Circuito Nacional de Trail: hierarquia, legitimação e impacto
Post da série História do Trail Running em Portugal: o Circuito Nacional de Trail como mecanismo de hierarquização e legitimação das provas — e porque compor o circuito era, na prática, exercer poder sobre a modalidade. Proximidade do autor declarada; lacunas assumidas.
Circuito Nacional de Trail: hierarquia, legitimação e impacto
Antes do Circuito, o calendário não tinha topo. Com ele, uma associação passou a decidir que provas contam como o topo do trail português — e isso foi um exercício de poder.
O Circuito Nacional de Trail foi o primeiro mecanismo de hierarquização e legitimação das provas de trail em Portugal. Deu à modalidade uma coluna vertebral competitiva que ela não tinha — e, ao mesmo tempo, deu a uma associação o poder de decidir o que conta como topo. Compor o circuito era serviço à modalidade e poder sobre ela, na mesma decisão.
Quem escreve é cofundador da ATRP e integrou os seus órgãos sociais no período (2012–2016) em que o sistema de circuitos foi criado e reestruturado — incluindo o pelouro das classificações. Não sou, portanto, observador neutro: fui parte de quem compôs os circuitos e aplicou os seus critérios. Onde a fonte é documentação interna, usam-se factos reescritos, nomeiam-se apenas figuras públicas em função, e a leitura da direcção é assinalada como posição de parte, com o contraditório dos organizadores afectados sempre que ele é conhecido. A análise institucional fina remete para o Dossiê 43.
1) Antes do Circuito: um calendário sem topo (até 2012)
Quando o trail moderno começou a crescer em Portugal, a partir de 2006, o calendário era uma justaposição de provas independentes — a Ultra Trail Serra da Freita, o MIUT, a Geira Romana, os Trilhos dos Abutres, o UT São Mamede —, cada uma com o seu público, o seu prestígio local e as suas regras. Não havia quadro comum de distâncias, nem ranking partilhado, nem uma noção formal de «campeão nacional» de trail. O prestígio de uma prova era o que a comunidade lhe reconhecia, não o que uma estrutura lhe atribuía.
Faltava, por outras palavras, um eixo vertical: um mecanismo que dissesse esta prova está acima daquela, ou este resultado vale para um título nacional. Era esse vazio — de hierarquia e de legitimação — que o Circuito Nacional veio ocupar. E ocupá-lo foi, em si, um ato de poder: atribuiu a uma associação recém-nascida a prerrogativa de ordenar um terreno que até aí ninguém ordenava.
2) A criação do Circuito: hierarquizar por dureza (2013–2015)
O Circuito Nacional nasce com o primeiro calendário competitivo da ATRP, na época de 2013 — épocas anuais, de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro, e não «2013/2014» como por vezes se recorda; o formato Outubro–Setembro só chega anos mais tarde [R1][R4]. O desenho inaugural tinha dois circuitos: Trail (8 provas) e Ultra (7 provas — Abutres, Sesimbra, UT São Mamede, MIUT, Freita, UTNLO, Serra d'Arga), com o MIUT designado «Campeonato de Portugal de Ultra Trail» [R1].
E o critério de entrada nesse primeiro ano ficou escrito, preto no branco, na página oficial:
«Em 2013 […] o critério de seleção será o conhecimento pessoal que a ATRP tem de cada uma delas, bem como os comentários publicados em diversos forums e blogs ligados à modalidade, sobre o nível organizativo de cada uma das provas.»
É difícil encontrar formulação mais nítida do argumento deste dossiê: no ano fundador, o topo da modalidade foi definido por apreciação directa de quem geria o sistema. A própria ATRP tratou de objectivar o processo logo a seguir — em Março de 2013 publicou critérios de elegibilidade para 2014 (organizador associado, harmonização com o modelo de regulamento, segurança, representatividade, «equilíbrio dos Circuitos […] dispersão geográfica, conflitualidade de datas») [R2] — mas a decisão final de composição nunca deixou de ser sua. Em 2014, o circuito Trail cresceu para 10 provas e o título de Campeonato de Portugal passou do MIUT para o UT São Mamede [R3][R4] — um detalhe a reter para a secção seguinte.
