RUN 4 FUN: o clube amador como infraestrutura social do trail

Da fundação na estrada, no Parque das Nações, à abertura aos trilhos de Sintra: a história completa do RUN 4 FUN como clube social de corrida —

A história completa do RUN 4 FUN, clube amador urbano de corrida: da estrada (2008) ao trail (2011), multidesportivo, com direção eleita e registo como associação. Faz 18 anos em 2026.

Trail Camp RUN 4 FUN
Imagem de abertura: RUN 4 FUN Trail Camp, a partir de arquivo do blogue dorsal1967.
Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 42

RUN 4 FUN: o clube amador como infraestrutura social do trail

Da estrada aos trilhos, da maratona à caminhada: a história de um clube urbano onde ninguém é profissional — e onde isso é precisamente o ponto.

Portugal 2007–2026 Dossiê 42 · Série de aprofundamento Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Rascunho em desenvolvimento, enriquecido com documentos internos do clube. Âmbito alargado ao clube multidesportivo completo — estrada, trail, caminhada e convívio. Várias secções continuam marcadas como lacunas. Confiança B para fontes institucionais do clube; A para documentos internos verificados; A* para posts do autor, com proximidade declarada. Alvo de publicação: 18.º aniversário, Julho de 2026.
2 Jul 2008
Fundação
na estrada
16 Jan 2011
Abertura
Serra de Sintra
18
Anos
em 2026
42
Atletas
inscritos 2023
73
Provas
em 2023
Série · História do Trail Running em Portugal Este post integra a série de aprofundamento que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal: Uma História de Montanha, Resistência e Comunidade». Funciona como complemento ao Dossiê 09 — Clubes de Trail, onde o RUN 4 FUN aparece como exemplo de grupo urbano que deu massa crítica e identidade social à modalidade.

O RUN 4 FUN é o exemplo acabado da segunda vaga de clubes de corrida portugueses: não nasce da montanha nem do atletismo federado, mas da vida urbana. Começa na estrada, abre-se ao trail e cresce como um clube social de corrida com várias vertentes — estrada, trail, caminhada e, sobretudo, convívio —, gerido por uma direção eleita de voluntários. Em Julho de 2026 faz 18 anos.

Nota de âmbito Este dossiê integra a série sobre trail, mas retrata o clube por inteiro: a vertente de trail é central, não exclusiva. O RUN 4 FUN manteve sempre a corrida de estrada e adicionou caminhada, convívio e ação solidária — e é essa abrangência que o torna «infraestrutura social».

Declaração de interesses

Quem escreve este texto, e a partir de onde

Quem escreve este dossiê é membro do RUN 4 FUN — no clube desde cerca de 2009, com perfil publicado pelo próprio blogue do autor como "Atleta RUN 4 FUN em destaque" em Janeiro de 2025 [R249] e membro da Direção de 2023 [R252]. Parte da documentação aqui usada são documentos internos do próprio clube, a que o autor tem acesso como dirigente.

A regra editorial é simples: tudo o que for elogio deve vir de fonte externa ou de dados verificáveis; tudo o que for número deve ter fonte citada; as memórias pessoais do autor ficam identificadas como tal; e não se publicam dados internos sensíveis — saldos de conta, movimentos financeiros, credenciais ou listas de contactos —, apenas factos já públicos ou agregados não sensíveis. A composição dos órgãos sociais (direções e sócios fundadores) é publicada por se tratar de cargos de governança, como a série já faz para a ATRP (dossiê 43).

1. A corrida de Dezembro de 2007

Segundo a página institucional do clube, João Ralha e Paulo Gonçalves Marcos conheceram-se numa corrida em Dezembro de 2007. Tinham em comum darem aulas em cursos de executivos numa faculdade de Gestão de Lisboa: um com perto de 50 anos e experiência de meias-maratonas, o outro com perto de 40 e pouca experiência de corrida, "mas ambos com vontade de evoluírem e com algum espírito competitivo, reconhecendo a necessidade de, juntos, poderem conseguir mais do que sozinhos". [R244]

A singularidade desta fundação é quase programática: sendo ambos da área do Marketing, trataram o grupo como uma marca desde o primeiro dia — e publicaram o caso no livro Marketing Vencedor, da Bertrand Editores, em 2009. [R244]

Por fechar: obter o capítulo 3.2 de Marketing Vencedor para citação direta e entrevistar João Ralha e Paulo Gonçalves Marcos sobre a corrida de Dezembro de 2007.

2. 2 de Julho de 2008 — fundação e marca

O RUN 4 FUN foi fundado em 2 de Julho de 2008. A génese, contada pela própria Direção, tem data e lugar precisos: no 1.º dia do Optimus Alive de 2008 (02/07/2008), António Eusébio e Paulo Marcos treinam juntos pela primeira vez na Vela Latina — «nasce a ideia do Clube»; a 04/07/2008, João Ralha junta-se a Marcos num treino na Expo; Marcos propõe então a fusão dos grupos da Vela Latina e da Expo — e nasce o «Run 4 Fun – R4F». A primeira corrida conjunta identificada foi a prova de 10 km na lagoa de Santo André, em 19 de Julho de 2008. [R244][R260]

O blogue do clube começou em 25 de Setembro de 2008 e a corrida inaugural oficial foi a Mini da Vasco da Gama, em 28 de Setembro de 2008. O núcleo fundador é descrito pela própria fonte como composto por professores universitários, quadros superiores, profissionais liberais e empresários — "pioneiros e evangelizadores iniciais" que ajudavam a desmistificar "a ideia de que correr era para jovens ou para quenianos". [R244]

Importa fixar desde já um ponto: o clube nasceu como clube de estrada. O trail só chegaria em 2011 (secção 4) e, mesmo então, sem nunca substituir a corrida de asfalto — apenas acrescentando-lhe uma segunda linguagem.

3. Os três núcleos: Expo, Garça e Paz

A geografia do RUN 4 FUN é parte da sua identidade. Não nasceu na montanha, mas como comunidade urbana de corrida, espalhada por núcleos com vida própria nas duas margens do Tejo — cada um com o seu calendário, o seu carácter e os seus treinos baptizados. Hoje são três. [R245][R263]

Núcleo da Expo (Parque das Nações) — o berço do clube. É aqui, a par da Vela Latina, que o R4F nasce em 2008, e é o núcleo de matriz mais urbana e de estrada: o «Treino dos Heróis do Mar» ao domingo de manhã e o madrugador «Treino da Almofada e do Despertador» a meio da semana. Foi durante anos o maior núcleo (cerca de 30 atletas activos em 2018). [R261][R263]

Núcleo da Garça (Monsanto) — o mais ligado ao trail e à natureza: o «Monsanting» às terças, no Centro de Interpretação de Monsanto, e o «Treino da Garça»; é também a base do Treino dos Trilhos mensal co-organizado em Monsanto (secção 8). [R252][R263]

