Fora do Arco

Os governos foram sempre do PS ou do PSD. Mas o parlamento mudou: o PCP que encolheu, o PRD que durou dois anos, o Bloco que subiu e caiu, e o Chega, que em seis anos passou de um deputado a sessenta.
Em Trinta e Um Governos os protagonistas eram quem governou: o PS e o PSD, às vezes com o CDS. Mas a democracia portuguesa também se fez com quem nunca governou ou quase nunca governou: um Partido Comunista que chegou a ter quase um em cada cinco votos, um partido de protesto que apareceu e desapareceu em dois anos, uma esquerda nova que subiu até 10% e quase desapareceu, e, desde 2019, um partido de direita radical que em seis anos se tornou o segundo maior grupo parlamentar.
Este texto conta essa outra história. É o segundo de três complementos ao texto principal; o primeiro, Lá Fora, era sobre o mundo e a Europa, e o terceiro será sobre a contestação social. As percentagens são sempre dos votantes, contando brancos e nulos, que é a convenção da imprensa e do parlamento para a maior parte das eleições; os mapas oficiais mais recentes da Comissão Nacional de Eleições usam os votos válidos e dão valores umas décimas mais altos.[1]
O arco da governação
Durante quarenta anos falou-se em Portugal do arco da governação: o PS, o PSD e o CDS, os três partidos que aceitavam governar uns com os outros e que de facto governaram, sozinhos ou em coligação, todos os governos constitucionais até 2015, salvo os três de iniciativa presidencial de 1978 e 1979. Fora do arco ficava o PCP, que esteve nos governos provisórios e em nenhum governo depois deles.
Isso não fez do PCP um partido pequeno. Em 1979, coligado com o MDP/CDE na APU, teve 18,8% dos votos e 47 deputados, e em 1983 ainda 18,1%.[1] Em 1982 governava 55 câmaras, sobretudo no Alentejo e na península de Setúbal, onde a reforma agrária e a indústria pesada lhe tinham dado uma base social sólida, e dominava a CGTP, a maior central sindical.[2] A partir dos anos 80 começou um declínio lento e contínuo: 12% em 1987, entre 7% e 9% durante vinte anos, 4,3% em 2022 e 2,9% em 2025, o pior resultado da sua história.[1] Nas autárquicas de 2025 a CDU perdeu Évora e Setúbal e ficou com 12 câmaras.[3]
À direita, o CDS de Freitas do Amaral foi o único partido a votar contra a Constituição de 1976, e mesmo assim teve 16% nas primeiras legislativas. Governou com o PS em 1978 e com o PSD na Aliança Democrática de 1979 e 1980. A seguir passou por altos e baixos maiores do que qualquer outro partido: 12,6% em 1983, 4,4% e quatro deputados em 1987, quando lhe chamaram o partido do táxi porque cabia num.
O primeiro grande voto de protesto contra os partidos tradicionais veio em 1985. O Partido Renovador Democrático nasceu com o apoio do Presidente Ramalho Eanes, que prometia moralizar a política, e teve 17,9% e 45 deputados à primeira tentativa, tirando sobretudo votos ao PS.[1] Viabilizou o governo minoritário de Cavaco Silva e depois derrubou-o, com a moção de censura de abril de 1987. Nas eleições seguintes caiu para 4,9%; em 1991 teve 0,6% e desapareceu. A lição ficou para os partidos seguintes: o voto de protesto em Portugal podia ser grande, mas era volátil, e a primeira maioria absoluta de um só partido nasceu precisamente do colapso do partido de protesto.
Dois partidos, quase todos os votos
De 1987 a 2005, PS e PSD, com o CDS quando ia coligado, tiveram entre 72% e 80% dos votos em todas as eleições legislativas (Figura 1). Foi o período do bipartidarismo. O CDS, refeito por Manuel Monteiro e Paulo Portas como partido popular e mais eurocético, voltou aos 9% em 1995 e governou com o PSD em 2002 e em 2011, com o máximo de 11,7% nesse ano. O PCP manteve o seu eleitorado fiel e o seu poder local, mas sem crescer.
