A ATRP por dentro: história institucional completa (2012–2026)

História institucional completa da ATRP (Associação de Trail Running de Portugal), 2012–2026: o trabalho, as vicissitudes, as conquistas e as polémica

Post da série História do Trail Running em Portugal: história institucional completa da ATRP (2012–2026) — o trabalho, as vicissitudes, as conquistas e as polémicas, com base em documentação interna e em fontes públicas. Parcialidade do autor declarada.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 43

A ATRP por dentro: história institucional completa (2012–2026)

Da escritura de 2012 à crise eleitoral nos tribunais: o trabalho, as vicissitudes, as conquistas e as polémicas de uma associação que nasceu de um vazio — com base em documentação interna e em fontes públicas.

📍 Portugal 📅 2012–2026 📚 Dossiê 43 · Estruturas e instituições ✍️ Luís Matos Ferreira
Estado editorial. História institucional, com base documental interna e em fontes públicas, lacunas declaradas. Proximidade: o autor é cofundador da ATRP e integrou os seus órgãos sociais. Onde a fonte é interna, usam-se factos reescritos e nomeiam-se apenas figuras públicas em função; episódios pessoais de quem não é figura pública são omitidos.
2012
Escritura
de constituição (14/9)
22
Provas no
circuito (2015)
2015
Annecy · estreia
da Selecção
2023
Integração
na FPA
2025
Eleição
sem posse
Série · História do Trail Running em Portugal Este post integra a série que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal: Uma História de Montanha, Resistência e Comunidade». É uma peça independente e mais detalhada que os companheiros Dossiê 19 — Génese da ATRP e Dossiê 20 — Conflitos ATRP / FPA / FPME, que se mantêm. Ver também o Dossiê 05 — Mundiais e Selecção.

A ATRP foi, em simultâneo, uma ideia e um trabalho de formiga. A ideia — dar ao trail português representação, regras e seguro — foi desenhada com ambição internacional desde o primeiro dia. O trabalho — emitir cartões, corrigir classificações, montar circuitos, gerir conflitos — recaiu, ano após ano, sobre meia dúzia de voluntários.

Declaração de interesses

Quem escreve é cofundador da ATRP, integrou a direcção fundadora (2012) e voltou a servir nos órgãos sociais (2015). Essa posição dá acesso a documentação interna e a contexto que uma história externa não teve — e impõe a parcialidade de quem foi parte.

Regras: (1) factos reescritos a partir da documentação interna, nunca documentos reproduzidos; (2) nomes só de figuras públicas em função — episódios pessoais de quem não é figura pública são omitidos; (3) contraditório nos pontos de parte; (4) incerteza declarada. Uma história independente e crítica da ATRP continua por fazer; este dossiê é uma história institucional documentada, oferecido como matéria-prima para ela. [R230; Dossiês 19 e 20.]

1) O vazio que a associação veio ocupar (até 2012)

Quando a ATRP nasceu, o trail running português já não era marginal: a Ultra Trail Serra da Freita corria-se desde 2006, o MIUT e a Geira Romana desde 2008. O que não existia era uma entidade que representasse a modalidade como tal. No plano federativo, a corrida em montanha cabia ambiguamente entre o montanhismo (FPME) e o atletismo (FPA); o trail moderno crescia sobretudo fora dessas estruturas — em clubes de montanha, confrarias e grupos de amigos —, sem quadro comum de distâncias, sem regulamentação partilhada e, sobretudo, sem seguro desportivo. [R230; Dossiê 19 §1.] É este o vazio que um pequeno grupo de atletas decidiu ocupar em 2012. Não inventaram o trail português — deram-lhe voz, regras e cobertura.

2) A fundação e o desenho de um sistema (2012)

2.1 · A escritura e os órgãos

A génese tem datas precisas, documentadas no arquivo interno da associação. [A1]

22 Ago 2012 — circula um esboço de estatutos, baseado no exemplo de uma associação de rugby (desporto que pelo menos um dos fundadores, Pedro Neiva Correia, mais tarde Fiscal Único, praticara). A associação do trail começou a partir dos estatutos de outro desporto.
7 Set 2012 — reunião decisiva em Lisboa (escritórios de José Bomtempo). Em cima da mesa, desde logo: órgãos sociais, estatutos, calendário de 2013, site, registo e filiação na FPA.
14 Set 2012 — escritura pública de constituição: «ATRP — Associação de Trail Running de Portugal». [A2]
~3 Nov 2012 — lançamento público e do site atrp.pt (o aniversário que a associação celebraria).

