A ATRP por dentro: história institucional completa (2012–2026)
Post da série História do Trail Running em Portugal: história institucional completa da ATRP (2012–2026) — o trabalho, as vicissitudes, as conquistas e as polémicas, com base em documentação interna e em fontes públicas. Parcialidade do autor declarada.
A ATRP por dentro: história institucional completa (2012–2026)
Da escritura de 2012 à crise eleitoral nos tribunais: o trabalho, as vicissitudes, as conquistas e as polémicas de uma associação que nasceu de um vazio — com base em documentação interna e em fontes públicas.
de constituição (14/9)
circuito (2015)
da Selecção
activos (2024)
na FPA
sem posse
A ATRP foi, em simultâneo, uma ideia e um trabalho de formiga. A ideia — dar ao trail português representação, regras e seguro — foi desenhada com ambição internacional desde o primeiro dia. O trabalho — emitir cartões, corrigir classificações, montar circuitos, gerir conflitos — recaiu, ano após ano, sobre meia dúzia de voluntários.
Quem escreve é cofundador da ATRP, integrou a direcção fundadora (2012) e voltou a servir nos órgãos sociais (2015). Essa posição dá acesso a documentação interna e a contexto que uma história externa não teve — e impõe a parcialidade de quem foi parte.
Regras: (1) factos reescritos a partir da documentação interna, nunca documentos reproduzidos; (2) nomes só de figuras públicas em função — episódios pessoais de quem não é figura pública são omitidos; (3) contraditório nos pontos de parte; (4) incerteza declarada. Uma história independente e crítica da ATRP continua por fazer; este dossiê é uma história institucional documentada, oferecido como matéria-prima para ela. [R230]
1) O vazio que a associação veio ocupar (até 2012)
Quando a ATRP nasceu, o trail running português já não era marginal: a Ultra Trail Serra da Freita corria-se desde 2006, o MIUT e a Geira Romana desde 2008, e o número de eventos crescia ano após ano. O que não existia era uma entidade que representasse a modalidade como tal. No plano federativo, a corrida em montanha cabia ambiguamente entre o montanhismo organizado e o atletismo; o trail moderno — o da influência do UTMB e do circuito europeu, a partir de 2006 — crescia sobretudo fora dessas estruturas: em clubes de montanha, confrarias e grupos de amigos, sem quadro comum de distâncias, sem regulamentação partilhada e, sobretudo, sem seguro desportivo. [R230] É este o vazio que um pequeno grupo de atletas decidiu ocupar em 2012. Não inventaram o trail português — deram-lhe voz, regras e cobertura.
2) A fundação e o desenho de um sistema (2012–2014)
2.1 · A escritura, os órgãos e o registo
A génese tem datas precisas, documentadas no arquivo interno da associação. [A1]
Há, portanto, duas datas legítimas que a imprensa confunde: a constituição legal (14/9/2012) e o lançamento público (~3/11/2012). [A1; corrige R220.] A direcção fundadora eram cinco atletas — José Bomtempo, José Guimarães, José Carlos Santos (presidente), Luís Matos Ferreira (autor) e Paulo Jorge —, a que se juntou, em 2013, João Mota; a escritura designou Miguel Portela Morais para a Mesa da AG e Pedro Neiva Correia para Fiscal Único. [A2] A documentação interna mostra que, já em 2012, a ambição de Portugal disputar Campeonatos da Europa e do Mundo em 2014 estava traçada: a ambição internacional estava no código genético — e tinha um rosto. [A1]
O lançamento teve também a sua pequena noite de oficina. O primeiro site da ATRP, feito em WordPress, foi montado por José Guimarães, que trabalhou pela noite dentro para o ter pronto no dia 3 de Novembro. A identidade visual coube a outro fundador: o logótipo original da ATRP foi produzido pela BAR Lisboa, empresa de José Bomtempo — a mesma em cujos escritórios decorrera a reunião decisiva de 7 de Setembro. [A1] Era uma marca pouco convencional, daquelas que, na memória do autor, «primeiro se estranham e depois se entranham». (Testemunho directo do autor; a ligação de José Bomtempo à BAR Lisboa está documentada no arquivo da fundação.)
Essa rede fundadora produziu ainda uma das primeiras parcerias de conteúdos. Em 27 de Fevereiro de 2013, a ATRP propôs ao Laboratório do Trail, projecto de Ricardo Bomtempo — irmão de José Bomtempo — uma colaboração para levar aos seus canais informação sobre treino técnico, conhecimento acessível a praticantes sem acompanhamento profissional e experiência de atletas mais rodados. O acordo previa a publicação desses conteúdos também na página de Facebook da ATRP e autorizava o Laboratório a usar o logótipo da associação. Ricardo aceitou; a parceria ficou combinada no próprio dia. [A1] Era um modelo simples de troca — conhecimento e conteúdos por reconhecimento institucional e marca — e mostra como, poucos meses depois do lançamento, a associação procurava ser também uma plataforma de formação, não apenas de competição. (Correspondência interna; factos reescritos, sem reprodução das mensagens.)
No registo legal, a ATRP consta com o NIPC 510379281, sob a forma jurídica de associação sem fins lucrativos — e com um detalhe que hoje se lê como profecia: o CAE atribuído é o 93191, «organismos reguladores das actividades desportivas». A palavra regulamentação consta, aliás, do próprio objecto social inscrito nos estatutos — promoção, divulgação, organização e regulamentação do trail running em Portugal — e viria a estar no centro de toda a história posterior da relação com a FPA (secção 9). Os estatutos fixam quatro órgãos sociais — Assembleia Geral, Direcção (um presidente e quatro directores), Fiscal Único e Conselho Consultivo — com mandatos de quatro anos. A sede fundadora ficou na Quinta da Beloura (Sintra); em 2015–início de 2016 a vida administrativa gravitou em torno da Marinha Grande / São Pedro de Moel (órbita da direcção Colaço), e a sede social mudou estatutariamente de Sintra para Miranda do Corvo na AG de 2 de Julho de 2016 — no Centro de Estágio de Trail Running e BTT de Vila Nova, onde permanece no registo actual. [R290; R291; A2; R390]
O primeiro ciclo directivo teve, ainda, uma reorganização pouco conhecida — e reveladora. Na AG de 4 de Abril de 2014, três dos cinco fundadores — José Bomtempo, José Guimarães e Paulo Jorge — pediram dispensa de cargo, por impossibilidade de acompanhar os trabalhos, sendo substituídos até ao fim do mandato por Luís Freitas e Fernando Salvador (com a formalização da entrada de João Mota). [A1; A9] Ao segundo ano de vida, mais de metade da direcção fundadora estava exausta ou indisponível: o tema do desgaste do voluntariado, que atravessa toda esta história, começou logo ali.
2.2 · A arquitetura intelectual
Em paralelo com a papelada, o núcleo fundador desenhou um sistema — e discutiu-o com um Conselho Consultivo. Entre Setembro e Outubro de 2012, a documentação interna mostra em construção uma categorização de provas por dificuldade (um «selo» por letras, combinando distância e desnível), um regulamento «tipo» com ficha técnica obrigatória, um sistema de pontuação e a adoção do Observatório da Corrida como ranking externo. [A1] Estas categorias de distância — trail curto (até 21 km), trail longo (21–42 km), ultra trail médio (42–69 km), ultra trail longo (70–99 km) e ultra trail XL / endurance (mais de 100 km), com os respectivos escalões etários — tornaram-se a referência da modalidade em Portugal, citadas anos depois em trabalho académico. [R296] Nasceram em 2012.
O papel do Conselho Consultivo nesse desenho está agora documentado à letra. A carta-convite aos seus membros — redigida (dizem-no os metadados do ficheiro) a 14 de Setembro de 2012, o próprio dia da escritura — submetia de imediato à consulta as duas decisões estruturantes: o conceito de Trail Running a adoptar em Portugal (com o panorama comparado trazido de Courmayeur — a definição restritiva francesa, as generalistas italiana e norte-americana — e a proposta de um conceito «o mais abrangente possível»: pavimento até 20%, semi ou auto-suficiência «idealmente […] mas não obrigatoriamente», exclusão de percursos com navegação) e o formato do 1.º Circuito Nacional de 2013 — dois circuitos, por distância, com títulos de Campeão de Portugal. A mesma carta punha por escrito, em 2012, a ambição de levar os campeões absolutos de 2013 aos Mundiais de ultra-trail de 2014, «a cargo da Associação». O órgão de articulação com as outras forças do trail — organizadores, figuras de referência, de todo o tipo de filiações — não foi um acrescento: nasceu no mesmo dia da associação, e nasceu a consultar. [A15]
2.3 · A engenharia de poder (com contraditório)
Os estatutos consagraram uma opção deliberada: dar aos clubes e associações filiados apenas um voto cada (não proporcional ao número de atletas). O receio era concreto — que a associação morresse à nascença: no ano anterior, os próprios organizadores de trail tinham reunido para tentar criar uma estrutura e não chegaram a consenso, provavelmente por haver demasiados interesses instalados. Um princípio basilar da fundação foi, por isso, a equidistância face aos organizadores de provas — e a regra do voto único servia para impedir que esse tipo de entidades assumisse o controlo da associação. Perante queixas de dirigentes — entre eles Pedro Igor (Desnível Positivo) e João Carlos Correia (Portalegre, futuro organizador do UT São Mamede) —, a direcção propôs compensações sem mexer na representatividade. [A1]
A primeira apresentação pública do regulamento ATRP fez-se em casa alheia: nas Jornadas Técnicas do IV Trail de Conímbriga–Terras de Sicó, a convite de Eduardo Santos (O Mundo da Corrida) — dos primeiros a adotar o regulamento e, três anos depois, o organizador com quem a ATRP mais se atritaria. Carlos Sá comentou o regulamento. [A1; Dossiê 10.]
