A investigação académica sobre o trail português: o que a ciência já sabe — e quem a faz
Post da série História do Trail Running em Portugal: a investigação académica sobre a modalidade — quem a estuda, o que a ciência já sabe (lesões, treino, psicologia, território) e as pontes entre academia e prática, da pós-graduação de Melgaço ao seleccionador nacional. Mapa por amostragem, lacunas declaradas.
A investigação académica: o que a ciência já sabe — e quem a faz
Sete em cada dez lesionam-se, a cabeça conta para o desempenho, e o seleccionador nacional saiu de uma pós-graduação de trail. O mapa da ciência portuguesa da modalidade — e as pontes com o terreno.
Existe um corpo real e crescente de ciência portuguesa sobre trail running — teses, artigos com revisão por pares, congressos —, concentrado em poucos pólos e dominado pelas ciências do desporto. A tese provisória deste dossiê dizia que a ligação à prática era fraca. A pesquisa complicou-a: as pontes existem e estão a institucionalizar-se — mas são canais estreitos. E a lacuna maior está noutro lado: a história da modalidade continua sem um único trabalho académico.
Quem escreve não é académico: é praticante desde 2010, cofundador da ATRP (direcção fundadora, 2012) e autor desta série amadora — que se assume como «roteiro de investigação» à espera de trabalho formal. A proximidade relevante é dupla: a ATRP é parte interessada em dois temas deste dossiê (a certificação de treinadores e a nomeação do seleccionador nacional, que apresentou à FPA); e o autor foi atleta treinado no ecossistema que aqui se cruza com a academia (beAPT/APT — Dossiê 28). Nada do que se afirma sobre os estudos depende dessa proximidade: as fontes são os próprios trabalhos, em repositórios públicos. [R230; R355.]
Contam: teses e dissertações em repositórios institucionais portugueses (RCAAP); artigos com revisão por pares cuja amostra, terreno ou afiliação principal sejam portugueses; comunicações em congressos científicos nas mesmas condições; e oferta formativa superior especificamente dirigida ao trail. Não contam artigos internacionais sem componente portuguesa, nem literatura técnica comercial. Colaborações internacionais com amostras portuguesas contam.
1) O mapa por disciplinas: o que se estuda
Lesões e epidemiologia — o fio mais grosso. Dois trabalhos-âncora. O primeiro é uma tese de doutoramento: «The Portuguese Trail Runner. Musculoskeletal Injuries. Morphologic, Physiologic and Neuromuscular Profile», de Joana Rosado (FADEUP, 2020) — o retrato científico mais completo do trail runner português: 72,7 % dos atletas estudados com lesões musculoesqueléticas, concentradas em tornozelos, pés e joelhos; IMC, volume semanal e treino em montanha como factores; ultra-trailers de nível nacional com menos massa gorda e melhor aptidão aeróbia do que os regionais. [R296.] O segundo é a coorte de 719 atletas (529 homens, 190 mulheres) estudada a partir da Escola Superior de Desporto e Lazer de Melgaço (IPVC), publicada em duas frentes: lesões, no Journal of Sports Medicine and Physical Fitness (2021), e tipologia de treino, na Motricidade. [R356; R76.] O mesmo grupo — em torno de Sérgio Matos e Bruno Silva — publicara na Frontiers in Physiology (2019) o estudo de carga de treino e bem-estar em 47 trail runners recreativos (média: mais de 35 km e 206 minutos de treino por semana). [R29.] E o canal continua activo: em Janeiro de 2024, a imprensa comunitária publicava a chamada de recrutamento de um novo estudo de lesões da mesma escola — a academia a pedir amostra à comunidade, nos sítios que a comunidade lê. [R361.]
Psicologia — motivação e robustez mental. Duas gerações, ambas com epicentro em Leiria. Em 2015, Coelho, Amaro, Matos, Dias e Morouço aplicaram a Sport Motivation Scale a 103 participantes de uma prova nacional. [R40.] Em 2023, Gameiro et al. publicaram na Perceptual and Motor Skills um estudo com 307 trail runners portugueses (20–66 anos; média ~42): a robustez mental associa-se à resiliência e esta ao desempenho, num modelo que explica 21 % da variância. [R357.]
Treino e fisiologia aplicada. Uma dissertação da FMH/ULisboa (2018) sobre planeamento de treino para uma ultramaratona de montanha (estudo de caso UTMB) [R43]; o estudo de Coimbra (ESTeSC + FCDEF-UC + CIDAF) sobre o perfil fisiológico por nível competitivo [R360]; e o trabalho da ULisboa sobre o perfil clínico de atletas veteranos de longas distâncias [R78]. O corpo do trail runner português está razoavelmente bem medido.
