RUN 4 FUN: o clube amador como infraestrutura social do trail
A história completa do RUN 4 FUN, clube amador urbano de corrida: da estrada (2008) ao trail (2011), multidesportivo, com direção eleita e registo como associação. Faz 18 anos em 2026.
RUN 4 FUN: o clube amador como infraestrutura social do trail
Da estrada aos trilhos, da maratona à caminhada: a história de um clube urbano onde ninguém é profissional — e onde isso é precisamente o ponto.
na estrada
Serra de Sintra
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O RUN 4 FUN é o exemplo acabado da segunda vaga de clubes de corrida portugueses: não nasce da montanha nem do atletismo federado, mas da vida urbana. Começa na estrada, abre-se ao trail e cresce como um clube social de corrida com várias vertentes — estrada, trail, caminhada e, sobretudo, convívio —, gerido por uma direção eleita de voluntários. Em Julho de 2026 faz 18 anos.
Declaração de interesses
Quem escreve este dossiê é membro do RUN 4 FUN — no clube desde cerca de 2009, com perfil publicado pelo próprio blogue do autor como "Atleta RUN 4 FUN em destaque" em Janeiro de 2025 [R249] e membro da Direção de 2023 [R252]. Parte da documentação aqui usada são documentos internos do próprio clube, a que o autor tem acesso como dirigente.
A regra editorial é simples: tudo o que for elogio deve vir de fonte externa ou de dados verificáveis; tudo o que for número deve ter fonte citada; as memórias pessoais do autor ficam identificadas como tal; e não se publicam dados internos sensíveis — saldos de conta, movimentos financeiros, credenciais ou listas de contactos —, apenas factos já públicos ou agregados não sensíveis. A composição dos órgãos sociais (direções e sócios fundadores) é publicada por se tratar de cargos de governança, como a série já faz para a ATRP (dossiê 43).
1. A corrida de Dezembro de 2007
Segundo a página institucional do clube, João Ralha e Paulo Gonçalves Marcos conheceram-se numa corrida em Dezembro de 2007. Tinham em comum darem aulas em cursos de executivos numa faculdade de Gestão de Lisboa: um com perto de 50 anos e experiência de meias-maratonas, o outro com perto de 40 e pouca experiência de corrida, "mas ambos com vontade de evoluírem e com algum espírito competitivo, reconhecendo a necessidade de, juntos, poderem conseguir mais do que sozinhos". [R244]
A singularidade desta fundação é quase programática: sendo ambos da área do Marketing, trataram o grupo como uma marca desde o primeiro dia — e publicaram o caso no livro Marketing Vencedor, da Bertrand Editores, em 2009. [R244]
2. 2 de Julho de 2008 — fundação e marca
O RUN 4 FUN foi fundado em 2 de Julho de 2008. A génese, contada pela própria Direção, tem data e lugar precisos: no 1.º dia do Optimus Alive de 2008 (02/07/2008), António Eusébio e Paulo Marcos treinam juntos pela primeira vez na Vela Latina — «nasce a ideia do Clube»; a 04/07/2008, João Ralha junta-se a Marcos num treino na Expo; Marcos propõe então a fusão dos grupos da Vela Latina e da Expo — e nasce o «Run 4 Fun – R4F». A primeira corrida conjunta identificada foi a prova de 10 km na lagoa de Santo André, em 19 de Julho de 2008. [R244][R260]
O blogue do clube começou em 25 de Setembro de 2008 e a corrida inaugural oficial foi a Mini da Vasco da Gama, em 28 de Setembro de 2008. O núcleo fundador é descrito pela própria fonte como composto por professores universitários, quadros superiores, profissionais liberais e empresários — "pioneiros e evangelizadores iniciais" que ajudavam a desmistificar "a ideia de que correr era para jovens ou para quenianos". [R244]
Importa fixar desde já um ponto: o clube nasceu como clube de estrada. O trail só chegaria em 2011 (secção 4) e, mesmo então, sem nunca substituir a corrida de asfalto — apenas acrescentando-lhe uma segunda linguagem.