3) O tipo de trabalho: o sistema artesanal (2013–2015)
A ideia era global; a execução era de cozinha. A 1.ª prova do 1.º Circuito Nacional de Trail foi o Cross da Laminha, com classificações em Janeiro de 2013 — e foi baptismo de fogo: houve falhas de cronometragem e a classificação teve de ser refeita à pressa. [A1][A5] Nas épocas de 2013 e 2013/2014, os Circuitos Nacionais de Trail e de Ultra Trail — uma dezena de provas de trail e cerca de sete de ultra — deram pela primeira vez à modalidade um calendário competitivo nacional com classificações próprias. [R292]
E o sistema funcionou como chamariz: no final de 2013, ao assinalar o primeiro aniversário, a ATRP contava já com cerca de 900 associadosest; em Maio de 2014 comunicava representar cerca de 1.500 atletasest em mais de 120 associações — um crescimento superior a 50% em menos de seis meses. [R220; R292; números da própria associação, não auditados.]
O documento mais revelador do período é prosaico: um «Guia para atualização de Cartões». [A3] Descreve o fluxo de sócios — formulário Google → Excel → atribuição manual do número de associado → tabela do seguro → emissão dos cartões (PDFs, um a um) → envio do recibo. Era assim que se filiavam centenas, depois milhares, de pessoas: à mão. Foi para superar este modelo que, por iniciativa do director João Mota, a associação encomendou a plataforma MyATRP — o primeiro passo para automatizar inscrições e classificações. [A3]
O que o guia mostra para os sócios valia, por maioria de razão, para as classificações das provas dos Circuitos Nacionais: durante os primeiros anos foram calculadas à mão, em folhas de Excel — e, a partir do segundo ano (é a minha melhor memória), esse trabalho passou a ser pelouro meu. Fazia-se com gosto e por convicção: era um serviço aos associados, a forma concreta de dar corpo a um circuito nacional que ainda se estava a inventar. Mas era também um trabalho de artesanato, com as vicissitudes próprias de quem constrói quase do nada. As organizações — elas próprias, em muitos casos, assentes em trabalho voluntário — enviavam-nos os resultados com o tempo e os meios que tinham, por vezes com atraso ou com lapsos que só se detectavam mais tarde. Cada prova recolhia nas inscrições nomes com grafias diferentes, e muitas não identificavam o número de associado da ATRP — de modo que, para ligar um resultado a um sócio, era preciso cruzar uma série de dados (data de nascimento, escalão…) com fórmulas de Excel. Os erros aconteciam; com um processo assim, era inevitável que acontecessem. E a recontagem era frequente, porque se queria a tabela certa: bastava uma correção de uma organização ou o reparo de um atleta para recalcular a tabela inteira de classificações, multiplicada pelos vários escalões. Do outro lado chegavam muitas mensagens — por email, no site da ATRP e sobretudo nas redes sociais. Muitas eram queixas, e compreendiam-se: para cada atleta, aquela linha da tabela era o registo do seu esforço, e era natural querê-la exacta e a tempo. Que boa parte dos atrasos e dos erros tivesse origem nas organizações, e não em quem compilava, pouco aliviava a ansiedade de quem esperava pelo seu resultado — e nós recebíamo-la de frente, porque éramos a cara visível do circuito. O sítio da associação, preservado no arquivo da web, guarda ainda o rasto deste fluxo: as publicações de classificações de 2013 saíam com o apelo-padrão a que os associados reportassem «alguma incorrecção nas classificações» — logo a primeira, a do Cross da Laminha, tem em comentário público um atleta a perguntar porque não aparece na tabela —, e o aviso «Número de Associado e as inscrições nas provas» (Julho de 2013) tornou obrigatória a indicação do número de associado na inscrição, «por razões que se prendem com a correcta elaboração das classificações finais», sem excepções, sob pena de o resultado não contar para o circuito. [R383] Era, no fundo, o retrato do trabalho associativo: exigente e pouco vistoso, feito nas horas que sobravam e sem remuneração, mas movido por uma paixão genuína pela modalidade e por quem a praticava. E levava-se com humor — em Abril de 2015, ainda dirigente, publiquei no meu blogue uma sátira — «Manuel das Corridas Atleta vs Manuel das Corridas Dirigente Associativo» —, uma troca de emails de um homem consigo próprio, em que o atleta queixoso (mal classificado: 10.º em vez de 1.º) e o dirigente voluntário, de paciência já curta, discutem os dois lados do mesmo balcão. [R382] Registo-a não como lamento nem como acerto de contas, mas como medida: é este o custo humano — e também a entrega — do «sistema» que a secção 2 descreve, e é esta a matéria-prima do desgaste que a secção 7 retrata. (Testemunho directo do autor, dirigente à época, relembrado por contributo de um amigo; proximidade declarada. A datação «a partir do segundo ano» fica marcada como memória aproximada.)
4) Os Circuitos Nacionais: desenho e fricção (2014–2016)
O instrumento estruturante da ATRP foi o sistema de Circuitos Nacionais — e é também aí que se concentram as suas polémicas. Convém dizê-lo sem rodeios: compor o circuito era o exercício mais concreto de poder que a associação detinha sobre a modalidade. Decidir que provas entravam, em que escalão, quantas contavam para a classificação e quais davam título de campeão nacional era hierarquizar as provas — e hierarquizá-las era distribuir prestígio, atletas e receita. O «sistema elegante» de 2012, visto deste ângulo, era também um mecanismo de legitimação: quem definia o circuito definia o que contava como o topo do trail português. [A1; A7; A11] A história completa do Circuito — composições, regulamentos e campeões por edição, confirmados em fonte pública — está no Dossiê 21.
4.1 · O desenho de 2015: três escalões e a regra dos «finishers»
Em Outubro de 2014, a direcção fechou a «versão final» dos Circuitos Nacionais de 2015, a divulgar a 15 de Outubro: três circuitos por dureza — Trail (10 provas), Ultra (8) e Ultra Endurance (4). [A11] A discussão mais substantiva revela um problema estrutural: havendo poucos finishers nos circuitos, fixou-se um número mínimo de provas para ser finisher e um máximo que conta para a classificação. [A11]
A decisão foi colegial e iterativa: à proposta inicial do presidente (que admitia, no circuito mais duro, uma só prova para ser finisher), João Mota opôs-se, defendendo que finalizar uma única prova não bastava, e sugerindo tratar o Ultra Endurance como circuito «Élite» (duas provas para finisher, três para classificação). A objeção venceu: a proposta foi revista, com a nota de a submeter ao Conselho Consultivo. [A11] É um exemplo de como o sistema se afinou por deliberação, não por decreto. Ficou ainda registado que o Douro Ultra Trail (de João Marinho) não integrou o circuito mais duro de 2015 por não ter garantido data nem evento a tempo. [A11]
4.2 · A reestruturação de 2016 e o atrito com os organizadores
No segundo semestre de 2015, a direcção desenhou os Circuitos de 2016, consolidando um circuito «Endurance» que, na proposta de Agosto, reuniria MIUT, Estrela Grande Trail, Freita e UTAX. O atrito veio da reclassificação: o Sicó e o S. Mamede foram retirados do circuito longo e convidados a entrar no de Trail «com a prova pequena», por critério de perfil (o Sicó, prova rolante, sem lugar no Endurance). [A7]
- O Sicó rejeitou o convite. A prova era organizada pela AD O Mundo da Corrida, de Eduardo Santos — e era com O Mundo da Corrida que a troca de mails estava «mais acesa». [A7; organizadores confirmados nas composições oficiais arquivadas — Dossiê 21]
- O S. Mamede (Ultra Trail da Serra de São Mamede, do Atletismo Clube de Portalegre, com João Carlos Correia como director de prova) foi a outra prova reclassificada — e tinha sido a prova-título de Portugal em 2014.