Território, turismo e sociologia — o fio mais fino. A dissertação da ESHTE (Santiago, 2016) trata o trail como produto turístico e traça o perfil sociológico dos praticantes — urbanos, de classe média, instruídos [R20]. O CICS.NOVA/UNL (Julião, Valente e Mendes, 2018) mapeou os espaços naturais e o trail, com um dado revelador: a actividade nem constava, então, dos planos de gestão das áreas protegidas — corria-se dentro delas antes de a administração dar por isso [R21]. Uma dissertação sobre eventos de pequena escala usou o Trail de Conímbriga como caso [R77]. É pouco — e não se encontrou nenhum trabalho de história ou de antropologia da modalidade.
2) O mapa institucional: quem estuda
| Pólo | Instituições | Linhas | Trabalhos-âncora |
|---|---|---|---|
| Melgaço / Viana do Castelo | ESDL-IPVC | Lesões, carga de treino, epidemiologia; formação | Coorte de 719; Frontiers 2019; pós-graduação de trail |
| Porto | FADEUP (U. Porto) | Perfil completo do atleta; lesões | Doutoramento «The Portuguese Trail Runner»; apresentação da beAPT (Dossiê 28) |
| Leiria | IPLeiria (ESECS/CDRSP) | Psicologia (motivação, robustez mental) | Coelho et al. 2015; Gameiro et al. 2023 |
| Lisboa | FMH-UL, ULisboa, ESHTE, CICS.NOVA/UNL | Treino (UTMB), veteranos, turismo, território | Dissertação UTMB; perfil clínico de veteranos; ESHTE 2016; espaços naturais 2018 |
| Coimbra | ESTeSC, FCDEF-UC, CIDAF | Fisiologia por nível competitivo | Perfil fisiológico nacional vs. regional |
Duas leituras. Primeira: a produção não está nas «grandes» universidades generalistas em bloco — está em escolas e faculdades de desporto e em politécnicos, com Melgaço (uma vila de fronteira com uma escola superior de desporto) como o pólo mais prolífico. A geografia da investigação repete, curiosamente, a geografia da modalidade: fora dos centros, perto do terreno. Segunda: o mapa está quase de certeza incompleto — a pesquisa não varreu sistematicamente UTAD, UBI, Évora, Madeira ou Açores, e o RCAAP indexa mais de vinte repositórios. Este quadro é um ponto de partida, não um censo.
3) O que a ciência já sabe: achados-síntese
Cruzando os estudos, o retrato científico do trail runner português é consistente entre amostras independentes — e coincide com o que os dados da própria série mostram por outras vias (as classificações do Dossiê 44, a base de sócios do Dossiê 42):
- Quem é: maioritariamente homem (73–80 % nas amostras), na casa dos 38–42 anos, urbano, instruído, de classe média. [R296; R356; R357; R20.]
- Como treina: dezenas de quilómetros por semana (média ~35 km nos recreativos estudados), com o treino em montanha como variável distintiva — e de risco. [R29; R76.]
- O que lhe acontece: cerca de sete em cada dez sofrem lesões musculoesqueléticas, sobretudo do joelho para baixo; o volume e o IMC pesam. [R296; R356.]
- O que o segura: robustez mental e resiliência têm associação mensurável com o desempenho — a ciência a confirmar o que a cultura das ultras sempre afirmou sobre a cabeça. [R357.]
- Onde corre: dentro de áreas protegidas que, à data dos estudos, ainda não o tinham inscrito nos instrumentos de gestão. [R21.]
4) A ligação à prática: três pontes documentadas
A tese provisória deste dossiê — academia e prática de costas voltadas — não sobreviveu intacta à pesquisa.
A formação: uma pós-graduação de trail numa escola de desporto. A ESDL-IPVC (Melgaço) criou uma pós-graduação em «Avaliação, Planeamento e Performance em Trail Running» — dois semestres, para licenciados em Ciências do Desporto e áreas afins, apresentada como pioneira em Portugal — além de um mestrado em Desporto de Natureza. [R358.] A modalidade que o Dossiê 28 descrevia como autodidacta na base tem hoje formação superior específica para os seus técnicos: é a institucionalização do conhecimento de treino, uma década depois de esse conhecimento viver em fóruns e em meia dúzia de treinadores de elite.