3. Os três núcleos: Expo, Garça e Paz
A geografia do RUN 4 FUN é parte da sua identidade. Não nasceu na montanha, mas como comunidade urbana de corrida, espalhada por núcleos com vida própria nas duas margens do Tejo — cada um com o seu calendário, o seu carácter e os seus treinos baptizados. Hoje são três. [R245][R263]
Núcleo da Expo (Parque das Nações) — o berço do clube. É aqui, a par da Vela Latina, que o R4F nasce em 2008, e é o núcleo de matriz mais urbana e de estrada: o «Treino dos Heróis do Mar» ao domingo de manhã e o madrugador «Treino da Almofada e do Despertador» a meio da semana. Foi durante anos o maior núcleo (cerca de 30 atletas activos em 2018). [R261][R263]
Núcleo da Garça (Monsanto) — o mais ligado ao trail e à natureza: o «Monsanting» às terças, no Centro de Interpretação de Monsanto, e o «Treino da Garça»; é também a base do Treino dos Trilhos mensal co-organizado em Monsanto (secção 8). [R252][R263]
Núcleo da Paz (Almada) — o mais novo e o de crescimento mais rápido. Nasce na margem sul a 31 de Janeiro de 2017, quando a Direção decidiu levar os treinos a outras zonas e Fernando Rosete — «o pai da criança» — aceitou criar e dinamizar o «Treino da Paz», no Parque da Paz. Foi o grande impulsionador do núcleo: atraiu muitos atletas para o clube e foi sempre uma forte força organizativa. Cresceu depressa (cerca de 10 atletas no início de 2018, perto de 30 em 2020, com crescimento «a dois dígitos») e é o mais completo em vertentes — corrida no «Treino da Paz» e no «Treino da Lota», caminhada na «Caminhada da Paz» (dinamizada por Carmen Ferreira desde 2019) e madrugadas no «Treino Donos do Farol». Todos os anos saem dali novos estreantes na maratona, e a integração de novos membros, pela mão de um «padrinho», é uma marca da Paz. [R275][R261][R252]
A relação entre a identidade de cada núcleo e a do clube como um todo foi, ela própria, tema de debate interno da Direção — sinal de um colectivo grande o suficiente para ter geografia, mas que faz questão de continuar a ser «um só RUN 4 FUN». A passagem aos trilhos, recorde-se, não substituiu a estrada: somou-se-lhe.
A camisola viaja: uma pequena diáspora
A geografia do clube não cabe só nas duas margens do Tejo, e chega lá por dois caminhos. O primeiro é o contágio à distância: pessoas que já viviam longe e apanham o espírito do grupo. O sinal mais antigo está documentado — em Agosto de 2010, o blogue anunciava, com o humor do costume, um «Núcleo RUN 4 FUN de Seattle», formado por familiares de um sócio que há muito viviam na cidade norte-americana e que, mesmo a um oceano de distância, passaram a «participar em corridas de estrada e de trilhos pelas terras do Tio Sam». [R272] O segundo caminho é a emigração de membros: quem já corria de laranja e leva o clube consigo ao mudar de país — como Gonçalo Lopes, que se mudou para a Suíça.
Hoje, o clube conta membros espalhados por vários continentes, que se mantêm ligados ao grupo à distância. É a prova de que, num clube cuja função primeira é social, o vínculo não depende do código postal.
4. 16 de Janeiro de 2011 — Sintra e a abertura ao trail
O testemunho documentado mais direto da abertura do clube ao trail está num comentário publicado em Fevereiro de 2012 no blogue dorsal1967:
"Lembro-me bem do nosso 1º treino na Serra de Sintra no dia 16 de Janeiro de 2011, dia de muito frio, mas com mais de 30 bravos representantes dos R4F."
— Zé Carlos Santos, comentário em dorsal1967, Fevereiro de 2012 [R251]Um grupo de corrida de estrada com dois anos e meio de existência levou mais de 30 membros a um treino de serra num domingo de Janeiro. A partir daí, o trail deixou de ser atividade marginal do clube. Esta data faz do RUN 4 FUN um caso relevante para a fase de crescimento de 2010–2013, quando o trail português se expandiu para lá dos núcleos fundadores do Norte e das primeiras grandes provas. [R230][R251]
Mas o trail não chegou ao clube de surpresa — chegou primeiro pelos pés de alguns membros, a título individual. Antes do treino coletivo de Sintra já havia quem corresse trilhos por conta própria. O autor deste dossiê fez as suas duas primeiras provas de trail — que foram logo duas ultras — em 2010, ainda antes da abertura formal do clube: a III Ultra Geira / Via Nova Romana (50 km, Maio de 2010) e, um mês depois, a V Ultra Trail da Serra da Freita (70 km, 14h47m, +4200 m), ambas com Luís Freitas — num tempo «pré-histórico» em que «as provas tinham cerca de uma centena de participantes (…) e era possível inscrevermo-nos praticamente de véspera». A data de 16 de Janeiro de 2011 marca, por isso, menos uma descoberta do que a passagem do trilho individual ao hábito coletivo. [R281] (Que tenha sido o primeiro atleta do clube a completar um ultra trail é recordação do autor, por confirmar nas classificações arquivadas em joaolima.net.)
E o coletivo escalou depressa. Pouco mais de um ano após o primeiro treino de Sintra, o clube já tinha um representante numa ultra de montanha de primeira linha: em Março de 2012, Paulo Jorge Rodrigues terminou a Transgrancanaria (123 km, +11.000 m) em 22h45, na metade da frente da classificação. No mesmo texto, João Ralha — fundador — anunciava a intenção de o ver no UTMB «lá para os finais de Agosto». [R279] (A concretização do UTMB fica por verificar.)