Reencontramos aqui o mesmo Eduardo Santos que, em 2012, acolhera a primeira apresentação do regulamento ATRP — nas jornadas do IV Trail de Conímbriga–Terras de Sicó, precisamente a prova agora reclassificada. O anfitrião da estreia tornara-se o contraditor — sinal de que a fratura fundadora (quem decide o que conta como prova nacional) continuava ao rubro. [A7]
5) As conquistas (2015–2019)
5.1 · A direcção de João Colaço (2015)
Em meados de 2015, José Carlos Santos deixou a presidência e os órgãos sociais da associação; João Colaço assumiu a liderança, com a lista «Em nome do Trail!» (posse a 2 de Junho de 2015). A nova direcção: João Colaço (presidente), Carlos Guerreiro Coelho, João Mota, Luís Matos Ferreira e Luís Subtil Barreiro — da direcção anterior mantinham-se João Mota e Luís Matos Ferreira (o autor); Colaço, Guerreiro Coelho e Subtil Barreiro eram entradas novas. [A4][A6] A documentação interna do segundo semestre revela uma governação em dois anéis: um plenário alargado, com todos os órgãos, e um núcleo executivo restrito, só com os cinco directores, para as decisões executivas. [A7] A 1.ª reunião da direcção Colaço (5 Jul 2015), documentada por ata, mostra uma direcção a tentar profissionalizar-se: uma checklist para o representante da ATRP nas provas, um KIT ATRP (fitas, faixas, pódio), divisão de pelouros — e a admissão de que era impraticável ter um dirigente em cada prova, dada a extensão dos circuitos (22 provas). [A3]
5.2 · A Selecção Nacional e os Mundiais
A estrutura de 2015 levou Portugal, pela primeira vez, a um Campeonato do Mundo de Trail — em Annecy (França), Maio de 2015. O director João Mota documentou-o publicamente no seu blogue: a primeira Selecção Nacional teve oito atletas (quatro femininos, quatro masculinos), apurados pelo sistema da ATRP por delegação da FPA, com estágio no Vale do Rossim (Serra da Estrela). [R316; Dossiê 05] O seleccionador nacional foi o primeiro presidente, José Carlos Santos — função que manteria vários anos —, com uma equipa técnica que incluiu Pedro Amorim (médico) e Luís Matos Ferreira. Foi o primeiro de um ciclo: nas duas edições seguintes disputadas em solo português, coube à ATRP compor a selecção a partir do seu próprio sistema — circuito nacional, provas de observação e wildcards —, em equipas que cresceram de cerca de uma dezena para dezoito atletas: Mundial na Peneda-Gerês (2016) e em Miranda do Corvo (2019) — onde a ATRP tem hoje a sede e de onde saiu o melhor resultado de sempre de um português, o 10.º lugar de Hélio Fumo. [R302]
5.3 · O patrocínio Prozis e os prémios dos circuitos
O patrocínio mais visível teve nome próprio: Prozis, principal patrocinadora entre 2015 e Janeiro de 2020. [R303] A documentação interna data a sua origem em Julho de 2015 (proposta em cinco áreas, levada à direcção por João Colaço) e mostra que o canal nasceu da proximidade ao núcleo fundador — uma ligação que vinha de dentro da rede da associação, e não de um contacto comercial frio. [A8] É um facto editorialmente relevante e, ao mesmo tempo, uma rede de fornecedores próximos a assinalar com transparência.
Para lá do patrocinador principal, a operação dos circuitos assentava em parcerias pontuais para prémios, documentadas publicamente pelo director responsável: nos prémios de 2015, hoodies de finisher da Tugawear, troféus desenhados nos Açores e financiados pela Martipereira, e vales Prozis. [R316] É o reverso concreto do «sistema elegante»: arranjar, prova a prova, quem pague os troféus. A ATRP associou-se ainda a infra-estruturas permanentes — os Centros de Trail —, como o Centro de Estágio de Vila Nova (Lousã) e o Centro de Trail by Carlos Sá (Penacova), documentados em 2015 no mesmo blogue. [R316]
5.4 · O sistema em velocidade cruzeiro
Nos anos seguintes, a ATRP foi assumindo, peça a peça, as funções de uma entidade reguladora sectorial: certificação de provas (regulamento próprio, logótipo, calendário no MyATRP), um Circuito Jovem e competições Sprint, o projecto dos Centros de Trail em parceria com municípios e, durante a pandemia, um protocolo de segurança para organizadores. [R15; R299; R301] A estrutura competitiva tornou-se também territorial: além dos Campeonatos Nacionais por formato (Trail, Ultra, Endurance e Endurance XL), as apresentações de Assembleia Geral mostram Circuitos Regionais na Madeira, no Algarve, em Lisboa, Santarém, Braga, Viana do Castelo, Leiria e Coimbra — o calendário nacional alimentado a partir da base. [R301]
6) O dinheiro: as contas de uma associação sem funcionários (2015–2024)
O ponto de partida do modelo de receitas era de uma simplicidade total — e está documentado no próprio site da associação, preservado no arquivo da web. Em Janeiro de 2013, ser associado custava 10€ de quota anual; o seguro desportivo — apólice de acidentes pessoais da Allianz, «sem qualquer franquia e com capitais superiores aos exigidos por lei» — custava 15€/ano, facultativo, ou 25€ em pacote com a quota; e eram ainda estes os valores nas renovações para 2015. [R412] Nos primeiros anos, os proventos da associação vinham quase exclusivamente daqui — das quotas e da adesão ao seguro contratado através da associação; se alguma fração do prémio ficava na ATRP como margem, os documentos públicos não o mostram, e fica declarado. (Testemunho do autor, dirigente à época, consistente com a cronologia das outras receitas: patrocínios só a partir de 2015 (§5.3) e o modelo de financiamento por certificação de provas só a partir de 2018 (§7.4).) E o seguro cedo deixou de ser linha acessória: já na AG de 2016 se discutia o «elevadíssimo n.º de sinistros» — que ameaçava obrigar a subir a quota — e a direcção declarava procurar patrocinadores precisamente para «evitar o aumento do valor das quotas». [R390]
O Relatório de Atividades e Análise Financeira de 2024 — o documento de governação mais completo que a associação publica — permite substituir estimativas avulsas por uma série. Segundo esse relatório, o número de associados activos passou de cerca de 1.000 em 2016 para quase 6.000 em 2024est (um crescimento que a associação cifra em 500%), e o orçamento anual de 30.000€ para 149.408€ no mesmo período. Tudo isto, sublinha o documento, sem funcionários nem estrutura profissionalizada — um modelo inteiramente voluntário, com um custo operacional médio por associado com quota em dia de 24,52€. No plano da actividade, 2024 fechou com 181 eventos certificados, 37.368 atletas classificados, seis Campeonatos Nacionais (1.824 atletas apurados), a Final da Taça de Portugal em São Miguel (Açores) e um estágio da Selecção na Serra da Estrela que preparou o 5.º lugar colectivo feminino no Campeonato da Europa de Annecy. [R299]
| Ano | Receita (€) | Resultado líquido (€) | Fundos patrimoniais (€) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 30.000 | −14.940 | −14.940 |
| 2016 | 34.000 | 13.900 | 454 |
| 2017 | 50.000 | 3.297 | 3.751 |
| 2018 | 62.000 | 1.526 | 5.276 |
| 2019 | 93.000 | 39.352 | 44.629 |
| 2020 | 89.358 | −8.360 | −8.360 |
| 2021 | 137.297 | 3.707 | 3.707 |
| 2022 | 192.474 | 5.224 | 5.224 |
| 2023 | 165.109 | −9.547 | 57.676 |
| 2024 | 149.408 | −5.045 | 49.511 |
Fonte: Relatório de Atividades e Análise Financeira ATRP 2024 [R299]; valores arredondados ao euro; 2023–2024 confirmados pelo Balanço e Demonstração de Resultados anexos. O retrato: recuperação de fundos patrimoniais negativos (2015) para uma posição consolidada, com pico de receita em 2022 e ligeiras retracções em 2023–2024 — explicadas, em parte, pelo adiamento da contabilização do apoio (~30.000€) aos atletas da Final da Taça de Portugal para Janeiro de 2025.
6.1 · Para onde vai o dinheiro (2024)
Do lado da receita, as apresentações de Assembleia Geral identificam três fontes — quotas, patrocínios e apoios, e certificação e arbitragem de provas —, sem discriminação fiável por rubrica nos documentos públicos. [R301] Do lado da despesa, a Demonstração de Resultados de 2024 é explícita: toda a despesa (154.453€) está classificada como «fornecimentos e serviços externos» e os gastos com pessoal são zero — a confirmação contabilística do modelo voluntário. [R299]
| Rubrica | 2024 (€) | Peso | 2023 (€) |
|---|---|---|---|
| Deslocações correntes | 42.100 | 27% | 35.691 |
| Seguros de acidentes pessoais (associados) | 24.912 | 16% | 18.434 |
| Deslocações Taça de Portugal | 19.700 | 13% | 12.032 |
| Trabalhos especializados | 16.853 | 11% | 24.848 |
| «Outros» — Taça de Portugal | 15.686 | 10% | 9.934 |
| «Outros» — Campeonatos Nacionais | 10.871 | 7% | 22.436 |
| Deslocações Selecção Nacional | 6.301 | 4% | 29.022 |
| Honorários | 4.970 | 3% | 4.465 |
| Arbitragem | 4.450 | 3% | 3.800 |
| Serviços bancários | 3.735 | 2% | 2.656 |
| Prémios e troféus | 3.357 | 2% | 10.157 |
| Comunicação | 1.517 | 1% | 1.003 |
| Total | 154.453 | 174.656 |
Fonte: Demonstração de Resultados ATRP 2024 (anexo ao Balanço) [R299].
Três leituras saltam à vista. Primeira: a mobilidade dos atletas domina — as deslocações (correntes, Taça de Portugal e Selecção) somam cerca de 68.100€, 44% da despesa; em termos financeiros, a ATRP é, sobretudo, uma estrutura que leva atletas a provas. Segunda: o seguro é a segunda maior rubrica (24.912€, +35% face a 2023) — e fecha o argumento da secção 1: a modalidade crescia, em 2012, «sem seguro desportivo», e é precisamente a cobertura de acidentes pessoais dos associados que constitui hoje o maior custo recorrente não-logístico. O que motivou a fundação tornou-se a sua principal despesa estrutural. Terceira: as oscilações seguem o calendário competitivo — as deslocações da Selecção caíram de 29.022€ em 2023 (ano de Mundial em Innsbruck) para 6.301€ em 2024. [R299]
6.2 · Quantos sócios? A escala em perspetiva federativa
Uma das perguntas mais simples é das mais difíceis de responder com rigor — e das mais reveladoras: quantos sócios tem, afinal, a ATRP? A resposta exige distinguir três universos: os associados activos (com quota em dia) — cerca de 6.000 em 2024 [R299]; os sócios alguma vez registados desde 2012 — sem número oficial, mas os números de sócio do MyATRP são sequenciais e um perfil público mostra já o #18565 (filiação em Outubro de 2025), ou seja, pelo menos ~18.565 números atribuídos, cerca de três vezes os activos [R305]; e os federados na FPA via trail, um subconjunto que a federação não desagrega publicamente.