Há, portanto, duas datas legítimas que a imprensa confunde: a constituição legal (14/9/2012) e o lançamento público (~3/11/2012). [A1; corrige R220.] A direcção fundadora eram cinco atletas — José Bomtempo, José Guimarães, José Carlos Santos (presidente), Luís Matos Ferreira (autor) e Paulo Jorge —, a que se juntou, em 2013, João Mota; a escritura designou Miguel Portela Morais para a Mesa da AG e Pedro Neiva Correia para Fiscal Único. [A2] José Carlos Santos, praticante de trail desde 1995 e com o UTMB no currículo, seria em 2013 membro fundador da ITRA; e a documentação interna mostra que, já em 2012, a ambição de Portugal disputar Campeonatos da Europa e do Mundo em 2014 estava traçada. A ambição internacional estava no código genético. [R312; A1]

2.2 · A arquitetura intelectual

Em paralelo com a papelada, o núcleo fundador desenhou um sistema — e discutiu-o com um Conselho Consultivo. Entre Setembro e Outubro de 2012, a documentação interna mostra em construção uma categorização de provas por dificuldade (um «selo» por letras, combinando distância e desnível), um regulamento «tipo» com ficha técnica obrigatória, um sistema de pontuação e a adoção do Observatório da Corrida como ranking externo. [A1] Estas categorias de distância — trail curto, longo, ultra médio/longo/XL — tornaram-se a referência da modalidade em Portugal, citadas anos depois em trabalho académico. [R296] Nasceram em 2012.

2.3 · A engenharia de poder (com contraditório)

Os estatutos consagraram uma opção deliberada: dar aos clubes e associações filiados apenas um voto cada (não proporcional ao número de atletas). O receio era concreto — que a associação morresse à nascença: no ano anterior, os próprios organizadores de trail tinham reunido para tentar criar uma estrutura e não chegaram a consenso, provavelmente por haver demasiados interesses instalados. Um princípio basilar da fundação foi, por isso, a equidistância face aos organizadores de provas — e a regra do voto único servia para impedir que esse tipo de entidades assumisse o controlo da associação. Perante queixas de dirigentes — entre eles Pedro Igor (Desnível Positivo) e João Carlos Correia (Portalegre, futuro organizador do UT São Mamede) —, a direcção propôs compensações sem mexer na representatividade. [A1]

Leitura, com contraditório. Esta é, na documentação interna, a tensão fundadora entre a ATRP e os clubes — uma engenharia de poder consciente. Mas é a visão de uma das partes: a direcção que quer proteger o projeto de ser «capturado». Do outro lado, dirigentes que viam uma associação a atribuir-se a representação da modalidade enquanto limitava o peso de quem já organizava provas. A fratura — quem representa o trail, e com que legitimidade — atravessa toda a história que se segue. [A1; Dossiês 19 e 20.]

A primeira apresentação pública do regulamento ATRP fez-se em casa alheia: nas Jornadas Técnicas do IV Trail de Conímbriga–Terras de Sicó, a convite de Eduardo Santos (O Mundo da Corrida) — dos primeiros a adotar o regulamento e, três anos depois, o organizador com quem a ATRP mais se atritaria. Carlos Sá comentou o regulamento. [A1; Dossiês 10/19.]