Núcleo da Paz (Almada) — o mais novo e o de crescimento mais rápido. Nasce na margem sul a 31 de Janeiro de 2017, quando a Direção decidiu levar os treinos a outras zonas e Fernando Rosete — «o pai da criança» — aceitou criar e dinamizar o «Treino da Paz», no Parque da Paz. Foi o grande impulsionador do núcleo: atraiu muitos atletas para o clube e foi sempre uma forte força organizativa. Cresceu depressa (cerca de 10 atletas no início de 2018, perto de 30 em 2020, com crescimento «a dois dígitos») e é o mais completo em vertentes — corrida no «Treino da Paz» e no «Treino da Lota», caminhada na «Caminhada da Paz» (dinamizada por Carmen Ferreira desde 2019) e madrugadas no «Treino Donos do Farol». Todos os anos saem dali novos estreantes na maratona, e a integração de novos membros, pela mão de um «padrinho», é uma marca da Paz. [R275][R261][R252]

A relação entre a identidade de cada núcleo e a do clube como um todo foi, ela própria, tema de debate interno da Direção — sinal de um colectivo grande o suficiente para ter geografia, mas que faz questão de continuar a ser «um só RUN 4 FUN». A passagem aos trilhos, recorde-se, não substituiu a estrada: somou-se-lhe.

A camisola viaja: uma pequena diáspora

A geografia do clube não cabe só nas duas margens do Tejo, e chega lá por dois caminhos. O primeiro é o contágio à distância: pessoas que já viviam longe e apanham o espírito do grupo. O sinal mais antigo está documentado — em Agosto de 2010, o blogue anunciava, com o humor do costume, um «Núcleo RUN 4 FUN de Seattle», formado por familiares de um sócio que há muito viviam na cidade norte-americana e que, mesmo a um oceano de distância, passaram a «participar em corridas de estrada e de trilhos pelas terras do Tio Sam». [R272] O segundo caminho é a emigração de membros: quem já corria de laranja e leva o clube consigo ao mudar de país — como Gonçalo Lopes, que se mudou para a Suíça.

Membros pelo mundo: 🇦🇴 Angola 🇲🇿 Moçambique 🇨🇭 Suíça 🇮🇹 Itália 🇺🇸 Seattle

Hoje, o clube conta membros espalhados por vários continentes, que se mantêm ligados ao grupo à distância. É a prova de que, num clube cuja função primeira é social, o vínculo não depende do código postal.

Nota de fonte: a lista de destinos baseia-se no conhecimento do próprio clube; apenas o núcleo de Seattle (2010) está documentado em fonte pública. [R272]

4. 16 de Janeiro de 2011 — Sintra e a abertura ao trail

O testemunho documentado mais direto da abertura do clube ao trail está num comentário publicado em Fevereiro de 2012 no blogue dorsal1967:

"Lembro-me bem do nosso 1º treino na Serra de Sintra no dia 16 de Janeiro de 2011, dia de muito frio, mas com mais de 30 bravos representantes dos R4F."

— Zé Carlos Santos, comentário em dorsal1967, Fevereiro de 2012 [R251]

Um grupo de corrida de estrada com dois anos e meio de existência levou mais de 30 membros a um treino de serra num domingo de Janeiro. A partir daí, o trail deixou de ser atividade marginal do clube. Esta data faz do RUN 4 FUN um caso relevante para a fase de crescimento de 2010–2013, quando o trail português se expandiu para lá dos núcleos fundadores do Norte e das primeiras grandes provas. [R230][R251]

Uma simetria notável O comentador não é um qualquer: «Zé Carlos Santos» é José Carlos Santos — que, poucos meses depois, em Setembro de 2012, seria o primeiro presidente da Associação de Trail Running de Portugal (ATRP), da direção fundadora, e mais tarde cofundador e diretor executivo da ITRA (ver Dossiê 19). O registo escrito do primeiro treino de trail de um clube urbano de estrada ficou a dever-se a quem, meia dúzia de meses depois, presidiria à instituição que viria a organizar a modalidade no país. A abertura do RUN 4 FUN aos trilhos e a institucionalização nacional do trail cruzam-se na mesma pessoa. [R251]

Mas o trail não chegou ao clube de surpresa — chegou primeiro pelos pés de alguns membros, a título individual. Antes do treino coletivo de Sintra já havia quem corresse trilhos por conta própria. O autor deste dossiê fez as suas duas primeiras provas de trail — que foram logo duas ultras — em 2010, ainda antes da abertura formal do clube: a III Ultra Geira / Via Nova Romana (50 km, Maio de 2010) e, um mês depois, a V Ultra Trail da Serra da Freita (70 km, 14h47m, +4200 m), ambas com Luís Freitas — num tempo «pré-histórico» em que «as provas tinham cerca de uma centena de participantes (…) e era possível inscrevermo-nos praticamente de véspera». A data de 16 de Janeiro de 2011 marca, por isso, menos uma descoberta do que a passagem do trilho individual ao hábito coletivo. [R281] (Que tenha sido o primeiro atleta do clube a completar um ultra trail é recordação do autor, por confirmar nas classificações arquivadas em joaolima.net.)

E o coletivo escalou depressa. Pouco mais de um ano após o primeiro treino de Sintra, o clube já tinha um representante numa ultra de montanha de primeira linha: em Março de 2012, Paulo Jorge Rodrigues terminou a Transgrancanaria (123 km, +11.000 m) em 22h45, na metade da frente da classificação. No mesmo texto, João Ralha — fundador — anunciava a intenção de o ver no UTMB «lá para os finais de Agosto». [R279] (A concretização do UTMB fica por verificar.)

Por confirmar: quem propôs o treino em Sintra e como esse primeiro treino se transformou em calendário regular de trilhos (a identidade do comentador está resolvida — ver acima).

5. A equipa ATRP: de 18 atletas a cinco circuitos

2018/2019 — a primeira equipa

Na época 2018/2019, o RUN 4 FUN constituiu equipa para os Circuitos e Taça da ATRP com 18 atletas. O perfil é um retrato muito nítido do amadorismo veterano português: idade média de 50 anos, mediana de 51, 67% dos atletas entre os 42 e os 58 anos, e dois membros — Jorge Esteves e Teodoro Trindade — na lista de portugueses com mais de 50 maratonas ou ultras. [R248]

Os resultados de estreia incluíram Teodoro Trindade em 2.º M55 no Ultra Trail de Sesimbra, Ana Melo em 1.ª F40 em Santa Maria, nos Açores, e a equipa feminina em 1.º lugar por equipas nos Trilhos de Bellas. [R248]

2023 — maturidade competitiva amadora

Em 2023, o clube apresentou 42 atletas inscritos, dos quais 37 participaram, num total de 73 provas. O desafio interno foi pontuar nos cinco Circuitos Nacionais da ATRP — Sprint, Trail, Ultra, Endurance e Endurance XL —, o que exigia persistência, coordenação e profundidade de equipa. [R247]