A comparação com a federação dimensiona a escala: a FPA fechou a época 2023/2024 com 23.835 filiados — um recorde, mais 1.960 (+8,6%) do que no ano anterior. [R304] É tentador ler que «foi o trail que trouxe os sócios», mas a leitura merece cautela: a própria FPA não atribui o crescimento ao trail, e um acréscimo de +1.960 federados numa só época é muito inferior aos ~6.000 associados activos da ATRP — sinal de que a passagem de sócio-ATRP a federado-FPA foi gradual e parcial. [R304; R222]
7) Da contestação à década de Pinho: crescimento, profissionalização e desgaste (2015–2026)
A direcção de 2015 é a primeira de que há documentação direta da fricção que as decisões geravam — e da exaustão de quem as tomava. Da contestação que a desgastou nasceu a liderança mais longa da história da associação: a década de Rui Pinho (2016–2025), reconstruída aqui a partir das actas públicas da Assembleia Geral, das apresentações de contas e do acervo de comunicações da associação aos sócios. [R390–R394; R301; A14]
7.1 · A contestação e o princípio da imparcialidade
A documentação interna dá, no final de 2015, dois sinais explícitos: a sobrecarga de quem mais trabalhava e a contestação crescente às decisões da direcção. [A7] Os dois encaixam: a reestruturação dos circuitos de Agosto (§4) gerou a contestação a que a direcção respondia em Novembro.
Esta contestação tem também registo público, na voz de um director. Ao deixar o cargo, em Março de 2016, João Mota publicou no seu blogue o texto «ATRP — Um Orgulho Imenso», em que defende o princípio que, do ponto de vista da direcção, justificava a sua independência — os dirigentes eram atletas sem ligação a entidades organizadoras, o que garantia imparcialidade — e critica o uso, pelo sector comercial, de crítica infundada nas redes sociais para influenciar atletas, notando o contraste entre a hostilidade online e a cordialidade presencial. [R316]
7.2 · A transição de 2016
A direcção Colaço documentada estende-se, na documentação interna, até Dezembro de 2015; a transição faz-se no início de 2016: na Assembleia Geral Ordinária de 26 de Fevereiro de 2016, os corpos sociais apresentaram demissão solidária, e o ato eleitoral de 2–14 de Março (lista única) conduziu à direcção de Rui Pinho. [A9] O detalhe que fecha o círculo: na própria AG de 26 de Fevereiro, Rui Pinho contava-se entre os associados contestatários — a contestação de 2015 não se limitou a desgastar uma direcção, produziu a seguinte. [A9] E ficou um segundo detalhe que é, ele próprio, história: o associado Orlando Duarte pediu para não marcar a assembleia em cima de um ultra-trail — exatamente a preocupação que o mesmo Orlando Duarte levantaria publicamente dez anos depois, em 2026, sobre a AG Eleitoral marcada para o dia do Trail da Lomba. A vida associativa da ATRP tem memória longa e personagens recorrentes. [A9]
7.3 · Um arranque em rutura — e as fundações de 2016
A tomada de posse não foi um passar de testemunho cordial: a transição entre a direcção entrante e as cessantes fez-se com fricção. (Proximidade declarada: o autor pertence ao universo dos visados, como dirigente da direcção cessante nesta transição — o que aqui se regista é a versão de quem saía.)
O ano fundacional da era está na Acta n.º 7 — a AG de 2 de Julho de 2016, em Vila Nova (Miranda do Corvo), com 25 associados. Nela se decide quase tudo o que estrutura a década: a mudança da sede social de Sintra para Miranda do Corvo (novo art. 3.º), com «local de atendimento ao público» na loja Runners, no Porto; a inscrição estatutária de que «a ATRP é sócio extraordinário da FPA»; a renumeração de sócios de quatro em quatro anos; o dever de «abster-se de comportamentos que difamem a associação»; e — a ironia institucional que só 2025 revelaria — o artigo 17.º: «Cumpre ao Presidente da Mesa da AG conferir posse aos membros dos órgãos sociais, no prazo máximo de quinze dias após a sua eleição». O artigo no coração da crise de 2025 foi criado na primeira assembleia da era Pinho. [R390] A mesma AG anunciou providências cautelares contra provas de trail não licenciadas, encaminhou as provas com características de skyrunning para a FCMP (com «bolsa de árbitros comum»), lançou o projecto de campeonatos regionais de Trail Curto e propôs José Carlos Santos para sócio de mérito. [R390] Em Novembro, o email de renovação de quotas já proclamava: «Somos o maior associado da Federação Portuguesa de Atletismo». [A14]
7.4 · A máquina de crescimento (2017–2019)
Os números primários das apresentações de Assembleia Geral dão a medida da aceleração: 3.439 sócios registados (2.042 com quota paga) em 2016; 4.743 (2.631) em 2017; 6.713 (3.712), mais 337 clubes, em 2018; 8.790 (5.061) em 2019. Os classificados nos circuitos saltam de 1.682 (2016) para 4.312 (2017). [R301; A14] A base competitiva era, em 2016, de apenas 16 provas — o ponto de partida da série que chegaria a 181 eventos certificados em 2024. [R393; R299]
Duas criações de 2017 marcam a década. A Taça de Portugal de Trail nasce nesse ano — «LACATONI Taça de Portugal de Trail», com apuramento por zonas e final no EPIC Trail dos Açores (São Miguel, 2 de Dezembro de 2017; vencedor masculino Luís Semedo), custeada em 13.699€ com apoio do Governo Regional dos Açores. [R395; R396; R391] (A revisão retrospectiva da própria direcção, em 2023, chama a 2018 «o primeiro ano» da Taça — a Acta de 2018, com as contas de 2017, desmente-a; o conflito interno da fonte fica declarado. [R393]) E a nova plataforma MyATRP é lançada a 21 de Dezembro de 2017, relançada meses depois como rede social da modalidade. [R301; A14]
No dinheiro, 2018 é o ano-charneira do modelo de negócio. O contrato com a Prozis — 20.000€/ano, ~38.000€ com comissões e cupões em 2017 — cessa, segundo a revisão interna de 2023; em resposta, a associação alarga o objecto estatutário à ultradistância de estrada («sempre mandatada e delegada pela FPA») e constrói o modelo de financiamento por certificação de provas (nível 2, de tipo ITRA: checklist e termo de responsabilidade). A faturação salta de 45.321€ para 109.953€. [R393; R391; R301] Na mesma AG de 2018 discute-se um caso de dupla certificação — um organizador a pagar simultaneamente à ATRP e à AA de Lisboa — que antecipa, no plano dos organizadores, a «dupla filiação» dos atletas. [R391]
É também neste triénio que a linguagem da delegação se consolida — sem nunca chegar a papel assinado. A formulação mais antiga conhecida está num comunicado aos sócios de Novembro de 2017 («regulador da modalidade em Portugal por delegação da FPA»); a Acta de Março de 2018 repete-a; as páginas públicas da Taça e da certificação institucionalizam-na em 2018–2019. Mas os planos de actividades de 2021 e de 2022 ainda listam o «Protocolo com FPA» como objectivo por concluir e implementar — a corroboração institucional directa daquilo que a petição de Março de 2023 denunciaria: uma delegação de facto, «não reduzida a escrito». [A14; R391; R397; R301; R228]
Os Circuitos Regionais têm aqui o seu rasto documental — e uma lacuna: não há anúncio público de criação de nenhum deles. O circuito distrital da Madeira já apurava atletas para a Taça em 2017; a categoria «Circuitos Regionais reconhecidos pela ATRP» aparece em Junho de 2018 (já com a expressão «dupla filiação»); a lista das oito regiões só surge no plano de Março de 2022; e em 2022/23 a AA de Braga organiza o seu Campeonato Regional em formato circuito — a semente da pirâmide distrital da §9.3. [R391; R397; R301; R409]
Quanto ao Mundial de Miranda do Corvo (2019), a documentação obriga a precisão: a IAU/ITRA atribuiu a organização, entre sete candidaturas, à FPA e à Associação Abutrica (Trilhos dos Abutres); a ATRP apoiou a candidatura e celebrou-a («Parabéns Abutres!»), mas não foi mencionada na apresentação pública do evento, em Setembro de 2018. O seu papel real foi desportivo: a selecção nacional e a arbitragem, «com formação adquirida em tempo recorde», nas palavras do próprio Pinho. O balanço interno de Dezembro de 2019 («mais uma superior organização de mais um Mundial») lê-se, por isso, como auto-descrição generosa. [R399; R400; R401; R310; A14]
7.5 · A pandemia como teste de gestão (2020–2021)
A resposta ao Covid fez-se em 48 horas: a 13 de Março de 2020, convocatória de uma videoconferência de emergência com organizadores e equipas; a 14, comunicado — datado de Miranda do Corvo — com o adiamento da AG, a suspensão dos reagendamentos e a criação de uma comissão técnica («Sejamos todos agentes de saúde pública»). [A14; R402] A retoma a 1 de Julho de 2020 foi negociada com a Secretaria de Estado do Desporto, no quadro de uma «comissão instaladora da Associação Portuguesa de Organizadores de Eventos Desportivos» — entidade de que não se conhece existência posterior. [R403] Seguiram-se um Protocolo de Segurança Covid próprio (Outubro de 2020) [R404], a transição automática das provas de 2020 para 2021 e a criação do circuito Trail Ultra Endurance XL. [A14; R408]