3) O tipo de trabalho: o sistema artesanal (2013–2015)

A ideia era global; a execução era de cozinha. A 1.ª prova do 1.º Circuito Nacional de Trail foi o Cross da Laminha, com classificações em Janeiro de 2013 — e foi baptismo de fogo: houve falhas de cronometragem e a classificação teve de ser refeita à pressa. [A1][A5]

O documento mais revelador do período é prosaico: um «Guia para atualização de Cartões». [A3] Descreve o fluxo de sócios — formulário Google → Excel → atribuição manual do número de associado → tabela do seguro → emissão dos cartões (PDFs, um a um) → envio do recibo. Era assim que se filiavam centenas, depois milhares, de pessoas: à mão. Foi para superar este modelo que, por iniciativa do director João Mota, a associação encomendou a plataforma MyATRP — o primeiro passo para automatizar inscrições e classificações. [A3]

Porque importa. Este guia é a prova material de um argumento que percorre toda a história: a gestão era artesanal e dependente de pouquíssimas pessoas. É o contraponto à elegância do sistema — e a raiz do que, anos depois, todas as candidaturas prometeriam resolver: a «automatização das inscrições e classificações». [A3; Dossiê 28.]

4) Os Circuitos Nacionais: desenho e fricção (2014–2016)

4.1 · O desenho de 2015: três escalões e a regra dos «finishers»

Em Outubro de 2014, a direcção fechou a «versão final» dos Circuitos Nacionais de 2015, a divulgar a 15 de Outubro: três circuitos por dureza — Trail (10 provas), Ultra (8) e Ultra Endurance (4). [A11] A discussão mais substantiva revela um problema estrutural: havendo poucos finishers nos circuitos, fixou-se um número mínimo de provas para ser finisher e um máximo que conta para a classificação. [A11]

A decisão foi colegial e iterativa: à proposta inicial do presidente (que admitia, no circuito mais duro, uma só prova para ser finisher), João Mota opôs-se, defendendo que finalizar uma única prova não bastava, e sugerindo tratar o Ultra Endurance como circuito «Élite» (duas provas para finisher, três para classificação). A objeção venceu: a proposta foi revista, com a nota de a submeter ao Conselho Consultivo. [A11] É um exemplo de como o sistema se afinou por deliberação, não por decreto. Ficou ainda registado que o Douro Ultra Trail (de João Marinho) não integrou o circuito mais duro de 2015 por não ter garantido data nem evento a tempo. [A11]

4.2 · A reestruturação de 2016 e o atrito com os organizadores

No segundo semestre de 2015, a direcção desenhou os Circuitos de 2016, consolidando um circuito «Endurance» que, na proposta de Agosto, reuniria MIUT, Estrela Grande Trail, Freita e UTAX. O atrito veio da reclassificação: o Sicó e o S. Mamede foram retirados do circuito longo e convidados a entrar no de Trail «com a prova pequena», por critério de perfil (o Sicó, prova rolante, sem lugar no Endurance). [A7]

  • O Sicó rejeitou o convite.
  • O S. Mamede — de Eduardo Santos / O Mundo da Corrida — foi o caso de maior atrito com a direcção.

Reencontramos aqui o mesmo Eduardo Santos que, em 2012, acolhera a primeira apresentação do regulamento ATRP. O parceiro da estreia tornara-se o contraditor — sinal de que a fratura fundadora (quem decide o que conta como prova nacional) continuava ao rubro. [A7; Dossiê 20.]

5) As conquistas (2015–2019)

5.1 · A direcção de João Colaço (2015)

Em meados de 2015, a presidência passou de José Carlos Santos para João Colaço (lista «Em nome do Trail!», posse a 2 de Junho de 2015). [A4][A6] A documentação interna do segundo semestre revela uma governação em dois anéis: um plenário alargado, com todos os órgãos, e um núcleo executivo restrito, só com os cinco directores, para as decisões executivas. [A7] A 1.ª reunião da direcção Colaço (5 Jul 2015), documentada por ata, mostra uma direcção a tentar profissionalizar-se: uma checklist para o representante da ATRP nas provas, um KIT ATRP (fitas, faixas, pódio), divisão de pelouros — e a admissão de que era impraticável ter um dirigente em cada prova, dada a extensão dos circuitos (22 provas). [A3]