Os resultados coletivos foram expressivos: 3.º lugar geral no Endurance, 3.º no Endurance XL e 3.º no Trail feminino. A coordenação por circuito ficou distribuída por Ana Chocalheiro (Sprint), Rui Faria (Trail), Luís Afonso (Ultra), Teodoro Trindade (Endurance/XL) e João Antunes no backoffice. [R247]

6. De grupo informal a associação registada

A imagem de «grupo de amigos» não conta a história toda — mas também não é falsa. O RUN 4 FUN viveu boa parte da sua vida como coletivo informal e só se formalizou, como associação com personalidade jurídica, ao fim de muitos anos. Por palavras da própria Direção, em 2023: «ao longo dos anos o clube tem vindo a adquirir um carácter mais formal, o que torna inevitável a criação de uma estrutura mais organizada, com regras mais claras, e exige um esforço de gestão maior». [R252]

A formalização tem uma história concreta — e até um litígio. O trabalho de registar a marca «RUN 4 FUN» arrancou em 2017, na sequência de uma decisão judicial favorável ao clube contra uma equipa de Vouzela que usava o mesmo nome. Esse trabalho jurídico — registo da marca e acompanhamento do processo — ficou a dever-se à sócia Sandra Simões, advogada, que o fez pro bono. É um exemplo, entre muitos, de uma cultura que merece destaque no clube: a de membros que põem ao serviço da comunidade as competências da sua profissão, sem cobrar por isso. Até aí, o clube vivera sem personalidade jurídica — ao ponto de não poder ter conta bancária própria: as contas eram abertas em nome pessoal de dirigentes e passavam de mão em mão a cada mudança de direção. A regularização chega, finalmente, com a aprovação dos estatutos do «Clube de Praticantes de Corrida – RUN 4 FUN» (sigla R4F), em Lisboa, 23 de Fevereiro de 2021: o clube passa a ser uma entidade desportiva registada — um Clube de Praticantes, equiparado a pessoa coletiva, com NIPC. [R259][R256]

Os estatutos fixam, a preto e branco, o que este dossiê foi mostrando. O objeto do clube é «a promoção e organização da prática da modalidade de corrida de fundo e da corrida em trilhos (…) numa lógica essencialmente não competitiva e sem fins lucrativos» (Artigo 3.º) — o multidesporto e o amadorismo inscritos na própria lei do clube. E adotam «a cor laranja» como identidade (Artigo 4.º) — a mesma das «Orange Series» e das «provas laranja». A representação cabe a seis membros eleitos em Assembleia-Geral, por sufrágio direto e secreto, para mandatos de um ano. [R259]

E a governança é, hoje, plenamente democrática:

Eleições por sufrágio

As eleições fazem-se por voto online (plataforma Election Runner), com mesas de voto, anonimato garantido e voto antecipado para quem está em prova. A Direção de 2024 foi eleita a 25 de Novembro de 2023, sucedendo à Direção de 2023. [R257][R252]

A par disso, o clube mantém tesouraria própria (conta bancária e prestação de contas no almoço anual; os valores são internos e não se publicam), filiação na ATRP através de Teodoro Trindade, e três núcleos com vida e treinos próprios — Expo, Garça e Paz —, caracterizados na secção 3. [R252][R254][R263]

Por obter: o número de NIPC e a data de registo no RNCFD. A forma jurídica e a data dos estatutos estão fixadas (Clube de Praticantes de Corrida, 23/02/2021); o NIPC é informação pública, por ser entidade equiparada a pessoa coletiva.

7. O clube multidesportivo: a estrada primeiro, depois o trail

Convém corrigir uma impressão que o lugar deste dossiê na série de trail pode dar: o RUN 4 FUN é, antes de tudo, um clube de estrada. Nasceu no asfalto em 2008 e é no asfalto que está o grosso da sua atividade. O próprio arquivo do blogue do clube não deixa dúvidas: contabiliza mais de uma centena de relatos etiquetados «Maratona», perto de uma centena de «10 km» e dezenas de «Meia Maratona» — muito acima de qualquer categoria de trail. O trail (secções 4, 5 e 8) é uma vertente importante, mas acrescentada a um clube de corrida de estrada. [R262]

A maratona como projeto — desde a primeira época

A estrada do clube tem um objetivo fundador, repetido nas suas atas: «levar os membros a correr a Maratona». E é tão antigo quanto o clube. O primeiro a estrear-se foi Miguel San-Payo, sócio fundador, na Maratona de Lisboa de 7 de Dezembro de 2008, em mais de quatro horas. [R264]

Mas o verdadeiro batismo coletivo — o momento fundador desta vertente — veio na primavera seguinte: a Maratona Carlos Lopes, em Lisboa, a 10 de Maio de 2009. Alinharam sete atletas do RUN 4 FUN — João Ralha, Luísa Ralha, Paulo Marcos, António Cruz, Eduardo Correia, Miguel San-Payo e Carlos Santos (o «Caló») —, cinco deles a correr a primeira maratona da vida, com uma equipa de apoio (Miguel Correia, Paulo Curto de Sousa, Joana Mira Mendes, Vítor Lopes) e, junto à meta, os campeões olímpicos Rosa Mota e Carlos Lopes. O «Caló» corria-a como treino para um ultra de 101 km e «rebocou» Luísa Ralha do princípio ao fim. Está aqui, num só dia, a génese do lema do clube. [R265]

Anos depois, em 2013, o objetivo virou campanha — o clube levou 33 atletas a terminar a Maratona de Lisboa (e 25 a meia) e contava já com 70 maratonistas (63 homens, 7 mulheres) e 138 finalistas de meia-maratona —, com a convicção de que «qualquer pessoa pode fazer uma maratona», desde que haja objetivo, plano e consistência. É a tradução, na estrada, do mesmo espírito comunitário que move o clube. [R262]

Uma década depois, a ideia mantém-se viva e ganha mundo. O moderno Projeto Maratona, lançado em 2023, dá forma ao objetivo fundador: uma maratona internacional por ano, em grupo — «correr, viajar e conviver» —, com a organização a rodar pelos três núcleos (Carla Rebelo, Fernando Rosete e Luís Matos Ferreira).