A época pandémica deixou dois episódios reveladores. No CN de Trail Ultra (Trilhos dos Abutres, Fev/2020), o controlo de material detectou infracções — e o organizador decidiu não desclassificar; o comunicado da ATRP explica a arquitectura de arbitragem e conclui que «tem de aceitar esta decisão» — um conflito de competências arbitrais cinco anos antes da crise de 2025. [R405] E o CN de Trail Ultra Endurance de 2020 (EstrelAçor) foi co-organizado com a AD O Mundo da Corrida — precisamente o contraditor de 2015 (§4.2), agora co-organizador de um campeonato nacional. [R406] A final da Taça de 2020 fez-se em Melgaço, com testes Covid promovidos pela ATRP em pleno Estado de Emergência. [R393; R310]
7.6 · 2020: a reeleição a três
A liderança de Rui Pinho estendeu-se por quase uma década (2016–2025) — uma entrega que ele próprio descreveu como «quatro anos intensos de trabalho, muito de formiga», e a delegação de competências conquistada à FPA como algo só alcançado «com muito esforço e suor». [R310] Mas foi também uma liderança combativa e divisiva. A reeleição de 28 de Dezembro de 2020 disputou-se entre três listas: «Compromisso com o Futuro» (Pinho) venceu com 285 votos (56,10%), contra o «Movimento pela Mudança» de Ester Alves com 164 votos (32,28%) e a lista de João Cruz com 53 (10,43%). [R293; A13] Na entrevista de campanha, Pinho não poupou os adversários: descreveu as candidaturas rivais como «de associados descontentes [...] essencialmente com os próprios interesses» e afirmou que «a impreparação é evidente e gritante». [R310]
O acto eleitoral teve uma logística inédita: quatro mesas de voto simultâneas — a sede, em Vila Nova, e três lojas de corrida (Runners, no Porto; 4Run, em Lisboa; Ana Dias Runners Club, em Faro) —, com 508 votantes, depois de a Mesa ter promovido um debate entre as três listas transmitido no Facebook da associação (23 de Dezembro); o voto por correspondência foi considerado juridicamente impossível e o electrónico estava vedado pelos estatutos — limitação que reapareceria em 2025. [A14; R407] Do programa vencedor fazia parte o circuito ProLeague, criado nessa época com 30.000€ de prémios monetários paritários. [R310]
7.7 · Arquitectura madura e o caminho para a FPA (2021–2023)
O segundo mandato abre com o plano de 2021 a listar como objectivo institucional número um o «Protocolo com FPA — atribuição de competências» — a confissão de que, cinco anos depois da primeira invocação da delegação, o papel continuava por assinar. [R301] No plano desportivo, a máquina amadurece: equipa técnica estável na Selecção (selecionador José Carlos Santos), modelo protocolar com as câmaras municipais para os Campeonatos Nacionais, co-organização dos CN posta a concurso com caderno de encargos, criação do Circuito Nacional de Trail Sprint (Nov/2021) e dinamização do Circuito Jovem. [R301; A14] A época de 2022 fecha com 177 provas certificadas, 7.308 sócios classificados e um Sprint com 57 eventos. [R393]
Mas é também deste período o primeiro documento público da fractura interna. Na AG de 18 de Março de 2022 (Valongo, 14 presentes), um director exarou em acta: «o relatório e contas não foram discutidos nem aprovados, em reunião de direção… recuso o exercício do direito de voto»; Pinho respondeu, também em acta, que «nos estatutos não há funcionamento de direção nem está previsto… o relatório de contas ser discutido em reunião de direção». A acta do ano seguinte identifica o dissidente — Diogo das Neves Simão — e data a sua demissão «em 2022» (o comunicado público é de 21/3/2023 [R314]; a discrepância fica declarada). A rutura que rebentaria em 2025 está documentada, em fonte primária, três anos antes. [R392; R393]
A integração na FPA, contada institucionalmente na secção 9, tem aqui a sua face doméstica: quota de 12€ «incluindo a filiação na FPA» na época 2022/23; o comunicado da própria FPA (22/11/2022) a admitir que os sócios da ATRP «não foram previamente informados» e a criar um regime transitório; a quota ATRP gratuita em 2023/24 para quem se federasse; e o realinhamento das distâncias com a categorização da World Athletics (Out/2023). [A14]
7.8 · Fim de ciclo (2024–2025)
Em 2024, a própria direcção diagnostica o problema: o ciclo de conferências «Conversas de Trail» (Lourinhã, Manteigas, Arouca) discute a «imperiosa necessidade de modernização … da orgânica de funcionamento da Associação». E a dependência federativa torna-se operacionalmente visível: em Outubro, o adiamento das eleições da FPA trava a publicação dos calendários e dos critérios de selecção. [A14] O pano de fundo era a mudança na própria federação: Domingos Castro foi eleito presidente da FPA a 27 de Outubro de 2024, com 60,9% dos votos, sucedendo a Jorge Vieira ao fim de doze anos e três mandatos (o limite estatutário) — uma eleição também ela turbulenta: a lista de Castro foi inicialmente rejeitada pela Mesa da AG da federação, anunciou impugnação, e o acto foi adiado de 12 para 27 de Outubro — precisamente o adiamento que travara os calendários da ATRP. Meses antes da crise da ATRP, a federação-mãe viveu a sua própria crise eleitoral. [R411; A14] O último acto documentado de Pinho em gestão corrente é a AG Ordinária de 31 de Março de 2025 (Valongo), já em plena crise: Hélder Costa e Orlando Duarte abandonam a sala ao caírem as procurações que transportavam (a de Duarte era de Diogo Simão); as contas de 2024 são aprovadas por 43-0-2 sem parecer de órgão de fiscalização; e Pinho confirma que a ATRP não esteve presente na AG da FPA que criou a taxa sobre corridas populares. [R394]
7.9 · A eleição que não teve posse (2025–2026)
A AG Eleitoral de 8 de Fevereiro de 2025, no Centro de Alto Rendimento do Jamor, opôs «No Trilho Certo» (Rui Pinho) e «Movimento pelo Trail» (Rui Pedras). De 5.163 inscritos votaram 462 (8,9%); a lista de Pedras venceu por 228 contra 223 (11 brancos/nulos), com posse prevista para 17 de Fevereiro. [R294][R309] A votação decorreu em cinco mesas (Oeiras, Braga, Valongo, Anadia e Ourém), presididas por dirigentes cessantes — Rui Pinho presidiu à secção de Valongo. [A14] Mas a Mesa da AG invocou irregularidades no voto por procuração (admitido até duas por associado), não deu posse aos eleitos e decidiu reapreciar o ato, fundamentando-o em «forte indício de nulidade do ato de reconhecimento» das procurações e no pedido de um parecer jurídico independente. [R311][R300] Na conferência documental de 18 de Fevereiro, com delegados das duas listas, identificaram-se procurações com o sentido de voto inscrito no próprio texto, reconhecimentos inválidos e votos com quotas pagas fora de prazo. [A14] A acta mostra que ambas as listas contestaram: o primeiro protesto formal, no próprio dia, partiu de Diogo das Neves Simão — da lista vencedora; e a lista de Pinho pediu depois a recontagem, advertindo por escrito que poderia «alegar a anulabilidade do ato eleitoral e proceder judicialmente». Nenhum dos lados saiu ileso do processo. [R311]
A campanha teve, como em 2020, um debate oficial entre os candidatos — desta vez transmitido no canal de YouTube da associação. Nele, Rui Pinho ligou expressamente as duas transições: agradeceu a Jorge Vieira («foi ele que abriu as portas» na FPA), mas afirmou que nos últimos dois anos a ATRP «sofreu um bocado, indirectamente» com o «fim de ciclo» dessa liderança — «com dois candidatos praticamente assumidos desde o início do mandato à sucessão» na federação — e com o processo de integração «a não ser completamente fechado»; e definiu como tarefa do mandato seguinte, já perante «uma nova direção na FPA», a «plena integração» e a articulação entre circuitos distritais, nacionais, Taça de Portugal e campeonatos. [R410; citações da transcrição automática, conferidas no texto]
O debate expôs, para lá da conjuntura, dois programas distintos. Pedras apresentou a candidatura como vontade de «cortar um pouco com o passado» — sem «esquecer o que foi feito», mas sob o diagnóstico de que «o que está a faltar aqui é gestão»: propôs uma auditoria administrativa e financeira, um princípio de «frugalidade» e a profissionalização da estrutura, com pessoal a tempo inteiro para uma associação que considerava ter ultrapassado a escala do puro voluntariado. Pinho defendeu a continuidade «no seguimento do trabalho dos últimos oito anos», reivindicou o modelo voluntário («somos oito, todos voluntários») e a plataforma MyATRP como «a nossa melhor arma». O ponto mais substantivo, porém, foi estatutário: Pedras esclareceu que a oposição não votara contra a revisão dos estatutos em bloco, mas contra «uma cláusula» — a que permitiria ao presidente «vincular jurídica e financeiramente a ATRP sozinho» —, que classificou como «um erro e um perigo», «não pela pessoa, mas pelo princípio»; Pinho contrapôs que a fórmula era «exatamente igual» à dos estatutos da FPA (o presidente «representa juridicamente» a associação) e que a gestão do património «continuava a obrigar sempre a duas assinaturas» — a distinção técnica entre representar e vincular no centro do desacordo. É esta a substância que falta à sequência de assembleias falhadas: a revisão estatutária não caiu por hostilidade difusa, mas por um diferendo concreto sobre os poderes do presidente. [R410; citações da transcrição automática, conferidas no texto; posições de parte.]