A forma madura chega no desenho de 2015, anunciado publicamente em Setembro de 2014 (o que corrobora o «fechado pela direcção em Outubro de 2014» da documentação interna): três circuitos escalonados por dureza — Trail (10 provas, até 42 km), Ultra (8 provas, «entre 42km e 69km») e Ultra Endurance (4 provas, acima de 70 km: Sicó 111k, MIUT 114,6k, UT São Mamede 100k, UTAX 109k), com o MIUT de novo prova-título [R5][R6].
A arquitectura já era, em si, uma hierarquia: ao ordenar as provas por dificuldade e ao definir quantas era preciso terminar para ser finisher do circuito e quantas contavam para a classificação, o sistema decidia o que valia mais. A discussão interna mais substantiva deste desenho foi precisamente sobre onde pôr a fasquia do topo: à proposta inicial do presidente — que admitia, no circuito mais duro, uma só prova para ser finisher —, João Mota opôs-se, defendendo tratar o Ultra Endurance como circuito «Élite», com um mínimo de provas mais exigente. A objecção venceu quanto ao essencial: o regulamento publicado de 2015 fixou, para o Ultra Endurance, mínimo de 2 provas para finisher, contando as 2 melhores para a pontuação (no Trail: 3 mínimas, 6 a contar; no Ultra: 3 e 4) [R7]. É um exemplo, em fonte primária, de que a hierarquia se afinou por deliberação — mas também de que definir o topo era a decisão política central do sistema.
Ao mesmo tempo, a reunião de direcção de 5 de Julho de 2015 mostra o outro lado do mesmo poder: a normalização por regulamento. Para os Circuitos de 2016 fixaram-se, entre outros, um regulamento-tipo obrigatório, cronometragem electrónica obrigatória, uma quota adicional para as provas do circuito, a definição das provas que dão título de campeão nacional, a admissão de novas provas e um processo de homologação de classificações com prazos do organizador para a ATRP. O regulamento público de 2015 já previa o mecanismo de homologação [R7]; e a harmonização com o modelo de regulamento da ATRP era critério público desde Março de 2013 [R2] — 2016 reforçou o aparelho normativo, não o inaugurou.
3) Quem entra, quem fica de fora — e porquê (2016)
É na composição concreta que o poder se torna visível. Para 2016 — ano em que a nomenclatura oficial muda de «Circuitos» para «Campeonatos Nacionais» [R9] —, a proposta interna de Agosto de 2015 consolidava um circuito «Endurance» (o mais duro) reunindo MIUT, Estrela Grande Trail, Freita e UTAX. A página oficial de 2016 confirma-a na íntegra: Endurance = UTAX 112k, MIUT 115k, Estrela Grande Trail 90k, Freita 100k, com o UTAX a estrear-se como Taça de Portugal de Trail Ultra Endurance, título de prova única [R9][R10]. E aqui veio o atrito: o Sicó e o S. Mamede saíram do circuito longo, por critério de perfil de percurso (o Sicó, prova rolante, «sem lugar no Endurance»).
O registo público obriga, porém, a corrigir a memória interna em dois pontos:
- O Sicó desapareceu de todos os campeonatos de 2016 — a rejeição do convite, conhecida da correspondência interna, confirma-se por omissão na composição publicada [R9].
- O S. Mamede não foi convidado «para a prova pequena»: entrou no circuito Trail Ultra de 2016 com o «TLSM – Trail Longo da Serra de São Mamede», de 60 km [R9]. A despromoção foi de escalão (do topo para o intermédio), não para a base — o que não muda a natureza do atrito, mas muda a sua dimensão.