Projeto Maratona · uma maratona internacional por ano
#1 · 2023
Atenas
11 Nov · ~22 do clube
#2 · 2024
Budapeste
13 Out · 50 participantes
#3 · 2025
Riga
17–18 Mai · 26 do grupo
#4 · 2026
Edimburgo
a etapa seguinte

O projeto premeia a fidelidade com medalhas escalonadas:

Explorador · 1 maratona Entusiasta · 2 maratonas Totalista · as 3 (Atenas'23 · Budapeste'24 · Riga'25)

E não falta a história pessoal: em Budapeste, Isabel Ucha foi a única estreante na maratona, depois de uma tentativa falhada em Atenas no ano anterior — a resiliência amadora feita medalha. Em Atenas, o convidado de honra da 40.ª edição fora Vanderlei Cordeiro de Lima. [R270][R271][R252]

A vertente de estrada mantém ainda a São Silvestre própria (na 6.ª edição em 2025) e a presença em provas de asfalto como a Corrida do Tejo (2021). [R252][R250][R262]

Em 2023, o clube constituiu mesmo uma «Equipa de Integração FPA e ATRP» — federação de atletismo (estrada/pista) e associação de trail —, jogando nos dois terrenos em simultâneo. A ligação à FPA, que viabiliza as inscrições federadas nas provas de estrada, foi montada por Francisco Machado. E, a par da corrida, há caminhada regular (a Caminhada da Paz, no núcleo de Almada) e em eventos (a Caminhada de São Martinho, aberta à população, no Trail Camp de 2022). [R252][R253]

A integração na FPA não foi, porém, pacífica. Em Março de 2025, a federação aprovou uma licença obrigatória (cerca de 3€) para quem participasse em provas pagas de estrada, trail e montanha com inscrição acima de 5€ — justificada com seguro desportivo, desenvolvimento da modalidade e redução de custos para os organizadores. A medida dividiu o mundo amador, e o RUN 4 FUN não ficou calado: no blogue do clube, Rui Faria (presidente da Direção de 2017) classificou-a como uma «taxinha estranha», anunciada de forma «aberrante» e reveladora de «falta de respeito» pelos atletas — penalizando sobretudo quem corre provas populares de 5€ e transferindo para os corredores uma responsabilidade que devia ser pública. [R274]

"É a lei do paga e não bufa."

— Rui Faria, no blogue do RUN 4 FUN, Março de 2025 [R274]

A polémica retrata a tensão de fundo desta história: um amadorismo de base que olha com desconfiança para cada novo degrau de institucionalização e de custo.

8. O clube como escola e como festa

Se há um traço que distingue o RUN 4 FUN, é a transformação de cada treino num evento com identidade própria — e de cada prova num pretexto para o convívio. A vida do clube faz-se menos de pódios e mais de uma rede densa de iniciativas.

RUN 4 FUN Trail Camp · Arganil, 11 a 13 de Novembro de 2022

Organizado pelo casal Ana Chocalheiro e João Antunes, o clube levou um grupo de atletas amadores à Serra do Açor para três dias de trail, formação e convívio, com o humor que o caracteriza — o programa apresentava os participantes como «os vários atletas de elite mundial» («sim, os vários atletas de elite mundial são vocês»). Convidou duas personalidades do trail ligadas a Arganil: Sofia Roquette, seis vezes vencedora do Campeonato Nacional de Trail Ultra Endurance, e David Gouveia, atleta da CMM-Escaravelhos Team e co-criador do Desafio Picos do Açor.

O programa cruzou trail exigente (≈30 km e ≈1900 m de desnível, com versão curta de ≈23 km), uma caminhada de São Martinho aberta à população, uma sessão de «Iniciação ao trail running», gastronomia regional e até canoagem/SUP — tudo regado pelos valores que o clube assume como seus: «amizade, companheirismo, união, partilha, conhecimento, paixão, recovery, descanso e natureza». [R253]

Correção factual A data correta do Trail Camp é 11–13 de Novembro de 2022, conforme o programa oficial, e não «17 de Novembro» como surgia numa fonte anterior — a reconciliar. O evento decorreu nas mesmas serras das Beiras onde, dez anos antes, o AXtrail organizara o primeiro trail camp documentado do país (Dossiê 09), mas aqui a «elite» eram os próprios sócios.

«The Orange Series»: o clube na pandemia (2020)

Quando a COVID-19 cancelou o calendário de provas em 2020, o RUN 4 FUN inventou um campeonato virtual: a cada fim de semana em que havia de haver uma prova real, era criado um evento em que os atletas «corriam» a distância correspondente em treino — registada via Strava ou enviada por foto — e quem a completasse era declarado finalista. As distâncias seguiam as categorias da ATRP (Longas, Ultras, Endurance) e quem cumprisse o campeonato entrava na «Hall of Fame» do clube. Sem classificação individual por tempo: o objetivo era manter a comunidade em movimento e ligada quando não se podia competir — o retrato perfeito de um clube cuja função primeira é social. [R255]

No ano seguinte, com as provas ainda suspensas, a inventividade não parou. Entre 8 e 28 de Fevereiro de 2021, nove equipas de cinco atletas disputaram o «Gamo-A-Ti: Quo Vadis A.C.», um campeonato de três semanas em que cada equipa somava os quilómetros treinados e registados no Strava. A graça estava na regra do «gamanço»: ao sábado, era possível roubar os quilómetros de um treino de um adversário e oferecê-los a uma terceira equipa — pura estratégia e troça entre formações de nomes como «Bonnies dos Trilhos», «Robin dos Bosques» ou a própria «Quo Vadis A.C.» (segunda classificada, com 1277 km em 21 dias). Organizado por Rui Faria, foi mais um exemplo de como o clube transformou o confinamento em jogo coletivo. [R276]

Treinos abertos, parcerias e «provas laranja»

A Trail Running Series 2023 propôs quatro treinos abertos em quatro serras — Lousã/Loures, Sintra, Arrábida e Venda do Pinheiro —, com a missão de «juntar todos os trailers num só treino em quatro zonas diferentes». [R246] Mensalmente, o clube co-organiza ainda o Treino dos Trilhos, em Monsanto, em parceria com o Portugal Running, as Tartarugas Solidárias e a Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica. [R256]

Os três núcleos também colaboram à vez. Ao longo de um mesmo ano, o clube realizou três edições do «Treino dos Treinos» — V1, V2 e V3 —, cada uma organizada por um dos núcleos (Expo, Garça e Paz), num rodízio que põe toda a gente a treinar no terreno dos outros: a tradução prática do lema «um só RUN 4 FUN». [R252]

O calendário está cheio de treinos com nome e mitologia próprios: o Treino do Fado, o dos Miradouros, o dos Elevadores, o do Aqueduto, o dos Moinhos Saloios, o das Francesinhas no Seixal, os «Animais Noturnos» (Javali, Coruja, Caracol). Há ainda a noção de «prova laranja» — provas escolhidas em que o maior número possível de atletas vai em conjunto, para correr, fazer de pace ou apoiar (a Corrida 25 de Abril, a Freita, Santa Cruz). No RUN 4 FUN, a geografia de Lisboa e arredores é percorrida como quem visita amigos. [R252][R256]

Convívios, solidariedade e comunidade

O almoço anual (11/02/2023), os Summits da ATRP (Summer Summit 01/07/2023, Grand Finale 04/11/2023), o treino do 15.º aniversário (15/07/2023) e o Treino Solidário a favor da Casa da Cidade (04/11/2023) mostram a outra função do clube: a de comunidade.