| Eixo | «No Trilho Certo» (Rui Pinho) | «Movimento pelo Trail» (Rui Pedras) |
|---|---|---|
| Orientação | Continuidade, «no seguimento do trabalho dos últimos oito anos» | «Cortar um pouco com o passado»; «o que falta aqui é gestão» |
| Estrutura e recursos | Modelo voluntário — «somos oito, todos voluntários»; o MyATRP como «a nossa melhor arma» | Profissionalização, com pessoal a tempo inteiro e departamentos; auditoria e «frugalidade» |
| Órgão de fiscalização | Substituir o Fiscal Único por um Conselho Fiscal (ponto de convergência entre as duas listas) | «Um verdadeiro conselho fiscal» que acompanhe o trabalho financeiro da direcção |
| Acesso ao ato eleitoral | Modelo de cinco mesas presenciais, com cobertura distrital («a meia hora de uma mesa») | Voto electrónico, assembleias por videoconferência e regularização de quota até à véspera |
| Transparência de contas | Contas publicadas na convocatória da Assembleia Geral | Contas permanentemente acessíveis no sítio da associação |
Fonte: [R410]; posições reconstruídas da transcrição automática do debate, a conferir no vídeo; afirmações de parte. A troca de acusações sobre o número de mesas de voto não se resume aqui.
Seguiu-se uma cascata de saídas. A demissão do Fiscal Único, Manuel Carapinha Correia, foi comunicada a 13 de Março de 2025 [R313]; a presidente da Mesa, Filipa Vilar, deixou de assinar as convocatórias entre Janeiro e Abril de 2025 — a de 12 de Abril já vai assinada por Mário Ferreira, «pela Mesa» —, o indício documental da sua saída, nunca comunicada formalmente [A12] — indício que o comunicado da lista vencedora, em Julho de 2026, viria a corroborar: «a presidente da Mesa demitiu-se há 16 meses», ou seja, por volta de Março de 2025 (confirmação de parte). [R384] A própria associação descreveria o período como de «demissões e pressões externas». [R298] A Mesa em exercício passou a ser presidida pelo Eng.º Mário Ferreira — que era, simultaneamente, candidato a director na lista de Rui Pinho.
Entre a eleição e os tribunais houve ainda dois atos falhados. Na Assembleia Geral Extraordinária de 15 de Março de 2025, em Miranda do Corvo, a Mesa levou a votos uma alteração estatutária para admitir o voto electrónico (plataforma certificada da SIBS, até 5.800€) — o instrumento que viabilizaria repetir o acto eleitoral —, mas a proposta foi reprovada por 46 votos a favor, 21 contra e 2 abstenções, aquém dos três quartos exigidos para mexer nos estatutos. Na mesma sessão, a Mesa não autorizou a leitura de um documento «Informação aos Associados» apresentado por Diogo das Neves Simão, por entender que extravasava a ordem de trabalhos — mas o documento (sete páginas, subscrito pelos quatro cabeças de lista do «Movimento pelo Trail») ficou anexado à própria acta, e é hoje a exposição escrita da posição da lista vencedora sobre o pós-eleição: relata que a comunicação da vitória fora retirada do Facebook e do Instagram da associação, qualifica a não-investidura de «farsa montada», contesta a exigência de reconhecimento de assinatura nas procurações (que diz não imposta por lei nem pelos estatutos) e enquadra os dois processos judiciais então instaurados — a providência cautelar e a acção de investidura. É documento de parte, com imputações que este dossiê não adopta; regista-se por ser, agora, a voz da oposição que na sessão ficou por ler. [R317] Uma nova AG Eleitoral foi convocada para 12 de Abril de 2025, em Gondomar — e foi cancelada a 10 de Abril por não se ter apresentado nenhuma lista: a segunda eleição da crise ficou deserta. [A12; A14]
Em Maio de 2026, duas decisões do Tribunal Judicial da Comarca do Porto (Juízo Local Cível de Valongo) validaram a atuação da Mesa: procedimento cautelar (n.º 148/25.9T8LSA-A) e ação de investidura (n.º 148/25.9T8LSA) ambos improcedentes, sem ordem de tomada de posse. A Mesa anunciou novas eleições, marcadas para 12 de Julho de 2026, na Junta de Freguesia da Lomba (Gondomar) — no mesmo dia e local do Trail da Lomba, prova do circuito ATRP; a convocatória vai assinada «Pela Mesa da Assembleia Geral», sem assinatura nominal. [R297][R298][R413][A12]
A resposta pública da lista vencedora chegou a 1 de Julho de 2026, em comunicado na página do «Movimento pelo Trail»: a lista não reconhece legitimidade à convocatória de 25/6/2026 — que diz emitida sem assinatura nominal nem órgão legitimado, estando a presidente da Mesa e o Fiscal Único demitidos —, argumenta que não existe, no direito das associações, «anulação administrativa» de eleições (só a assembleia geral pode deliberar; só os tribunais podem anular), e revela que as duas decisões de Maio foram objecto de recurso, pendente no Tribunal da Relação do Porto — o da providência cautelar e o da ação de investidura. Anuncia ainda que qualquer deliberação de 12 de Julho será alvo de providência cautelar de suspensão, ação de anulação e pedido de responsabilização civil pessoal dos dirigentes. [R384] É um documento de parte, com imputações de má-fé que este dossiê não adopta nem verifica; vale como a posição formal de um dos lados do contencioso — e como garantia de que, seja qual for o resultado de 12 de Julho, a disputa continuará nos tribunais.
A resposta institucional da Mesa/Direção — antes inexistente em fonte citável — chegou depois do acto. Realizada a Assembleia Geral Eleitoral de 12 de Julho de 2026 e empossados os novos órgãos sociais, a Direção publicou a 20 de Julho de 2026 um «Esclarecimento Institucional» que é o contraponto directo ao comunicado da lista vencedora: identifica os dois processos pelos respectivos números — a cautelar 148/25.9T8LSA-A e a investidura 148/25.9T8LSA —, sustenta que apenas a decisão do procedimento cautelar foi levada à Relação do Porto, e já depois da tomada de posse, e sublinha que os próprios recorrentes pediram que o recurso tivesse efeito meramente devolutivo, e não suspensivo — ou seja, que nenhuma decisão judicial impedia a posse. Recorda ainda que a proposta de voto electrónico fora a votos e reprovada, pelo que a nova eleição decorreu pelo método presencial permitido pelos estatutos, sem lista concorrente. [R413] O mesmo comunicado dá um passo novo no conflito: a Direção declara ter reunido «mensagens de correio electrónico, textos, comentários, vídeos e outros conteúdos» difundidos nas redes sociais, anuncia estarem reunidos elementos para iniciar um procedimento interno de eventual exclusão de um ou mais associados — decisão que diz caber, em última instância, à Assembleia Geral — e para apresentar queixas judiciais sobre conteúdos que entende excederem os limites da liberdade de expressão. É, também ele, documento de parte: registam-se aqui o seu teor factual (números dos processos, efeito do recurso, realização da eleição e da posse) e a natureza das medidas anunciadas, sem que este dossiê — cujo autor é parte no litígio — arbitre o mérito das acusações de qualquer dos lados. [R413]
7.10 · A base que decide: milhares de sócios, centenas de votos
Há um traço estrutural que os dois actos eleitorais disputados da associação — 2020 e 2025 — tornam gritante: a desproporção entre a dimensão do corpo social e o número de quem efectivamente vota. Em 2025, dos 5.163 associados com direito a voto, votaram 462 — menos de 1 em cada 11 — e a lista vencedora foi eleita por 228, isto é, cerca de 1 em cada 23 dos que podiam votar, por uma margem de 5 votos (228–223). Em 2020, com um electorado de dimensão semelhante (~5.000 activos), tinham votado 508, e a lista de Pinho vencera com 285 (~1 em cada 18). Uma associação que comunica, na mesma época, milhares de associados activos decide a sua direcção, na prática, com pouco mais de quatro a cinco centenas de votos. [R407; R311; R294; R309; R301]
7.11 · Os órgãos sociais, mandato a mandato (2012–2026)
Para fixar a memória institucional, o quadro abaixo resume as direções e os órgãos de topo. Nomeiam-se apenas figuras em função; a composição integral das listas de 2020 e 2025 é pública. [R293; R309]
| Mandato | Direção | Mesa da AG · Fiscal Único |
|---|---|---|
| 2012 fundação | José Carlos Santos (presidente); João Mota (desde 2013), José Bomtempo, José Guimarães, Luís Matos Ferreira, Paulo Jorge | Miguel Portela Morais · Pedro Neiva Correia |
| 2014 reorganização (AG 4/4) | José Carlos Santos (presidente); Fernando Salvador, João Mota, Luís Freitas, Luís Matos Ferreira (saem Bomtempo, Guimarães e Paulo Jorge, por dispensa de cargo) | Miguel Portela Morais · Pedro Neiva Correia |
| 2015 Junho | João Colaço (presidente); Carlos Guerreiro Coelho, João Mota, Luís Matos Ferreira, Luís Subtil Barreiro | Domingos Armando Fernandes · Paulo Reis |
| 2016 | Rui Pinho (presidente); Filipa Vilar, Hélder Costa, José Cândido Ribeiro, Manuel Carapinha Correia | Ana Luísa Xavier Soares (com Mário Ferreira, secretário) · José Carlos Leal de Brito |