5. A equipa ATRP: de 18 atletas a cinco circuitos
2018/2019 — a primeira equipa
Na época 2018/2019, o RUN 4 FUN constituiu equipa para os Circuitos e Taça da ATRP com 18 atletas. O perfil é um retrato muito nítido do amadorismo veterano português: idade média de 50 anos, mediana de 51, 67% dos atletas entre os 42 e os 58 anos, e dois membros — Jorge Esteves e Teodoro Trindade — na lista de portugueses com mais de 50 maratonas ou ultras. [R248]
Os resultados de estreia incluíram Teodoro Trindade em 2.º M55 no Ultra Trail de Sesimbra, Ana Melo em 1.ª F40 em Santa Maria, nos Açores, e a equipa feminina em 1.º lugar por equipas nos Trilhos de Bellas. [R248]
2023 — maturidade competitiva amadora
Em 2023, o clube apresentou 42 atletas inscritos, dos quais 37 participaram, num total de 73 provas. O desafio interno foi pontuar nos cinco Circuitos Nacionais da ATRP — Sprint, Trail, Ultra, Endurance e Endurance XL —, o que exigia persistência, coordenação e profundidade de equipa. [R247]
Os resultados coletivos foram expressivos: 3.º lugar geral no Endurance, 3.º no Endurance XL e 3.º no Trail feminino. A coordenação por circuito ficou distribuída por Ana Chocalheiro (Sprint), Rui Faria (Trail), Luís Afonso (Ultra), Teodoro Trindade (Endurance/XL) e João Antunes no backoffice. [R247]
6. De grupo informal a associação registada
A imagem de «grupo de amigos» não conta a história toda — mas também não é falsa. O RUN 4 FUN viveu boa parte da sua vida como coletivo informal e só se formalizou, como associação com personalidade jurídica, ao fim de muitos anos. Por palavras da própria Direção, em 2023: «ao longo dos anos o clube tem vindo a adquirir um carácter mais formal, o que torna inevitável a criação de uma estrutura mais organizada, com regras mais claras, e exige um esforço de gestão maior». [R252]
A formalização tem uma história concreta — e até um litígio. O trabalho de registar a marca «RUN 4 FUN» arrancou em 2017, na sequência de uma decisão judicial favorável ao clube contra uma equipa de Vouzela que usava o mesmo nome. Esse trabalho jurídico — registo da marca e acompanhamento do processo — ficou a dever-se à sócia Sandra Simões, advogada, que o fez pro bono. É um exemplo, entre muitos, de uma cultura que merece destaque no clube: a de membros que põem ao serviço da comunidade as competências da sua profissão, sem cobrar por isso. Até aí, o clube vivera sem personalidade jurídica — ao ponto de não poder ter conta bancária própria: as contas eram abertas em nome pessoal de dirigentes e passavam de mão em mão a cada mudança de direção. A regularização chega, finalmente, com a aprovação dos estatutos do «Clube de Praticantes de Corrida – RUN 4 FUN» (sigla R4F), em Lisboa, 23 de Fevereiro de 2021: o clube passa a ser uma entidade desportiva registada — um Clube de Praticantes, equiparado a pessoa coletiva, com NIPC. [R259][R256]
Os estatutos fixam, a preto e branco, o que este dossiê foi mostrando. O objeto do clube é «a promoção e organização da prática da modalidade de corrida de fundo e da corrida em trilhos (…) numa lógica essencialmente não competitiva e sem fins lucrativos» (Artigo 3.º) — o multidesporto e o amadorismo inscritos na própria lei do clube. E adotam «a cor laranja» como identidade (Artigo 4.º) — a mesma das «Orange Series» e das «provas laranja». A representação cabe a seis membros eleitos em Assembleia-Geral, por sufrágio direto e secreto, para mandatos de um ano. [R259]
E a governança é, hoje, plenamente democrática:
As eleições fazem-se por voto online (plataforma Election Runner), com mesas de voto, anonimato garantido e voto antecipado para quem está em prova. A Direção de 2024 foi eleita a 25 de Novembro de 2023, sucedendo à Direção de 2023. [R257][R252]
A par disso, o clube mantém tesouraria própria (conta bancária e prestação de contas no almoço anual; os valores são internos e não se publicam), filiação na ATRP através de Teodoro Trindade, e três núcleos com vida e treinos próprios — Expo, Garça e Paz —, caracterizados na secção 3. [R252][R254][R263]
7. O clube multidesportivo: a estrada primeiro, depois o trail