Celebrar as estreias uns dos outros

Há um género de post que se repete no blogue do clube desde o início: o relato da estreia — a primeira maratona, o primeiro trail, as primeiras 24 horas —, quase sempre escrito na primeira pessoa. O clube transforma cada uma delas numa celebração coletiva. Uma pequena galeria de estreias:

E há mais — de primeiras meias-maratonas a primeiros trilhos de montanha. Não há feito pequeno demais para ser partilhado, nem grande demais para deixar de ser de todos: no RUN 4 FUN, a conquista de um é festejada por todos. [R277]

O clube em números: crescimento, vertentes, idade e género

O RUN 4 FUN em números · infografia
18 anos em 2026
~211 membros (2023)
~50 idade média
80 no Strava (2020)
~1974 km/atleta (2020)
Atletas registados
141
184
211
2018
2020
2023
Novos atletas por ano (o boom de 2009–2013)
6
22
11
22
22
23
14
2
3
7
'08
'09
'10
'11
'12
'13
'14
'15
'16
'17
Maratonistas no clube (acumulado)
1
70
~80
2008
2013
2018
De um único maratonista (2008) a cerca de 80.
Equipa de trail (ATRP)
18
42
2018/19
2023
Os inscritos no trail mais do que duplicaram.
Distribuição etária (2018)
≤ 30
10
31–40
18
41–50
53
51–60
56
> 60
4
Três quartos dos activos entre os 40 e os 60.
Género (2022)
Mulheres 36,5%
Homens 63,5%
▲ de 26,7% em 2016
Volume no blogue, por etiqueta (n.º de posts)
Maratona
109
10 km
100
Meia maratona
74
Trail
64
Estrada   Trail — a estrada domina em volume; o trail é o que mais cresceu.
Fontes: documentos internos do clube (inquéritos e balanços 2016–2020) e arquivo do blogue [R247, R248, R260, R261, R262, R266, R267]; género de 2022 pela imprensa [R268]. Valores aproximados; a distribuição etária é de 2018 e os maratonistas de 2018 são uma estimativa (57% dos atletas).

Como cresceu. De um punhado de fundadores em 2008, o clube passou a cerca de 141 atletas registados (76 ativos) em 2018 e 184 em 2020; no fim de 2023, o grupo de atletas no Facebook reunia 211 membros (37% ativos por dia) e a página pública 2835 seguidores — «público maduro, maioritariamente do concelho de Lisboa», com 16 novos atletas só nesse ano. O ritmo de entrada foi mais forte nos anos do boom nacional do trail, 2011–2013 — em que o próprio blogue teve o seu pico de atividade —, com mais de vinte novos atletas por ano. [R261][R260][R252][R266]

As duas vertentes, em volume. O arquivo do blogue mede o centro de gravidade do clube: mais de uma centena de relatos de Maratona, perto de outra centena de 10 km e dezenas de Meia Maratona na estrada; e 64 posts de Trail, com sub-categorias próprias de Trail Ultra Endurance, Ultratrail e Corrida em Montanha. De zero trail antes de 2011, o clube chegou aos ultras — nacionais (Serra da Estrela, Arrábida, Gerês, Sicó) e internacionais (Andorra Ultra Trail) — e a uma equipa ATRP que passou de 18 atletas (2018/19) a 42 (2023). A estrada continua a ser a espinha dorsal; o trail, o ramo que mais cresceu. Um inquérito interno de 2016 fixava bem o contraste: quase todos os membros corriam estrada 2 a 3 vezes por semana, ao passo que o trail era sobretudo «de vez em quando» — e cerca de catorze nem sequer o praticavam. [R262][R266][R267]

Idade: um clube veterano, mas que se renova. A distribuição de idades de 2020 concentra-se claramente entre os 47 e os 61 anos (idade média ~50), com membros na casa dos 20 e dos 30 presentes, mas em minoria. A imprensa, em 2022, confirmava o retrato: idade média de 50 anos, do mais novo (24) ao mais velho (72). [R268] Não há, nos dados, um rejuvenescimento etário — há, isso sim, renovação: em 2020, perto de metade dos atletas tinha entrado no clube nos dois anos anteriores (forte vaga de novos membros em 2018–2019), sobre um núcleo de veteranos com 6 a 12 anos de casa. [R260][R261]

Género: a caminho da paridade. A aproximação à paridade é real e mensurável: as mulheres eram 26,7% dos membros em 2016 e já 36,5% em 2022 (76 mulheres em 208 atletas, segundo a imprensa especializada). É ainda mais nítida na governança — a Direção de 2023 teve cinco mulheres e um homem. [R267][R268][R258]

Na imprensa, e nas estantes. Em Março de 2022, a revista Pro Runners dedicou-lhe uma reportagem — «um grupo onde correr é divertido», «um clube que dá muita importância ao FUN e onde há muita entreajuda entre atletas». E o clube tem a sua própria bibliografia: além de servir de caso de estudo no livro de marketing Marketing Vencedor (Bertrand, 2009, da autoria dos fundadores), o RUN 4 FUN editou o seu próprio livroCorrer para o Bem-Estar: o Clube RUN 4 FUN (Edições Sílabo, 2018), 220 páginas a cores, coordenado por João Ralha com cerca de 50 contribuições de membros e amigos. Lançado a 8 de Julho de 2018, na festa do 10.º aniversário no Parque das Nações, traz prefácio de Helena Marujo e Miguel Pereira Lopes e está organizado, de forma reveladora, em torno das duas almas do clube: RUN (alimentação, preparação de provas, trilhos, maratona e ultra) e FUN (família, treinos e recovery, treinos temáticos e convívios). [R268][R269][R244]

Zona 3 — por quantificar: a distribuição etária e de género mais recente (2024–2025) não está publicada. Um eventual rejuvenescimento etário recente fica por confirmar — os dados disponíveis mostram renovação de membros, não idades mais baixas.

9. As pessoas

A própria lista de direções conta a história da formalização do clube. Nos primeiros anos, 2008–2013, a direção foi estável e quase familiar — o trio fundador António Eusébio, João Ralha e Paulo Marcos (Ralha e Marcos seriam os recordistas de presença, seis mandatos cada). A partir de 2015 instala-se a rotação anual de direções eleitas, com presidente identificado até 2019, e equipas que se renovam todos os anos. É a prova, ano a ano, de que o RUN 4 FUN deixou de ser «o grupo de uns amigos» para passar a governar-se por mandatos. [R258]

Os sócios fundadores

Os estatutos fixam como sócios fundadores os corredores integrados nas atividades do clube à data de 31 de Dezembro de 2008. São doze [R259]:

João Ralha · Paulo Marcos · António Eusébio · António Cruz · Eduardo Correia · Luísa Ralha · Manuela Cruz · Maria João Coutinho Rebelo · Miguel San-Payo · Miguel Correia · Paulo Curto de Sousa · Vítor Lopes

As direções (2008–2026)