A novidade à esquerda chegou em 1999. O Bloco de Esquerda juntou três pequenos partidos da extrema-esquerda, a UDP, o PSR e a Política XXI, mas fez-se com uma agenda nova: a despenalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a descriminalização das drogas, os direitos dos imigrantes, e mais tarde a precariedade e a austeridade. Teve 2,4% e dois deputados na estreia, 9,8% em 2009 e o seu máximo, 10,2% e 19 deputados, em 2015, quando foi a terceira força política.[1]
O descontentamento que não cabia nestes partidos foi para outros lados. Houve pequenos partidos de protesto: o PSN, dos reformados, elegeu um deputado em 1991; o advogado Marinho e Pinto teve 7,2% e dois eurodeputados nas europeias de 2014, e no ano seguinte o seu novo partido teve 1,1%; o calceteiro Vitorino Silva, o Tino de Rans, teve 3,3% nas presidenciais de 2016.[4] Houve autarcas com processos na justiça que ganharam como independentes depois de os partidos lhes retirarem o apoio, como Isaltino Morais em Oeiras e Valentim Loureiro em Gondomar, em 2005 e outra vez em 2009, já depois de terem sido condenados em primeira instância.[5] Mas o destino principal do descontentamento foi a abstenção. A participação nas legislativas desceu de 83,5% em 1976 para 66% nos anos 90 e 55,8% em 2015 (Figura 2).[1] Muitos dos que estavam insatisfeitos não votavam noutro partido; não votavam, ou emigravam.
Uma nota sobre a figura: em 2019 a participação caiu para 48,6%, o valor mais baixo de sempre, mas parte dessa queda é ilusória. Desde 2018 os emigrantes com cartão de cidadão passaram a ser inscritos automaticamente nos cadernos eleitorais, e quase um milhão de pessoas que vivem fora do país passou a contar como abstencionista. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos estima que, com os emigrantes bem recenseados, a abstenção seria cerca de sete pontos mais baixa.[7] Entre os residentes em Portugal, a participação foi de 58% em 2022 e de 66,3% em 2024.[6]
O fim do arco
Em 2015 o arco da governação partiu-se pelo lado esquerdo. A coligação PSD/CDS ganhou as eleições sem maioria, e o PS formou governo com o apoio escrito do Bloco, do PCP e dos Verdes, que pela primeira vez viabilizavam um governo. Para os dois partidos à esquerda do PS foi uma aposta: ganhavam influência sobre os orçamentos, a reposição de salários e pensões, a subida do salário mínimo, e perdiam a posição de oposição pura que lhes dava os votos de protesto.
A aposta saiu cara. Em 2019 o Bloco manteve os 19 deputados e o PCP perdeu cinco. Em outubro de 2021 os dois votaram contra o Orçamento para 2022, o primeiro orçamento chumbado da democracia, e o Presidente dissolveu o parlamento. Nas eleições de janeiro de 2022 o PS teve maioria absoluta, e o Bloco e a CDU caíram para 4,4% e 4,3%; em 2025 tiveram 2% e 2,9%.[1] O eleitorado da geringonça foi, em boa parte, absorvido pelo PS ou desistiu.
Ao mesmo tempo, o parlamento fragmentou-se. Em 2019 entraram três partidos novos com um deputado cada, a Iniciativa Liberal, o Livre e o Chega, e o PAN, um partido ambientalista e dos direitos dos animais, passou de um para quatro deputados: dez partidos com assento, contando o PCP e os Verdes separadamente. Em 2022 o CDS, partido fundador da democracia, ficou pela primeira vez sem deputados, com 1,6%. Voltou em 2024, com dois deputados, dentro da Aliança Democrática.[1] A Iniciativa Liberal cresceu até nove deputados em 2025, e o seu candidato, João Cotrim de Figueiredo, teve 16% nas presidenciais de 2026. O Livre chegou aos seis.
Porque é que Portugal não tinha direita radical
Até 2019 Portugal era, com a Irlanda e por pouco tempo a Espanha, um dos poucos países da Europa ocidental sem um partido de direita radical no parlamento. Os politólogos tentaram explicar porquê, e as respostas mais citadas apontam menos para os eleitores do que para a oferta.
