organizadores. [R15][R299][R301]
A estrutura competitiva tornou-se também territorial. Além dos Campeonatos Nacionais por formato (Trail, Ultra, Endurance e Endurance XL) e das competições jovens (Sprint), as apresentações de Assembleia Geral mostram Circuitos Regionais em vários distritos e regiões — Madeira, Algarve, Lisboa, Santarém, Braga, Viana do Castelo, Leiria e Coimbra —, que alimentam o calendário nacional a partir da base. [R301]
A Selecção Nacional e os Mundiais em solo português (2015–2019)
A estrutura competitiva que a ATRP montou não se esgotou nas fronteiras nacionais: foi também a partir dela que se organizou a presença portuguesa nos Campeonatos do Mundo de Trail Running da IAU. Em 2015, Portugal apresentou pela primeira vez uma selecção nacional num Mundial — em Annecy (França) —, num processo ainda pioneiro, sem historial anterior em que se apoiar. [R302]
Nas duas edições seguintes disputadas em solo português, coube à ATRP compor a selecção a partir do seu próprio sistema — circuito nacional, provas de observação e wildcards —, em equipas que cresceram de cerca de uma dezena para dezoito atletas. Em 2016, o Mundial realizou-se na Peneda-Gerês; em 2019, em Miranda do Corvo — precisamente o concelho onde a associação tem a sua sede. Foi desse ciclo que saiu o melhor resultado de sempre de um português em Mundiais de Trail: Hélio Fumo, 10.º classificado em 2019. [R302]
É esta função — seleccionar, apurar e levar atletas a competir sob a bandeira nacional — que está por trás da rubrica «Deslocações Selecção Nacional» das contas da associação (ver abaixo), e que liga directamente este dossiê ao Dossiê 05 — Mundiais e Selecção Nacional, onde a participação internacional é tratada em detalhe. A organização dos eventos em si — quem montou no terreno os Mundiais de 2016 e 2019 — é matéria desse dossiê, não deste.
4) As contas da ATRP: escala, dinheiro e modelo voluntário
Os números, segundo os próprios relatórios
O Relatório de Atividades e Análise Financeira de 2024 — o documento de governação mais completo que a associação publica — permite substituir estimativas avulsas por uma série. Segundo esse relatório, os associados activos passaram de cerca de 1.000 (2016) para quase 6.000 (2024)est (+500%, no cálculo da associação) e o orçamento anual de 30.000€ para 149.408€ — tudo, sublinha o documento, sem funcionários nem estrutura profissionalizada, num modelo voluntário com custo operacional médio por associado de 24,52€. [R299]
No plano da actividade, 2024 fechou com 181 eventos certificados e 37.368 atletas classificados, seis Campeonatos Nacionais (1.824 atletas apurados), a Final da Taça de Portugal em São Miguel (Açores) e um estágio da Selecção na Serra da Estrela que preparou o 5.º lugar colectivo feminino no Europeu de Annecy. [R299]
| Ano | Receita (€) | Resultado líquido (€) | Fundos patrimoniais (€) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 30.000 | −14.940 | −14.940 |
| 2016 | 34.000 | 13.900 | 454 |
| 2017 | 50.000 | 3.297 | 3.751 |
| 2018 | 62.000 | 1.526 | 5.276 |
| 2019 | 93.000 | 39.352 | 44.629 |
| 2020 | 89.358 | −8.360 | −8.360 |
| 2021 | 137.297 | 3.707 | 3.707 |
| 2022 | 192.474 | 5.224 | 5.224 |
| 2023 | 165.109 | −9.547 | 57.676 |
| 2024 | 149.408 | −5.045 | 49.511 |
Fonte: Relatório de Atividades e Análise Financeira ATRP 2024 [R299]; valores arredondados ao euro, confirmados para 2023–2024 pelo Balanço e DRE anexo. Pico de receita em 2022 (192.474€); recuperação dos fundos patrimoniais de −14.940€ (2015) para 49.511€ (2024). A retracção de 2023–2024 explica-se, em parte, pelo adiamento para Janeiro de 2025 do apoio (~30.000€) aos atletas da Final da Taça de Portugal.