Convém corrigir uma impressão que o lugar deste dossiê na série de trail pode dar: o RUN 4 FUN é, antes de tudo, um clube de estrada. Nasceu no asfalto em 2008 e é no asfalto que está o grosso da sua atividade. O próprio arquivo do blogue do clube não deixa dúvidas: contabiliza mais de uma centena de relatos etiquetados «Maratona», perto de uma centena de «10 km» e dezenas de «Meia Maratona» — muito acima de qualquer categoria de trail. O trail (secções 4, 5 e 8) é uma vertente importante, mas acrescentada a um clube de corrida de estrada. [R262]
A estrada do clube tem um objetivo fundador, repetido nas suas atas: «levar os membros a correr a Maratona». E é tão antigo quanto o clube. O primeiro a estrear-se foi Miguel San-Payo, sócio fundador, na Maratona de Lisboa de 7 de Dezembro de 2008, em mais de quatro horas. [R264]
Mas o verdadeiro batismo coletivo — o momento fundador desta vertente — veio na primavera seguinte: a Maratona Carlos Lopes, em Lisboa, a 10 de Maio de 2009. Alinharam sete atletas do RUN 4 FUN — João Ralha, Luísa Ralha, Paulo Marcos, António Cruz, Eduardo Correia, Miguel San-Payo e Carlos Santos (o «Caló») —, cinco deles a correr a primeira maratona da vida, com uma equipa de apoio (Miguel Correia, Paulo Curto de Sousa, Joana Mira Mendes, Vítor Lopes) e, junto à meta, os campeões olímpicos Rosa Mota e Carlos Lopes. O «Caló» corria-a como treino para um ultra de 101 km e «rebocou» Luísa Ralha do princípio ao fim. Está aqui, num só dia, a génese do lema do clube. [R265]
Anos depois, em 2013, o objetivo virou campanha — o clube levou 33 atletas a terminar a Maratona de Lisboa (e 25 a meia) e contava já com 70 maratonistas (63 homens, 7 mulheres) e 138 finalistas de meia-maratona —, com a convicção de que «qualquer pessoa pode fazer uma maratona», desde que haja objetivo, plano e consistência. É a tradução, na estrada, do mesmo espírito comunitário que move o clube. [R262]
Uma década depois, a ideia mantém-se viva e ganha mundo. O moderno Projeto Maratona, lançado em 2023, dá forma ao objetivo fundador: uma maratona internacional por ano, em grupo — «correr, viajar e conviver» —, com a organização a rodar pelos três núcleos (Carla Rebelo, Fernando Rosete e Luís Matos Ferreira).
O projeto premeia a fidelidade com medalhas escalonadas:
E não falta a história pessoal: em Budapeste, Isabel Ucha foi a única estreante na maratona, depois de uma tentativa falhada em Atenas no ano anterior — a resiliência amadora feita medalha. Em Atenas, o convidado de honra da 40.ª edição fora Vanderlei Cordeiro de Lima. [R270][R271][R252]
A vertente de estrada mantém ainda a São Silvestre própria (na 6.ª edição em 2025) e a presença em provas de asfalto como a Corrida do Tejo (2021). [R252][R250][R262]
Em 2023, o clube constituiu mesmo uma «Equipa de Integração FPA e ATRP» — federação de atletismo (estrada/pista) e associação de trail —, jogando nos dois terrenos em simultâneo. A ligação à FPA, que viabiliza as inscrições federadas nas provas de estrada, foi montada por Francisco Machado. E, a par da corrida, há caminhada regular (a Caminhada da Paz, no núcleo de Almada) e em eventos (a Caminhada de São Martinho, aberta à população, no Trail Camp de 2022). [R252][R253]
A integração na FPA não foi, porém, pacífica. Em Março de 2025, a federação aprovou uma licença obrigatória (cerca de 3€) para quem participasse em provas pagas de estrada, trail e montanha com inscrição acima de 5€ — justificada com seguro desportivo, desenvolvimento da modalidade e redução de custos para os organizadores. A medida dividiu o mundo amador, e o RUN 4 FUN não ficou calado: no blogue do clube, Rui Faria (presidente da Direção de 2017) classificou-a como uma «taxinha estranha», anunciada de forma «aberrante» e reveladora de «falta de respeito» pelos atletas — penalizando sobretudo quem corre provas populares de 5€ e transferindo para os corredores uma responsabilidade que devia ser pública. [R274]
"É a lei do paga e não bufa."
— Rui Faria, no blogue do RUN 4 FUN, Março de 2025 [R274]A polémica retrata a tensão de fundo desta história: um amadorismo de base que olha com desconfiança para cada novo degrau de institucionalização e de custo.
8. O clube como escola e como festa
Se há um traço que distingue o RUN 4 FUN, é a transformação de cada treino num evento com identidade própria — e de cada prova num pretexto para o convívio. A vida do clube faz-se menos de pódios e mais de uma rede densa de iniciativas.