Mariana Mendes e James Dennison, num artigo de 2021, defendem que estes partidos só têm sucesso quando juntam três condições: conseguem fugir ao estigma do extremismo, aparecem num espaço vazio à direita e respondem a uma preocupação social que os outros partidos ignoram. Em Portugal, a memória da ditadura tornava o estigma forte, o PSD e o CDS ocupavam a direita e a imigração era, em comparação com o resto da Europa, um tema de pouca importância.[8] Alexandre Afonso acrescentou que os portugueses não eram menos hostis à imigração do que os outros europeus: o que faltava era um partido que explorasse essa hostilidade, e o descontentamento ia para a abstenção e para a emigração em vez de ir para o voto.[9] Elisabetta De Giorgi e José Santana-Pereira notaram que as atitudes populistas eram tão comuns em Portugal como no resto do sul da Europa, mas eram canalizadas pelo Bloco e pelo PCP, numa economia que recuperou depressa da troika.[10]
O contra-argumento mais forte é que Portugal nunca foi verdadeiramente uma exceção. Um número especial da revista Análise Social, de 2024, encontra momentos populistas ao longo de todo o século XX português, e a procura por um discurso deste tipo existia há muito; faltava apenas quem a ocupasse.[11] O PRD de 1985, o Marinho e Pinto de 2014 e os autarcas reeleitos contra os partidos são, nessa leitura, ensaios do que veio depois.
De um deputado a sessenta
André Ventura entrou na política nacional em julho de 2017, como candidato do PSD à Câmara de Loures. Numa entrevista ao jornal i disse que algumas pessoas, e referia-se em particular aos ciganos, "vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado". O CDS saiu da coligação em Loures; o PSD de Passos Coelho manteve o apoio, e Ventura foi eleito vereador.[12] Em 2018 saiu do PSD, e o Chega foi registado como partido pelo Tribunal Constitucional em abril de 2019. Nas legislativas desse ano teve 1,3% e elegeu Ventura em Lisboa.
O crescimento foi o mais rápido de qualquer partido novo desde o PRD, e ao contrário deste durou. Ventura teve 11,9% nas presidenciais de 2021, e o partido 399 659 votos e 12 deputados em 2022.[13] Em novembro de 2022 o Tribunal Constitucional recusou os estatutos do partido por concentrarem demasiado poder no líder.[14] Em março de 2024 o Chega teve 1 169 781 votos, 18,1%, e 50 deputados.[6] Nessas eleições votaram mais 912 mil pessoas do que em 2022, e o Chega ganhou mais 770 mil votos; os números são compatíveis com a ideia de que mobilizou antigos abstencionistas, mas não a provam, porque não há dados individuais sobre essas transferências. Em maio de 2025 teve 1 438 554 votos, 22,8%, e 60 deputados: ficou à frente do PS em lugares e atrás dele em votos, por 3992 votos.[1] Foi o partido mais votado nos distritos de Faro, Setúbal, Portalegre e Beja, em quase todo o país a sul do Tejo, e nos dois círculos da emigração.[15] Nas autárquicas de outubro de 2025 o resultado ficou abaixo das expectativas: 11,9% e três câmaras, Albufeira, Entroncamento e São Vicente, na Madeira.[3] Nas presidenciais de 2026 Ventura teve 23,5% na primeira volta e 33,2% na segunda, contra 66,8% de António José Seguro, com 1 737 950 votos.[16]
Os temas do partido são os da direita radical europeia, com um sotaque português: a imigração, a segurança e penas mais duras, a corrupção, os subsídios que considera abusivos, sobretudo o rendimento social de inserção e os ciganos, e uma revisão constitucional para reduzir o número de deputados e reforçar o Presidente. O Chega rejeita o rótulo de extrema-direita e apresenta-se como um partido de direita que diz o que os outros não dizem; a maior parte da literatura académica classifica-o como direita radical populista.[8][17]