Mandato Presidente Restantes elementos
2008–2013(trio fundador)António Eusébio · João Ralha · Paulo Marcos
2014(não consta na fonte)
2015Patrícia CaladoCésar Moreira · Jorge Esteves · Jorge Paulo · Margarida Gonçalves · Sandra Simões
2016Pedro MachadoAntónio Estrela · Cláudia Pargana · Gonçalo Lopes · Manuela Machado · Pedro Morgado
2017Rui FariaAlfredo Falcão · Fernando Rosete · Rúben António Costa · Rute Fernandes
2018Teodoro TrindadeCarla Rebelo · Gonçalo Melo · Paulo Raposo · Pedro Silva
2019Vítor AguilarAna Melo · Francisco Afonso · João Miranda · Jorge Paulo · Marina Marques
2020António Rego · Cármen Ferreira · Joana Soeiro · Luís Afonso Carvalho · Luís Matos Ferreira
2021Fernando Carvalhão · Francisco Machado · Gonçalo Melo · Jorge Duarte Pinheiro · Paula Carvalho · Rui Faria
2022Ana Tavares · Carmen Ferreira · João Silva Antunes · Paulo Raposo · Pedro Ribeiro · Sandra Simões
2023Ana Chocalheiro · Débora Almeida · Guida Monteiro · Luís Matos Ferreira · Rita Felizol · Rute Fernandes
2024Cândida Figueiredo · João Campos · Jorge Esteves · Luís Carvalho · Lara Machado · Orlando Ferreira
2025(por obter)
2026Ana Chocalheiro · Emanuel Silva · Hugo Fernandes · Inês Sepúlveda · Rita Vicente · Luís Afonso Carvalho

Fonte: documentação do clube [R258]; direções de 2023/2024 também em [R252]; Direção de 2026 (Lista B, eleita em Dezembro de 2025) em [R273]. 2014 e 2025 não constam na fonte; os presidentes só estão identificados de 2015 a 2019.

O que aí vem · Direção de 2026 A lista eleita para 2026 apresentou um programa de cinco eixos — «mais voz aos atletas», «calendário anual de eventos», «desafios internos regulares», «menos Facebook, mais Instagram & Strava» e «integração e identidade». Aos 18 anos, o clube continua a pensar-se e a renovar-se. [R273]

Retratos: o lado humano, com fonte

A série «Atleta em Destaque» do blogue — perto de meia centena de perfis — é a melhor janela para as pessoas do clube. Dois retratos dizem, cada um à sua maneira, algo que ultrapassa o RUN 4 FUN.

Manuela Cruz — ultramaratonista aos 62, de volta depois de partir a perna. Sócia fundadora e médica de Medicina Geral e Familiar, Manuela Cruz corria desde 2009 e, em 2018, aos 62 anos, ainda alinhava em mini-trails e ultras — a Caldas Ultra Trail nesse ano, o UTAT nos montes Atlas, em Marrocos, no Outono seguinte. Mas o episódio que melhor a retrata é uma desistência: no Trail Noturno da Lagoa de Óbidos, em Agosto de 2013, partiu o tornozelo, a tíbia e o perónio — «a única prova que não completei». O que conta é o que se seguiu: «vinham atrás de mim, quando caí, atletas R4F e um deles, o Pedro Pinto, trouxe-me às costas uma boa centena de metros, com o pé a baloiçar no ar, até à estrada». «Valeu esta demonstração de solidariedade», escreveu. É o clube social no seu estado mais cru — e, ao mesmo tempo, um retrato raro de mulher, veterana e ultramaratonista num desporto que ainda se imagina jovem e masculino (cf. dossiês 07 e 26). [R278]

Hugo Fernandes — «da necessidade ao gosto». Quando entrou no clube, em 2021, Hugo Fernandes resumiu em duas linhas um percurso que muitos corredores reconhecem: «Comecei por necessidade (112 kg com 15 anos…), fiquei por gosto.» A correr desde 2002, chegou já a apontar aos ultras — e descreveu o RUN 4 FUN como «uma espécie de família onde todos trabalhamos para o mesmo objetivo: superar-mo-nos». [R280]

Este capítulo ainda não deve ser fechado sem entrevistas e consentimento. Há ainda muitos nomes a ouvir e a creditar — veteranos, dinamizadores dos núcleos e convidados —, cujas histórias merecem espaço próprio.

Critério editorial A memória do autor pode entrar neste dossiê, mas apenas identificada como memória pessoal e sem substituir fontes documentais ou testemunhos de outros membros. As deliberações internas da Direção são usadas apenas para factos institucionais, sem atribuir opiniões privadas a membros nomeados.

10. Cronologia síntese

Data Marco Conf.
Dez 2007João Ralha e Paulo Gonçalves Marcos conhecem-se numa corridaB
2 Jul 2008Fundação do RUN 4 FUN, na estrada (Parque das Nações)B
19 Jul 2008Primeira corrida conjunta: 10 km na lagoa de Santo AndréB
28 Set 2008Corrida inaugural oficial: Mini da Vasco da GamaB
7 Dez 2008Primeira maratona de um membro: Miguel San-Payo na Maratona de Lisboa (mais de 4h)B
10 Mai 2009Maratona Carlos Lopes — batismo coletivo (7 atletas, 5 estreantes; Rosa Mota e Carlos Lopes na meta)B
2009Caso de fundação publicado em Marketing VencedorB
Mai 2010Primeira ultra de um membro do clube (III Ultra Geira / Via Nova Romana, 50 km), a título individual — antes da abertura coletiva ao trailA*
16 Jan 2011Primeiro treino de trail documentado na Serra de Sintra, com mais de 30 membrosB
Mar 2012Paulo Jorge Rodrigues termina a Transgrancanaria (123 km, +11.000 m)B
2013Campanha Maratona de Lisboa: 33 atletas terminam-na; clube com 70 maratonistas (63 H, 7 M)B
2014Primeiras estreias celebradas no blogue (Patrícia Calado, 1.ª maratona; Rui Faria, 1.º ultra no Sicó)B
2015Início da rotação anual de direções eleitas (1.ª direção eleita: Patrícia Calado)A
Jan 2016Inquérito interno «Convívio Run4Fun»: mulheres são 26,7% dos membrosB
31 Jan 2017Criação do «Treino da Paz» / núcleo de Almada, por Fernando RoseteB
2017Início do processo de registo da marca/clube (após decisão judicial favorável vs equipa de Vouzela)B
2018/2019Primeira equipa nos Circuitos e Taça ATRP: 18 atletas, idade média de 50 anosA*
2020«The Orange Series» (campeonato virtual na pandemia); processo de registo em cursoA/B
23 Fev 2021Aprovação dos estatutos — «Clube de Praticantes de Corrida – RUN 4 FUN»A
11–13 Nov 2022RUN 4 FUN Trail Camp (Serra do Açor, Arganil) — convidados Sofia Roquette e David GouveiaA
11 Nov 2023Projeto Maratona #1 — Maratona de Atenas (~22 do clube)A/B
2023Trail Running Series; pontuação nos cinco circuitos ATRP; 42 atletas, 73 provasA/B
25 Nov 2023Direção de 2024 eleita por voto online (Election Runner)A
13 Out 2024Projeto Maratona #2 — Maratona de Budapeste (50 participantes)A/B
17–18 Mai 2025Projeto Maratona #3 — Maratona de Riga (26 do grupo)A/B
Dez 2025Direção de 2026 eleita (Lista B): Ana Chocalheiro, Emanuel Silva, Hugo Fernandes, Inês Sepúlveda, Rita Vicente, Luís Afonso CarvalhoA/B
2026Projeto Maratona #4 — Maratona de Edimburgo (etapa seguinte)A/B
Jul 202618.º aniversário (alvo de publicação deste dossiê)B

Confiança B = fonte institucional do clube ou secundária; A = documento interno verificado; A* = fonte do autor com proximidade declarada.