Organizado pelo casal Ana Chocalheiro e João Antunes, o clube levou um grupo de atletas amadores à Serra do Açor para três dias de trail, formação e convívio, com o humor que o caracteriza — o programa apresentava os participantes como «os vários atletas de elite mundial» («sim, os vários atletas de elite mundial são vocês»). Convidou duas personalidades do trail ligadas a Arganil: Sofia Roquette, seis vezes vencedora do Campeonato Nacional de Trail Ultra Endurance, e David Gouveia, atleta da CMM-Escaravelhos Team e co-criador do Desafio Picos do Açor.
O programa cruzou trail exigente (≈30 km e ≈1900 m de desnível, com versão curta de ≈23 km), uma caminhada de São Martinho aberta à população, uma sessão de «Iniciação ao trail running», gastronomia regional e até canoagem/SUP — tudo regado pelos valores que o clube assume como seus: «amizade, companheirismo, união, partilha, conhecimento, paixão, recovery, descanso e natureza». [R253]
«The Orange Series»: o clube na pandemia (2020)
Quando a COVID-19 cancelou o calendário de provas em 2020, o RUN 4 FUN inventou um campeonato virtual: a cada fim de semana em que havia de haver uma prova real, era criado um evento em que os atletas «corriam» a distância correspondente em treino — registada via Strava ou enviada por foto — e quem a completasse era declarado finalista. As distâncias seguiam as categorias da ATRP (Longas, Ultras, Endurance) e quem cumprisse o campeonato entrava na «Hall of Fame» do clube. Sem classificação individual por tempo: o objetivo era manter a comunidade em movimento e ligada quando não se podia competir — o retrato perfeito de um clube cuja função primeira é social. [R255]
No ano seguinte, com as provas ainda suspensas, a inventividade não parou. Entre 8 e 28 de Fevereiro de 2021, nove equipas de cinco atletas disputaram o «Gamo-A-Ti: Quo Vadis A.C.», um campeonato de três semanas em que cada equipa somava os quilómetros treinados e registados no Strava. A graça estava na regra do «gamanço»: ao sábado, era possível roubar os quilómetros de um treino de um adversário e oferecê-los a uma terceira equipa — pura estratégia e troça entre formações de nomes como «Bonnies dos Trilhos», «Robin dos Bosques» ou a própria «Quo Vadis A.C.» (segunda classificada, com 1277 km em 21 dias). Organizado por Rui Faria, foi mais um exemplo de como o clube transformou o confinamento em jogo coletivo. [R276]
Treinos abertos, parcerias e «provas laranja»
A Trail Running Series 2023 propôs quatro treinos abertos em quatro serras — Lousã/Loures, Sintra, Arrábida e Venda do Pinheiro —, com a missão de «juntar todos os trailers num só treino em quatro zonas diferentes». [R246] Mensalmente, o clube co-organiza ainda o Treino dos Trilhos, em Monsanto, em parceria com o Portugal Running, as Tartarugas Solidárias e a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica. [R256]
Os três núcleos também colaboram à vez. Ao longo de um mesmo ano, o clube realizou três edições do «Treino dos Treinos» — V1, V2 e V3 —, cada uma organizada por um dos núcleos (Expo, Garça e Paz), num rodízio que põe toda a gente a treinar no terreno dos outros: a tradução prática do lema «um só RUN 4 FUN». [R252]
O calendário está cheio de treinos com nome e mitologia próprios: o Treino do Fado, o dos Miradouros, o dos Elevadores, o do Aqueduto, o dos Moinhos Saloios, o das Francesinhas no Seixal, os «Animais Noturnos» (Javali, Coruja, Caracol). Há ainda a noção de «prova laranja» — provas escolhidas em que o maior número possível de atletas vai em conjunto, para correr, fazer de pace ou apoiar (a Corrida 25 de Abril, a Freita, Santa Cruz). No RUN 4 FUN, a geografia de Lisboa e arredores é percorrida como quem visita amigos. [R252][R256]
Convívios, solidariedade e comunidade
O almoço anual (11/02/2023), os Summits da ATRP (Summer Summit 01/07/2023, Grand Finale 04/11/2023), o treino do 15.º aniversário (15/07/2023) e o Treino Solidário a favor da Casa da Cidade (04/11/2023) mostram a outra função do clube: a de comunidade.