Quem vota Chega? Os inquéritos do ICS e do ISCTE descrevem um eleitorado mais masculino do que a média, mais novo, com idade média de 43 anos em 2025 contra cerca de 60 no PS, com escolaridade sobretudo intermédia, com mais dificuldades financeiras do que os eleitores da AD, e não só de direita: em 2024, 16% situavam-se à esquerda.[18][19] A sondagem à boca das urnas da Universidade Católica, em 2025, pôs o Chega em primeiro lugar entre os eleitores dos 25 aos 44 anos e entre quem tem o ensino secundário completo, e estimou que 41% dos abstencionistas de 2024 que foram votar em 2025 escolheram o Chega.[20] Ao nível dos concelhos, Alexandre Afonso encontrou uma associação entre o voto em Ventura em 2021 e a proporção de beneficiários do rendimento social de inserção e a presença de comunidades ciganas, e não com o desemprego, o rendimento ou a proporção de imigrantes.[21]
Os outros partidos responderam de maneiras diferentes. O PSD dos Açores aceitou o apoio parlamentar do Chega em 2020 para formar governo regional; Luís Montenegro recusou fazê-lo a nível nacional, no "não é não". O PS acabou a viabilizar, com a sua abstenção, os orçamentos da AD, e o Chega votou várias vezes ao lado da esquerda, como no chumbo da reforma laboral de junho de 2026. Num barómetro da Intercampus feito entre 6 e 12 de outubro de 2026, com uma amostra pequena de 615 pessoas, PS, Chega e AD apareciam praticamente empatados, com 22,5%, 22,1% e 20%.[22]
Tarde, mas alto
Portugal chegou tarde à vaga de direita radical que atravessa a Europa desde os anos 2000, mas chegou alto. Os 22,8% do Chega em 2025 estão acima dos resultados mais recentes da AfD na Alemanha, dos Democratas Suecos, do PVV nos Países Baixos e do Vox em Espanha, e abaixo apenas da União Nacional em França e dos Irmãos de Itália, que governam em Roma (Figura 3).[23] Nas eleições suecas de setembro de 2026, segundo os resultados preliminares, os Democratas Suecos perderam votos pela primeira vez desde que entraram no parlamento, o que mostra que estas subidas não são irreversíveis.[24] O que estes partidos têm em comum é sobretudo a imigração como tema central. A forma como esse tema chegou a Portugal, com o número de estrangeiros residentes a quadruplicar em sete anos, está em The Arrivals.
Porque crescem os partidos de fora do sistema
A pergunta não é só portuguesa, e há uma literatura grande a tentar responder-lhe. Convém começar pelo que estes partidos têm em comum. O politólogo Cas Mudde definiu o populismo como uma ideologia "fina" que divide a sociedade em dois grupos, o povo puro e a elite corrupta, e que defende que a política deve exprimir a vontade do primeiro contra o segundo.[25] Essa ideia pode colar-se à direita, como no Chega, no Vox ou na União Nacional, ou à esquerda, como no Syriza grego ou no Podemos espanhol depois de 2008. O que a torna atrativa num dado momento é o que os estudos tentam medir. As explicações agrupam-se em cinco famílias, que não se excluem.
As crises económicas. Um estudo de Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch sobre vinte países e 140 anos de eleições concluiu que, depois de uma crise financeira grave, o voto na extrema-direita sobe em média cerca de um terço, os parlamentos fragmentam-se e as maiorias encolhem; depois de recessões sem crise financeira, o efeito é muito menor.[26] A austeridade também pesa: no Reino Unido, Thiemo Fetzer mostrou que as zonas mais afetadas pelos cortes nas prestações sociais depois de 2010 foram as que mais aumentaram o voto no UKIP e no Brexit.[27] E Yann Algan, Sergei Guriev e outros encontraram, nas regiões europeias, uma ligação entre a subida do desemprego na crise, a queda da confiança nas instituições e o voto em partidos antissistema.[28]
A globalização e os lugares deixados para trás. Italo Colantone e Piero Stanig mostraram que as regiões da Europa ocidental mais expostas à concorrência das importações chinesas se deslocaram para partidos nacionalistas e de direita radical.[29] Andrés Rodríguez-Pose chamou-lhe a vingança dos "lugares que não contam": regiões em declínio prolongado, com população a envelhecer e jovens a partir, que votam contra um sistema que sentem que as esqueceu.[30] O voto populista é muitas vezes mais uma questão de onde se vive do que de quanto se ganha.