5.2 · A Selecção Nacional e os Mundiais

A estrutura de 2015 levou Portugal, pela primeira vez, a um Campeonato do Mundo de Trail — em Annecy (França), Maio de 2015. O director João Mota documentou-o publicamente no seu blogue: a primeira Selecção Nacional teve oito atletas (quatro femininos, quatro masculinos), apurados pelo sistema da ATRP por delegação da FPA, com estágio no Vale do Rossim (Serra da Estrela). [R316; Dossiê 05] O seleccionador nacional foi o primeiro presidente, José Carlos Santos — função que manteria vários anos —, com uma equipa técnica que incluiu Pedro Amorim (médico) e Luís Matos Ferreira. Foi o primeiro de um ciclo: Mundiais na Peneda-Gerês (2016) e em Miranda do Corvo (2019) — onde a ATRP tem hoje a sede e de onde saiu o melhor resultado de sempre de um português, o 10.º lugar de Hélio Fumo. [R302]

5.3 · O patrocínio Prozis e os prémios dos circuitos

O patrocínio mais visível teve nome próprio: Prozis, principal patrocinadora entre 2015 e Janeiro de 2020. [R303] A documentação interna data a sua origem em Julho de 2015 (proposta em cinco áreas, levada à direcção por João Colaço) e mostra que o canal nasceu da proximidade ao núcleo fundador — uma ligação que vinha de dentro da rede da associação, e não de um contacto comercial frio. [A8] É um facto editorialmente relevante e, ao mesmo tempo, uma rede de fornecedores próximos a assinalar com transparência.

Nota de cautela. A documentação interna guarda a proposta (Jul 2015), não o contrato final (valor e duração não constam). A Prozis chegou a dar nome aos «Campeonatos Nacionais Prozis» (2017) e, quando saiu (29 Jan 2020), a própria ATRP creditou-lhe o financiamento das quatro participações da Selecção em Mundiais. [A8; R303]

Para lá do patrocinador principal, a operação dos circuitos assentava em parcerias pontuais para prémios, documentadas publicamente pelo director responsável: nos prémios de 2015, hoodies de finisher da Tugawear, troféus desenhados nos Açores e financiados pela Martipereira, e vales Prozis. [R316] É o reverso concreto do «sistema elegante»: arranjar, prova a prova, quem pague os troféus. A ATRP associou-se ainda a infra-estruturas permanentes — os Centros de Trail —, como o Centro de Estágio de Vila Nova (Lousã) e o Centro de Trail by Carlos Sá (Penacova), documentados em 2015 no mesmo blogue. [R316]

6) As polémicas e o desgaste (2015–2026)

6.1 · A contestação e o princípio da imparcialidade

A documentação interna dá, no final de 2015, dois sinais explícitos: a sobrecarga de quem mais trabalhava e a contestação crescente às decisões da direcção. [A7] Os dois encaixam: a reestruturação dos circuitos de Agosto (§4) gerou a contestação a que a direcção respondia em Novembro.

Esta contestação tem também registo público, na voz de um director. Ao deixar o cargo, em Março de 2016, João Mota publicou no seu blogue o texto «ATRP — Um Orgulho Imenso», em que defende o princípio que, do ponto de vista da direcção, justificava a sua independência — os dirigentes eram atletas sem ligação a entidades organizadoras, o que garantia imparcialidade — e critica o uso, pelo sector comercial, de crítica infundada nas redes sociais para influenciar atletas, notando o contraste entre a hostilidade online e a cordialidade presencial. [R316]

Leitura, com cautela. Estes são testemunhos de parte — a direcção sob fogo, a defender as suas decisões. Não nomeiam todos os contestatários nem estabelecem quem tinha razão. Valem como a primeira documentação, interna e pública, de que uma direcção da ATRP enfrentava contestação significativa às suas decisões de calendário — matéria que o Dossiê 20 desenvolve. [A7; R316; Dossiê 20.]

6.2 · A transição de 2016

A direcção Colaço documentada estende-se, na documentação interna, até Dezembro de 2015; a transição faz-se no início de 2016, com a Assembleia Geral Ordinária de 26 de Fevereiro de 2016 e o ato eleitoral de 2–14 de Março (lista única), que conduz à direcção de Rui Pinho. [A9] Ficou um detalhe que é, ele próprio, história: o associado Orlando Duarte pediu para não marcar a assembleia em cima de um ultra-trail — exatamente a preocupação que o mesmo Orlando Duarte levantaria publicamente dez anos depois, em 2026, sobre a AG Eleitoral marcada para o dia do Trail da Lomba. A vida associativa da ATRP tem memória longa e personagens recorrentes. [A9; Dossiê 20.]