| 2020 reeleição | Rui Pinho (presidente); Diogo das Neves Simão, José Cândido Ribeiro, José Carlos Leal de Brito, Valérie Antunes dos Santos | Filipa Vilar (com Mário Ferreira, secretário) · Manuel Carapinha Correia |
| 2025 eleição sem posse | Lista de Rui Pinho («No Trilho Certo»: Pinho, Sara Brito, José Cândido Ribeiro, José Carlos Leal de Brito, Mário Ferreira) vs lista de Rui Pedras («Movimento pelo Trail»: Pedras, Orlando Duarte, Fátima Gonçalves, Diogo Marinho da Silva, Paulo Jorge Pereira) — Pedras vence (228–223) mas não toma posse (§7.9) | Mesas candidatas: Paulo Vilaverde Ribeiro / Valérie Santos (Pinho) · Diogo Simão / Pedro Sousa (Pedras); Fiscais: Aníbal Godinho · Hélder Costa. Mesa em exercício: Mário Ferreira |
Fontes: escritura de 2012 [A2]; convocatória da AG de 4/4/2014 e correspondência interna [A1; A9]; comunicado da transição de 2016 [A9]; comunicados e listas candidatas [R293, R309]. Nota de grafia: nas actas de 2016–2019 a presidente da Mesa assina «Ana Luisa Xavier»; o registo da FPA dá o nome completo «Ana Luísa Correia da Silva Xavier Soares». [R390; R221]
8) Três mundos, uma modalidade: o mapa federativo
Antes de contar a integração na FPA, é preciso o mapa — e o mapa é, em si, a primeira fonte de confusão, porque «correr em montanha» não tem, em Portugal, uma única tutela federada. Há, pelo menos, quatro entidades com legitimidade reclamada sobre partes deste território:
| Entidade | Natureza | O que tutela (correr/montanha) | Tutela internacional |
|---|---|---|---|
| FPA — Federação Portuguesa de Atletismo | Federação desportiva | Trail running (desde 2023) e corrida em montanha mountain running | World Athletics / WMRA [R324] |
| FCMP — Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal | Federação histórica | Skyrunning (KM Vertical, Skyrace, Skymarathon), desde finais de 2013 | ISF — Int. Skyrunning Federation [R319] |
| FPME — Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada | Federação (cisão da FCMP, 2002) | Alpinismo, escalada, canyoning, percursos — não corridas | UIAA [R321] |
| ATRP — Associação de Trail Running de Portugal | Associação sectorial (não federação) | Representa praticantes/organizadores; circuitos próprios; sem competência homologadora após 2023 | ITRA (associativa) [R221][R295] |
Três notas desfazem mal-entendidos comuns. Primeira: a FPME não tutela a corrida em montanha — fundada a 20 de Julho de 2002 como cisão da FCMP, dedica-se ao alpinismo, à escalada e ao canyoning; o eixo de sobreposição com a corrida não é com ela, mas entre a FCMP e a FPA. [R321; R322] Segunda: há duas «corridas de montanha» com duas casas — o skyrunning corre, desde que a FCMP aderiu à ISF no final de 2013, sob o montanhismo, com circuito e campeonato nacionais ainda activos (o calendário de 2025 inclui a Skyrace da Freita); o mountain running (WMRA/World Athletics) e o trail correm pelo atletismo. São dois mundos paralelos que partilham montanhas, atletas e, por vezes, as mesmas serras. [R318; R319; R320; R324; R325] Terceira: a ATRP não é uma federação — é uma associação, e figura como associado extraordinário da FPA. [R221]
A razão por que esta fragmentação importa está na lei: o Estatuto de Utilidade Pública Desportiva, atribuído pelo IPDJ, confere a uma federação, por períodos de quatro anos, o exercício exclusivo de poderes públicos por modalidade. [R326] Se a exclusividade é por modalidade, a existência de duas corridas de montanha em duas federações diferentes é, no mínimo, uma tensão jurídica latente.
Que o montanhismo federado não é pacífico, há disso registo — embora fora do terreno da corrida. Em Abril de 2019, a propósito de uma Taça da Europa de Escalada de Bloco em Soure, a FCMP acusou publicamente a FPME de «uma ilegalidade e uma usurpação das competências da FCMP», classificando a própria designação «Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada» como «título enganador e ilegal» e referindo acção judicial. Importa o aviso: este conflito é sobre escalada, não sobre corrida em montanha — serve apenas para mostrar que o montanhismo federado português está dividido e, por vezes, em litígio. [R323]
9) A normalização federativa (2014–2023) — e porque foi disputada
Maio de 2014 — o início cordial. A FPA aprovou em AG a integração da ATRP como associado extraordinário (as fontes institucionais situam a admissão a 3 de Maio de 2014, data forte a confirmar em documento primário); a federação convidou-a a «iniciar uma relação». A delegação que foi a Linda-a-Velha: José Carlos Santos, João Mota e Luís Matos Ferreira. [A10; R220; R221] Já então, o presidente José Carlos Santos via na aproximação à FPA uma forma de a modalidade ganhar «capacidade legal» e «maior reconhecimento» — a normalização federativa foi, na origem, uma escolha da própria associação, não uma imposição. [R220]
Outubro de 2014 — a doutrina por escrito. A exposição mais completa dessa estratégia está numa circular aos organizadores e ao Conselho Consultivo (6/10/2014), assinada por José Carlos Santos: «a regulação do Trail por parte da FPA era uma inevitabilidade, com uma única variável que era o momento da sua ocorrência» — e, «enquanto vice presidente da ITRA», previa o reconhecimento internacional da modalidade pela IAAF «com elevada dose de probabilidade» em 2015. A antecipação era deliberada: integrar cedo para «desempenhar em tempo útil, um papel ativo e influenciador». A circular detalha a proposta levada à 1.ª AG da FPA de 13/9/2014 para o processo de autorização de eventos (de 1/1/2015): regulamento no modelo ATRP, requerimento-síntese com ficha técnica, plano de segurança e seguro — e a arquitectura de competências: «a avaliação deve numa 1ª fase ser feita pela ATRP, que é quem conhece a modalidade, e em seguida a autorização formal […] deve ser dada pela Associação Regional respetiva». Batia-se ainda contra as taxas de homologação díspares («nalguns casos mais de 2 centenas de euros»), defendendo taxas uniformes e «o mais reduzido possível». [A15] Lido de 2026: o modelo ATRP avalia, a associação regional autoriza é, no essencial, a arquitectura que 2023 institucionalizou — com a ATRP, que se propunha avaliador de primeira linha, reduzida ao parecer técnico (§9.1); e a luta contra as taxas antecipa em dez anos o debate sobre o custo de correr (§9.2).
2023/2024 — a integração plena. A partir de 1 de Novembro de 2023, a participação nos Circuitos e Campeonatos nacionais passou a exigir filiação na FPA; aos associados da ATRP foi dado desconto de 100% na quota da associação na época de transição, e as equipas não federadas foram admitidas a título excepcional durante um período transitório. A ATRP deixou de ser a entidade que regula a modalidade para passar a representar organizadores e praticantes dentro da estrutura federativa, emitindo pareceres técnicos mas sem competência para aprovar regulamentos oficiais — função delegada nas associações distritais. [R222][R295]
9.1 · O que mudou, na prática: atletas, clubes e organizadores
A integração não foi só um rearranjo de organogramas — mudou o quotidiano de quem corre, de quem se associa em equipa e de quem organiza provas. Vale a pena separar os três planos, porque a mudança foi diferente em cada um e a discussão pública tende a confundi-los:
| Quem | Antes (ATRP autónoma) | Depois (integração na FPA, desde 2023/24) |
|---|---|---|
| Atletas | Sócio da ATRP, inscrição no MyATRP, quota associativa | Filiação na FPA obrigatória para Circuitos e Campeonatos nacionais e regionais (na ordem dos 25€/ano em 2024/25); desde 2025/26, licença para não-federados em provas pagas — «filiação por um dia» (~3€/prova, com seguro) ou anual desde ~31€; exame médico e seguro exigidos; a filiação migra do MyATRP para a plataforma da FPA (o MyATRP mantém o calendário e as classificações dos circuitos — §9.3) |
| Clubes / equipas | Equipas inscritas pela via ATRP | Para pontuar como equipa, o clube tem de estar filiado na FPA; equipas não federadas admitidas só num período transitório excepcional; grupos sem registo formal tendem a aparecer como «Individual» nas classificações |
| Organizadores | Certificação de provas pela ATRP (logótipo, calendário no MyATRP) | Homologação dos regulamentos pelas Associações Distritais, por delegação da FPA; a ATRP passa a emitir apenas pareceres técnicos; sem pagamento da taxa de homologação no prazo, a prova fica fora do calendário oficial e os resultados deixam de contar para rankings |
Fontes: R222 (integração e regime transitório); R295 (repartição de competências e «Individual»); R306, R307 (filiação, custos e licença do atleta); R308 (homologação pelas distritais e efeitos da taxa).
9.2 · Porque foi disputado
Uma associação criada, em parte, para regular a modalidade — a palavra regulamentação está no seu objecto social e o seu CAE diz «organismos reguladores» (§2.1) — viu transferir-se para a federação precisamente a competência que estava no seu próprio nome. É a tensão fundadora, e o combustível do conflito.