A cultura e o estatuto. Pippa Norris e Ronald Inglehart defendem que o motor principal é uma reação cultural: eleitores mais velhos, menos escolarizados e mais religiosos sentem que os valores que eram maioritários, sobre a família, a nação ou a religião, deixaram de o ser, e votam em quem promete defendê-los.[31] Noam Gidron e Peter Hall juntam as duas coisas: o que pesa é a perda de estatuto social, a sensação de ter descido na hierarquia, sobretudo entre homens sem curso superior, que pode vir tanto da economia como da cultura.[32] A imigração cabe aqui. Na Dinamarca, a chegada de refugiados aumentou o voto anti-imigração nos concelhos rurais e diminuiu-o nos grandes centros urbanos, o que sugere que o efeito depende menos do número de imigrantes do que do contacto e do contexto.[33]
A confiança e a corrupção. Partidos que se apresentam como estando fora do sistema crescem quando o sistema perde crédito. Os escândalos de corrupção, a sensação de que os partidos tradicionais são iguais entre si e as crises políticas repetidas alimentam o voto de protesto, e não só à direita.
A oferta. Nada disto chega sem um partido e um líder capazes de o aproveitar, como mostraram Mendes e Dennison para Portugal e Espanha.[8] Os meios também contam: as redes sociais baixaram o custo de chegar aos eleitores sem passar pelos jornais e pelas televisões, e há evidência de que favorecem mensagens mais emotivas e polarizadoras.[34] Escrevi sobre isso em The Accelerant. Uma revisão de Guriev e Elias Papaioannou sobre toda esta literatura conclui que os fatores económicos e culturais se reforçam uns aos outros e que a oferta política decide quando e como se transformam em votos.[35]
E em Portugal? Aplicadas ao caso português, estas explicações encaixam umas melhor do que outras. A crise financeira e a austeridade de 2011 a 2014 foram duras, mas não trouxeram direita radical: o protesto foi para a abstenção, para o Bloco e para a emigração, que levou cerca de meio milhão de pessoas em quatro anos, contando as saídas temporárias, como contei em The Two-Thirds Country. A concorrência chinesa atingiu sobretudo os têxteis e o calçado do norte, mas o Chega é mais forte no sul. Os "lugares que não contam" encaixam melhor: o Alentejo envelhecido e despovoado, a península de Setúbal desindustrializada e antigo bastião do PCP, e o Algarve, onde o emprego depende do turismo e a habitação ficou fora do alcance de quem lá trabalha, são precisamente os distritos onde o Chega ficou em primeiro em 2025.[15]
Três coisas mudaram em Portugal entre 2015 e 2024, e coincidem com o crescimento do Chega. A imigração deixou de ser um tema de pouca importância: o número de estrangeiros residentes quadruplicou em sete anos e chegou a mais de 1,5 milhões no fim de 2024, muitos deles a trabalhar na agricultura do Alentejo e no turismo do Algarve.[36] A habitação tornou-se uma das maiores preocupações dos mais novos, e os eleitores do Chega são em média dos mais novos de todos os partidos, com mais dificuldades financeiras do que os da AD.[19] Neste ponto Portugal é o contrário do que a literatura costuma encontrar: em França e no Reino Unido o voto populista é maior onde as casas perderam valor, e em Portugal o descontentamento vem de onde subiram demais.[37] E a confiança nos partidos foi abalada por uma sequência de casos: a detenção de um ex-primeiro-ministro em 2014, a Operação Influencer em 2023 e a Spinumviva em 2025, estes dois últimos na origem da queda de dois governos, num período com três eleições antecipadas em quatro anos. A corrupção é, ao lado da imigração, o tema que o Chega mais repete.
O estudo de Alexandre Afonso sobre o voto em Ventura em 2021 junta a isto uma explicação mais incómoda: o voto era maior onde havia mais beneficiários do rendimento social de inserção e mais comunidades ciganas, e não onde havia mais desemprego ou mais imigrantes, o que aponta para o ressentimento contra quem se percebe como recebendo sem contribuir.[21] Esses dados são anteriores ao grande aumento da imigração dos anos seguintes, e o padrão pode ter mudado.