Para onde vai o dinheiro (2024)
Do lado da receita, as apresentações de Assembleia Geral identificam três fontes — quotas dos associados, patrocínios e apoios, e certificação e arbitragem de provas —, embora os montantes por rubrica não estejam discriminados de forma fiável nos documentos públicos. [R301] Do lado da despesa, a Demonstração de Resultados de 2024 é mais explícita: permite ver não só quanto a ATRP movimenta, mas em que o gasta. Toda a despesa (154.453€) está classificada como «fornecimentos e serviços externos» e os gastos com pessoal são zero — a confirmação contabilística do modelo voluntário. A repartição:
| Rubrica | 2024 (€) | Peso | 2023 (€) |
|---|---|---|---|
| Deslocações correntes | 42.100 | 27% | 35.691 |
| Seguros de acidentes pessoais (associados) | 24.912 | 16% | 18.434 |
| Deslocações Taça de Portugal | 19.700 | 13% | 12.032 |
| Trabalhos especializados | 16.853 | 11% | 24.848 |
| «Outros» — Taça de Portugal | 15.686 | 10% | 9.934 |
| «Outros» — Campeonatos Nacionais | 10.871 | 7% | 22.436 |
| Deslocações Selecção Nacional | 6.301 | 4% | 29.022 |
| Honorários | 4.970 | 3% | 4.465 |
| Arbitragem | 4.450 | 3% | 3.800 |
| Serviços bancários | 3.735 | 2% | 2.656 |
| Prémios e troféus | 3.357 | 2% | 10.157 |
| Comunicação | 1.517 | 1% | 1.003 |
| Total | 154.453 | 174.656 |
Fonte: Demonstração de Resultados ATRP 2024 (anexo ao Balanço) [R299].
Três leituras saltam à vista:
- A mobilidade dos atletas domina. As deslocações (correntes, da Taça de Portugal e da Selecção) somam cerca de 68.100€ — 44% da despesa. Em termos financeiros, a ATRP é, sobretudo, uma estrutura que leva atletas a provas.
- O seguro é a segunda maior rubrica (24.912€, +35% face a 2023) — e fecha o argumento da secção 1. A modalidade crescia, em 2012, «sem seguro desportivo»; é precisamente a cobertura de seguro de acidentes pessoais dos associados que constitui hoje o maior custo recorrente não-logístico da associação. O que motivou a fundação tornou-se a sua principal despesa estrutural.
- As oscilações seguem o calendário competitivo. As deslocações da Selecção caíram de 29.022€ em 2023 (ano de Mundial em Innsbruck) para 6.301€ em 2024; os prémios e os Campeonatos Nacionais também recuaram.
A escala ajuda a dimensionar o esforço: os 154.453€ e os 181 eventos dão um custo médio de cerca de 853€ por evento e de ~4€ por atleta classificado (37.368 no total); o crescimento composto desde 2016 ronda os 22%/ano na receita e 25%/ano nos associados; e os fundos patrimoniais (49.511€) equivalem a cerca de um terço da receita anual — uma reserva de poucos meses. [R299; rácios e médias são cálculo próprio sobre os dados publicados.]
Os patrocínios: a era Prozis (2015–2020)
Entre as fontes de receita, a mais visível da história da ATRP teve nome próprio: Prozis. A marca portuguesa de nutrição desportiva foi a patrocinadora principal da associação entre 2015 e Janeiro de 2020. [R303] O patrocínio chegou a dar nome à competição: em 2017, os campeonatos passaram a chamar-se «Campeonatos Nacionais Prozis» de Trail, Ultra-Trail e Ultra-Endurance, e a parceria foi renovada para a época 2018/2019. [R303]
Quando terminou, a 29 de Janeiro de 2020, a própria associação creditou-lhe um contributo concreto: o financiamento das quatro participações da Selecção Nacional de Trail em Campeonatos do Mundo (secção 3) — a ligação directa entre o dinheiro de um patrocinador e a presença internacional do país. [R303]
Depois da Prozis, não foi possível identificar em fontes públicas um patrocinador principal nomeado. Os Relatórios e Contas continuam a registar «patrocínios e apoios» como rubrica de receita, mas sem discriminar marcas nem montantes. Fica como lacuna declarada: a história fina do financiamento por patrocínio a partir de 2020 está por documentar.
Quantos sócios? A escala da ATRP em perspetiva federativa
Uma das perguntas mais simples de fazer é das mais difíceis de responder com rigor — e das mais reveladoras: quantos sócios tem, afinal, a ATRP? A resposta exige distinguir três universos que é fácil confundir, e cuja confusão inflaciona qualquer narrativa:
- Associados activos (com quota em dia): cerca de 6.000 em 2024, segundo o Relatório de Atividades. [R299]
- Sócios alguma vez registados (cumulativo desde 2012): sem número oficial publicado, mas os números de sócio do MyATRP são sequenciais, e um perfil público mostra já o número #18565 (filiação em Outubro de 2025). A ATRP terá atribuído, portanto, pelo menos ~18.565 números de sócio ao longo da sua história — cerca de três vezes o número de activos. [R305]
- Federados na FPA via trail: um subconjunto ainda menor, que a federação não desagrega publicamente.