Celebrar as estreias uns dos outros
Há um género de post que se repete no blogue do clube desde o início: o relato da estreia — a primeira maratona, o primeiro trail, as primeiras 24 horas —, quase sempre escrito na primeira pessoa. O clube transforma cada uma delas numa celebração coletiva. Uma pequena galeria de estreias:
E há mais — de primeiras meias-maratonas a primeiros trilhos de montanha. Não há feito pequeno demais para ser partilhado, nem grande demais para deixar de ser de todos: no RUN 4 FUN, a conquista de um é festejada por todos. [R277]
O clube em números: crescimento, vertentes, idade e género
Como cresceu. De um punhado de fundadores em 2008, o clube passou a cerca de 141 atletas registados (76 ativos) em 2018 e 184 em 2020; no fim de 2023, o grupo de atletas no Facebook reunia 211 membros (37% ativos por dia) e a página pública 2835 seguidores — «público maduro, maioritariamente do concelho de Lisboa», com 16 novos atletas só nesse ano. O ritmo de entrada foi mais forte nos anos do boom nacional do trail, 2011–2013 — em que o próprio blogue teve o seu pico de atividade —, com mais de vinte novos atletas por ano. [R261][R260][R252][R266]
As duas vertentes, em volume. O arquivo do blogue mede o centro de gravidade do clube: mais de uma centena de relatos de Maratona, perto de outra centena de 10 km e dezenas de Meia Maratona na estrada; e 64 posts de Trail, com sub-categorias próprias de Trail Ultra Endurance, Ultratrail e Corrida em Montanha. De zero trail antes de 2011, o clube chegou aos ultras — nacionais (Serra da Estrela, Arrábida, Gerês, Sicó) e internacionais (Andorra Ultra Trail) — e a uma equipa ATRP que passou de 18 atletas (2018/19) a 42 (2023). A estrada continua a ser a espinha dorsal; o trail, o ramo que mais cresceu. Um inquérito interno de 2016 fixava bem o contraste: quase todos os membros corriam estrada 2 a 3 vezes por semana, ao passo que o trail era sobretudo «de vez em quando» — e cerca de catorze nem sequer o praticavam. [R262][R266][R267]
Idade: um clube veterano, mas que se renova. A distribuição de idades de 2020 concentra-se claramente entre os 47 e os 61 anos (idade média ~50), com membros na casa dos 20 e dos 30 presentes, mas em minoria. A imprensa, em 2022, confirmava o retrato: idade média de 50 anos, do mais novo (24) ao mais velho (72). [R268] Não há, nos dados, um rejuvenescimento etário — há, isso sim, renovação: em 2020, perto de metade dos atletas tinha entrado no clube nos dois anos anteriores (forte vaga de novos membros em 2018–2019), sobre um núcleo de veteranos com 6 a 12 anos de casa. [R260][R261]
Género: a caminho da paridade. A aproximação à paridade é real e mensurável: as mulheres eram 26,7% dos membros em 2016 e já 36,5% em 2022 (76 mulheres em 208 atletas, segundo a imprensa especializada). É ainda mais nítida na governança — a Direção de 2023 teve cinco mulheres e um homem. [R267][R268][R258]
Na imprensa, e nas estantes. Em Março de 2022, a revista Pro Runners dedicou-lhe uma reportagem — «um grupo onde correr é divertido», «um clube que dá muita importância ao FUN e onde há muita entreajuda entre atletas». E o clube tem a sua própria bibliografia: além de servir de caso de estudo no livro de marketing Marketing Vencedor (Bertrand, 2009, da autoria dos fundadores), o RUN 4 FUN editou o seu próprio livro — Correr para o Bem-Estar: o Clube RUN 4 FUN (Edições Sílabo, 2018), 220 páginas a cores, coordenado por João Ralha com cerca de 50 contribuições de membros e amigos. Lançado a 8 de Julho de 2018, na festa do 10.º aniversário no Parque das Nações, traz prefácio de Helena Marujo e Miguel Pereira Lopes e está organizado, de forma reveladora, em torno das duas almas do clube: RUN (alimentação, preparação de provas, trilhos, maratona e ultra) e FUN (família, treinos e recovery, treinos temáticos e convívios). [R268][R269][R244]
9. As pessoas