6.3 · A eleição que não teve posse (2025)

A liderança de Rui Pinho estendeu-se por quase uma década (2016–2025) — uma entrega que ele próprio descreveu como «quatro anos intensos de trabalho, muito de formiga», mas também uma liderança combativa, que na campanha de 2020 classificou as listas rivais como movidas «essencialmente [pelos] próprios interesses». [R310] A reeleição de 28 de Dezembro de 2020 (56,10%) disputou-se entre três listas — sinal de uma associação longe do consenso. [R293]

A AG Eleitoral de 8 de Fevereiro de 2025, no Jamor, opôs «No Trilho Certo» (Rui Pinho) e «Movimento pelo Trail» (Rui Pedras). De 5.163 inscritos votaram 462 (8,9%); a lista de Pedras venceu por 228 contra 223, com posse prevista para 17 de Fevereiro. [R294][R309] Mas a Mesa da AG — presidida em exercício pelo Eng.º Mário Ferreira — invocou irregularidades no voto por procuração (admitido até duas por associado), não deu posse aos eleitos e decidiu reapreciar o ato, fundamentando-o em «forte indício de nulidade do ato de reconhecimento» das procurações. [R311][R300] Seguiram-se demissões — uma pública, a do Fiscal Único (Março de 2025). [R313] Em Maio de 2026, duas decisões do Tribunal Judicial da Comarca do Porto (Valongo) validaram a atuação da Mesa: procedimento cautelar e ação de investidura ambos improcedentes, sem ordem de tomada de posse. A Mesa anunciou novas eleições, para 12 de Julho de 2026 (Trail da Lomba). [R297][R298; Dossiê 20.]

Duas leituras, com a cautela devida. A disputa foi, em parte, uma cisão de dentro: Diogo das Neves Simão, eleito com Rui Pinho em 2020 mas demissionário em Março de 2023, reapareceu em 2025 a encabeçar a Mesa na lista de Rui Pedras; e o primeiro protesto, no dia da votação, partiu da própria lista vencedora. Há ainda uma sobreposição que exige exame: o presidente em exercício da Mesa que conduziu a não-investidura era também candidato a director na lista de Rui Pinho. Os tribunais julgaram a atuação da Mesa conforme; se essa sobreposição constituiu conflito de interesses material é juízo que o autor, por ser parte, não faz — desenvolve-se no Dossiê 20. [R293, R309, R311, R298, R314.]

7) A normalização federativa (2014–2023)

Maio de 2014 — o início cordial. A FPA aprovou em AG a integração da ATRP como associado extraordinário; a federação convidou-a a «iniciar uma relação». A delegação que foi a Linda-a-Velha: José Carlos Santos, João Mota e Luís Matos Ferreira. [A10; R220]

2023/2024 — a integração plena. A partir de 1 de Novembro de 2023, a participação nos Circuitos e Campeonatos nacionais passou a exigir filiação na FPA. A ATRP deixou de ser a entidade que regula a modalidade para passar a representar organizadores e praticantes dentro da estrutura federativa, emitindo pareceres técnicos mas sem competência para aprovar regulamentos oficiais — função delegada nas associações distritais. [R222][R295]

O arco completo. A documentação interna ancora as duas pontas do mesmo arco: o registo cordial de Maio de 2014 (a entrada) e a integração de 2023 (a absorção). Entre os dois, a tensão sobre a taxa federativa, a dupla filiação e a delegação «não reduzida a escrito» — tratada no Dossiê 20. A ATRP ajudou a institucionalizar a modalidade e, ao fazê-lo, viu-se esvaziar da função que a fizera nascer: regular. [A10; R221, R222, R228.]