Este contraste — pelo menos ~18,5 mil pessoas alguma vez inscritas para ~6 mil activas — é, em si, um retrato da modalidade: muita gente passa pela filiação; poucas a mantêm continuamente.
A comparação com a federação ajuda a dimensionar a escala:
| Indicador | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| ATRP — sócios alguma vez registados (piso) | ≥ ~18.565 (Out 2025) | nº de sócio MyATRP [R305] |
| ATRP — associados activos | ~6.000 (2024) | Relatório ATRP [R299] |
| FPA — total de filiados | 23.835 (2023/24) | FPA [R304] |
A FPA fechou a época 2023/2024 com 23.835 filiados — um recorde, mais 1.960 (+8,6%) do que os 21.875 do ano anterior. [R304] Como a integração plena do trail na FPA começara meses antes, a 1 de Novembro de 2023 (secção 5), é tentador ler que «foi o trail que trouxe os sócios».
A leitura merece cautela. A própria FPA não atribui o crescimento ao trail: na sua comunicação, reparte os filiados por escalão — formação (44%), veteranos (42%) e seniores (14%) — sem destacar a modalidade. E os números não encaixam mecanicamente: um acréscimo de +1.960 federados numa só época é muito inferior aos ~6.000 associados activos da ATRP — sinal de que a passagem de sócio-ATRP a federado-FPA foi gradual e parcial, até porque a filiação federativa só é obrigatória para os Circuitos e Campeonatos nacionais e regionais, não para toda a prática. [R304][R222] Em 2025, a FPA criou ainda uma licença obrigatória para não-federados em provas de estrada, trail e montanha — medida que só nos próximos anos revelará o peso real do trail nas estatísticas federativas. [R306]
Em suma: a ATRP entra na FPA com uma base associativa larga (milhares de sócios registados, ~6.000 activos), mas o «trazer sócios» para a federação foi um processo, não um acto — e a comparação só é honesta se distinguir sócio associativo de federado com licença desportiva.
5) A relação com a FPA: de associado extraordinário a integração plena
A relação com a Federação Portuguesa de Atletismo é o eixo institucional mais importante — e mais sensível — da história da ATRP. Desenrolou-se em duas fases separadas por quase uma década.
Primeira fase — associado extraordinário (2014). A FPA aceitou a ATRP como associado extraordinário, formalizando uma relação de proximidade entre a associação sectorial e a federação do atletismo. As fontes institucionais e distritais situam esta admissão em 3 de Maio de 2014, embora não tenha sido possível transcrevê-la de uma página primária da FPA carregada na íntegra — fica como dado forte, a confirmar. [R221] Já em 2014, o então presidente via na aproximação à FPA uma forma de a modalidade ganhar «capacidade legal» e «maior reconhecimento». [R220]
Segunda fase — integração plena (2023/2024). A passagem do trail para a «família do atletismo» concluiu-se na época 2023/2024, com início a 1 de Novembro de 2023. A partir dessa data, a participação nos Circuitos e Campeonatos nacionais passou a exigir filiação na FPA; aos associados da ATRP foi dado desconto de 100% na quota da associação na época da transição, e as equipas não federadas foram admitidas a título excepcional num período transitório. [R222]
A repartição de competências resultante é clara no essencial: a FPA promove, regulamenta e supervisiona a modalidade, homologando regulamentos através das associações distritais por delegação; a ATRP representa os organizadores e emite pareceres técnicos, mas não detém competência para aprovar regulamentos oficiais. [R295]
O que mudou, na prática: atletas, clubes e organizadores
A integração não foi só um rearranjo de organogramas. Mudou o quotidiano de quem corre, de quem se associa em equipa e de quem organiza provas. Vale a pena separar os três planos — porque a mudança foi diferente em cada um, e porque a discussão pública tende a confundi-los.
| Quem | Antes (ATRP autónoma) | Depois (integração na FPA, desde 2023/24) |
|---|---|---|
| Atletas | Sócio da ATRP, inscrição no MyATRP, quota associativa | Filiação na FPA obrigatória para Circuitos e Campeonatos nacionais e regionais; filiação anual na ordem dos 25€ (2024/25); desde 2025/26, licença para não-federados em provas pagas — «filiação por um dia» (~3€/prova, com seguro) ou anual desde ~31€; exame médico e seguro exigidos; inscrições migram do MyATRP para a plataforma da FPA |
| Clubes / equipas | Equipas inscritas pela via ATRP | Para pontuar como equipa, o clube tem de estar filiado na FPA; as equipas não federadas foram admitidas só num período transitório excepcional; grupos sem registo formal tendem a aparecer como «Individual» nas classificações |
| Organizadores | Certificação de provas pela ATRP (logótipo, calendário no MyATRP) | Homologação dos regulamentos pelas Associações Distritais, por delegação da FPA; a ATRP passa a emitir apenas pareceres técnicos; sem pagamento da taxa de homologação no prazo, a prova fica fora do calendário oficial e os resultados deixam de contar para rankings |
Fontes: [R222] (integração e regime transitório); [R295] (repartição de competências e «Individual»); [R306][R307] (filiação, custos e licença do atleta); [R308] (homologação de provas pelas distritais e efeitos da taxa).