A própria lista de direções conta a história da formalização do clube. Nos primeiros anos, 2008–2013, a direção foi estável e quase familiar — o trio fundador António Eusébio, João Ralha e Paulo Marcos (Ralha e Marcos seriam os recordistas de presença, seis mandatos cada). A partir de 2015 instala-se a rotação anual de direções eleitas, com presidente identificado até 2019, e equipas que se renovam todos os anos. É a prova, ano a ano, de que o RUN 4 FUN deixou de ser «o grupo de uns amigos» para passar a governar-se por mandatos. [R258]
Os sócios fundadores
Os estatutos fixam como sócios fundadores os corredores integrados nas atividades do clube à data de 31 de Dezembro de 2008. São doze [R259]:
João Ralha · Paulo Marcos · António Eusébio · António Cruz · Eduardo Correia · Luísa Ralha · Manuela Cruz · Maria João Coutinho Rebelo · Miguel San-Payo · Miguel Correia · Paulo Curto de Sousa · Vítor Lopes
As direções (2008–2026)
| Mandato | Presidente | Restantes elementos |
|---|---|---|
| 2008–2013 | (trio fundador) | António Eusébio · João Ralha · Paulo Marcos |
| 2014 | — | (não consta na fonte) |
| 2015 | Patrícia Calado | César Moreira · Jorge Esteves · Jorge Paulo · Margarida Gonçalves · Sandra Simões |
| 2016 | Pedro Machado | António Estrela · Cláudia Pargana · Gonçalo Lopes · Manuela Machado · Pedro Morgado |
| 2017 | Rui Faria | Alfredo Falcão · Fernando Rosete · Rúben António Costa · Rute Fernandes |
| 2018 | Teodoro Trindade | Carla Rebelo · Gonçalo Melo · Paulo Raposo · Pedro Silva |
| 2019 | Vítor Aguilar | Ana Melo · Francisco Afonso · João Miranda · Jorge Paulo · Marina Marques |
| 2020 | — | António Rego · Cármen Ferreira · Joana Soeiro · Luís Afonso Carvalho · Luís Matos Ferreira |
| 2021 | — | Fernando Carvalhão · Francisco Machado · Gonçalo Melo · Jorge Duarte Pinheiro · Paula Carvalho · Rui Faria |
| 2022 | — | Ana Tavares · Carmen Ferreira · João Silva Antunes · Paulo Raposo · Pedro Ribeiro · Sandra Simões |
| 2023 | — | Ana Chocalheiro · Débora Almeida · Guida Monteiro · Luís Matos Ferreira · Rita Felizol · Rute Fernandes |
| 2024 | — | Cândida Figueiredo · João Campos · Jorge Esteves · Luís Carvalho · Lara Machado · Orlando Ferreira |
| 2025 | — | (por obter) |
| 2026 | — | Ana Chocalheiro · Emanuel Silva · Hugo Fernandes · Inês Sepúlveda · Rita Vicente · Luís Afonso Carvalho |
Fonte: documentação do clube [R258]; direções de 2023/2024 também em [R252]; Direção de 2026 (Lista B, eleita em Dezembro de 2025) em [R273]. 2014 e 2025 não constam na fonte; os presidentes só estão identificados de 2015 a 2019.
Retratos: o lado humano, com fonte
A série «Atleta em Destaque» do blogue — perto de meia centena de perfis — é a melhor janela para as pessoas do clube. Dois retratos dizem, cada um à sua maneira, algo que ultrapassa o RUN 4 FUN.
Manuela Cruz — ultramaratonista aos 62, de volta depois de partir a perna. Sócia fundadora e médica de Medicina Geral e Familiar, Manuela Cruz corria desde 2009 e, em 2018, aos 62 anos, ainda alinhava em mini-trails e ultras — a Caldas Ultra Trail nesse ano, o UTAT nos montes Atlas, em Marrocos, no Outono seguinte. Mas o episódio que melhor a retrata é uma desistência: no Trail Noturno da Lagoa de Óbidos, em Agosto de 2013, partiu o tornozelo, a tíbia e o perónio — «a única prova que não completei». O que conta é o que se seguiu: «vinham atrás de mim, quando caí, atletas R4F e um deles, o Pedro Pinto, trouxe-me às costas uma boa centena de metros, com o pé a baloiçar no ar, até à estrada». «Valeu esta demonstração de solidariedade», escreveu. É o clube social no seu estado mais cru — e, ao mesmo tempo, um retrato raro de mulher, veterana e ultramaratonista num desporto que ainda se imagina jovem e masculino (cf. dossiês 07 e 26). [R278]
Hugo Fernandes — «da necessidade ao gosto». Quando entrou no clube, em 2021, Hugo Fernandes resumiu em duas linhas um percurso que muitos corredores reconhecem: «Comecei por necessidade (112 kg com 15 anos…), fiquei por gosto.» A correr desde 2002, chegou já a apontar aos ultras — e descreveu o RUN 4 FUN como «uma espécie de família onde todos trabalhamos para o mesmo objetivo: superar-mo-nos». [R280]
Este capítulo ainda não deve ser fechado sem entrevistas e consentimento. Há ainda muitos nomes a ouvir e a creditar — veteranos, dinamizadores dos núcleos e convidados —, cujas histórias merecem espaço próprio.