8) Epílogo — o que esta história deixa em aberto

Entre 2012 e 2026, a ATRP cresceu de um punhado de fundadores para milhares de associados e centenas de provas por ano — e, ao longo desse percurso, foi conseguindo o que se propusera no início: dar ao trail português representação, regras e seguro. Mas o mesmo crescimento acabou por a transformar: a função reguladora migrou para a FPA, a plataforma MyATRP deu lugar à da federação, e a direção executiva está, à data, por preencher, à espera de um ato eleitoral repetido. As duas tensões fundadoras — entre a ambição do desenho e a exaustão da execução, e entre a associação e os clubes que nunca aceitaram inteiramente a sua representação — continuam vivas. Esta é uma história institucional escrita de uma posição de proximidade, com as fontes que essa posição deu e o viés que ela impõe. Fica, declaradamente, por fazer a outra — a que só alguém de fora poderá escrever.

Lacunas em aberto
  • Termos finais dos contratos de patrocínio (Prozis e posteriores) — a documentação interna dá a proposta de 2015, não o contrato.
  • Composição da 1.ª direção de Rui Pinho (2016) — por documentar em fonte primária.
  • Extensão total da contestação de 2015 — identificada a origem (circuitos / O Mundo da Corrida), falta o conjunto dos contestatários e o desfecho.
  • Conjunto dos demissionários de 2025 e qualquer reação pública da lista vencedora de Rui Pedras.
  • Resultado do novo ato eleitoral de 12/7/2026 — em aberto à data.
Referências — fontes públicas [Rn]
[R220] Público (29/05/2014) · [R221] FPA — ATRP associado extraordinário · [R222] FPA — filiações FPA/ATRP (2023) · [R228] Petição Pública — delegação de competências (2023) · [R230] Artigo-base da série (testemunho do autor)
[R293] Pro Runners — reeleição de Rui Pinho (2020) · [R294] Trail-Running.pt — Rui Pedras sucede a Rui Pinho (2025) · [R295] FAQ FPA/ATRP — repartição de competências · [R296] Joana Rosado — «The Portuguese Trail Runner» (FADEUP, 2020)
[R297] ATRP — Tribunal confirma atuação da Mesa (Mai 2026) · [R298] ATRP — Tribunal confirma a Mesa / rejeita cautelar (5 Mai 2026) · [R299] ATRP — Relatório de Atividades 2024 · [R300] ATRP — Convocatória AG Eleitoral (2025)
[R302] Dossiê 05 da série · [R303] Prozis/ATRP — parceria (2017–2020) · [R309] ATRP — listas candidatas (2025) · [R310] Corredores Anónimos — entrevista de Rui Pinho (2020) · [R311] ATRP — Acta N.º 18 da AG Eleitoral (2025)
[R312] Trail Runner Magazine — perfil de J. C. Santos · [R313] ATRP — demissão do Fiscal Único (2025) · [R314] ATRP — demissão de Diogo Simão (2023) · [R316] Ramalhos ON TOUR — João Mota (blogue): posts sobre a ATRP (Selecção 2015; «ATRP — Um Orgulho Imenso», Mar 2016; prémios e Centros de Trail)
Fontes primárias internas [An] — arquivo da associação, factos reescritos
[A1] Génese e primeiros anos (documentação interna da fundação) · [A2] Escritura de constituição (2012) · [A3] Documentos internos 2014–2015 (ata de 5/7/2015; Guia de Cartões) · [A4] Lista/programa «Em nome do Trail!» · [A5] Temas internos (Laminha, Annecy, transição)
[A6] Direção Colaço (2015) · [A7] Circuitos 2016 e contestação · [A8] Proposta Prozis (Jul 2015) · [A9] Transição 2016 (direção Pinho) · [A10] Integração FPA como associado extraordinário (2014) · [A11] Circuitos Nacionais 2015 («versão final»): três escalões, regra de finishers, objeção de João Mota, exclusão do Douro Ultra Trail (Out 2014)
As fontes [An] são documentação interna sob custódia do autor. Não são publicadas: usam-se apenas factos reescritos, com nomes só de figuras públicas em função. Rastreabilidade nos dossiês de arquivo da série.
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Se viveste de perto algum destes episódios — a fundação, os circuitos, a relação com a FPA, as direções —, se tens documentos que os clarifiquem, ou se encontraste algum erro, os comentários abaixo são o sítio certo. Os testemunhos das outras partes são especialmente bem-vindos.
Série · Dossiês publicados
A série funciona como roteiro de investigação amador — preparação para um eventual estudo mais formal sobre a história do trail em Portugal.
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