11. Lacunas declaradas

  1. NIPC: forma jurídica e data fixadas (Clube de Praticantes de Corrida, estatutos de 23/02/2021); falta obter o número de NIPC e a data de registo no RNCFD.
  2. Reconciliação da data do Trail Camp: programa diz 11–13/11/2022; uma fonte anterior dizia 17/11/2022 — verificar.
  3. Épocas 2020–2022 (pandemia): parcialmente documentadas (Orange Series 2020, atas de Direção, eleições 2023); falta a narrativa completa de 2021–2022.
  4. Capítulo 3.2 de Marketing Vencedor: citação direta por obter.
  5. Treino de 16/01/2011: quem propôs Sintra e como se tornou calendário regular (a identidade do comentador está resolvida — é José Carlos Santos, 1.º presidente da ATRP; ver secção 4).
  6. Filiação MYATRP: perfil do sócio 6275 por extrair e arquivar.

12. Convite ao contraditório e contributos

Este post é uma versão em desenvolvimento. São especialmente úteis contributos sobre:
  • Memórias e fotografias dos primeiros treinos no Parque das Nações (2008) e na Serra de Sintra (2011).
  • A data exata de registo do clube e o número de NIPC.
  • Correções às datas e números das épocas ATRP e do Trail Camp.
  • Histórias de membros que começaram a correr — na estrada ou no trail — por causa do clube.

Correções e memórias são bem-vindas nos comentários abaixo.