Há dois limites a ter presentes. O primeiro é que a maior parte destes estudos compara regiões, não pessoas: mostra onde se vota mais num partido, não porque é que cada eleitor o faz, e o perfil médio esconde muita diversidade. Em 2024, 16% dos eleitores do Chega situavam-se à esquerda.[18] O segundo é que as explicações económica e cultural continuam em disputa. Para quem dá mais peso à economia, a resposta está nos salários, na habitação e nos serviços públicos; para quem dá mais peso à cultura e à imigração, nenhuma política económica, por si só, vai mudar muito este voto. As duas leituras têm evidência a seu favor.
Presidentes e dissoluções
Num sistema com mais partidos, o Presidente da República pesa mais. Desde 1976 o parlamento foi dissolvido dez vezes: três por Ramalho Eanes, uma por Mário Soares, duas por Jorge Sampaio, uma por Cavaco Silva e três por Marcelo Rebelo de Sousa, todas estas entre 2021 e 2025.[38][39] Três dissoluções em quatro anos nunca tinham acontecido. As presidenciais de 2026 mostraram a mesma fragmentação: o candidato apoiado pelo PSD, Luís Marques Mendes, teve 11,3% e ficou em quinto lugar, atrás de Seguro, Ventura, Cotrim de Figueiredo e do almirante Gouveia e Melo.[16] Seguro, antigo líder do PS, tomou posse a 9 de março de 2026.
O que meio século de oposição mostra
O sistema absorveu quase todos os partidos novos. O PRD desapareceu em seis anos; o PSN, o partido de Marinho e Pinto e o de Tino de Rans nunca passaram de episódios; o Bloco, o PAN, o Livre e a Iniciativa Liberal entraram e ficaram, mas como partidos médios ou pequenos, que nunca ameaçaram o PS e o PSD. O Chega é o primeiro partido novo a disputar o primeiro lugar.
Os dois grandes perderam 25 pontos. Em 1991 PS e PSD tinham perto de 80% dos votos; em 2025 o PS e a AD tiveram, juntos, 55%. O que mudou não foi só o Chega: foi a soma do declínio do PCP e do Bloco, da fragmentação à direita e de uma geração de eleitores que nunca teve fidelidade partidária.
O protesto deixou de ir para a abstenção. Durante trinta anos os insatisfeitos portugueses ficavam em casa ou emigravam. Desde 2024 votam mais, e uma parte deles vota Chega. Para quem defende o partido, isso é a prova de que dá voz a quem não a tinha. Para quem o critica, é a prova de que o discurso contra os imigrantes, os ciganos e os subsídios mobiliza mais do que as propostas. As duas leituras assentam nos mesmos números.
O parlamento a três ainda não tem regras. O arco da governação foi substituído por três blocos de tamanho parecido, e nenhum deles aceita ainda governar com os outros dois. Os portugueses votaram três vezes em quatro anos. Se isso é uma fase de transição, como a dos anos 70 e 80, ou um novo normal, é a pergunta política mais importante da década, e a resposta não depende só do Chega.
Este texto foi escrito em colaboração com o Claude Opus 5.5 (Anthropic): especificação, direção editorial e revisão crítica humanas; pesquisa, verificação e redação pela máquina, com um agente dedicado a reunir e verificar os resultados eleitorais e a literatura. As figuras e a capa são geradas por scripts/fora_do_arco.py a partir de docs/legislativas-1975-2025.csv (contagens da CNE e do parlamento), com resultados em docs/fora-do-arco-results.json e figuras em docs/fora-do-arco-figures.html. As percentagens são dos votantes, incluindo brancos e nulos; nas coligações (AD em 1979, 1980, 2024 e 2025, PàF em 2015) o voto do CDS conta com o do PSD. A participação dos residentes exclui os dois círculos da emigração. Os dados sobre quem vota em cada partido vêm de inquéritos e de uma sondagem à boca das urnas, com margens de erro; as transferências de votos entre eleições são estimativas. Os resultados europeus da Figura 3 são os oficiais de cada país, compilados a partir de fontes secundárias, e o sueco de 2026 é preliminar. As designações dos partidos são as da literatura académica; os próprios partidos usam muitas vezes outras.