Quem eram os afectados? As páginas oficiais arquivadas identificam os organizadores prova a prova [R6][R9]: o Sicó (UTCTS) era organizado pela Associação Desportiva O Mundo da Corrida, de Eduardo Santos; o UT São Mamede pelo Atletismo Clube de Portalegre, com João Carlos Correia como director de prova — prova, aliás, lançada e discutida no fórum d'O Mundo da Corrida, segundo o testemunho do próprio director (Dossiê 10). A correspondência interna de 2015 regista que a troca de mails «mais acesa» era com O Mundo da Corrida — ou seja, com o organizador do Sicó, a prova retirada que rejeitou a despromoção.
O contraste dispensa adjectivos, nos dois casos. O UT São Mamede fora a prova-título de Portugal em 2014 [R3][R4]; dois anos depois estava fora do circuito de topo. E o Sicó era a prova que, em 2012, acolhera a primeira apresentação pública do regulamento ATRP — nas jornadas técnicas do IV Trail de Conímbriga–Terras de Sicó, a convite de Eduardo Santos. O anfitrião da estreia virara o principal contraditor de uma reclassificação — sinal de que a pergunta de fundo (quem decide o que conta como prova nacional) não se resolvera, e continuava ao rubro. Registe-se, em abono da complexidade: O Mundo da Corrida manteve outras provas nos campeonatos de 2016 (o UTS Sesimbra 21k no Trail; o INATEL Piodão 50k no Ultra) [R9] — o atrito não foi um corte total.
4) Impacto nos organizadores: reconhecimento com condições
Para um organizador, entrar no Circuito Nacional trazia reconhecimento e visibilidade — o selo de «prova nacional», lugar num calendário divulgado, atletas atraídos pela classificação. Mas trazia também condições: regulamento-tipo, cronometragem electrónica obrigatória, prazos de homologação de classificações, uma quota adicional [R7][R10]. E, do lado dos praticantes, o regulamento de 2016 reservava a pontuação nos campeonatos a associados da ATRP com quota paga [R10] — pertencer ao sistema tinha vantagens materiais concretas, como o acesso antecipado a inscrições em provas do circuito [R8].
Este é o efeito ambivalente do circuito sobre a qualidade organizativa. Por um lado, elevou o padrão — a exigência técnica subiu para quem quis o selo. Por outro, transferiu para a associação a chave de acesso a esse padrão: o estatuto de prova nacional deixou de ser uma reputação construída na comunidade e passou a ser uma atribuição, sujeita a critérios definidos por quem geria o circuito. Elevar o padrão e concentrar o poder de o certificar são, aqui, a mesma decisão vista de dois ângulos.
5) Impacto nos atletas: um calendário com destino
Do lado de quem corre, o Circuito Nacional deu ao calendário pessoal um destino: já não bastava correr, passou a ser possível pontuar — somar resultados ao longo da época com um título nacional no horizonte. Para o atleta competitivo, o circuito organizou as escolhas (que provas fazer, em que escalão) e criou uma métrica de progresso partilhada. Na época de 2015, os circuitos somaram mais de 500 finishers [R13]; e as classificações finais publicaram, ano após ano, nomes que a série já cruzou noutros dossiês: em 2013, Luís Mota e Susana Simões venceram o Ultra e Carlos Sá o Campeonato de Portugal no MIUT [R11]; em 2015, Sofia Roquete e Jérôme Rodrigues venceram o Ultra Endurance [R12]; em 2016, Hélio Fumo (Dossiê 06) e Cristina Ponte encabeçaram as gerais [R14]; em 2018, André Rodrigues e Inês Marques decidiram o título de Trail Ultra na última prova, no Trail do Zêzere [R17].
O reverso é a concentração de prestígio: quando um conjunto restrito de provas passa a valer para o título, o valor simbólico desloca-se para elas, e as provas de fora do circuito — muitas delas boas, comunitárias, históricas — perdem centralidade competitiva ainda que não percam qualidade. O mapa afectivo do trail (onde cada um encontra a sua prova) e o mapa competitivo (onde estão os pontos) deixam de coincidir.