A fricção tornou-se pública em Março de 2023, quando uma petição — cerca de um milhar de assinaturas, sob o lema «Por um trail de todos e para todos!» — denunciou que a delegação de competências da FPA na ATRP «ainda não [tinha] sido reduzida a escrito», o que «coloca em risco a existência da ATRP», e pediu o fim da dupla filiação: o praticante via-se a pagar e a filiar-se duas vezes, e os organizadores a navegar dois quadros regulamentares. [R228; documento de parte, tratado como tal.]
Não foi só a comunidade a resistir: mesmo já integrada, a ATRP não acompanhou a federação sem reservas. Na Assembleia Geral Ordinária de 5 de Abril de 2024 — a mesma acta que regista ~5.100 sócios e 211 provas homologadas em 2023 —, ao discutir a articulação com a FPA «nomeadamente quanto à defesa da autonomia do Trail Running e à eventual aplicação de uma taxa federativa», a própria direcção fez constar a sua «posição crítica quanto à aplicação genérica de medidas sem considerar a especificidade da modalidade». O atrito com a federação não foi só externo: atravessou a própria mesa da associação. [R315] Em 2025, a criação pela FPA da licença obrigatória para não-federados reacendeu o debate sobre o custo de correr. [R306; R307]
9.3 · E os circuitos? O modelo em prática (2025–2026)
A pergunta natural, depois deste arco, é prosaica: quem trata agora dos circuitos — e vão eles acabar? Nos documentos públicos da FPA não se encontra qualquer proposta estratégica para os circuitos de trail; a página institucional da federação sobre a ATRP é uma entrada de directório mínima — e desactualizada: em Julho de 2026 listava ainda os órgãos sociais eleitos em 2016. [R221; verificação de 3/7/2026] Mas a ausência de documento não significa ausência de modelo: o modelo lê-se na prática da época 2025/26, e tem três camadas.
Primeira: os Circuitos Nacionais continuam — e continuam na ATRP. A plataforma MyATRP tem em curso os circuitos de 2026 — Trail, Trail Ultra, Ultra Endurance, Ultra Endurance XL, Sprint, Circuito Jovem e Taça de Portugal —, com mais de uma centena de provas calendarizadas entre Outubro de 2025 e Setembro de 2026. [R387] E, ao contrário do que por vezes se diz, o MyATRP não desapareceu com a integração: a filiação migrou para a plataforma da FPA, mas o calendário e as classificações dos circuitos continuam na plataforma da associação. [R387; cf. R295]
Segunda: os Campeonatos Nacionais passaram para o calendário — e para a marca — da federação. O Projeto de Calendário de Competições da FPA para 2025/26 integra todos os campeonatos nacionais de trail — Ultra Endurance em Dezembro de 2025, Trail em Janeiro/Fevereiro, Ultra em Março/Abril, Endurance XL de Outubro a Junho, Jovem e Sprint em Setembro —, com locais «a designar». [R386] O regulamento do primeiro deles — o Campeonato Nacional de Trail Ultra Endurance, integrado no Proença Cross Trail (Proença-a-Nova, 20 de Dezembro de 2025; 99,6 km, 3.661 m D+) — é um documento com a marca da FPA que revela a arquitectura em pormenor: prova coorganizada pela FPA, pela ATRP e pela Associação de Atletismo de Castelo Branco (mais câmara municipal e promotores locais); participação exclusiva de atletas filiados na FPA; e a existência de um Técnico Nacional do Setor de Trail da federação (Ricardo Esteves). [R385]
Terceira — e a mais estrutural: a pirâmide distrital começou a funcionar. O apuramento para os Campeonatos Nacionais e para a Taça de Portugal faz-se por três vias: o ranking ATRP, o ranking ITRA — e a classificação nos Campeonatos Regionais de Trail das Associações Distritais de Atletismo (até 10% dos melhores classificados, com máximo de 10 atletas por género, segundo critérios definidos pela FPA e pela ATRP). A Associação de Atletismo de Braga, por exemplo, publicou em 2026 os seus apurados a partir dos Campeonatos Regionais de Trail Curto e Trail Longo. [R385; R388] É a lógica clássica do atletismo federado — o distrital a alimentar o nacional — a instalar-se, camada a camada, num território que era, há uma década, exclusivo dos circuitos da ATRP.
10) Epílogo — o que esta história deixa em aberto
Entre 2012 e 2026, a ATRP cresceu de um punhado de fundadores para quase 6.000 associados activos (eram cerca de 900 no final do primeiro ano), com o orçamento anual a passar de 30 mil para perto de 150 mil euros e 181 eventos certificados e mais de 37 mil atletas classificados só em 2024 — tudo gerido sem um único funcionário. Ao longo desse percurso, foi conseguindo o que se propusera no início: dar ao trail português representação, regras e seguro — e o seguro, que era o vazio de 2012, é hoje a sua maior despesa estrutural não-logística. [R299] Mas o mesmo crescimento acabou por a transformar: a função reguladora migrou para a FPA, a filiação migrou para a plataforma da federação (o MyATRP mantém, à data, o calendário e as classificações dos circuitos — §9.3), e a direção executiva, vacante durante toda a crise, foi finalmente preenchida na Assembleia Geral Eleitoral de 12 de Julho de 2026, com posse dos novos órgãos anunciada pela Direção a 20 de Julho — ainda que a lista vencedora de 2025 mantenha o contencioso judicial em aberto. [R413; R384] As duas tensões fundadoras — entre a ambição do desenho e a exaustão da execução, e entre a associação e os clubes que nunca aceitaram inteiramente a sua representação — continuam vivas. Esta é uma história institucional escrita de uma posição de proximidade, com as fontes que essa posição deu e o viés que ela impõe. Fica, declaradamente, por fazer a outra — a que só alguém de fora poderá escrever.
- Declarar a parcialidade — o autor é parte; o aviso de proximidade não é protocolar, é estruturante.
- Não personalizar — o problema é tratado como institucional (competências, estatutos, exclusividade legal), não como carácter de indivíduos.
- Usar fontes formais — estatutos, actas, decisões judiciais, comunicados datados, imprensa — de preferência à memória.
- Presunção de boa-fé — discordância não é má-fé; sobreposição de competências não é conspiração.
- Distinguir conflito de coexistência — a sobreposição de jurisdições é comum em desportos emergentes; nem toda a fricção é crise.
- Termos finais dos contratos de patrocínio (Prozis e posteriores) — a documentação interna dá a proposta de 2015, não o contrato.
- Extensão total da contestação de 2015 — identificada a origem (circuitos / O Mundo da Corrida), falta o conjunto dos contestatários e o desfecho.
- Conjunto dos demissionários de 2025 (documentados: o Fiscal Único [R313] e Filipa Vilar — por indício documental [A12], corroborado por confirmação de parte [R384]). A reação pública da lista vencedora, antes inexistente em fonte citável, está agora documentada: o comunicado de 1/7/2026. [R384]
- O documento «Informação aos Associados» que a Mesa não deixou ler em Março de 2025 — recuperado: ficou anexo à Acta n.º 19 e é citado na §7. [R317]
- Fricção FCMP (skyrunning) ↔ FPA (trail) sobre a corrida em montanha — estruturalmente provável, documentalmente ausente; lista nominal do IPDJ de modalidades por federação por obter.
- Datas menores por fixar — saída de Pedro Neiva Correia (Fiscal Único fundador); acta da AGE de Janeiro de 2025. (A mudança de sede ficou fechada na v5: aprovada na AG de 2/7/2016. [R390])
- Ato eleitoral de 12/7/2026 — realizado; a Direção anuncia a posse dos novos órgãos sociais (comunicado de 20/7/2026) [R413], enquanto a lista vencedora de 2025 mantém o contencioso e anunciara que contestaria judicialmente qualquer deliberação [R384]. Ficam por fixar a composição nominal dos órgãos empossados e o desfecho do recurso na Relação do Porto.
- Documento estratégico da FPA para o trail — não existe, ou não é público: o modelo de 2025/26 lê-se apenas pela prática (§9.3); por obter qualquer plano formal da federação para o futuro dos circuitos — e o destino do ranking ATRP dentro dele.
- Buracos da série documental da era Pinho — as actas n.º 10, 12 e 13 (AG de 2019 e AGs de 2021, incluindo a tomada de posse pós-eleição de 2020) não estão publicadas no site; a série anual de provas certificadas 2017–2021 só tem quatro pontos (16 → 177 → 211 → 181). [R310]
- Reconciliação financeira 2016–2019 — as DRE primárias das apresentações de AG divergem dos gráficos do Relatório de 2024 (ver secção 6, «A dupla série»).
- Figuras e entidades por esclarecer — o enquadramento estatutário da função de apresentação de contas (2017–2025, «Diretor Financeiro» em 2024), não reconstituível a partir dos documentos públicos; a «comissão instaladora da Associação Portuguesa de Organizadores de Eventos Desportivos» (Jun/2020); termos dos patrocínios GoldNutrition (2020) e Lusosport (2022).
LMF,
ResponderEliminarGostei muito desta série. Estrutura e conteúdo que se percebe bem os primeiros anos da vida da ATRP.
Pessoalmente, acompanhei alguma da realidade da direção Fundadora contada por ti ao longo das nossas conversas nos treinos.
Lembro-me muito bem das tardes de reuniões no Alecrim.
Reitero. Belo registo que aqui deixaste.
Rui Faria