As pessoas: o seleccionador nacional saiu de lá. Armando Teixeira — o ultra-trailer que a série acompanha nos Dossiês 24 e 28 (vencedor do MIUT em 2012 e do Celestrail em 2017, 2.º na Ronda dels Cims em 2014, internacional no Mundial de 2016, colaborador da beAPT) — é ex-aluno da pós-graduação de trail do IPVC e foi nomeado seleccionador nacional de trail running a 29 de Novembro de 2024, apresentado pela ATRP à Federação Portuguesa de Atletismo. [R359.] O percurso fecha um circuito completo: atleta de elite → formação académica específica → cargo técnico máximo da modalidade. (A imprensa regional refere-o também como estudante de Treino Desportivo no ISMAI/IPMAIA — percursos formativos distintos e não contraditórios; fica registado.)
Os métodos: a plataforma de treino apresentada na faculdade. A beAPT — a plataforma do treinador Paulo Pires, tratada no Dossiê 28 — foi apresentada publicamente na FADEUP; o mesmo Paulo Pires defendeu, dentro da ATRP em 2015, a certificação de treinadores de trail; e já em 2013 as 1.ªs Jornadas Técnicas do Trail ofereciam formação técnica à comunidade na véspera de uma prova. [Dossiê 28.] A circulação entre ciência, treino e terreno existe há mais de uma década — o que não existe é escala.
O que a tese provisória acertava é no modo: estas pontes passam pela formação de técnicos, pelo alto rendimento e pela recolha de amostras — não pela leitura da ciência pela comunidade. O atleta comum continua a não ler as teses; mas o técnico que o treina, o seleccionador que escolhe a equipa e o fisioterapeuta que o trata têm hoje onde as ler — e, cada vez mais, saíram de cursos onde elas se ensinam.
5) O que falta investigar — visto deste lado
A lacuna mais gritante não está nas ciências do desporto — está nas humanidades. Não se encontrou um único trabalho académico de história do trail português: a cronologia das provas, a génese das instituições, as biografias, os conflitos federativos — tudo o que esta série tenta fazer artesanalmente — continua sem tratamento científico. O mesmo vale para a antropologia e a sociologia finas da modalidade (o voluntariado, os clubes como infraestrutura social, as classes no pelotão — Dossiês 08, 42, 34) e para a economia (o Dossiê 23 teve de reconstruir séries de preços a partir do Wayback Machine por não haver literatura). A série existe, em parte, porque este vazio existe: o artigo-base assume-se como «roteiro de investigação amador — preparação para um eventual estudo mais formal». Este dossiê é o convite explícito a que alguém o faça. [R230.]
Do lado dos investigadores, as lacunas declaradas nos estudos apontam noutra direcção — amostras maiores e longitudinais, mais mulheres nas amostras (as coortes são 73–80 % masculinas), medição directa em prova. As duas agendas quase não se tocam: mais uma razão para a conversa que se propõe a seguir.
6) Lacunas em aberto
- Censo sistemático do RCAAP — contagem por ano, instituição e disciplina; este mapa é por amostragem dirigida.
- Pólos por verificar — UTAD, UBI, Évora, Madeira, Açores e outras instituições não foram varridas.
- Cópias locais das páginas do IPVC (pós-graduação, mestrado, notícia do seleccionador) — o sítio devolveu erro de certificado; conteúdo confirmado por resultados de pesquisa, cópia por arquivar.
- Data da 1.ª edição da pós-graduação do IPVC — por fixar.
- Bibliometria (Web of Science/Scopus) — atrás de acesso institucional; por isso não se citam totais de produção.
- As vozes dos investigadores — nenhum foi ainda ouvido.
7) Próximo passo editorial
(i) Sérgio Matos e Bruno Silva (ESDL-IPVC, Melgaço) — o pólo mais produtivo: lesões, carga de treino, história da pós-graduação, relação com a comunidade que lhes fornece amostras; (ii) Joana Rosado (FADEUP) — o retrato completo do trail runner português e o que mudou desde 2020; (iii) autores de Leiria (Gameiro, Morouço e colegas) — a linha psicológica; (iv) Julião/CICS.NOVA — território e áreas protegidas; (v) departamentos de história/sociologia do desporto — para testar o interesse num tratamento científico da história da modalidade, com o arquivo desta série como matéria-prima. Contributos documentados entram como fonte primária (escala A), com consentimento e atribuição.
pesquisa-investigacao-academica-trail-2026-07.md (fontes encontradas, tentadas sem resultado e lacunas). O mapa é por amostragem dirigida — o censo sistemático do RCAAP continua assinalado como por fazer. Conforme a diretiva da série, os estudos citados são fontes secundárias preciosas, mas não substituem a historiografia primária da modalidade, que continua por escrever.
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