5.1) A pirâmide em números (2017–2026)
Esse efeito de escassez no topo deixou de ser argumento e passou a ser mensurável. As páginas públicas de evento do MYATRP registam, prova a prova, a que circuito(s) cada evento pertenceu em cada época desde 2017 [R19]:
| Época | Sprint | Trail | Ultra | Endurance | XL | Taça PT |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2017 | — | 43 | 31 | 10 | — | 72 |
| 2018 | — | 22 | 14 | 6 | — | 36 |
| 2019 | — | 39 | 22 | 5 | — | 50 |
| 2020 | — | 19 | 12 | 3 | — | 28 |
| 2021 | 1 | 33 | 21 | 7 | 3 | 26 |
| 2022 | 45 | 53 | 40 | 11 | 6 | 82 |
| 2023 | 58 | 60 | 42 | 13 | 5 | 81 |
| 2024 | 136 | 91 | 50 | 16 | 7 | 96 |
| 2025 | 153 | 103 | 54 | 14 | 4 | 150 |
A leitura estrutural é a tese do dossiê em números: a base da pirâmide (Sprint, Trail, Taça de Portugal) cresce para as centenas de provas por época, enquanto o topo (Endurance e, desde 2020/21, o Endurance XL) se mantém entre 3 e 16 provas. O estatuto de prova do circuito de topo é, mensuravelmente, um bem escasso — e continua a ser atribuído. O modelo também não parou de se redesenhar: em 2017 os campeonatos ganharam naming (Prozis) e uma Taça de Portugal por séries de zona (Lacatoni) [R15][R16]; em 2019 o título passou a decidir-se em prova única de campeonato por categoria [R17]; a academia contava 112 provas nos três circuitos na época 2019/20 [R18]; e os títulos continuam a produzir campeões — André Rodrigues e Inês Jordão no Trail Ultra de 2022, por exemplo [R20].
6) Críticas e limites do modelo
Três limites merecem registo, sem os transformar em acusação:
- Critérios com margem. «Perfil de percurso», «prova rolante», «nível competitivo» são critérios legítimos mas com espaço de apreciação — e é nesse espaço que uma reclassificação pode ser lida como técnica por quem decide e como arbitrária por quem é reclassificado (§3). No ano fundador, o critério público era, assumidamente, «o conhecimento pessoal que a ATRP tem» das provas [R1].
- Concentração de prestígio. O efeito lateral assumido pela própria tese do dossiê: hierarquizar distribui reconhecimento de forma desigual, por definição — e a pirâmide de §5.1 mostra a escala dessa desigualdade.
- Dependência de pouca gente. O circuito assentava — como toda a operação da ATRP à época — em trabalho voluntário e artesanal, com as classificações calculadas à mão em Excel (Dossiê 43). A robustez do «sistema elegante» era, na prática, a resistência de meia dúzia de pessoas.
Nenhum destes limites anula o balanço: o Circuito deu à modalidade uma coluna vertebral competitiva que ela não tinha. Mas mostrá-los é o preço de não contar a história só do lado de quem a desenhou.
7) Lacunas e convite ao contraditório
Este dossiê assenta agora em composições e regulamentos públicos de 2013 a 2018 e na reconstituição MYATRP de 2017 a 2026. Ficam em aberto:
- A versão dos organizadores excluídos (O Mundo da Corrida / Sicó; Atletismo Clube de Portalegre / S. Mamede) — a recolher; a pesquisa de imprensa de época não encontrou eco público da reclassificação de 2016, pelo que o contraditório continua contado sobretudo do lado da direcção.
- Vencedores finais de 2014 — as notícias de encerramento estão arquivadas, mas as tabelas foram publicadas como imagem; nomes por extrair.
- Classificações finais de 2017 — captura de Fevereiro de 2018 identificada, por extrair.
- Impacto real no calendário dos atletas — testemunhos por recolher.
Se organizou, correu ou dirigiu no período do Circuito Nacional — e sobretudo se esteve do lado de uma prova reclassificada —, o contraditório é bem-vindo.
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