Autor: Luis Matos Ferreira — Physicist, Developer, Writer
- Trinta e Um Governos — os governos de Portugal desde 1974, um a um.
- Lá Fora — Portugal na Europa e no mundo, 1974–2026.
- The Arrivals — a imigração em Portugal.
- The Accelerant — as redes sociais como acelerador da política.
- Assembleia da República, resultados das eleições legislativas anteriores, 1976–2024, e mapas oficiais da Comissão Nacional de Eleições para 1975 e 2025.
- Resultados das eleições autárquicas de 1976 a 2025 (câmaras ganhas pela FEPU, APU e CDU), mapas da CNE compilados em fontes secundárias.
- “PSD passa a liderar poder local e Montenegro equipara-se a Cavaco Silva”, RTP, outubro de 2025.
- Resultados das europeias de 2014 (MPT, 7,15%), das legislativas de 2015 (PDR, 1,14%) e das presidenciais de 2016 (Vitorino Silva, 3,28%), CNE.
- “O regresso jurássico dos autarcas arguidos”, Observador, 1 de junho de 2017; “Cronologia dos principais acontecimentos do processo judicial de Isaltino”, Diário de Notícias.
- Comissão Nacional de Eleições, Mapa Oficial n.º 2-A/2024, resultados das eleições para a Assembleia da República de 10 de março de 2024; participação dos residentes calculada a partir deste mapa e do de 2022.
- J. Cancela, J. Santana-Pereira e S. Narciso, “Afinal, quantos se abstêm?”, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 30 de novembro de 2023.
- M. S. Mendes e J. Dennison, “Explaining the emergence of the radical right in Spain and Portugal: salience, stigma and supply”, West European Politics 44(4), 2021, pp. 752–775.
- “The end of Portuguese exceptionalism”, entrevista a Alexandre Afonso, Populism Observer, 10 de março de 2020.
- E. De Giorgi e J. Santana-Pereira, “The Exceptional Case of Post-Bailout Portugal: A Comparative Outlook”, South European Society and Politics 25(2), 2020; resumo no blogue EUROPP da LSE, 12 de fevereiro de 2021.
- “Portuguese populism: a special issue”, Populism Observer, 21 de outubro de 2024, sobre o número especial da Análise Social “Populism in Portugal: the end of exceptionalism?”.
- “CDS rompe coligação com PSD em Loures”, Diário de Notícias, 18 de julho de 2017.
- Comissão Nacional de Eleições, mapa oficial das presidenciais de 2021.
- “TC chumba estatutos do Chega e obriga partido a tirar poder a Ventura”, ECO, 11 de novembro de 2022.
- “Chega é o partido mais votado a sul do Tejo”, Sábado, 19 de maio de 2025.
- Comissão Nacional de Eleições, mapas oficiais da primeira volta e da segunda volta das presidenciais de 2026 (percentagens dos votos válidos).
- L. Heyne e L. Manucci, “A new Iberian exceptionalism? Comparing the populist radical right electorate in Portugal and Spain”, Political Research Exchange 3(1), 2021.
- ICS/ISCTE, sondagem de fevereiro de 2024.
- ICS/ISCTE, sondagem de abril e maio de 2025, relatório final.
- “Chega capitalizou abstenção; se só votassem mulheres, PS ficava segundo”, Público, 10 de julho de 2025; “Sondagem da Católica: reforço de votos no Chega veio sobretudo da abstenção”, RTP; ambos sobre a sondagem à boca das urnas do CESOP-Católica de 18 de maio de 2025.
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- “Barómetro NOW: Chega cola-se ao PS nas intenções de voto”, NOW, 14 de outubro de 2026 (Intercampus, 6 a 12 de outubro, 615 entrevistas, intenções diretas).
- Resultados oficiais das eleições legislativas de França (primeira volta, 30 de junho de 2024), Itália (Câmara, 25 de setembro de 2022), Alemanha (segundo voto, 23 de fevereiro de 2025), Países Baixos (29 de outubro de 2025) e Espanha (23 de julho de 2023), compilados a partir de fontes secundárias.
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