10. Cronologia síntese
| Data | Marco | Conf. |
|---|---|---|
| Dez 2007 | João Ralha e Paulo Gonçalves Marcos conhecem-se numa corrida | B |
| 2 Jul 2008 | Fundação do RUN 4 FUN, na estrada (Parque das Nações) | B |
| 19 Jul 2008 | Primeira corrida conjunta: 10 km na lagoa de Santo André | B |
| 28 Set 2008 | Corrida inaugural oficial: Mini da Vasco da Gama | B |
| 7 Dez 2008 | Primeira maratona de um membro: Miguel San-Payo na Maratona de Lisboa (mais de 4h) | B |
| 10 Mai 2009 | Maratona Carlos Lopes — batismo coletivo (7 atletas, 5 estreantes; Rosa Mota e Carlos Lopes na meta) | B |
| 2009 | Caso de fundação publicado em Marketing Vencedor | B |
| Mai 2010 | Primeira ultra de um membro do clube (III Ultra Geira / Via Nova Romana, 50 km), a título individual — antes da abertura coletiva ao trail | A* |
| 16 Jan 2011 | Primeiro treino de trail documentado na Serra de Sintra, com mais de 30 membros | B |
| Mar 2012 | Paulo Jorge Rodrigues termina a Transgrancanaria (123 km, +11.000 m) | B |
| 2013 | Campanha Maratona de Lisboa: 33 atletas terminam-na; clube com 70 maratonistas (63 H, 7 M) | B |
| 2014 | Primeiras estreias celebradas no blogue (Patrícia Calado, 1.ª maratona; Rui Faria, 1.º ultra no Sicó) | B |
| 2015 | Início da rotação anual de direções eleitas (1.ª direção eleita: Patrícia Calado) | A |
| Jan 2016 | Inquérito interno «Convívio Run4Fun»: mulheres são 26,7% dos membros | B |
| 31 Jan 2017 | Criação do «Treino da Paz» / núcleo de Almada, por Fernando Rosete | B |
| 2017 | Início do processo de registo da marca/clube (após decisão judicial favorável vs equipa de Vouzela) | B |
| 2018/2019 | Primeira equipa nos Circuitos e Taça ATRP: 18 atletas, idade média de 50 anos | A* |
| 2020 | «The Orange Series» (campeonato virtual na pandemia); processo de registo em curso | A/B |
| 23 Fev 2021 | Aprovação dos estatutos — «Clube de Praticantes de Corrida – RUN 4 FUN» | A |
| 11–13 Nov 2022 | RUN 4 FUN Trail Camp (Serra do Açor, Arganil) — convidados Sofia Roquette e David Gouveia | A |
| 11 Nov 2023 | Projeto Maratona #1 — Maratona de Atenas (~22 do clube) | A/B |
| 2023 | Trail Running Series; pontuação nos cinco circuitos ATRP; 42 atletas, 73 provas | A/B |
| 25 Nov 2023 | Direção de 2024 eleita por voto online (Election Runner) | A |
| 13 Out 2024 | Projeto Maratona #2 — Maratona de Budapeste (50 participantes) | A/B |
| 17–18 Mai 2025 | Projeto Maratona #3 — Maratona de Riga (26 do grupo) | A/B |
| Dez 2025 | Direção de 2026 eleita (Lista B): Ana Chocalheiro, Emanuel Silva, Hugo Fernandes, Inês Sepúlveda, Rita Vicente, Luís Afonso Carvalho | A/B |
| 2026 | Projeto Maratona #4 — Maratona de Edimburgo (etapa seguinte) | A/B |
| Jul 2026 | 18.º aniversário (alvo de publicação deste dossiê) | B |
Confiança B = fonte institucional do clube ou secundária; A = documento interno verificado; A* = fonte do autor com proximidade declarada.
11. Lacunas declaradas
- NIPC: forma jurídica e data fixadas (Clube de Praticantes de Corrida, estatutos de 23/02/2021); falta obter o número de NIPC e a data de registo no RNCFD.
- Reconciliação da data do Trail Camp: programa diz 11–13/11/2022; uma fonte anterior dizia 17/11/2022 — verificar.
- Épocas 2020–2022 (pandemia): parcialmente documentadas (Orange Series 2020, atas de Direção, eleições 2023); falta a narrativa completa de 2021–2022.
- Capítulo 3.2 de Marketing Vencedor: citação direta por obter.
- Treino de 16/01/2011: quem propôs Sintra e como se tornou calendário regular (a identidade do comentador está resolvida — é José Carlos Santos, 1.º presidente da ATRP; ver secção 4).
- Filiação MYATRP: perfil do sócio 6275 por extrair e arquivar.
12. Convite ao contraditório e contributos
- Memórias e fotografias dos primeiros treinos no Parque das Nações (2008) e na Serra de Sintra (2011).
- A data exata de registo do clube e o número de NIPC.
- Correções às datas e números das épocas ATRP e do Trail Camp.
- Histórias de membros que começaram a correr — na estrada ou no trail — por causa do clube.
Correções e memórias são bem-vindas nos comentários abaixo.
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