Em termos de orientação geral: para o atleta, a mudança principal é deixar de bastar a quota associativa — passa a ser preciso uma licença desportiva federativa (com seguro e exame médico), com um custo que pode ir de poucos euros por prova a uma filiação anual. Para os clubes, a lógica de equipa passa a depender da filiação federativa, o que pressiona os grupos informais a formalizarem-se. Para os organizadores, o selo que valida a prova deixa de ser o da ATRP e passa a ser a homologação distrital da FPA — com uma taxa cujo não pagamento tem consequências concretas no calendário e nas classificações.
6) As direcções: da fundação à eleição contestada de 2025
A liderança da ATRP atravessou pelo menos quatro direcções. As datas e nomes combinam fontes públicas com testemunho directo do autor, assinalado como tal.
Os estatutos fixam quatro órgãos sociais — Assembleia Geral, Direção, Fiscal Único e Conselho Consultivo —, com a Direção composta por um presidente e quatro directores (cinco membros), mandatos de quatro anos e eleição por escrutínio secreto em Assembleia Geral. Os estatutos publicados não datam, porém, a aprovação nem as revisões. [R290]
O reverso humano: voluntariado, desgaste e contestação
Por trás das datas e das percentagens há pessoas a gerir, sem qualquer remuneração, uma estrutura que cresceu para milhares de associados e centenas de provas por ano. Estar na direcção da ATRP nunca foi um cargo honorífico — é trabalho, e trabalho exposto. Quando se recandidatou, em Dezembro de 2020, Rui Pinho descreveu o mandato cumprido como «quatro anos intensos de trabalho, muito de formiga», e a delegação de competências conquistada à FPA como algo só alcançado «com muito esforço e suor»; a mesma candidatura prometia um «programa de voluntariado de competências» — sinal de uma associação que vive do trabalho doado dos seus membros. [R310 — entrevista de recandidatura, anterior à crise de 2025.]
Seria, porém, incompleto reduzir Rui Pinho à figura do voluntário dedicado: a sua foi também uma liderança divisiva e combativa. A reeleição de 2020 disputou-se entre três listas — sinal de uma associação longe do consenso — e, na própria entrevista de campanha, Pinho não poupou os adversários: descreveu as candidaturas rivais como «de associados descontentes [...] essencialmente com os próprios interesses» e afirmou que «a impreparação é evidente e gritante». A mesma entrega que construiu a associação tinha, do outro lado, um estilo que dividia. [R310]
A crise de 2025 expôs o reverso dessa entrega. Ao validar a actuação da Mesa, a própria associação reconheceu que o seu presidente em exercício a conduziu «apesar das circunstâncias adversas, incluindo demissões e pressões externas» — admissão pouco comum, numa comunicação institucional, de que o conflito teve custos pessoais. [R298] Uma dessas demissões é pública — a do Fiscal Único, Manuel Maria Carapinha Correia, comunicada pela Mesa a 13 de Março de 2025 [R313] —, mas o conjunto de quem saiu, e sob que pressões, não é nomeado. Do lado da lista vencedora, Rui Pedras nunca fez declaração pública conhecida sobre a vitória anulada — um silêncio que é, ele próprio, parte da história.