Referências

[R230] Artigo-base da série — «Trail Running em Portugal: Uma História de Montanha, Resistência e Comunidade» (dorsal1967, Maio 2026). dorsal1967.blogspot.com Confiança A*.
[R244] RUN 4 FUN — «Clube RUN 4 FUN». run4f.blogspot.com/p/clube-run4fun.html Fundação, fundadores, primeiras corridas e livro Marketing Vencedor. Confiança B.
[R245] RUN 4 FUN — «Onde estamos». run4f.blogspot.com/p/main02.html Núcleos e Treino da Paz. Confiança B.
[R246] RUN 4 FUN — «Trail Running Series 2023». run4f.blogspot.com Quatro treinos abertos e organizadores. Confiança B.
[R247] RUN 4 FUN — «Trail/2023: ATRP - Desafios Concluídos». run4f.blogspot.com Época 2023 e Summits (data do Trail Camp a reconciliar). Confiança B.
[R248] dorsal1967, Agosto 2019 — «RUN 4 FUN nas Competições Nacionais de Trail da ATRP». dorsal1967.blogspot.com Proximidade declarada. Confiança A*.
[R249] dorsal1967, Janeiro 2025 — «Atleta RUN 4 FUN em destaque». Usado para a declaração de interesses. Confiança A*.
[R250] RUN 4 FUN — «Run 4 Fun na Corrida do Tejo 2021». run4f.blogspot.com Vertente de estrada mantida. Confiança B.
[R251] dorsal1967, Fevereiro 2012 — «II Ultra Trilhos dos Abutres» (comentário de Zé Carlos Santos). dorsal1967.blogspot.com Primeiro treino de trail em Sintra, 16/01/2011. Comentador identificado pelo autor como José Carlos Santos, 1.º presidente da ATRP (cf. Dossiê 19). Confiança B (identificação A).
[R252] RUN 4 FUN — Apresentação «Resumo 2023» (almoço anual, Jan 2024). Documento interno do clube (não publicado). Direções, núcleos, multidesporto, comunidade. Confiança A.
[R253] RUN 4 FUN — Apresentação «RUN 4 FUN Trail Camp» (programa, Nov 2022). Documento interno (não publicado). Trail Camp Arganil 11–13/11/2022; convidados; programa. Confiança A.
[R254] RUN 4 FUN — «R4F 2020 Tarefas». Documento interno (não publicado). Estrutura por tarefas; marca; filiação ATRP. Confiança B.
[R255] RUN 4 FUN — «The Orange Series» (regulamento do campeonato virtual, 2020). Documento interno (não publicado). Confiança A.
[R256] RUN 4 FUN — Documentos internos de Direção 2020 (notas e atas). Não publicado; usado só para factos institucionais (litígio e registo da marca, parceria Treino dos Trilhos, «prova laranja»). Confiança B.
[R257] RUN 4 FUN — Comunicação de eleições para a Direção 2024 (Election Runner, 25/11/2023). Documento interno (não publicado; credenciais não registadas). Confiança A.
[R258] RUN 4 FUN — «Direções passadas» (lista cronológica das direções, 2008–2023). Documento interno do clube. Arco da governança: trio fundador 2008–2013; rotação anual eleita desde 2015. Confiança A.
[R259] Estatutos do «Clube de Praticantes de Corrida – RUN 4 FUN» (aprovados em Lisboa, 23/02/2021). Documento estatutário. Forma jurídica; objeto (corrida de fundo + trilhos, não competitivo, sem fins lucrativos, Art. 3.º); cor laranja (Art. 4.º); seis representantes eleitos, mandato anual; lista nominal de 12 sócios fundadores em anexo (publicada na secção 9 enquanto órgão social; colunas de e-mail/validação não publicadas). Confiança A.
[R260] RUN 4 FUN — Apresentação da Direção 2020 (31/01/2020). Documento interno (não publicado). Génese (Vela Latina / Optimus Alive); descrição do clube 2020: 184 atletas (123 ativos); gráfico de idades (massa 47–61, média ~50) e de anos no clube (vaga de renovação 2018–19). Confiança B.
[R267] RUN 4 FUN — Apresentação «Convívio Run4Fun» (Jan 2016), inquérito interno. Documento interno (não publicado). Género 26,7% mulheres; participação: estrada 2–3×/semana (quase todos), trail «de vez em quando». Confiança B.
[R261] RUN 4 FUN — Encontro «Contas e Quantos somos?» (Jan 2018). Documento interno (não publicado). Demografia 2017/18 (141 registados, 76 ativos; média 49 anos; 57% maratonistas); núcleos Vela Latina/Expo/Almada. Confiança B.
[R262] RUN 4 FUN — blogue, arquivo por etiquetas (Maratona, 10 km, Meia Maratona, São Silvestre, Corrida do Tejo). run4f.blogspot.com Predomínio da estrada por volume; campanha Maratona de Lisboa 2013 (33 finishers, 70 maratonistas no clube); «qualquer pessoa pode fazer uma maratona». Confiança B.
[R263] RUN 4 FUN — «Treina Connosco». run4f.blogspot.com/p/main03.html Treinos regulares por núcleo (Expo, Garça, Paz; série Brutus de trail). Confiança B.
[R264] RUN 4 FUN — «O nosso maratonista» (8 Dez 2008). run4f.blogspot.com Primeira maratona de um membro: Miguel San-Payo na Maratona de Lisboa, 07/12/2008 (mais de 4h). Confiança B.
[R268] Pro Runners Magazine — «RUN 4 FUN: um grupo onde correr é divertido» (Márcia Dores, 17 Mar 2022). prorunners.pt Imprensa externa: 208 membros (76 mulheres, 132 homens); idade média 50 (24–72); três atletas com 50+ maratonas/ultras. Confiança B.
[R269] RUN 4 FUN — «O Livro do RUN 4 FUN» (9 Jul 2018). run4f.blogspot.com Livro Correr para o Bem-Estar: o Clube RUN 4 FUN (Edições Sílabo, 2018), 220 pp. a cores, coord. João Ralha, ~50 contribuições; prefácio de Helena Marujo e Miguel Pereira Lopes; posfácio de Mário Machado; estrutura RUN/FUN; lançado 8/7/2018 no 10.º aniversário. Confiança B.
[R270] RUN 4 FUN — «Projeto Maratona #1 — Maratona de Atenas» (19 Nov 2023). run4f.blogspot.com Atenas 11/11/2023 («Authentic», 40.ª ed.); ~22 do clube; objetivos do projeto; organização por núcleo; convidado Vanderlei Cordeiro de Lima. Confiança B.
[R271] RUN 4 FUN — «Projeto Maratona #2 — Maratona de Budapeste» (21 Out 2024). run4f.blogspot.com Budapeste 13/10/2024; 50 participantes (33 membros, 17 convidados), 22 na maratona; Isabel Ucha única estreante (após tentativa falhada em Atenas). Confiança B.
[R272] RUN 4 FUN — «Núcleo Run 4 Fun de Seattle» (12 Ago 2010). run4f.blogspot.com Diáspora do clube por contágio à distância: núcleo informal em Seattle (EUA), formado por familiares de um sócio já residentes na cidade. Confiança B. Restantes destinos (Angola, Moçambique, Suíça — caso de Gonçalo Lopes —, Itália) por conhecimento do clube (Zona 3).
[R273] RUN 4 FUN — «Lista B — Eleições 2026» (12 Dez 2025). run4f.blogspot.com Manifesto da Lista B (cabeça de lista Ana Chocalheiro) e composição da Direção de 2026 (nomes em imagem, fornecidos pelo autor). Confiança B.
[R274] Rui Faria — «Licença para correr em provas de…» (blogue RUN 4 FUN, 28 Mar 2025). run4f.blogspot.com Opinião crítica sobre a licença obrigatória da FPA (~3€) em provas pagas acima de 5€; «É a lei do paga e não bufa». Confiança B (opinião assinada).
[R275] RUN 4 FUN — «Parabéns pelo 5.º aniversário – Treino da Paz» (4 Fev 2022). run4f.blogspot.com Criação do «Treino da Paz» (núcleo de Almada) a 31/01/2017 por Fernando Rosete («o pai da criança»); crescimento e estreias anuais na maratona; Caminhada dinamizada por Carmen Ferreira (3.º aniversário em 26/01/2022). Confiança B.
[R276] RUN 4 FUN — «Gamo-A-Ti: Quo Vadis A.C.» (5 Mar 2021). run4f.blogspot.com Campeonato virtual por equipas (8–28/02/2021): 9 equipas de 5, km no Strava, regra do «gamanço» ao sábado; organização de Rui Faria; «Quo Vadis A.C.» 2.ª (1277 km). Confiança B.
[R277] RUN 4 FUN — relatos de estreias (género recorrente no blogue): «A minha primeira Maratona» (Luís Correia, Porto, 6 Nov 2011, 4h13 — run4f.blogspot.com); «O meu primeiro trail» (Nuno Sentieiro Marques, Mafra, Mar 2012 — Mafra 2012); 1.ª maratona de Joana Peralta (2012); 1.ª maratona de Patrícia Calado (Fev 2014); «O meu primeiro Ultra Trail» (Rui Faria, Sicó, Mar 2014); «24h a Correr — Mem Martins» (Teodoro Trindade, 2018, 149 km/71 voltas, 5.º geral — Mem Martins 2018). Celebração coletiva das estreias. Confiança B.
[R278] RUN 4 FUN — série «Atleta em Destaque» (run4f.blogspot.com); âncora: Manuela Cruz (Teodoro Trindade, 9 Ago 2018 — run4f.blogspot.com). Perfis individuais do clube (~50 posts; vaga de 2018, leque etário 31–62). Manuela Cruz: cofundadora, 62 anos, médica de MGF; ultras CUT/UTAT; fratura de tornozelo/tíbia/perónio no Trail Noturno da Lagoa de Óbidos (Ago 2013) e episódio de solidariedade (Pedro Pinto). Confiança B.
[R279] RUN 4 FUN — «Trail Transgrancanaria 123 km» (João Ralha, 22 Mar 2012). run4f.blogspot.com Paulo Jorge Rodrigues, 107.º/214, 22:45:36, +11.000 m; anúncio da intenção de UTMB «finais de Agosto» de 2012 (concretização por verificar). Fundadores como ultratrailers ~14 meses após Sintra. Confiança B.
[R280] RUN 4 FUN — «Novos Membros: Hugo Fernandes» (Luís Matos Ferreira, 25 Jan 2021). run4f.blogspot.com Superação: «Comecei por necessidade (112 kg com 15 anos…), fiquei por gosto»; corre desde 2002; aponta aos ultras. Confiança B.
[R281] dorsal1967 — «A minha primeira vez… que fiz uma Ultra» (3 Ago 2019). dorsal1967.blogspot.com As duas primeiras ultras/trails do autor: III Ultra Geira / Via Nova Romana (50 km, Maio 2010) e V Ultra Trail da Serra da Freita (70 km, 14h47m, Jun 2010), com Luís Freitas; trail «pré-histórico» (inscrição de véspera). Anterior à abertura coletiva de 2011; «1.º do clube» por confirmar (joaolima.net). Confiança A*.
[R266] RUN 4 FUN — índice do blogue. run4f.blogspot.com/p/indice.html Contagens por etiqueta (Trail 64; Ultra Endurance, Ultratrail, Corrida em Montanha); pico de atividade 2011–2013; trail internacional (Andorra Ultra Trail). Confiança B.
[R265] RUN 4 FUN — «Maratona Carlos Lopes: o final!» e «…nunca é tarde» (11 Mai 2009). run4f.blogspot.com Batismo coletivo na maratona, 10/05/2009: sete atletas (cinco estreantes), apoio, e os campeões olímpicos Rosa Mota e Carlos Lopes; Carlos Santos (o «Caló») em treino para ultra de 101 km. Confiança B.
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