Duas leituras da crise de 2025
- A disputa de 2025 foi, em parte, uma cisão da equipa anterior. Diogo das Neves Simão, director eleito com Rui Pinho em 2020 mas que se demitira da direcção já em Março de 2023, reapareceu em 2025 a encabeçar a Mesa da Assembleia Geral na lista de Rui Pedras, enquanto José Cândido Ribeiro, José Carlos Leal de Brito e Valérie Antunes dos Santos permaneceram do lado de Pinho. Não foi Pinho contra um desconhecido — e a fractura começara antes de 2025: foi a ruptura de uma equipa. A própria acta eleitoral mostra a contestação a partir de dentro: o primeiro protesto formal, no dia da votação, partiu de Diogo Simão — da lista vencedora —, e a lista de Pinho viria a pedir recontagem dias depois, advertindo por escrito que poderia «alegar a anulabilidade do ato eleitoral e proceder judicialmente». Nenhum dos lados saiu ileso do processo. [R293][R309][R311][R314]
- Uma sobreposição que exige exame. O secretário da Mesa da Assembleia Geral eleita em 2020, Mário Jorge Abreu Goios Ferreira, era também candidato a director na lista de Rui Pinho em 2025 e, na qualidade de presidente em exercício da Mesa, conduziu a não-investidura da lista vencedora. A identificação está confirmada: o nome coincide na composição da Mesa de 2020, na lista candidata de 2025 e na própria acta eleitoral que ele assina. Há, assim, uma sobreposição entre quem disputava o acto eleitoral e quem o validou que merece tratamento próprio. Recorde-se, porém, que os tribunais julgaram a actuação da Mesa conforme; se essa sobreposição constituiu um conflito de interesses material é juízo que o autor, por ser parte, não faz — e que se desenvolve no dossiê companheiro 20. [R293][R309][R311][R298]
7) A ATRP hoje: representação sem regulamentação própria
Após a integração na FPA, a ATRP mantém-se em actividade, mas com um papel redefinido: deixou de ser a entidade que regula a modalidade para passar a ser, sobretudo, associação representativa dos organizadores e dos praticantes dentro da estrutura federativa, na qual figura como associado extraordinário. [R221]
Esta redefinição não foi pacífica. Em Março de 2023, uma petição pública — que reuniu cerca de um milhar de assinaturas — alertava para o facto de a delegação de competências da FPA na ATRP «ainda não [ter] sido reduzida a escrito», o que, argumentavam os subscritores, «coloca em risco a existência da ATRP», e pedia o fim da dupla filiação. [R228] No plano operacional, a transição traduziu-se também no fim da plataforma MyATRP para inscrições, que passaram a fazer-se exclusivamente na plataforma da FPA a partir da época 2025/2026. [R295]
A esta tensão externa somou-se, em 2025–2026, uma crise interna de legitimidade: o acto eleitoral de Fevereiro de 2025 ficou sem tomada de posse dos eleitos, e só em Maio de 2026 as decisões judiciais confirmaram a actuação da Mesa da Assembleia Geral e abriram caminho a um novo processo eleitoral (ver secção 6). À data deste dossiê, a associação é conduzida pela Mesa da Assembleia Geral — cujo presidente em exercício, Eng.º Mário Ferreira, foi validado pelo tribunal —, com a direcção executiva por preencher enquanto se aguardam novas eleições; a actividade regular (circuitos, Taça de Portugal de Trail, campeonatos nacionais) prosseguiu em articulação com a FPA. [R297][R298]
A ATRP de hoje é, assim, uma associação que ajudou a institucionalizar a modalidade que representava — e que, ao fazê-lo, viu transferir-se para a federação a função regulatória que estava no seu próprio objecto social. É essa a tensão fundadora que percorre toda a sua história.
8) Lacunas em aberto
- Data exacta de constituição (dia/escritura) — apenas «Novembro de 2012» está confirmado.
- Estatutos e direcção fundadora em fonte primária pública datada.
- A direcção intermédia de João Colaço (c. 2015–2016), hoje só por testemunho do autor, a confirmar em actas. (O desfecho da eleição contestada de 2025 está documentado — ver secção 6; falta o resultado do novo processo eleitoral.)
- Série anual de associados, clubes e provas filiadas — a série financeira (2015–2024) está agora reconstruída a partir do Relatório de 2024; falta a série anual de associados/provas e a verificação por auditoria externa.
- Data documental precisa da admissão como associado extraordinário da FPA (3 de Maio de 2014, a confirmar).
- A história fina das tensões institucionais ATRP–FPA — tratada de forma sumária por proximidade; ver o dossiê companheiro 20.
- Documentos fundadores (estatutos originais, acta da assembleia constituinte, registo) que permitam fixar datas e nomes em fonte primária;
- Actas e listas de órgãos sociais que documentem as sucessivas direcções e a transição de 2015–2016;
- A cronologia precisa da relação com a FPA, incluindo o protocolo de delegação de competências;
- Correcções a qualquer facto aqui registado, com fonte verificável.
Contributos podem ser enviados por comentário neste post ou por email (contacto no blog). Correcções substantivas são publicadas com crédito e no modo de erratum indicado na metodologia da série.
Este dossiê reutiliza referências já atribuídas na série ([R15], [R220], [R221], [R222], [R228], [R230]) e introduz fontes novas a partir de [R290]. A numeração será reconciliada com a bibliografia-mãe na sincronização da série.
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